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sexta-feira, maio 08, 2026

Será mesmo verdade que a Inteligência Artificial vai curar todas as doenças e reverter o envelhecimento...?
Se calhar é.
Vamos pensar nisso...?
Ou isso é uma seca e vamos mas é, antes, tentar perceber porque é que os Clubes de Leitura e os Retiros são maioritariamente frequentados por mulheres...?
Ou deixamos isso também para outro dia?

 

Cá por casa e arredores não querem que eu fale de Inteligência Artificial e do que por aí vem. Dizem que não é preciso falar tanto, que já não se aguenta e que, para mais, talvez não seja como por aí se diz. E eu acho que vai ser, talvez até em domínios em que agora não pensamos. 

Por exemplo, a propósito das cabines clínicas acredito que vai ser como as máquinas multibanco. Ao princípio pensava-se que as pessoas iam continuar a ir ao banco, que o dinheiro é coisa séria, de muita apegação, que não é para ser transaccionado numa máquina no meio da rua. E veja-se: eu nem ao multibanco já vou, já é raro, já é tudo via app, praticamente nem há já dinheiro físico. Quando tive que ir ao banco, aquando da morte da minha mãe, para mim foi um atraso de vida, já não estou habituada. Acredito que com a saúde vai ser o mesmo. Mais depressa vou a uma cabina, sou avaliada, sou medicada, se calhar saio de lá com os medicamentos na mão e, eventualmente, prescrição para outros exames ou consultas de especialidade, tudo já marcado, do que fico meses à espera de uma consulta, depois tempos na sala de espera, depois ir à farmácia ou andar a ver onde posso fazer os exames. 

Acredito que é o caminho. Agora avaliem-se as consequências disto a todos os níveis. Tal como dantes havia grandes agências bancárias, cheias de empregados, e agora há poucas e com pouca gente, assim acontecerá com os centros de saúde ou clínicas de ambulatório. Continuará a haver, mas poucas, para temas que terão que ser tratados presencialmente. Tal como hoje há contact centers dos bancos, aliás já com bots a atenderem, tudo na base do algoritmo, assim haverá para os temas da saúde, para esclarecer dúvidas, para assuntos mais particulares. Não tenho dúvida que será o futuro. Continuará a haver, isso sim, cuidados de enfermagem, cuidados que requerem mão -- e toque -- humano. Porque mesmo as cirurgias... veremos se não será quase tudo na base da robotização.

Mas, a levar a sério as previsões mais optimistas -- e aí vou com mais cautela --, dentro em pouco a inteligência artificial encontrará a solução para o envelhecimento e a solução para todas as doenças.

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Veja-se, por exemplo, esta conversa:

Peter Diamandis: A IA vai curar todas as doenças, reverter o envelhecimento e é preciso estarmos preparados para isso

Peter Diamandis é uma das mentes mais extraordinárias a que já tive o privilégio de chamar amigo, um homem que não só prevê o futuro, como o constrói. Hoje, no Open Book, vamos mergulhar no seu novo livro "We Are as Gods" (Somos como Deuses), e acredite, o que ele tem a dizer sobre a IA, o envelhecimento e a próxima década da história da humanidade vai mudar a sua perspetiva sobre tudo.

Peter H. Diamandis é autor de best-sellers do New York Times e fundador de mais de vinte e cinco empresas nas áreas de IA, tecnologia da saúde, espaço, capital de risco e educação. É cofundador da Singularity University e curador da Abundance360. Possui diplomas em genética molecular e engenharia aeroespacial pelo MIT e um doutoramento em medicina pela Harvard Medical School. O seu podcast Moonshots aborda a IA e outras tecnologias exponenciais e costuma ultrapassar 1 milhão de ouvintes por episódio.


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 Ouvi, até, um a dizer que o importante é chegarmos a 2030 pois haverá um antes e um depois, a nível de longevidade.

Não sei.

Claro que associada a essa idade virá a inquietação: qual o propósito de viver se a vida tenderá a ser quase infinita (a menos que haja acidentes), sem um propósito, sem necessidade de trabalhar? A que novos objectivos nos agarraremos? 

Como será a vida no planeta?

Custa a pensar nisso. Se quisermos aventurar-nos por aí as dúvidas são tantas que preferimos pensar que talvez não seja assim, que é quase uma futilidade preocupar-nos com um tema tão abstracto.

Pois eu não creio que seja longínquo ou abstracto.

Com milhões ou biliões de robots humanóides a serem produzidos, logo a terem que ser escoados, com a corrida desenfreada a ver quem chega primeiro à meta, é inevitável que os receios e as preocupações humanistas vão tender a ficar pelo caminho.

O tempo para regular ou para dosear já foi. E não foi aproveitado. Agora já entrámos na fase da concretização.

Quem me ouve, em família, ou quem me lê aqui, pensará que é uma obsessão minha. Não é. Falo nisto há muito tempo. 

Já o disse: o tema da minha tese foi a tecnologia percursora da inteligência artificial. Era um tema tão novo que não havia na faculdade ninguém habilitado a avaliar-me. O trabalho que fiz, um modelo que concebi e que funcionou e que me surpreendeu e que surpreendeu quem o avaliou foi bem uma amostra do imenso poder que tem um modelo assente na matemática mais pura e dura, com funções testadas e validadas, com a estatística e as probabilidades a serem o motor, e com todas as heurísticas e todo o arsenal matemático a fundamentar todos os outputs. Na altura tive que usar o Centro de Cálculo da Gulbenkian pois os meios informáticos ainda eram muito limitados em Portugal.

Agora, com os super data centers, com o que já se desenvolveu, com as funcionalidades de machine learning todas activas de forma ubíqua, com o mundo inteiro a contribuir para a aprendizagem dos algoritmos (todos as nossas pesquisas, todas as nossas interacções com os Chatgpts, os geminis e os claudes desta vida, com os mails, com as redes sociais -- tudo é um manancial estatístico poderosíssimo, praticamente infalível). E ao alcance de todos. Uma coisa assim já não pode ser travada.

Claro que posso hibernar no campo, andar a podar árvores, a fotografar florzinhas, a ler e a escrever, e abstrair-me desta revolução em curso. Mas ela está aí.

Tenho estado a testar em simultâneo o ChatGPT, o Gemini e o Claude *. Lanço o mesmo desafio aos três. Trabalhos complexos que eu levaria anos a fazer e que, se não fossem feitos só por mim, implicariam uma equipa durante meses ou anos -- com eles, são dias. E são dias porque comparo, valido, corrijo (de vez em quando falham e, como são matérias que domino, a minha intuição facilmente me diz que, por vezes, alguma indicação não está correcta). E o que estou a fazer não é rocket science -- encontrar cura para as doenças, afinar modelos para detecção precoce de tumores,  automatizar fábricas de uma ponta a outra, fazer topografia de lugares inacessíveis através de informação colhida por satélites. Não, nada disso, o que estou a fazer é coisa mais b-a-ba. Mas, pelo que vejo, não tenho dúvidas. Muito, muito trabalho humano vai desaparecer. A formação vai ter que ser adaptada. Por exemplo vai ser preciso aprender a colocar bem as questões, a contextualizar, vai ser preciso saber aferir -- isto nos domínios da interacção, bem entendido.

Não me alongo pois começo a falar disto e vou por aí fora. O tema não apenas assusta como apaixona. 

Há muitos anos li um sociólogo francês dizer que neste século a maior parte dos empregos estaria nos domínios do lazer - cultura, entretenimento, turismo, bem estar. Talvez estejamos quase lá.

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* Já agora, caso queiram saber a minha opinião: Claude, um bom bocado à frente. Uma máquina. Uma máquina... mas uma máquina do caraças.

Amanhã tenciono publicar o seguinte estudo (e depois me dirão): 

ANÁLISE E PROPOSTA DE REFORMA

O SNS que Portugal Merece

Diagnóstico do Sistema de Saúde Português,

Benchmarking Internacional e Roteiro de Reforma

Maio de 2026

Estudo de política de saúde · Dados: OCDE, INE, DGLAB, Conselho de Finanças Públicas


Nota: Não sei o que é que o Albertino -- ou lá como é que o amigo da ministra se chama, sei que não é Albertino mas agora não me apetece puxar pela cabeça, são duas e meia da manhã, estou com sono -- vai fazer naquilo do pacto que o Tozé encomendou mas estou capaz de lhe enviar isto a ver se abrevia as conclusões. 46 reuniões...? É isto a famosa improdutividade portuguesa. Matam-se a trabalhar, lá isso é verdade. O problema é que é a fazer coisas inúteis. 

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E, já agora, informo que, quando comecei a escrever, tinha em mente não falar disto, não queria maçar quem acha que parece que estou sempre a tocar a mesma nota -- queria abordar um tópico que me intriga: porque é que os clubes de leitura ou os retiros são quase todos maioritariamente frequentados por mulheres e porque é que tudo aquilo me parece uma pepineira, uma chachada sem ponta de graça. Mas agora já me parece que não vem a propósito. Além disso há que reconhecer que, se quem os frequenta, lhes acha graça, o que é que eu ou alguém tem a ver com isso, não é? E, na volta, eu é que sou a modos que analfabruta. Acho que, mesmo que fosse para discutir um livro escrito por mim, eu não teria nada a dizer. Nada. Cada um que faça a leitura que lhe apetecer, eu não tenho nada a ver com isso. Com qualquer autor, é isso: escreveu, escreveu, está escrito, lavou as mãos e o livro que se faça à vida. O que é que um círculo de mulheres arranja para dizer sobre o que o pobre do autor para ali escreveu...? Não sei... Só sei que não me interessa saber o que é que os outros acharam sobre um livro. Quando muito, posso ter interesse em saber se alguém cujas opiniões em geral prezo gostou ou não gostou. E chega-me. Mas, enfim, se calhar sou eu que sou bicho do mato. Não liguem.

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Desejo-vos um dia feliz

sábado, fevereiro 15, 2025

Não seria boa ideia substituir o Aguiar-Branco, enquanto presidente da Assembleia da República, por um bot?
Um algoritmo não conseguiria pôr mais ordem na mesa e impor mais respeito ao bando de delinquentes que só ali está para armar confusão?
Pergunto.

 

Há funções que, com o tempo (e já não há de faltar muito), irão à vida. Mas, teoricamente, presidir à Assembleia da República não seria uma delas. Há que saber dirimir conflitos, há que garantir o respeito por todos os protocolos em vigor, explícitos ou implícitos, há que saber conduzir os trabalhos no respeito pela proporcionalidade e pela relevância dos temas e há que evitar o abandalhamento. Teoricamente só um humano, um humano inteligente, equilibrado, com experiência de vida, conseguiria fazê-lo.

Mas o Aguiar-Branco tem uma visão minimalista das suas funções, basicamente acha que o seu papel é ser o grilo falante que acompanha o corte da palavra quando o orador excede o tempo atribuído. Quanto ao restante, assobia para o lado, que não é polícia e tal. Não está ali para se chatear.

O gang -- em que uma parte considerável dos seus membros está a contas com a justiça, acusados por cenas que vão desde o roubo de malas à violação, à ameaça de morte ou a outros delitos variados, e que, na Assembleia, se entretém a lançar bocas obscenas, insultos, ofensas ou, simplesmente, a fazer barulho e armar confusão, conspurcando a casa da democracia -- está, portanto, à vontade. Ou melhor, à vontadinha.

Ora, se tivéssemos um robôzinho a gerir a Assembleia, um robôzinho provido de inteligência artificial, um robôzinho que identificasse insultos, ofensas e outros destratos, que obrigasse os deputados mal educados e com comportamento delinquente a saírem da sala sob pena de apanharem choques elétricos se permanecessem nos seus lugares, estaria em clara vantagem sobre o Aguiar-Branco. Fazer uma gestão eficiente dos horários ou dar a palavra a este ou àquele isso nem é tema, isso é de caras, nem precisa de grande inteligência para o fazer.

Penso que se deveria pensar nisso. 

É o que me parece.

domingo, dezembro 08, 2024

Esculturas feitas por robots...? E continua a ser arte...?

 

Sou amiga de longa data de uma escultora. Durante muito tempo apenas soube dela através de notícias. Mas era ela pequena e já eu percebia nela aquele toque para as artes. Lembro-me de, no liceu, nos primeiros anos, termos que fazer um desenho com guache. Eu e quase todos fizemos desenhos infantis, básicos. Ela não, fez um desenho de bailarinas. A pintura tinha movimento, tinha cor, tinha leveza e graça. As bailarinas estavam em pontas, debruçavam-se, saltavam, e tinham saias de tule, transparentes, e tudo ali dançava. Nesse dia fiquei estupefacta. Pinturas assim só conhecia de quadros nas paredes. Jamais pensaria possível que uma de nós pegasse em pincéis e tintas e, na maior das naturalidades, fizesse uma coisa assim.

Desde aí nunca mais parei de me espantar com a facilidade dela em inventar peças, em dar-lhes vida. Não se tornou pintora mas, sim, escultora.

Ainda recentemente concebeu uma peça absolutamente fora da caixa, inesperada. Apesar de muito elogiada, foi humildade que percebi na sua voz e na sua expressão quando me perguntou: 'Gostaste?'

Há algum tempo ouvi uma outra escultora dizer que há peças que requerem muita força, que pode ser um trabalho muito pesado, que já as evitava pois já não tinha a energia e a resistência que tinha antes. E, de facto, compreendo.

Uma vez enviei uma carta com sugestões à pessoa que ocupava a presidência do município em que, na altura, vivia. Uma delas é que abrisse concursos junto de artistas como escultores ou ceramistas ou graffiteiros para que inundassem a cidade de arte de rua. Achava eu que a cidade deveria transformar-se na cidade das artes, artes ao dispor de todos. Achava eu, e acho, que isso valorizaria de forma duradoura a cidade e que traria alterações estratégicas pois atrairia um turismo de qualidade que, por sua vez, garantiria audiência para outras demonstrações artísticas (festivais de música e de dança, festivais literários ou de cinema ou de fotografia). Enfim, dissertei sobre as potencialidades virtuosas que essa transformação traria à cidade.

Claro que isso tem custos. A arte custa dinheiro. Os artistas não apenas gastam dinheiro nos materiais como muitas vezes têm que contratar ajudantes, têm que arrendar espaços onde possam trabalhar e, claro, têm que viver.

Contudo, agora aparecem os robots, aparece a impressão 3D, e, a montante, o software em que se definem os modelos que estão na origem do que vai ser feito. E, nesse caso, claro que as obras aparecem feitas muito mais depressa. Desde logo, os robots trabalham 24 horas por dia, 7 dias por semana. Claro que, por detrás, há o trabalho humano de programação. Só que, uma vez construído o software que instruirá o robot, este pode fazer essa e milhões de outras iguais. Claro que aí será do interesse do artista destruir o software após a realização da peça para evitar cópias. Só que isso não é bem assim. Quem concebe os modelos matemáticos e quem programa os equipamentos não será o artista pelo que há sempre várias mãos a mexer no software. E, por segurança, haverá cópias. Portanto, o escultor pode acreditar que o software foi destruído e, na realidade, haver ainda uma ou mais cópias. E pode até o próprio artista se predispôr a fazer não um exemplar mas uma série deles.

Seja como for, como em tudo, há lados fantásticos e aspectos preocupantes.

Contudo, quero aqui deixar um apontamento: o mais recente colar, que acho lindo, é composto de peças impressas numa impressora 3D. São peças de uma cor profunda, com um toque macio, maravilhoso, e têm um movimento incrível. Tenho uma amiga, que pertence a uma família ligada às artes e à moda, que faz colares artesanais, bonitos. Quando viu este meu ficou muito impressionada pela sua invulgaridade e beleza. 

Robots sculpt marble in Italy, sparking worries about future of art form | 60 Minutes

A fleet of marble-sculpting robots is carving out the future of the art world. It’s a move some artists see as cheating, but others are embracing the change.


Desejo-vos um belo dia de domingo

quinta-feira, dezembro 05, 2024

Está a chegar o tempo dos pós-humanos?


A ciência deve, forçosamente, ser um dos mais importantes pilares do desenvolvimento. Um outro deve ser a ética. Outro o humanismo. E há mais mas agora não virão tanto ao caso.

Nas empresas, em especial em empresas em que há áreas de investigação e desenvolvimento, recorre-se cada vez mais à figura dos 'gémeos digitais'. No fundo, são réplicas dos processos reais com tudo o que há de interacção entre eles. Deste modo, quando se pretende testar qualquer inovação, seja de que tipo for, em vez de arriscar danos se o teste for feito em ambiente real, usa-se o gémeo digital.

Não é fácil nem económico ter 'gémeos digitais' que sejam réplicas perfeitas, fidedignas. Claro que os meios actuais ajudam: por exemplo, já não é preciso ter Data Centers ultra dispendiosos, pode recorrer-se ao alojamento e gestão na 'nuvem'. Mas, ainda assim, não é fácil. E tem que haver pessoas, muito, muito entendidas, que saibam validar se o gémeo digital é fiável e se os resultados obtidos são de confiança ou se o 'gémeo digital' está coxo e não permite extrapolar algumas conclusões.

Mas uma coisa é ter réplicas do funcionamento de fábricas ou de empresas em geral. Outra, muito diferente, é ter réplicas do funcionamento do corpo humano. Não é só o que isso permite de bom... é também o que permite fazer se as intenções não forem as melhores.

E falo nisto como poderia falar em pegar numa célula qualquer e daí conseguir obter um óvulo e um espermatozóide, conseguindo, pois, 'conceber' um ser humano.

As possibilidades são infinitas. Muitas incríveis, maravilhosas. Outras aterradoras.

E não falo de promessas, de expectativas. Falo de possibilidades reais, cientificamente disponíveis.

Convido-vos a ver o vídeo abaixo. É possível colocar legendas em português.

How Tech Is Breaking the Rules of Biology | Posthuman with Emily Chang

From birth to death, tech is stretching the boundaries of biology. In this episode of Posthuman, we explore the discoveries that could transform reproduction, healthcare and how we die.

Technology that once seemed like science fiction is rapidly becoming reality, transforming the very essence of our existence. In this four-part series, Emily Chang unravels the future of being human in an age of unprecedented innovation.


quarta-feira, novembro 20, 2024

Quando as influencers não existem na realidade e, ainda assim, têm carradas de seguidores e ganham milhares de euros todos os meses

 

Ah, que bom é este admirável mundo novo... Todo ele cheio de absurdos, de desnecessidades, de futilidades, de mil perigos, uns à vista, outros nem tanto...

Se esta nova profissão, ser influencer, já me deixa de pé atrás -- uma actividade sem regulação, sem código de ética, sem qualquer controlo -- (e cheia de dúvidas: cá em Portugal descontam para a Segurança Social? pagam IRS?), imagine-se como fico quando a dita é virtual, toda ela concebida através de Inteligência Artificial...

Imaginaram-na, deram-lhe nome, criaram uma personalidade que lhe assentasse bem... criaram-lhe uma conta de Instagram... e a partir de aí é começar a criar 'conteúdos' e facturar. A jovem de 25 anos, Aitana Lopez de seu nome, apresenta-se geralmente com o cabelo pintado de cor de rosa, viaja, documenta as viagens, dá conselhos... recebe patrocínios... e, afinal, não existe. É, toda ela, uma criação da Inteligência Artificial...

É o admirável e estúpido... e aterrador mundo novo em que já vivemos.

Por mim, fujo de tudo isso a sete pés. Mas é uma fuga aparente pois esta é uma realidade que nos cerca em permanência.

Mas o meu mundo, o meu pequeno mundo real, também tem o seu quê de irreal. 

Hoje de manhã, quando estava a caminhar aqui, por entre as árvores, senti-me observada. Arrepiei-me, senti aquele susto que resulta de não saber o que se passa... e, um pouco a medo, olhei para lá. Ao princípio nem percebi. No meio da folhagem, uns olhos. Fiquei parada a tentar perceber. Depois a 'coisa' mexeu-se, levantou-se. Um gato lindíssimo. Fundo branco, manchas em amarelo torrado e outras em preto. Ficou parado a olhar para mim. Nestas ocasiões, com a atrapalhação, não atino com o telemóvel. Quando consegui pôr na posição de câmara para disparar e fotografar, e me aproximei um pouco, ele virou-me costas e voltou a entrar pelos arbustos.

De tarde, um esquilo aqui mesmo em frente. Sobre o muro, depois a subir por um pinheiro, depois a saltar, no ar, em voo, para um cedro. Uma graça. O rabo peludo ao alto. Alguma vez, em toda a minha vida e até há um par de anos, eu poderia imaginar que aqui, no meu espaço, vivendo nas árvores que nós mesmos plantámos, teríamos esquilos? Nunca, nunca. Uma aparição mágica, fantástica. Uma bênção.

E agora o meu marido foi à rua com o cão. Diz que há um sítio na parte de trás, onde há um conjunto de grandes aloés vera, em que o cão anda em volta, fica a cheirar, a cheirar, como se por ali andasse bicho. Pois hoje foi mesmo aqui, no canteiro que está junto à porta de entrada, que ele ficou parado a cheirar. Eis senão quando salta de lá um grande sapo. Diz que era um sapo mesmo muito grande. 

De onde vem toda esta bicharada é um mistério. Admitindo que não são seres que nasçam de geração espontânea, de algum lado eles vêm. Mas de onde? Alguém me diz?

E, à tardinha, por entre o musgo, várias pequenas redes de orvalho que sobrou das neblinas matinais. Tão bonito. Parecia pequenos recortes de tule branco. Só falta mesmo aparecerem por aqui fadinhas, ninfas, duendes...

Ou seja, e voltando à cold cow, satisfaço-me e encanto-me com coisas assim, não sinto necessidade de ser influencida por influencers reais ou virtuais. Zero. O que tenham para me dizer não me interessa. O meu mundo não é o del@s.

Mas aqui está a Aitana Lopez e como é que isto funciona:

The AI models making huge money on Instagram - BBC World Service

Aitana Lopez is the most popular of the new wave of realistic-looking AI influencers and the agency that created her say they are making thousands a months from her. We visit the Barcelona-based creators of Aitana - the most popular and highest earning AI Instagram model to find out how they curate and create her life which is followed closely by 330,000 followers. 


domingo, dezembro 03, 2023

Receios a sério...? Ou... nada a recear? Tudo um marzinho de rosas?
Ou a malta tem mais com que se ralar (e quem vier atrás que feche a porta)?

 

Quando fiz o trabalho de fim de curso ou quando comecei a trabalhar, os modelos que desenvolvia eram complexos e envolviam milhares de variáveis, milhares de iterações. Que eu soubesse, na Grande Lisboa só havia dois lugares em que elas podiam 'correr': os Centros de Cálculo do LNEC ou da Gulbenkian em Oeiras. 

Mesmo na empresa, em que o centro informático era dos maiores e mais evoluídos do país, não os conseguia correr.

Por essa altura, na empresa, havia uma sala enorme com as operadoras de telex, outra sala gigante com a sala de dactilografia.

Quando uma vez participei num trabalho de reorganização e tínhamos que entregar um relatório, tivemos duas dactilógrafas a passar o trabalho à máquina. De cada vez que alterávamos qualquer coisa, era uma desgraça pois era normal que parte do trabalho tivesse que ser dactilografado de novo, quase por inteiro.

E para o apresentarmos, havia umas pessoas que faziam 'acetatos' que eram projectados num écran a partir de um retroprojector.

E lembro-me também de um dia ver uma coisa estarrecedora: na sala dita da Contabilidade, vários funcionários, por sinal todos os homens, operavam umas grandes máquinas em que salvo erro dando à manivela para a frente se trabalhava com adições e dando para trás se operava com subtrações. 

Centenas de pessoas envolvidas nestes trabalhos de cariz digamos que administrativo ou afim. Se calhar até mais. Não me lembro.

Tudo isto parece pré-histórico, e é, mas não foi assim há tanto tempo pois, que me lembre, já a monarquia tinha ido à vida.

Algum tempo depois, quando deixei de trabalhar, para a contabilidade, a tesouraria, o processamento de salários, toda a informática, planeamento e controlo e sei lá que mais de todo um grupo (várias empresas, algumas das quais fora de Portugal) não deviam ser mais de umas fracas dezenas de pessoas, sendo que a área com mais gente era a última, até por englobar também a inovação, a sustentabilidade e todas essas 'cenas'. 

Os Centros de Cálculo, que antes ocupavam grandes espaços, hoje, na maioria dos casos, desapareceram, foram para o espaço, estão na 'nuvem', algures. 

Ou seja, a informática e as comunicações fizeram uma razia no pessoal dito administrativo. Claro que foram reforçadas outras áreas e apareceram funções que antes não existiam como, por exemplo, as da Segurança Informática.

A sociedade evolui, adapta-se. E é assim que é natural.

Mas os riscos do que agora está a acontecer, sem regulação, vão muito para além disso. Podendo trazer grandes avanços podem também trazer a destruição da sociedade, pelo menos na forma em que hoje a conhecemos.

Convido-vos a verem os dois vídeos abaixo. Se há temas que podem ser não apenas disruptivos mas, ao mesmo tempo, destrutivos são estes.

What is Generative AI? It’s going to alter everything about how we use the internet | Hard Reset

Artificial intelligence is bigger than image prompts and idea generation. Much bigger. This veteran technologist says Generative AI will bring about “The New Internet.”

Is the internet as we know it about to change forever? Veteran technologist Jared Ficklin predicts that we’re in the midst of a sea change, the likes of which we haven’t seen in decades.

Generative AI represents a massive step forward in computer capabilities. Coupled with leaps in robotics and innovative new interfaces, a shift in the computing landscape is coming, called ‘The Real-Time Internet.’

The Real-Time Internet presents a future where software experiences can be personalized according to users’ prompts.


"Godfather of AI" Geoffrey Hinton: The 60 Minutes Interview

There’s no guaranteed path to safety as artificial intelligence advances, Geoffrey Hinton, AI pioneer, warns. He shares his thoughts on AI’s benefits and dangers with Scott Pelley.

Desejo-vos um bom dia de domingo

Saúde. Ânimo e esperança. Paz.

sábado, setembro 02, 2023

Um cedro com pescoço alto e cabeça careca e uma Ameca que já tem muito que se lhe diga

 

Eram sete e picos da manhã acordei com a fera a ladrar desenfreadamente. Estava naquele ponto de ebulição em que se mistura o ladrar com saltos e ataques de fúria. Percebemos que havia coisa. Estávamos a tentar acordar e discernir o que se passava quando começámos a ouvir vozes que nos pareciam ser junto à porta da sala.

Para quem trabalha, sete e picos serão horas de estar a pé. Para nós, idosos e pensionistas, são horas de ainda estar na cama. Claro que, muitas vezes, a esta hora já o meu marido está acordado. Mas anda cansado, desta vez estava ainda a dormir. Eu, excepto se tiver alguma obrigação, às sete, claro, costumo estar a dormir.

Levantámo-nos para ver o que se passava mas percebemos logo que só poderiam ser os artistas que têm andado a desbastar árvores e a cortar mato. Nos outros dias, costumavam começar às oito e pouco, o meu marido saía da cama, ia passear com a fera (à trela) e deixava-me a dormir um pouco mais 

Fomos saber o que se passava para estarem a começar tão cedo. É gente com pouco apetência pela expressão verbal e um deles já estava lá em cima, encarrapitado na copa do pinheiro que está em frente da sala e o outro estava a segurar a escada. Um outro andava lá por baixo com uma máquina a picar lenha e mato. Lá percebi que esperavam que se pusesse calor e tinham resolvido antecipar-se. Percebi que esperavam acabar o trabalho à hora de almoço, antes que a tarde estivesse quente. Não antevi como, dado o volume de trabalho ainda em curso. Mas não se consegue conversar com eles, muito menos planear alguma coisa.

(Como se sabe, o tempo não aqueceu. Como estava previsto, a temperatura desceu).

Com eles, este trabalho foi quase uma aventura: combina-se uma coisa com um mas, depois, quem aparece para fazer o que se combinou é outro, que desconhece a combinação. Isto ao longo dos vários dias.

Uma outra característica: em caso de dúvida, fazem como lhes parece, sem perguntarem.

Como resultado, hoje um cedro gigante apareceu descaracterizado, parecendo agora um gigantesco peru careca. O chefe diz que disse a um deles que fosse lá acima e cortasse o ramo que estava a prender o cabo de telefone que passa ali, no ar, entre postes. Com a péssima dicção de todos e o desalinhamento mental que também me pareceu generalizada, o outro foi lá a cima e, percebendo que a ordem era do ramo que prendia o cabo para baixo, desbastou o cedro até chegar cá ao chão. O chefe, quando viu o resultado final, ia-o esfolando vivo. Não apenas tinha estragado irremediavelmente um cedro majestoso (não se terá expressado assim, presumo) como tinha arranjado trabalho para mais uma data de tempo pois, com aquilo, tinha depositado aos pés da árvore ultrajada uma massa imensa de ramagens que havia que retirar e triturar. O outro, levando tal desanda, ficou ofendido, revoltado, vigantivo.

Eu, pela parte que me toca, ao ver aquele lindo serviço, ia-me dando uma coisa. Podem imaginar, não é? Nem consegui perceber o que tinha acontecido ou qual a justificação para tamanho atentado. O autor da proeza não disse nada, estava roxo de raiva, furibundo, talvez envergonhado, não sei, limitou-se a dizer para eu falar com o chefe, que ele, pelos vistos, não sabia nada. O chefe, por sua vez, disse que estava enervado com o burro que tinha feito aquilo e que já quase nem conseguia falar.

A seguir a este episódio, o clima entre eles ficou de cortar à faca e já nenhum queria fazer nada, certamente cada um culpando o outro pelo sucedido.

Só saíram depois das seis e faltou limparem parte do lixo feito ao cortarem ramos mas não apenas eles, entre eles, estavam em ponto de rebuçado como nós já só desejávamos vê-los pelas costas. 

Quando se foram embora, fomos nós dois de ancinho, vassouras e pás limpar o possível aqui mais perto de casa. 

Se quisermos limpar tudo (e parte não era coisa que eles devessem ter feito), teremos trabalho para não sei quanto tempo e, para dizer a verdade, é um trabalho infindável pois mal acabarmos um lugar já outro estará cheio de caruma e folhas secas. Mas, enfim, pelo menos a maior deve sempre ser limpo e a ver se não descuramos como antes fizemos.

De qualquer maneira, os dois pinheiros e os dois cedros que estavam secos, já não existem. As copas de todos os pinheiros estão lá em cima comme il fault. O mato foi todo à vida (leia-se alecrim, tojo, silvas, rosmaninho, etc. -- tudo). Mas estava tudo tão ressequido, tão infeliz, que não fazia sentido estar a querer conservar. Pode ser que, em chovendo, rebente tudo com vigor. E, portanto, as diferenças entre o antes e o depois são significativas e, vendo os caminhos todos, as pedras em volta das árvores, gosto. Não está o meu belo bosque selvagem mas dá para passear sob a copa das árvores e não se corre o risco de ficar com as pernas arranhadas. 

Só espero é que venha mesmo a chuva pois a natureza não foi feita para viver sem água. Estou, eu própria, sequiosa de um cheirinho a outono, de odor a terra molhada. Tomara que comecem a aparecer os audaciosos cogumelos e que da terra comecem a brotar os musgos, as ervinhas, a vida.

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Tirando isso, o que posso dizer é que estou nisto, alienada dos grandes temas do mundo, sejam eles os irreverentes genitais do Rubiales ou o ladino Marques Mendes (e isto não desfazendo, pois sei bem que há outros grandes problemas), enquanto o tempo acelera a favor do desenvolvimento da Inteligência Artificial. O ritmo da progressão e o sentido que as coisas levam são altamente preocupantes. Não quero ser alarmista pois ainda tenho esperança que, colectivamente, saibamos encontrar maneira de sobreviver à dinâmica de 'seres' muitas vezes mais inteligentes que nós (aceleradamente cada mais inteligentes que nós). 

De qualquer maneira, por via das dúvidas, arredo-me de preocupações e opto por varrer a caruma (ou, vá, escrever).

Sugiro que vejam os vídeos aqui abaixo e que ajuízem.

Sky News Australia interviews 'free-thinking' artificial intelligence

Sky News Investigations Reporter Jonathan Lea sits down to talk with a “free-thinking” and “opinionated” artificial intelligence, Ameca Desktop.

“Ameca is driven by the same artificial intelligence behind Chat-GPT,” Mr Lea said.



‘We messed up badly’: Former Google X boss warns of AI threat


The era of humans being the most intelligent species on the planet is over, according to the former boss of Google's advanced innovation team.  

Mo Gawdat says AI is serving our obsession with greed, consumerism, and weapons of war, which is creating what he calls a prisoner's dilemma.


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Desejo-vos um bom sábado
Saúde. Chuva. Paz.

domingo, agosto 27, 2023

"Quem disse que o homem nasceu para trabalhar?", questiona Pepe Mujica

 

Problemas técnicos ultrapassados, eis que consigo aqui voltar. Dia preenchido, casa quase cheia, animação, apetite e boa disposição. E, sem contacto com o mundo exterior, ainda consegui estar reclinada ao sol a ler. Algum ventinho mas a temperatura amena, e sabe bem alguma frescura depois dos dias de queimação por que passámos.

Do mundo não me apetece comentar nada -- até porque quase nada sei -- e, de resto, o que posso dizer é que o terreno está quase desfigurado de tão 'limpa' que está a terra. É quando como quando a gente vê um homem a quem sempre conhecemos com barba e que, de repente, se apresenta escanhoado. Não parece o mesmo. Olha-se e sente-se que falta qualquer coisa. Não posso dizer que esteja mal até porque as árvores estão grandes e parece que até sobressarem mais. Mas falta toda aquela vegetação que cobria o chão. Volta a nascer, prometem-me. E só espero bem que sim. 

A verdade é que os caminhos -- que quase tinham desaparecido sob a caruma e da qual já germinava toda a espécie de erva  -- estão de novo à vista e isso não deixa de ter a sua beleza.

Ainda não está tudo limpo. Nos dias de muito calor os trabalhos foram suspensos. Ainda há muita limpeza a fazer e há árvores por desbastar. Mas muito já está feito. Agora já se pode passear por zonas que a natureza já nos tinha interditado e isso é também uma alegria.

No outro dia um dos homens junto de quem eu me lamuriava pela razia, dizia-me: 'Isto serve para quê?', referindo-se ao mato. 'Isto só serve é para os coelhos', concluía. Fiquei ainda mais triste e disse: 'Mas eu gosto de ter aqui coelhos...'. Talvez para me consolar. ele disse: 'Já quase que não os há...'. De facto, quase não os vejo mas creio que seja pela secura, está tudo tão seco...

Só espero é que, com isto, os esquilos não se assustem e não se vão para outras paragens -- até porque os pinheiros também têm que ser subidos (ou seja, a copa tem que começar mais acima). E os pinheiros são a sua casa preferida. Custa-me pensar que estamos a perturbá-los mas reconheço que tem que ser, a bem da segurança.

Mas, pronto, é isto. Pouco mais tenho a acrescentar.

Agora já foram todos dormir e eu vim aqui dar um arzinho de minha graça. 

E o que hoje tenho para partilhar é um interessante vídeo no qual Mujica diz coisas interessantes. Há sempre várias maneiras de ver as coisas e a aproximação dele é a optimista, quiçá até utópica. Ele pede para não lhe retirarem a utopia e eu acho que, na realidade, viveremos mais felizes se conseguirmos sonhar com um futuro feliz.

Mujica reflete sobre evolução humana e diz que celular não é o problema

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Desejo-vos uma bom dia de domingo

Saúde. Tranquilidade. Paz. 

segunda-feira, maio 29, 2023

Porque é que a simpática Ameca é tão assustadora?

 

Em certa medida Ameca e outros que tais já são mais inteligentes que nós. Talvez lhes falte ainda um pouco de inteligência emocional. Mas já não deve faltar muito para que nos apanhem e, depois, nos ultrapassem.

Dizem os criadores que se um dia as suas criações quiserem destruir a humanidade bastará desligá-los da corrente. 

Mas não é verdade pois estas máquinas podem tomar decisões que sejam dificilmente reversíveis.

E não estou a falar em cenários catastrofistas, cinéfilos. Falo apenas em pequenas ocorrências diariamente, um pouco por todo o mundo, não rastreáveis, não controladas.

Talvez a humanidade consiga adaptar-se e consiga conviver quase normalmente com as máquinas ou com as aplicações que recorrem a inteligência artificial. Mas estou céptica. Os riscos de que a coisa dê para o torto são imensos.

Não se pense que sou conservadora ou reaccionária. Não sou. Sou o oposto. Na que se refere a inovações, quando eu trabalhava era considerada aquilo a que se chama early adopter. Não receio ser cobaia, não receio ir à frente. Aquela pergunta que tanto ouvi aos meus pares: "Onde é que já usaram essa metodologia (ou tecnologia)?", a mim nunca me interessou.

Se acho que tem potencial, venha ela. Para a frente é que é caminho.

Já aqui o referi várias vezes: trabalhei durante alguns anos em modelos. Construir algoritmos era, para mim, do mais aliciante que existia à superfície da terra. Quando mais exigentes e impossíveis mais entusiasmantes eram para mim. Numa das vezes trabalhei directamente com um especialista em modelos matemáticos do Banco Mundial e aprendi muito, muito, com ele. 

Entre outras coisas, usei o que na altura se designava por simulação. Modelos complexos que recorriam a probabilidades e a estatística, a geração de aleatoriedade, a funções matemáticas de toda a espécie, a computação. Modelos que simulavam a realidade, incluindo o afluxo de pessoas a determinados sítios consoante a hora do dia, o dia da semana ou o local, modelos que simulavam o trânsito, modelos que validavam quais os melhores cenários na resolução de determinadas questões.

Sei bem como é difícil ao ser humano questionar a escolha de um modelo (isto é, os seus outputs) quando o que está por trás são milhões de iterações, de cálculos, de validações, etc. Ou se acredita que está bem feito ou não se acredita. 

Claro que se pode (e deve!) fazer testes e submeter os modelos a baterias de ensaios. Mas não é o comum dos mortais, sem formação ou dedicação que o faz.

E o que me preocupa é ter-se a utilização de modelos bem mais complexos que os meus (pois agora não se fala de milhões mas de milhões n vezes exponenciados) à disposição de toda a gente sem sabermos se foram validados, testados, se são robustos e sérios, rigorosos, à prova de bala.

Num modelo complexo, eu, se quiser, se for danada para a brincadeira ou venal, consigo dar um toque nos algoritmos ou enxertar respostas que, em vez de resultarem de cálculos sérios, sejam o fruto de manipulações.

Imagine-se, por exemplo, que eu construo um modelo matemático ultra artilhado em que entrem todas as variáveis possíveis e em que eu queira validar qual a melhor localização para o novo aeroporto. Quero que tenha o menor investimento, que tenha o menor custo para os utentes face ao seu destino interno, que polua o menos possível, que não interfira com a fauna local, que se enquadre no plano de desenvolvimento territorial, que tenha menores custos de exploração, etc. Por dentro, para o modelo funcionar, geram-se bases de dados gigantes com custos, distâncias, padrões de deslocações turísticas, expectativas demográficas, etc, tudo o que for necessário. E, algures, no meio de toda aquela matemática, enxerto um comando que diz que, independentemente de qual fosse o resultado científico, o que ele iria apresentar como solução seria a zona de Vale do Pito (isto supondo que este era um locais em análise).

Quem é que das comissões de análise e dos grupos de estudo iria rever toda aquela matemática para perceber se o modelo não estava trambicado?

E isto é apenas um exemplo pequeno, ínfimo, meramente ilustrativo. A Inteligência Artificial é mais, muito, muito mais que isto, pois alia acesso a infinito conhecimento a uma velocidade e capacidade de processamento quase ilimitada e a uma disponibilidade quase absoluta.

Claro que num mundo ideal os cérebros que constroem estes modelos pertencem a gente boa, séria, resplandecendo de ética. E os utilizadores serão gente extraordinária, generosa, rigorosa, idónea, inteligente, não influenciável.

Mas não é esse o mundo em que vivemos.

Muitas vezes a Inteligência Artificial apresenta-se como uma aplicação como o ChatGPT, outras como aplicativos que geram imagens, músicas, programas que comandam máquinas. E depois há os robots humanóides. Aí a coisa é ainda mais inquietante. Os seus criadores andam agora empenhados em captar a génese algorítmica das emoções. Estão quase lá. Já o simulam, pelo menos. 

Claro que muito disto ainda está em versão experimental. Estão a aprender com os próprios erros.

Vou contar uma coisa que me aconteceu no outro dia. Pedi ao Chat GPT se sabia dizer-me se havia alguma estrofe de Os Lusíadas em que se fale de crianças. Pois bem. Instantaneamente, o 'fulano' disse-me que sim e mostrou a estrofe em causa. 

Não porque eu saiba Os Lusíadas de cor mas porque a minha mente está formatada para validar o que me é apresentado, peguei nessa estrofe e googlei-a. Nada. Várias tentativas, incluindo noutros motores de busca. Nada. Cheguei à conclusão que aquela estrofe não era do conhecimento do google e, portanto, provavelmente nem sequer existia nem nos Lusíadas nem em lado nenhum. Ou seja, aconteceu ao ChatGPT aquilo que se designa por alucinações. O 'fulano' inventou, ele próprio, uma estrofe. Mas inventou-a ao jeito das restantes dos Lusíadas e ainda se 'se deu ao luxo' de dissertar sobre ela. Se eu não tenho ido validar, acreditava e usava-a e depois ficava na net e qualquer dia alguém mais estava a copiá-la e, às tantas, já ninguém sabia dizer ao certo se sim ou não era genuinamente parte integrante de Os Lusíadas. E isto é um simples e inofensivo exemplo.

Transcrevo o meu diálogo com o Chat GPT para que possam apreciar:

UJM

Há alguma estrofe dos Lusíadas em que se fala de crianças?

ChatGPT

Sim, há uma estrofe nos Lusíadas, de Luís de Camões, onde se faz menção a crianças. No Canto VII, estrofe 37, Camões descreve a ilha de Moçambique e menciona as crianças africanas que viviam lá. Segue a estrofe:

     Mas aqueles meninos, que largados
     Estavam pelas praias, incitados
     Da curiosidade natural,
     Vendo as naus, que os mares têm navegados,
     Seu vão temor deixam, e co' o sinal
     Da nova gente, vão saltando a praia,
     E com infantil gosto, e brando riso,
     Os novos lusitanos vão vendo,
     Da cor do rosto seus corpos cobrindo.

Nesse trecho, Camões descreve como as crianças abandonam seu medo inicial e se aproximam dos marinheiros portugueses com curiosidade e alegria infantil, observando os novos visitantes e cobrindo seus corpos com a cor do rosto, referindo-se à cor da pele.

UJM

De certeza? Não encontro isso n' Os Lusíadas.

ChatGPT

Peço desculpas pelo equívoco. Verifiquei novamente e percebi que me enganei. Não há uma referência direta a crianças nos Lusíadas. Peço desculpas pela informação incorreta anteriormente fornecida.

Os Lusíadas são um poema épico que narra as viagens dos navegadores portugueses e sua jornada até as Índias. Embora Camões mencione vários aspectos geográficos, históricos e culturais, incluindo diferentes povos e costumes, não há uma menção específica a crianças ao longo da obra.

Lamento pelo erro e agradeço por trazer isso à minha atenção. Se você tiver outras perguntas ou precisar de informações adicionais, estou aqui para ajudar.

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What is AI and why are experts terrified about its future? | 60 Minutes Australia

This week, in a first for the program, Tom Steinfort interviews a robot. Ameca, as it likes to be called, is the most advanced lifelike robot in the world. A marvel of generative artificial intelligence, it’s curious, chatty and full of attitude.

As Steinfort discovers, this super machine really does have a mind of its own. But while having a normal conversation with it is undoubtedly exciting, it is also just as frightening. And that’s because creating technology that allows AI bots like Ameca to be smarter than us might just be the most stupid thing humans have ever done.


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Uma boa semana a começar já por esta segunda-feira
Saúde. Boa sorte. Alegria. Paz. 

quinta-feira, abril 20, 2023

Eu, analógica, num mundo cada vez mais digital

 

De manhã fui com a minha mãe a uma clínica para ela fazer um exame sofisticado que só se faz ali, pelo menos que a gente tivesse descoberto. Não fui só eu, foi também o meu marido e, claro, o nosso companheiro de guarda.

Tirando a minha mãe que fica sempre meio baralhada no meio do trânsito, em especial quando anda nas vias mais frequentadas, dos outros só o urso não conhece a cidade. Contudo, o nosso conhecimento não nos salva. Quando não se conhece bem o pedaço para onde se vai, se não levamos um bom gps é certo e sabido que vamos andar às voltas sem atinar com a estrada onde virar. Portanto, salva-nos o Waze. E ainda assim, está bem, está... Por vezes é preciso tomar decisões na hora e, no meio de várias faixas preenchidas em contínuo, se a gente pensa que é para virar lá mais à frente e, afinal, é antes, quantas vezes já não conseguimos virar para lá...

Quando chegámos à clínica, tudo muito automatizado, desde a inscrição até à entrada para os gabinetes, pensei que a minha mãe sozinha não conseguiria orientar-se. Habituada a ser autónoma, está contudo muito virada para o mundo analógico. Ali, ou as pessoas já estão programadas para encarreirarem naquela lógica ou, então, vão sentir-se perdidas.

Mas as coisas começam logo antes. Ao entrarmos para o parque, o meu marido não viu o botão da via verde. Mas, às tantas estava à espera de um botão, e aquilo já está uns passos mais à frente e já não funciona com botão. Tirou um bilhete.

O pior foi para sair. Há que pagar antes de sair, como é óbvio. E, também como é óbvio, não se vê vivalma. Portanto, a primeira dificuldade foi descobrir a máquina. A segunda foi atinar com a dita. O meu marido foi tratar do assunto. Passado um bocado voltou ao carro, que eu fosse lá para ver se descobria onde enfiar o bilhete. Lá fui. Os dois a olharmos para a máquina, hermética, sem descobrirmos uma única ranhura viável. E digo viável pois vimos uma mas púnhamos lá o bilhete e não acontecia nada. Claro que o tempo a contar.

Lá vi, na big e prá frentex caixa negra, discreto, quase invisível, o símbolo de um telefone. Carreguei. Ao fim de um bocado, uma voz saiu da máquina. Perguntei onde é que enfiava o bilhete. A voz disse-me que se encostava ao sítio onde estava uma luz âmbar. O meu marido encostou e no visou apareceu uma verba. Lá conseguimos pagar e, com o bilhete pago, lá nos dirigimos para a saída.

Posso ainda contar um outro episódio.

Em mim, a mania de escrever já vem lá de trás. Nos idos do outro século escrevi umas coisas. Usava-se disquettes e eu, numa de querer preservar as coisas, temendo que os computadores se estragassem ou fossem substituídos, guardei essas obras em disquettes. E nunca mais me lembrei de tal coisa. Tal como me esqueci de converter os ficheiros de DW4 ou 5 em Word. Agora que ando numa de tentar recuperar coisas, tenho para ali tralha a que não consigo aceder nem por mais uma. Então tive a ideia de ver se há algum zingarelho que leia disquettes e permita passar os ficheiros idosos para dentro de computadores actuais. Pareceu-me que sim. Alegrei-me. Então passei pela Fnac e perguntei se tinha tal coisa. O rapaz ficou estupefacto, que já não há disquettes desde o tempo em que as galinhas viviam debaixo de água (não usou estas palavras mas vi que era em coisa assim que estava a pensar). Completou dizendo-me que tentasse online pois nas lojas físicas já não há disso. 

E eu pensei também que dito desta forma também dá que pensar: este mundo ainda é o mundo da minha mãe mas como poderá ele orientar-se se lhe faltarem as lojas físicas? 

E eu? Quanto tempo levarei até sentir-me obsoleta, incapaz de me encaixar no mundo virtual em que os humanos já só se manifestam a partir de máquinas e em que as lojas tendem a não ser físicas.

E hoje, ao ler A torneira, pensei que também já me aconteceu ver uma bela torneira, sem dúvida uma interessante peça de design, mas não fazer ideia de como manejá-la. No meu caso só me ocorria que devia haver um botão ou comando algures, mas, por razões estéticas, completamente oculto. A sensação de impotência e desadaptação bem vincadas...

Isso ou uma vez que estava num daqueles encontros em que há actividades em permanência não nos dando um minuto para desfrutar a excelência das instalações em que, à pressa para não chegar atrasada, entrei no elevador e não lhe vi um único botão. Sozinha numa caixa de vidro, totalmente transparente, a ignorância totalmente exposta, e incapaz de marcar o piso para onde queria ir. Tive que fazer o papel de saloia e ir à recepção pedir explicações. Claro que agora isso já se banalizou mas, há uns anos, era, para mim, absoluta novidade.

Outro exemplo: no outro dia, ao querer fazer uma qualquer coisa, um jovem disse-me que só dava via app. E estava admirado por eu ainda não ter a app.

Todo o mundo caminha aceleradamente para a digitalização, para a desmaterialização, para a sofisticação cada vez mais abstracta e vai deixando para trás os que não conseguem acompanhar o passo. 

Isso ou o que me aconteceu no outro dia. Deitei-me com o telemóvel carregado. De manhã estive a ver as mensagens e as notícias. Tranquilo. Nos noventa e tal por cento de bateria. E, de repente, desligou-se. Tentei ligá-lo e nada. Até que, na fracção de segundo entre tentar ligá-lo e ele desligar-se instantaneamente consegui ver que estava com 0% de bateria. Não encontro explicação. Só que, depois, não consegui carregá-lo pois o que tinha comigo era para carregá-lo via PC e o PC também se tinha avariado. Portanto, fiquei totalmente incomunicável e incapaz de interagir com imensas coisas. 

Numa situação destas, que pode acontecer a qualquer um, como é que um cidadão sobrevive neste mundo como o nosso?

E se esta conversa tem a ver com coisas comezinhas, imagine-se com a inteligência artificial. Como conseguiremos acompanhar o passo sem sermos cilindrados? Já não vai ser possível travar a força do mar com as mãos. Só vejo uma hipótese: hibernar. 

How to stop AI going rogue

Artificial intelligence is improving so fast that no one knows what it might be capable of. It brings huge opportunities, but also huge risks. Arjun Ramani, The Economist's global business and economics correspondent, explains what could go wrong.


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Um dia bom
Saúde. Paciência. Paz.

sexta-feira, janeiro 13, 2023

Um robot igual à mãe do mundo às bolinhas

 

Tenho que confessar que, porque as coisas não andam fáceis, chego a esta hora e falta-me energia. Tenho uma fotografia de um esquilinho na minha casa que queria conjugar com outra fotografia com pinhazinhas roídas e com um vídeo de um mini-mini-esquilinho muito fofo.

Mas teria que passar as fotos para o computador e para isso já não consigo força para levantar nem um dedo. 

À noite, todas as noites, tenho pensado que, no dia seguinte, terei tempo para responder a mails e a comentários, para fazer transvase de fotografias, para apagar mil coisas que deverão ser apagadas (mil não: milhões). E chego ao fim do dia e constato que o dia não rendeu nada daquilo que queria.

Estou num momento diria que charneira e, mesmo sem querer, parece que qualquer coisa me atrofia as ideias e me tolhe os movimentos. Toda a vontade que tenho de fazer mil coisas parece estar a ser travada e não sei bem explicar porquê. O tempo, que sempre me chegou para fazer o que queria, cinquenta coisas ao mesmo tempo, agora não chega para nada.

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Não falo, pois, do que me apeteceria mas do que me é possível. Abaixo mal consegui falar quando partilhei o vídeo do presidente mais patife de que há memória a destratar um enfiado primeiro-ministro.

E agora, nos antípodas mas igualmente dispensando-me de acrescentar o que quer que seja, partilho vídeos igualmente espantosos mas por razões que nada têm em comum com o do estupor-mor.

Aqui é um robot em forma de gente. A Louis Vuitton tem ligação àquela japonesa fofinha de 93 anos, a Yayoi Kusama, que vê o mundo às bolinhas coloridas. Mas agora a colaboração foi elevada a outro patamar. Vê-se e também não se acredita.

Um robot mais realista que Yayoi Kusama em pessoa na montra de Louis Vuitton

Mas isto aqui abaixo é bonito, bonito mesmo

Louis Vuitton x Yayoi Kusama Collaboration | LOUIS VUITTON


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sábado, setembro 17, 2022

Estão a ensinar a Erica a rir, não sei para quê.
(Bem precisada estou eu hoje que tentassem isso era comigo)

 

Passa da uma e meia da manhã e só agora estou a pegar no computador. Cheguei há pouco a casa. A primeira coisa que fiz foi ligar à minha mãe pois, depois de a ter deixado em casa, disse-me que ficava preocupada por eu vir a conduzir sozinha tão tarde e depois de tantas horas de stress e sem comer. Depois tomei um belo banho. Depois de mais de oito horas nas urgências do hospital (cegada que, até ver e so far so good, parece ter terminado bem) só mesmo um banho para tirar de mim o ambiente de umas urgências superlotadas e com episódios de super-desorganização (outro dia conto, hoje não tenho energia). Venho destes lugares com vontade de contar tudo ao pormenor. Mas é melhor deixar passar algum tempo.

Depois do banho, misturei um bocado de papaia com iogurte, com frutos secos e canela e trouxe a tigela para a sala. Comi enquanto espreitava as gordas dos onlines. Estava varada de fome e claro que não foi isto que me consolou. Mas não ia agora, a esta hora, banquetear-me.

É que, ainda por cima, para almoço só tinha comido um queijinho e um pêssego. Por uma vez tinha reservado parte da tarde para um programinha bom que tinha recebido de presente pelos anos. A seguir, quando regressasse da coisa boa, logo lanchava. Mas não devo ter nascido para vida regalada porque, mal penso que vai ser, vem o destino e encarreira-me para trabalhos. E que trabalhos...

Com tudo isso, cansada como estou, não consigo pegar em assunto sério. Nem assunto de rir. Só consigo mesmo vir aqui dizer que isto dos robots humanoides me deixa sempre desconfortável. Ainda por cima quererem pô-los com lero-leros, a mandar boquinhas, a sorrir, todos prosas com fino sentido de humor. Até até em empatia já falam... Não gosto. Gente é gente, máquina é máquina. O planeta a pegar fogo nuns cantos e a meter água por outros, assassinos fascistas à solta com aplauso de palermas que preferem acusar os que querem ajudar os agredidos do que os criminosos que matam e destroem, uma crise generalizada de escassez de bens essenciais, uma inflação desgraçada... e há quem ande nisto, a querer ter máquinas a portarem-se como pessoas. 

Não há pachorra. Parece que não percebem onde é que isso vai parar. Gente doida.

Sugiro, pois, a leitura do interessante artigo do Guardian.

Scientists try to teach robot to laugh at the right time

Research team hopes system could improve natural conversations between humans and AI systems 

(...) Inoue and his colleagues have set out to teach their AI system the art of conversational laughter. They gathered training data from more than 80 speed-dating dialogues between male university students and the robot, who was initially teleoperated by four female amateur actors.(...)

e depois logo vêem se não tenho razão

E, caso queiram conhecer a dita Erica, aqui fica uma amostra.

JST ERATO ISHIGURO Symbiotic Human-Robot Interaction Project


Um bom sábado
Saúde. Boa sorte. Paz

quinta-feira, abril 08, 2021

O admirável novo normal: mais natureza, mais robots, mais duros golpes

 

Um dia que acabou sombrio apesar do sol da tarde. Tento racionalizar: é apenas mais um. Mas sei que não é. Ninguém é.

A manhã foi complexa. Penso muitas vezes naquilo: é melhor ser amado ou ser temido? Apesar de não ser uma princesa, tento relembrar as observações ou conselhos. Aconselhei: guarde alguma distância, tem que conseguir ter amplitude de movimentos para decisões difíceis, não queira ser popular. No ecrã do computador vejo, em grande plano, o rosto daquele a quem exprimo o meu desagrado. Em ponto pequeno, em baixo, poderia ver o meu rosto. Mas não olhei. Por um lado, estava concentrada no que dizia e em ouvir e dirimir nos argumentos do outro lado e, por outro, não sei se é essa a minha face que mais gosto de ver. Talvez me assustasse, se me visse. Sei que o meu semblante não esconde o que sinto.

Aquele que durante anos foi o meu melhor amigo (e que apenas já não o é porque as circunstâncias profissionais e da vida nos afastaram geograficamente tanto que aquele contacto quotidiano se foi esbatendo) dizia, meio a brincar meio muito a sério, que eu, como adversária, era temível. E davam-lhe razão. Eu ouvia, divertida mas sem contestar. E lembro-me de um dia, em casa de amigos comuns, já há uns anos, um outro me ter perguntado de quem eu, na altura, dependia. Quando respondi, ele, o meu amigo, soltou uma gargalhada. Os outros voltaram-se para ele, tendo ele esclarecido a propósito do meu chefe de então: 'Ele pensa que manda nela. Mas mais ninguém acha isso, toda a gente acha que ela é que manda nele. Aliás, acho que ele próprio tem consciência disso.'. O meu marido ainda hoje, de vez em quando, me lembra isso como testemunho de que não acato ordens ou sigo orientações. Não é verdade. Acato, sigo. Mas apenas quando acho que fazem sentido. Mas, reconheço, tenho em mim uma natural tendência para ser eu a ditá-las. Não serei autoritária mas sei que, se vejo um caminho, não penso duas vezes antes de apontá-lo e, se alguma coisa não me parece bem, não consigo escondê-lo nem consigo enrolar a conversa ou dourar a pílula. Muitas vezes penso: 'bruta como as casas'. Mas, nessas situações, não sei ser de outra maneira.

Mas isso foi até à hora de almoço. Nessa altura, fizemos a nossa caminhada e, depois, almoçámos. A meio da tarde, num little break, fui plantar, no canteiro do pequeno varandim, umas plantinhas que tinha comprado no outro dia. Sardinheiras e umas outras que descaem e de que não fixei o nome. E outra coisa: naquela acção da distribuição de árvores, calharam-me não romãzeiras ou medronheiros mas três ciprestes e uma azinheira. Parece que nunca viram tanta procura de medronheiros. Trouxe, pois, quatro projectos de arvorezinhas. Pequeninas, um ou dois palminhos. Alertada para o irritado comentário do Leitor que, no outro dia, aqui dizia que nunca tinha visto tamanha ignorância, que plantar árvores nesta altura seria condená-las à morte, validei: 'E podem plantar-se agora? Têm que ser regadas, não...?'. O senhor esclareceu: 'Não plante na terra. Coloque-as num vaso e vá cuidando. No Outono, lá mais para Outubro, quando começarem as chuvas, muda-as para a terra'. E, portanto, assim fiz. O que eu gosto de fazer mudas de plantas, de mexer na terra, de regar, de observar o seu crescimento, de me deslumbrar com a sua beleza. Depois voltei ao trabalho. Uma tarde cheia de surpresas e quase todas negativas. Irritações, telefonemas. Até que, estando ao telefone com a minha filha, soube da notícia. À noite, na televisão, os testemunhos foram-se sucedendo. Emocionados, tomados pela surpresa e pela comoção. Estes tempos vão assim, inclementes, tantas vidas sendo ceifadas, tantos desgostos para quem fica.

Depois ainda outro telefonema. Estava a fazer o jantar. Queria saber como tinha sido. Escandalizado com o que contei. Que tínhamos que averiguar, ir até às últimas consequências. Por fim, já nos ríamos os dois a bom rir. Há coisas tão estupidamente escabrosas e parvas que, começando por nos chocar e irritar, acabam por nos dar uma irresistível vontade de rir. E foi ainda a rir que ajeitei o tacho com a janta.


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E, por falar em flores, as pinturas são de Georgia O'Keeffe. Lá em cima não posso dizer que o vídeo esteja pela música. Como é bom de ver, está pelas imagens do National Geographic: Time-Lapse: Watch Flowers Bloom Before Your Eyes

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E agora aquilo com que, para espairecer, me entretenho enquanto vejo o House: o maravilhoso e assustador mundo dos contrastes: natureza versus robots. Contudo, nem sempre, no fim, me sinta muito espairecida. O mundo vai divergindo e não sei como vai ser.

Growing a Greener World Episode 1111: Creating Paradise Through a Shared Passion for Gardening



Robots of the future at Boston Dynamics



Uma bela quinta-feira
Saúde. Sorte. Alegria. Afecto.