Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, setembro 30, 2019

Read my lips: a Catarina Martins é uma populista. Muito cuidado com ela.


Tenho a televisão ligada na RTP 1 e estão a passar imagens da campanha. 

A Cristas, com o seu séquito a reboque, anda pelas feiras e mercados e não sei se hoje algum militante do CDS terá dito o que disse no outro dia, que quer toda a ciganada a votar no PS. Aquela mulher não pode ser levada a sério. É alarmista, é desbocada, é despropositada, o pé está sempre a pedir-lhe chinelo. Desagradável.

Não vi nada no PSD. Não sei se o Rio estará a ver para que lado há-de aparecer virado na próxima aparição ou em que costas há-de espetar mais um punhado de facas ou se fui eu que estive distraída e não os vi em campanha. 

Vi o Jerónimo, digno como sempre, inteligente, com um discurso conciliador, civilizado. Posso não me identificar com a ideologia que têm no ADN mas reconheço no PCP um registo de parceria fiável. Já o disse e volto a dizer. Jerónimo de Sousa é um senhor. E só não escrevo senhor com maiúscula porque, apesar de simpatizar com ele, acho que também não é caso para o equiparar a Deus Nosso Senhor.

Vi o PS e estavam em Matosinhos, num espaço enorme, cheio de gente. Prestei relativa atenção ao Augusto Santos Silva e uma vez mais pensei que, apesar de ser uma pessoa inteligente, culta e de ser dono de um espírito suculentamente irónico, não faz bem o meu género. Ele gosta de uma boa polémica e de a agarrar com truculência. Seria uma boa pessoa para duelos aparatosos, supimpamente relatados por quem bem manejasse a pena. Só que os adversários de hoje não são gente de ir à luta de peito feito, são gente de falinha mansa, mamar doce. Por isso, não sei se o estilo Augusto Santos Silva terá a eficácia necessária.

E isso leva-me ao Bloco de Esquerda. Farejo perigo quando pressinto um populista. E esta Catarina tornou-se um concentrado de populismo. O que ela diz, naquela sua voz suave e bem cadenciada, é música para os ouvidos de quem a ouve. Se está numa terra em que fecharam serviços, ela diz que os quer abrir. Se for a um sítio em que a população tem rendimentos baixos, ela fala do apoio que o governo deu aos bancos. É como se uma foice tivesse cegado toda a compreensão económica e todo o sentido de responsabilidade que alguma vez pudesse ter tido e a única coisa que agora valesse fosse a palavra que cai bem. Se me vierem dizer que a reforma vai passar a ser aos cinquenta e que quem trabalhar mais do que isso receberá uma bonificação por cada ano a mais e se eu não fosse pessoa razoavelmente informada, se calhar também ficava cativada e me bandeasse para o lado dela. E o receio é este: que os menos informados caiam na esparrela das palavras ilusórias.

Além disso, tem mostrado ser desleal, uma pessoa que mostra querer o poder a todo o custo. Não era assim, ela. Dá ideia que lhe subiu o poder à cabeça. Ela e o Bloco a reboque dela. Tentam agarrar qualquer pessoa, até apelam ao voto nos descontentes do CDS (como, no outro dia, em Viana do Castelo). Ouço-os e fico arrepiada. Tomara que as pessoas percebam a tempo e lhes mostrem que em política não vale tudo. Este não é o Bloco do João Semedo. Nem o do Miguel Portas. Esta é uma degeneração, uma deriva populista. Já não são de esquerda nem de direita, são, simplesmente, populistas.

Aliás, estou em crer que um dos males do mundo e uma das maiores ameaças ao desenvolvimento sustentável e harmonioso dos países é a chaga do populismo.

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Entretanto, começou a entrevista ao Costa, na sede do PS, e a sua segurança e maturidade, a sua visão equilibrada e humanista e o seu vasto conhecimento da realidade nas suas diversas vertentes, confirmam porque é que vou votar no PS. Além do mais, pelos frutos os conhecemos.

quinta-feira, agosto 22, 2019

Pardal pela mão do Marinho a caminho de ser deputado?
Continuem a dar-lhe palco... continuem...


Do que se lhe conhece, acabou o curso há pouco tempo, está há pouquíssimo tempo inscrito na Ordem, há processos a correr contra ele por burla e mais não sei o quê.

A seguir abriu um escritório, fez-se fotografar ao lado do Marcelo e emoldurou a fotografia, fez um vídeo a divulgar o escritório, o maior do país, onde mostra a fotografia e onde não se põe com modéstias. E, vai daí, arranjou um cliente: um sindicato. Arranjou, não: criou. Criou um cliente. Criou o  sindicato. Criou o sindicato cuja morada é a do escritório, fez-se vice-presidente, porta-voz e assessor jurídico. E, a partir daí, tem sido uma festa.

Armou banzé, fez uma greve que lançou a confusão no país, fez tocar todos os sinos, as televisões sempre em cima, os coletes amarelos a apoiarem, as televisões em cima, os sindicatos existentes a sentirem-se a ficar com os pés no ar, e, de então para cá, não tem parado, sempre nos media, as televisões sempre a acompanhar, aceita uma coisa para logo vir dizer o contrário e querer mais mas sempre sob ameaça de greve, as televisões sempre em cima, o PSD e o Bloco de Esquerda ao lado dele contra o Governo -- como se, numa cena de sindicatos contra patrões, em que o Governo se preocupa em manter a normalidade no País, o culpado fosse o Governo e o herói fosse o dito Pardal -- e as televisões em cima, e, quando parece que as coisas vão entrar nos eixos, eis que o Pardal quer mais baderna e mais palco e marca nova greve e as televisões sempre em cima, sempre, sempre em cima. 

E assim, com a ajuda das televisões e o apoio dos totós e dos distraídos, eis que o Pardal vira astro.

E eis que, num novo golpe de ilusionismo, sai à cena outro populista, um demagogo-encartado, o Marinho -- que fala muito, muito alto, e tem a particularidade de não dizer nada -- e resolve fazer aquilo que se anunciava: mais palco ao Pardal. Desta vez, upa-lá-lá, um upgrade para o Pardal, um colinho para o fazer saltar para a política. Efe-erre-á. Á.

E eis que, de repente, num ápice, com aquele ar blasé de quem não tem nada a ganhar, o Pardal aparece nas televisões e, mostrando à saciedade que para ele vale tudo, eis que já é o verdadeiro arauto da liberdade e da democracia, a verdadeira voz do 25 de Abril, aquele que irá restituir ao povo os valores de Abril, que irá acabar com a corrupção no Parlamento, que irá devolver Abril aos portugueses. Alé-cui-alé-cuá. Xiripitá-tá-tá-tá.

E o que, em boa hora, vos digo é que se as televisões continuarem a andar sempre, sempre, em cima, o Pardal vai morder a mão que o Bloco lhe estendeu e, por muito que o Bloco, uma vez acordado, perceba o que se está a passar e queira denunciar o perigo da serpente que se esconde debaixo daquele corpo de ouriço bronzeado, poderá ser tarde demais.

E mesmo o PCP, que tem andado entretido a atacar o PS e a marcar posição junto de um eleitorado cada vez mais envelhecido, irá perceber que o linguajar populista do Pardal -- que irá prometer todos e mais alguns amanhãs que cantam -- terá mais efeito junto dos que se deixam encantar por qualquer serpente do que a sua forma de falar já muito datada.

Portanto, um alerta aos jornalistas, em especial aos da televisão: parem de entrevistar o Pardal, deixam de o chamar para as televisões, deixem de falar sobre ele, ignorem-no, tirem-no, o quanto antes, do palco, apaguem os holofotes, esqueçam-no.

Percebam que, a bem do País, há um mantra a ter sempre a bailar nas vossas cabeças: 

Cortemos o pio ao Pardal.


Eu, pela parte que me toca, só o trago aqui para o denunciar e tudo o que diga será pouco. Read my lips. Cuidado com o Pardal.

quarta-feira, agosto 14, 2019

Santana Lopes está a disputar o lugar a Pedro Pardal Henriques?
Cinco motoristas no piquete e os dois candidatos a estrelas populistas a tentarem brilhar para as câmaras...
Se o ridículo desse asas talvez ainda pudessem servir para drones. Assim servem para quê?
Ah, é verdade: o Pardal e o Ouriço serão gémeos separados à nascença?
Pergunto.


Acabei de ver na televisão o recibo de um motorista. Mil setecentos e não sei quantos euros por mês. Desses, mil cento e não sei quantos são sujeitos a descontos para impostos e segurança social. Acresce ao que recebem, mais seiscentos e tal 'limpos' que se referem a ajudas de custo para fazerem face a despesas com deslocações e estadias o que, a referir-se mesmo a este tipo de despesas, obviamente não é sujeito a descontos. Do que percebo, a luta resulta de quererem que os descontos e contribuições incidam também sobre estes seiscentos e tal limpos pois, segundo o Pardal, não tem a ver com ajudas de custo mas com outras verbas pagas 'debaixo da mesa'. Como sempre, o Pardal nunca mostra provas. Tudo na base das bocas. Mas, portanto, para receberem mais dinheiro no final do mês apesar de descontarem mais, os sindicalistas reivindicam aumentos completamente acima das percentagens normais (cerca de 1% ao ano são os aumentos que se costumam agora praticar -- e é quando é). E querem aumentos valentes sobre o salário base já que os subsídios decorrentes aumentariam também. E as reivindicações não são à leão só a esse nível: são reivindicações a la longue, para os próximos anos. Coisa nunca vista. Uma greve para reivindicar aumentos para os próximos anos? Nunca vi tal coisa.

E repare-se: não questiono que o que é tributável deve ser tributado. A lei é para cumprir por todos. Nem questiono o valor do ordenado em si. Não sei se o ordenado global mensal deve passar dos (1.100 + 600)/mês para os 2.200 ou, até, para ordenados à juiz, acima do ordenado do primeiro-ministro. Não questiono porque não tenho informação que me permita proferir uma opinião. Há que pensar bem no que se diz, ter uma noção da equidade, pensar no equilíbrio geral das partes envolvidas num sistema económico. Quem me diz que um trabalhador de recolha do lixo não é igualmente crítico e não deveria ganhar tanto como um destes motoristas ou que um trabalhador que faz a manutenção das condutas de água de abastecimento público não deveria ganhar tanto quanto um deputado? Eu gostaria de ganhar três vezes o que ganho e acho que toda a gente gostaria de uma coisa assim. E quem diz três vezes, diz quatro ou cinco ou dez. Só que ou os preços de venda das coisas teriam que ser incrementados à grande ou grande parte das empresas iria à falência. E, se os preços fossem incrementados à grande, ou toda a gente era aumentada na mesma proporção ou quem o não fosse ficaria na maior penúria, sem acesso a grande parte dos bens.

Por isso, esta matéria não é para conversa de café: é para ser estudada a sério, para elaborar estudos comparativos, estudos económicos. E tem que haver um grande sentido de justiça e de humildade. Se toda a gente desata a achar-se a maior e a querer aumentos principescos sem querer saber dos outros, está bem, está.

Alinhar em conversas de coitadinhos, em que todos se acham injustiçados sem querer saber dos que estão ao lado é assassino para uma sociedade. Leva a extremos como o da sanguinária greve selvagem às cirurgias em que a bastonária dizia, com naturalidade, que sim, que a greve iria aumentar o número de mortes. E é como aquele argumento bacoco de que se devem dar todos os aumentos que qualquer um se lembre de reivindicar em vez de se acudirem a um banco com problemas. E falam como se os bancos fossem antros de corrupção e quem lá trabalha todos uns malandros e corruptos. Então deveria fazer-se o quê? Deixar o banco ir à falência? As milhares de pessoas que lá trabalham tudo para o desemprego? Os depositantes ficarem a arder, perdendo tudo o que são poupanças acima da linha de garantia? Poupanças de uma vida? 
Claro que, se sempre que se suspeite de gestão deliberadamente danosa e/ou criminosa, deverá haver investigação e, se for caso disso, julgamento e, se tal assim determinado, condenação. Mas isso é investigar actos individuais. Outra é falar em geral e quase clamar que se deve deixar os bancos ir à falência, deixando, assim, cavar um fosso no sistema económico e financeiro do país. Só gente mal informada ou mal formada pode clamar assim. E, ainda por cima, misturar isso com reivindicações de motoristas... Só pode ser verdadeiros demagogos os que assim falam.
E como os patrões não cederam às exigências dos motoristas, vai daí uma greve por tempo indeterminado e o país que se lixe. E é isso que questiono: o formato egoísta desta luta e desta greve por tempo indeterminado e a desproporcionalidade das suas consequências. O sindicalismo deve ser um movimento solidário entre trabalhadores e não uma agremiação de corporações auto-centradas, auto-exclusivas, egoístas e brutais.

Um sindicalismo como este é assassino para os trabalhadores.

E isto tudo com os motoristas a toque de caixa do Pardal que, nitidamente, está nas sete quintas. Com as televisões sempre em cima, todo ele rejubila. Tem todo o palco para espalhar a confusão à vontade. 

Mas há quem lhe dê ouvidos
(Foto daqui)
Desta vez não apareceu no Maserati. Não senhor, gozão, provocador, desta vez o Pardal apareceu de trotineta. Do que se percebe e do que se vê nas televisões, a sua ocupação a tempo inteiro é esta, andar a cavalgar e a incentivar as reivindicações dos motoristas, armando toda a baderna possível. Não vou aqui especular de onde lhe vêm os rendimentos que não tenho nada a ver com isso e, de resto, para essas investigações há gente competente que, certamente, andará a tentar perceber o que, visto de fora, não se percebe.

Dois artistas: Pardal e Flopes
(Creio que a foto é do Observador)
Agora o que é extraordinário é ver o Bloco de Esquerda a apoiar este Pardal e, ao mesmo tempo, o Santana Lopes a aparecer no piquete a apoiar aquela meia dúzia que por ali ainda tenta salvar a cara. Dando uma no cravo e outra na ferradura, sem se perceber bem qual a dele a não ser querer aparecer, Santana fez mais um dos seus papelinhos ridículos. A oferecer-se para mediador? Estará mesmo a pensar que consegue roubar o mediatismo ao Pardal? Ná. Menino do coro ao pé do Pardal. Teria que fazer flic flacs à retaguarda em cima da trotineta, teria que perder a pouca vergonha que lhe resta, teria que perder aquele ar blasé de velha rata do laranjismo, teria que andar por todos os caminhos onde o Pardal se meteu e que, ao que se lê por aí, lhe valeram processos de burla e mais não sei o quê. Portanto, Caro Santana, caia na real. Escolha causas que sejam mais a sua praia. Por exemplo, ajude a formar um sindicato independente de cabeleireiras e manicuras, apresente um caderno reivindicativo e vá para a rua rodeado de profissionais das extensões e das nails. Isso, sim, seria mesmo a sua cara.

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Tirando isso, uma questão de fundo: o Ouriço e o Pardal serão gémeos separados à nascença?

[Se não estão bem a ver, ponham uns óculos ao ouriço que logo vêem se não é a cara chapada do mano pardal]







terça-feira, agosto 13, 2019

O que pretende Pedro Pardal Henriques?
Lançar a confusão no País? Abrir espaço à limitação dos direitos dos trabalhadores?
Ou isto não passa de rampa de lançamento para ir armar confusão na campanha eleitoral? E, a seguir, na Assembleia da República?
Corremos o risco de, um dia destes, o termos a desgraçar e a envergonhar Portugal?
Pergunto.


O mal de gente assim é que não tem limites. O normal pudor e o respeito pela verdade com pessoas assim não existem. 

Trump todo contente e galhofeiro
enquanto a mulher pega ao colo um bebé orfão,
cujos pais foram assassinados no tiroteio de El Paso

Veja-se o Trump. Não têm conta as insensibilidades que pratica ou as mentiras que já disse desde que é Presidente. Diz mentiras absurdas. Logo a seguir a comunicação social prova que mentiu, o mundo inteiro troça. Mas ele, descarado, diz que as denúncias das suas mentiras são fake news. E as pessoas que o apoiam, apesar de ele ser racista, misógino, xenófofo e sobejamente ignorante, continuam a apoiá-lo, diga ele as barbaridades que disser.

É como o Bolsonaro. É tão básico, tão ignorante, diz coisas tão ridiculamente absurdas que quem o ouve e tem dois dedos de testa pasma. E, no entanto, em vez de perder 100% de apoio no dia seguinte, continua a ser apoiado. Quem votou nele perceberá agora em quem é que votou?


Apoiam esta gente as seitas que odeiam a democracia, a liberdade, a inteligência, a cultura, o direito à igualdade de oportunidades, seitas estas que assentam em interesses escusos, que sobrevivem à custa da corrupção e da exploração dos ignorantes, dos indefesos e dos medrosos que, regra geral, também os apoiam. Numa fase incipiente apoiam-nos ainda os partidos ditos de esquerda popular, pequenos partidos que alavacam o seu crescimento em conversa simpática, igualmente próxima do populismo, partidos sem um verdadeiro programa de governação e que são abstractamente do contra, em especial contra esse vago cadavre exquis composto por ricos e poderosos que serve para adubar qualquer discurso demagogo.

Toda esta gente sinistra chega onde chega com base num linguajar que toda a gente percebe, palavras simples, conversas básicas, com base em aldrabices ditas num mamar doce, como se defendessem os trabalhadores, como se fosse contra os políticos em geral, contra os ricos e poderosos, contra os bancos, como se estivessem ali para defender os pobres, ao lado dos explorados contra os corruptos e os compadrios. E a malta, cansada e de cabeça feita pela comunicação social, acredita e vai na conversa deles. A malta não vê que aquilo é conversa de tipo música para ouvidos ingénuos, não percebe que aquilo é pura demagogia, não vê que aquilo espremido vale zero. E não vê que, uma vez instalados, começam a nomear os filhos e os genros para toda a espécie de cargos mesmo que não tenham as competências mínimas e façam o mundo sofrer de vergonha alheia.

Ivanka, a filha de Trump, feita emplastro, a meter-se na conversa de gente que nem quer acreditar naquilo


Abaixo, Caetano Veloso perdido de riso com a entrevista, na Fox, ao filho de Bolsonaro (possível embaixador dos Estados Unidos que apresenta como credenciais o ter experiência de mundo e o ter fritado hamburgueres nos States)


E nem falo do Salvini, esse falso bon vivant que vai fazer comícios na praia, que (literalmente) dá música e que, com a mesma cara de pau, manda prender quem tenta ajudar os que estão à beira de naufragar. Matteo Salvini não descansará enquanto não estiver à frente de um governo de ultra-direita. E que, claro, está a contar com o apoio de Bannon.


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Vamos ver onde estará Pedro Pardal Henriques daqui por uns anos
(isto se estiver em liberdade, claro)

quinta-feira, agosto 08, 2019

Contra os Pardais tóxicos e manhosos desta vida, contra os Bolsonaros, Trumps, Salvinis e outros racistas, xenófobos e estúpidos que tais, contra os Bannons e outras úlceras purulentas, contra os nazis, fascistas e ultra-direitolas que por aí ensaiam perigosos regressos:
que as crianças se levantem e façam ouvir a sua voz.
Podem chamar-se Greta, Malala, Emma, Bana.
Podem até chamar-se apenas Emanne Beasha


Defendo o direito à greve. Quando a um trabalhador nenhuma outra forma de luta resta, que use a da negação ao trabalho é mais do que justo. É direito que deve ser defendido com unhas e dentes.

Contudo, uma greve é uma luta contra um patrão com quem se quer chegar a um acordo. Uma greve não pode ser um acto de chantagem. Quem faz greve não pode (ou, se pode, não deve poder) fazer gente inocente refém das suas lutas. Isso é cobardia que não pode ser perdoada.

Claro que uma greve terá sempre alguns efeitos colaterais mas os efeitos colaterais não podem ser desproporcionais. Por exemplo, a greve às cirurgias dos enfermeiros que, para ganharem mais, colocaram em risco a vida humana foi abjecta.

in TSF
A anunciada greve dos motoristas que, para garantirem aumentos para daqui por dois e três anos -- aumentos que nem vou comentar -- e que assentam toda a sua reivindicação numa manipulação de conceitos e deturpação de números, pretendendo paralisar o país parece-me selvagem (sim, Paulo e JV, selvagem).

Nada naquela greve é razoável, proporcional, admissível. Mais: tenho para mim que há por ali mão de quem quer desestabilizar a democracia. Mão de quem quer que o país se revolte e exija o fim do direito à greve. 

in BBC

E mais: tenho para mim que, perante Pardais e quem, se calhar, está por trás de tudo isto, a malta que ingenuamente se agarra a purismos como a intransigente e cega defesa do direito à greve, defendendo esta seita, não faz outro papel que não o de meninos do coro.

Não digo que todos os motoristas deste sindicato que se construíu em torno do Pardal fazem parte de uma 'seita'. Não, não estou a dizer isso. Haverá ali muito boa gente simplesmente deslumbrada com tanto mediatismo, gente iludida com o poder de parar um país, quiçá até um ou outro simplesmente ingénuo. Mas o Pardal e mais uns quantos é gente que, se fosse eu decidir, a bem da democracia, manteria debaixo de olho.

E digo ainda mais: a bem de preservação do nosso regime democrático, um regime que a tão duras custas foi conquistado, é bom que se pense bem nos limites que devem ser postos ao recurso à greve para se evitarem greves selvagens que são verdadeiros atentados contra a democracia.
Por exemplo: podem os trabalhadores estar em greves de prazo indeterminado financiando-se sabe-se lá como e auferindo, nesse interim, rendimentos fiscalmente isentos? Podem uns quantos trabalhadores causar prejuízos a outras entidades que não os seus patrões e em montantes desproporcionais face ao que esperam atingir? Podem uns quantos trabalhadores pôr em causa a vida humana? Podem uns quantos trabalhadores paralisar um país? Etc.
Penso que, a bem da defesa dos direitos dos trabalhadores, tudo isto deve ser seriamente analisado, sem pruridos, sem tabus. Read my lips: meninos do coro é do melhor que há para os Bannons desta vida paparem ao pequeno-almoço.

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in The Guardian

E quanto às enormidades  potencialmente assassinas e aos incitamentos racistas, homofóbicos, xenófobos, cretinos e populistas dos Bolsonaros, dos Trumps, dos Salvinis e de outros merdosos desta vida -- gente inculta, estúpida, ignorante, mesquinha, gente que o povo elegeu (em alguns casos por aritméticas duvidosas -- mas não interessa, foram eleitos) -- o que tenho a dizer é que, de cada vez que se dá corda a quem faz levantar descontentamentos populares se está a abrir a porta a gentalha dessa, gentalha que há-de devorar aqueles que neles votaram. Não neutralizar gente perigosa é deixar que levem o país à beira de uma crise de nervos, a malta toda pronta para acolher de braços abertos um qualquer herói que se anuncie como o grande salvador da Pátria.

Se depois de um Obama pareceria impensável haver um Trump, ponhamos os olhos nessa improbabilidade e não descuremos a probabilidade de, por manipulação, má informação, revolta ou descontentamento, os portugueses virem um dia também a eleger uma qualquer besta quadrada.

Por isso, não é por alguns ditos 'sindicalistas' usarem a palavrinha sagrada 'greve' que devemos, nem por um segundo, defender gente sinistra como os Pardais desta vida.


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Presumo que, percebendo o isolamento em que se encontram e com uns serviços mínimos que os deixam expostos ao ridículo, estas espécies de agremiações que se auto-intitulam 'sindicatos' venham, por ora, a meter a viola no saco. Mas não subestimemos o poder do Pardal e de quem o apoia ou suporta nem o dos que andam pelo meio das claques, no meio dos motards, em torno de Chegas e Bastas, em manifs de ultra-direitas e tretas dessas. Não subestimemos.


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E, tirando isso -- e mais para desanuviar do que outra coisa -- tenho ainda outra coisa a dizer. Não tenho o mínimo de paciência para crianças armadas em adultas, meninos e meninas todos cheios de nove horas. Zero. Mas tenho a máxima admiração por crianças que nascem corajosas, que enfrentam selvajarias, guerras, perseguições, iliteracias, que sabem impor-se a adultos, lutando por ideais que deveriam ser os de todo o mundo. 


Ouçamos os jovens, apoiemos as crianças, deixemo-los que encabecem lutas a que nós, adultos, miseravelmente fechamos os olhos.

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E para este post não ser não apenas grande demais mas também um bocado sisudo, acabo com uma menina de dez anos que tem um rosto de anjo e uma voz de deusa. Chama-se Emanne Beasha e o Jay Leno festejou-a com um justíssimo Golden Buzzer. É verdadeiramente do além.



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Até já.

terça-feira, julho 23, 2019

Sobre os pascácios que dizem mal de tudo e que apoiam Trump e todos os outros que tais.
[Mais uma paródia do impagável Randy Rainbow]


Ouço o Presidente da Câmara de Mação, a típica esperteza saloia, fazendo de conta que, nas suas funções, não tem nada a ver com o cumprimento dos regulamentos relativos à limpeza dos terrenos e com a protecção civil na sua autarquia, e, todo lampeiro, a apontar o dedo ao Governo -- e pasmo com o palco que os tontos dos jornalistas lhe dão, não havendo um que tenha a presciência de lhe perguntar: 'Ó, faz favor, mas isso não é incumbência sua?'

Nada. Uma corrente de parvoíce: esperteza saloia, o acusador; totós, os que o ouvem; palermas, os políticos de meia tigela que cavalgam a onda da estupidez e, sem saberem do que falam, juntam a voz aos acusadores. E assim vai engrossando a chusma dos descontentes, descontentes e desinformados, que nem se lembram de condenar os incendiários porque o que tem mais sainete é acusar os políticos, de preferência os de Lisboa. Porque condenar os autarcas labregos que falam muito e não fazem nada isso também não é sexy, o que é sexy é acusar os outros, os que estão longe do povo, lá em cima.

Até que, um dia, um qualquer saloio que a malta conhece bem das televisões -- quiçá um daqueles comentadores de futebol, um dos que diz as verdades todas, seja lá o que isso signifique no mundo dos comentadores de futebol --  aparece a dizer coisas com ar muito convicto, a dizer que:
  • também é contra os políticos -- e, se forem dos que se sentam Lisboa, então, nem vê-los 
  • e que está ali para devolver o poder às pessoas, 
  • e tornar o país grande outra vez, 
  • e nada de imigrantes nem de perigosos esfomeados, 
  • e mulheres feias nem vê-las, que a essas nem dá vontade de agarrá-las pela pussy, 
  • e homens que têm a mania que são inteligentes, esses que voltem para os seus empregos de porcaria e deixem trabalhar quem quer ajudar o povo. 

E a malta, que gosta de dizer mal de tudo, vai acolher de braços abertos esse salvador da pátria, um igual a eles, um que também diz mal de tudo, e por mais porcaria que faça, aí estarão a defendê-lo. E, sempre que saírem notícias a denunciar o chauvinismo, a xenofobia, a misoginia, o racismo e a estupidez encartadas da criatura, saltarão a pés juntos para defender o seu ídolo porque tudo o que se diz são fake news
E, claro, também acabarão por achar que isso do planeta é treta, aquecimento global my ass, e, se for preciso, defenderão também que a terra é plana e que isso da evolução das espécies é puro charlatanismo, sendo Darwin o charlatão-mor.
E o que desejo é que, se tal desgraça um dia nos vier bater à nossa porta -- porque ter tanta gente a eleger e a defender alimárias como o Trump ou como o Bolsonaro é uma verdadeira desgraça -- nos apareça alguém tão frontal e tão divertido como o Randy Rainbow.



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domingo, maio 26, 2019

Foi um bom fds cá por casa: Sporting no sábado, PS no domingo
[E avanço já com um ou outro comentário às projecções conhecidas]


Podendo parecer que não, sou muito prudente nos meus festejos: no que se refere às eleições, ainda quero ver os resultados eles-mesmos. 

Para já só quero dizer que:

1 - Quanto à Final da Taça:

a) Como só entrei na sala para dar sorte para o último penalti (estive a ler o jornal noutro lado), só posso comentar a emoção do Varandas e a tristeza do Sérgio Conceição que só foi maculada pela sua falta de educação ao não cumprimentar o vencedor. 

b) Também pude testemunhar a alegria do meu marido a gritar ao telefone 'Viv'ó Sporting!' e o menino mais crescido, do outro lado, a cantar, todo contente. E senti-me contagiada.

2 - Quanto às projecções dos resultados das eleições em Portugal, só posso dizer que:

a) Lamento a abstenção e lamento a nula intervenção da Comissão das Eleições que deveria ter exigido aos partidos que, em vez de fazerem figuras tristes, fossem elucidativos e convincentes junto dos eleitores. Há instituições que são tão inertes que, se é para serem assim, mais valia não existirem que outros fariam melhor o seu papel (o Banco de Portugal é outro caso mas isso agora não interessa para nada)

b) Acho um piadão aos resultados esperados para o PSD e para o CDS que andaram armados em vizinhas intriguistas, inventando que as coisas estavam a correr mal ao PS. Um piadão. Não me admiro nem um bocado mas terei pena se as percentagens reais não forem ainda inferiores aos das projecções. O PSD e o CDS, antiga PàF, já provaram que não sabem estar no poder nem na oposição. Estão desadaptados a estes tempos. Tudo o que fazem, fazem mal. Na verdade, temos que reconhecer que já não contribuem com nada de relevante para a sociedade. No entanto, ressalvo que isto que digo, digo-o em geral, em relação à orientação e à praxis dos dois partidos. Contudo, tenho ouvido dizer que há um deputado europeu do PSD que é muito bom. Chama-se José Manuel Fernandes e, a ser verdade o que conhecidos meus afiançam, espero que seja eleito.

c) Curioso, muito curioso, é o que se espera para o PAN. Não se lhes ouve nunca nada e afinal agora isto. De resto, quando preenchi aquele questionário, percebi que, sem o saber, na volta, estou perto deles. Ignorância minha que desconheço ao que vêm e se são gente estruturada e competente. Mas acharei também um piadão se, qualquer dia, o PAN valer mais que o CDS. A Cristas, toda cheia de cagança, armada em rã que se imagina um boi (sendo mulher, deveria dizer 'vaca' mas, enfim, não quero ser deselegante), a serem verdade as projecções, leva um balde água fria pela cabeça abaixo que só pode fazer-lhe bem. Ao Nuno Melo isso é capaz de lhe estragar o penteado mas azarinho, falta-me a capacidade de sentir solidariedade quanto ao penteado do agricultor Melo.

d) Será bom o resultado do BE se a projecção bater certo. Até pode ser que ela seja uma boa deputada europeia, não digo que não, não sei. Mas uma coisa sei: Marisa é a versão feminina do Marcelo. Muito afecto. Muito abraço. Muito beijinho. Presumo que, mais do que a intervenção política real do BE, seja o efeito 'afecto' de Marisa que tenha alavancado esta votação nela. Além disso, a Catarina Martins pode ter forte e preocupante pendor populista mas sabe exprimir-se bem, camuflando o populismo com uma conversa que aparenta moderação. 

e) Se for verdade o resultado do PCP, tenho pena. Não me identifico com o conservadorismo e com uma linguagem e uma visão antiquada do mundo mas reconheço a honestidade dos comunistas e a honradez com que respeitam compromissos. Mas pecam por muitas coisas (por exemplo, o que tenho sabido do mau perder do PCP na Câmara de Almada que perdeu para o PS incomoda-me pois temo que não tenha só a ver com o mau feitio do ex-presidente mas com uma postura ressabiada do partido). Independentemente disso, tenho pena que o PCP venha perdendo relevância de uma forma tão continuada. Não têm sabido adaptar-se aos novos tempos. Até a malta nova tem uma conversa muito agarrada ao passado. Ou percebem isso, ou não tarda estão com zero deputados no Parlamento Europeu.

f) Fico contente que o PS ganhe e gostava que a contagem de votos situasse o partido com um resultado na banda superior das expectativas. Seria justo. Significa que a maioria dos votantes reconhecem o valor do trabalho e da visão do PS. É bom que agora não se deslumbrem, que trabalhem muito, que trabalhem mais, que se limpem de amiguismos, que se limpem de ovelhas ranhosas que ainda existem aqui e ali. Um bom trabalho e uma visão aberta ao futuro não devem ser maculados por casos que sujam a barra dos socialistas.

g) Fico contente que em Portugal estejamos longe do pesadelo de outros países em que a extrema direita e os nacionalismos ameaçam perturbar o equilíbrio e o desenvolvimento europeus.

E só espero que, de facto, Costa consiga mobilizar uma geringonça europeia, unindo-se com quem puder unir-se, por forma a erguer uma barreira ao avanço da extrema direita e dos nacionalismos que ganham força na Hungria, em França, em Itália, em Espanha e... e... e...

E fico também contente se se confirmar que os Verdes, os defensores do planeta, da ecologia, do respeito pela qualidade de vida saudável, inclusiva e sustentável ganhe expressão.

Quanto ao resto, vou esperar pelos resultados.

quarta-feira, maio 15, 2019

O Expresso de sábado passado: belos textos
de Pedro Mexia [As bruxas de Allen],
de Tolentino de Mendonça [A mais antiga flor do mundo],
de Ricardo Costa [Um dia a casa vem abaixo]
e até, imagine-se, um bom editorial de João Vieira Pereira [E sobre a educação nada?]


Já no outro dia abordei o tema; agora vou falar dele.

Desde que me conheço, sempre que ia de férias e parávamos na estação de serviço para atestar o depósito, eu comprava uma revista. Comprava a Vogue ou a Art et Décoration, cheguei até a comprar a Hola. Era o que, no escaparate, mais chamasse a minha atenção. Apesar de ir sempre carregada de livros, as férias tinham sempre que começar com uma coisa atípica e ligeira.

Agora, para quatro dias em Lagos, foi a mesma coisa -- só que desta vez a coisa atípica e ligeira foi o Expresso.

Depois de ter sido fiel leitora durante mais anos do que aqui seria decente confessar, fartei-me: o Expresso tornou-se pasquim, coisa sectária e nada rigorosa, instrumento ao serviço de uma agenda que a mim me desagradava demais.

O meu marido desistiu antes de mim. Passei a ser eu, sozinha, a dar a volta àquilo, e cada vez mais contrariada; por fim um exercicio que já mais parecia puro masoquismo. Até ao dia em que decidi: nunca mais. E mandei o Expresso catar-se. Depois disso abri umas duas ou três excepções. E este sábado foi uma delas. Não só, como sempre, me apetecia algo como fiquei curiosa com a capa da Revista: aquilo do Bannon interessou-me. Esta sinistra criatura intriga-me (e assusta-me).

O meu marido é mais firme e radical que eu, recusa-se a tocar no Expresso. Eu sou mais moderada nas minhas antipatias.

Ainda não li tudo e creio que não lerei pois, ao espreitar algumas colunas, vi que continua a ser mais do mesmo, conversa vazia, conversa mascarada de coisa de jeito, treta, manipulação, ainda a mesma desagradável manipulação. Encolhi os ombros e passei à frente.

Mas, verdade seja dita, eu que sou céptica, e ponham céptica nisso, sobre o João Vieira Pereira -- jornalista que se especializou em avisar que vem aí o lobo e cujos ódios de estimação frequentemente toldam a sua capacidade de isenção -- até gostei de ler o seu editorial sobre a crise dos professores ('E sobre a educação nada?'). Fui até ao fim a ver quando é que apareciam aqueles seus velhos tiques de sectarismo mas cheguei ao fim a pensar que alguma coisa nele mudou. Na volta, está mais homenzinho, já vê as coisas de uma maneira mais esclarecida, aprendeu a sobrevoar a espuma e a olhar melhor para a raiz das coisas. Não sei. Não é por um editorial que posso tirar conclusões mas lá que me espantei, espantei. 

De qualquer maneira, concentrei-me na Revista que é aí que habitam aqueles de que mais gosto, e, tenho que confessar, gostei do que li. Sobretudo o Mexia, o Tolentino, e, surpresa das surpresas, o Ricardo Costa. É que, se não me admirei de gostar do Mexia ou do Tolentino, a verdade é que pasmei com a qualidade do artigo do Ricardo Costa.  

E, embora ainda mantendo severas reservas mentais, tenho a dizer que gostei de matar saudades dos bons velhos tempos.

Se um dia me der para isso ainda aqui hei-de transcrever um pouco do texto do Pedro Mexia sobre a perseguição a Woody Allen, 'As bruxas de Allen', texto no qual me revi, e também sobre o belo texto escrito pelo Pde. Tolentino de Mendonça e dedicado a Maria Teresa Horta, 'A mais antiga flor do mundo'

E gostava de ter coragem e tempo para aqui fazer um resumo do bom artigo de Ricardo Costa , 'Um dia a casa vem abaixo' mas temo que isso nunca aconteça pois é um texto longo e todo ele suculento. 

E para atestar a sua qualidade conto-vos que no outro dia à tarde, à beira da piscina, estive a ler o artigo em voz alta e o meu marido, interessado do princípio ao fim, a ouvir. E, volta e meia, interrompíamos para comentar. No fim, ele disse: 'Ora aqui está uma boa coisa: tu lês em voz alta e eu ouço'. E eu disse: 'Ser a tua diseuse, querias...'Mas a verdade é que gostei da experiência. 

Não sei qual a prática do Expresso, se ao fim de algum tempo, os conteúdos exclusivos a quem tem assinatura ou compra em papel ficam abertos. Se ficarem, sugiro a sua leitura. 

Os riscos do populismo, as manobras dessa criatura tenebrosa que dá pelo nome de Steve Bannon, agora apostada em destruir o edifício europeu, as emergentes figuras de ultra-direita em ascensão no panorama político e que ameaçam dinamitar o frágil equilíbrio existente entre os partidos com assento parlamentar, tudo ali aparece fundamentadamente descrito. 

Tinha-me esquecido que Ricardo Costa era jornalista. Afinal é e, se se mantiver como se mostrou neste artigo, arriscarei dizer que é dos bons.

segunda-feira, abril 29, 2019

Este corpo





Isto para dizer que, tendo eu decidido firmemente fazer dieta, no outro dia, quando fomos lanchar, toda a gente a pedir tostas, sandes, torradas, e vou eu, sentindo-me tão doente, achei que deveria ser compensada com uma doce excepção e, vai daí, para mim pedi uma tarte de limão merengada e, para curar a doença e para fazer pendant com o boloum carioca de limão. O meu filho admirou-se: 'Mas não estavas a fazer dieta?'. Claro que estava.


Entretanto, depois de uns dias em cura de sono e a viver como que numa twilight zone, à vinda, o meu marido foi simpático e percebeu que eu estava carente de algo. Ou seja, perguntou: 'Queres ir comer um gelado?'. Respondi que, estando eu em rigorosa dieta, só ia abrir excepção por ele estar a insistir tanto. Ele ainda me tentou: 'Vê lá, se preferires, não vamos' mas eu não mordi o isco. Claro que fomos. Ou melhor, fui eu que ele não quis. Quando ia a entrar na gelataria pensei que ia ser só uma bola mas, quando pedi, o que me saíu foi: 'Cone de duas bolas'. Mas logo caí em mim. E, portanto, acrescentei: 'Cone sem açúcar' e, por caridade, abstive-me de me achar ridícula. 


Mas depois, enquanto me lambia com ele, ia pensando que, a partir de agora, é que ia ser. E vai. Macacos me mordam se não vai. Saladinhas, hidratos de carbono = bola, açúcar nem vê-lo, nem pintado, nem disfarçado de frutose.
Claro que isto do peso é uma quimera. Tenho colegas que fazem de tudo para engordar: comem papas, iogurtes gordos e açucarados, pão com marmelada e, para inveja global de todas as outras, mantêm-se elegantes de dar gosto. Mas elas não gostam: gostavam de ter chichinha, um pneuzinho que lhes enfeitasse o abdómen, umas maminhas mais salientes. A minha mãe, por exemplo, também pode comer de tudo que não muda de peso. Eu, desde que entrei na menopausa, é o contrário. Só de me apetecer um belo risotto já o meu cérebro interpreta que vêm aí calorias a mais e, por avanço, já começa a processá-las e a alojar gordurinhas a mais um pouco por todo o lado. E não que esteja muito gorda. Há quem ache que estou bem. Mas isto cada um compara-se com quem quer e eu comparo-me com o que era antes. Pode ser um disparate, pode ser que não se consiga nem faça sentido. Mas não quero saber. Tenho para mim que é uma questão de disciplina, de aritmética: não ingerir mais calorias do que as que consumo. E até atingir o ponto de equilíbrio, ingerir menos do que as que consumo. 

E estou a escrever isto e a pensar que não devo é estar boa da cabeça para, em noite de eleições em Espanha e com o galã do Vox, um cavaleiro vindo dos tempos de antanho, a marcar pontos, estar aqui nesta conversa da treta em vez de me dedicar a temas a sério. Por exemplo, talvez pudesse dizer que se calhar era oportuno perceber se há alguma consanguinidade entre o dito Abascal e o calinas do Melo (que parece que nunca fez ponta de coiso enquanto anda a fazer de conta que é deputado europeu e que agora quer ir a cavalinho na onda de populismo do outro) ou se aquilo é mesmo apenas afinidade ideológica. E também podia dizer que os senhores jornalistas deveriam perguntar à Madame Cristas da Coxa Grossa se perfilha a opinião do seu colaborador.


No entanto, agora que estou a sair da toca constipal em que, graças à ceterizina, estive hibernada, dormindo dias a fio, estou ainda desligada da realidade.
(Nem sei como consegui aparentar trabalhar durante a semana que passou. A sério: é um mistério.)
Ou seja, não consigo estar à altura dos temas pertinentes do mundo real nem sequer responder a mails nem a comentários -- e só de pensar que se avizinham mais uns dias normais de trabalho já me apetece voltar a hibernar. 


Portanto, voltando ao tema que aqui me traz: o das curvas.

Uma vez que os votantes, um pouco por todo o mundo, andam a dar mostras de estar fartos de políticos de faz de conta e, de carrinho, enfiam tudo no mesmo saco, e fartam-se também dos políticos de verdade, começam a vingar os palhaços, os comediantes, os apresentadores de reality shows, os parvalhões encartados. E eu, pensando nisso, e já que em Portugal somos mais comedidos, acho que poderíamos inovar e ter candidatos temáticos: os candidatos que são a favor da comida vegan, os candidatos que defendem o direito das mulheres a quererem casar com um agricultor, os candidatos que defendem o direito das pessoas a tatuarem-se de alto a baixo e... os que defendem o direito das mulheres a terem à sua disposição espelhos que emagreçam (ou que engordem -- conforme o caso).


E esta conversa toda porque.

Em França, o movimento The All Sizes Catwalk já aí está. E para provarem que não têm medo de nada e que vieram para ficar, desfilaram este domingo em Paris, no Trocadéro, bem em frentezinha da Torre Eiffel. Em lingerie. O que é bom é para se ver.

E quem não acreditar que faça o favor de conferir, que eu não estou aqui para enganar ninguém.

E desfilaram novas, velhas, magras, gordas, com celulite, sem celulite, mamalhudas ou nem por isso. Do 34 ao 52. Uma alegria de diversidade que assim é que é bonito.

[E fiquei a saber que, para que se saiba, o número mais comum em França é o 42. Boa.]

E, para terminar, un petit cadeau. 

Ou melhor, qual presente qual carapuça: um statement -- This Body


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E uma boa semana para todos a começar já por esta segunda-feira.

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sexta-feira, abril 19, 2019

Quem é Pedro Pardal Henriques?


Quando ontem à noite vos disse que me parecia haver muito para investigar nesta greve selvagem dos motoristas de produtos perigosos não esperava que a coisa começasse a saltar tão rapidamente. 

No entanto, em boa verdade vos digo: ou muito me engano ou a procissão ainda vai no adro. 

Uma simples pesquisa no google permite chegar até onde ele paira (BNI - A maior organização profissional de negócios e referenciação do Mundo onde é Secretário e Tesoureiro + International Lawyers Associated, sociedade que se apresenta como se a ele se resumisse: Pedro Pardal Henriques assume-se com referência na advocacia Portuguesa e Internacional como um escritório de advogados especialmente vocacionado para áreas relacionadas com as Sociedades Comerciais, os Investimentos e os Investidores, com todas as áreas do direito que lhe são conexas, tais como o Direito Societário e o Direito do Trabalho, o Direito Fiscal, o Direito Bancário, o Direito dos Seguros, Fundos de Investimento e o Direito Imobiliário)

O Diário de Notícias destapa parte do véu.  Quem é o advogado de Maserati que dirige os camionistas?

O país descobriu-o como vice-presidente do Sindicato dos Motoristas de Matérias Perigosas. Mas Pedro Pardal Henriques é advogado. E dele há más memórias em França e referências pouco claras em Portugal. (...)
E aí pode ler-se sobre as divergências entre datas de licenciatura na Lusófona e o que agora diz, as bastas acusações contra ele (por exemplo, por se apropriar indevidamente de verbas), etc. E pode ler-se o espanto de todos quantos o conhecem por, do nada, agora aparecer à frente de um sindicato de motoristas quando nunca foi motorista.

Pedro Pardal Henriques, in DN

E o artigo expõe ainda como a sede do Sindicato, SNMMP, do qual Pedro Pardal Henriques é vice-presidente, é afinal a mesma da International Lawyers Associated: Avenida Visconde de Valmor, n.º 66, 3.º Piso, 1050-242 Lisboa


Por isso vos digo. Read my lips: parte do véu. 

Recomendo ainda a leitura de Uma greve contra todos de Daniel Oliveira que analisa parte do assunto. Mas em verdade vos digo: cá para mim, o busílis da questão está mais fundo. Mas, como ontem referi, acredito que haja quem se esteja a ocupar do assunto.

Já agora: vejam, pf, o vídeo de apresentação do grande, imenso, escritório de advogados, uma verdadeira multinacional (aparentemente nascida há um ano e subitamente transformada num dos mais relevantes escritórios de advogados de Portugal -- ou do mundo, nem sei), e que tem como cartão de apresentação a fotografia do insigne fundador (que, noutros sítios, é também administrador, tesoureiro, secretário, sindicalista e etc) Pedro Pardal Henriques com o ubíquo Presidente Marcelo (que um dia ainda se há-de arrepender de andar a posar ao lado de tudo o que é cão e gato, sem ofensa para os cães e para os gatos, claro)



Ah, e outra coisa: Pedro Pardal Henriques tem um problema a escrever e, em especial, a colocar vírgulas. E isso, em cima de tudo o resto, só contribui para me arreliar ainda mais.

quinta-feira, março 07, 2019

He's in love (and we're all gonna die)
[Mais uma paródia de Randy Rainbow]
E uma ou outra breve reflexão sobre isto tudo em tempo de cinzas


De vez em quando dá-me para o pessimismo e dou por mim a pensar que isto ainda não vai acabar bem. E isto é, nada mais, nada menos, que o mundo. Pessimista que é pessimista não faz por menos. Nada de dramazinho particular, choradinho pífio. Nada disso. Se é para antecipar desgraças pois que seja em grande, a malta toda a implodir, coisa assim, tragédia do mais tenebroso que há. 

E digo isto porque.

Nestes momentos em que me parece que estamos a ser absorvidos por um buraco negro, sinto-me especialmente perplexa e assustada por ver que, um pouco por todo o lado, o povo -- e nessas alturas deixo-me de delicadezas e mentalmente digo 'a populaça' -- parece que gosta de lamber o rabo de quem o pontapeia. Vai um país a votos e os que mais têm a perder são os que mais depressa votam nos maiores estafermos. 

Pessimista mas ainda com um resquício de racionalidade, penso que não admira: os mais carentes de tudo são os mais vulneráveis, os mais facilmente manipuláveis. Mas como pobres, dependentes de apoios, pouco escolados, mal informados e etc. são a maioria, são eles que decidem as eleições. E, portanto, se aparecer um anormal qualquer a dizer que vai correr com os bandidos, os malandros e os imigrantes a varapau, o zé povo aplaude e, sem pestanejar, brinda-o com likes no Face e no Insta e, na altura de votar, entrega-lhe o voto. E nem cuida de saber que, na boca dos malucos como o Trump, o Bolsonaro, a Le Pen e tantos outros, os bandidos, os malandros e os imigrantes são justamente eles, os pobres, as vítimas.

Só que, para meu bem, apenas sou pessimista a espaços. Poupo-me o mais que posso. Portanto, passado pouco tempo, já eu estou a consolar-me, a desfiar argumentos beneméritos, que toda a história foi sempre este descer ladeira abaixo -- e forço a redundância, descer-abaixo -- que sempre pareceu que o mundo estava a bater no fundo, e que, afinal de contas, como uma bola saltitona, volta e meia surpreende o mundinho com lampejos, momentos de luz. 

Mas, não sei se já repararam, também sou dada à dialética. É que, logo a seguir, ocorre-me que nada de optimismos vãos porque momentos de esperança só mesmo nos momentos de ruptura, coisa breve, quando a malta ainda está boquiaberta a ver no que a disrupção vai dar.  Fogachos. Porque, logo a seguir, mal a poeira assenta, já a malta se divide, uns a acharem que afinal foi só fumaça, outros a reivindicarem outra coisa, que não era para ser nada daquilo, outros a quererem combater, outros a quererem mais, outros a quererem menos. E quanto mais letrados, mais dados a frioleiras, pior. Gente que usa a cabeça é gente infeliz, parece que nunca nada está bem, uma seca. Passam a vida a dissertar, a jogar conversa fora, ninguém aguenta. E, por isso, a maltosa, a dita populaça, farta de conversa, vai mas é na lábia fácil, no mamar doce dos badamerdas deste mundo, dos populistas, das bestas quadradas, dos tiranos e tiranetes, dos fascistas ou dos simples palhaços.

E aqui chegada.

Não sei tirar nenhuma conclusão. Uma ou outra bissectriz eu ainda sei tirar. Agora conclusão no meio de uma confusão destas eu não sei. Isto é coisa para se resolver com recurso a grafos, a heurísticas, a algoritmos desencabrestados no meio de topologias aluadas. Na volta, aqui é que entrava bem a tal de inteligência artificial. 

Entretanto, aconselho-me a não me preocupar muito com inequações que gostam de se fazer difíceis e a, em vez disso, me divertir a observar com quem consegue rir-se dessa desqualificada tropa fandanga.



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E até já

domingo, janeiro 06, 2019

As implacáveis Procuradoras: a Santa Mana Joana e a Manuela Boca Guedes
[E Marcelo e Bolsonaro e o tal da TVI que convidou um criminoso fascista e etc]





De passagem pela SIC vejo anúncio à Procuradora Manuela Moura Guedes. Espuma raiva. Acusa, condena, decreta penas. Implacável. Com ela não há inimigos que lhe escapem. Não precisa de provas nem de contraditório. Com ela é assim mesmo: chateaste-me, já dançaste. A cartilha lida, o destino traçado num piscar de olhos, num retorcer de boca.

Foi-se a Santa Mana Joana e ficou a Moura Guedes. Estava a vê-la e a pensar na implacável Santa Mana a quem também ninguém escapava. Só escapavam os que, lá de dentro, enviavam informação, gravações, vídeos e o que calhasse para o Correio da Manhã e Lixeiras associadas.

No pontificado da Santa Mana, muita gente tombou. Gente importante. Tombaram e todos nós assistimos ao seu tombo. Vimo-los humilhados. Era chegado o tempo de dar cabo dos corruptos. Lemos as transcrições, ouvimos as gravações, vimos imagens que comprovavam que eram culpados. Corruptos da pior espécie finalmente vergados. A Santa Mana até foi canonizada em vida, tantos os seus bons feitos: com ela não ia ficar pedra sobre pedra e pena era que não ficassem logo presos mal os investigadores lhes punham os olhos em cima.


Até que agora veio o desfecho de um caso, o dos Vistos Gold. Afinal quase todos inocentes, os processos sem ponta por onde se lhes pegasse. Entretanto, durante anos a vida destas pessoas devassada, a vida pessoal e profissional sacrificada. E por nada. Apenas porque a Santa Mana e a sua malta resolveram que sim. 

Arrependimento pelo que vão destruindo à sua passagem? Estou em crer que nenhuma. São implacáveis, estas duas Procuradoras. Estão bem uma para a outra. Com elas não há inocentes, só culpados, e ainda bem que elas estão atentas e são como são.

Um dia destes a Procuradora Boca Guedes voltará à política. E será bem sucedida. Todo o palco que a SIC lhe está a dar é uma boa rampa de lançamento. Haverá muita gente a achar que sem elas os corruptos continuariam à solta. Há que ter Procuradoras justiceiras e poderosas para que o mundo fique mais limpo. Se, pelo meio, destroem uns quantos inocentes, azarinho.


Entretanto, na TVI um tolo que não faço ideia quem seja resolveu levar um criminoso com ideias racistas e fascistas a divulgar as suas ideias. E há quem ache que isso é liberdade de expressão. Um dia destes, alguém dará mais um passo e convidará o criminoso a ter presença cativa num programa de televisão, que é um lugar bom para lançar na política os alarves, os boçais, os populistas. E, se for a votos, capaz de muita gente votar nele, não sabendo ou não querendo saber dos seus antecedentes, e achando que ele é dos bons, que diz as verdades, que é justiceiro, que é dos rijos.


E há também aquilo de Marcelo 'normalizar' o bronco e perigoso Bolsonaro, tratando-o como irmão e dando um passo maior de aproximação, convidando-o a visitar Portugal. Dadas as circunstâncias históricas e dadas as comunidades de portugueses lá e de brasileiros cá, que mantivesse um relacionamento diplomático discreto parecer-me-ia razoável -- mas que Marcelo não tenha arranjado uma forma diplomática de se demarcar das ideias anti-democratas de Bolsonaro deixa-me francamente incomodada.


Caminhamos sobre areias movediças. Há perigo rondando as nossas vidas e vem de onde menos se esperaria -- das instituições que deveriam zelar pelo cumprimento da lei e que, afinal, em puros exercícios de paranóia ou vingança dão cabo de muita gente, dos órgãos de comunicação social que promovem difamadores, demagogos, fascistas, de políticos que elegemos sem cuidar de escolher bem. A  qualquer momento um inocente pode ver a sua vida desgraçada sem nada de mal ter feito. As instituições democráticas são frágeis.

É obrigação de todos nós e das instituições que nos representam zelar activamente pela qualidade e sustentabilidade da democracia. E isso tem que começar a ser ensinado e praticado nas escolas, desde a infantil ao ensino superior (no dia em que isso acontecer, de certeza que praxes humilhantes acabam naturalmente -- só para dar um exemplo) e também é bom que comecem a existir, nas estações públicas, programas (criativos, interessantes) que ensinem e fomentem a cidadania livre, exigente, democrática. E é bom que os deputados se debrucem sobre todos estes riscos e engendrem formas de os evitar ou, pelo menos, mitigar.


É que uma coisa é certa: não podemos estar à mercê de Procuradoras como a Guedes ou a Vidal e é bom que por aí, em lugares de influência, não esteja gente estúpida, ávida de protagonismo ou ignorantes que abram a porta às serpentes que devoram a democracia. Nem devemos pôr-nos a jeito para que haja alguma vez o risco de virmos a ter por cá um anormal como o Bolsonaro ou o Trump. É essencial que nós, os inocentes, possamos viver uma vida descansada e que o país em que vivemos não seja um lugar perigoso.

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As imagens mostram trabalhos de James Turrell.

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E agora, caso ainda não estejam ao corrente, queiram ver a minha resposta muito a sério ao Anónimo e Meio. É já a seguir pelo que queiram descer um pouco mais.

sexta-feira, janeiro 04, 2019

Porque é que Sócrates detestava a democracia?





Não há coisa mais democrática que as redes sociais: toda a gente opina por igual e vai um e diz que gosta e vai outro e bota-lhe um smile e outra um LOL e outra um friso de DDDD, e vai link para aqui e link para a acolá. O povo a fazer as suas escolhas.

Na cabeleireira, lugar que encaro com fascínio, ouço uma conversa entre a cliente e a menina que faz nails em gel e em gelinho: Pah, fui lá, vi as fotografias dela e pus logo lá um like mas já reparaste que a gaja a mim nunca põe um like? Mas eu ponho, sou assim, para ela ver que a mim não me afecta. A outra aprova: 'Bofetada de luva branca'. E, enquanto ali estou, as conversas giram sempre neste registo. Presumo que nada saibam de política nem dos escândalos do Facebook. E, quando votam, sem nada saberem de concreto sobre o que os candidatos têm para oferecer e sem poderem em consciência fazer um rigoroso juízo de valor sobre desempenhos anteriores ou sobre eventuais consequências (boas ou más) das promessas dos candidatos, o voto delas vale tanto quanto o das pessoas bem informadas.


Veja-se o que aconteceu no Reino Unido: uma votação assente em manipulação da informação prestada aos eleitores (lembram-se do escândalo da Cambridge Analytica?), sobretudo incutindo-lhes medo, levou a que estes tomassem a irresponsável decisão de saírem da União Europeia. No dia seguinte, depois do lindo resultado, a Google ia aterrando com os britânicos a perguntarem o que era o Brexit. Ou seja, tinham votado sem saberem no que se iam meter. Mas como o seu voto é soberano, andam agora a querer cumprir essa determinação, mas completamente às aranhas. Parte dos que os meteram nisto já se pisgaram e os outros não se entendem. Uma coisa desconcertante de tão estúpida que é.

Ou a malta que votou no Trump? Os mais desfavorecidos foram os que mais o apoiarem. Um sujeito que parece atrasado mental de tão boçal que é e que, por incrível que possa parecer, ainda tem muitos apoiantes. O mesmo acontece com Marine le Pen: os imigrantes, nomeadamente os portugueses, são fervorosos apoiantes. Acham que a mãezinha os vai poupar a eles, banindo 'os outros'. Um pouco por todo o lado, os populistas e a extrema direita vão ganhando terreno com o voto popular e democrático dos mais incultos, dos mais facilmente manipuláveis.

É a democracia a funcionar.


A comunicação social séria vai soçobrando pois assenta num modelo de negócio que está a ficar obsoleto neste mundo imediatista que gira em torno do uso intensivo e pseudo-gratuito das plataformas colaborativas e partilhadas. Por isso, o que poderia ser um contraditório rigoroso e eficaz também está a desaparecer -- e a cambada que começa no populismo para acabar no totalitarismo vai alastrando.

Não me perguntem qual a alternativa à democracia porque não saberei responder. Melhor do que a democracia não conheço. Talvez uma democracia filtrada e regulamentada mas, muito sinceramente, não sei se isso não é a contradição dos termos. Se calhar é. 

Além do mais, há outra coisa: muitos democratas tendem a ser pouco pragmáticos, tendem a encarar assuntos relacionados com democracia e liberdade como tabus. Se alguém tenta reflectir sobre o tema, logo se erguem, doutorais, de pedras na mão, querendo expulsar do templo os que, genuinamente, gostariam de encontrar uma forma eficaz e 'democrática' de preservarem a democracia.


Penso que nas escolas, todas as escolas, e na sociedade em geral deveria ser suscitada esta reflexão.

Tal como a tecnologia barata ubíqua e de utilização desregulada pode devorar a liberdade e a qualidade de vida dos cidadãos também a vida actual -- com muitos políticos oportunistas ou fracos como moscas mortas, e com a opinião pública condicionada pela praga das redes sociais  -- pode minar os pilares da democracia.

Mas, enfim, é tarde, está um frio dos diabos, a casa está envolta num denso nevoeiro, e eu não serei a pessoa mais instruída para dissertar sobre o tema. Fico-me, pois, por aqui.


Queiram, antes, ver este vídeo que o P. me enviou e que bem interessante é.


Why Socrates Hated Democracy



We’re used to thinking hugely well of democracy. But interestingly, one of the wisest people who ever lived, Socrates, had deep suspicions of it. 

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Escolhi fotografias do alemão Matthias Haker que mostram belíssimos edifícios abandonados pois, em tempos, pareceram perfeitos, eternos, foram estimados e nada parecia anunciar o abandono e a decrepitude a que agora estão votados. Se existe a perspectiva de democracia correr o risco de vir a ter o mesmo destino (mesmo que só por vezes e em alguns lugares) então, naturalmente, fico apreensiva. Muito.

De Arvo Pärt o Cantus in Memory of Benjamin Britten com Tilda Swinton no vídeo

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