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quarta-feira, abril 26, 2017

Desenha-me





Desenha-me. Olha para mim e vê o que se esconde debaixo da minha pele. Olha os meus olhos. Vê se há lagos dentro de mim. Se os descobrires, percorre as minhas margens, mergulha nas minhas águas. Olha o vagar com que as minhas pálpebras se movem, as pestanas. Olha-as. São, talvez, ramos que as árvores que se debruçam nas margens entregam para que as encontres, os meus braços chamando por ti. Olha para mim de outra maneira. Cobre-me de verde. Vê se há em mim montanhas imensas, mistérios silenciosos, o aconchego dos leopardos, varandins, mares, lonjuras, horizontes só teus. Espreita bem. Descobre-me.

Desenha-me. A minha boca. Olha bem para ela. Passa os teus dedos devagar nos meus lábios. Sente a pele, sente a macieza vermelha e húmida que se esconde do olhar esperando que os teus dedos ou os teus lábios ou a tua língua a procurem. Olha como os meus lábios se abrem com o riso, como se mordem com a impaciência da espera. Sente o meu sabor.

Desenha-me. Afasta o cabelo da minha testa, olha-me bem. Afasta o cabelo do meu pescoço. Observa a curva da nuca. Vê como o sol se refecte na minha pele. Aproxima-te. Vê a tua sombra em mim. Olha como deixo que te aproximes. Toca a minha pele. Passa a tua mão pelo meu braço, pelas minhas costas, pelos meus seios, pela curva do meu ventre. Baixa-te. Espreita-me. 

Desenha-me. Fala devagar palavras que venham de dentro de ti, inventa palavras para mim. Olha-me nos olhos, toca-me, cobre-me com a música do teu olhar, cobre-me com a doce toada das tuas palavras. Olha como fecho os meus olhos para melhor sentir a tua presença. Chega-te a mim. Cheira-me. Diz que cheiro a erva fresca, a laranjas, à aragem que faz dançar os pinheiros, ao fundo do mar. Cobre-me com o perfume das flores, com o canto dos pássaros, com o calor do teu corpo.

Desenha-me. Diz-me que sabes de mim o que eu não sei, inventa-me, pinta-me de azul ou de mar ou de cor de fogo e depois deixa que a luz da tarde tinja os meus cabelos, deixa que se saiba que arde em mim a chama da saudade, ah como me arde esta saudade, deixa que as palavras voem em volta de mim e da tua mão que me pinta, deixa à vista de todos o pássaro inventado que em mim canta e grita e, como um louco, ri sem parar, deixa à vista o meu coração que não sabe esconder-se ou parar de sonhar. Diz-me. Diz-me devagar o que sabes de mim, diz-me devagar que me queres.

Diz-me. Conta-me como me vês. Desenha-me. Com cores. Apenas com traços. Apenas com palavras.

Ou não.

Deixa. Não digas nada. Não faças nada. Não me desenhes.
(Eu já sei como me vês).

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É assim

Tilda Swinton diz 'Like This' de 'The Essential Rumi' 


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Hung in Time: John Berger desenha Tilda Swinton



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As imagens mostram trabalhos respectivamente de John William Waterhouse e Leonardo da Vinci

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E aceitem o meu convite e queiram continuar a descer

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terça-feira, fevereiro 21, 2017

Eu.
Sem Tom. Sem Dindinha.




Não me sai da cabeça. O dia todo a pensar nisto. Não o cheiro, não as mãos, não o olhar, não a voz, não os movimentos do corpo, não o toque da pele. Qualquer outra coisa. Não sei o quê. O dia todo. Tento recuperar algum fragmento mas não sei de que coisa. Rememoro as palavras, os gestos, os silêncios. Uma e outra vez.

Qualquer coisa me está a falhar. 

Tento descobrir o que em mim fez com que tudo fosse tão fácil. Alguma coisa foi mas não sei o quê.

Recordo o primeiro, o segundo, o terceiro dia. Que chave abriu, tão facilmente, a minha intimidade? Em que momento o meu corpo, antes de mim, reconheceu o que eu ainda não descobri?

Li um dia uma frase de Yvette Centeno: amor é quando dois corpos se reconhecem. Não sei porque essa frase aparece associada a isto que não me sai da cabeça. 

Dois corpos como dois cães. Corpos que se reconhecem.


Estive a dormir até há pouco. A cabeça desligou. Agora que acordei, a mesma estranha impressão. 

Dindinha ligou de tarde. Que eu fosse lá a casa, iam reunir-se para decidir aspectos finais. Gostava da minha opinião. Não quis. Disse-lhe que tinha um trabalho para concluir. Antes de se despedir, acrescentou: 'Não sei do estupor do Tom, não atende o telefone. Enviei-lhe um sms a dizer para vir cá a casa, e sabe o que ele respondeu, prima? Que não tinha tempo para babysitting'. Ela aborrecida e eu, não sei porquê, a achar normal. Qualquer coisa que me faz parecer a resposta expectável.

E, no entanto, em qualquer das três ocasiões, sempre o vi cortês, até galanteador. Porque é que a dissonância daquele desagradável sms não me choca não sei dizer. 

Há bocado, antes de mudar de roupa, hesitei. Pensei que ele poderia voltar, devia estar arranjada. Mas parece que adivinhei que ele não viria. Não veio. Não disse nada. E eu sinto que é normal ele não dizer nada. Mas parece que sinto que ele está a pensar em mim, talvez com vontade que eu lhe ligue. Não vou ligar. Eu queria que ele ligasse mas sei que não vai ligar. Os corpos como cães, aguardando.

...

E agora, ao escrever isto e ao pensar que ele facilmente obteria o meu endereço de mail tal como eu também facilmente obteria o dele, senti um calafrio. De repente, parece que se escavou um perigoso abismo sob os meus pés.

De repente soube.

Um estremecimento íntimo, um frémito no mais interior do meu corpo.

Aquela estranha impressão de que o conhecia, de que o conhecia muito bem, muito, muito bem, materializou-se: sei.

Sei quem tu és, Tom. Meu Deus, se sei. Meu Deus, sei quem tu és. Sei. Que horror. Que coisa mais estranha esta. Não tenho dúvida. E tu também sabes, Tom? Tal como eu, tu também sabes? Sabes e disfarçaste? Ou ainda não descobriste? Ai Tom, Tom, que coisa esta. Chamas-te então Tomé? Ou também não?

Ah, como afinal te conheço mesmo tão bem. E como tu me conheces tão bem. Tão bem que me conheces. Tão bem.

Mas saberás tu qual a mulher que ontem tiveste nos teus braços? Terá o teu corpo também reconhecido o meu?


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Este é o quinto episódio do folhetim 'Dindinha'. O episódio anterior pode ser visto aqui e de lá poderá recuar até aos restantes (isto se gostar de ler de trás para a frente porque, se gostar de ler pela ordem natural dos factos, deverá ler de baixo para cima)

As fotografias foram feitas rente ao rio. 


La Rêveuse é interpretada por Jordi Savall.

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Se preferir ler sobre 'Coisas da mente', então, é mais simples: é apenas descer.

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terça-feira, novembro 29, 2016

O PCP e o BE nas sondagens e nos actos





Vou dizer uma coisa.

Nas autárquicas, sempre que me pareceu ser a candidatura mais credível, votei no PCP. Ou melhor, na CDU, acho eu. Claro que não faço ideia qual a diferença entre a CDU e o PCP. Nem sei se CDU é feminina ou masculino pois não sei o que é o C. Podia googlar mas, a esta hora, não estou para isso. Nas legislativas nunca votei no PCP. É gente honesta, não tenho dúvidas disso, mas há ali uma utopia datada, improvável, que me afasta. Sobretudo, há uma forma sectária de ver o mundo. Ou talvez não seja isso, talvez seja apenas uma forma sectária de falar. Não sei. Sou próxima de pessoas do mais PCP que há, militantes, com vida pública ao serviço do partido. Contudo, não consigo falar de política com eles. Dá ideia que têm sempre um inimigo de estimação e que constroem a sua 'narrativa' em torno disso. 

Por isso, o PCP, apesar de reconhecer nos seus militantes uma genuinidade de intenções, não é a minha praia.

Sou, por natureza, despreconceituosa, aberta a ideia novas, gosto de pôr em causa tudo o que seja ortodoxia, não consigo aceitar que me condicionem a liberdade de pensamento e de expressão, sou uma desalinhada por natureza. Não poderia, pois, encaixar-me no PCP.


No Bloco de Esquerda também nunca votei. Ou melhor, votei no Miguel Portas para as Europeias. Mas, por cá, embora lhes reconheça algumas boas ideias e, por vezes, uma inegável capacidade de falar claro e de apontar o dedo a algumas anomalias do 'sistema', nunca votei neles. Sempre me pareceram um bocado inconsequentes, com muita sede de protagonismo, ávidos de mediatismo. Há ali um deslumbramento pelas suas próprias artes performativas que, por vezes, me enfastia. Outras vezes, parece que ficam cegos pelo tacticismo e, na prática, fazem o jogo daqueles a quem dizem combater. Tenho apreço pela inteligência acutilante de Louçã, tenho simpatia pelo humanismo de João Semedo, aprecio a empatia de Marisa Matias, acho que Catarina Martins tem uma combatividade desarmante -- mas, todos juntos, formam uma mistura que não acolhe as minhas simpatias. Acresce que acho que Mariana Mortágua não tem tento na língua, é muito auto-convencida, falta-lhe humildade e falta-lhe a autoridade que advém de uma vida vivida. E é um bocado exasperante constatar que ali, naquele Bloco, cada um pode exibir o ego a seu bel-prazer que não há quem se sinta com autoridade para mandar bater a bolinha baixa a qualquer outro.


Como já o disse muitas vezes, voto maioritariamente PS embora, como tenho confessado, parafraseando o O'Neill, seja na base do 'não me apetece mas voto PS'. Não me revejo nos jogos palacianos, não me revejo em amigalhices aparelhísticas, não me revejo no uso abusivo, para desviar atenções, do verbo fácil. E, por vezes, esses são tiques de que o PS padece (também versejei!). Mas, numa lógica de redução por absurdo, analisando pragmaticamente as alternativas, muitas vezes tenho chegado à conclusão que do mal o menos e, portanto, votei PS.


Mas, pelo que referi, não sou fundamentalista em relação a nenhuma das minhas ideias.


E é assim que é com pena e um sentimento de que uma injustiça está a ser cometida que vejo a fraca preferência dos eleitores pelo PCP que a última sondagem revela. 6% para o PCP é injusto. Desde que apoiou o governo PS, o PCP tem revelado uma enorme dignidade, uma atitude vertical e honrada. Não têm deixado de expor as suas razões, de encabeçar as suas lutas mas sempre de uma forma madura, sempre respeitando o acordo que fizeram, sempre de uma inteireza que deveria merecer melhor reconhecimento. Têm mostrado ser gente de bem e isso não é coisa pouca.


6% é o que o CDS também tem e o CDS é uma mão cheia de nada, um partido pífio, um bando de gente de cabeça oca, uma nítida nulidade. 


E custa-me ver como o BE, com toda o seu histórico de leviandades, algumas das quais bem recentes, consegue a preferência de 8% dos eleitores. 


Há nisto qualquer coisa de muito injusto.

A vida é assim, bem sei, cheia de injustiças, cheia de avaliações deficientes que conduzem a iniquidades. É dos livros: muitas vezes são os melhores que ficam pelo caminho. É da história: muitas vezes é por delicadeza que os melhores se deixam matar. É do dia a dia: muitas vezes são os que mais têm a dizer que menos são ouvidos.

Mas é por ser tão banal que nos conformemos perante toda a espécie de injustiças que a mediocridade vai alastrando como uma mortífera mancha de óleo, fazendo retroceder a civilização, anulando parte da elegância e da beleza da vida.

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E, por falar em beleza e em elegância, as pinturas são de Hiroshige (1797 - 1858) e é Jordi Savall quem interpreta 'Greensleeves'.

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Comecei referindo que ia dizer 'uma coisa' e acabei dizendo uma data delas. As minhas desculpas.

E agora, caso vos apeteça visitar o fantástico mundo das pessoas verdadeiramente inteligentes, queiram, por favor, descer até ao post que se segue.

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segunda-feira, novembro 14, 2016

Primeira lição da escuridão.
Todas as manhãs do mundo.



Veste-me o corpo o silêncio. Há pouco, sentindo a noite a insinuar-se por entre o arvoredo, espreitei pela janela. A lua que hoje tanto brilha iluminou o meu coração que nada pede. Veste-me o corpo a harmonia dos dias e a paz que habita o meu espírito. Fecho os olhos para que a luz branca da lua se reflicta no meu coração que nada espera.

Recolho-me. Sento-me num canto, mãos no regaço, olhos fechados. Veste-me o corpo o agradecimento. A graça do silêncio que se senta ao meu lado abençoa as longas horas da minha doce solidão. Nada desejo.

Muito a vida já me deu, tanto, tanto. E da música, da cor, do afago, do afecto, do voo das livres aves, da memória dos montes e dos mares, das árvores e das palavras que ouvi e que li, eu fiz uma renda feita de ar que atirei ao vento. Nada tenho agora, nada quero ter. Sou eu, eu e a minha pele nua, eu e o meu corpo que nada pede.

A noite está clara e fresca. Há uma luz branca que escorre dos céus. Percorro os caminhos de pedra e sombra, mal ouço os meus passos silenciosos. Estou descalça. Sinto a humidade da pedra. A névoa da noite derrama-se na minha pele.

Mal lembro a vida que foi a minha.

Amores tive, prazeres intensos. A minha boca conheceu o mel morno que existe no corpo de quem se ama, o latejar do sangue quando arde, a loucura que tinge de paixão o olhar quase cego. A minha pele conheceu a sede das mãos que, sôfregas e impúdicas, procuravam a febre do meu corpo. Tudo guardei e de tudo me desfiz. O meu corpo, tão amado que foi o meu corpo, nada pede, nada espera. Apenas o silêncio o veste.

Sento-me agora junto à fonte ao fundo do jardim, ouço o correr lento da água, o gotejar, ouço o suave rumor de um pássaro por entre a folhagem. Vai alta a noite.

Sem nada ver, passo a mão pelo tronco da árvore à beira da qual me acolho. Baixo-me, sinto a terra, aspiro o perfume que as flores exalam, abertas para a noite. Vêm até mim palavras que ouvia dizer quando o meu corpo também se abria, perdido de amor, palavras sussurradas no calor de abraços apertados, íntimos, infinitos.

O silêncio é agora a minha companhia. Penso em heróis longínquos, ninfas, deusas, traições, naus que partem, adeus que ficam a pairar no ar, lágrimas, saudades, mágoas, amores não confessados, aventuras, regressos, incertezas, palavras não ditas, interditas, malditas. Sonho. Aos sonhos me entrego.

Nada espero. Adormeço sobre as ausências que me habitam. Adormeço sobre os meus sonhos que me trazem cânticos inocentes, anjos brancos, sem corpo, sem rosto, flores transparentes, o sopro de uma respiração que tão bem conheço.

Depois acordo. A luz já rompe os céus. O meu corpo nu mistura-se com as folhas orvalhadas. Ao meu lado estão pétalas brancas, flores desfolhadas, e uma folha onde distingo a caligrafia daquele de quem o meu corpo guarda ainda o cheiro. Escondo de mim as palavras que não quero ler.

O meu coração nada pede, o meu corpo nada espera.
Mas, em segredo, o meu coração e o meu corpo aceitam a benção da visita que, ao raiar da aurora, um certo anjo teima em fazer-me, um anjo sem idade, sem nome, sem rosto, sem pudor, sem piedade.

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Pintura: François Boucher - Danaë
Música: Troisième leçon des ténèbres, Tous les matins du monde de François Couperin, direcção de Jordi Savall com Montserrat Figueras e Maria Cristina Kiehr.

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quinta-feira, novembro 10, 2016

Fazemos coisas de propósito para tomar um risco ainda maior.




É certo que apenas aqui cheguei tarde e más horas. Como se não bastasse, já aqui no sofá e ainda os mails de trabalho a chegarem, quase uma perseguição. 
Não quero que pensem que sou viciada em trabalho. Não sou. Sempre que passo por uma fase destas, enquanto tento fazer o meu melhor, só me apetece descansar -- o que, para mim, é sinónimo de me evadir. À hora de almoço, conversando com o meu marido, dizia que me apetecia ir até Madrid. Saturada de tanto trabalho, penso nos museus, passear no Retiro, ver os pintores de rua, espreitar as montras na Salamanca, o bairro dos artistas, descer a Alcala, a Mayor, a Castellana, picar à noitinha, andar ao acaso. Pensar nisto descansa-me a cabeça, deixa-me com mais paciência para aturar os assuntos diários que teimam em submergir-me. 
Por um lado, lendo os mails que me chegam a esta hora, por outro espreitando as reacções à vitória de Trump (que não são simétricas às da derrota de Hillary) -- depois do espanto, as ruas a polvilharem-se de protesto -- e com a televisão num maçador debate sobre o tema, o meu corpo sucumbiu. 

Acordei há pouco, o meu marido a perguntar-me a que horas me levanto amanhã, e já a televisão num outro canal de televisão mas em que o tema se mantém.

Os protestos nas ruas americanas parecem estar a aumentar.


No entanto, parece que, de repente, um desinteresse pesado se abateu sobre mim. Face a situações destas, não sei o que fazer ou, sequer, se vale a pena fazer alguma coisa. De que serve todo o conhecimento do mundo, os clássicos da literatura, a genialidade das grandes composições musicais, a matemática e a física, a biotecnologia, de que servem milhares de apps inovadoras, impressoras 3D que imprimem na hora toda a espécie de produtos, incluindo sucedâneos de órgãos humanos, de que servem encontros transnacionais para os quais convergem os mais inteligentes e criativos do mundo? De que serve tudo isso se o devir do mundo está nas mãos dos menos informados, dos mais vulneráveis, dos mais manipuláveis, e se as decisões, em última instância, nascem sobretudo do mais básico instinto de sobrevivência e da análise mais primária por parte do lado mais informe da imensa e acrítica mole humana?

Conquistas civilizacionais de gerações valem nada para quem nem as conhece ou trava uma luta diária contra a fome, o medo ou uma corrosiva insegurança. 

Parte do mundo está feito ruínas e devastação. Desses lugares de guerra e fome fogem as populações, nem sabendo já onde se acolher. Outra parte do mundo ergue muros, vedações electrificadas, deixa as pessoas morrerem no mar ou na praia ou fecha os olhos à miséria que se deita em colchões pelas ruas.

Estarei a ser pessimista. Certo. Há um outro mundo em que as montanhas são verdejantes, as praias azuis, os mares férteis e as gentes sorridentes e felizes.  Mas, tantos anos de construção leva já a civilização que seria razoável esperar que todo, ou quase todo, o mundo fosse já uma terra de leite e mel, paz e amor.


Depois de rasteiras como estas, em que os povos escolhem quem menos preparado está para fazer o destino singrar no caminho do desenvolvimento e da inclusão, fico de tal maneira desiludida que apenas me apetece refugiar-me no lugar mais longe de tudo, longe dos meios de comunicação social, no meio do mato, protegida pelos troncos das árvores e pelas rochas, convivendo com bichos do campo, pássaros, vendo a natureza a reinventar-se a cada dia, lendo os livros que me fogem no meio da insana correria do dia a dia.

Ficção, claro. Faço parte deste sistema indigente, não vale a pena pôr-me de fora como se fosse vítima ou espectadora. A minha passividade ou cegueira contribuem também para este caldo que abomino. Não sei é como fazer de outra maneira. No entanto, no fundo de mim, nestas alturas em que me apetece desistir, sinto que não devo seguir o caminho mais fácil. Tenho é que tentar descobrir como poderei fazer de outra maneira sem me destruir, sem sentir que desperdiço a minha vida.


Nos dias assim, entrego-me ao vício. Depois de almoçar e apesar de ter um programa recheado da parte da tarde, tanto que apenas me vi livre dele já a noite me trazia fome e cansaço, ainda fui enfiar-me numa livraria. Ia só para que a visão dos livros me amparasse a alma e me desse ânimo para a tarde que aí vinha.

Mas os livros são mais do que isso. Não são apenas uma presença silenciosa. Puxam-me, agarram-me. E eu tenho que lhes tocar. Tenho aqui comigo aquele que, com pele macia e rosto elegante, me tomou as mãos e não foi capaz de me deixar sair triste como tinha entrado. Paula Rego por Paula Rego, por Anabela Mota Ribeiro. Estive há pouco a folheá-lo, com vontade de encontrar pequenos trechos para aqui transcrever. Mas é tarde, o texto já vai longo. Mais vale um dia ocupar-me apenas das fantásticas palavras de Paula Rego. Gosto muito dela. É daquelas pessoas que sobrevive mantendo-se inocente e livre. Coloco-a na galeria de mulheres inteiras, de verbo frontal e ridente, onde estão também Agustina, Graça Morais, Maria Teresa Horta. 



É muito tarde. Estou a descansar a cabeça e talvez a cansar-vos a vós. Não respondi a comentários ou mails e isso faz-me sempre sentir indelicada. Peço-vos desculpa.

Escolhi imagens de pinturas de Paula Rego mas comecei por escolher flores. Apetecia-me compensar a cinza que parece abater-se sobre as minhas palavras com a cor e o perfume das flores. Mas depois achei que era mesmo a companhia de Paula Rego que hoje me fazia bem.

Escolhi também uma frase dela para encimar este texto que por aqui andou, de viela em viela, sem rumo certo, na companhia de Jordi Savall. Não sei bem porque escolhi estas palavras, fazemos coisas de propósito para tomar um risco ainda maior. Talvez porque quero acreditar que o risco de se ter escolhido Trump venha a valer a pena, talvez o mal venha a mostrar-se tão ameaçador que os que hoje correm a entregar-se nas mãos dos assustadores palhaços que se anunciam como anti-regime percebam que não são eles que sabem o caminho para a terra do bem, talvez se perceba que está na hora de os mais lúcidos e bem formados tomarem o lugar dos burocratas e dos abutres sem rosto. Talvez. Não sei.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira.

Alegria, saúde e sorte é o que desejo a todos.

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sexta-feira, agosto 28, 2015

Em especial para a Rosa Pinto, que gosta de fotografias de casas, e para a GG, que descobre soluções giríssimas de decoração, aqui mostro três fotografias da minha casa in heaven.


No post abaixo falei-vos de um amigo silencioso que agora aparece por aqui, do lado de fora, a espiar-me com ar circunspecto, e de uma inovação no transporte de caruma e folhas secas.




Aqui, agora, continuo mais ou menos no mesmo comprimento de onda. Tenho andado em limpezas. Hoje foi dia de aplicar restaurador nos móveis de madeiras. Aplico em grandes quantidades para as madeiras absorvem e ficarem hidratadas, com ar feliz. Claro que, nos primeiros momentos, fica tudo húmido, molhado mesmo, reluzente. Mas, depois, a madeira bebe o líquido e fica macia, bonita.

Numa vez em que um senhor da aldeia me arranjou uns móveis, pôs-lhes cera de abelha e as madeiras ficaram lindas mas eu aqui não a tenho e, de qualquer maneira, deve ser mais difícil aplicar cera do que este produto. Gosto imenso de fazer este género de coisas, gosto de ver tudo com ar de novo, limpinho, cheiroso. Amanhã vou aplicar cera líquida nas tijoleiras do chão. Tenho é que escolher uma altura em que tenha a certeza de que o meu marido não vai entrar pois é certo e sabido que, mal acabo de lavar o chão ou encerar, ele há-de aparecer e, se não o intercepto a tempo, fica-me o chão todo espezinhado. É uma luta que travo há anos. Ele diz que é porque eu demoro tempo demais e que, inevitavelmente, a meio, ele há-de precisar de alguma coisa cá de casa. Não sei, o que sei é que não se ensaia nada para pisar o chão molhado; e depois diz que nem reparou.

Mas andava eu nas minhas limpezas interiores, antes de me deslocar para os trabalhos no exterior, quando me lembrei de fotografar algumas coisas para mostrar às Leitoras Rosa Pinto e GG. É capaz de parecer presunção da minha parte isto de achar que vão gostar de ver até porque já antes tenho mostrado imagens cá de casa, mas, enfim, é como se as estivesse a convidar para entrarem, virem ver, virem cá lanchar comigo.

Mas sei que não é nada de especial, é apenas a minha casa - e eu não tenho pretensões a ser grande decoradora mas, enfim, sinto-me bem aqui e as pessoas que cá vêm também costumam gostar. Tem muita luz, muita cor e umas peças antigas que herdámos ou recebemos de presente e de que gosto muito.

Na fotografia abaixo, em primeiro plano, está a mesa depois de lhe ter aplicado o dito produto. Ao fundo, no aparador, debaixo do espelho grande, ao meio, está uma balança das antigas, de pratos (de latão?), com pesos, que era do avós do meu marido e que, dos avós, passou para umas tias e das tias para o meu sogro e, do meu sogro, para nós.

As louças são do Espaço Fortuna, de Azeitão, oferecidas pela minha mãe. A taça grande ao meio da mesa foi comprada por mim em Sagres




Abaixo mostro parte da lareira. Na parede por cima, tenho um quadro que não é um quadro, é um tabuleiro antigo a que foram retiradas as pegas, em que entre a madeira do fundo e o vidro, tem uma seda bordada com desenho e ponto das colchas de Castelo Branco, uma peça muito antiga, feita pela mãe de uma senhora amiga. Essa senhora minha amiga é da idade da minha mãe e a mãe dela fez isto quando era nova, ainda solteira. Por isso, imagine-se quantos anos tem isto. Por tudo e pela sua beleza própria, é das peças cá de casa de que muito gosto.

Na madeira da lareira podem ver-se três peças de artesanato. Uma menina pernalta, peça de artesanato urbano, um Santo António e um copo de barro alentejano, ambos de artesanato mais tradicional. O copo faz parte de um conjunto de jarro e meia dúzia de copos e meia dúzia de pratos que o meu avô, quando eu era miúda, me ofereceu uma vez que fomos passear ao Alentejo. Lembro-me dele, nesse passeio, me querer oferecer alguma coisa e, para surpresa de todos, eu ter escolhido isto. Entretanto, já se partiram alguns pratos e copos. Mas ainda subsistem alguns, memória do gosto que o meu avô fez em me oferecer uma coisa que eu, há tantos anos, já achei tão bonita.

Os livros, como se vê, estão a transbordar da prateleira de tijoleira que ladeia a lareira. Terão que sofrer uma intervenção arrumadora, também eles. Talvez faça um banquinho como aquele que a GG mostrou no outro dia, num comentário que deixou lá mais abaixo.




Aqui em baixo, um conjunto de peças (tralha, diria o meu marido) que tenho mesmo aqui à minha frente, neste momento. Estão no móvel onde está a televisão e o leitor de DVDs. Eu agora estou sentada no sofá em frente, enquanto vejo a RTP 2.

Há uma mulher (ou uma santa?) em madeira, uma galinha, um xilofone, uma ovelha que é uma vela e um buda e ainda há um cubo aberto, dourado, que tem uma vela lá dentro e que praticamente não se vê na fotografia. Na parede por cima tenho um painel de azulejos. Nada disto tem muito a ver uma coisa com a outra mas acho que há nas cores e nesta aleatoriedade algo que tem muito a ver comigo. 




Não parece mesmo que o badocha gordalhufo está no gozo a olhar para a galinha que se pôs ali a tirar o protagonismo à santa? Acho o máximo. Vou variando o que está na sua mira porque me dá vontade de rir a expressão de gozo dele.

Enfim. Maluqueiras minhas.
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Tinha em mente ainda transcrever uns textos divertidos sobre João César Monteiro, um louco encartado, mas acho que por hoje já chega, não vos maço mais. 

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Relembro que, abaixo, poderão saber quem é o agente secreto cujo olhar parece ter vindo do frio e que anda a espiar as minhas andanças campestres.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira. 
Divirtam-se, descansem, sejam felizes - está bem?

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terça-feira, novembro 25, 2014

José Sócrates em prisão preventiva. Três dias depois de ter sido detido e depois do incrível aparato mediático, aconteceu o que era quase inevitável. [No meio deste clima de transtorno emocional colectivo em que meio mundo acha que todos são culpados de tudo - incluindo Pinto Monteiro que, por ter ido almoçar com Sócrates e, pelo que ele diz, terem falado de livros, já é descrito como um mentiroso descarado]


O processo Marquês teve mais um episódio notável. Para um ex-Primeiro Ministro foi decretada prisão preventiva, como se estivéssemos a falar de um assassino, violador ou terrorista. Se antes, com o que os jornais e televisões divulgavam, já era difícil defender a presunção de inocência de José Sócrates, agora ainda o será mais. José Gomes Ferreira no Expresso, Helena Matos do Observador e certamente outros já andam a desenterrar suspeições antigas, boatos, desentendimentos políticos como se de crimes inquestionáveis se tratassem e já houvesse sentença transitada em julgado sobre todos eles.



José Sócrates em prisão preventiva - mais uma humilhação 


E se antes eu não percebia porque é que tinham prendido José Sócrates para o interrogar, agora fico ainda mais chocada com a decisão: prisão preventiva! Porquê?! 

  1. Havia perigo de fuga? 
  2. Mesmo depois das buscas já efectuadas, havia perigo de que destruisse provas? 
  3. Havia perigo de que continuasse a praticar crimes? 
  4. Havia perigo de que a população ficasse aterrorizada por ele ficar à solta?
  5. A sério...? Juram...? E são capazes de dizer isso sem que lhes caia um dentinho...?


A acusação é de corrupção, fuga ao fisco, branqueamento de capitais. Mas teria sido saudável para a democracia e justo para com a população - e isto já não dizendo que seria decente para com José Sócrates - que tivesse sido explicado de que se trata.

Em que âmbito esses presumíveis crimes ocorreram? Quando?
  • E foi enquanto cidadão normal? 
  • Ou enquanto primeiro-ministro? 
  • Corrompeu alguém? Quem? 
  • Ou foi corrompido? Por quem?
  • E em quanto? 

Ou seja, de que é que exactamente estamos a falar?
  • Da mãe lhe ter dado dinheiro? 
  • De ele próprio ter comprado livros seus para oferecer a amigos?
  • Ou será que estamos presente um ser alucinado, demente, que enganou amigos e correlegionários e que, esquecendo-se de todos os riscos que corria, escondeu dinheiro em contas de amigos, recebeu dinheiro em maços de notas, fez toda a espécie de irreflectidas tropelias como se de um mentecapto se tratasse? 
  • Ou, se não é nada disto, é o quê?

Nebulosa de Órion

Não deveria ter sido o Ministério Público a informar sobre que é que estamos a falar?

Fará sentido que seja o Sol e o Correio da Manhã a destilarem, gota a gota, informações que ninguém sabe se têm algum fundamento, crucificando o homem na praça pública?

Quem aqui me costuma visitar deve perceber qual o meu estado de espírito. Estou a escrever isto e estou chocada, incomodada, triste. 

Não sei de que se trata, não sei o que é que Sócrates fez ou deixou de fazer, e continuo a ter esperança de que ele esteja inocente. Mas, enquanto ouvia os comentadores durante o longo compasso de espera que decorreu até que se conhecessem as medidas de coação, fui ficando com a certeza de que seria esta a que caberia a José Sócrates. O meu marido também garantia que não podia ser outra a decisão, a Justiça seria ridicularizada e gozada se do interrogatório não escorresse o sangue de Sócrates. É que todos os jornalistas e comentadores diziam que, depois de tudo aquilo a que se vinha assistindo, era bom que os indícios fossem fortes, era bom que não tivessem feito tudo isto a um anterior governante por engano, era bom que se mostrasse que a justiça era igual para todos. Ou seja, toda a gente clamava por razões tremendas que justificassem tamanho espalhafato e, portanto, dificilmente a decisão poderia ser outra.

Nebulosa de Hélix

Face a isto, tenho que dizer que temo o pior. Custa-me admitir que uma pessoa vivendo sob escrutínio, sob desconfiança permanente, se fosse meter em trapalhadas. Do que lhe vi, aquando da sua actuação política, custa-me admitir que, às escondidas, Sócrates fosse um vulgar corrupto, um evadido fiscal. Ele tentará agora provar a sua inocência e tomara o consiga - mas não sei como tal vai ser possível com os cães raivosos à solta, com investigadores e jornalistas em conúbio, com a opinião pública a ser violentamente manipulada a toda a hora, em todo o lado.

A sociedade portuguesa está doente. Por qualquer ângulo pelo qual se olhe para a actualidade só poderemos concluir de que algo vai mal em Portugal. É triste viver em Portugal nestes dias de chumbo. É triste e começo a sentir que é perigoso.

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Nebulosa do Caranguejo

Enquanto agora escrevo, ouço na televisão comentadores a soldo a opinar sobre tudo e mais alguma coisa, incluindo sobre a entrevista de Pinto Monteiro na RTP 1. Disse o senhor que, durante o almoço com Sócrates (almoço amplamente divulgado pela comunicação social), não falaram de problemas de justiça mas, sim, sobre livros, sobre Lula, e sobre outros temas inócuos, podendo a conversa ser transmitida na televisão que veriam que não passou disso. Vi a entrevista na televisão e nada do que ele disse me pareceu merecer desconfiança. Magistrado toda a vida, Procurador Geral, Pinto Monteiro não é pessoa que possa dar-se ao luxo de ir a um canal de televisão dizer aldrabices.


Pois bem, por algum motivo que talvez Freud conseguisse explicar, agora também ele virou bombo da festa e, sem consideração nem respeito, toda essa gente insinua que o senhor disse mentira atrás de mentira. 

Como se Pinto Monteiro não soubesse que toda a conversa foi gravada e que, se outro tivesse sido o teor da conversa,  não era a notícia do almoço que tinha aparecido nos jornais mas sim a transcrição, tim tim por tim tim, da dita conversa. 


Só me interrogo de uma coisa: porque será que Sócrates desperta um ódio tão irracional em algumas pessoas? Que demónios desperta ele? Que transtornos emocionais? Alguém me explica?


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  • A propósito do papel dos jornalistas neste processo, se me permitem, agora a palavra a Fernando Alves cuja voz, nos seus imperdíveis Sinais, tantas vezes me emociona:


  • Recomendo também a leitura do texto Sócrates no blogue Vai e Vem

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E agora música, por favor. Ar puro.


Johann Sebastian Bach: Sonata for Viola da Gamba & Harpsichord in G minor, No.3, (BWV1029)

Jordi Savall & Ton Koopman




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E, caso queiram conhecer a minha resposta ao galanteio que um gentil Leitor me enviou, desçam, por favor, até ao post seguinte.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça-feira.

(E vamos ver onde é que as centenas de polícias que agora saltam a toda a hora de debaixo de tudo o que é pedra vão escarafunchar desta vez? Ontem andaram, na Operação Remédio Santo, em farmácias e laboratórios; esta terça feira onde será? Em talhos e peixarias? No Banco Alimentar? No Palácio de Belém? Onde?)

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domingo, setembro 22, 2013

Cine Povero - o amor do CINEma que envolve as palavras dos poetas, a generosidade de oferecer o seu cuidado trabalho ao povo. [Hoje o filme é veículo para Fernando Alves dizer o Canto Nono de Tonino Guerra]



Isto da internet tem coisas quase mágicas. Traz até nós pessoas incríveis que, de outra forma, nunca conheceríamos.

Desconhecia o CINE POVERO e, quando o vi, nem percebi logo que se tratava de uma pessoa que, por vezes ao longo de meses, escolhe fotografias e filmes (muitas vezes de sua autoria), escolhe músicas, escolhe sons, e os monta com carinho e entrega para que o resultado seja o que depois podemos ver.


E nós, tantas vezes apressados e desatentos, depois, vamos ao youtube e nem nos damos conta que o que vemos num ou dois minutos é o fruto do trabalho carinhoso de alguém que gosta das palavras tanto quanto nós, gosta de música tanto quanto nós - mas que vai muito para além de nós nesse seu amor. Entrega meses dos seus tempos livros à composição de momentos muito belos e depois fá-los voar, sem dono, por aí, para quem os queira desfrutar.

Hoje mostro-vos mais um vídeo realizado pelo Cine Povero: Canto Nono de Tonino Guerra dito por Fernando Alves. Um luxo (as imagens, a música, a voz, as palavras - a forma como tudo está tão perfeitamente cerzido).






Transcrevo parte do texto que o Cine Povero escreveu no Youtube:

Tonino Guerra (1920-2012).

"Canto Nono" in «Il Miele» (1981).
O livro foi publicado originalmente em dialeto romagnolo («E' Mél») acompanhado de uma versão em italiano.
Em Portugal, «O Mel» foi traduzido do romagnolo por Mário Rui de Oliveira e publicado pela Assírio e Alvim, em 2004.

Dito por Fernando Alves, aos microfones da TSF, no Dia Mundial da Poesia em 2012.

Música: Jordi Savall / Le Concert des Nations / Hespèrion XXI, "Statio 2: 2 Lachrimæ Invocantis" in «Lachrimæ Caravaggio» (excerto), 2007.

Filmado no Palácio da Raínha, situado na Vala Real da Azambuja, e nas "ruínas românticas" em Monserrate.

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