Estive uma única vez em África: em Angola. E fiquei fascinada. Não sei se lá voltarei. A experiência que, então, vivi é irrepetível e não quero macular a memória desse tempo fabuloso: cerca de um mês em absoluta liberdade, com jovens da minha idade. O calor, a necessidade de andar com pouca roupa, o corpo tão próximo do ar que eu respirava, o corpo tão livre, nadar em águas tão limpas, as árvores enormes, lindas, recortadas na paisagem, o pôr-de-sol imenso, a sensação de percorrer caminhos novos, caminhos muito novos, de estar a percorrê-los num mundo que era outro, longe de tudo - isso não se compara a nada. Tinha deixado em Portugal os meus pais e o meu namorado. E ainda não havia telemóveis e, nos sítios por onde andava, muitas vezes não havia telefones. Ou se calhar havia mas, não sei porquê, não ligava todos os dias, só de vez em quando. Escrevia postais. Não sentia falta de manter a ligação com os que cá estavam.
Já o contei aqui: conheci lá um rapaz mais velho que eu, eu era uma adolescente e ele homem feito, um homem jovem, mas com uma maturidade e vivência que não se comparava à dos meus amigos. Foi uma amizade intensa, dias inteiros juntos, conversávamos de manhã à noite, passeávamos, os dias eram enormes. Gostava muito dos meus ombros, dizia que os meus ombros o deixavam maluco. Eu ria mas as palavras dele, a forma como me olhava e o seu perfume também me deixavam maluca.
Lembro as praias. Não era só Luanda ou o Mussulo. Eram as praias do Lobito, Nova Lisboa. Íamos para a praia ao fim do dia. Passeávamos à beira-mar, a rebentação muito ao de leve, quase nada. Por vezes havia mulheres que andavam pela beira de água, cantavam, tenho ideia que, à noite, estavam embriagadas, o seu canto era baixo, acompanhava a ondulação branda.
Estava sempre muito calor e eu usava vestidos ou blusas sem mangas, sem costas. Vejo-me, numa fotografia, à beira de umas quedas de água e tenho um cai-cai encarnado e nesse dia não tinha feito uma trança, usava o cabelo comprido caído. Usava uma bolsinha de vime entrançado que tinha comprado lá.
Estava sempre muito calor e eu usava vestidos ou blusas sem mangas, sem costas. Vejo-me, numa fotografia, à beira de umas quedas de água e tenho um cai-cai encarnado e nesse dia não tinha feito uma trança, usava o cabelo comprido caído. Usava uma bolsinha de vime entrançado que tinha comprado lá.
Também gostava de ir às aldeias de palhotas, gostava de andar por lá. Diziam-me que não devia mas eu gostava. Entrei em algumas, convidavam-me. Os musseques. Que eu não fosse, que era perigoso. Nunca senti qualquer perigo, pelo contrário: só simpatia.
Era um mundo tão novo para mim, tão inexplicável. Atraente de uma forma orgânica.
Era um mundo tão novo para mim, tão inexplicável. Atraente de uma forma orgânica.
Trouxe de lá tecidos artesanais com grandes flores cheias de cor, colares de sementes e contas coloridas. Gostava de ir aos mercado de rua (S. Paulo em Luanda - seria?), andar por lá a ver os produtos deles, com vontade de trazer, de experimentar, de me arranjar como se fosse negra.
Na altura a pele escura era, para mim, um factor de diferenciação. Não de beleza mas de estranheza. Com o tempo fui mudando. Quando andava na faculdade havia vários estudantes negríssimos. Alguns tinham uns corpos esculturais. Eram muito unidos, andavam sempre juntos. Alguns simpatizavam muito comigo. Quando cortei o cabelo, um deles não se conformava, não percebia como tinha eu sido capaz de cortar o meu cabelo. Eu achava graça à maneira de ser deles, tão extrovertidos, tão genuínos. Aos poucos fui vendo a pele negra de outra forma. Acho agora a pele negra especialmente bela. Por vezes vou almoçar a um restaurante onde há um empregado negro, negro, negro. Lindo, parece-me um ser superior.
É como Lupita Nyong'o: é muito bela, luminosa. Uma pele assim, umas feições assim: toda ela me parece uma obra de arte.
Não sei como alguém pode achar que os negros são seres inferiores. Não sei como pode ser ainda um 'caso' ter-se uma ministra negra. A mim parece-me natural: apenas quero saber se é competente. No caso concreto, a nível pessoal, apenas fiquei satisfeita por saber que Francisca Van Dunem é casada com o Prof. Paz Ferreira (gosto dele, gosto de o ouvir na televisão, sempre sorridente, assertivo mas com uma invejável bonomia).
No outro dia, por razões que não vêm ao caso, tive que andar de autocarro.
É tarde e esta sexta-feira vou levantar-me quase de madrugada, esperam-me quilómetros para cá e para lá, e, pelo meio, um dia de reunião. Por isso, fico-me por aqui. Veio esta conversa a propósito de uma notícia que li e que me encheu de alegria.
Transcrevo:
São cerca de 70 homens e mulheres que enfrentam, em muitos casos, condenações perpétuas por homicídios e roubos, mas também por acusações de bruxaria e homossexualidade. Em fevereiro, podem passar a ser os vencedores de um Grammy, na categoria Música do Mundo
Na altura a pele escura era, para mim, um factor de diferenciação. Não de beleza mas de estranheza. Com o tempo fui mudando. Quando andava na faculdade havia vários estudantes negríssimos. Alguns tinham uns corpos esculturais. Eram muito unidos, andavam sempre juntos. Alguns simpatizavam muito comigo. Quando cortei o cabelo, um deles não se conformava, não percebia como tinha eu sido capaz de cortar o meu cabelo. Eu achava graça à maneira de ser deles, tão extrovertidos, tão genuínos. Aos poucos fui vendo a pele negra de outra forma. Acho agora a pele negra especialmente bela. Por vezes vou almoçar a um restaurante onde há um empregado negro, negro, negro. Lindo, parece-me um ser superior.
É como Lupita Nyong'o: é muito bela, luminosa. Uma pele assim, umas feições assim: toda ela me parece uma obra de arte.Não sei como alguém pode achar que os negros são seres inferiores. Não sei como pode ser ainda um 'caso' ter-se uma ministra negra. A mim parece-me natural: apenas quero saber se é competente. No caso concreto, a nível pessoal, apenas fiquei satisfeita por saber que Francisca Van Dunem é casada com o Prof. Paz Ferreira (gosto dele, gosto de o ouvir na televisão, sempre sorridente, assertivo mas com uma invejável bonomia).
No outro dia, por razões que não vêm ao caso, tive que andar de autocarro.
Para quem ande habitualmente em transportes públicos, isto pode parecer pedante da minha parte; mas não é. Há anos, já nem sei há quantos, que, nas cidades, apenas me desloco de carro. Não é que ache que é sempre a melhor opção mas, também por razões que não vêm ao caso, tem que ser.Para além de mim, no autocarro, só iam negros. Várias mulheres, em especial. Falavam alto, riam, depois tiraram pão das malas, comeram, cheirava-me a chouriço. Iam felizes, soltas na sua alegria descomplexada. Gostava de me ter metido na conversa. Outras falavam numa língua desconhecida, uma língua também luminosa, cantante. A verdade é que nem dei pela viagem pois fui todo o caminho fascinada com elas. Lembrei-me da saudade que me ficou daqueles distantes dias de Angola. Há qualquer coisa de imenso, daqueles imensos espaços, dentro da alma dos negros.
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É tarde e esta sexta-feira vou levantar-me quase de madrugada, esperam-me quilómetros para cá e para lá, e, pelo meio, um dia de reunião. Por isso, fico-me por aqui. Veio esta conversa a propósito de uma notícia que li e que me encheu de alegria.
Transcrevo:
São cerca de 70 homens e mulheres que enfrentam, em muitos casos, condenações perpétuas por homicídios e roubos, mas também por acusações de bruxaria e homossexualidade. Em fevereiro, podem passar a ser os vencedores de um Grammy, na categoria Música do Mundo
Este ano, entre os nomeados para os prémios Grammy encontra-se um grupo do Malawi responsável pelo álbum “I Have No Everything Here”, na categoria World Music (Música do Mundo). Até aqui, nada de anormal, mas há uma particularidade a destacar nesta história: é que este grupo chama-se Zomba Prison Project e é composto exclusivamente por presos de um estabelecimento de segurança máxima daquele país.
O grupo, composto por cerca de 70 homens e mulheres que enfrentam, em muitos casos, sentenças de prisão perpétua, contou com os instrumentos mais básicos - aqueles disponibilizados pelo estabelecimento prisional - para gravar as 20 canções lançadas em janeiro, 18 das quais compostas pelos próprios prisioneiros. (...)
O álbum combina sons suaves de guitarra com letras que chamam a atenção, cantadas em Chichewa, uma das línguas oficiais do país: “Partilha com a terra a tua felicidade/ Dá felicidade ao mundo, estejas onde estiveres/ Tenta mostrar felicidade todos os dias a quem te rodeia”, ouve-se no tema “Don't Hate Me” (Não me Odeies).
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As três primeiras fotografias são da autoria de Chief S.O. Alonge e sobre elas e sobre o seu fantástico autor pode ler-se aqui (agradecendo eu ao Leitor que me enviou este link):
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira.
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