Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, dezembro 11, 2015

“Dá felicidade ao mundo, estejas onde estiveres”



Estive uma única vez em África: em Angola. E fiquei fascinada. Não sei se lá voltarei. A experiência que, então, vivi é irrepetível e não quero macular a memória desse tempo fabuloso: cerca de um mês em absoluta liberdade, com jovens da minha idade. O calor, a necessidade de andar com pouca roupa, o corpo tão próximo do ar que eu respirava, o corpo tão livre, nadar em águas tão limpas, as árvores enormes, lindas, recortadas na paisagem, o pôr-de-sol imenso, a sensação de percorrer caminhos novos, caminhos muito novos, de estar a percorrê-los num mundo que era outro, longe de tudo - isso não se compara a nada. Tinha deixado em Portugal os meus pais e o meu namorado. E ainda não havia telemóveis e, nos sítios por onde andava, muitas vezes não havia telefones. Ou se calhar havia mas, não sei porquê, não ligava todos os dias, só de vez em quando. Escrevia postais. Não sentia falta de manter a ligação com os que cá estavam.

Já o contei aqui: conheci lá um rapaz mais velho que eu, eu era uma adolescente e ele homem feito, um homem jovem, mas com uma maturidade e vivência que não se comparava à dos meus amigos. Foi uma amizade intensa, dias inteiros juntos, conversávamos de manhã à noite, passeávamos, os dias eram enormes. Gostava muito dos meus ombros, dizia que os meus ombros o deixavam maluco. Eu ria mas as palavras dele, a forma como me olhava e o seu perfume também me deixavam maluca.

Lembro as praias. Não era só Luanda ou o Mussulo. Eram as praias do Lobito, Nova Lisboa. Íamos para a praia ao fim do dia. Passeávamos à beira-mar, a rebentação muito ao de leve, quase nada.  Por vezes havia mulheres que andavam pela beira de água, cantavam, tenho ideia que, à noite, estavam embriagadas, o seu canto era baixo, acompanhava a ondulação branda.

Estava sempre muito calor e eu usava vestidos ou blusas sem mangas, sem costas. Vejo-me, numa fotografia, à beira de umas quedas de água e tenho um cai-cai encarnado e nesse dia não tinha feito uma trança, usava o cabelo comprido caído. Usava uma bolsinha de vime entrançado que tinha comprado lá.

Também gostava de ir às aldeias de palhotas, gostava de andar por lá. Diziam-me que não devia mas eu gostava. Entrei em algumas, convidavam-me. Os musseques. Que eu não fosse, que era perigoso. Nunca senti qualquer perigo, pelo contrário: só simpatia.

Era um mundo tão novo para mim, tão inexplicável. Atraente de uma forma orgânica.

Trouxe de lá tecidos artesanais com grandes flores cheias de cor, colares de sementes e contas coloridas. Gostava de ir aos mercado de rua (S. Paulo em Luanda - seria?), andar por lá a ver os produtos deles, com vontade de trazer, de experimentar, de me arranjar como se fosse negra.

Na altura a pele escura era, para mim, um factor de diferenciação. Não de beleza mas de estranheza. Com o tempo fui mudando. Quando andava na faculdade havia vários estudantes negríssimos. Alguns tinham uns corpos esculturais. Eram muito unidos, andavam sempre juntos. Alguns simpatizavam muito comigo. Quando cortei o cabelo, um deles não se conformava, não percebia como tinha eu sido capaz de cortar o meu cabelo. Eu achava graça à maneira de ser deles, tão extrovertidos, tão genuínos. Aos poucos fui vendo a pele negra de outra forma. Acho agora a pele negra especialmente bela. Por vezes vou almoçar a um restaurante onde há um empregado negro, negro, negro. Lindo, parece-me um ser superior.

É como Lupita Nyong'o: é muito bela, luminosa. Uma pele assim, umas feições assim: toda ela me parece uma obra de arte.

Não sei como alguém pode achar que os negros são seres inferiores. Não sei como pode ser ainda um 'caso' ter-se uma ministra negra. A mim parece-me natural: apenas quero saber se é competente. No caso concreto, a nível pessoal, apenas fiquei satisfeita por saber que Francisca Van Dunem é casada com o Prof. Paz Ferreira (gosto dele, gosto de o ouvir na televisão, sempre sorridente, assertivo mas com uma invejável bonomia).

No outro dia, por razões que não vêm ao caso, tive que andar de autocarro.
Para quem ande habitualmente em transportes públicos, isto pode parecer pedante da minha parte; mas não é. Há anos, já nem sei há quantos, que, nas cidades, apenas me desloco de carro. Não é que ache que é sempre a melhor opção mas, também por razões que não vêm ao caso, tem que ser.
Para além de mim, no autocarro, só iam negros. Várias mulheres, em especial. Falavam alto, riam, depois tiraram pão das malas, comeram, cheirava-me a chouriço. Iam felizes, soltas na sua alegria descomplexada. Gostava de me ter metido na conversa. Outras falavam numa língua desconhecida, uma língua também luminosa, cantante. A verdade é que nem dei pela viagem pois fui todo o caminho fascinada com elas. Lembrei-me da saudade que me ficou daqueles distantes dias de Angola. Há qualquer coisa de imenso, daqueles imensos espaços, dentro da alma dos negros.
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É tarde e esta sexta-feira vou levantar-me quase de madrugada, esperam-me quilómetros para cá e para lá, e, pelo meio, um dia de reunião. Por isso, fico-me por aqui. Veio esta conversa a propósito de uma notícia que li e que me encheu de alegria.

Transcrevo:

São cerca de 70 homens e mulheres que enfrentam, em muitos casos, condenações perpétuas por homicídios e roubos, mas também por acusações de bruxaria e homossexualidade. Em fevereiro, podem passar a ser os vencedores de um Grammy, na categoria Música do Mundo

Este ano, entre os nomeados para os prémios Grammy encontra-se um grupo do Malawi responsável pelo álbum “I Have No Everything Here”, na categoria World Music (Música do Mundo). Até aqui, nada de anormal, mas há uma particularidade a destacar nesta história: é que este grupo chama-se Zomba Prison Project e é composto exclusivamente por presos de um estabelecimento de segurança máxima daquele país.

O grupo, composto por cerca de 70 homens e mulheres que enfrentam, em muitos casos, sentenças de prisão perpétua, contou com os instrumentos mais básicos - aqueles disponibilizados pelo estabelecimento prisional - para gravar as 20 canções lançadas em janeiro, 18 das quais compostas pelos próprios prisioneiros. (...)

O álbum combina sons suaves de guitarra com letras que chamam a atenção, cantadas em Chichewa, uma das línguas oficiais do país: “Partilha com a terra a tua felicidade/ Dá felicidade ao mundo, estejas onde estiveres/ Tenta mostrar felicidade todos os dias a quem te rodeia”, ouve-se no tema “Don't Hate Me” (Não me Odeies).

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As três primeiras fotografias são da autoria de Chief S.O. Alonge e sobre elas e sobre o seu fantástico autor pode ler-se aqui (agradecendo eu ao Leitor que me enviou este link):


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira.

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segunda-feira, março 02, 2015

Ladrões honestos ou ladrões desiludidos? Um Picasso e um Calvin Klein. Não sei porque é que Robert devolveu 'La coiffeuse' mas o ladrão que tinha roubado o vestido de Lupita achou que, por pérolas falsas, não valia a pena a maçada.



La Coiffeuse





Isto da arte é uma coisa relativa. Por mais que se tente perceber o que é a arte e o que distingue o que é do que não é arte ou que se tente perceber qual o justo valor de uma peça, está quieto. Cada um diz a sua. E se os há entendidos a opinar sobre tão esotérico assunto...! Ele há-os historiadores, filósofos, sociólogos. Por vezes gosto de passar os olhos pelas teorias que explanam. Conversa, claro, porque ciência não há.

Se há coisa que me assusta é ir pela primeira vez a casa de pessoas que acham que têm uma casa muito bonita, com boas peças decorativas ou com quadros autênticos, de pintores reconhecidos, e eu, ao chegar lá, olhar para aqui e ficar bloqueada, por mais que queira dizer uma palavra simpática, quase não me ocorre nada. Digo então que a casa é grande, boa, espaçosa, que é simpática, coisas assim. 

Quando andava à procura desta casa em que agora vivo, vimos muitas outras. Coisas de susto. Casas escuras, quadros que por pouco não são colocados perto do tecto, sofás de pele escura ao lado de móveis escuros sobre carpetes escuras. Mais parecia que as pessoas ali estavam quase enterradas vivas. Agora que escrevo, lembro-me de uma moradia fenomenal. Belo jardim, belas divisões. A senhora, elegante e com bom ar, estava desolada. Quase de lágrimas nos olhos, contou-me que o marido a tinha deixado e tinham que vender a casa pois não tinham chegado a acordo para poder ser de outra forma. A senhora falava-me da casa como se fosse uma beleza, um palácio, e toda ela enaltecia a decoração, os quadros, tudo coisas valiosas, dizia ela e, infeliz, contava que não chegavam a acordo sobre a forma de as dividir entre eles. Lamentava-se, 'Uma vida...'. E eu olhava para aquilo e só me apetecia fugir.

Tudo tão relativo.

Uma vez, quando a empresa readaptou as instalações, procurava-se o que se pôr nas paredes de uma nova sala de reuniões. No resto  do edifício as pinturas são sempre óleos antigos, pinturas mais do que clássicas ou gravuras antigas, Aqui ou ali umas serigrafias mas tudo do mais convencional que há. Sugeri que naquela sala se pusessem uns grandes quadros de José de Guimarães que eu tinha visto numa galeria. Quem tinha a última palavra torceu o nariz. Pedi, então, ao galerista que os levasse lá para que se visse in loco. Eu achei uma maravilha. A sala tinha várias janelas, a luz enchia o espaço, havia umas plantas enormes num dos cantos, a mobília era clássica - e o contraste parecia-me altamente estimulante.

Pois bem, ele não gostou. Chamou colegas, juntou-se ali a equipa tudo e toda a gente torceu o nariz. Apenas um único achou bem. E, no entanto, eu achava as pinturas vibrantes e achava que ficavam ali mesmo a matar.

Tudo relativo.

Vem isto a propósito de quê? 

Bem. Um quadro de Picasso, La Coiffeuse, de 1911, tinha sido roubado em 2001 do armazém do Centro Pompidou. Tinha sido exposto pela última vez em 1998, em Munique. A obra está avaliada em $2.5 milhões. Pois bem. Eis que inesperadamente, chegou a Newark com um cartão cheio de ironia, “Joyeux Noel”. Tinha sido expedido por um tal Robert a partir da Bélgica como um brinquedo de artesanato no valor de $37.


Pablo Picasso quarenta e tal anos depois de ter pintado La Coiffeuse,
no seu estúdio com Brigitte Bardot, então com 21 anos

Imagine-se a surpresa.

Especialistas já atestaram a sua autenticidade.

O que teria levado o ladrão a desistir de ficar com La Coiffeuse? Adoraria saber. Quando alguém tem consigo um quadro roubado o que lhe faz? Pendura-o numa parede? Esconde-o? Há filmes sobre isto e a ideia que tenho é que ninguém nunca usufrui em felicidade de uma obra de arte roubada.

Mas houve um outro ladrão que, por estes dias, também devolveu o fruto de um roubo que deu que falar.

O vestido que Lupita Nyongo levou aos Oscares já era esperado com elevada expectativa antes da cerimónia e a expectativa confirmou-se: era uma jóia. E se deu nas vistas quando ela, negra e belíssima, avançou pela passadeira vermelha exibindo o vestido Calvin Klein, todo ele em pérolas, 6.000 pérolas cosidas à mão... O vestido está avaliado em $150,000. 


Será, talvez, heresia colocar ao mesmo nível, neste texto, um quadro de Picasso e um Calvin Klein. Mas, como acima referi, é tudo tão relativo (e, além disso, quem disse que não sou herege?).

O vestido tinha sido roubado do quarto do hotel, as notícias correram mundo e, então, quando menos se esperava, dois dias depois, eis que o vestido está de volta. Apareceu num saco do lixo preto numa casa de banho de um outro hotel.

O ladrão fez saber que retirou duas, tentou vendê-las e ninguém as quis, eram pérolas falsas e, portanto, assim sendo, não estava interessado.

A Calvin Klein está agradecida. Um golpe assim nem nos seus melhores sonhos. Um autêntico golpe publicitário, com a mais ampla repercussão mundial - e ainda por cima gratuito - era algo de que não estava à espera.

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Não faço ideia de quem é cada um dos ladrões e, tomadas as devidas distâncias e proporções, acho que não os deveremos comparar com Passos Coelho (que, à semelhança dos anteriores, voluntariamente, na véspera do Público noticiar o caso, resolveu também pagar a dívida que tinha acumulado por não ter pago a Segurança Social durante 5 anos).


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terça-feira, setembro 30, 2014

O princípio da história de Lupita, uma das mulheres mais bonitas do mundo



Bela, luminosa, orgulhosa, sorriso feliz, Lupita Nyong's (31 anos) conta como descobriu a sua vocação e os passos que deu para chegar onde chegou. A simplicidade é uma qualidade encantadora.






Lupita em 12 YEARS A SLAVE ("Soap") 
no qual ganhou o Oscar para melhor actriz secundária



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quarta-feira, abril 23, 2014

Lupita Nyong'o, a mulher mais bela do mundo em 2014 segundo a revista People. Ela representa a essência da beleza negra. Salvé Lupita!


Música para the most Pretty Woman





Pode uma pessoa que ninguém conhecia arrebatar no período de um ano prémio após prémio? Pode. 

Até um Óscar...?! Sim!


Pode uma pessoa que não é loura, de olhos azuis, cabelos lisos, mas sim negra retinta - e que se orgulha da sua negritude - ser considerada a mulher mais bela do mundo, sucedendo a Gwyneth Paltrow, Julia Roberts, Jodie Foster, Michelle Pfeiffer, Meg Ryan e tantas outras? Pode, então não pode?!


Chama-se Lupita Nyong'o, fez há pouco tempo 31 anos, é mexicana naturalizada queniana e é uma mulher e tanto. Black power é com ela. Black beauty é com ela. Dela parece emanar aquela luz que as estrelas irradiam. Ou será como os suaves planetas que reflectem a luz de uma maneira especial?


Diz que a mãe sempre lhe disse que ela era bonita e que, a partir de certa altura, começou a acreditar.

Diz ela sobre a beleza: What is fundamentally beautiful is compassion for yourself and for those around you. That kind of beauty enflames the heart and enchants the soul...

A Lancôme já a contratou como embaixadora da marca e os prémios parecem chover-lhe em cima. 

Agora foi a revista People que lhe atribuíu o prémio da mais bela mulher em 2014.


E todos os grandes magazines se fazem eco disso, desde a Vanity Fair à Time. De 12 years slave a ícone da moda e da beleza feminina, Lupita começa a percorrer os caminhos da fama com frescura, passos seguros e um olhar puro e luminoso.

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Estudou representação durante anos mas não é só técnica, é também arte.


Patsey (Lupita Nyong'O) enfrentando Master Epps (Michael Fassbender) com a ajuda de Solomon (Chiwetel Ejiofor) no filme 12 Anos Escravo de Steve McQueen's





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A vencedora do Oscar Lupita Nyong'o discursando ao ganhar o prémio

Essence Magazine Black Women In Hollywood Breakthrough Performance Award






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Que a carreira lhe seja longa e bem sucedida e a vida lhe seja feliz, beautiful Lupita.

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A música lá em cima é: Oh, Pretty Woman por Roy Orbison

Pretty woman, walkin' down the street 
Pretty woman the kind I like to meet 
Pretty woman I don't believe you, you're not the truth 
No one could look as good as you, mercy 

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