O meu marido, quando não tem paciência para tanta desgraça, tanto comentário e tanto fala-barato, refugia-se no 24Kitchen. E eu, vendo a comida que estava a ser preparada, interessei-me. Só que adormeci. Tentei acordar mas não consegui. Passado um bocado, o meu marido levantou-se, foi para a cama. Esforcei-me. E fiz zapping.
E, então, fui parar a um documentário extraordinário. Extraordinário, mesmo. Comovi-me. E comovi-me também por uma peça tão importante da nossa história estar a passar na 2 quando toda a gente está a dormir. Que falta de respeito para com quem tanto sofreu, que falta de respeito para com o que deveria ser a memória colectiva do nosso País.
Devia ser exibido em todas as escolas, todas sem excepção. E as escolas deveriam organizar debates entre os miúdos depois de assistirem à sua exibição. E, quando falo em escolas, incluo as Universidades também. E, na televisão, deveria ser passado todos os anos, na RTP 1, em horário nobre, tal como, no Natal, passa o Sozinho em Casa.
Parece-me essencial. Vejo pelos meus netos: não fazem ideia de como era a vida antes do 25 de Abril, não têm noção do salto de gigante que a sociedade deu, pensam que o 25 de Abril não serviu para modernizar o país, acham que o país ainda está muito atrasado em relação aos países mais desenvolvidos. Não fazem ideia do que é a privação da liberdade, não fazem ideia do que foi a polícia política, não fazem ideia de nada.
Quando alguns palhaços por aí andam a falar na falta que faz o Salazar, seria bom que toda a gente tivesse bem presente do que era o regime do Salazar.
Não sei como é que os nossos partidos que defendem a liberdade e a democracia não percebem que é relevantíssimo mostrar aos jovens de hoje que mostram simpatia pelos movimentos de direita, que a mudança é importante, mas tem que ser mudança para melhor, nunca mudança para pior -- para um passado de opressão e pobreza, isso nunca.
A quem não viu este excelente documentário muito vivamente recomendo que veja. Estava a passar na RTP 2 e vi agora, na programação, que começou um pouco antes da meia-noite.
Transcrevo o texto da apresentação:
Aqueles que Ficaram (Em Toda a Parte Todo o Mundo Tem)
Documentário que dá voz aos familiares de resistentes, aqueles que enfrentaram, em silêncio, as consequências do regime do Estado Novo
Portugal viveu 41 anos o regime político do Estado Novo, que prendeu, torturou e levou ao exílio a quem se lhe opunha. Através dos testemunhos diretos de 28 familiares de resistentes deste regime ditatorial, faz-se o retrato de uma época e de um país, mas também se abrem linhas para o entendimento deste presente. Depois da voz dada aos presos políticos, clandestinos, exilados ou deportados, em vários trabalhos anteriores, chegou a hora de ouvir quem também resistiu ao "cárcere" das privações materiais e emocionais, tantas vezes ainda sem idade para entender e muito menos aceitar as inevitáveis e profundas mudanças abruptas no quotidiano. Filhos, filhas, mulheres quase sempre e ainda hoje em silêncio.Partindo da recolha e análise de algumas das cerca de 100 entrevistas realizadas com familiares de opositores e inseridas num trabalho de investigação académica na área da História Contemporânea, o filme documental vai conduzir-nos pelas vivências e consequências de um tempo obscuro na vida de cada uma dessas personagens e as suas formas de resistência, contribuindo de igual modo para o acrescer do conhecimento da história da resistência à ditadura do Estado Novo.