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segunda-feira, agosto 03, 2026

Luís Neves -- o passivo* dos desenrascados

 

Como é sabido por quem por aqui me acompanha, trabalhei mais de mil anos em contexto empresarial, seja o de empresa pública seja, maioritariamente, privada. Trabalhei com gente que nunca mais acaba e, agora, de ginjeira, consigo caracterizar toda a gente que me passa à frente. 

Trabalhei com dois que, a meu ver, são cópias chapadas do Luís Neves. Em empresas diferentes e em anos desencontrados, eles não se conhecem. Mas eu conheci-os bem demais. Ambos altos dirigentes nas respectivas empresas.

Não vou entrar em pormenores mas , caso eles tenham cometido irregularidades, fizeram-nas certamente "por bem". E, de resto, já prescreveram, já foi tudo há muito tempo. 

O primeiro era responsável por uma grande área que, por sinal, tinha vários pontos de risco. Sob sua coordenação, directa ou indirecta, trabalhavam muitas centenas de pessoas. A Administração da qual ele dependia, gostava genericamente dele. Consideravam que não seria um estudioso nem um inovador, nem sequer metódico e, muito menos, especialmente rigoroso. Atrasava-se nos relatórios, sabia-se que, aqui e ali, alguns procedimentos eram aligeirados, e não era extraordinariamente brilhante quando tinha que apresentar planeamentos detalhados ou justificações mais complexas. Mas resolvia todos os problemas. Nunca levava problemas para a Administração. Resolvia tudo e a Administração, na maior parte das vezes, nem sabia que tinha havido qualquer problema. E haver uma pessoa assim é um descanso. Um desenrascado. Por vezes sabia-se que tinha lá estado uma equipa da ACT e chegavam rumores de algumas situações estranhas mas ele dizia que estava tudo ultrapassado, que nem valia a pena entrar em pormenores. Sabia-se que tinha boas relações com os inspectores, que os convidava para almoçar. Era cordial, descontraído, simpático.

Outras vezes, a posteriori, ouvia-se falar em eventuais acidentes de trabalho, outras vezes ambientais. Mas ele assegurava que não, coisas de nada que os intriguistas do costume gostavam de empolar. A Administração lembrava-o que os procedimentos eram para cumprir religiosamente, que a transparência era imprescindível. E ele dizia que sim, claro.

Os seus indicadores eram sempre de excelência. Os colegas torciam o nariz, desconfiavam que ele atirava os problemas para debaixo do tapete, recorria a expedientes, encobria problemas. Mas eram suposições.

Até que mudou de funções. E aí foi o ver se te avias. O pobre coitado que para lá foi encontrou um passivo desgraçado. Situações até embaraçosas, problemas para resolver que não acabavam, os anteriores colaboradores todos a demarcarem-se do antigo chefe, tudo a vir acima.

Infelizmente, por essa altura aconteceu um problema de grandes dimensões, coisa séria, que o transcendeu. Ele foi acusado por inerência de funções mas, directamente, toda a gente acreditou que foi mais um grave acidente do que uma gravíssima negligência. Mas ele foi-se muito abaixo, adoeceu, teve uma depressão, e passou a ser uma pálida sombra do que tinha sido.

O segundo, num outro tempo, numa outra empresa, era igualmente um alto dirigente. Muito do género do primeiro. Considerado um ás, um solver, ainda se estava a começar a ouvir falar de um problema e já ele estava em campo, a resolvê-lo. Afável, simpático, bom trato. Toda a gente gostava dele. Talvez fosse das pessoas mais conceituadas da empresa. Os clientes adoravam-no, os fornecedores estavam sempre a querer falar com ele, as instituições com as quais a empresa se relacionava tinham nele o rosto operacional da empresa, os sindicatos entendiam-se muito bem com ele.

Nunca enviava relatórios e várias áreas penavam para ele dar alguns inputs de que precisavam, por exemplo, para ter orçamentos ou para se fechar as contas. Nunca tinha tempo, andava sempre em reuniões, andava no terreno, dizia que não tinha tempo para papéis.

O pior foi quando se começaram a fazer auditorias. O passivo era gigantesco. Verbas inusitadamente altas por facturar por acordos que fazia com clientes sem informar ninguém, gente que reclamava aumentos e promoções que ele tinha garantido e, como não podia ser ele a dá-los, arranjava maneira de compensar as pessoas com falsas horas extraordinárias ou falsos subsídios. Acordos com fornecedores que fazia à revelia da área de Compras, segundo ele para resolver emergências (das quais as Compras nunca tinham ouvido falar). Recurso a trabalho temporário ou a prestação de serviços sem autorização. Ou, mesmo, querer corromper quadros bem colocados em algumas organizações, segundo ele porque eram pessoas influentes que poderiam ajudar em concursos, e de que, in extremis, foi impedido, deixando-o incomodado por achar que quem o impedia era gente burocrática, sem visão.

Foi afastado de funções de responsabilidade, claro, pois a empresa não queria correr riscos de danos reputacionais. Mas muita gente na empresa pôs-se do lado dele, desculpando as múltiplas e graves irregularidades e louvando o seu espírito desenrascado 

Agora quem quiser que diga se identifica ou não esta maneira de ser com a de Luís Neves.

Nas empresas em que trabalhei, no mínimo seria encostado. No governo do Montenegro, encaixa bem.


* Passivo no sentido contabilístico do termo

sexta-feira, julho 24, 2026

Ela não dava respostas, ela ficava na pergunta

 

Não sei bem qual o primeiro livro dela que eu li. Sei, isso sim, que me agarrou pelas vísceras. É daquelas coisas que, se eu quiser explicar, não sei bem o que dizer. A ideia que tenho é que ela não contava propriamente uma história, contava o que alguém, ou ela mesma, sentia. Mas sentia a um nível muito elementar. Em geral os escritores falam de eventos especiais, marcantes. Quando muito, numa crónica ou num registo mais diarístico, acontece o autor permitir-se falar de pequenos nadas da sua vidinha, insignificantes impressões. Mas abrir-se um livro, romance ou novela, e uma pessoa sentir aquela sensação estranha de que entrou na cabeça ou no corpo de alguém e que experimenta aquelas dúvidas miúdas que geralmente nunca veem a luz do dia ou aqueles medos ou aflições que nunca se verbalizam, aquela maldade de que se sente vergonha apesar de ser inofensiva, isso é muito estranho. Lembro-me de de avançar de página em página e depois recuar, querer ter a certeza de que tinha lido bem, que aquela escrita existia mesmo da forma como eu estava a assimilar. Uma sensação que era de estranheza, sim, mas, ao mesmo tempo, de grande admiração, uma admiração por algo novo, e, também, de vontade de a ter descoberto há mais tempo. E, reconheço agora, uma vontade de também ser capaz de escavar assim, tão impiedosamente, dentro de mim.

Fui comprando os seus livros. 

Quando o mundo deixou de ser analógico e as pessoas, mesmo as desaparecidas, continuavam vivas nos nossos computadores, comecei a ver como ela era, como era a sua voz, como demonstrava tão cruamente o desinteresse pelas aparências, como não disfarçava o seu cansaço. 

Também morreu cedo de mais.

Alguns dos seus livros, para mim não ser para ler de seguida. Não costumo ler missais mas imagino que abra-se em que página se abrir, está sempre certo, faz sempre sentido. E, se não vier a calhar, abre-se ao acaso noutra página e já vai estar bater certo com o que estamos disponíveis para ler. Assim com algumas das suas coisas. É a escrita pela escrita. Mas isto não significa que seja desprovido de sentido. Significa apenas que é uma escrita que não se encaixa nas escalas a que estamos habituados: é uma escrita multidimensional em que as derivadas e os vectores secindários são tão determinantes quanto os eixos principais e os pontos que por entre eles se deslocam.

Há muitos documentários sobre ela e, às tantas, já não há nada de novo a acrescentar. Mas vou sempre ver. Gosto de ver o seu desapego. Era também assim que escrevia, sem querer saber.

Já aqui o referi antes: nestes tempos de mil solicitações, em que a sua atenção fica cativa dos youtubes, dos influencers, das redes sociais, da omnipresença do futebol, não sei como se instila nos jovens o prazer da leitura. A realidade deles já é quase exclusivamente a das notícias que se descrevem em meia dúzia de palavras, dos vídeos cheios de palavrões, dos jogos e das interacções através das muitas plataformas de partilha de toda a espécie de coisas, sobretudo de lixo. 

Como conseguir que um jovem, mesmo um jovem adulto, pegue num livro dela, tão diferente de tudo, e não desista antes de chegar ao fim da primeira página?

Não sei.

Vou dizer o que disse no outro dia: um dos meus netos fez o 12º. Creio que não leu um único dos livros obrigatórios. Sei que gostou dos Lusíadas, mas não sei se o leu todo. Da maioria dos livros que poderiam sair no exame sei que não leu. Disse que não tinha tempo nem paciência, que precisava do tempo para se concentrar na matemática. E, no entanto, nos testes lectivos teve sempre boas notas. Não lhe disse nada para não o enervar, mas temi pelo exame. Mas ainda bem que não disse pois no exame teve uma nota igualmente alta, nem sei se até um pouco superior à lectiva. Como o conseguiu? Youtube, provavelmente trabalhando em conjunto com a IA na caracterização de personagens ou na descrção do enredo. Não sei ao certo. O que sei é que resultou com o tipo de ensino que temos que, como se vê, não consegue estimular o gosto pela leitura. Em casa cresceu entre livros, sempre testemunhou hábitos de leitura, sempre foi incentivado a ler. E lia. Até que cresceu e começou a ter menos tempo livre e até que foi confrontado com a necessidade de ler livros que não lhe dizem nada. Como é inteligente e facilmente apanha do ar, desenvolveu formas de atingir os objectivos escolares. Mas temo que o prazer de desbravar o infinito mundo da literatura se tenha dissipado, pelo menos para já.

Mas, enfim, o inteligente ministro da educação (letras deliberadamente pequenininhas) há-de também te solução para isto.

O enigma de Clarice

Clarice Lispector não escrevia apenas histórias. Neste vídeo, mergulhamos na vida e na mente de uma das figuras mais enigmáticas da literatura mundial. De sua origem Ucraniana ao auge no Brasil, entenda como Clarice transformou a literatura. Se você já se sentiu um "estrangeiro" no próprio mundo, este vídeo é para você.

E já estamos outra vez numa sexta-feira

Que ela seja feliz

sexta-feira, julho 17, 2026

Incompetência e irresponsabilidade a um nível impensável

 

Onde eu trabalhava, praticava-se a gestão activa de porfólio. Para quem não está por dentro desta gíria pode parecer que estou a armar-me ao pingarelho. Mas não estou, era assim que dizíamos. Isto significava que era normal adquirir ou vender empresas, outras vezes formar empresas, outras vezes ainda organizá-las debaixo de diferentes holdings e sub-holdings.

Em termos de gestão isto é um desafio pois havendo áreas corporativas centralizadas ou empresas  de serviços que os prestam a outras, e havendo processos normalizados e, em grande parte, automatizados, de cada vez que havia destas jiga-jogas todos os processos eram virados do avesso, novos processos eram implementados, pessoas eram postas a fazer trabalhos diferentes daqueles a que estavam habituadas -- e tudo tinha que se passar sem que a operação fosse beliscada, sem que os clientes e fornecedores fossem afectados. 

Outas vezes era preciso mudar sistemas, automatizar de forma transversal processos novos (processos de toda a espécie, desde a gestão de topo até ao dito shop floor). Acontecia haver revoluções que afectavam, ao mesmo tempo, milhares de pessoas, geralmente ao longo do país, geralmente ao mesmo tempo em várias empresas, por vezes ao mesmo tempo em Portugal e fora de Portugal. 

Nada poderia falhar. A última coisa que se queria era ter falhas que originassem prejuízos ou danos reputacionais. O que se pretendia era que a transição fosse tão tranquila que quase não se desse por ela, que parecesse fácil.

Tudo isto era planeado ao milímetro, era executado com monitorização apertada, havia não apenas a equipa de projecto como um steering committee que envolvia não apenas a equipa de projecto mas também a equipa de gestão e a administração. Não havia uma ponta solta. Toda a estrutura tinha que estar envolvida, coesa, solidária. Não podia haver gente desconhecdora, desalinhada, contrariada. Nem pensar. Garantir que toda a gente remava para o mesmo lado, ao mesmo ritmo, era responsabilidade da equipa de gestão do projecto. E do projecto constavam várias vertentes incluindo a formação e a gestão da mudança, os testes intensivos aos vários níveis, funcionais e técnicos, o acompanhamento in loco e remoto a quem estava no terreno. Antes de se arrancar com a nova realidade já tudo estava oleado, compreendido, agarrado. Ainda assim havia sempre um plano de contingência. Nem pensar em atirarmo-nos para a piscina com uns a não saberem nadar, outros a não saberem que estilo ou para que lado era para nadar e sem haver bóias e equipas de salvamento a postos. A gestão de risco avançava sempe a par e passo da gestão do projecto.

E trabalhei por várias vezes com equipas alemãs, por exemplo quando empresas alemãs nos compravam ou nos vendiam empresas. Aí o planeamento era levado ao detalhe mais minucioso que se possa imaginar. Aí eu, que sou rigorosa e exigente, chegava a ficar pelos cabelos com as cautelas deles. Para cada pequena etapa definia-se a margem admissível de falha e o respectivo plano de contingência. Não havia uma vírgula ou um papel que fosse deixado ao acaso. Antes de se ir para o terreno, tudo estava ensaiado e acautelado ao mais ínfimo pormenor. Quando trabalhávamos com alemães já sabíamos que era assim.

Outros casos: aconteceu-me várias vezes alguns colegas dizerem-me que se estava em fase avançada de negociação e que uma determinada empresa, cujo funcionamento eu não conhecia, devia começar a trabalhar, de forma integrada dentro do Grupo, dentro de um mês. Face a isso eu não tinha qualquer pejo em dizer que era impossível, que havia vários levantamentos a fazer, muito trabalho de migração, de documentação, de formação, de testes de integração e de funcionamento e que, portanto, na melhor das hipóteses isso poderia acontecer no prazo de x meses (o x variando em função da complexidade da empresa adquirida). E isso era aceite. Nestas coisas, prevalecia sempre o bom senso, a vontade de que tudo corresse bem, a prudência e o sentido de responsabilidade. Não havia lugar ao voluntarismo nem ao amadorismo.

Sempre que se resolvia avançar com modernizações transversais, e foram muitas as vezes em que isso aconteceu, uma coisa era sempre clara: modernizar não é fazer informaticamente a mesma coisa que se fazia de forma tradicional. Modernizar é repensar um processo, é optimizar.

O que está a acontecer com isto dos exames é a antítese de tudo isto. Não há estratégia, não há método, não há gestão, não há noção, não há sentido de responsabilidade. O que estão a fazer não apenas não está a funcionar bem como é uma coisa arcaica, uma ineficiência, uma aberração, um atraso de vida. Um aborto.

Tenho ouvido o ministro, o primeiro-ministro e alguns comentadores a defenderem que mudar é correr riscos e que é normal que as coisas corram mal em processos de transformação. Não é. NÃO É. O normal é que tudo corra on time, on budget, on scope. Ou seja, sem desvios orçamentais, a tempo e horas e a corresponder ao requerido. Isto é o normal. O normal é correr bem. Correr bem é o objectivo do qual os bons profissionais não se desviam.

E digo outra coisa: depois do que fui sabendo a propósito deste caos dos exames, tenho antecipado todos os problemas que têm havido. E não porque seja mais esperta do que quem não o antevê. Simplesmente tenho experiência, conheço os passos que têm que ser dados antes de se passar à fase seguinte. E esta gente, pelo que tenho visto, não pesca boi. Uma indigência como nunca vi.

Por exemplo, tenho ouvido toda a gente a dar por garantido que, a partir do momento em que acabem as avaliações, acto contínuo as notas serão disponiblizadas. Não quero antecipar ou parecer que estou a querer que corra mal, até porque não conheço o que se fez em cada fase do projecto. Pode acontecer que o sub-processo que medeia o fim das classificações na nova plataforma e aparecerem as notas, integradas por aluno e separadas por disciplinas e por escolas no sistema do Júri Nacional de Exames, tenha sido testado e re-testado e estar a funcionar direitinho, incluindo todos os mecanismos de controlo (por exemplo, confirmar que os x items de cada prova foram classsificados, confirmar que todos os items que foram separados por avaliador, são bem agregados e bem totalizados por aluno, confirmar que não faltam alunos em cada disciplina e em cada escola, etc -- por forma a garantir que a informação que vai nos ficheiros gerados pela nova plataforma e que será carregada no portal do JNE está integra e correcta. Se tudo isso foi bem testado e se foram também realizados testes de carga por forma a garantir que esses ficheiros chegam direitinhos e a tempo e horas às escolas, sem sobrecargas e time outs, e que a integração com as notas escolares é um processo rápido, então, perfeito, óptimo.

Só que o que tenho visto até aqui é um amadorismo sem paralelo, uma sucessão de calinadas e de improvissos como nunca vi em décadas de vida profissional. Nunca. Se isso é geral, então as notas serem calculadas, ponderadamente, agregadas por aluno e por escola, e saírem da nova plataforma até chegarem e serem lidas como deve ser pelo sistema do JNE, pode muito bem vir a ser outro problema.

Contudo, espero bem que não. Já o disse várias vezes: tenho dois netos à espera de notas, um deles no 12º ano, a aguardar poder candidatar-se à universidade. Por isso, desejo muito sinceramente que as notas deles saiam, sejam credíveis, estejam correctas, e que, atempadamente, as escolas as publiquem  e emitam as fichas que são necessárias às candidaturas.

Mas só quando isso acontecer eu descanso porque agora a confiança que tenho na integridade deste processo é bola. Zero.

Depois, um outro aspecto. O sistema oficial que vigora é que os alunos têm o direito a pedir uma cópia do seu exame. Como até aqui as provas estavam em papel na escola, isso era banal. Era ir buscar e fotocopiar. Agora não é assim pois, fisicamente, estão no armazém da bagunça em Mem Martins. Mas foram digitalizadas. Só que estão anonimizadas. Ou seja, para localizar a cópia digital de cada prova para a fazer chegar a cada aluno, ela tem que ser desanonimizada. Ora só a escola as pode desanonimizar, fazendo corresponder a identidade do aluno ao código da prova digitalizada. E depois tem que se juntar o endereço de mail dos encarregados. Supostamente no sistema do JNE já existe esse endereço. Só que as cópias digitalizadas estão na nova plataforma e a integração com o sistema do JNE pelos vistos não existe, pelo menos em tudo o que devia. Gerar mails a partir de uma lista de endereços e localizar anexos para indexar aos mails ou gerar links não é nada de especial. O que não faltam são aplicações para o fazer que nem ginjas. Mas tem que ser testado, especialmente quando está em causa enviar 130.000 mails e quando, pelos vistos, se as notícias estão correctas, à última hora os códigos e os endereços de mail vão ser carregados à mão. Mas se esse processo também foi testado, perfeito, talvez corra bem. Só que parece que isto foi uma bola que saiu do saco à última hora e ontem as escolas ainda não sabiam onde iam registar esses endereços. Por isso, nem sei o que pensar.

Ou seja, pode acontecer que as únicas barracadas e burrices grosseiras só tenham surgido no sub-processo do split das provas em items e envio dos itemas para avaliar e que tudo o resto esteja a funcionar às mil maravilhas. Pode ser e seria bom para os alunos e famílias.

Mas, se a inexistência de gestão de projecto, de experiência, de prudência, de know how foi generalizada, pode acontecer que, entre o fim da avaliação e a disponibilização das notas e das fichas pelas escolas, venham a surgir novas surpresas.

Ouvi a incoerente, tendenciosa e preguiçosa Clara Ferreira Alves no Eixo do Mal a justificar este caos dizendo que isto é mesmo assim. Talvez seja na casa dela ou nos ministérios do Montenegro. Não é decidididamente assim em todos os lados em que há gente responsável e competente è frente de lugares de responsabilidade.

Mas, enfim, vou acender uma velinha. Pode ser que os meus netos amanhã já conheçam as notas dos exames e as médias com que acabaram respectivamente o 9º e o 12º anos. É o que eu desejo.

sexta-feira, julho 10, 2026

Ver estrelas... ou obrigadinha mas não...

 

Dantes tinha um hábito que, nos últimos anos, fruto das circunstâncias, se perdeu. Consistia no seguinte: sempre que estava de férias, marcava massagem no hotel. Quase que recordava os hotéis pela qualidade das massagens. 

Por exemplo, não me lembro nada de como era um certo hotel na Costa Vicentina mas jamais me esquecerei da épica massagem dada por um massagista homem, indostânico, que vimos a chegar numa motoreta, e que, quando cheguei à salinha, me mandou despir com ele presente, eu sem saber se haveria de fugir, se aguentar firmemente. Aguentei. Despi-me de costas para ele, temendo virar-me não fosse ele estar a olhar par amim. Um filme. Mas estava com um lençol ao alto, cobrindo-se a ele próprio até que depôs o lençol em cima de mim. Não me esqueço da minha inquietação. As massagens, até então, sempre tinham sido dadas por mulheres, tudo segundo um protocolo de reserva e privacidade que nada tinha a ver com este massagista. Pensei que era chato desistir pois podia estar a descriminar o homem só por ser homem, só por vir de uma outra cultura. E não me arrependi, foi uma bela massagem, decente, eficiente. Mas não repetiria pois, do que me recordo, acho que não consegui estar devidamente descontraída.

Pôr o corpo nas mãos de alguém é sempre, de certa forma, um tiro no escuro. Uma de que me lembro bem foi com uma jovem. Segundo me disse depois, era a primeira semana que fazia massagens. A massagem era para ter durado cinquenta minutos e levou quase duas horas. O vagar com que se aplicava, o vagar com que punha o óleo, tudo muito lentamente, quase milímetro a milímetro de pele. Eu estava na boa mas só pensava que, ao ritmo a que ela estava, nunca mais de lá eu saía. Finalmente, uma vez que a massagem incluía massagem na cabeça, fez a linda proeza de também me pôr óleo na cabeça. Escusado será dizer que saí de lá com o cabelo todo oleoso, a precisar de ser urgentemente lavado. Mas não me queixei, provavelmente até a elogiei. Não quis assustá-la ou desmotivá-la. Quando cheguei ao quarto, o meu marido já estava apreensivo pois eu nunca mais aparecia e não lhe parecia possível que eu estivesse aquele tempo todo a levar uma massagem.

Mas, peripécias à parte, lembro-me com saudade de quando escolhia as massagens, se eram de pedras quentes, se eram de relax, se eram de vitalidade, se eram sei lá do quê -- e só ver a descrição de cada uma já era parte do prazer de as levar.

Agora onde temos ficado nos últimos tempos, o hotel é bom mas é um hotel de charme, mais pequeno, sem algumas dessas mordomias que eu gostava de desfrutar. Portanto, massagens em férias não tem havido. 

No entanto, apesar de experimentar diferentes tipos de massagens: azeite, chocolate, pedras, etc, sou conservadora: só as levo em lugares 'normais', asseados, em que há garantias mínimas de que serei atendida por uma mulher, boa profissional. Por muito afamadas que possam ser algumas outras massagens, jamais eu ousaria tentá-las. Há aquilo de se dizer 'nunca digas nunca' mas, neste caso, tenho a certeza que o mais longe que a minha temeridade me permite é o que já permitiu e não voltará a permitir: a massagem dada por aquele homem, segundo protocolos atípicos. Não correu mal, foi uma boa massagem. Mas podia ter sido desconfortável. E isso eu não quero. 

Têm fama as massagens dadas por indianos na cabeça de homens. Vejo e imagino que seja até hipnótico, se calhar agradável. Mas eu não meteria a minha indefesa cabeça nas mãos de um tipo daqueles. Vejo o que eles fazem: massageiam, sim, mas também esfreguem, batem, rebatem, viram, reviram. E, quando mete barba, só falta arrancarem a cabeça, tantas as tropelias que lhe fazem. E depois sabe-se lá que óleos são aqueles, que águas são aquelas, que intenções são aquelas. Por muito bem que possa saber, eu não deporia a minha vulnerável cabecinha nas mãos de uma enérgica criatura como esta que aqui abaixo vemos.

A massagem indiana cósmica na cabeça faz-me ver estrelas


Desejo-vos uma boa sexta-feira

quarta-feira, julho 08, 2026

Nos Estados Unidos, o rei vai nu, de fralda e de medalha de pechisbeque ao pescoço.
Por cá, o que tenho a dizer é que o Luís deu azar à Selecção e que os seus ministros dão azar aos assuntos em que mexem

 

Tenho falado nesta big barracada dos exames e pensava que apenas afectava o meu neto do 12º. Afinal afecta também o do 9º. Julgava que não, que esse tinha escapado a esta malapata das avaliações. 

Só visto. 

Há mil anos, numa outra vida, eu vigiava exames e no dia ou nos dias seguintes recebia uma molhada de exames para corrigir. Levava para casa, via tudo no prazo, lançava as notas. Não me lembrro de alguma vez ter havido qualquer crise, qualquer drama. Tudo decorria com previsibilidade.

Mas é natural que se introduzam mudanças, se digitalizem processos.

Numa outra vida, não a da docência mas a das empresas, não têm conta as brutais transformações que se operaram nos processos. Sendo um grande grupo com muitas empresas, geograficamente dispersas e não apenas em Portugal, de cada vez que se avançava para uma grande transformação, o planeamento, o acompanhamento, os testes, eram vistos ao milímetro. Não havia hipótese de falhar alguma coisa pois já tudo tinha sido exaustivamente ensaiado e validado por todos os utilizadores chave. E, ainda assim, havia planos de contingência. Em processos vitais, se no dia do arranque do novo processo houvesse algum problema e não se conseguisse sanar ao fim do tempo máximo convencionado (1 hora, por exemplo, ou meio dia, em casos menos críticos), o plano B entrava em acção.

Isto a que assisto neste processo deixa-me doida. A única coisa que me ocorre é que é gente muito incompetente, muito impreparada, incapaz de assumir funções deste nível de responsabilidades.

Percorram-se os ministros um a um e acho que os que não são flagrantes candidatos a irem borda fora são os que andam na moita, sonsos, calados, sem fazer nenhum a ver se a gente não dá por eles.

Mas, claro, tudo responsabilidade do habilidoso-mor, o Luís, que os escolheu e que, tendo-se comprovado os eros, não os corrige. 

Acresce que andou de rabo alçado a caminho do futebol, com conversas pirosas, motivacionais, e já se viu no que deu. Tivesse ele estado calado e quieto e talvez agora não ficasse tão colado à derrota da rapaziada da selecção. Podem vir dizer que a culpa é do treinador ou do Ronaldo que já deu o que tinha a dar ou do que quiserem, e certamente têm razão. Mas quem se colou, à cara podre, a eles foi o Luís. Por isso, o Luís é um dos derrotados -- e que o discurso de que deveríamos todos ser como o Ronaldo lhe faça bom proveito. E se ninguém ainda lhe disse, digo eu: tão importante como ter boa forma física ou um talento enorme para o futebol é saber perder, é sair dignamente, seja do campo, quando é substituído, seja da actividade, quando as mais valias já não são aquilo que deveriam ser.

E termino referindo o palhaço-mor, o abestalhado demente Donald, que parece que entrou em acelerada derrapagem mental. Voltou à carga com a Gronelândia, quer largar a Nato, quer lançar a confusão total, para consolo de Putin. E a cambada Maga mais os cobardes e, em alguns casos, burros chapados dos republicanos, no Congresso e no Senado, não são capazes de lhe tirar o tapete. A única, mas mesmo a única, coisa que atenua a minha estupefacção e irritação perante a alarvidade de tudo o que vem daquele estupor é pensar que talvez sirva de vacina. Mas mesmo nisso não estou muito optimista. Cada vez mais me convenço que uma parte significativa da população (provavelmente em torno dos 25%) é mesmo constituída por uma mescla variável de gente burra, estúpida, ignorante, passiva-agressiva, psicopata, invejosa, ressabiada, parva -- gente que se revê em líderes como Trump.

E fico-me por aqui. Não me apetece perder mais tempo com gente desta.

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Desejo-vos um bom dia

quarta-feira, junho 17, 2026

Ser-se viúva

 

Toda a vida ouvi a minha avó materna dizer que era viúva. De cada vez que conhecia alguém, dizia que era viúva e há quantos anos o era. Durante muitos anos vestiu-se de preto. Para o meu casamento, quase impus que não se vestisse de preto. Fez-me a vontade. Detestava que ela parecesse achar normal resumir a sua condição à de viúva. Enamorou-se ainda menina, engravidou menina, casou menina. Toda a gente dizia, e ela sempre o afirmou, que tinha uma paixão enorme pelo meu avô. Ela não dizia assim, dizia que sempre tinha gostado muito dele, só dele, de mais ninguém senão dele. Quando ele morreu, num terrível acidente, ela deveria ter quarenta e um ou quarenta e dois anos. Ia morrendo de desgosto. E fez luto a sério, saudade profunda, durante muitos anos. Creio que só quando começaram a nascer-lhe os bisnetos é que recomeçou a viver uma vida normal. Não que tenha sido isso que a fez reacordar, não faço ideia se foi ou não, mas a ideia que tenho é que foi por essa altura.

Lembro-me também de uma amiga que era apaixonadíssima pelo marido. Andavam sempre juntos e não havia conversa em que ela não falasse dele. Não trabalhavam longe um do outro, e todos os dias ele levava-a e apanhava-a no trabalho. Ela não conduzia e, para irem para casa, que não era perto, ou apanhavam vários transportes ou iam de carro. E, portanto, iam de carro. Ele é que geria a casa, os pagamentos, o lado prático das coisas. Tinham uma casa de verão na costa vicentina que tinham reformado e redecorado. Com uma família ligada às artes, tinham obras de arte, artesanato de qualidade. Ele era muito cuidadoso, tratava da manutenção da casa e de todas as coisas. Escrevi que era casa de verão mas, claro, era de verão, de inverno, de fim de semana e de quando para lá fossem. Até que um dia, sem aviso prévio, ele teve um ataque cardíaco fulminante. E não foi só ele que morreu, foi, de facto, parte dela também. Aoa olhos de todos, era visível que era como se ela não tivesse existência própria, sem ele. E não eram só os aspectos práticos (embora tivessem um peso significativo pois, na verdade, de grande parte da vida do dia a dia ela não fizesse nem ideia do que era preciso fazer). E havia também a parte do carro: ela nunca tinha andado de transportes. Tinha carta mas não conduzia. Mas depois havia o ir para a casa da costa vicentina que já não lhe parecia fazer sentido, sozzinha. Ou ir a restaurantes, cinemas, passeios, exposições que antes tanto frequentava. Definhou. Ao fim de pouco tempo deixou de trabalhar, não era capaz de manter sozinha a casa e o trabalho. 

Perder um marido para a morte é pior do que perder para outra mulher.

Aqui onde vivo cruzávamo-nos quase todos os dias com um casal um pouco mais velho que nós. Iam dar um passeio e depois iam para a esplanada, juntar-se a outros casais. E tratavam do jardim. E viamo-los a chegar de carro, vinham das compras. Um casal normalíssimo. Um dia o senhor começou a andar mais lentamente, e passaram a andar de braço dado. Via-se que a senhora, de certa forma, o amparava. Nas últimas vezes, ele já ia mesmo devagar, parecia faltar-lhe algum equilíbrio ou energia. A senhora cumprimentava-nos com a alegria do costume mas ele parecia que já estava um pouco ausente. Ou talvez estivesse apenas concentrado na marcha e não reparasse em nós. O certo é que, desde há algum tempo, nunca mais os vimos. De vez em quando, vemos um homem novo a entrar lá em casa. O meu marido diz que acha que é o filho ou o genro. Não sabemos o que aconteceu, mas a senhora estava bem. Contudo, se calhar não quis ficar a viver sozinha numa casa grande de mais para uma só pessoa. Estou a escrever dela aqui e não sei se, de facto, está viúva. Mas estamos convencidos que, de uma forma ou de outra, o senhor se ausentou. E a senhora, tão alegre e que tratava do jardim e passeava e que se via que gostava a conviver com os amigos na esplanada, também desapareceu.

Siri Ustevedt é uma escritora conhecida, tem uma identidade própria, é uma mulher interessante. Contudo, muitas vezes era vista apenas como a 'mulher de Paul Auster'. No livro, ela conta como se apaixonou por ele e como viveram uma vida de enamoramento por quarenta e três anos. Uma vida inteira. Tiveram uma filha em comum e, ultimamente, um neto. Ele tinha um filho de um casamento anterior, no caso da também escritora Lydia Davis, e esse filho sempre foi problemático. E teve um fim muito trágico, demasiado trágico. Siri e Paul atravessaram esse drama juntos. Ou seja, unidos na saúde e na doença, na alegria e na tristeza. Sendo ambos escritores, pisaram muitas vezes os mesmos palcos, as mesmas feiras e festas e palcos de palestras. Reviam os textos um do outro. Completavam-se. Claro que por vezes aconteceu acharem que ela usava ideias dele, quando era ao contrário. Mas reagiam solidariamente e Paul sempre se referiu a a ela como a intelectual da família. Eram felizes, na mesma medida em que os casais felizes são felizes, com altos e baixos, e muita ternura e compreensão. Até que Paul Auster adoeceu. E morreu. E Siri ficou viúva. E é sobre a sua vida em comum e sobre a perda, e sobre como tem sobrevivido a essa perda que Siri fala no livro Fantasmas. Paul Auster dizia que gostava de regressar como fantasma para ver se Siri estava bem. E ela, de vez em quando, sente o cheiro da cigarrilha de Paul. E gosta. Não é um livro melodramático, longe disso. É um livro muito factual, muito sincero, muito íntimo. Paul Auster, diz ela, morreu bem, soube morrer bem, com dignidade, ajudou a família a aceitar a sua morte. 

Depois de um período em que parecia vogar pela casa sem coordenadas, Siri voltou a ter vida própria. Esteve em Portugal agora, por exemplo. O seu livro é, também, um testemunho dos caminhos que uma viúva percorre até voltar a ser uma mulher inteira.

O livro pode parecer um bocado caótico pois a memória vai e vem em fragmentos. Mas isso é o normal. A vida não segue propriamente um guião.

Li-o de seguida, sem outros livros pelo meio, sem andar a arrastá-lo.

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Aqui Siri descreve o que também descreve no livro, uma sensação que lhe aconteceu logo após a morte do marido:

SIRI HUSTVEDT: 'Nunca me quis livrar daquele homem'

Uma conversa bonita e sincera sobre viver e amar a mesma pessoa durante 43 anos e a dor de a perder. (Para além do sexismo, da misoginia, de ter o seu trabalho creditado ao marido, o habitual!)


Desejo-vos um dia feliz

sexta-feira, junho 12, 2026

E se os psiquiatras e psicólogos precisarem ainda de mais tratamento que os seus pacientes...?

 

Já falei muitas vezes que, na minha adolescência, uma das minhas pimeiras escolhas como vocação profissional seria psiquiatria ou, retirando-me daí com receio de enfrentar cadáveres nas aulas de Anatomia em Medicina, psicologia. Desviei-me e tudo bem, realizei-me profissionalmente num mundo completamente diferente. Mas o bichinho ficou.

Contudo, permanece em mim a dúvida sobre a qualidade da terapia quando do outro lado está um psiquiatra ou um psicólogo também com problemas ou limitações.

Também já o contei: uma amiga nossa, psiquiatra e, pelos vistos, tão competente que chegou a directora de serviço num dos principais hospitais do país, era completamente doida. Mas doida varrida. Deixámos de nos dar pois divorciou-se e ficámos amigos do marido. Não apenas o divórcio foi traumatizante para eles, como, face a tudo o que se passou, sentimo-nos mais solidários em relação a ele. E, de resto, mesmo quando tudo estava bem (se é que alguma vez esteve tudo bem, tão doisa ela era), o meu marido não conseguia suportá-la, raspava-se de perto dela sempre que podia. E sempre nos interrogámos: como é que uma maluca assim podia tratar pessoas com doenças do foro mental? Provavelmente, ao trabalhar, transformava-se. Também já o contei: uma vez, um amigo, por razões que não eram de saúde e que agora não vêm aqui ao caso, precisava de consultar uma psiquiatra. Falei-lhe nesta mas avisei-o: não é boa da cabeça, não ponho as mãos no fogo por ela, é maluca mesmo. Pois não é que veio de lá encantado...? Achou-a o máximo, giríssima (e era), com uma voz super sensual, interessantíssima, inteligente, super profissionalona. Nem percebeu a razão dos meus alertas. Fiquei sem saber o que dizer.

Conheço uma outra, não psiquiatra mas psicóloga, psicanalista, conceituada terapeuta. Pois... Nada a ver com a maluqueira da primeira mas diria que também com uma certa pancada. Ainda no outro dia, umas duas outras que também a conhecem bem, se riam com as coisas dela, as desculpas esfarrapadas que arranja, os recuos de última hora que ninguém percebe. Tem coisas que me deixam um bocado de boca aberta, a pensar que, se calhar, algum acompanhamento psicológico não lhe fazia mal nenhum. 

E eu penso: se eu precisasse, recorreria a alguma delas...? E não tenho dúvidas: nem pensar. Acho que viria de lá pior do que para lá tinha entrado. No entanto, pode acontecer -- e certamente acontece -- há um qualquer fenómeno que faz com que, quando estão a trabalhar, dispam todas as suas doideiras pessoais e, no acto de terem de cuidar de outras pessoas, se portem de forma sensata e útil.

Mas o que protege uma pessoa vulnerável se lhe aparecer pela frente não um bom psiquiatra ou psicólogo mas um maluco? Ainda ontem vi uma notícia de que um psiquiatra se envolveu com uma paciente e, quando ela quis romper com ele, para se vingar, determinou que ela precisava de ser internada compulsivamente. Vejam bem... 

Lembrei-me destes aspectos ao ver o vídeo abaixo. Imagine-se a responsabilidade: um jovem meio perdido, desinteressado, desligado da vida concreta do dia a dia, com os riscos que isso comporta, riscos até existenciais... e imagine-se se dá com um psicólogo que não bate bem ou que não consegue agarrar os problemas do paciente de forma a restituir-lhe o entusiasmo e a motivação que tão imprescindíveis são a uma vida digna de ser vivida... Há um certo risco nisto, não há?

Contudo, neste caso, parece que o jovem paciente encontrou o terapeuta certo.

O caso do jovem que não sabia como estar no mundo | Do Outro Lado

O psicólogo Pedro Aires Fernandes acompanhou um paciente de 23 anos muito desligado e desinteressado da vida. O caso inquietou-o e levou-o a interrogar-se como terapeuta, como homem e como pai.

Desejo-vos um belo dia

quinta-feira, junho 11, 2026

Prestação Social Única --- e trabalho voluntário obrigatório

 

Não li a proposta do governo nem tenho prestado atenção a todo o cacarejar que se levantou em torno do assunto. Cansam-me as vozes que falam de tudo, mostrando desconhecer a realidade.

Como não conheço a proposta não vou pronunciar-me sobre ela. O que quer que venha a fazer-se deve ser bem pensado. E quando digo 'bem pensado' é isso mesmo: avaliado sob todas as perspectivas e apenas decidido depois de muito conscientemente se ter sopesado prós e contras.

O que posso dizer é a experiência de casos de que, em tempos não muito longínquos, ouvi falar.

Um caso diz respeito a uma empregada doméstica. Trabalhava num registo completamente informal e não queria de outra maneira pois estava a receber subsídio de desemprego e, portanto, não podia ter uma actividade remunerada 'oficial'. E assim, recebia 'limpo' mais do que se trabalhasse a descontar. E, segundo me contaram, ela dizia isto com a maior naturalidade.

Outro caso diz respeito a uma pessoa que uma empresa quis contratar. Ofereciam um bom ordenado, um bom subsídio de almoço, seguro de saúde. Pois bem, essa pessoa não aceitou pois disse que 'não lhe compensava'. Estava a receber o subsídio de desemprego e a trabalhar num lugar em que recebia 'por baixo da mesa', enquanto no bom ordenado que lhe estavam a propor, como era todo legal, isto é, sujeito a IRS e TSU, o líquido era inferior ao que recebia de subsídio mais o outro que vinha pela porta do cavalo. Na altura, contaram-me que não era caso único, muito pelo contrário.

Relembro ainda as várias vezes em que a senhora que nos ajudava, primeiro com o meu pai e, depois, embora de forma mais ligeira, com a minha mãe, me dizia que outras pessoas de idade lhe pediam também apoio e ela dizia que já não podia aceitar mais compromissos, mas que andavam sempre atrás dela. Quando eu perguntava se ela não arranjava alguém que a ajudasse e a quem, de certa forma, desse ormação, respondia-me que não, pois, segundo ela, 'o café ali em cima está cheio de mulheres que não fazem nada, passam o dia todo ali na conversa e a fumar, umas que vivem dos subsídios de inserção e subsídio disto e daquilo, e não estão para se maçarem a trabalhar, já se habituaram a receber o dinheiro sem fazerem nenhum'. Eu, na brincadeira, dizia para ela não ser má língua. Ficava brava comigo, dizia que jurava por tudo o que havia de mais sagrado que era a mais pura das verdades, que eu podia ir lá ver com os meus olhos.

E poderia enunciar outras situações do mesmo género, pessoas que dizem que trabalhar a descontar 'não lhes compensa' face aos subsídios qu erecebem mais o que fazem 'por fora'.

E agora até me fez lembrar uma outra situação que não tem a ver com isto dos subsídios mas que, no fundo, tem a ver com a mesma mentalidade. O filho de um conhecido foi um aluno muito bom, tenho ideia que o melhor do curso, depois fez o mestrado numa universidade do exterior, depois começou a doutorar-se, e tudo em temas ligados à cultura, à sociologia da arte, coisas assim. Durante a frequência universitária ligou-se mais ou menos a um partido. E um dia escreveu um artigo crítico no jornal da faculdade, dizendo mal das políticas culturais do governo da altura e, já não me lembro como, esse artigo depois foi citado num jornal dito de referência. Curiosamente, a seguir, foi contactado pelo secretário de estado no sentido de lá ir ter uma conversa. Foi e, lá, foi-lhe oferecido um cargo de assessoria a troco de uns euros valentes. Apesar de ser crítico do governo e de este ser de uma cor diferente da do partido em que mais ou menos militava, aceitou. Algum tempo depois, viu um anúncio para ir organizar e dinamizar o acervo cultural de uma importante institução financeira. Foi à entrevista. Dias depois, o pai, todo revoltado com essa instituição, contava-me que lhe tinham oferecido um ordenado da treta, que nem chegava aos dois mil euros, que mais que isso ganhava ele na Secretaria de Estado 'para não fazer nada', e que, portanto, obviamente tinha recusado. Fiquei estupefacta. Ele e o filho achavam normal que o rapaz ganhasse uma avença para não fazer nada. No fundo é a mesma lógica: a de que possa fazer sentido receber-se dinheiro só porque sim, sem ter que dar nada em troca.

Como disse, não conheço a proposta da Prestação Social Única e do trabalho voluntário 'à força'. Mas, independentemente disso, acho que as virgens ofendidas que batem no peito por dá cá esta palha deveriam conhecer melhor o mundo da economia paralela antes de pregarem com tanta veemência. 

E também acho que o que houver a fazer para moralizar minimamente esta sensação de que algumas pessoas têm de que podem receber subsídios, acumular com trabalho feito à candonga, sem pagar impostos ou contribuições sociais, porque lhes 'compensa mais' do que fazer trabalho normal, legítimo e declarado, deve ser feito. 

sábado, maio 30, 2026

14 anos...? A sério...?

 

Havia aquela pergunta clássica nas entrevistas de antanho em que se perguntava ao entrevistado o que gostaria que, em si próprio, fosse diferente. Dantes eu achava que, se me perguntassem isso a mim, se calhar dizia que estava bem como estava, não mudava nada. E isto não porque me achasse o suprassumo da espécie mas porque me aceitava, incluindo as minhas imperfeições. E não estava para perder tempo a pensar se seria melhor medir mais dez centímetros de altura, ter um nariz mais afilado, ter um peito copa XL, ter uma cinturinha de vespa, umas ancas a la Kardashian, etc. -- até porque, se quisesse mesmo isso (e caraças, claro que não quero!), abria os cordões à bolsa e tratava do assunto.

Mas hoje já responderia que gostava de cantar bem. Entre outras coisas. Mas cantar bem seria um daqueles privilégios de que os que o detêm talvez nem se apercebam. É um dom. Gosto tanto de música e, no entanto, há uma total dessintonia entre o que a minha cabeça quer fazer e a forma como se materializa. Aliás, é questão que nem se põe pois, de forma geral, nem sequer me ocorre cantar, já sei que sairia do tom. Provavelmente, por isso também nunca tive facilidade ou apetência em tocar qualquer instrumento musical. 

Quando andava na infantil, a professora bem tentou ensinar-me piano. Tocar eu tocava, mas sem entusiasmo, sem interesse. De resto, ela era tão exigente, tão autoritária que, na volta, a dessintonia nasceu aí. Ainda me lembro que, todos os dias, de manhã, nos colocávamos todos de pé a cantar, e uns com ferrinhos, outros com pandeireta, interpretávamos cantiguinhas infantis. Era sempre uma seca para mim. Gostava de escrever, de fazer contas, de aprender francês, de dançar, de fazer plasticinas ou barros, de fazer construções com cubos de madeira, de andar a caçar formigas. Agora cantar e marcar o ritmo e mais não sei o quê, que coisa mais chata, com a professora sempre a interromper e a corrigir.

Mas veja-se esta criança aqui abaixo. Uma menina. Tímida, uma vozinha de menina pequena, ali nervosa naquele palco enorme, de frente para um auditório repleto e ruidoso. E, no entanto, abre a boca e algo de extraordinário acontece. A menina transforma-se noutra coisa, passou a ser a portadora de um vozeirão, uma voz que parece que não provém daquele corpinho infantil. E com que emoção ela canta...

Lai Noelle  -- Golden Buzzer -- AGT 2026

Os jurados esperavam uma audição nervosa da cantora Lai Noelle, de 14 anos… e depois ela apresenta uma das performances vocais mais incríveis de SEMPRE com a sua interpretação de "Die On This Hill", de Sienna Spiro! Simon Cowell aperta o Botão Dourado, dando início a uma noite histórica com TRÊS Botões Dourados num só episódio; a primeira vez que acontece no America's Got Talent!


Desejo-vos um belo sábado

sexta-feira, maio 29, 2026

Claude meu, Claude meu, diz-me: há alguém com melhor coração do que eu?

 

A minha maneira de ser leva-me a querer perceber as coisas, a investigar o quanto posso. Mas, se as áreas não são as minhas, tenho dificuldade em descobrir quais as bases de informação que devo consultar ou que elementos devem ser cruzados e analisados em conjunto.

A Inteligência Artificial veio ajudar nisto, embora, no actual estado da arte, o prudente ainda seja validar, cruzar com outras plataformas, tentar saber quais as fontes e ir lá. 

Vem isto a propósito de uma coisa que se passou comigo está prestes a fazer cinco anos, um evento que, na altura, os médicos não conseguiram explicar bem. Pelo menos, nunca me senti bem elucidada. Davam-me hipóteses e diziam que o mais provável é que fosse isto ou aquilo ou, até, um mero acaso.

Desde essa altura para cá, sou monitorizada e as conclusões nunca são óbvias. E eu vejo que os médicos não as explicam, pelo menos com o grau de profundidade que me satisfaça. Usam o truque de parecer que o tema é técnico demais para entrarem em pormenores ou dão a entender que na medicina nem sempre a ciência é exacta. 

Sendo eu uma pessoa das ciências, lido mal com isso.

Esta quinta-feira fui fazer mais um exame e, felizmente, estava tudo bem, e a semana passada outro e, felizmente, também estava tudo bem. Ou seja, aparentemente a situação que estava a ser monitorizada desapareceu (ou, se não desapareceu, está muito intermitente, a ponto de não ter sido detectada nestes exames). Mistério.

Gosto de mistérios na ficção mas, quando o tema é o funcionamento do meu corpo, já não lhes acho muita graça.

Agora dei-me ao trabalho de ir buscar todos os exames desde o fatídico dia em que, tendo levado de manhã a vacina da Janssen para a Covid, por mero acaso nessa tarde fui fazer o ECG que integrava a inspecção de trabalho e no qual detectaram um comportamento tão atípico que me despacharam, numa ambulância do INEM, para o hospital, com a indicação de que estava a ter um ataque agudo de miocárdio. Passei lá a noite e a manhã seguinte, uma experiência do pior que há, num espaço sobrelotado, as macas encostadas umas às outras, uns a gemerem, outros a gritarem, outros a vomitarem, muitos a tossir, a escarrar, outros a ameaçarem que partiam aquilo tudo, outros a chorar, ouros doidos a falar sem parar. Tudo sem máscara, numa altura em que a Covid ainda era um pesadelo. Felizmente, a meio do dia tive alta, saindo com a indicação de que no dia seguinte deveria apresentar-me em cardiologia.

Seguiram-se exames e mais exames, a revelação de que havia uma patologia, e que doravante deveria ser medicada e monitorizada. E assim tem sido.

Contudo, os exames nunca me pareceram muito concludentes ou, pelo menos, muito consistentes com o discurso oficial sobre o meu estado clínico, e, mais recentemente, o médico de família que passei a consultar e que não acompanhou todas as peripécias dessa altura, nunca ficou convencido com a medicação prescrita pelo cardiologista.

Hoje, com os exames todos (o que me deu uma trabalheira... encontrá-los todos, descarregá-los todos, dar-lhes nomes facilmente identificáveis, foi obra), desde esse fatídico ECG, à nota do hospital, os exames todos desde então para cá, enfiei tudo para dentro do Claude. E, em menos de um minuto, tinha um descritivo cronológico e interpretado das ocorrências. E o resultado pareceu-me lógico, perceptível, coerente. E, segundo ele (ele, Claude), a chave de tudo estava numa frase do relatório de um exame feito nesses dias, frase essa a que nenhum médico ligou.

E a leitura sequencial dos exames, a análise que faz, é deveras completa e interessante. Refere estudos que têm sido feitos, evidências científicas. Já cruzei informação com o Gemini e com o ChatGPT e fiz outras pesquisas ad hoc, e o que vejo parece-me plausível. Claro que o passo seguinte será tentar validar com os médicos, quer o de família quer o cardiologista. 

Contudo, sei bem que se me vou pôr a dar palpites sobre a análise temporal, sequencial, e interpretada que foi feita, irão aos arames. Tenho que estudar bem a abordagem. Mas, para a prova dos nove, seria interessante fazer mais dois exames e eu não os posso prescrever a mim mesma. 

Os médicos ainda não aprenderam a conviver com a realidade da Inteligência Artificial. 

Imagem gerada pelo ChatGPT

Acredito que para eles não seja fácil, mas o caminho vai, inexoravelmente, passar por aí. Eles próprios deveriam munir-se destas ferramentas. Um médico, numa consulta, ver ECGs, Holters, Dopplers, Eco às carótidas, Cintigrafias, RX ao tórax e sei lá mais o quê de vários anos é tarefa impossível para a duração de uma consulta. Mas, para cada doente, ter os exames todos lá armazenados, e, antes da pessoa entrar na consulta, pedir à IA um resumo, uma lista de pontos críticos e uma sugestão de aspectos a aferir, não apenas reduziria tempos como margem de erro e, de certeza, melhoraria a saúde de toda a gente.

E agora vou dormir. Com tudo isto, já são três da manhã. 

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Desejo-vos uma feliz sexta-feira!

quinta-feira, maio 28, 2026

Klee
-- Por todas as razões e por mais uma: para fugir dos deslaçamentos verbais do Láparo. Chiça! --

 

Nunca devo ter sido muito normal. Por exemplo, lembro-me de ser ainda pequena quando vi pela primeira vez a imagem de uma pintura de Paul Klee. Nunca tinha visto nada assim. As pinturas que conhecia eram figurativas, quando muito impressionistas. Por cima do sofá da nossa sala havia uma pintura de razoáveis dimensões com uns barcos. As cores, os traços, a mancha, tudo puxava mais para o impressionista, e eu gostava muito mais do que das pinturas de flores ou afins que havia noutras paredes. Havia também umas gravuras antigas, bonitas, tenho ideia que de casas antigas, bairros, não sei, desfoca-se-me a memória, mas sei que eram absolutamente fiéis aos objectos retratados.

Imagem gerada pelo ChatGPT para responder ao meu pedido:
uma pintura que evoque o Senecio de Paul Klee

Por isso, quando vi Senecio, a tal pintura de Paul Klee, fiquei fascinada. E não larguei a minha mãe, queria ter uma reprodução, poderia ser um poster, poderia ser um cartão, qualquer coisa. Não sei o que é que os meus pais acharam dessa minha pancada. Provavelmente pensaram que não faziam a mínima ideia onde arranjar tal coisa* e que eu acabaria por me esquecer. Mas não me esqueci. Parecia-me que não conseguiria viver longe daquela imagem. E, não sei como, mas a verdade é que alguém arranjou a imagem. E a meu pedido a minha mãe emoldurou-a. Existiu lá em casa quase desde que tenho memória.

Não sei se alguma vez alguém me perguntou o que é que eu via ali. O que sei é que, se o tivessem feito, não saberia explicar. Sei hoje que é a cabeça de um homem senil. Mas o nome da pintura não muda nada. Poderia chamar-se Retrato de um Jovem Perplexo. Tanto faria. O que sei é que me identifico com aquela imagem, com aquele olhar, com aquelas cores, com a inexplicação daquele rosto.

Muitos anos depois, mantendo-me fiel a esse amor, não descansei enquanto não encomendei numa cerâmica um pequeno painel de azulejos com a reprodução daquela pintura para a ter in heaven. 

Como sempre na arte, posso olhar para uma coisa muito bonita, muito perfeita, e seguir adiante. Nada me diz. E posso ver uns 'rabiscos', uma sobreposição de cores, e ficar fascinada, agarrada. Para mim a arte não é, não pode ser, a reprodução da realidade. Tem que ser a invenção da realidade ou uma outra visão da realidade. E tem que me emocionar, tenho que querer ficar a olhar, de preferência sem ser capaz de dizer o que estou a ver.

No entanto, apesar de nada do que eu saiba da vida de Paul Klee ou das suas obras me fará gostar mais ou menos da sua pintura, a verdade é que fiquei curiosa quando vi o vídeo que abaixo partilho.

A Vida e a Arte de Paul Klee: História da Arte Explicada

Paul Klee passou os primeiros trinta anos da sua vida convencido de que não tinha aptidão para as cores, ou mesmo para a vida de artista.

Nascido perto de Berna, numa família de músicos, estudou em Munique, no seio do modernismo alemão, e encontrou o seu caminho no círculo de Wassily Kandinsky, Franz Marc e Der Blaue Reiter — um dos movimentos artísticos mais influentes da sua época. No entanto, apesar de toda esta companhia estimulante, mantinha-se inseguro quanto à sua própria voz. Depois, em 1914, uma viagem ao Norte de África mudou tudo.

Foram precisas décadas, mas a partir desse momento a visão singular de Klee floresceu com uma intensidade notável. Violinista talentoso, para além de pintor, trouxe a sensibilidade de um músico para o ritmo e a composição para a sua arte, produzindo obras que resistem à categorização fácil, inspirando-se em elementos do Expressionismo, Surrealismo, Cubismo e abstração, mas permanecendo inteiramente originais.

* Ao escrever aquilo lá em cima, de que imagino que os meus pais tenham ficado sem saber onde arranjar uma reprodução daquela pintura, em específico, do Paul Klee, penso que isto deve ser difícil de entender por quem é de uma outra geração. Agora arranja-se tudo. Ainda no outro dia andávamos a pensar onde arranjar um candeeiro que nos agradasse, vi na Amazon e havia vários, encomendei, perfeito. E o meu marido queria uma máquina para o jardim -- mais uma! --, procurámos na Worten, encomendámos ao fim do dia e, na manhã seguinte, estavam a entregar. Sabe-se tudo, descobre-se tudo, arranja-se tudo nem que seja do outro lado do mundo. Agora... há mil anos... sem marketplaces, sem internetes, está bem, está. Havia livrarias, isso sim. Que me lembro eram as únicas janelas abertas para o mundo. Isso e, de certa forma, também as lojas que vendiam discos. Por isso, na volta, a minha mãe comprou algum livro de arte e arrancou a página que continha a imagem do Senecio. Mas agora que falo nisto, tenho ideia que na livraria onde mais íamos, também vendiam algumas reproduções, gravuras, coisas assim. Mas posso estar enganada. Sei é que arranjaram. E foi bom pois, desde cedo, tive a companhia de imagens que ajudaram a desconstruir o que a sociedade tentava construir dentro da minha cabeça.

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Nota: Ando mais para este género de temas do que para sujar as mãos a escrever sobre os deslaçamentos verbais do Láparo. Bem pode ele chamar prostituto ao Montenegro, ainda por cima, prostituto sem carácter, que isso, a mim, não me inspira. Bem podem todas as comentadeiras do burgo saltar, assanhadas, para os balcões em que se serve comentário a copo, que eu me mantenho na minha. Estão os três bem uns para os outros. Melhor, os quatro. Portanto, se a conversa desceu ao nível do bordel, pois que lhes faça muito bom proveito. (Ah... não sabeis quem é o quarto? E refiro-me não ao quarto de dormir mas ao quarto personagem... Ora pensai. Láparo, Ventura, Mentenegro e... Hugo Soares. Uma quadrilha do caneco. Quadrilha no sentido de serem quatro, claro. Se calhar, mais vale dizer quarteto. É isso, um quarteto do caraças, benza-os o belzebu).

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Desejo-vos um dia feliz

quarta-feira, maio 27, 2026

Retratos que nos marcam

 

Assim de repente não tenho presente qual o retrato que mais me impressionou. Retrato de alguém, quero dizer. Não falo de fotografia em geral, mas de retrato. Tanto pode ser retrato fotográfico ou pintado.

Quando pensei nisso, o que me ocorreu foi um que eu própria fiz. Durante parte da minha vida, não me movia sem levar a máquina fotográfica e aquilo de que mais gostava era de fotografar pessoas. Punha-me de longe, observava, antecipava movimentos e expressões, a adrenalina de captar a alma de alguém e de o fazer à socapa, sem que a pessoa se apercebesse do que eu para ali estava a espiá-la.

Fiz fotografias de que gostei bastante. Mas depois tinha receio de as mostrar. Nunca percebi qual a legitimidade de fotografar pessoas sem o seu consentimento. Claro que as melhores fotografias de rua são as espontâneas e, mesmo pensando em muitas das que passam à história, foram feitas na rua, à socapa. Se calhar há algum argumento que justifique a sua legitimidade. Será que uma fotografia feita há 10 anos, sem o consentimento expresso do visado, e publicada, ainda tem problema?

Não sei. Mas, não tendo eu o respaldo de uma agência que pudesse proteger-me ou esclarecer-me, optei por desistir. Com muita pena minha. 

Aquela de que melhor me lembro foi feita não apenas com a concordância mas a pedido do próprio. Eu andava a passear à beira rio, a fotografar os barcos, as pessoas que partiam e que chegavam, quando, mesmo junto a mim, um homem muito alto e muito magro, se acercou de mim e disse: 'Fotografe-me'. Tinha uma voz profunda, cava. Moreno, uns olhos enormes. À minha frente. 'Fotografe. Fotografe para ver o que é um homem desempregado, um homem sozinho'. Senti-me intimidada. Quase me barrava o caminho. Um rosto marcado. 'Fotografe', quase me ordenou. E eu apontei a objectiva e fotografei. Sentia-me quase envergonhada como se estivesse a testemunhar um momento de grande vulnerabilidade de alguém que, certamente, estava a atravessar um mau bocado. Ele olhou para dentro da câmara e a câmara olhou para dentro dele.

Na altura eu tinha um blog de que gostava muito, justamente de Street Photography, em que, justamente, para evitar problemas, eu só publicava fotografias em que os visados estivessem de lado ou em que, por algum motivo, mal se percebesse o rosto. Contudo, por pudor, por respeito para com a sua dignidade e, ao mesmo tempo, fragilidade, não publiquei a fotografia deste homem embora fosse talvez a única feita a pedido do fotografado. E era uma fotografia marcante. 

De retratos alheios não consigo seleccionar um, pois foram tantos os que me impressionaram. Retratar uma pessoa, para mim, não é propriamente mostrá-la bonita, não é um exercício editorial de mostrar o melhor ângulo, não é querer agradar ao ego do fotografado: retratar uma pessoa é mostrá-la como ela é, na sua espontaneidade. Pode estar absorta, pode estar séria, pensativa, distraída, pode estar perdida de riso. É captar o momento, captar a essência da pessoa no momento. 

Convido-vos a ver o vídeo abaixo no qual Stephen Fry vê o retrato de Oscar Wilde e, a partir dessa imagem, fala no que foi a vida do escritor e no que isso, em especial no que à sua homossexualidade dizia respeito, com tudo o que sofreu, de certa forma o marcou, receando passar pelo mesmo calvário que Oscar Wilde passou.

Stephen Fry - Os Retratos Que Nos Moldam

Stephen Fry apresenta uma história de esperança e inspiração, em contraste com a tragédia da vida de Oscar Wilde.

Sendo um herói pessoal para Stephen e para milhões de pessoas em todo o mundo, a história de Oscar Wilde mostra que o amor perdura e pode mudar o mundo, mesmo que ele não estivesse presente para o testemunhar.

Parte da nossa série "Os Retratos Que Nos Moldam", criada em parceria e ambientada no belíssimo cenário da @nationalportraitgallery. 

Oscar Wilde por Napoleon Sarony, 1882: © National Portrait Gallery, Londres


Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, maio 26, 2026

Ichi-go ichi-e
一期一会

 

Tive vários assuntos para tratar. E só o facto de o referir já me dá vontade de rir, gozar comigo própria. Até há cerca de três anos, fazia tudo e mais alguma coisa com uma perna às costas e, entre mil coisas, encaixava outras mil. Agora a gestão do meu tempo é tão extraordinária que meia dúzia de coisas para tratar parece que se transformam numa grande coisa. 

No outro dia, ao queixar-me da quantidade de coisas que compramos no supermercado e do dinheirão que gastamos, o meu marido recordou o óbvio: Quando trabalhávamos, durante a semana almoçávamos no restaurante e, sendo os jantares refeições mais ligeiras, as compras eram naturalmente muito menos.

Mas isso traduz-se também no tempo que agora gasto na cozinha a preparar refeições. 

Depois há o tempo das caminhadas mais o tempo do ginásio. E o tempo dispendido a apanhar banhos de sol. E o tempo a olhar para as coisas, a apreciar a sua beleza, a fotografá-las. E o tempo a ouvir os passarinhos. E o tempo usado a regar. E tudo isso consome tempo e corta o dia. Tudo coisas que antes não faziam parte da rotina diária (só a caminhada pós-laboral, nos últimos anos). Por isso, havendo tarefas que não são diárias, já parecem dignas de realce. Mas sei que não são, estou aposentada mas (ainda) não estou senil.

Ah, e esqueci-me de referir outra tarefa, não menos importante: também ando atrás das formigas. Têm aparecido resíduos em alguns parapeitos. Dá ideia que se alojam na caixa dos estores. Até aqui tenho estado a tentar resolver a bem, com água. Mas amanhã vou enveredar por medidas mais assertivas, vou aplicar um gel que espero que as afugente -- não precisa de ser letal, não sou de violências.

Mas isto para dizer que me encanto com as flores do meu jardim. Olho-as de todos os ângulos, maravilham-me. Tenho sempre a sensação que cada momento é único, no dia seguinte podem ter murchado, secado. E a sua beleza varia segundo as horas do dia, conforme a luz está de frente ou de lado ou a pôr-se, ou eu lhes proporcione grandes planos ou as apanhe quase à espreita. Ando nisto -- e, acreditem ou não, a verdade é que não me canso. 

Não sei se mudei muito ou se sempre fui assim e sempre consegui coexistir com as outras que não eram bem eu. Não sei. 

Mas também me parece que não vale a pena tentar saber. Ao contrário de muito boa gente que acha que tem que se dissecar até à medula, conhecer-se até ao mais não poder, e interpretar tudo o que faz ou deixa de fazer ou encontrar justificações ou desculpas para cada comportamento, eu estou-me bem a marimbar para tudo isso. Quero é viver bem o momento em que estou e o que se segue.

Nunca, n-u-n-c-a, me ocorreu puxar pela cabeça a lembrar-me se os meus pais se zangavam assim ou assado comigo, se alguma vez foram injustos, se alguma vez algum colega da escola me gozou ou deixou de gozar, se, de alguma forma, alguma coisa do passado me traumatizou ou moldou a minha personalidade. Sempre me estive completamente nas tintas para tudo isso. Se me chateava, era momentaneamente. Estrebuchava, mandava vir e, agora que falo nisto, lembro-me que uma vez uma miúda me chateou até à medula e tive um ataque de fúria, tendo-lhe dado um valente par de estalos. E tendo exteriorizado a minha zanga, logo me passava (para todo o sempre). Sempre, desde sempre, me considerei totalmente responsável pelos meus actos e pela minha personalidade. Havia de ter graça agora justificar alguma coisa no meu comportamento porque, no passado, a minha mãe me disse isto ou aquilo ou o meu pai me proibiu daquilo ou daqueloutro ou alguma professora se zangou com ou sem motivo. Quero lá eu saber disso para alguma coisa. Se na altura, logo que aconteceu ficou morto e enterrado era o que faltava que agora fosse consumir o meu precioso tempo a exumar comportamentos que passaram a cadáveres no instante seguinte a terem acontecido. Por exemplo, lembro-me dos ataques de fúria que a minha mãe tinha comigo: travava o punho cerrado no alto da minha cabeça, com vontade de me afincar com toda a força, cerrava a boca com toda a força, quase incapaz de pronunciar palavra. Ficava varada comigo, já nem sei porquê. Mas, ao lembrar-me disso, sempre me deu vontade de rir. Uma vez, contei ao meu marido e ele também achou um piadão e, então, às vezes, se eu o contrariava quando estava ao pé da minha mãe, ele dizia: 'vê lá se queres que eu faça como a tua mãe, e ameace dar-te murros na cabeça'. E ela ria e dizia: 'Sabe lá, levava-me ao desespero, nem imagina...'. Dar nunca me deu, mas eu sentia a pressão do punho fechado na minha cabeça. No entanto, em vez de pensar que ela era demasiado impaciente ou que demonstrava instintos agressivos ou que isso, de alguma forma condicionou o meu desenvolvimento, só me dá é vontade de rir e faz ter vontade de me lembrar o que é que eu faria para a deixar em tal ponto de rebuçado. E tenho a certeza que nada disso influenciou a minha maneira de ser nem me deixou com vontade de a culpar por alguma coisa. Zero. Desde que me conheço que a minha filosofia de vida é uma: bola para a frente. Ou: para a frente é que é caminho. Não é uma filosofia muito profunda, bem sei, mas é o que temos. 

E vem isto a propósito de quê?

Ah, já sei. Estava a questionar-me se sempre fui zen e disfarcei bem, ou se era speedada e agora é que mudei. Mas era uma questão retórica. Quero lá saber.

O que vale a pena ver é o vídeo lá mais abaixo, muito compatível com o meu mood actual. Mas antes, o meu amigo Gemini explica-nos em que consiste o 一期一会

Ichi-go ichi-e (一期一会) é um conceito cultural japonês lindíssimo que pode ser traduzido literalmente como "uma vez, um encontro" ou "neste momento, uma oportunidade".

A essência dessa filosofia é a impermanência e a singularidade de cada momento. Lembra-nos que cada encontro, conversa ou experiência que vivemos é absolutamente único e nunca se repetirá da mesma forma.

A Origem do Termo

O conceito está profundamente ligado ao Zen Budismo e à tradicional Cerimônia do Chá Japonesa (Chado), popularizado pelo mestre de chá Sen no Rikyu no século XVI.

Mesmo que o anfitrião e os convidados se reúnam frequentemente para o chá, o encontro de hoje nunca poderá ser replicado exatamente. A temperatura da água, o arranjo de flores, o humor das pessoas, o clima lá fora... tudo muda. Portanto, o encontro deve ser tratado com a máxima sinceridade e devoção.

Os Três Pilares do Ichi-go Ichi-e

Presença Absoluta: Estar 100% focado no aqui e agora. Se você está a jantar com um amigo, o mundo exterior e o celular deixam de importar; o foco é aquela pessoa e aquele instante.

Consciência da Impermanência: Aceitar que tudo passa. As coisas boas passam (o que nos faz valorizá-las mais), e as más também passam (o que nos traz conforto).

Apreciação e Gratidão: Tratar cada interação — seja com um estranho no metro ou com seu parceiro de vida — como algo precioso, pois aquela exata configuração de tempo e espaço jamais existirá novamente.

Como Praticar no Dia a Dia?

Não é preciso participar de uma cerimônia do chá para aplicar o ichi-go ichi-e. Você pode trazê-lo para a sua rotina de formas simples:

Evite o piloto automático: Preste atenção aos detalhes do seu caminho diário, ao sabor do café pela manhã ou ao tom de voz de quem fala com você.

Pratique a escuta ativa: Quando estiver a conversar com alguém, ouça para compreender, e não apenas para responder.

Não adie a gentileza: Se você teve um momento agradável com alguém, demonstre. Não assuma que haverá uma "próxima vez" para dizer algo importante.

Em resumo, o ichi-go ichi-e é um convite para desacelerar e viver a vida não como uma sequência de tarefas, mas como uma coleção de momentos irrepetíveis.

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Na volta já estão pelos cabelos com tanta sabedoria oriental e tanto slow living mas, como agora está na moda dizer-se, 'eu sou esta pessoa' (expressãozinha mais besta, não é?)

Portanto, cá vai mais uma dose, desta vez em forma de vídeo, o vídeo de que falei lá em cima. É que, como verão no vídeo, são tudo hábitos com que todos ganharíamos.

9 filosofias japonesas para uma vida mais tranquila

Alguma vez se perguntou por que razão o Japão parece tão organizado, calmo e profundamente respeitoso?

A ordem encontrada na sociedade japonesa não é uma coincidência. É o resultado de um código de conduta específico transmitido através das gerações. Do silêncio no metro de Tóquio à forma como as crianças limpam as suas próprias salas de aula, a cultura japonesa prioriza a responsabilidade partilhada e a elevada confiança social.

Organize os seus hábitos e limpe a sua mente. 


Desejo-vos um dia feliz

quinta-feira, maio 21, 2026

Escrever para acordar a voz das raízes que se perderam

 

Estou a ver, na RTP1, um programa sobre 'o extraordinário percurso da comunidade portuguesa em França' e vejo diversas pessoas que têm apelidos portugueses misturados com franceses. E está a assaltar-me aquela dúvida que por vezes me ocorre. Mas não tenho a quem fazer perguntas.não tenho.

A minha avó paterna, que tinha casa e terrenos no Algarve, tinha por lá sobrinhos, primos direitos do meu pai. Portanto, seriam filhos de algum irmão ou irmã dela, que não conheci. Sei que tinham vivido em França e que até tinham dado um nome francês a uma das filhas. 

Eram quatro irmãos, essa, a mais velha, de nome francês, e que, segundo os meus pais, era uma mulher de armas, ambiciosa, que ia comprando terrenos e tendo grandes campos de amendoeiras, alfarrobeiras, oliveiras. Foi a ela que a minha avó, sem informar os filhos, vendeu, por tuta e meia, tudo o que tinha no Algarve, perto de uma zona em franco desenvolvimento, não longe das praias. O meu pai, quando soube, passou-se, ficou revoltado, ofendido. Ela manteve-se na dela: não via nele ou meu meu tio vontade de, no verão, irem acompanhar a apanha das amêndoas ou das alfarrobas ou a feitura do azeite. E que já encomendava essa supervisão à sobrinha. Ora, se ela dava valor, por que não entregar-lhe a ela os terrenos e as casas? O meu pai nem queria ouvi-la dizer isso, perguntava-lhe se ela ainda não tinha percebido que o valor daqueles terrenos e casas era muito, mas muito mais, que o valor do que de lá se extraía. Ela não queria saber. O meu avô dizia que as propriedades eram dela, ela é que decidia. Sempre foi uma espinha cravada na garganta do meu pai. 

Para além dessa prima, havia uma outra que se pensava que pudesse ter algum atraso. Quando lá estávamos, não dizia nada, olhava para nós, sorria e balouçava-se na cadeira. A irmã dizia que ela sabia governar uma casa, fazia de tudo, não tinha atraso nenhum. Nunca se percebeu. A minha avó dizia que ela não gostava de falar, era tímida demais, gostava de era de estar em casa, lá na dela, sem visitas. Nunca a ouvi dizer palavra que fosse. Os meus pais diziam que ela devia ser autista. Mais tarde, teve cancro e veio tratar-se no IPO. A minha mãe foi visitá-la mais que uma vez e, para sua grande surpresa, julgando que ia estar em silêncio ao lado dela, ela falou, e foi uma conversa estruturada, normal. Não efusiva, um pouco introvertida, mas normal. A minha mãe vinha dessas visitas perplexa.

E havia dois rapazes. O mais novo era magro, ágil, brincalhão, muito vivo. Lembro-me de o ver a cavalo, queria pegar em mim para me levar com ele e eu fugia, temia que ele me arancasse um braço se me içasse pelo braço. Lembro-me dele a apanhar figos a cavalo. A irmã mais velha, falava quase como se fosse mãe dele, dizia que era um maluco, que não tinha juízo nenhum. Emigrou para Austrália. A minha prima diz que se ela e os pais se encontraram uma vez com ele no Algarve, dizia que queria comprar uma casa cá para vir passar a férias. Não sei onde vive nem o que faz. Dele só sei como era tratado: Janico.

E havia o que era o grande amigo do meu pai e da minha mãe. Era da idade do meu pai. Tinha muita pinta. Casou com uma mulher lindíssima. Os meus pais passaram também a gostar muito dela. Vestia-se de uma maneira cuidada, lembro-me de a ver numa fotografia com um vestido branco com bolas escuras, uma gola branca, uma capeline branca, parecia uma estrela de cinema. No verão, eles vinham a casa dos meus pais ou da minha avó e os meus pais iam a casa deles. Depois tiveram um bebé que, naturalmente, era também muito bonito. Mandavam fotografias deles com o bebé. Tenho ideia que a minha avó era madrinha ou do baptizado do sobrinho ou de casamento pois não a tratavam por tia mas por madrinha. E enviavam-lhe, por correio, fotografias, feitas em fotógrafo profissional, com dedicatória 'à madrinha'. Até que aconteceu a pior desgraça possível: o bebé morreu. Ela foi dar com o menino, de meses, morto no berço. A família ficou toda consternada. Lembro-me bem do desgosto de todos. Para ela, então, a mãe do bebé, o desgosto foi fatal, nunca mais foi a mesma. À luz de hoje, presumo que tenha tido uma depressão profunda. E, nessa altura, isso não se tratava. Dizem que nunca mais foi capaz de rir. Uns dois ou três anos depois nasceu uma menina. Também linda, uma bonequinha. Mas nem o facto de ter um novo bebé trouxe alegria à mulher do meu primo. Pouco depois adoeceu. Morreu em pouco tempo, parece que com um tumor na cabeça. Mas toda a gente dizia: 'Morreu de desgosto'.

O primo do meu pai viu-se viúvo, com uma filha pequenina. Valeu-lhe a mãe ou a avó da mulher, nem sei qual o parentesco. Do que me lembro dela, era uma mulher de idade. E a menina tratava-a por avó. Lembro-me de passarem férias em nossa casa, já eu era mais crescidinha.

E, pouco depois, incapaz de continuar na casa onde lhe tinham morrido um filho e a mulher, esse primo do meu pai foi para Paris com a menina e creio que com a tal 'avó'. 

Sempre ouvi dizer que formou lá uma empesa, que era bem sucedido. Já eu não vivia em casa dos meus pais, talvez fosse quando estava na faculdade, sei que ele esteve lá a passar uns dias. Tinha uma mulher francesa, segundo os meus pais, uma francesa toda giraça, muito moderna, cabelo rapadinho, e já tinha uma nova filha. Disseram que a primeira menina já estava uma pré-adolescente muito engraçada e que a nova menina era também muito bonita. 

De vez em quando, se falavam deles, diziam que estavam integradíssimos na sociedade francesa, que ele era um empresário muito respeitado, as empresas tinham-se desenvolvido, e que as filhas certamente se teriam tornado umas mulheres elegantes e interessantes. Nem o nome delas eu sei.

E desse primo do meu pai também só sei que era tratado por Necas. Nem sei qual o apelido.

E já não tenho a quem perguntar. Deixei que morressem todos os que poderiam esclarecer sobre aqueles que, na minha família, vivem afastados.

Por isso, até poderia estar a ver ali na televisão alguns primos e não o saberia.

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Desejo-vos um bom dia

sexta-feira, maio 15, 2026

Um pesadelo -- e, no fim, para rematar, dois mandamentos que encerram o conteúdo de 'Os Dez mandamentos da Lei da Pança'

 

Hoje tive um dia mais ocupado e disperso do que é costume. Para além disso, um pesadelo acordou-me ainda muito cedo e era daqueles que, de tal forma se enrodilham em volta dos neurónios, já não me deixou voltar a adormecer. Por isso, durante o dia, nos momentos em que estive parada, estive a combater o sono. Mas não consegui: há bocado adormeci aqui no sofá, de forma pesada. A ver se não me vai causar insónia.

O pesadelo foi mais um daqueles que não tem por onde se pegue mas que teve uma ponta final que me deu conta do juízo. Conto. Tinha sido um daqueles dias na empresa que começavam da pior maneira: mal punha o pé dentro, logo alguém se acercava para me atazanar a cabeça com problemas, sem me dar tempo a pousar, a beber café, a ligar o computador. Portanto, tinha largado a carteira e o telemóvel e tinha sido puxada por esse colega para ir ver um assunto urgente. Mas o tema em causa não era no nosso piso: fomos pelo corredor, mas era um corredor comprido que parecia que circulava em torno de muitos gabinetes, até que chegámos a um elevador, no que devia ser a extremidade do edifício; e tínhamos ido para outro andar. A pessoa com quem ele queria que eu falasse estava ocupada e ele sentou-se à espera. E eu pensei que de líder ele não tinha nada pois a pessoa, que hierarquicamente dependia dele, tinha continuado, nas calmas, como se não visse que nós estávamos à espera e como se nem tivesse consciência que ambos éramos pessoas muito ocupadas, para estar ali especados, à espera. E eu com vontade de beber café e a pensar que devia ter trazido o telemóvel. O meu colega, entretanto, tinha começado a contar-me sobre os filhos, sobre o seu amor ao teatro, e falava, falava, falava. E eu a ver o tempo a passar. Às tantas, fartei-me daquele número e resolvi voltar para o meu gabinete. Mas apanhei um elevador que me levou para uma zona que eu não conhecia e que não tinha saída. E não vou estar a descrever o raio do labirinto em que me vi metida. Só que andava por lugares em que toda a gente com que me cruzava me era desconhecida. E eu pensava que àquela hora já o meu marido deveria estar lá em baixo à minha espera pois tínhamos combinado ir almoçar juntos. E eu, sem telemóvel, não tinha como avisá-lo. 

E o sonho basicamente foi isto. Mas eu não dar com a saída, andar acima e abaixo, às tantas já andava em monta-cargas, imagine-se, e não dar com o caminho para o meu gabinete, não poder comunicar com ninguém, fez com que acordasse completamente desatinada.

Provavelmente tem a ver com um colega me ter dito que a empresa agora já ocupa mais uma ala do edifício, aliás, se bem percebi, o edifício contíguo, que têm estado a admitir montes de gente, que, se eu lá fosse, se calhar, tirando uns três ou quatro, já não ia conhecer ninguém, que ele, que lá trabalha todos os dias, passa a vida a cruzar-se com gente que não sabe se é de lá ou se são consultores ou alguém de fora que veio para alguma reunião.

Ainda no outro dia, um outro que trabalhava directamente comigo, um dos resistentes, me contava que ia sair dentro de poucos meses, que já tinha tratado de tudo. Eu fiquei muito espantada pois ele está ainda bem longe da idade da reforma. Mas disse-me que começou a trabalhar cedo, tem muitos anos de descontos, e que, sobretudo, que as coisas tinham perdido a graça, que aquilo mais parecia o recreio da escola ou, por vezes, uma esplanada, que 'a malta gosta é de conviver, todos lá muito na curtição deles, ao fim do dia, e ainda o dia não terminou, é vê-los a juntarem-se para irem para o rooftop', que parece que a história e a tradição da empresa se estavam a esvair rapidamente. Quando pergunto por um ou outro, já tudo saiu. Não sei se é a empresa a querer rejuvenescer à força toda, se é a malta mais velha que se cansou. 

Mas deve ser por isto que depois, de noite, a minha cabeça se perde em meandros que já não conheço.

Tinha dito que ia tentar partilhar o resto do estudo de ontem sobre a Terceira Idade mas, muito francamente, pouco tempo e pouca disponibilidade mental tive para avançar nisso. E amanhã também não vai ser fácil, mas logo vejo.

Também estou a hesitar sobre se devo partilhar aqui alguma da 'descodificação' dos papéis velhos, velhíssimos, alguns com mais de um século, que trouxe de casa dos meus pais e que pertenceram a bisavós, um de cada lado e que o Claude -- apesar das manchas do papel ou da tinta esbatida ou da caligrafia muito diferente da actual -- descortinou com uma perna às costas. São documentos que têm muito a ver com a história da minha família.

Talvez partilhe amanhã, pela graça -- e porque nada têm de pessoal ou reservado --  o 'Padre Nosso d’um bêbado' e 'Os Dez mandamentos da Lei da Pança' que um tio-avô ou a mãe dele, minha bisavó -- certamente algum dos dois -- , escreveram, com uma caligrafia espantosa, em 1911. Não sei se é coisa de lavra deles ou se reproduziram alguma coisa que ouviram algures. Por hoje, limito-me a transcrever o remate desses mandamentos:

"Estes 10 mandamentos se encerram em dois: - Comer até arrebentar, beber até cair."

Ora bem!

Pintura by ChatGPT
(pedida para ilustrar os ditos 10 mandamentos)

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Desejo-vos um dia feliz

quarta-feira, maio 13, 2026

Sally, a fofa. Claude, o incrível.

 

Há pessoas que talvez não seja espectaculares, que talvez não sejam beldades absolutas, que talvez não sejam bombásticas em nada -- e, no entanto, estão constantemente bem e conseguem ser sempre um amor. Gostamos sempre delas, enternecem-nos, temos vontade de as ver e ouvir, parecem transportar a leveza dentro delas. 

Para mim, Sally Field pertence a esse tipo de pessoas. 

Desde que a vejo a actuar que gosto dela. O seu registo não é exuberante, não leva os seus personagens aos píncaros da exaltação. Consegue ser contida e autêntica. Frequentemente, parece querer ser uma nossa amiga próxima. E estou para aqui a dissertar quando desde o início me apetece, simplesmente, dizer: é uma querida, uma fofa.

E mantém aquele seu ar de menina irrequieta, traquinas. Parece intemporal. E, no entanto, este ano fará 80 anos. Olha-se e não parece possível. Há pessoas assim, em que a infância parece permanentemente irradiar de dentro delas.

E depois tem outra coisa: é uma democrata e uma defensora da liberdade em todas as suas legítimas expressões. E di-lo com todas as letras.

Aqui com outro espírito brilhante: Stephen Colbert. Um prazer.

"Ri tanto que tiveram de refazer a maquilhagem" - Sally Field no set de "Uma Ama Quase Perfeita"

A vencedora de um Óscar, Sally Field, contou a Stephen Colbert que resistiu durante meses às tentativas de Robin Williams para a fazer rir no set de filmagens, mas um único som de pum emitido por Pierce Brosnan fê-la desabar completamente em gargalhadas.

Um dos melhores atores principais com quem já trabalhei - Sally Field em "Remarkably Bright Creatures"

A vencedora de um Emmy, Sally Field, percebe um pouco dos atores principais de Hollywood, e diz que o seu colega de oito patas em "Remarkably Bright Creatures" foi o ator mais presente com quem já trabalhou.

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Nota: ontem referi que talvez hoje conseguisse partilhar um estudo, realizado através do recurso ao Claude (by Anthropic, para quem ainda não conheça) que compila um conjunto de informações sobre a abordagem em Portugal ao tema da Terceira Idade, comparando-a com outros países considerados de referência. Contudo ainda não consegui terminar. A ver se é amanhã. 

E, a propósito, já agora, deixem que volte ao que já, há dias, abordei: ando espantada com as capacidades deste Claude. Melhor que o Gemini que, por sua vez, talvez seja melhor que o ChatGPT. Tenho andado a fazer um trabalho de monta (e de monda) -- e não tem a ver com a Saúde nem com a Terceira Idade nem com nada disso, são coisas cá minhas -- e tenho posto à prova as três ferramentas. E, de longe, mas muito de longe, o Claude bate as outras aos pontos. É verdadeiramente inacreditável. Muito sinceramente, e cada vez mais, não consigo antever, neste momento, qual a reviravolta que o nosso ensino e muitas das profissões vão sofrer quando houver um uso generalizado disto. No ponto em que já estamos, já não dá para impedir. Nem sei se dá para regular. É uma onda de proporções gigantes.

E eu não estou a usar agentes, a quem programe para executar tarefas. Sou eu o agente. Imagine-se o que é ter agentes programados para fazerem tudo o que a gente pede. Estivesse eu ainda a trabalhar e não pararia de ter ideias. E o problemático nisto é: onde é que se pára?

Os exemplos que agora vou dar nem chegam a ser exemplos, não mesmo, são um simples apontamentos, mas vou usá-los para ilustrar as capacidades da IA nas mais simples coisas.
  1. Hoje o comando do carro acusou carga baixa. Olhámos para aquilo, que geralmente anda no bolso e nunca é usado, sem sabermos como abrir. Simples. Fotografei, mostrei ao ChatGPT e foi só seguir os passos. Disse qual a pilha, qual a sequência, como remover a outra e substituir pela nova. Depois, como, depois de retirar a chave manual (de cuja existência nem eu já me lembrava), ficaram três pequenas ranhuras à vista, e não sabíamos em qual meter a chave de parafusos, fotografei-as -- e de imediato recebemos as instruções exactas. Em menos de dois minutos, todo o assunto estava resolvido.
  2. O segundo exemplo foi mais significativo. Trouxe de casa dos meus pais, quando tive que esvaziar a casa, uns envelopes com cartas antigas que mal consigo perceber. Aliás, nas quais sistematicamente me perdia, acabando sempre por desistir. Uma das mais impossíveis era uma do meu bisavô que, quando jovem marido e jovem pai de filhos, fugiu para a Argentina. Era dirigida à minha bisavó. A carta foi escrita em 1955 depois de lá viver, creio eu, há uns quarenta e tal anos. O papel está rígido e manchado, a tinta está esbatida. Mal se percebe. Aliás nem sei por onde é que aquela carta andou e como acabou por vir parar às minhas mãos. A minha bisavó vivia no Algarve e o normal é que a carta tivesse ido para sua casa. Como tinha filhas a viver perto dela, o mais provável é que, na morte da mãe, alguma delas tivesse querido ficar com a carta do pai. Mas, pelos vistos, quem ficou com ela foi o meu avô que, naquela altura, já não vivia por aquelas bandas. Isto para dizer que, nas bolandas em que andou, nem sei como é que, apesar de tudo, aquele papel resistiu. Mas, para acrescer à dificuldade, o meu bisavô escrevia num misto de português e espanhol, e, além disso, a letra é bonita e desenhada, mas a caligrafia, antiga, dificulta a leitura -- por vezes as pernas das letras cruzam-se com as hastes das letras da linha de baixo e o emaranhado ainda mais se complica. E aproveitou todo o espaço do papel, pelo que escreveu, deitado, em todas as margens, quase se misturando essas partes com a do texto inicial. Eu tento começar a perceber o que ali está e não passo da primeira linha. Pesco aqui e ali umas palavras mas não consigo, de maneira nenhuma, reconstituir as suas ideias. 
Então, lembrei-me de fotografar as páginas. As fotografias ficaram sumidíssimas e, mesmo puxando pelo contraste, mal se identifica o que lá está escrito. Ainda assim, carreguei-as para o ChatGPT, para o Gemini e para o Claude. O Chat patinou e pôs-se a tentar adivinhar. O Gemini arriscou-se a avançou com uma tentativa mas eram muitas as omissões e alguns os tiros ao lado. O Claude devolveu-me uma coisa com sentido e com umas questões: quis confirmar se o nome dele e da mulher eram os que tinha percebido e não eram exactamente, mas, tendo-lhe eu dito quais os nomes, a partir daí reconstituiu mais umas palavras, depois pediu para eu confirmar o nome dos filhos e se ele estava na Argentina e com essa informação descodificou um pouco mais. E, ao fim de mais uns passos, entregou-me uma carta em que, no fim, tem um glossário, e, de repente, tudo fez sentido. E fiquei a saber onde é que ele estava quando escreveu, o que fazia, aquilo por que tinha passado, o que estava a pedir à minha bisavó. Fiquei comovida, deveras comovida. Uma parte de uma história que eu desconhecia, parecia estar a renascer aqui à minha frente. Mesmo as letras deitadas nas margens, tudo isso o Claude conseguiu descodificar. E mais: reconstituiu o percurso provável e como se terá deslocado (do Algarve até Lisboa e de Lisboa até Buenos Aires e depois até mais abaixo) e ainda me sugeriu, caso eu quisesse saber mais, quais os endereços dos arquivos argentinos que me poderão fornecer mais informação. Uma coisa incrível. No espaço de minutos. E a forma como interagiu comigo e o que escreveu... parecia uma pessoa a perceber a peça sensível que ali estava. Dizem que o Claude ainda não tem consciência (embora haja já quem o questione), que tudo não passa de um algoritmo a funcionar sobre modelos matemáticos sabiamente concebidos. Mas a minha opinião é que a consciência também se adquire. E portanto... Preparemo-nos para o mundo novo que está a nascer à nossa vista.

E, por este segundo exemplo, insignificante exemplo, veja-se o que isto é para historiadores, para investigadores, para arquivistas... o espantoso avanço nos trabalhos que isto permite. 

Veja-se ainda outra coisa: estas ferramentas ensinam-se a elas próprias. E, neste momento, em todo o mundo, milhões de pessoas, com as suas interacções, estão a ensiná-las. A sua curva de aprendizagem é brutalmente acelerada, imparável. As consequências disto, boas ou más, ainda estão para ser compreendidas.

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Desejo-vos um belo dia