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sábado, fevereiro 29, 2020

Coronavírus:1 milhão de infectados em Portugal?
É provável. Mas a vida não pára. Por isso, bola para a frente e rendamos homenagem a Ofélia.





Vem na 1ª página do Expresso mas desde há alguns dias que eu, vendo as curvas de propagação e olhando os factores multiplicativos, vinha dizendo que não via como conter o COVID-19. Se vivêssemos em aldeias, em casinhas isoladas, se não respirássemos todos o mesmo ar em grandes espaços fechados (como grandes escritórios, centros comerciais, cinemas, etc.), se não houvesse a globalização, as feiras internacionais, os Erasmus, as abertura de fronteiras, as viagens baratas e o turismo permanente e global, toda a gente a voar de um lado para outro (a voar ou a andar aos milhares, fechados em paquetes), aí talvez se pudesse conter a progressão do vírus. 

Assim é impossível.

Se, ainda por cima, pode haver recidivas (parecendo que a pessoa que contrai a virose não fica imunizada) ou se o período de contágio se inicia antes da fase sintomática, então, adeus minhas encomendas.

Em cima disso, agora percebeu-se que os cães também ficam apanhados. Era o que faltava. Ou seja, é para esquecer. Não dá para conter.

Quando houver uma vacina -- para gente e, provavelmente, para animais -- e, se calhar, quando já parte significativa da população tiver sido tocada e, portanto, quando já existirem algumas resistências, aí talvez o bicho enfraqueça e deixe de ser tema.


Mas isto digo eu que não sou expert em nada disto. Digo porque, se pensar em termos de modelagem daquilo que se observa, facilmente antevejo que o resultado será justamente qualquer coisa como o que Graça Freitas refere, ao que percebo baseada em modelos matemáticos. Um décimo dos portugueses infectados nos próximos tempos (não li o artigo mas admito que o horizonte temporal em causa se refira aos próximos anos) parece-me um número provável. 

Não se veja isto como alarmismo mas como aquilo que é. E isso não é forçosamente uma catástrofe. Quantos portugueses já tiveram gripe de outros tipos? Certamente também milhões e daí não veio grande mal ao mundo (excepto, claro, para os vários milhares que morreram e para as famílias que os choraram).

Claro que o Expresso, ao puxar para parangona de 1a. página o número de 1 milhão, está a procurar o efeito sensacionalista mas disso a Graça Freitas, mulher inteligente e serena, não tem culpa.


Além do mais, até ver, com o coronavírus, a maior parte dos casos é benigna, coisinha de pequeno incómodo, febrinha ligeira, cansaçozinho bobo. Pior mesmo, e, por favor, não se negligencie isto, são os idosos ou os previamente doentes e debilitados. É muito por eles que temos que tentar aguentar-nos 'limpos', para que o contágio não lhes chegue. Vamos esperar que o cumprimento das medidas que estão a ser recomendadas, acrescidas do distanciamento social (controlado e sensato), e dos planos de contingência das empresas e da sociedade em geral bem como os conselhos de higiene que têm estado a ser publicados, ajudem a ganhar tempo até que a vacina ou o tratamento estejam no terreno. Para mim é isso que está verdadeiramente em causa e não tanto o pretendermos travar o mar com as mãos.

Quando houver vacinas e/ou tratamentos eficazes o OVID-19 deixará de ser um bicho papão. É o que dizem e eu acredito. Mas até lá, sem dramas ou histerismos mas com disciplina, informemo-nos e sigamos as indicações da DGS e da Organização Mundial de Saúde.
Teorias da conspiração, textos que correm nas redes sociais a desvalorizar as recomendações ou a comparar com outras epidemias ou a reescrever conselhos à luz de pretensas teorias de cão de caça é que não. Confiemos nos cientistas, nos técnicos de saúde e no bom senso e na franqueza dos responsáveis. Podem não ser infalíveis mas, até ver, são a nossa melhor fonte de informação.

Para além da saúde pessoal há depois a saúde da economia. A economia é uma dama assustadiça. Mais hipocondríaca do que a minha tia -- e se ela é hipocondríaca -- só de pensar que pode ficar doente, já a economia cai de cama. Com as bolsas prestes a irem ao tapete e com as campainhas a começarem a anunciar o desastre, a verdade é que desde rupturas de stocks a défices de tesouraria com danos sérios para muitas empresas, o que aí vem pode não ser boa coisa.

Mas, sempre que há ameaças, há oportunidades pelo que aguentemos firme que a coisa há-de voltar a entrar nos eixos. O tempo é de resiliência. 

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Tirando isso, a vida continua. E eu, depois de um dia que na vida de algumas pessoas com quem lido de perto se pode considerar de charneira, com emoções mais ou menos fortes à mistura, preciso de um pouco de sossego e de beleza. Permitam, pois, que, pela mão de Odilon Redon, traga aqui Ophelia entre as flores. Imagens belíssimas. Não que venha a propósito mas, justamente, porque não vem.


E agora vou escolher livros para ler no fim de semana que é um momento que sempre me enche de emoção boa e irracional, levando-me a pegar em vários pois, nestes momentos, na minha cabeça, acho que pode acontecer que, a meio de algum, deixe de estar in the mood para ele, ou que, estando toda prosa, às tantas, sinta que está a chegar a horinha da poesia, ou, ainda, que estando a meio de uma pura ficção me sinta puxada para a epístola ou para a diarística. Ou que, estando numa de filosofia, sinta que a minha beleza está a ficar cansada e sinta o apelo dos louvores da terra. Portanto, sendo certo que todo este processo é um déjà-vu, a verdade é que só o facto de passar a mão pelas resmas de livros, já me faz sentir o frisson que as coisinhas boas da vida costumam produzir em mim.

E, antes de me ir, com vossa licença, agora a beleza das palavras.

Mel Gibson como Hamlet. Helena Bonham Carter como Ophelia.


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E a si que está aí desse lado desejo um sábado bom.
Saúde e boa disposição.

terça-feira, outubro 15, 2019

Carta de Maria Luísa a sua filha Filipa Bragança
[E outras palavras desta mãe que tenta compreender e aceitar a decisão da sua filha]

E o Filipa Bragança award for the best female solo performance by an emerging artist que tenta preservar a memória de como Filipa era 'calorosa, brilhante, divertida e bela por dentro e por fora'.



Querida Filipa,
A Tasmânia! Que doloroso deve ter sido deixar Hobart, provocando mais uma vez, soube mais tarde pela Sophie, uma ruptura num caso amoroso, que se vinham repetindo sem fim à vista, dado que essas habituais rupturas/desentendimentos só existiam na tua cabeça.
Mas, chegada a Melbourne, da Austrália decidiste não sair, dizendo que te sentias mentalmente doente, confusa, sem saber o que fazer.
A Sophie, habituada, segundo me disse mais tarde, aos teus permanentes altos e baixos, disse-te que regressasses porque em  Londres, mais uma vez, tudo se resolveria.
O Tom, espantado pela tua saída inesperada de Hobart, respondia que regressasses a casa como previsto, daí a dois dias, que mais tarde iria a Londres e resolveriam nessa altura a vossa vida. Mas, a sua última chamada, já não a ouviste, desligaste o telemóvel e, assim, decidiste ficar entregue a ti própria e à decisão que já terias definitivamente tomado.
Questionada a Sophie e o teu irmão sobre o teu silêncio, mesmo em dia de início de viagem, o que não era habitual, responderam, ela que achava que estava tudo bem e ele que podias estar a fazer uma pausa nas redes sociais, que devíamos respeitar.
Na segunda feira, dois dias depois da ausência de sinal de presença no facebook, resolvi contactar um rapaz que estava numa foto contigo e tinham ambos um sorriso bom, sim porque nos teus sorrisos, por vezes, eu via uma nuvem de tristeza no olhar. 
Disse-me que estavas em casa de uma amiga dele mas que tinhas regressado na véspera, domingo, via Singapura. Propôs-me esperar que chegasses aqui a casa, na terça feira, por volta do meio dia, como previsto. Como habitualmente chegarias de comboio, pois não querias que te fossemos esperar.
Terça feira, dia 25 de Outubro de 2016, já dia 26 aí, não chegaste, de Londres e, de Melbourne, confirmaram que não tinhas embarcado. Avisei o teu amigo. Pouco tempo depois recebemos uma chamada da Tessa e ficámos em choque, até hoje!
O pai faleceu três meses depois, mais cedo do que o esperado, segundo os médicos do IPO, sem se ter pronunciado, respondendo-me, quando questionado, que estava "apardalado", e assim partiu pois não tive coragem de perguntar mais nada.
Recomendou ao teu irmão, que nos foi lá representar, vindo de Cabo Verde, que queria que fosses encomendada numa cerimónia religiosa, não interessando qual a religião, e tratasse da incineração.
Quando partiu, a 2 de Fevereiro, sem deixar instruções, fiz exactamente o mesmo, bem como à tua tia, nesse mesmo mês, no dia 26.
E assim ficámos, eu e o teu irmão, sem querer acreditar, até hoje, não esquecendo o Rafael que, com três anos, deixou de vos encontrar quando vem de férias de Cabo Verde e, na ausência de respostas, foi acrescentando estrelas no céu por cada um de vós e já me disse que a seguir vou eu, porque tenho rugas na cara e depois os outros avós porque são mais novos.
Um dia destes escrevo-te mais, sobre o muito que ficou por dizer, por explicar, por esclarecer. Tanta coisa!
Um grande abraço, como aqueles que já por três vezes me deste, em sonho.
Mãe
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Compilação de algumas das palavras de Maria Luísa Bragança sobre a sua filha Filipa

Quando fomos para Londres, a Filipa tinha feito a pré primária e a 1ª classe em Portugal, não falava nada de inglês mas fez um sucesso porque tinha aprendido a escrever o abecedário em letra francesa e toda a gente queria que ela escrevesse o nome de cada um, naquela letra. 

Fez toda a escolaridade em Londres, primária e secundária - numa escola cuja especialidade eram as Performing Arts, perto de casa. No ano do gap year, aceitou a nossa proposta de frequentar a Universidade em Lisboa, onde fez o 1º ano de Sociologia. Tentou ficar cá a estudar teatro mas teve uma branca (!?) no exame de admissão e não conseguiu, regressou e estudou francês e espanhol na Universidade de Nottingham. 


No ano do Erasmus esteve um semestre em Anglet, perto de Biarritz, a dar aulas de inglês, no segundo semestre foi para Cuba, para o Universidade de Havana. Fez um curso de teatro no Drama Studio London.

Nas férias, fez voluntariado, uma vez na ilha da Boa Vista, em Cabo Verde, na Turtle Foundation  protegendo-as dos pescadores e outros perigos, na desova, com a protecção de meia dúzia de soldados, destacados para o efeito. E em Marrocos, onde deu aulas de inglês em escolas perto do Monte Atlas. 


No dia 23.10.2016, domingo, era suposto a Filipa ter apanhado o avião em Melbourne, de regresso a Londres, como previsto e no final do visto de permanência de 2 meses, para participar no Festival Fringe em Brisbane e Melbourne, com a peça Angel que o Henry Naylor tinha escrito para ela e tinha estreado com muito êxito em Edimburgo no mês de Agosto. 






Tal como no ano anterior, onde foi pela primeira vez, com a peça Echoes, de Henry Naylor, adorou Adelaide e depois do Festival foi até à Tasmânia terminar o visto.


A minha filha, com 26 anos, que vivia em Londres e estava na Austrália a gozar férias, depois de ter participado ali num festival de teatro, suicidou-se, em vez de apanhar o avião de regresso a casa, como todos pensávamos que tinha feito, os amigos lá e nós aqui.

Sossegou da incerteza da vida e de tudo o que a preocupava: a sua vida pessoal e profissional; as alterações familiares com o nosso regresso a Lisboa e a constante preocupação de não ter alojamento em Londres, o casamento do irmão, a doença fatal e inesperada do pai; as alterações ambientais do planeta, que ela antecipava sem solução, a indiferença e incapacidade dos políticos e população em geral para com os mais desfavorecidos, deficientes, sem casa, refugiados. O Brexit também a preocupava muito, e com razão. Antecipou todos os males do mundo como se fossem só seus. Desiludiu-se com as grandes cidades: de Nova Iorque mandou um postal a dizer que havia tanta gente a dormir na rua, que era uma cidade sem compaixão!

Saber que sofria de depressão, sem pedir ajuda, é o que nunca me vai deixar de fazer pensar no que terá sofrido sozinha, sem querer maçar ninguém, nem os próprios pais. Como é que foi possível uma coisa destas! O esforço que ela fez para superar esta doença mental sem tratamento, pensado que conseguiria por si só ultrapassar isso.

Foi ao saber isto que comecei a perceber porque é que ela nunca nos atendia o telefone. Ela sabia que pelo tom da sua voz eu perceberia se ela estava bem ou não e desculpava-se que o contrato do telemóvel não dava para receber chamadas gratuitas e mais tarde lá dava noticias, quando ela queria. Reclamávamos sempre mas sem resultado. 

Eu pensava que poderia ter esperança de vir a ficar próxima dela e dizer-lhe tudo o que sempre tinha ficado por dizer entre nós, por esclarecer, os silêncios, os sorrisos tristes, a nuvem que eu via nas fotos mesmo quando estava feliz...

Eu tinha tido a arrogância de pensar que teria hipótese de esclarecer as dúvidas que me assaltavam, que, mais uma vez, podia adiar essa conversa, para mim, para ambas, indispensável e eis que me provam que não mando nada e não mais vou voltar a vê-la.


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A new award for the best female solo performance by an emerging artist at the Edinburgh Fringe has been announced by Gilded Balloon.

The Filipa Braganca award has been set up in memory of the actor, who starred in Henry Naylor’s award-winning productions of Echoes (2015) and Angel (2016).

Braganca died in Australia in 2016, half way through a second world tour of Echoes, which had just completed dates at the Brisbane Festival and Melbourne Fringe.

She was 25 when she was cast in the two-hander Echoes and had just graduated from Drama Studio London. She played Samira, a radical schoolgirl who runs away to join Islamic State.

The production was a critical and commercial hit, and subsequently toured the world for over a year, with Braganca’s performances helping the show collect 11 major international fringe awards.

In 2016, Braganca returned to collaborate with Naylor on Angel at the Edinburgh Fringe, about a Kurdish woman reputed to have shot and killed more than 200 Isis fighters in northern Syria.

In a statement announcing the award, the Gilded Balloon said: “At a time when many commentators were fanning suspicion towards the Muslim community, she resisted, portraying a young Jihadi schoolgirl with warmth, humanity and intelligence.

“It was an astonishing – and brave – performance that reduced audiences to gales of laughter one minute, and tears the next.”

Karen Koren, the artistic director of Gilded Balloon, which produced both Echoes and Angels at the Edinburgh Fringe, said: “Filipa Braganca made an impact on everyone she met. She was warm, bright, funny and beautiful, inside and out.

Her acting was sensitive, meaningful and performed with incredible depth. She was destined for great things; her talent was boundless and she cared deeply about world issues. I hope that this award in some way keeps her memory alive.”


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Pétalas da "Remembrance tree",
feita a partir das mensagens que os amigos de Filipa enviaram a Maria Luísa

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Sabemos, Luísa, que partem cedo aqueles que os deuses amam. Mas a memória do seu brilho para sempre cintilará nos corações dos que tiveram a felicidade de conhecer a sua centelha de paixão, humanidade e alegria.


E vejam a maravilhosa alegria de Filipa, para sempre inocente, jovem e bela
in a little dirty dancing in Lisbon



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Que a ternura de todos nós para sempre envolva, como um longo abraço, a memória de Filipa Bragança, filha de Maria Luísa.

E daqui envio um abraço afectuoso para a Maria Luísa, tão corajosa, que tem tantas razões para se sentir orgulhosa pela sua talentosa filha, Filipa Bagança, que deixou marcas tão fundas em quem teve o privilégio de a conhecer.

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sexta-feira, julho 05, 2019

Diogo Amaral e a droga -- em carne viva no programa da Cristina Ferreira


Não costumo ver telenovelas portuguesas nem acompanhar a vida, os sucessos, as crises, os amores e desamores dos seus actores. 

Hoje, já depois de ter conversado com a minha filha, recebi dela uma sms dizendo-me para ver a entrevista do Diogo Amaral no programa da Cristina Ferreira (e acrescentou que eu ignorasse a bimbice dela). 


Achei tão insólita a mensagem que a li em voz alta. O meu marido também ficou admirado mas desvalorizou, admitiu que tivesse a ver com algum aspecto relacionado com a vida profissional dela. Quando li Diogo Amaral, visualisei-o embora com dúvidas se seria esse mas, confesso, fiquei na mesma. Perguntei-lhe porque queria que eu visse. Não quis dizer-me, apenas acrescentou para eu reparar na linguagem corporal dele e para ver em silêncio. Comecei a ficar curiosa.

Agora, antes de pôr a box no dito programa, googlei-o para confirmar: era mesmo quem eu imaginava, aquele rapaz que me faz lembrar o Sergei Polunin, aquele corpo escorreito, aquele ar vagamente atormentado. 


Mas nada sabia do rapaz pelo que foi com muito cepticismo que me predispus a entrar na casa da Cristina Ferreira. Apenas, mesmo, para fazer a vontade à minha filha. 

Pus aquilo a andar à pressa toda, a x64, para não me desestabilizar com a gritaria dela e ir directamente ao ponto. Mal o rapaz entrou em cena pareceu-me que estava pouco à vontade. Ela toda gaiteira e ele tenso. Até que ela lhe perguntou se estava bem e ele, enervadíssimo, disse que tinha uma coisa para dizer. E, então, aconteceu um momento surpreendente. Uma emoção frontal, uma confissão dita de frente, sem lágrimas, de olhos bem abertos. Pediu desculpa a quem o contratou. Já fui saber. Estava em gravações e teve uma branca e foi incorrecto para com a equipa técnica e para com os colegas, acabou por sair antecipadamente do argumento. 


E, então, mãos nervosas, esfregando-as nas pernas, corpo completamente em tensão, contou.

Contou: foi um período de consumo de droga. Contou: mentiu muito a muita gente. Contou: ia deixar o filho a casa dos pais para poder ir drogar-se. Contou: andava zangado com o pai e isso transtornou-o mas não responsabiliza o pai pelo que aconteceu. Contou: naquela altura enganava toda a gente. Contou: percebia que as pessoas o olhassem com desconfiança. Contou: percebia que, ao contar isto, ia dar cabo da vida da mãe. Contou: antevia os momentos que aí virão. Contou: mais uns meses e acabava com tudo, com a profissão, com o namoro, com tudo. Contou: esteve numa clínica na Escócia a tratar-se. Contou: foi Ljubomir Stanisic, um irmão, quem o agarrou, quem o ajudou. Contou: se calhar é prematuro estar já a falar pois deixou de consumir há apenas um ano.

Diogo Amaral estava trémulo, os grandes olhos muito abertos, dispostos a receber todas as perguntas, todas as censuras.

Custou-me muito ver. Imagino o sofrimento da mãe ao ver o filho a expor-se daquela maneira, imagino o sofrimento da mãe quando, tempos antes, soube o problema de drogas do filho, vendo-o a deitar a vida a perder. Imagino o sofrimento dele sabendo o sofrimento que esta entrevista vai causar nos pais.

Mas imagino que o sofrimento dos pais não seja pela entrevista -- que se lixe a entrevista, que se lixe o que as revistas vampirescas vão explorar -- mas de medo que ele não aguente a pressão e tenha uma recaída, que o sofrimento seja pela vontade de que ele não sofra mais, seja por não saber como protegê-lo de si próprio e da vida que escolheu viver.

Esta vida de actor de novela, com exposição permanente nas redes sociais, em eventos, em revistas, sempre a ter que dar entrevistas, sempre a ter que estar bem, deve violentar a alma de quem tem alguma coisa sob a pele. Não deve ser fácil arranjar forças para estar sempre bem sob a luz dos holofotes.

Nem deve ser fácil, em geral, encarnar novas personagens, conseguir emocionar-se a fingir sem perder a capacidade de se emocionar de verdade. Acredito que, de vez em quando, deve haver a tentação de esvaziar a alma.

Ou isto tudo junto, a germinar sobre um solo adubado pelas tristezas e inquietações que toda a gente tem mas que um actor tem que esconder para ser outro.

Cristina Ferreira, apanhada de surpresa, quase ficou bloqueada. Chorou e chorou por ele e por ela e eu, pela primeira vez, achei que ela estava a ser genuína. 

Mas mostrou que tem algumas limitações: um bom entrevistador teria sabido encontrar o registo certo para deixar o entrevistado falar, deixando que ele fosse tão longe quanto estava disposto a ir. 

Diogo Amaral estava com vontade de falar e teria respondido a muito mais. Cristina Ferreira deveria ter sabido conter-se -- mas pode alguém ser quem não é? -- em vez de ir quase para cima do rapaz, fazer-lhe festinhas, oferecer o seu ombro. Desnecessário. E, não sendo capaz de prosseguir, acabou a entrevista. Ou isso ou tinha que cumprir o alinhamento e ir vender o seu peixe. Não sei. Sei é que despachou o rapaz.

E, quando falo em que ele poderia ter falado mais e que penso que seria importante que ela tivesse sabido agarrar a oportunidade, digo-o não por curiosidade mórbida mas porque não é habitual alguém estar disponível para falar tão francamente de um vício tão estigmatizante e há muitas pessoas para quem as palavras dele poderiam ter sido ainda mais úteis do que, sem dúvida, mesmo assim foram.

Explico um pouco melhor. 

Há algum tempo, num dos meus folhetins, um dos personagens drogava-se. Às escondidas, disfarçando, mentindo. Enganava todos os que viviam perto dele, a família, os colegas de trabalho. Era um profissional bem sucedido à luz do dia. Mas, na sombra, era um consumidor de droga. Até que começou a perder o pé, a precisar de mais dinheiro, a pedir dinheiro, a contrair dívidas --  mas tudo sempre envolto em explicações credíveis, sempre sincero e bom rapaz.

Não era um personagem inventado. Não. Muito próximo, muito. Consumia. Mesmo numa festa de anos de uma criança da família, tendo chegado do trabalho, ainda de fato e gravata, ele teve que ir à casa de banho consumir. Ás escondidas, claro. Depois eufórico, bem disposto, a alegria da festa. Sem ninguém desconfiar. A mãe contente com a alegria dele, o pai orgulhoso, a namorada apaixonada. E, no entanto, vivia uma vida de mentira. E, mais para o fim, perante mil evidências, ninguém dsconfiava de nada. Não desconfiava ou não queria desconfiar. Parece tão improvável, tão inimaginável que, quem deveria ver, não vê. Até que ele próprio, certamente incapaz de continuar a enfrentar a mentira do quotidiano e o sofrimento, se afastou, tentou curar-se, afastar-se do círculo de amigos 'agarrados' e de traficantes. 

E até hoje eu não percebo como é que ele conseguia arranjar a droga, quero dizer, quando é que tinha tempo se trabalhava durante o dia e ia ter com a família e amigos depois disso, como é que ele conseguia enganar toda a gente.

Por isso, digo: para a família e amigos poderem perceber melhor os sintomas e melhor poderem ajudar os que atravessam os labirintos negros da droga, seria bom que mais pessoas falassem da sua experiência e de como podem ser ajudados.

Teve muita coragem o Diogo Amaral e tomara que acredite que o seu exemplo pode ser uma ajuda para quem atravessa o que ele atravessou e tomara que saiba como melhor ajudar os que ainda não conseguiram vontade para sair desses tenebrosos labirintos.

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Não sei se antes, se durante o período das drogas, o vídeo abaixo -- uma sessão fotográfica para mostrar o seu corpo. Apenas para ilustrar isto de que há vidas de exposição pública -- em que é suposto mostrar o bom físico, o belo sorriso, a boa disposição permanente, a capacidade para responder a toda a espécie de perguntas -- que, por vezes, têm um reverso: uma vontade de descer ao nada. Ou de fugir em direcção ao tudo.


Ao longo da entrevista, Diogo Amaral fala com orgulho deste filme que protagonizou:


Pedro e Inês




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Devo dizer que, quando acabei de ver a entrevista, fiquei muito impressionada. Não ia escrever sobre isto. Como muitas vezes me acontece quando alguma coisa me toca assim, estava capaz era de ir escrever sobre maluqueiras, rêveries ou faits divers. Mas a minha filha disse que achava que eu deveria escrever, não apenas para 'dar força ao rapaz' como para mostrar que a recuperação é possível e que isso pode ajudar outras pessoas. Não sei se fui capaz mas, acreditem, é sentidamente que desejo que o Diogo Amaral tenha uma vida longa e feliz e que quem hoje se encontra em situação de dependência, també consiga força para virar as costas ao vício.

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E dias felizes a todos. Saúde e alegria.

quinta-feira, dezembro 06, 2018

Caravaggio alive


Gostos não se discutem, P., é certo. Mas não são exclusivos. Gosto de Paula Rego, tal como gosto de Graça Morais ou Júlio Pomar, tal como de Matisse, Gauguin, Van Gogh, Chagall e, sim, também de Caravaggio. 

Penso que já aqui o referi. Quando vi uma exposição de Caravaggio quase fiquei tolhida pela emoção. Aqueles seres ali retratados pareciam ter vida, pareciam ter aquele sarro, aquela sujidade nas unhas e restos de má vida que se imagina que, na realidade, aquelas pessoas tivessem. Gosto de pintura abstracta mas, se ela nos mostra figuras humanas, então as telas devem impressionar-nos. E as de Caravaggio impressionaram-me muito. Já as conhecia de as ver em livros ou em documentários, nem sei se alguma em algum museu. Mas uma exposição inteira com obras dele, estar perto daquela vida tão carnal, encheu-me de emoção. Há obras ou exposições que nos marcam de forma indelével.

Uma emoção assim, quase paralisante, também a senti perante uma pintura de Rothko. Ou perante um pano de boca de cena de Chagall. 

O Leitor P., a quem muuuuuiiito agradeço, enviou-me o vídeo que aqui partilho convosco e é impressionante.

Caravaggio living paintings by Ludovica Rambelli Theater 



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Para tirar teimas: 79 obras de Caravaggio



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segunda-feira, setembro 04, 2017

O desassossego de Fernando, o homem que queria e não queria ser múltiplas pessoas



No liceu, por aquelas alturas, eu era Julieta e Fernando Pessoa não me dizia nada até o meu Romeu, um excelente jogador de futebol que tinha a marca distintiva de ser um sarrafeiro de primeira, surpreendendo toda a sala, incluindo a professora,  ler, com voz sentida, O Mostrengo. Apaixonada já eu estava. Presenciando aquela leitura, fiquei arrepiada, irreversivelmente seduzida. A sala ficou em silêncio. Não sei se todos rendidos a Fernando Pessoa, se estupefactos com aquele dom de que ninguém suspeitava no aluno mais mal comportado da sala.


[Aqui dito por Guilherme Gomes]


E durante mais uns quantos anos, Fernando Pessoa ficou para mim apenas como aquele que tinha proporcionado tão extraordinária revelação. Ricardo Reis ou Álvaro de Campos ou Alberto Caeiro eram para mim uma ficção que não entendia bem e cujos frutos não me atraíam. Como poesia, aquilo não me convencia. Portanto, fui entrando na idade adulta sem grande apego a Fernando Pessoa. Apego, disse eu? Qual apego? Interesse. Praticamente nulo.


Mais tarde, nem sei quando, comprei uma colectânea. Devo tê-la para aí. Montes de poemas. Pensava: 'este fazia poemas a metro' ou 'isto é um granel'. Coisas de jeito misturadas com banalidades -- pensava eu enquanto ia sentindo uma curiosidade crescente; mas, ainda assim, sem ficar cativada.

Depois, sendo eu habitante afastada do mundo académico-literário, ia sabendo com alguma incompreensão do fenómeno de estarem sempre a aparecer mais poemas, mais textos, mais edições. Pensava que aquela arca teria que não ter fundo para assim irem surgindo mais pseudónimos, mais escritos. Parecia-me uma história rocambolesca. Às vezes, no meu íntimo, pensava: 'isto é uma história mal contada'. E, sobretudo, tenho que confessar a verdade: aquela poesia, fosse qual fosse o pseudónimo a escrevê-las, continuava a prender-me por aí além.

Até que um dia adquiri o Livro do Desassossego. Era um livrinho pequeno. Achei-o extraordinário. Fui lendo, relendo. Algumas passagens não me pareciam nada de mais mas depois havia outras que eram surpreendentes. Anos depois vi-o à venda noutra edição. Tinha crescido: era agora um livro gigante. Mas outro livro. Pura incompreensão para mim, isto.

Contudo, o mesmo choque: se alguns textos se debruçavam sobre banalidades, a forma como essas banalidades inconsequentes -- mas, na realidade, determinantes -- era apresentada continha, a meu ver, uma interrogaçõa profunda sobre o acaso, sobre a pequenez de tudo mas, ao mesmo tempo, sobre a imensidão que, na verdade, é feita de uma miríade de pequenas coisas.

E se tudo podia parecer vogar sobre o manto de leveza ou pasmo que sobrevoa a vida, o que se percebia era a indeterminação, a quase desmotivação, a incessante demanda e a certeza de que jamais se alcançará a resposta. Coisas assim, que me deixavam estupefacta. Pensava com estranheza como era possível ter chegado até aquela idade sem ter sabido que havia, em língua portuguesa, um livro fabuloso como aquele. Fabuloso não parece uma boa palavra, especialmente agora que está tão vulgarizada. Indefinível é melhor. 

Pois bem. Se para mim, que sou leiga e ignorante, difícil é pronunciar-me de forma douta e esclarecedora, atraente é tentar apreender o que outros, mais entendidos dizem.

Para começar, a palavra a quem sabe do que fala:

Teresa Rita-Lopes fala do(s) Livro(s) do Desassossego - o livro da vida de Fernando Pessoa

Teresa Rita Lopes é uma das mais respeitadas especialistas na vida e obra de Fernando Pessoa. É dela a organização da mais nova edição do clássico Livro do Desassossego, que recebeu um "s" no título da Global Editora: pois são três livros, escritos por três semi-heterônimos diferentes do autor - Vicente Guedes, Barão de Teive e Bernardo Soares. A escritora e estudiosa explica que respeitou a organização pensada pelo próprio Fernando Pessoa, ao longo de sua vida.
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Vem isto a propósito do sucedido.

Num outro dia atípico e pouco recomendável,  tentei ocupar o tempo rodopiando entre jornais de outras paragens e foi aí, mais concretamente no The New Yorker,  que fui dar com o artigo cuja leitura recomendo e que aqui menciono:

Fernando Pessoa’s Disappearing Act


The mysterious masterpiece of Portugal’s great modernist.


By Adam Kirsch


Transcrevo o início do artigo: 
If ever there was a writer in flight from his name, it was Fernando Pessoa. Pessoa is the Portuguese word for “person,” and there is nothing he less wanted to be. Again and again, in both poetry and prose, Pessoa denied that he existed as any kind of distinctive individual. “I’m beginning to know myself. I don’t exist,” he writes in one poem. “I’m the gap between what I’d like to be and what others have made of me. . . . That’s me. Period.” 
In his magnum opus, “The Book of Disquiet”—a collage of aphorisms and reflections couched in the form of a fictional diary, which he worked on for years but never finished, much less published—Pessoa returns to the same theme: “Through these deliberately unconnected impressions I am the indifferent narrator of my autobiography without events, of my history without a life. These are my Confessions and if I say nothing in them it’s because I have nothing to say.” 
This might sound like an unpromising basis for a body of creative work that is now
considered one of the greatest of the twentieth century. If a writer is nothing, does nothing, and has nothing to say, what can he write about? But, like the big bang, which took next to nothing and turned it into a cosmos, the expansive power of Pessoa’s imagination turned out to need very little raw material to work with. Indeed, he belongs to a distinguished line of European writers, from Giacomo Leopardi, in the early nineteenth century, to Samuel Beckett, in the twentieth, for whom nullity was a muse. (...)
 E a sua conclusão:
In its alternations between self-loathing and self-exaltation, “The Book of Disquiet” can seem like a quintessentially manic-depressive epic. Pessoa’s achievement, deliberate or inadvertent, is to show how the roots of a certain kind of misery lie in solipsism—the belief that nothing outside the self really matters, so that the mind can never be truly affected by what it experiences. “Freedom is the possibility of isolation,” he writes in the final entry. “If you cannot live alone, then you were born a slave.” But even Pessoa, finally, could not live alone; he kept himself company by inventing his heteronyms, which, unlike actual people, would always remain under his control. Only death could free them—and him—from his imagination’s all too powerful grip. ♦

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E eu que, em diversos palcos da grande imprensa internacional, vou encontrando referências às maravilhosas praias de Portugal, aos melhores locais para fazer compras em Lisboa, aos lugares de charme onde ficar no nosso país... e por aí fora, dou por mim a pensar: mas querem lá ver que Fernando Pessoa ainda vai tornar-se um astro na literatura internacional? a literatura portuguesa vai ficar na moda? Eu, se fosse agente ou editora, sintonizava as antenas.

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Entretanto, para abrir o apetite aos distraídos.

"Educação Sentimental" --  Livro do Desassossego, Bernardo Soares

 

| Catarina Wallenstein



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Fernandinho e o seu bombonzinho e inconsumado amor: Ofélia
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Como se cada beijo
    Fora de despedida,
Minha Cloé, beijemo-nos, amando.
    Talvez que já nos toque
    No ombro a mão, que chama
À barca que não vem senão vazia;
    E que no mesmo feixe
    Ata o que mútuos fomos
E a alheia soma universal da vida.

[Poema de Ricardo Reis referido no artigo acima menionado]

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sábado, julho 15, 2017

Transforma-se o caçador na cousa caçada
[2º de 5 posts sobre fotografias feitas ao cair do dia na praia]



Transforma-se o caçador na cousa caçada, 
Por virtude do muito imaginar; 
Não tenho logo mais que desejar, 
Pois em mim tenho a parte desejada. 

Se nela está minha alma transformada, 
Que mais deseja o corpo de alcançar? 
Em si somente pode descansar, 
Pois com ele tal alma está liada. 

Mas esta linda e pura semideia, 
Que como o acidente em seu sujeito, 
Assim co'a alma minha se conforma, 

Está no pensamento como ideia; 
E o vivo e puro amor de que sou feito, 
Como a matéria simples busca a forma. 



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Onde acima se lê caçador e caçada, Camões escreveu amador e amada

Cena do filme "Lisbela e o Prisioneiro", na qual Selton Mello cita o poema de Luís de Camões "Transforma-se o Amador na Cousa Amada"

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sexta-feira, julho 31, 2015

Quem o feio ama, bonito lhe parece? Então amemos os feios. ON BEAUTY. Sobre a beleza: um chamamento à aceitação das diferenças.


No vídeo que coloquei no post a seguir a este, o entrevistador pede a Nicole Kidman que indique nomes icónicos da moda e ela responde: todas as mulheres fotografadas por Irving Penn, especialmente a sua mulher, Lisa Fonssagrives.


Lisa por Irving


De facto, se há fotógrafo que tenha feito imagens de rara elegância, esse fotógrafo é, sem dúvida, Irving Penn.




Mas nem sempre Irving se focou nas poses bem comportadas ou na beleza tradicional, nem as suas musas icónicas foram sempre inequivocamente perfeitas ou reverentes e obrigadas. Beyond beauty é prova disso ao provocar a nossa perplexidade e, por vezes, as nossas aquietadas consciências. As fotografias dessa série foram feitas entre 1949 e 1950 e, imagine-se, apenas foram expostas depois de 1980. A nudez e a estranheza eram, então, ainda mais inquietantes do que hoje.




É um fotógrafo cuja obra bastante aprecio e, de certa forma, pasmo como um homem nascido em 1917 e vivendo entre meios tão normativos em termos de perfeição, conservou a semente de irreverência, tão visível em tantas das suas fotografias.




Irving inovou de várias formas, muitas delas pela simplificação e despojamento que introduziu nas sessões fotográficas: usava fundos lisos, cinzentos, cenários angulares, modelos posando de cara quase tapada, etc. Vendo agora, à distância, ainda nos admiramos. Todo ele era criatividade, emoção e intuição.




Vários artistas das mais variadas artes posaram para Irving. Picasso foi um deles e, digo eu, deve ter amado as fotografias de Irving. Toda a sua argúcia, vivacidade e sensualidade estão no olhar que o fotógrafo agarrou e que irradia a partir do centro, ocupando (ie, iluminando) quase toda a fotografia.




Mas quero agora focar-me, sobretudo, no que é diferente: os cenários, as poses, os rostos que, mesmo diferentes, proporcionam a quem olha, momentos de fruição e beleza.

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You are my sister

(cantado por essa outra criatura diferente: Antony)



Para falar da beleza ou da fealdade, socorro-me de novo de Agustina, agora com Camilo como personagem in Camilo - Génio e Figura.


Camilo: Feio sou eu, senhora. A fealdade exprime uma malignidade anónima. Em Nápoles, quando se passa por uma pessoa feia como eu, pensa-se logo que vai haver desgraça em casa. Aquele que é feio escolhe as vítimas e dá-lhes um destino apropriado. Um destino terrível.

Vieira de Castro: Acreditas nosso?

Camilo: Acredito. O princípio que cria uma desgraça transmite-se aos outros.

Ana: Julguei que era esse o efeito da beleza. A beleza pode ter sido criada por um mau princípio. 


Camilo: O olhar dos outros descobre-nos a tara que nós cobrimos de talento e que queremos esquecer. Um feio provoca sempre um arrepio, mesmo naqueles que estão mais preparados. Adivinham a responsabilidade do feio, que é o de ser mau.

Ana: Isso comove-me. Vejo que está condenado ao mal.

Camilo: Sim, dona Ana. Condenado ao mal exterior: ao escândalo e à infâmia. Condenado ao mal interior: vergonha, inveja, sofrimento, desespero.


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Preconceitos. 
Outros tempos, os tempos de Camilo - ou talvez não. 

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Um artigo do The New York Times despertou há pouco a minha atenção. É um tema que me é caro: as diferenças, o direito à diferença, o direito à aceitação.

Changing Our Perceptions of Beauty

por  KAREN BARROW

What is beauty?


Christine, with albinism,
photographed by Rick Guidotti
Rick Guidotti, a fashion photographer from New York City, once defined beauty by supermodels, hairstylists, makeup artists and magazine covers, but a chance encounter at a Manhattan bus stop changed his perspective.

Mr. Guidotti saw a 12-year-old girl waiting for a bus with her mother. The girl had white-blond hair, eyebrows and lashes, pale skin and light eyes — the first time he had seen anyone with albinism. “She was gorgeous,” he said.

He searched medical textbooks for more photos of people with albinism, but the only images he found were of youngsters standing up against a wall with black bars over their eyes.

Sarah, 21, is a motocross racer
living with Sturge-Weber syndrome,
a developmental condition that causes
a port-wine stain to appear on the face,
along with possible seizures and vision issues.
Rick Guidotti
Mr. Guidotti then called a support group for people with albinism and made arrangements to photograph another girl with albinism, Christine, who would become the first of the many thousands of people with genetic and developmental conditions he would come to photograph.

“As a fashion photographer, I was always told what was beautiful, but I saw beauty everywhere,” he said.

His work evolved into a not-for-profit organization, Positive Exposure, and is currently featured in a new documentary, “On Beauty.” His aim: to transform perceptions of people living with genetic, physical and behavioral differences, both among the public and health care professionals. “We need to get rid of those black bars,” he said. “It’s not about what you’re treating, it’s who you are treating.


On Beauty: Early Trailer



Todos diferentes, todos iguais. Todos belos apesar de diferentes.

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Relembro que, já abaixo, poderão ver uma beldade respondendo de seguida a 73 perguntas. 
Podem achar que isso não vale nada; mas experimentem a ver se conseguem, 73 respostas de seguida, pimba, pimba, pimba.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa sexta-feira. 
Um dia feliz para todos, com muita sorte, com boas notícias, com muita esperança.

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quinta-feira, abril 02, 2015

A base de dados dos contribuintes está escancarada? A Autoridade Tributária é a casa da mãe Joana, entra quem quer e faz o que quer? Pois. Mas eu prefiro falar da Dame Helen Mirren, de novo brilhante como Queen Elizabeth II em The Audience. E na paródia com Jimmy Fallon.


No post abaixo divulguei uma curiosa e sugestiva campanha publicitária alertando para os riscos do sexo inseguro. Tem graça, alguma malícia e é muito útil.

Agora, aqui, estava com vontade de falar da bandalheira que para ali vai pela Autoridade Tributária que, de resto, é a imagem de marca deste governo indigente. Parece que ninguém sabe o que se passa em lado nenhum, mais parece que não passam todos de uma cambada que se abancou sem fazer ideia de a quantas anda, os serviços aparentemente sem rei nem roque, uma vergonha (ou melhor, uma falta de vergonha). Funcionários da Novabase, da Accenture, tarefeiros, estagiários, todo o mundo e mais alguém com via verde para acesso franco aos dados dos contribuintes. E ninguém consegue perceber se tudo se passa à revelia do Secretário de Estado, da Ministra e do Primeiro-Ministro ou se é tudo também uma cambada de mentirosos. 


Mas já nada disto me interessa, é tudo já demasiado pífio, um clima de fim de festa sem honra.

O desemprego está a aumentar e o Láparo diz que isso não o embaraça. Só tontices em que uma pessoa não sabe se são as palavras que ele usa que são mal escolhidas ou se é mesmo aquilo que ele quer dizer. 


E depois também a bandalheira do que se passou nas eleições da Madeira: parece que nada funciona e que ninguém é responsável, nem sequer consegue explicar o que se passa.


Por isso, vou dizer o quê? Pôr-me a remexer nesta bagunça? Não me apetece. Não gosto de mexer no lixo. 

Portanto, se não se importam, dou antes o palco a uma mulher de muito talento, Dame Helen Mirren.




No âmbito da promoção de The Audience na Broadway foi ao programa de Jimmy Fallon, The Tonight Show. E foi um show. O sentido de humor, a malandrice desempoeirada, o sotaque so posh (acentuado pelo hélio que aspirou), a capacidade de improviso são uma delícia, chegando a simular um discurso de aceitação do Oscar. 




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Já agora:


Helen Mirren em The Audience


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A campanha do pirilau graffitado é já aqui abaixo.

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