Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, dezembro 31, 2019

As cinquenta nuances de verde







No sábado, no bocado de tarde que estive in heaven, fiz fotografias que tinha vontade de partilhar convosco. Também tinha a ideia de vos contar como se estava lá tão bem e da pena que tive por não poder estar mais tempo. Mas depois, já nem me lembro porquê, não fui por aí.

Depois, no domingo, no bocado em que estive à beira mar, fiz várias fotografias e tinha ideia de aqui publicar uns quatro ou cinco postais. Só tive tempo para dois. 

Esta segunda-feira voltei ao trabalho. Tinha pensado que ia ser um dia calmo, que conseguiria sair cedo mas os dois dias de férias hoje pesaram-me. Não sou nem um bocado de manias de que sou insubstituível nem sou maníaca do trabalho. Acontece é que as circunstâncias, ou a minha maneira de ser, nem sei, fazem com que tenha, de facto, muito trabalho. Sou de delegar, delego bastante, mas o facto de trabalhar em mais do que uma empresa e em qualquer delas com funções executivas, acarreta responsabilidades e as responsabilidades traduzem-se, para mal dos meus pecados, em trabalho.


E o trânsito. Uma pessoa, mesmo sem querer, torna-se insensível ao que se passa com o carro dos outros. Julgando que ia fazer um percurso num quarto de hora, foi furiosa que passei por um carro empanado no meio da estrada. Uma carripana velha, provavelmente um sufoco para o dono do carro, provavelmente custos que vão ser difíceis de suportar e eu, sem querer saber disso para nada, simplesmente a querer passar para ver se chegava a horas ao meu destino. Ou quando estou mais de uma hora num pára-arranca desesperante, enervada por chegar atrasada, e passo por carros espatifados, carros de bombeiros, ambulância, polícia, e eu nem penso no que ali se passou, apenas me sinto aliviada por, a partir dali, já poder andar normalmente.

Anos de vida nisto. 

Bem. Adiante.

Quando cheguei a casa ainda fui ao supermercado comprar o que faltava para o almoço de Ano Novo cá em casa. E depois ainda fui fazer uma máquina de roupa.


E, a seguir, depois de me pôr confortável, fui-me àquilo para que me deu neste fim de ano: arrumações. 

No sábado, o meu filho disse-me que estavam a pensar ir fazer uma caminhada num trilho de montanha perto de nós, in heaven, para nós irmos com eles, depois almoçávamos e voltávamos lá. Em situação normal, eu diria logo que sim. Os miúdos adoram estar lá, in heaven, até o bebé está sempre a falar nisso e eu jamais diria que não. Mas, pela primeira vez, disse que não dava jeito, que tencionava estar na cidade em arrumações. À noite foi a minha filha a dizer que o irmão a tinha desafiado para irem para a praia de manhã cedo mas que ela de manhã não mas que, se calhar, à tarde sim, e nós que nos juntássemos. O prazer de estar com eles é sempre o que fala mais forte. Mas, uma vez mais, disse que não. É que dizer que sim tem sido a história da minha vida. Sempre eles antes de tudo, em primeiro lugar haja o que houver, e eu sempre disponível para estar com eles. Com o meu marido a mesma coisa: quando estamos juntos, os programas que arranjamos durante o dia são programas conjuntos. Por isso, arrumações profundas vão passando para a próxima vez -- mas para a próxima vez nunca há tempo. Mas desta vez qualquer coisa desceu em mim. Um ponto de honra. Tinha mesmo que ser. E eu quando me dá para arrumações destas é mesmo a sério. 


Por isso, hoje, de novo, foi até há pouco tempo. E ainda não acabei. Para fazer as coisas como eu queria, precisaria de mais uns dois ou três dias. Mas já não vai dar. Tenho que acabar amanhã e, ainda assim, amanhã vou ter um dia atarefado, pouco tempo me vai sobrar. Portanto, agora à noite dei no duro. No último dia do ano vou levantar-me cedo e tentar cobrir os mínimos que tenho em mente. Já fui duas vezes à loja dos chineses comprar caixas e cabides verticais. Amanhã vou ter que lá voltar para comprar uma com gavetinhas para guardar pulseiras. Os brincos e os anéis já estão organizados por cores. E as pulseiras também o serão. 

Muitos anos a trabalhar, muitos anos a querer estar bem arranjada todos os dias, muitos anos a juntar roupa e bijuteria que não se estraga, muita gente a oferecer echarpes... dá nisto: coisas a mais.


Acho que pela primeira vez na vida tenho um roupeiro para o qual dá gosto olhar. As gavetas têm os tops ou as echarpes todas dobradinhas ao alto, por cores. Nos cabides, num compartimento estão as blusas ou camisas de manga comprida, noutro as de manga curta. Noutro, as malhas, os casaquinhos leves. E tudo por cores. Os pretos, os azuis -- do mais escuro para o mais claro. Depois os verdes -- os profundos, os esmeralda, os vivos, os água, os secos, os floridos, os que tendem para os amarelos. Depois os amarelos. Depois os corais, os laranjas, os encarnados. Etc.

Um gosto de ver. Tudo à larguinha, tudo fácil de encontrar, tudo a respirar bem (concordo, Susana, é mesmo verdade: as coisas respiram melhor, parece que o ar da casa até fica mais fresco).


E, agora que já posso dar dois passos atrás e olhar, pasmo com aquilo de que, não sei como, nunca me tinha apercebido: a cor predominante é o verde. Muitos tons de verde, com predominância para o verde musgo dourado. Ainda este Natal, para além de uma preciosa caixa com diferentes flavours de chá, a minha filha me ofereceu um lindo casaco, num tecido macio como uma camurça aveludada, num lindo tom de verde. Disse-me: 'Achei que ficava bem com os teus olhos'. E fica.

Não sei se pela cor dos meus olhos ou se por eles gostarem de ver a cor verde, a verdade é que, olhando para o roupeiro, a mancha verde é a que se impõe.

Não há muito, ao ler o último livro da Ivone Mendes da Silva, A mulher do meio, li uma coisa que me deixou um bocado espantada. Não tenho aqui o livro comigo, está in heaven, pelo que não posso transcrever. Digo de cor, certamente não sendo fiel à letra escrita. Se bem me lembro, descrevia ela que a Agustina dizia que só as mulheres muito bonitas podiam usar verde, razão pela qual ela nunca tido coragem para vestir uma peça verde. E eu, embora não sabendo, na altura, que o verde era a minha cor dominante mas já certa de que reincidia frequentemente, fiquei a pensar que eu, que uso tanto o verde, na volta, estou a ser impudica, descarada, estulta, inconsciente.


Mas é uma cor linda, vibrande, cheia de vida, cheia de nuances e de profundidades, cheia de luz, cheia de mistérios.

E, para o ilustrar, acabei, afinal, por ir mesmo buscar algumas das fotografias que fiz no sábado. A luz dourada sobre os verdes é de tal forma sedutora, não é? Mas todos os verdes o são, mesmo o da tenra erva, mesmo o dos rebentos na ponta das hastes, mesmo o da indistinta mancha do arvoredo vista de longe. Há deuses verdes à solta nos campos, há deuses verdes que dançam em minha volta. Tão bom.


Espero ainda conseguir voltar antes do final do ano para formular os meus votos mas, para o caso de o não conseguir, vou já adiantando que desejo para os meus amigos que aí desse lado me acompanham o mesmo que desejo para mim e para os meus: tudo de bom. Saúde, sorte, alegria, afecto, desafogo, motivação, boas surpresas, beleza, harmonia, desafios dos bons, partilha, aprendizagem, sorrisos. Coisas boas.


Um dia feliz a todos.

quarta-feira, dezembro 18, 2019

Coisas simples, sem fio condutor




Sou urbana. Sempre vivi na cidade. 

As minhas avós viviam no mesmo bairro, em casas com quintais, e todos os vizinhos viviam em casas assim. Se eu brincava com outros miúdos, brincava nos quintais, praticamente como se estivesse no campo. Sempre me senti bicho de rua, galinha do campo, cabrita dos montes. Mesmo se o tempo não estava para arejamentos, eu gostava da rua. Ou da quase rua. Já contei muitas vezes que o avô do meu melhor amigo construíu uma pequena cabana no fundo do quintal e, por isso, passei muitas horas desses meu inocentes anos a conversar nessa cabana. Os meus pais também vivem num bairro de moradias e, portanto, também aí, eu brincava nos quintais, quer no da nossa casa quer no das amigas vizinhas. Ou com uma das minhas primas, mais nova que eu e que gostava de ser a minha médica e a médica das minhas bonecas. Claro que se tornou médica. Mesmo se chovia, havia (e há) alpendres, 'casinhas' em que nos abrigávamos. 

Entre as casas das minhas avós e as escolas, a infantil e a primária, havia uma encosta com ar campestre. Havia papoilas, estevas, mas também sardinheiras, malvas e couves que alguém lá plantara. Aí havia um carreiro pelo qual eu adorava descer a correr. Usava uma mala 'às costas' onde levava os livros e cadernos e cabelo comprido que usava solto ou em tranças e recordo com uma saudade feliz a sensação de correr desarvoradamente, como se fosse incapaz de parar, tanta a velocidade que adquiria, o cabelo a voar, a mala nas costas aos saltos, quase a despenhar-me. Muitas vezes caía mesmo. Ainda hoje tenho nos joelhos as marcas das muitas quedas que ali dei. Mas não me deixava intimidar. Correr, encosta abaixo, destravada, era dos prazeres a que, por essas alturas, não conseguia furtar-me. No regresso, já não subia a encosta pelo carreiro, vinha com os meus amigos pela estradinha. Mas a estradinha era ladeada por árvores e, para mim, era como se viesse pelo meio de uma floresta.


Talvez por ter guardado essas memórias tão boas, sempre tive vontade de ter uma casa no campo. Mas a vida de ambos era, e é, outra. Começámos por viver num estúdio no alto de uma altíssima torre no meio da cidade. Era um quarto com uma varanda e uma sala grande também com uma varanda. E uma casa de banho, claro. Era tão alta que as pessoas na rua, vistas lá de cima, pareciam formigas. Tinha uma vista espectacular. Depois mudámos para uma casa maior mas de onde não víamos o mundo a toda a volta. Sentia muita falta da vista. Depois os livros deixaram de caber e mudámos para esta que é bem maior, mais alta e com uma vista também belíssima. Pelo meio, depois de muito procurarmos, descobrimos aquela casa diferente no meio de um pedaço de terra coberta por pedras e mato rasteiro. E o prazer do campo, pedra a pedra, flor a flor, árvore a árvore, foi sendo cultivado até que hoje é o petit bois com que durante anos sonhei.

Mas, tal como o meu pai alvitrou ao ver aquele terreno pedregoso, dali não conseguimos tirar batatas. Há um ano, o meu filho apareceu lá com rede, estacas, espinafres, alfaces, cenouras, tomates, beterrabas, salsa, morangos. Tudo pequenino para plantar. Fez uma horta. Tudo nasceu. Comemos várias coisas de lá.

Mas a natureza devorou a horta. Não estamos lá durante a semana para tentar suster a sua força desabalada e, ao fim de semana, o tempo é curto. Tudo cresce sem freio, os mais fortes devoram os mais vulneráveis.


A minha vida inteira tem sido passada em ambiente empresarial, fechada em escritórios, em torres de marfim, assépticas, climatizadas, na cidade mais cidade, em filas de trânsito -- ou seja, longe da limpidez e dos perfumes e dos sons bons do campo. Saio de casa cedo, chego tarde, não me sobra tempo para nada, nem para ir procurar um jardim.
Hoje, à hora de almoço, num semáforo, porque não acelerei para passar antes de virar encarnado, um anormal ultrapassou-me a grande velocidade, já no encarnado, quase atropelando uma senhora na passadeira. Teve que parar, meio atravessado. A senhora pôs-se a protestar com ele e, então, o estúpido saíu do carro e veio na minha direcção a gesticular: 'Tás a olhar? Não passaste porquê?! Tavas à espera de què?! Tás a olhar? Tás a pedir é uma lambada nas trombas! Tás a olhar? Tás a pedir, tás, tás'. Eu estava a ouvir a Antena 2, tinha a janela aberta. Continuei absolutamente tranquila. Estava a olhar para ele pois, com aquele número ali à minha frente, seria impossível não olhar. Mas era como se não tivesse a ver comigo. Se me medissem as pulsações, de certeza que não se detectava alteração. Apenas quando ele avançou, ameaçador, é que pensei: 'Será que devo fechar a janela?'. Mas não fechei. Entretanto, ficou verde, os carros começaram a apitar e o estúpido meteu-se no carro e disparou, nos cascos. E eu prossegui, para mais uma reunião. Parece que já estou imune a estas coisas.

E, no entanto, quando tenho uns minutos para mim, o que gosto de me pôr a ver vídeos da vida no campo ou da vida tranquila...

Penso que gostava de me pôr a experimentar fazer compotas diferentes, frutos com especiarias, com licores. Depois penso que coisas doces já não estão com nada e que o melhor é que nunca me dê para isso. Mas gostava de tentar. Ou bombons com coisas boas lá dentro. Ou de, finalmente, aprender a costurar a sério. Também gostava de ter tempo para organizar papéis que estão um bocado ao monte, organizar as fotografias mais recentes. Ou escrever. Gostava tanto de ter tempo para escrever. 


Finalmente, consegui resolver a questão das fotografias e, apesar do dia tão recheado e das reuniões e de ter que andar sempre a correr, vim para casa descansada. Amanhã não poderei ir buscá-las pois a saga dos almoços natalícios continua. Mas o peso de chegar ao Natal e não ter fotografias para oferecer já não tenho. 

Para festejar esse alívo, mal acabei de jantar e me acomodei, o meu corpo desligou. Adormeci. Pouca dura mas boa. A seguir, pus-me a ver os vídeos que mais abaixo vos mostro.


Também andei à procura de informação sobre a permacultura. Pressinto que um dia o vou tentar.

Mas se é tema que me desperta mesmo interesse a verdade é que, estando eu à espera de informação objectiva, factual, pão pão queijo queijo, me impacienta um bocado ver aquelas pessoas muito alternativas, o cabelo como se não fosse lavado há anos, em rastas, e todos muito pendões, dentro de roupa demasiado larga e mal jeitosa, todos muito zen, muito fora, muita filosofia transcendental. Prefiro a ruralidade básica, os instintos primários, a pouca conversa. Quando a coisa vira religião, espírito de seita, quando a coisa vira moda, culto, matéria para formação com a malta sentada no chão, tudo muito peace and love, eu desligo, salto fora. Não é para mim.


Nunca me ocorreu sentir-me desenquadrada. Pelo contrário. Por exemplo, sinto um forte sentimento de pertença ao pedaço de terra a que aqui, no blog, chamo heaven. É como se tivesse nascido de lá e, muito naturalmente, quando um dia o meu corpo se diluir, me for misturar com aquelas árvores e musgos, e com o canto dos pássaros.  Sinto-me também muito bem nesta casa ampla onde agora estou, cheia de livros, e de cujas janelas vejo o rio. Tal como, quando estou a trabalhar, me sinto integrada: sou uma daquelas e daqueles que, quando vistos de fora, me parecem gente com que pouco tenho a ver. No entanto, quando lá estou, eu sou uma daquelas, sem tirar nem pôr. Quando saio de lá, sou outra, sou esta.

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E tenho estado a escrever e, agora que parei para escolher as fotografias (feitas in heaven, no sábado -- e, sim, o medronheiro está cheiinho de doces medronhos e, sim, ainda há cogumelos all over), percebo que isto está sem rei nem roque, uma coisa à toa, um texto sem ruas, sem direcções, tudo a eito. Na volta, não cheguei bem a acordar. Mas a esta hora (duas da manhã) já não dá para tentar compor. Espero que não fiquem almareados com tanta flutuação, assunto para aqui, frase para acolá.

Passo, portanto, aos vídeos que estive a ver de gosto. Espero que também gostem.



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Se o texto tiver um número anormal de gralhas, por favor relevem, está bem?
Mas, se encontrarem alguma cabeluda, por favor avisem-me, sim?

E a todos desejo uma bela quarta-feira.

terça-feira, dezembro 17, 2019

A coisa está complicada. É tudo o que posso dizer.




Passa da meia noite e hoje não estou mesmo com cabeça para coisa alguma. O dia foi o que foi e pode parecer mentira mas é o que é.

Pior. Fui à Fnac antes de vir para casa. No caminho aconteceu uma coisa habitual: a minha filha ligou. Mas eu, ao volante sozinha e ao telefone, imediatamente fico em piloto automático. Estacionei e fui para a Fnac. Sempre ao telefone. Um dos temas foi, de novo, dizer que é de loucos, isto, que não percebe, que isto é falta de método, que não faz qualquer sentido. E eu, de novo, que não posso estar mais de acordo mas mal passa este calvário nem mais de tal me lembro. E ela que é sempre a mesma coisa. Só quando entrei na loja é que me despedi.


Várias pessoas à minha frente e um único empregado na secção de fotografia. Explicou que não era muito entendido, que os colegas é que são, só que estão em casa -- e, pelo ar compungido, percebi que estariam doentes. Não sabia dizer qual o valor unitário, não sabia o prazo de entrega. Aconselhou a fazer impressão imediata. Quando lhe disse que eram mais de mil, disse que era melhor, então, não, que iam ser horas, que eu não poderia sair do pé da máquina, que o tinteiro poderia acabar. E tantas me disse que acabei por ter que aceitar que por ali não ia ter sorte. Saí.

Cheia de fome, comprei uma empada de galinha e, logo ali, me fui a ela. Resolvi, então, ir tentar a sorte na Worten. Encomenda para imprimir e ir buscar não aceitavam, só mesmo impressão imediata. Quando falei no número de impressões reagiu como o da Fnac, que o melhor seria dividir em pequenos lotes de cem. Mas que ia durar muito tempo, mais valia ir de manhã e ficar na loja em hora de maior expediente porque tinha que estar alguém para ir trocando os tinteiros enquanto à noite são menos, não poderia estar atento a isso pois tinha que atender na loja. 


Desanimada, fui para o carro. Sabia por onde tinha entrado mas mais do que isso não. Quando estou ao telefone nunca presto atenção ao lugar onde deixo o carro. Um desatino. Fui ao piso menos um. Andei às voltas. Não tinha ideia de onde tinha deixado a porcaria do carro, apenas que era no verde e mais ou menos por ali. Accionei o comando das luzes a ver se algum carro dava sinal. Nada. Desci mais um piso. Voltei a andar às voltas. Só dava graças por ter comido a empada. 

Finalmente, um carro piscou.

Quando cheguei a casa, apreensiva, o meu marido disse: é o que te digo, tens que reduzir o número de fotografias, passar das quinhentas para cem. Vencida, respondi: tratas tu disso

A seguir ao jantar, tarde e más horas, viemos os dois para aqui. Não foi fácil. Ao mesmo tempo estava a dar o resumo do futebol. Portanto, volta e meia a atenção dispersava-se. Mas, vá lá, ao fim de muito tempo, percorrendo cada uma das mais de quinhentas fotografias lá fomos desbastando, deixando para trás tantas fotografias em que os meninos estão tão lindos, em que estão todos tão engraçados. No fim, porque já era tarde demais e ele madruga, foi para o quarto. Contei: são agora não cem mas cento e noventa e seis. Estive, depois, a ver quantas de cada. Uma canseira. No fim estava exaurida. Resultado: seiscentas e poucas.


Não sei como resolver agora isto. Não tenho tempo para ficar horas ao lado da máquina. Amanhã tentarei de novo a Fnac a ver se está lá alguém que saiba dizer-me se as entregam a tempo se lá fizer a encomenda. Está bonito, isto.

Eu tenho uma impressora que até dá para fotografias. Foi o meu filho que, um ano, ma ofereceu na sequência desta problemática natalícia. Só que é lenta, vocacionada para gente moderada, não para gente sem limites como eu.  Fazer uma ou duas dúzias é tranquilo. Centenas é impossível, teria que tirar dois dias de férias e comprar um set de tinteiros para ficar aqui de plantão.

E isto também para que percebam como, aqui chegada ao blog, a uma hora destas e depois de pincéis deste calibre, já não tenho inspiração ou energia. Não me apetece falar do Orçamento de Estado até porque ainda não o conheço, das aparentes divergências entre Costa e Centeno (repito: aparentes), das lutas intestinas no PSD, da indigência política que vai ser um Reino Unido tendencialmente desagregado e fora da União Europeia, da cegueira face aos malefícios do actual estilo de vida (em todo o lado) que não sei bem a que é que vão conduzir. Não me apetece porque, para falar destas coisas, uma pessoa tem que ter um mínimo de disponibilidade mental e, a esta hora, de todo, a tenho. Há um tema que anda a incomodar-me e desse, sim, sinto-me mal por não falar dele: o ataque cerrado a Maria Flor Pedroso e a sua demissão. Imagino o que tudo isto lhe deve custar. Há injustiças que se devem sentir na carne como lanças traiçoeiras. Só que, para aqui falar do assunto deveria documentar-me melhor e, francamente, com o trabalho durante o dia que não me dá tréguas e com esta empreitada maluca das fotografias, não consigo. E não quero correr o risco de ser injusta para a Sandra Felgueiras. Para já, tenho para mim que a Sandra não deve saber que quem com ferros mata, com ferros morre. Mas, enfim, não posso aprofundar.


É como com os comentários: provavelmente não consigo manter-me acordada até lá. Peço a vossa compreensão. Leio todos, acreditem, agradeço-os e lamento se vos desiludo por não vos responder. Pode ser que amanhã já tenha isto resolvido e tenha a cabeça mais fresca. De vez em quando, em especial quando estou enlatada no trânsito (e se esta segunda-feira ele esteve jeitoso, acidentes por todo o lado) ocorre-me falar disto ou daquilo, contar mais ou menos a conversa com aquele millennial que só pensa em ter férias e que voltou a tresmalhar-se em relação à namorada, os olhos a quererem lacrimejar, ou da outra pessoa que perdeu um familiar próximo e a cujo velório fui no outro dia à noite e que, de uma forma triste e contida, esteve a falar comigo e eu a tentar encontrar as palavras certas e ele a tentar aguentar-se. Mas, depois, chego aqui e não consigo. Há temas que precisam de silêncio em volta. Outros que precisam do oposto. Mas todos precisam de entrega -- e eu agora só se me entregar ao Morfeu.


 As fotografias foram feitas in heaven e, como é bom ver, levaram um banho de cor. 

E, com isto, me despeço.

Uma boa terça-feira a todos. Be happy.

segunda-feira, dezembro 16, 2019

Como guardar uma imagem abstracta dentro de mim para que se não perca, para que um dia possa materializá-la?





Pensava que ainda ia conseguir escrever um outro post mas, afinal, não consigo. Também tinha pensado que este domingo ia conseguir pintar e não consegui. Tenho aqui a tela e espero que as tintas de que preciso também. Só não tenho tempo. 

Agora estive aqui a debater-me entre combater o cansaço e montar o estaminé para me pôr a pintar. Mas, se me ponho a pintar, vou até às muitas da manhã e isso eu não posso. Para além do mais, pintar sem a luz do dia não faz grande sentido. 

Tenho em mente uma imagem. É uma imagem vaga, umas formas abstractas, suspensas, uns tons leves e em transição. Gostava imenso de me ater a essa imagem, sustendo a sofreguidão dos meus dedos que só querem cores fortes, densas, texturas, carnalidades.

Vou ter que viver com esta ideia durante todos os dias desta semana pois só no próximo fim de semana poderei deixar as mãos em liberdade.

Entretanto vou ver se, até lá, consigo que não se esbatam aquelas formas informes que vejo dentro de mim, de um colorido elegante e suave, num movimento indefinido.
Há coisas assim, impossíveis, possíveis, voos etéreos como o bailado efémero das borboletas, como o canto invisível dos pássaros, como a teia eterna da saudade. Vou ver se consigo lembrar-me muitas vezes desta imagem tão secreta, que existe apenas dentro de mim, para que um dia destes tente transformá-la em realidade.

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Estas fotografias foram feitas este sábado, in heaven
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Desejo-vos uma bela semana a começar já nesta segunda-feira.

segunda-feira, dezembro 09, 2019

Breve crónica de um fim de semana
-- com a culinária respectiva e com fotografias em casa e na rua






Dois manos estão doentes, um com gripe e outro meio engripado -- espero bem que já na recta final mas, ainda assim, doentinhos, meus adorados meninos. Por isso, não deu para se juntarem aos primos, senão, às tantas, ainda ficavam todos 'agarrados'.

Assim sendo, o fim de semana foi vivido em separado. Fomos, pois, no sábado, jantar a casa da minha filha e, como sempre faço, resolvi levar o jantar. Faz parte da minha natureza, gosto de alimentar os outros. 

Por outro lado, o meu filho gostava de ir passar o domingo ao campo. Como só poderíamos ir no domingo, chegando quase ao mesmo tempo que eles, resolvi que havia de levar o almoço já adiantado.

No sábado de manhã fomos aos meus pais, de tarde ao supermercado.

Para me facilitar a vida, resolvi preparar uma base comum. Para casa da minha filha levaria um tabuleiro de arroz de carnes. Para o almoço de domingo faria rancho.


Preparação da mesma base para duas refeições distintas

Então, no sábado à tarde:
Num panelão com água e um pouco de sal coloquei duas cebolas grandes, cenouras, salsa e frango(s) do campo, carnes de porco (entrecosto, chispe, uma peça de costeletas).
Quase no fim das carnes estarem cozidas, juntei meio pacote de sopa juliana. Não apenas dá bom sabor como a componente dos legumes fica logo assegurada.
Ao fim de um bocadinho, desliguei. 
Arroz de carnes 
Entretanto, num tacho coloquei um fio de azeite, uma cebola grande picada e um bocadinho de salsa, umas cenouras cortadas aos quadradinhos pequenos, uns feijões verdes cortados às lasquinhas e um bocadinho de chouriço do Fundão cortado aos bocadinhos, para dar um toque de graça suplementar. Deixei frigir ao de leve até se perceber que estavam levemente cozinhados. Nessa altura juntei arroz basmati e o dobro da quantidade em caldo da cozedura das carnes.
Entretanto, retirei parte das carnes do panelão, desossei e juntei ao arroz. 
Enquanto isso, o forno estava a aquecer no máximo. Despejei, então, o conteúdo do tacho para um tabuleiro e, por cima, espalhei bacon aos bocadinhos. Foi ao forno, cuja temperatura baixei, até o bacon estar douradinho e a água do arroz toda evaporada.
E foi assim mesmo que o transportei. Coloquei uma folha de papel-alumínio por cima e enrolei num toalhão de banho. Quando o meu marido entrou na cozinha e viu aquilo ia-se passando. Mas o que é isto? Voltámos ao século passado? Dei-lhe razão e pedi que fosse buscar a manta térmica. Como não temos manta térmica, ficámos assim. Colocámos o embrulho atoalhado num sacalhão e, portanto, chegou lá bem quentinho.


Fomos recebidos com uma surpreendente pianada. A minha filha, que andava há tempos a dizer que estava com saudades do piano, voltou. Os meninos é que foram à porta e eu ouvi o som que vinha da sala. Pensei que estivessem a ouvir Chopin. Afinal era ela. Fiquei mesmo contente. Sempre gostei muito de a ouvir mesmo quando ela não estava certa de tocar bem. 

E o mais novo parece que também leva jeito. Senta-se ao lado da mãe e põe-se a tocar, a improvisar, e sai-lhe muito bem. Uma emoção.

Ao jantar, comemos o arroz de carnes com saladinha de alface. Disseram que estava bem bom. No final, sobrou outro tanto que, obviamente, ficou lá.
Quando regressámos a nossa casa -- ia a noite avançada --, ainda fui desossar o resto das carnes. Coloquei tudo, as carnes e o caldo numa big caixa, hermeticamente fechada. Entornar caldo no carro seria o fim da picada.

Rancho
Já no campo:
Lavei um repolho e cortei-o bem ripado, mais cenouras às rodelinhas, mais uma cebola aos bocadinhos -- tudo para dentro de um panelão. Juntei o caldo que chegou intacto, mais um bocado de água e mais um pouco de sal. Por cima, coloquei o resto do chouriço de carne, uma farinheira e uma morcela. Depois das couves estarem macias, juntei um pacote de cotovelinhos riscadinhos. Quando a massa estava cozinhada, juntei uma lata grande de grão cozido e as carnes. Coloquei ainda um bom bocado de hortelã fresca. Misturei. 
Gostaram, estava saboroso e bem cheiroso. Uma vez mais, sobrou outro tanto. Para a casa do meu filho seguiu uma caixa e para nós uma outra.


Tirando isso, estava nevoeiro, orvalho por todo o lado, tudo lindo. As neblinas ali in heaven são mágicas.

Os meninos andaram de bicicleta, correram, brincaram, o meu filho ateou uma bela lareira e ao longo do dia manteve-a sempre acesa, a sala quentinha e boa, e jogámos ao jogo das letras, os meninos puseram os meus chapéus, fizeram colares e pulseiras, o mano do meio jogou subbuteo, o bebé fez das dele. Perguntaram, claro, se os primos não iam. Dias assim pedem o grupo completo mas desta vez não deu. Com febre e uma gripe valente como um está e todo cheio de tosse como o outro está, era impossível um programa como o de hoje, na rua, no meio do nevoeiro.

À tarde, lanchámos (o meu filho trespassou uns pãezinhos com um espeto e colocou-o ao alto, de lado, na lareira para ficarem quentinhos) e depois foi tudo outra vez para a rua, a humidade caindo sobre nós, as pedras escorrendo, o campo todo imerso em névoa, lindo, lindo.


Fotografei muito, como sempre, mas as as fotografias que fiz e que aqui vos mostro não deixam perceber a paz, o canto dos pássaros, as cores difusas, o calor da lareira, o riso das crianças, a alegria de estarmos juntos.

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E foi isto. No carro para lá e, à tarde, durante uns momentos em que estavam entretidos, ainda li umas crónicas do Pedro Mexia no seu último livro, Imagens imaginadas, conversa sempre agradável de seguir.

Quando cheguei a casa ainda fui fazer sopa e algumas arrumações. E ainda devia fazer muito mais. Os dias passam a correr e ainda o fim de semana parece que nem começou e já está a acabar. No outro dia, no jantar de natal, uma colega que não via desde o do ano passado, me dizia: 'Nem parece verdade, não é? Dantes um ano levava um ano a passar, agora nem se dá por ele e já ele passou'. É mesmo.

Enfim. É o que é.

O meu marido já dorme e eu bocejo por tudo o que é canto e esquina. Está prestes a começar uma nova semana e eu começo-a com o coração quentinho, apenas desejando que os meninos que estão apanhados se ponham bons rapidamente.

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E a todos, aí desse lado, desejo uma boa semana a começar já esta segunda-feira.

segunda-feira, dezembro 02, 2019

Seria eu um outro bicho se a minha casa fosse outra?







Os dois manos agora têm uma brincadeira nova, mais maluca ainda do que as anteriores. Chama-se Espasmo. A todo o instante levantam o braço, batem no outro ou alçam da perna e dão uma sapatada e, acto contínuo, dizem: Espasmo. Como é óbvio não percebi que brincadeira era aquela. Afinal era mesmo óbvio: faz de conta que temos um espasmo. A minha filha confirmou: é isso mesmo que parece: uma estupidez. A verdade é que com isto estão sempre às brigas. Tudo amistoso mas sapatada pede sapatada de volta e, às tantas, os espasmos estão acesos. Mas tudo na base da risota.


Estava era muito frio, escuro, a querer piorar. Apesar de tudo, linda a beira do rio, as gaivotas a rasarem a pala do Maat, a rasarem as águas, a elevarem-se em contrluz, a deslizarem sobre o vento. E a luz a passar pelas nuvens. 

Mas mesmo muito frio. Tivemos, pois, que nos abrigar e foi bom irmos lanchar um lanchinho bom, conversando em família. 


Antes de almoço tínhamos estado, só os dois, junto ao mar. Tínhamos pensado caminhar na praia mas, uma vez lá chegados, desatou a chover e levantou-se uma ventania. Saímos do carro mas não por muito tempo. O mar estava francamente revolto e o frio e o vento tornavam a tarefa quase impossível. Tinha levado o meu chapéu de feltro e estava a saber-me tão bem ter a cabeça protegida mas, para não correr o risco de ficar sem ele, tive mesmo que abrir mão do conforto. E o que aconteceu é que, com alguma pena minha, nem chegámos a descer até ao areal.


Quando vinha no carro, debaixo daquele mau tempo, a ouvir uma bela música, lembrei-me que debaixo daqueles grandes pinheiros mansos que nascem do areal fizemos, em tempos, vários picnics. Éramos cinco casais e, na altura, uns sete ou oito miúdos. Depois vieram mais, um por adopção e outros por nascimentos imprevistos, quando as respectivas mães pensavam que já tinham fechado a loja. Uma andou a tratar-se do estômago até a criança já ir para aí nos seis meses de gestação. Depois ficou em pânico com medo que os medicamentos lhe tivessem feito mal, isto já para não falar de ser mãe tardia e nem ter vigiado o início da gravidez. Felizmente, veio sem problemas de maior.

Mas, na altura, aquele primeiro lote de crianças tinha idades muito afins. E era uma paródia pegada.


Depois acabámos por perder aquela ligação próxima. Os miúdos ganharam vida própria e um tinha testes, outro tinha uma festa de anos, outro tinha um jogo. Eram muitos e conseguir agenda livre em simultâneo era um totoloto. Entretanto, quando vieram os bebés, os outros já adolescentes e com amigos e programas autónomos, estavam as mães a ter que 'guardar' em casa os bebés com viroses, com dentes a nascer. E isto, quando passa um mês e não se consegue e outro e não se consegue, o hábito vai-se perdendo. E depois, pelo meio, aconteceu uma coisa fracturante. Um dos casais que era central, até pela animação que proporcionava (animação, frequentemente, no mau sentido) separou-se. Foi muito complicado. Não era fácil estar com um e deixar o outro de fora das combinações. Resolvemos 'ficar' com ele porque ele existiu antes dela, já que, anos antes, ela apareceu no grupo como a namorada dele. Só que ele nos desnorteava pois, de cada vez que nos aparecia, vinha com uma namorada nova. Uma coisa louca. Para nossa surpresa, constatávamos que a ele, low profile, fisicamente até nada de mais, lhe caíam namoradas no colo como se fosse um galã. E não avisava. Combinávamos ir jantar e, por exemplo, encontrar-nos em casa dele e, pelo caminho, já íamos a pensar se seria a mesma. E nunca era. E ele, sempre o mesmo tímido, irónico, falinhas baixas e elas derretidas, olhando-o como se estivessem frente a um Brad Pitt desta vida. Embora, pensando bem, ele faz é lembrar o Al Pacino. Quando era casado, a mulher mais alta que ele, giríssima, interessantíssima, roía-se de ciúmes embora dissesse que o tinha escolhido por ele ser feio (e dizia-o à frente dele) e, assim, não ter que ter medo que as mulheres se perdessem de amores por ele. Enfim, umas cenas que nos divertiam e ajudavam a tornar o grupo ainda mais coeso em torno daquele casal meio disfuncional, sempre na corda bamba. E o que se passou foi, portanto, que aquele divórcio ainda mais ajudou a separar o grupo. 

Ao passar por ali, pensei que há tanto tempo que não íamos para aqueles lados, como se os lugares estivessem associados às pessoas que os frequentam.


Tive vontade de lá voltar para, com melhor tempo, ver melhor. Já deu para ver que o que antes eram umas aldeias esparsas são hoje condomínios e condomínios, vivendas e moradias e, pareceu-me, uma certa confusão. Mas talvez andando a pé fique com uma ideia mais benevolente. 

Ao passarmos de carro, vimos um casal que vinha da praia, a pé, à chuva. Vinham a conversar. Provavelmente tinham uma casa ali perto. Pensei na Isabel e no seu gosto em vir a ter uma casa ao pé da praia. Como a compreendo. Também eu, em tempos, o desejei. Desejava ter uma casa como a que que havia encavalitada nas rochas, salvo erro entre a Figueirinha e Galapos. Tinha uma escada que descia directamente para a areia. Talvez hoje não autorizassem a construção de uma casa assim. De resto, não faço ideia se tinha sido autorizada. Era uma boa casa e era uma casa de sonho, mesmo sobre o mar. Tinha um passadiço da estrada para a casa. Imagino como deve ser bom estar numa casa assim, ouvindo-se as vagas, a dança das ondas, o rugido das marés em dias de tempestade. Ou descer para a praia, a meio da noite, em dias de calor e lua cheia. E o cheiro da maresia, tão bom.

Quando andávamos à procura de uma casa no campo, isto há mil anos, chegámos a equacionar ser também perto da praia. Ouro sobre azul. Mas eram muito caras.


Depois de muito procurarmos e de vermos inúmeras, encantámo-nos por aquela ali, triste e escura, ainda com os móveis dos proprietários (também divorciados) que diziam que lá deixavam tudo, no meio de pedras e mato e rasteiro. Qualquer coisa ali nos atraíu irresistivelmente. Os miúdos puseram-se a correr pela casa, num entusiasmo, e a minha filha disse este é o meu quarto e o meu filho disse e este é o meu. E eu pensei tiro este móvel escuro e triste daqui e mudo o sítio dos móveis e tudo vai ficar diferente e o meu marido disse também de sua justiça. E eu pensei e vou plantar árvores porque aqui vai haver um bosque. Quando se riam, eu doseava a expectativa: um petit bois. O pior foi quando o meu cunhado lá chegou a olhando para aquilo de que nós já começávamos a gostar tanto e, naquele gesto tão típico dele, deslizou a mão pelo ar a meia altura, como que varrendo o espaço, e disse: 'deitam abaixo esta merda toda para conseguirem uma leitura diferente do espaço'. Bem conhecedora daquelas suas soluções que passavam sempre por deitar abaixo, fui taxativa: nem pensar, não vai nada abaixo, era o que faltava. Nem era só pelo acto em si, era também o dinheiro que aquilo que ele estava a idealizar ia custar. Mas aí o meu marido teve outra ideia, fez outros desenhos, unir aquilo com aquilo, rasgar uma grande janela, dali nascer um telheiro virado à serra. O irmão desaprovou: solução mediana quando poderia ser uma coisa fantástica. Paciência.


Ficou assim e acabou por reconhecer que foi uma boa solução.

E aos poucos foram nascendo os caminhos, os murinhos, as árvores foram crescendo, os pássaros foram chegando, as flores aparecendo, as borboletas, os cogumelos, a terra ficando atapetada de carumas, de musgos, de orvalhos. E eu tornei-me o bicho que tão bem conhecem.


Por isso, penso que, se calhar, as casas também nos fazem a nós. Talvez se, em vez daquela casa, nós tivéssemos descoberto uma outra que não nos permitisse mudá-la e, com ela, mudar a paisagem, talvez não fossemos o que hoje somos. 


Mas acordar de manhã e ir caminhar à beira do mar também deve ser uma coisa boa, talvez eu aprendesse a descobrir conchas, algas, pássaros e outros bichos que moldassem também a minha maneira de ser. Sabe-se lá.

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Já aqui partilhei este vídeo pelo menos mais duas vezes mas gosto tanto que me arrisco a partilhar uma vez mais.


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E só para vocês verem como é a minha fraca cabeça: quando comecei o post a minha ideia era olhar para os livros que aqui tenho quase ao colo e dizer qual ofereceria a cada um dos bloggers aqui do lado ou Leitores que conheço por comentarem ou me enviarem mails. Mas, se isto dá para perceber..., distrai-me e segui pelo caminho que viram. Se isto fosse na estrada, a esta hora estava a caminho do Porto.  (E estava muito bem que já estou é com saudades de lá ir dar uma volta.)

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Desejo-vos uma bela semana a começar já por esta segunda-feira. 
E muito obrigada pela vossa companhia aí desse lado.

domingo, dezembro 01, 2019

Palavras chuvosas






Não são horas de começar um post. Daqui a nada são duas da manhã. Presumo que grande parte das pessoas que habitualmente aqui vem espreitar a esta hora steja a dormir. Por vezes tenho uma certa pena de não conseguir seguir horários mais consentâneos com o ritmo da maior parte das pessoas. 

Para além de ter estado com a família, estivemos no campo, caminhei por entre as árvores, li muito, fomos às compras para a casa. Tudo coisas normais e simples. 

No campo, voltei a ficar espantada com os cogumelos que voltaram a aparecer. Tantos, tão bonitos, tão diferentes. Encanto-me, já o disse mil vezes. Parecem-me milagres mas ainda mais milagrosos por haver tantos, todos tão perfeitos e improváveis. Como saem, espontaneamente, da terra estas pequenas obras de arte? Não consigo perceber.


Comecei a ler os dois livros que comprei ontem. Leio um bocado de um, depois do outro, volto ao primeiro, volto ao segundo.
Não sei porque o faço. A minha vida e o ritmo da cidade criam em mim um certo sentimento de urgência, uma vontade talvez absurda de fazer várias coisas ao mesmo tempo, não vá não ter tempo para cada uma individualmente. 
Li que a idade da reforma aumentou mais um mês e isso é uma ideia que me incomoda. No outro dia, estava a falar com a minha mãe que, até há uns anos, os meus colegas mais velhos aproveitavam a vontade que as empresas sempre têm de renovação e aceitavam ir-se embora mais cedo. Ali pelos sessenta e dois anos, levavam uma indemnização, iam para o desemprego e pouco depois estavam reformados. E antes dos sessenta e dois anos já eles andavam a fazer contas ao tempo que faltava, desejando ir para casa. E eu, depois de ter posto de parte a ideia de um dia ainda ser presidente de uma câmara, sempre pensei que faria como eles. Agora tudo se complicou. As empresas têm, na mesma, vontade de renovar o seu quadro de efectivos mas a idade da reforma é um alvo em movimento e tudo se complica. 

Então, vendo o tempo do muito tempo ainda longínquo, mesmo involuntariamente dou por mim a querer rentabilizá-lo ao máximo. 

Talvez por isso, agora à noite, enquanto na televisão passava aquilo dos Casais à Primeira Vista, 
uma coisa inenarrável em que não dá para perceber se os 'especialistas' são nabos todos os dias, não acertando uma ou se o objectivo é mesmo o de juntar gente que se odeia
estive a ler, a pesquisar umas coisas que andam a interessar-me e, como se não fossem horas de estar a dormir, fui esticando o tempo até chegar até aqui.


De vez em quando sinto um certo cansaço também nisto. Não é que esteja a cansar-me de escrever -- porque isso se mantém intacto e cada vez com mais vontade de ter mesmo tempo para me entregar ao que escrevo -- mas é alguma frustração por, algumas vezes, por inabilidade, por desatenção ou saturação acumulada, o que escrevo transmitir ideias contrárias às que são as minhas. Posso, por exemplo, sem querer, magoar alguém.

No dia a dia, sou naturalmente irónica. Mas, obviamente, a ironia funciona bem se for acompanhada de um sorriso ou de uma expressão facial ou corporal que demonstre que há uma discrepância entre o que se diz e o que se pensa. Na escrita, falta esse descodificador. Para ajudar, pode pôr-se um smile ou um piscar de olhos. Mas, não o pondo -- e eu embirro um bocado com emojis no meio dos textos --, tem quem lê que adivinhar que quem escreve, quer dizer outra coisa que não a que escreve,
Por exemplo, no outro dia, um colega disse-me que tinha tomado uma determinada decisão e que, aliás, não era apenas decisão dele, era colegial. Eu respondi-lhe: 'E foi certamente uma decisão bastante acertada'. Ele riu e disse: 'Está a querer dizer que foi uma decisão errada?'. Eu mantive: 'Não, estou a dizer que, se tomou essa decisão e se o colégio a ratificou, por definição é acertada'. Ele, que me conhece bem, disse: 'Como se eu não conhecesse essa sua ironia e não soubesse que não apenas discorda desta decisão como acha que tomamos frequentemente decisões erradas'. Mantive: 'Nada disso. Acho que as decisões que tomam são sempre exemplares'. Ele riu-se e eu também. Estávamos entendidos. Mas se ele não me conhecesse bem e se alguma expressão facial minha não denunciasse o contrário do que eu estava a dizer e ele ainda poderia pensar que eu estava a lisonjeá-lo.

Mas, escrevendo aqui, escrevendo para quem não me conhece, para quem não me vê, pessoas com experiências de vida ou personalidades muito diferentes da minha, como conseguir transmitir aquilo que, de facto, penso ou sinto? Não sei. 

E depois há os temas: posso estar preocupada com um assunto mas não ter paciência para, à uma ou duas da manhã, me pôr a dissertar sobre ele e, pelo contrário, apenas me apetecer falar de frioleiras, disparatar, chutar para canto ou atalhar razões. Mas, quem me lê, não sabendo das minhas circunstâncias, se calhar vem à espera de consistência, de elevação, de tino e há dias em que, pelo contrário, só encontra desconcerto e parvoíce. E eu interrogo-me sobre se faz sentido, apenas porque gosto de escrever, escrever seja sobre o que for, mesmo que seja sobre coisa nenhuma, estar a causar estranheza em quem me lê?


Por isso, há dias em que penso que mais valia não escrever nada no blog e escrever apenas para mim.

Mas, depois, tal como hoje, deixo-me levar pela inércia e ponho de lado cuidados e indecisões e, uma vez mais, escrevo à vista de todos, a céu aberto, sujeitando-me a sentir em cima de mim vendavais, aguaceiros, trovoadas. O pior é que se há dias em que, quanto maior a tempestade melhor a mim me sabe, outros dias há, dias em que estou mais sensível ou cansada, não sei, em que me custa um bocado sentir a força dos elementos a fustigarem-me as mãos, a pele, o coração.


Enfim.

A verdade é que há alguma inclemência generalizada. Pela leitura dos blogs, por vezes surpreendo-me com a dureza das palavras que ali estão, muitas vezes ajustes de contas, ameaças veladas, juras de vingança. Dá ideia que há alguma revolta que se vai sedimentando e que, a todo o momento, está pronta a explodir. Quando leio palavras que denunciam um grande azedume penso que as pessoas se esquecem de quão transitória é a sua passagem por cá, que se esquecem da sua condição de animais efémeros. Não sei o que esperam para desperdiçar a sua vida dessa forma. Mas, enfim, também não estou certa de eu própria saber viver a vida da melhor forma. Provavelmente, com esta minha maneira de ser e sem a arte de saber transmiti-la da melhor forma, causo desagrado ou mágoa em quem me lê. E isso custa-me um bocado e é uma das razões que me levam a, por vezes, ter vontade de me deixar disto.


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E é isto. 
Espero que, ao menos, se salvem os cogumelos.

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E a todos desejo um belo dia de domingo.