Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, dezembro 27, 2019

O meu último dia de Natal do ano da graça de 2019 -- também com reportagem fotográfica




Esta noite estou verdadeiramente na ressaca. Aliás, a ressaca começou ao início da noite, na viagem de regresso de casa dos meus pais. Mal o carro arrancou, qual bebé, adormeci profundamente. Mas não fui só eu: os três que vinham no banco de trás do carro caíram igualmente no sono. Cheguei a casa quase inerte e assim me tenho mantido. 

De manhã, só os dois, tínhamos ido passear para a beira do rio, lugar de todos os retemperos.


Fotografei e foi o deslumbramento de sempre. Olhar a bela cidade através da lente tem outra magia, parece que os movimentos das gaivotas são coreografias, que as cores das casas o cenário, parece que os pormenores se salientam para passarem para primeiro plano, tudo parece muito belo e sereno. Olho tudo como a primeira vez e essa atenção descansa-me a mente e o corpo. Entrego-me, de todo, à boa sensação de ali estar.

Olhei as águas, a paisagem, aspirei o ar fresco. Tão bom. Fico sempre a sentir-me renascida.

Já aqui o disse algumas vezes: se calhar, sem o saber, isto tem em mim o efeito que a meditação tem noutras pessoas.


O ria ia cheio de frutos e daquela folhagem que as fortes chuvadas arrancam das margens e que as correntes puxam a caminho do mar.

O meu marido gozou logo: será que o Marcelo, qual sereia, vai atirar-se ao rio para o limpar? É que, na reportagem da véspera, ele diz que viu o Marcelo a apanhar daquilo. E eu até o gravei a fazer essa pergunta. Mas agora, ao ver se dava para colocar aqui, reparo que, como sempre, não mantive a máquina estabilizada e almareia só de olhar.


Voltámos mesmo a tempo de preparar o almoço, misto de restos e misto de coisa nova. É que logo, logo, chegou parte da turma que iria connosco, juntando-se aos restantes, em casa dos meus pais. Almoçámos e zarpámos. 

Como sempre, apesar de mais do que avisada para evitar os habituais abusos, a minha mãe voltou a preparar um banquete. Mesa farta. Tudo feito por ela. Uma coisa surpreendente. Não apenas o lanche foi dos bons como as meninas grandes ainda vieram carregadas de petiscos. Não sei que energia e boa cabeça é aquela: apesar dos oitenta e muitos mantém-se impecável e acho-a mais jovem de cabeça do que quando eu era miúda e vivia lá em casa. Os presentes que comprou para toda a gente, quase todas as compras para a casa, a orientação e acompanhamento de todas as rotinas relacionadas com o meu pai e, sempre que as tropas se reúnem lá em casa, lanche para todos. Uma força, uma agilidade, uma criatividade fantásticas. Quem me dera que seja genético e que tenha passado para mim e para os meus filhos e netos.


Desta vez não houve futebolada no jardim. Nota-se que os rapazes estão cansados. Em vez da bola, das lutas, das corridas e da confusão barulhenta, puseram-se a ver televisão. A maior agitação deu-se quando eles quiseram ver futebol e ela lhes rapinou o comando e quis pôr nos canais de desenhos animados ou coisa do género.

Os mais crescidos também já davam mostras de algum cansaço e talvez a mais fresca fosse mesmo a minha mãe.

O meu pai, apesar de não ver e de mal ouvir, parece que pressentia que havia movimentação e estava um bocado agitado. Por isso, felizmente os miúdos não estavam naqueles dias de grande fuzuê senão é que ele ficava mesmo inquieto.

De tarde os rapazes, os grandes e os pequenos, tinham estado a apanhar laranjas e, portanto, também trouxémos umas sacadas.  Umas laranjas sumarentas e doces de dar gosto.

De presente da minha mãe recebi o Nº5, eau de parfum que sempre me oferece, uma écharpe macia e quentinha numas belas cores quentes que coloquei logo e que ainda não tirei. Desdobra-se e fica uma capa de lã aconchegante.

E recebi um livro surpreendente. É um livro da autoria do seu médico de sempre, um médico que ainda tem mais idade que ela mas que é outro jovem de cabeça. Tenho estado aqui a folheá-lo e é bastante interessante, conjugando medicina e história. E, graça das graças, tem uma dedicatória que me é dirigida. 

Conheço estas figurinhas nem sei há quanto tempo.
Pelo Natal saem à cena.
Agora estão no móvel pequeno onde estão as fotografias dos cinco bisnetos, quando recém-nascidos:
é o presépio da casa dos meus pais

Estivemos também com o meu tio. Tenho-o achado mais caído. A minha tia tem estado adoentada e o alterarem a sua rotina de saírem todos os dias, está a deprimi-la e, a ele, está a causar abalo pois não apenas os seus hábitos se têm alterado como ver a minha tia assim o deixa também bastante triste. E a mim custa-me muito vê-lo assim. Para mim ele será sempre aquele meu tio amigo e cúmplice que, tal como o meu outro tio, ia comigo dar passeios de mota à socapa dos meus pais. Mas o tempo passa. Hoje, daqueles três homens muito jovens, o meu pai e os meus dois tios, desportistas, todos cheios de vida, um está acamado, outro já morreu e outro está a envelhecer a olhos vistos. Enfim. Vi que ele ficou contente a conversar com os sobrinhos-netos e, em especial, com o meu filho que lhe falou da empresa onde ele trabalhou a vida inteira.

E, com esta visita e com este dia dei por encerrada a época natalícia. E, como é bom de ver, já se começou a falar do que será o almoço do primeiro dia do Ano Novo.

Tempus fugit. Vita brevis.

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E, nem sei bem se a propósito de alguma coisa, permitam que coloque aqui dois vídeos com bailados do Nederlands Dans Theater, um lugar muito especial. Talvez sejam dois presentes para quem me faz companhia aí desse lado. Já vêm fora de tempo mas pode ser que aquilo de Natal ser quando a gente quiser seja verdade.

Com músicas de Heinrich Ignaz Franz Biber, John Cage, Philip Glass, Johann Sebastian Bach e coreografia de Jiří Kylián: uma beleza do outro mundo



Sobre música de Igor Stravinsky e coreografia de Jiří Kylián: belíssimo


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Uma boa sexta-feira.

domingo, outubro 06, 2019

Crónica de um dia de reflexão in heaven
[Sendo que reflecti sobre muita coisa excepto, que me lembre, no que desaprendi durante a campanha pouco alegre destas eleições]





No outro dia dei dois vestidos meus à minha filha. Ela olhou para os vestidos e espantou-se por eu ter cabido neles. Não foi há muito tempo. Tento localizar no tempo e diria que talvez uns seis anos, por aí. Usava o 38 que, em letra, equivale ao M. A minha mãe diz que com ela foi a mesma coisa, diz que, com a menopausa, a roupa deixou de lhe servir, diz que, nessa altura, parece que alargou e que ficou com mais peito. Agora não, agora está outra vez mais delgada, elegante mesmo.


Os vestidos que dei à minha filha são intemporais; se calhar, se daqui por uns anos voltar ao 38, ainda me ficariam bem. Mas acho que não faz sentido estar a guardá-los, ficam-lhe a ela muito bem. São ambos de tecidos muito fininhos, ambos em verde, um em verde mais colorido estampado em flores cinzentas e outro num mesclado mais pastel em diferentes tons de verdes secos e beige. O primeiro é forrado mas o segundo não, fica completamente transparente. A minha filha disse que deveria ter um interior mas não o encontrei. Lembrei-me depois que sim, tinha, em malhinha de seda muito fina, em verde seco. Mas perdi-lhe o rasto. Há coisas que, na minha casa, desaparecem. Nunca me preocupo pois sei que voltam a aparecer. Só que agora é que dava jeito, não é quando lhes apetecer ver a luz do dia. Por isso, ela não o tem conseguido vestir. Lembrei-me que a minha mãe devia ter combinações. Este sábado de manhã, lá em casa, lembrei-me disso. Foi a uma gaveta do roupeiro e estava cheia de combinações e camisas de dormir de alças, umas de seda muito fina, outras de algodão também muito fino, com rendinhas ou bordados. Nunca usei combinação, nunca me dei bem com muita coisa em cima do corpo. Mas acho bonito, assim, dobradas, perfumadas, macias. Trouxe uma em seda numa cor que não sei definir, talvez um beige-profundo, talvez um rosa-velho esbatido. Tem cortes e pinças para se colar ao corpo, tem um decote elegante, tem umas rendas bonitas. Não sei é se não lhe estará um pouco larga na cintura. A minha mãe diz que não faz mal, se ela gostar, aperta-a nos lados. Trouxe-a para ela experimentar.


Ontem a minha nora também estava com uma blusinha arrendada, às flores, num colorido suave, que era minha. Também me estava justa demais e a ela fica mesmo bem. No outro dia, quando chegou lá a casa, disse que não tinha era um casaco quentinho que ficasse bem com o vestido que vai levar a um casamento, daqui por uns dias. Fui à procura e encontrei um casaco curto, escuro, em veludo muito leve. Ela achou que ficaria a matar. Disse que à noite já está frio e que preferia ir prevenida. Perguntei-lhe se precisava de uma estola e fui buscar uma de pele para ela ver. Ela, que estava de saia de verão, tshirt e sandálias, vestiu o casaco de veludo e colocou a estola e apareceu assim ao pé do meu filho que não tinha acompanhado a conversa. Espantou-se: 'O que é isso?!'. Ela disse que era para o casamento. Ele respondeu: 'Não me parece bem que vás mascarada'. Ela explicou que não ia levar a estola mas o casaco sim. Entretanto, a bonequinha mais linda agarrou no casaco e na estola, aperaltou-se e desfilou, linda. A mãe disse: 'A ela tudo lhe fica bem' e o meu filho olhou para a filha e não disse nada, penso que também achou que estava linda. Depois, toda coquette, pôs uns óculos meio malucos, de carnaval, que por lá andam e ficou deliciosamente extravagante. Tentei fotografá-la mas fez-se rogada. Tem alma de sedutora, um caso sério. Penso que ela herdará muitas roupas minhas. Tem um gosto muito parecido com o meu. Não receia ousar.


Mas é isto, passamos a roupa de umas para as outras. Por exemplo, no verão, usei muito, aqui, in heaven, uma blusinha fininha que era da minha filha e que ela já não veste e gosto da forma como me cai. E uso cá, por vezes, um vestido comprido, de alças, de algodão indiano em vermelhos florais, que era da minha cunhada.

Com os miúdos, então, nem se fala. Tirando o que se estraga, herdam tudo, passa de uns para outros. Só o mais crescido é que as inaugura a todas. Ela, a bonequinha mais linda, herda da filha de uma prima da mãe. 

Hoje a minha mãe, quando abriu o roupeiro, olhando para a roupa do meu pai, disse: tanta roupa que já não vai voltar a vestir, só se houver um milagre. Pensei que há milagres que, mesmo sendo milagres, são inexequíveis. E mostrou uns blusões bons e disse que, se calhar, ficavam bem ao meu marido. Ainda nem lhe disse. Nessa altura já estava no carro à minha espera, já não ouviu a conversa. Aliás, já estava era a ligar-me. Nem atendi, já sabia que era para me despachar.


No carro continuei a leitura de A mulher do meio. Gosto mesmo muito da forma como a Ivone Mendes da Silva escreve. O que ela conta não é nada de extraordinário, é apenas o seu dia a dia. Vai ao café, escreve, evita as pessoas conhecidas para não ter que lhes falar, caminha, gosta de olhar para dentro das casas quando à noite têm as luzes acesas e alguma janela aberta, enrola-se num xaile, bebe chá, fala do barulho do vento, fala das molhas que apanha quando está a caminhar e desata a chover, fala de uma mulher que faz árvores genealógicas no café, fala de uma flor no parapeito, fala do silêncio e da distância de que precisa. Mas fala de uma maneira tão fractal, uma escrita tão perfeita, que é um prazer lê-la.


De tarde, depois de almoço, deixei-me dormir. Só aqui, quando estamos apenas os dois, é que eu ponho verdadeiramente o sono em dia. Não há barulho, não há compromissos. Há apenas quietude e sossego.  

Depois, quando acordei, andava ele a regar e eu fui caminhar um pouco. Foi enquanto caminhava que tentei ler o maravilhoso poema da flor e não consegui. Há pouco estive a lê-lo ao meu marido, consegui. Ele ficou em silêncio e, quando lhe perguntei, disse-me que sim, que era muito bonito, que tinha gostado. E percebi que também o tocou.

Enquanto andei a caminhar, o frio já se fazia sentir, tive que vestir um casaco.

Fotografei tudo. Estava com saudades, tudo me pareceu de uma beleza reconquistada.


Descobri na rocha, num lugar para onde não vou muito, outro daqueles buraquinhos redondos. Enfiei lá dentro um pau comprido e não lhe senti o fundo. Não sei até onde irão estas misteriosas aberturas na rocha, nem sei o que lá dentro se esconderá. 

Está tudo dourado, naqueles suaves tons outonais que fazem desejar que venha o frio e os tempos de aconchego. Há também tons de cobre ou rubro. As folhas das parreiras estão quase transparentes, num matizado muito bonito. As árvores desenham bordados nas paredes e nos muros e eu, encantada, ponho-me a fotografá-los.

O eucalipto gigante está lindo. Ao fim do dia, parecia conter fogo nas veias. Creio que seja um deus pois só um deus poderia ter tal grandiosidade, tal beleza, tal superior perfeição.


Depois de jantar estive a ver um documento enorme, uma contestação. Um colega pediu que eu esclarecesse alguns aspectos e desse a minha opinião. Fiquei furiosa, cada vez mais à medida que ia lendo. Como é que deixaram que um assunto de pouca importância escalasse daquela maneira, falando-se já em milhões de indemnização? Nos homens o gosto pela guerra é responsável pela maioria dos disparates que se cometem no mundo. E aqui quando digo homens digo mesmo homens, seres com testosterona, e não género humano. A minha resposta espelhou a minha opinião: todo o processo era escusado, nada fazia sentido, sentassem-se e resolvessem as coisas a bem. E espero que a minha fúria tenha perpassado ao longo do texto e que os três destinatários estejam agora a ver como descalçam a bota.


Agora estou a ouvir o vento a namorar a copa das árvores. Ouço as ramagens num animado bailado. A natureza é sobrenatural. E eu, insignificante, frágil e efémera, penso que testemunhar isto é felicidade à qual tenho que estar sempre muito agradecida.

E estou a beber um chá. Há pouco li um texto em que a Ivone falava num chá de frutos da floresta. Também o tenho. Tenho vários, sou maluquinha por chás e infusões. A minha filha deu-me uma vez uma caixa com compartimentos, cada um com seu chá. Tinha pena de os beber, pareciam-me jóias raras. Receando que o que me apetecia, o chá branco misturado com gengibre, tivesse alguma coisa que me tirasse o sono, não me arrisquei, joguei pelo seguro: erva-príncipe. Uma das minhas avós tinha erva-príncipe no jardim. Este cheirinho faz-me sempre lembrar esses tempos e eu gosto.

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E o texto já vai indecorosamente longo. Não aprendo a ser contida. Não aprendo a moderar esta torrente de palavras que deseducadamente brota das minhas mãos.

Se conseguiram chegar até aqui são uns valentes, é o que vos digo. Eu não tenho essa paciência razão pela qual nem vou rever o que escrevi, pedindo-vos duplamente desculpa, seja pelo excesso do texto seja pelo mais do que provável bando de gralhas.


Finalmente: se ainda não leram, por favor desçam e vejam com os vossos olhos o poema que a flor escreveu:  'das paredes rompem flores'.

E outra coisa: votem, por favor. Não arranjem desculpas para não votar. Não votar não tem desculpa. O meu pai não vai votar porque está acamado e porque o mundo exterior já é, para ele, uma realidade distante cuja existência presumo que até desconheça. Tem, pois, uma boa razão para não votar. Mas tirando casos assim, extremos, não há desculpa. Vão votar, está bem?

domingo, setembro 29, 2019

O espanto do meu marido perante o silêncio de Marcelo, Comandante Supremo das Forças Armadas, face à forma como a acusação do Ministério Público expõe as Forças Armadas.
E o que a minha mãe diz do Caso de Tancos, do Rui Rio e da Cristas.





O dia foi preenchido. De manhã tratámos de coisas cá em casa, depois fomos ao Leroy comprar parafusos e buchas, goma autocolante para fixar quadros pequenos sem ter que furar a parede e umas ripas de madeira para o meu marido tentar desempenar uma tela de um metro por oitenta cuja armação tem vindo a retorcer-se.

A seguir fomos levar algumas compras aos meus pais e, dali, seguimos para almoçar fora com a minha mãe. Umas belas sardinhas assadas. Depois fomos passear com ela à beira-mar e estava-se bem, calozinho bom, um sol ameno, uma aragem suave. Fotografei os veleiros e o mar e só não estivemos mais tempo, não por ela -- que está para as curvas -- mas porque o trabalho que nos esperava ainda era bastante. 

Depois de irmos pô-la a casa, fomos ao supermercado e foi mais um daqueles valentes carregos. Ao regressarmos, enquanto o meu marido foi aos seus afazeres, fui logo tratar do jantar que era trabalhoso pois deu-me para ter prato de peixe e prato de carne e, logo a seguir, chegariam todos (todos menos o mais crescido que foi passar a noite a casa de um colega da escola; não te esqueças que já é um pré-adolescente, avisa-me a minha filha quando me vê triste por não o ter cá também). E assim foi: chegaram, como sempre fizeram aquela festa quando se encontraram, conversámos, os pequenos brincaram alegre e ruidosamente, e etc. Depois jantámos e, a seguir, os dois rapazinhos mais crescidos foram brincar às lutas e, pouco tempo depois, regressaram ambos à cozinha e, directamente da travessa, desataram a comer os restos como se não houvesse amanhã e, claro, como se não tivessem acabado de jantar meia hora antes.


Mas, recapitulando, almoçámos com a minha mãe. No restaurante, a televisão estava ligada e a dar o noticiário. Quando apareceu o Rui Rio, a minha mãe quase tapou os olhos, virando a cara com ar enjoado, 'Já não tenho paciência. Olha aquele papagaiozinho. É mesmo um papagaiozinho. Um parvalhão. Não consigo ouvi-lo. Quando aparece, mudo logo de canal, vou ver aquele programa dos dois irmãos que restauram casas. É como aquela regateira da Cristas. Outra parvalhona. Já não consigo ter paciência.' Rimo-nos com a veemência dela. 

Quis saber a opinião dela sobre O Caso: 'Então, mãe, e aquilo de Tancos?'. Responde ela, igualmente enjoada: 'Uma pouca-vergonha. Nesta altura é que se saíram com aquilo. Não descansam enquanto não derem cabo do PS. Uma autêntica pouca-vergonha'. 

Contei-lhe aquilo de os ladrões terem transportados as muitas caixas das munições em carrinhos de mão e contei que a vedação é longe do quartel, que deve ter sido giro os ladrões a roubarem caixas pesadíssimas em carrinhos de mão, para trás e para a frente, vários percursos com o carrinho de mão. Ela desatou-se a rir.

O meu marido voltou à conversa que tínhamos tido no carro: 'A mim o que mais me intriga é o Marcelo não falar. Fala sobre tudo e sobre nada e perante uma coisa destas, uma acusação que põe a ridículo a PJM e a malta do quartel e as hierarquias das Forças Armadas de que ele é o Comandante Supremo das Forças Armadas... e não diz nada? E se o Chefe da Casa Militar de Belém foi informado, ele não foi? E não diz nada? Deixa que as Forças Armadas sejam todas postas em cheque e não tem nada a dizer? Acho isso tudo muito curioso...'. A minha mãe, que geralmente está de acordo com o genro, disse: 'Pois é... Tem razão. Mas, se calhar, como disse que não é o papagaio, agora quer mostrar que sabe estar calado. Mas tem razão, é curioso. Mas a mim o que me chateia mais é isto ter saído em cima das eleições. Uma pouca vergonha'.


Confirmei: 'Vai votar, certo...?'. É que, volta e meia, especialmente quando há coisas destas que a deixam incomodada, parece que desalenta, fica a achar que já não tem paciência para 'tanta porcaria', perde a vontade, quase tenho que lhe pedir encarecidamente que não se abstenha. Se, em cima disso, está de chuva ou frio (o que não é o caso de dia 6, que até vai estar calor), então, ainda mais perde a vontade. Nessas alturas, ofereço-me para a levar mas não quer, diz que a escola é perto, que não é preciso. E já cheguei a apanhá-la hesitante em quem votar. Penso que tem oscilado entre o PS, se calhar algumas vezes PCP, se calhar alguma vez o BE e, cá para mim, também já votou alguma vez no PSD (mas isso, pouco assumidamente, quase como se tivesse sido um mau passo). Mas desta vez respondeu convictamente: 'Claro que sim!'.

E eu, sendo indiscreta: 'E pode saber-se em quem?'. A resposta foi imediata: 'No PS'.

Fiquei contente.

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E garanto-vos que o que escrevi é rigorosamente verdade, não estou a pôr palavras minhas na boca da minha mãe ou do meu marido. Aliás, ele está aqui ao meu lado e não me deixa mentir.

Embora concorde com ambos, as minhas palavras são estas:

Tancos: factos, dúvidas e conclusões. E muitas perplexidades.


segunda-feira, agosto 05, 2019

Uma rosa é uma rosa é uma rosa





No seu pequeno jardim, a minha mãe tem rosas. Tem sempre rosas muito perfumadas e com cores muito bonitas. Não sei onde as arranja, nunca me ocorreu perguntar-lhe.

Muitas vezes quando vou a sair, o meu marido já no carro à minha espera, ela chama a minha atenção: 'Já viste a cor daquelas rosas?' e eu olho, vou ver, vou cheirar e, muitas vezes, pasmar com a imprevista beleza daquelas flores. Agora tem umas novas. São cor de salmão, quase cor de laranja. Nunca tinha visto umas rosas daquela cor. Lindas, lindas, absolutamente femininas. 

Tem também rosas brancas. Rosas brancas, ou, talvez, cor de pérola -- porque brancas, brancas, elas não são --  são sempre sofisticadas. E, no centro do canteiro do meio, tem umas em cor de rosa, um cor de rosa afirmativo, quase pink. Também tem, por vezes, no canto do canteiro junto ao muro, rosas em encarnado profundo, tinto, umas rosas quase dramáticas.

Comigo, in heaven, as rosas não se dão. As rosas precisam de cuidado, não podem sofrer temperaturas extremadas, não podem sofrer a inclemência das securas ou dos ventos intensos. Sá um dia que eu esteja lá mais assiduamente e possa ter um canteiro abrigado para elas. As rosas, femininas como são, são bicho de requebros, requerem atenção, olhares devotos pousados na sua pele, alguém que aspire o seu perfume e reconheça a sua intrínseca beleza.

O que lá se dá, e eu gosto muito -- e, quando estão floridas, estou sempre a avisar que não se confunda com silvas -- são as roseiras silvestres que dão efémeras e muito perfumadas rosas em Maio. Têm aquele perfume que, para sempre associarei aos domingos de Maio em que se celebrava a primeira comunhão dos meninos da minha escola e à pequena capela decorada com gipsófila e rosinhas onde eu estava de anjinho e onde, uma vez, tomei pela primeira vez a hóstia e não fui de anjinho mas com um vestidinho de renda branca que salvo erro também usei quando fui de menina das alianças no casamento dos meus tios.

Gosto muito de flores, de todas as flores e encanto-me e espanto-me com a sua suprema perfeição mas, de facto, se quiser ser justa, terei que reconhecer que a flor que talvez mereça a mais profunda admiração seja mesmo a rosa. A rose is a rose is a rose -- e não há como negá-lo.

E mais ainda desde que, em boa hora, me contaram o milagre da rosa de Paracelso e eu, para sempre, fiquei presa a esse milagre, a essas palavras. E, nos meus pensamentos mais secretos, eu recordo essa rosa que sempre renasce, sempre, apesar de viver naquele reino misterioso em que vive um certo tigre azul que se esconde no meu coração. 

Estas que aqui abaixo, no vídeo, se vêem, lindas e perfeitas, tâm a graça suplementar de crescerem no Quénia e de serem as mãos cuidadosas de mulheres como Winnie Gathonie Njonge que delas tratam com mil desvelos até que as colhem e deixam que atravessem lonjuras para ir encantar gente de terras longínquas.
Some of the best roses in the world bloom in Kenya. While the country is widely known for its scenic national parks and wildlife reserves, it’s also a major flower producer. Winnie Gathonie Njonge is the production manager at Nini Flowers, which sits on the shores of Lake Naivasha. She knows all there is about growing perfect roses and oversees the harvesting of 300,000 to 450,000 a day. “The ultimate goal of growing roses is to make other people happy,” she says. It brings her joy to know the roses she cultivates are sent to the United States, Japan and other countries, spreading love and beauty all over the world. 

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Estava na dúvida: apetecia-me uma música dançável mas, ao mesmo tempo, queria que tivesse a ver com rosas. Acabei por decidir-me pelo Bécauld, 'L'important c'est la rose' que não sei se é a mais indicada. Mas, enfim, talvez seja, talvez seja boa também para dançar, uma dança feliz como devem ser todas as danças que se dançam nos braços de quem se ama. E se a mulher tiver no cabelo uma rosa tanto melhor. Ou, se o penteado a tal não se proporcionar, pois que a coloque no decote. Uma rosa bela, renascida, eterna, encostada ao coração nesta bela noite de verão.

segunda-feira, julho 08, 2019

Gracias a la vida:
os segredos dos que se esquecem de morrer, nas 'zonas azuis' do planeta




Acho bonito que chamem às zonas do mundo onde as pessoas vivem até mais tarde 'zonas azuis'. O azul é uma cor saudável, tranquila, a origem e o fim de tudo -- isto, claro, depois e antes do branco original e final, depois e antes do grande infinito. O azul, o vasto horizonte que se funde com o grande líquido azul que transporta e preserva a vida, dentro e fora de nós.

Não me lembro se já algma vez aqui falei disto: os locais da Terra onde há idosos a quem a idade não pesa, vivendo muitas vezes até para lá dos cem anos, mas vivendo com qualidade, felizes da vida.

A nova obra do Bordalo II - um big gato na Expo


É um fenómeno que tem atraído a atenção de jornalistas e de cientistas. E eu, que sempre convivi de perto com gente de avançada idade, interesso-me pelo assunto.

Ainda conheci uma bisavó. Eu era muito pequena e lembro-me de uma velhinha deitada num quarto da casa da minha avó. Dos outros bisas não faço ideia. Tenho uma fotografias de um casal de bisavós e julgo que eram os pais da minha avó paterna mas não garanto. Nada sei deles, não me lembro de alguma vez ter ouvido falar deles. Daquele que fugiu às dívidas de jogo e mulheres ninguém sabia nada. Durante muito tempo, se se falava nele, alguém dizia: 'Se calhar ainda está vivo' mas, que eu saiba, nunca ninguém mexeu uma palha para saber do seu paradeiro. Sabia-se que tinha ido lá para as américas do sul e pouco ou nada mais. E creio que o recíproco também foi verdadeiro. Digo creio porque é isso: mão juro que assim tenha sido.


Quanto aos meus avós, tirando um que morreu novo num acidente horrível, os outros viveram até bem tarde. E o tempo vai passando e agora já são os meus netos que vèem um velhinho na cama e o velhinho agora é o meu pai. E ainda me custa chamar velhinho ao meu pai porque o meu pai sempre foi um homem tão desportista, tão autónomo, tão 'bem conservado' e parece que ainda acho que aquele AVC foi, de facto, uma coisa acidental, que não devia mesmo ter acontecido, daquelas rasteiras que veio mudar o rumo normal das coisas, interromper o que tinha tudo para ser uma vida tranquila para ele e para a minha mãe. Tentamos todos que viva o melhor possível mas o grau de consciência dele já é uma coisa que, para nós, é cada vez mais enigmática.

Mas a minha mãe, essa, sim, poderia muito bem figurar numa destas reportagens das blue zones. Tem uma vitalidade, uma jovialidade e um aspecto que parece de mulher muito mais nova. O que ela faz, o que ele pensa, o que ela ri, transforma-a num exemplo para quem lida de perto com ela. Os netos e bisnetos adoram estar lá em casa. E não é só pelo banquete que ela sempre prepara, é mesmo pela boa onda, pela compreensão e leveza com que encara a vida (apesar da tristeza -- e prisão -- que é partilhar a vida com alguém que se vê a definhar progressivamente, sem esperança que um dia melhore).


Mas, voltando às zonas azuis, o que parece ser comum entre os muito idosos que vivem até tarde conservando a qualidade de vida é:
  • a convivência -- porque a solidão é um mal terrível, uma coisa que corrói a alma e esgota a seiva que alimenta a vida, 
  • a alimentação natural -- muitos legumes e frutos, de preferência de época, locais, e ervas aromáticas, nomeadamente o alecrim, e carne não muitas vezes por semana, para aí umas duas ou três vezes; não são vegans, são apenas minimalistas no consumo de carne. 
  • o exercício, actividade física -- porque a inactividade faz perder massa muscular, faz perter o tónus, faz amolecer a alma e a vontade de festejar a vida; vários idosos têm a sua horta que cuidam e da qual provêm alguns dos seus alimentos

Fiquei contente por saber. Agrada-me a forma simples de viver e sempre que ouço que isso faz bem ao corpo e à mente fico descansada. Saber aquilo do alecrim, então, para mim foi uma alegria. Gosto imenso de usá-lo e os meus filhos estão sempre a aborrecer-se comigo, dizem que uso e abuso, e o meu marido faz coro, arma-se em vítima como se fosse obrigado a ingerir comida envolta em arbustos do campo. Nada disso. Uso de forma moderada e quando me parece que vem a propósito.

Por exemplo, hoje para o jantar (e a contar que sobrasse para a semana) fiz um guisadinho e, ao temperar, hesitei mas resolvi não usar alecrim. Conto como fiz e parece que ficou bom e digo que 'parece' porque  apenas o meu marido o provou.
(Eu hoje, ao jantar, fiquei-me pela sopa de legumes que tinha feito pouco antes, queijo e fruta, acompanhados por dois ou três goles de Trinca-Bolotas, e que rematei, à laia de sobremesa, com um quadrado de chocolate negro comido ao mesmo tempo que dois cubos de gengibre cristalizado). 

Mas, então, a receita do meu guisadinho. Tinha comprado vitela, em bocadinhos para fazer a kind of jardineira. Num tacho coloquei azeite, uma cebolona gigante cortada aos bocados, um tomate também bigalhão igualmente aos bocados, salsa, duas folhas de louro, uma meia dúzia de dentes de alho. Pus a frigir ligeiramente para que os sabores se misturassem. A seguir, juntei os bocados de carne, um pouco de sal, pouco, e, quando hesitei a propósito do alecrim, acabei por optar por um pouco de orégãos. Estava o calor no máximo e, quando levantou fervura, baixei. Gosto de cozinhar a baixas temperaturas. pelo que os meus cozinhados nunca ficam 'repuxados'. Coloquei uma pinguinha de água, apenas para poder estar a cozinhar durante mais de uma hora sem risco de acidentes. Quando voltei à cena já a carne estava macia. Nessa altura preparei cenouras, batatas doces, mais cebola, mais tomate, mais salsa, coentros e uma novidade dos meus cozinhados: quiabos. Juntei tudo e envolvi com uma colher, levantando a temperatura até que voltasse a ferver. Depois baixei, temperatura 3 numa escala de 1 a 9. Ficou ali a cozinhar por mais uns quinze minutos. Quando desliguei, continuou sobre a placa para que apurasse um pouco mais. Estava um cheirinho mesmo bom. 

Não sei onde iam estes seres irreais
que avistei hoje quando estava a caminhar à beira rio, desta vez do lado de cá

E, por ora, é isto. Deixo-vos com um vídeo de apresentação de uma série que vai passar em França e onde Angèle Ferreux-Maeght, chef de cuisine e naturopata e Vincent Valinducq, médico e investigador, investigam o que se passa nas zonas azuis junto de gente que anda por volta dos cem no Jaão, Sardenha, Grécia e Costa Rica.

Mais informação pode ser vista em À la découverte des "zones bleues", ces villages reculés où les centenaires vivent heureux, no site de Madame le Figaro.




Já agora, a quem possa interessar, mais alguma informação sobre os Segredos de uma vida longa, agora falado ou legendado em português.


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Todas as fotografias foram feitas este domingo.

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E a todos vós desejo uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.

Paz, saúde e amor.

segunda-feira, junho 17, 2019

Sobre nada, como se estivesse de olhos fechados





Uma das crónicas do Gabo n'O Escândalo do Século' era sobre não ter nada sobre o que escrever e, claro, lê-se do princípio ao fim com o interesse que a sua escrita sempre desperta. Não tenho a sua arte, a sua graça, a sua mestria pelo que, não tendo também sobre que escrever, fico hesitante. Ninguém me obriga. Poderia, simplesmente, fechar o computador e ler o relatório sobre o qual vou ter uma reunião à primeira hora da manhã ou poderia ir ouvir alguns dos trechos de Wagner referidos por Shaw. Mas é aquilo de os dedos sentirem a impaciência da dança sobre o teclado, mesmo sem um propósito eles querem por aqui andar a saltitar de tecla em tecla.

Portanto, sem saber ao que venho, entregue ao improviso a que eles queiram dedicar-se, aqui estou. Pode a coisa soar-vos desalinhada, sem tema, voo sem rumo, que estarão certos: assim será, certamente.


Hesito em falar do Mário Nogueira que deu uma bicada ao Marcelo ou do Marcelo que parece que não gostou ou do Marques Mendes que apenas vi agora reaquecido, em excerto. Mas nada disso me interessa nem um pouco. Zero.

Bocejo tal o tédio que sinto por não ter assunto. Aliás, não é bem isso. Ter, talvez até tivesse, mas não quero. Há coisas que correm dentro de nós ou sob a terra que pisamos e que andam a tal profundidade que não são umas simples palavras que conseguem trazê-las à luz do dia. Que fiquem por lá onde delas apenas nos chega aquele subtil murmúrio que mais parece uma normal respiração.

Adiante, pois, até ao que não tem nem terá história.


No outro dia andei à procura de umas calças que me estavam justas demais para ver se estavam bem à minha filha. E estavam-lhe boas de perna e de anca mas largas na cintura. Levei-as para a minha mãe as apertar, umas brancas e umas azuis escuras. Estão como novas, ficar-lhe-ão bem. Duas blusinhas brancas que me estavam um pouco à tira também mudaram de mãos. Se pudesse andar sempre de branco, ela andava. Mas com isto de andar a revolver roupa para ver coisas que estão melhor a ela que a mim, hoje, quando aqui cheguei e entrei no quarto que era dela e que virou meu special closet, já nem me lembrava da desarrumação em que tinha deixado aquilo. 

Portanto, hoje, para além do assado no forno (a que juntei ameixas que trouxe lá da minha big ameixeira pela qual a parreira trepa alegremente) e da máquina de roupa e de uma roupa de lavar à mão e das arrumações habituais tive mais esta, andar a arrumar as roupas que ficaram de fora naquela experimentação, no outro dia antes de irmos para a festa de anos.


De cada vez que acontece uma destas, convenço-me que preciso mesmo de fazer uma reforma de fundo, desfazer-me de alguma roupa pela qual tenho alguma estima mas que, porque a moda mudou muito ou porque eu mudei muito ou porque as circunstâncias mudaram, será pouco provável que as volte a vestir. Mas eu, quando faço arrumações, preciso que sejam de fundo, tudo cá para fora, tudo reorganizado, tudo repensado do zero. E onde é que agora tenho tempo para isso? Nem pensar.

No outro dia, num desfile, quando foram os grandes desfiles em Paris, vi um casaquinho que me pareceu mesmo a minha cara. Como a minha mãe andava a dizer que andava sem o que fazer, mostrei-lhe o casaquinho e disse que me candidatava. A candidatura foi aceite. Pensei que, para ela, seria piece of cake e, ao princípio até parecia ser. Afinal foi uma dificuldade terrível. Matemática pura. Soubesse ela de trigonometria talvez se sentisse melhor guiada mas, assim, foi na base da tentativa e erro, tentativa e erro, tentativa e quase desepero. Na fase inicial, quando ela pensava que a dificuldade residia apenas na combinação de cores, eu alertei que a curva do decote devia ser um desafio. Afinal foi tudo um desafio, em especial as mangas. Todo em crochet, todo em rosetas às cores. Ia dando em doida para conseguir que tudo batesse certo mantendo um tamanho uniforme nas rosetas. Trouxe-o ontem e está espectacular. Ela diz que foi o trabalho mais difícil que alguma vez fez. E se já fez trabalhos complicadíssimos. Por alguma razão o casaquinho desfilou como haute couture numa das casas de moda mais prestigiadas. Claro que não é exactamente igual, seria impossível, mas é inspirado e ficou uma maravilha. Uma obra de arte. Estou orgulhosíssima deste trabalho da minha mãe.


E outra coisa que não vem nada, nadinha, a propósito mas, pronto, à falta de melhor assunto, refiro agora. Li no The Guardian que parece que as cenas de sexo estão a desaparecer de Hollywood e, admirada, estive a saber porquê. Aquilo do #MeToo, sobretudo. Fico com pena. Não que um filme para ser bom, mesmo se de amor, tenha que ter sexo explícito. Mas o sexo faz parte da vida e quando devidamente contextualizado e bem filmado, é sempre uma coisa que dá graça a um filme. Parece que estamos a caminhar para o politicamente correcto, asséptico, limpinho, sem sal nem pimenta, sem açúcar, sem beijo de língua, sem piropo, sem malandrice, sem subentendido. E, se isso vier mesmo a acontecer de vez, o mundo perderá a graça, será como o desaparecimento dos insectos que deixará o mundo sem polinização, como livros cegos, sem palavras, mãos que não sabem que devem procurar outras mãos, olhos que não sabem procurar outros olhos, um vazio absoluto. Podia agora colocar aqui algumas das cenas calientes que o artigo refere mas o tema merece uma cama vazia, não um post já cheio de confusão. Talvez outro dia. 

E se calhar agora é que não tenho mesmo mais nada para dizer, a não ser pedir desculpa por estar para aqui nisto, apenas a tomar o vosso tempo. 


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Espero que tenham gostado de ver a Maria João Pires a tocar quase de olhos fechados numa gravação recentíssima e, embora num nivelzinho cá bem mais abaixo, que tenham também gostado das minhas fotografias feitas este domingo in heaven. Numa delas, pode ler-se parte de um poema de David Mourão-Ferreira que se foi num outro, longínquo, 16 de Junho.

A vestir-te 
o corpo nu
ou a sede
que é minha
ou a seda
que és tu.

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E uma boa semana a todos, a começar já por esta segunda-feira.

sexta-feira, maio 31, 2019

Uma recordação em forma de alerta e uma capela no céu ao pé de coisas cá de casa





Não sei se é por andar com muitos programas e não conseguir respirar entre eles, se é por andar sempre com a sensação (real) de ter deixado trabalho por fazer e não saber quando vou conseguir ter tudo em dia, se é por ter que madrugar amiúde não me deixando descansar de permeio -- ou se é disso tudo mais do efeito deste calor abrasador. Ando verdadeiramente sem energia. 

Ao fim do dia, fomos fazer a nossa pequena caminhada; mas foi um esforço tão grande. Ainda por cima, não tínhamos água. Estava sedenta, estafada, com a pele a ferver.  Quando cheguei, como o jantar estava feito, depois de me pôr à fresca, estendi-me no sofá e fiquei imediatamente à beira de dormir. 

E, depois de jantar, cheia de calor, cheia de sono, a pensar que deveria ir acabar um trabalho mas incapaz de pegar nele, para aqui fiquei a navegar em seco.


No entanto, penso às vezes que há cansaços que não devem ser subestimados. Já não me lembro há quantos anos mas não foram muitos, o meu pai que, na altura, ainda andava por si em casa -- embora com muita dificuldade e agarrado aos móveis -- caíu e partiu uma perna. Teve que ser operado. 

Todos os dias, a minha mãe ia vê-lo ao hospital. Na maior parte dos dias eu ia buscá-la a casa à hora de almoço e íamos as duas. Depois ia pô-la a casa e voltava ao trabalho. Outras vezes, ela ia com o meu tio, outras com a minha nora. Nos outros dias ia de autocarro ou táxi. O pós-operatório foi uma complicação total e ele esteve internado muito tempo. Para a minha mãe, um susto permanente e uma canseira. Depois, foi para casa porque não arranjámos um lugar decente com fisioterapia onde ficasse internado. Ficou acamado, numa situação complicada. Para a minha mãe, um desgosto por vê-lo assim e uma nova canseira. Ao fim de algum tempo, arranjámos uma espécie de clínica onde ele poderia tentar a reabilitação. Odiou lá estar e veio de lá sem ter feito quaisquer progressos. Não colaborava, não percebia sequer porque lá estava. Mas achávamos que era para bem dele, queríamos que pudesse voltar a andar. Todos os dias a minha mãe ia vê-lo. Eu ia ao sábado e ao domingo e ia buscá-la e levá-la mas, durante a semana, ela ia de autocarro -- e aquilo ainda era longe da paragem. De vez em quando ia de táxi mas na maior parte do tempo a de autocarro.


E estava um calor horrível e ela queixava-se disso, como lhe custava tanto. Eu dizia-lhe que não fosse todos os dias, que naquelas tardes de grande calor ficasse em casa, a descansar. Mas ela isso não fazia, não queria que o meu pai lá estivesse à espera e que ela não aparecesse. Até que o meu pai foi para casa. Para a cama. 

E, então, aí, a minha mãe foi-se abaixo. Cansada. Dizia que andava sem acção. Foi no verão e estava um calor verdadeiramente insuportável. Pensávamos, por isso, que o cansaço nascia daquele calor. Também tem um pequeno desequilíbrio a nível da tiróide, pensámos que talvez pudesse ser disso. Ou tensão baixa. Ou o somatório do cansaço daqueles meses todos em que andou a ir e vir todos os dias a caminho do meu pai. Ou a idade. Dizia: 'É que também já não sou nova, não é?' Arranjávamos explicações lógicas para aquele cansaço. Por vezes não percebo como, com a idade que tem, ainda conserva aquela energia. Por isso, pensando bem, com o desgaste psicológico e físico a que tinha estado sujeita, com aquele calor e com a idade que tem, parecia mais do que normal que estivesse cansada.


Mas às tantas achou que era cansaço a mais. Não se queixava de mais nada, só isso, mas isso era invulgar nela. Foi ao médico, um bacano da idade dela. Pensava ir pedir-lhe um suplemento qualquer ou ver se precisava de alguma coisa para a tiróide. Mas o médico, experiente e intuitivo, mandou fazer análises, incluindo às fezes. Mas nem ela veio de lá preocupada nem eu o fiquei. Tantos meses a cuidar do meu pai, não tendo tempo e disposição para si própria, era bom mesmo que fizesse uma revisão geral. Só que o resultado não foi tão bom quanto se queria. Estava com uma anemia e havia sangue nas fezes. Fui à net. Nem sempre isso é perigoso, há muitas causas benignas. Além disso, fazia bem a digestão, não tinha incómodos de qualquer tipo. Tranquilo. Mas o médico mandou fazer colonoscopia. 

Não quis que eu fosse, que estava bem, que ia com uma amiga (por acaso, mais velha). Ia tranquila e eu também não estava muito preocupada. Pouco depois da hora, liguei. Já tinha feito, estava à espera. E afinal, depois, pouco depois, ligou-me com a voz aflita, que a médica tinha ido falar com ela e que era melhor eu ir ter lá casa já, havia coisas a combinar. Fui a conduzir nem sei como, na maior ansiedade, horrorizada, cheia, cheia de medo. Quando cheguei, a minha mãe estava numa aflição, 'o que vai ser do teu pai? no estado em que está... nem quero pensar no que vai ser...' e chorava, angustiada, amedrontada, estávamos cheias de um medo terrível, aquele medo fundo, cavado, que acompanha as ameaças de morte. 


Depois foi uma corrida contra o tempo. Exames que nos matavam de medo, sempre sob o terror de virem ainda piores notícias. Depois foi a operação. Ficou sem metade do intestino mas teve alta num instante e saíu a andar, sem dores. Não havia metástases, ficou bem, e o médico, outro boa-onda, disse-lhe que daquilo ela não morreria. E todos disseram que a sorte foi ter ido ao médico por se sentir cansada. Se não se tivesse investigado, se tivesse tomado medicamentos para ganhar energia, se tivesse achado que era normal e deixasse andar, poderia ter sido bem pior. Não tinha qualquer outro sintoma senão o cansaço. Assim, felizmente, atalhou a tempo. 

Não conto isto para alarmar ninguém. É apenas um testemunho que, sabe-se lá, pode ser útil a alguém.

E eu, cansada que ando, sem energia, penso que não é o meu caso pois acho que tenho razões de sobra para me sentir assim. A ver é se, no fim de semana, consigo retemperar-me. 

Que me desculpem os que aqui vêm procurando algumas palavras mais animadas ou interessantes. Agora não consigo dar mais que isto.


Uma vez mais, à falta de melhor ideia, abonequei o texto com umas coisas cá de casa. E deixem que vos mostre porque é que a minha canseirinha é bobagem tola quando comparada com a canseira a sério que deve ter sido construir o que aqui abaixo se vê ou com a canseira de quem, para estar num lugar assim, espantoso, tem que subir tudo aquilo (e que vertigens sinto ao ver).

Uma capela no céu


Dias felizes para todos

segunda-feira, abril 01, 2019

Memórias à beira mar





Uma pequena enseada. Quase não havia, nem há, areia. Seixos, conchas, restinhos da faina pesqueira, pequenhos brilhos. Do lado esquerdo de quem olha o mar umas rochas marcam a divisão. Não são muito altas. Sobem-se bem. São rochas cobertas de pedrinhas. Nas zonas mais escondidas, estavam, e estão ainda, cobertas de limos verdes. Há reentrâncias onde se junta a água. Lá dentro há ínfimos seres que se agitam. Eu subia e andava por lá a explorar aqueles mistérios com denso perfume a maresia. Se passássemos para o lado de lá íamos ter a um pequeno recanto, uma praia minúscula invísivel de qualquer outro lado, excepto de frente, uma zona inacessível e onde antes nunca havia ninguém.


Um pouco mais à frente havia, e se calhar há ainda, uma escada na pedra que vai dar à estrada.

Das rochas que fazem a separação eu via o irmão mais novo do meu pai a nadar. Nadava para muito longe, nadava muito bem. Eu ficava a olhá-lo, admirada, um pouco preocupada. Disfarçadamente, chamava a atenção ao meu pai. Queria que ele visse como o irmão se afastava. O meu pai olhava-o, sem preocupação, apenas alguma admiração, e dizia: 'Nada bem'. Depois regressava à praia, o cabelo preto e liso escorrendo. Não me lembro de o ver limpar-se. Se calhar ia assim mesmo. Talvez fosse de bicicleta para casa. Afinal os meus avós não moravam muito longe.

Lembro-me tão bem.


O cheiro da maresia é igual, as pocinhas de água são as mesmas, o mar limpo e tranquilo é o mesmo, os reflexos e a luz feliz sobre as águas são também os mesmos. 

Mas se calhar só eu me lembro desses tempos de total liberdade e inocência. O meu tio tem agora as costas um pouco curvadas, a pele do rosto já enrugada. O cabelo é ainda liso mas já é grisalho. Duvido que se lembre. O meu pai já pouco comunica e, embora saibamos que guarda memórias muito antigas, tem cada vez mais dificuldade em falar. A minha mãe não se lembra mas é natural pois, ali, ela pouco ia connosco. Ali íamos apanhar amêijoas, isco para a pesca, coisa que era só do meu pai e que eu ia porque lhe pedia para me levar.


Agora a menina ali já não sou eu, eu sou a que tem memórias de tempos que parecem tão próximos. Agora a minha filha terá a mesma idade que a minha mãe teria naquela altura, talvez até um pouco mais. Agora há outros meninos que andam nas rochas, que espreitam os mistérios das rochas e do fundo do mar.


A minha mãe olha-nos a todos, vê como de si partiram as gerações que à sua volta se juntam e, feliz da vida, conta-nos histórias, fala-nos de memórias da sua infância.

[Este domingo disse-me que tinha dormido profunda e descansadamente, que adormeceu no sofá, que à uma da manhã acordou e nem percebeu bem o que lhe tinha acontecido, que lá foi para a cama e que foi até de manhã, que o ar do mar a deixou assim. Tão bom.]

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segunda-feira, fevereiro 25, 2019

Tu és a única razão


Há amores grandes mas não há amor maior do que o de uma mãe pelos seus filhos. Mesmo que tenha vários filhos, amará cada um como se fosse o único. E, mesmo que os filhos tenham filhos, o amor que se sente por cada um dos mais pequeninos continuará a ser total, único, imenso, incondicional.

No outro dia, disse a um dos meninos: 'Meu amor mais lindo'. Ele, sempre justo, com um ligeiro toque de censura, chamou-me a atenção: 'Mas gostas mais de mim do que dos meus manos...?' Expliquei-lhe que não. Que gosto de cada um de sua maneira mas que é igualmente muito em cada um. Todos são os meus amores mais lindos, todos são os meus amores mais amores do mundo.

E o que noto é que a minha forma de gostar deles não muda com o tempo e com as circunstâncias da vida. Se se atrasam a ligar, se lhes ligo e o telemóvel está sem sinal, se qualquer coisa assim acontece, fico preocupada como ficava preocupada quando eles eram pequenos ou adolescentes. E não é por terem já formado as suas famílias que fico mais despreocupada. E o reverso é também verdade: quando estou com eles, fico na maior alegria. Não há para mim maior felicidade do que estar com os meus amores. E, se os meus pais estão também, ainda mais completa é a alegria. O meu pai já não se apercebe bem da barafunda que lá vai por casa mas para a minha mãe é também uma grande alegria ter a família, que se vai multiplicando, reunida. Ainda hoje lá estivemos  e vejo como a minha mãe rejuvenesce e brilha de alegria vendo como a casa rejubila com os risos das crianças.

Por tudo isto, ouvir o que se passou com o jovem aqui abaixo, imaginar o que a mãe sofreu quando pensou que o ia perder ou quando temeu as lesões com que ficaria -- e vê-los  agora juntos, a cantar com uma sentida emoção, emociona-me também a mim. Cantam muito bem e percebe-se como ambos estão agradecidos. São momentos felizes que sabe bem ver.

Sharon e Brandon sob uma chuva de estrelas

quarta-feira, dezembro 05, 2018

A inominável dimensão do mistério




Tanto ele me recomendou que não deixasse para a última que acabei por dar ouvidos também à minha filha que, como se vê, sai ao pai em muitas coisas e não apenas fisicamente. E, assim, nos pequenos tempos livres, tenho ido escolhendo alguns presentes e já ali tenho uma bela teca deles.

A minha mãe tinha-me dito que nada, nada, nada, nada mesmo... só um livro. Já comprei dois. Gosto de oferecer livros. Mas a minha alegria foi maior por outro motivo: é que entrei na livraria com autorização. Concedi-me autorização para entrar e consumir. Consumir com uma condição: só para oferecer, não para mim. Mas sem problema. Estar numa livraria e saber que posso trazer alguns já é bom. Aliás, que bom... Eu, de novo, à solta no meio dos livros. Andar por ali a rondar, a ver, a passar a mão pelas capas, a espreitar as palavras que se escondem dentro de cada um... 

E depois, à última hora, achei que um dos que trazia para a minha mãe, caraças, era tão bom... tinha mesmo que o ter também. E trouxe.


E depois fui ver aquele sítio onde há sempre coisas especiais. E lá estava um. 'A grande arte tem a dimensão do mistério'. Senti logo aquele imperceptível tremor interior, aquela fina emoção, aquela vontade louca de o ter. Mas contive-me. Cinicamente pus-me a descobrir motivos de desinteresse. Procurei o índice. 
A arte também nos torna felizes

O jeito torna-se talento, e o talento, obra

...

Um mundo gémeo do da poesia
.... 

E li excertos. E, então, decidi que tinha mesmo que o trazer. Não se pode negar um amor -- e o amor dos livros e das palavras e do conhecimento e da arte é daqueles que não admite subterfúgios nem adiamentos nem desculpas. Tenho-o aqui comigo, olho-o enquanto escrevo, de vez em quando abro ao acaso e leio. Graça Morais dialoga com José Jorge Letria. 


Quebrei os meus votos de austeridade mas não me fustigo. Não estou arrependida. Não é como fumar. Desde que decidi deixar de fumar nunca mais fumei. Nem uma passa. Zero. Sei que não vou voltar a fumar. Antes, quando fumava, detestava sentir-me tão estupidamente burra embora não o admitisse. No dia em que tomei a decisão, foi como se tivesse decidido aprender a ler, uma decisão irreversível, um triunfo, um orgulho em ter deixado de ser tão estupidamente burra. Com os livros não é isso. Quero deixar de comprar porque depois fico sem ter onde guardá-los, porque não consigo ter tempo para ler nem uma parte, quanto mais todos. Mas não são votos eternos. Digamos que é mais um travão, uma tentativa de moderação. 


E, portanto, trouxe dois livros para a minha mãe e dois livros para mim. E estou feliz. E, de bónus, já sei onde gostava que fosse o meu próximo passeio.

Tirando isso.

Tinha visto uns pijamas giríssimos de um tecido que é um misto de veludo e polar, mas muito macio, térmico, levíssimo, um design mesmo bonito. Sondei a minha mãe: e um pijama muito quentinho? Não reagiu mal, não esteve meia hora a dizer que não, não, não. Perguntou foi porque não comprava eu um para mim. Expliquei-lhe que morreria assada. Ela sabe isso mas tem sempre aquela coisa de se preocupar não vá eu precisar e não ter nenhum pijama decente que vista. Já uma vez me aconteceu, há mais de mil anos. Era casada de fresco e apanhei uma amigdalite que me deixou cheia de febre, umas anginas que me puseram de cama. Chamou-se um médico a casa. E, quando o homem estava quase a chegar, lembrei-me que tinha que vestir qualquer coisa decente. E pijamas? Zero. Lembrei-me que deveria ter ainda, algures, camisa de dormir da lua de mel, uma espécie de vestidinho justo, curto, branco, todo em bordado inglês, com uma fitinha cor de rosa. Mas onde estaria? Eu de cama, afogada em febre, ele sem fazer ideia onde estaria tal peça destinada ao museu. Um horror. Não me lembro como resolvemos o problema mas ficou-me essa sensação terrível de não ter o que vestir numa emergência.


Então hoje, numa corrida, comprei-lhe um pijama tão diferente do expectável e tão, tão macio e bonito que, espero eu, a vai deixar muito agradada. Veste-se agora de uma forma mais moderna e jovem do que quando era, de facto, jovem. Parece agora, toda ela, mais jovem do que quando tinha trinta anos a menos. Claro que a oferta a nível de vestuário e adereços agora é outra. Mas as mentalidades também. Tinha muito aquilo de ser próprio para a idade, receio de dar nas vistas, receio do que pensassem. Agora, felizmente, está mais desempoeirada. Eu, que nunca quis saber de nada disso, detestava que ela se preocupasse tanto com a opinião alheia. 


Bem.

Vou interromper a conversa porque amanhã tenho que madrugar e ainda quero fazer umas carreirinhas de tapete. Estou mesmo furiosa com o tapete. Parecia que já estava na fase de encher o fundo e afinal ainda há imenso que fazer na barra. Aquele amarelo induziu-me em erro, confunde-se com a juta e sem ver bem nem reparei. Agora estou nessa, na barra, desejando de passar para o fundo. Quando estou no fundo é um desatino de urgência, não descanso enquanto não acabo. Oh, motivação mais boa.

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