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segunda-feira, maio 22, 2017

Porque é que os homens deveriam manter um diário?
Abaixo poderão conhecer a razão
Mas eu, por via das dúvidas, descrevo aqui o meu dia
porque se faz bem aos homens não há-de fazer mal às mulheres.





Hoje trabalhei muito. Estou fisicamente cansada. Ou melhor, talvez não cansada mas com sono como se fosse um dia de semana e me tivesse levantado muito cedo. A questão é que, de facto, me levantei cedo e quase não parei. As azinheiras levaram um desbaste que apenas não foi assustador porque fui acompanhando a par e passo cada decisão. No final as árvores parecem ainda maiores e o que eu receava, que, no final, ficássemos sem sombra, não acontece pois as ramagens lá de cima alargam generosamente a sua sombra até aos humildes seres que andam cá em baixo. Agora já não há um ramo grande junto à chaminé nem outro enorme tombando até ao chão. Era deste grande ramo, um autêntido tronco, que eu menos me queria separar. Formava uma abóbada e eu gostava de estar lá debaixo. Mas na verdade estava a tapar (e a atrofiar) o diospireiro e, de facto, já quase não se podia andar ali. E, para além disso, o chão estava permanentemente coberto das suas folhinhas e, nesta altura, da sua baba. Chamo baba às flores amarelas que formam um pó porque é assim que lhe chama o senhor que foi cortar a árvore. Tem uma serra eléctrica eficientíssima que deixa os grandes ramos transformados em bocados de lenha.

No fim, andei a apanhar os maiores e coloquei-os sobre o murete que delimita aquela zona e para o qual está virado o meu jardim zen. Pesados. Madeira compacta. Fazer musculação para quê, a levantar pesos pesados destes?


Entre ramagens, folhas secas, terras que se juntam sob a folhagem caída, nem sei quantos carrinhos de mão enchi e transportei para um local que precisa de terra.


O meu marido pintou as zonas mais extensas ou mais difíceis e eu limitei-me aos retoques mas, ainda assim, foi mais uma coisa a fazer. 


Mas este é um trabalho que faço com gosto. Faz-se e há sempre mais para fazer, arbustos para conter - e agora estou a pensar num loendro que abriu os braços e já comeu quase metade de um caminho -- árvores para serem podadas, ramos secos para serem cortados, folhas e flores mortas para limpar.

Hoje, debaixo dos ramos de baixo de um arbusto, descobri uma enorme pele de cobra ainda fresca e maleável. Estive a ver o que sobrava das escamas esverdeadas, muito bonitas.


Andava cá fora, nestas labutas e o almoço ao lume. Estar a trabalhar, sentindo os odores perfumados que da cozinha me chegavam, abre-me o apetite cá de uma maneira...

Para o almoço fiz um cozido simplificado.
Num tacho coloquei um pouco de água, uma cebola fresca muito grande, um bocado de entrecosto, umas pernas de frango do campo e um pouco de sal. Deixei cozer em lume baixo (ie, depois de ter fervido, baixei). Quando vi que já estava quase, juntei feijão verde abundante, repolho, cenouras e batata doce e, por cima, uma farinheira. Depois de ferver, baixei e ficou em lume muito brando. Depois de cozinhar, ficou a descansar durante um bocado. 
Modéstia à parte, estava bem bom. Como estou a fazer dieta, não comi batata doce e mal provei a farinheira. 

Mas, dizia eu, que andava lá fora e a sentir o cheirinho bom que saía pela chaminé. Quando penso in heaven, há várias ideias boas que tenho cravadas em mim e uma delas é esta: estar na rua a varrer, a lavar tapetes ou a estender roupa e sentir o cheirinho apetitoso que sai pela chaminé.

Há uma outra: estar no quarto ou na sala e estar a ouvir os pássaros. Gosto tanto. Traz-me uma sensação de paz duradoura, daquela que ninguém no mundo poderá subverter.


Depois de almoço deixei-me estar, durante um bocado, a descansar na sala. Estive a ler sobre a heteronímia e fiquei com a dúvida que já tinha: é uma personalidade mais rica por se desdobrar em várias ou é o eu que é mais pobre porque nunca é completamente inteiro, uno? Claro que o texto girava em torno de Pessoa mas Pessoa não será o único exemplo.
Pensei em mim. UJM é um heterónimo? Acho que não. Acho que é apenas um facilitador. É que, apesar de não usar o meu nome, sou, na mesma, eu, eu igual a mim, múltipla mas una. Não sou poética sob uma persona autónoma, maluca com outro nome, terra a terra com outro, etc. Não. Acho que talvez seja isso tudo mas sendo eu e não um múltiplo ou parte de mim. Mas adiante que eu também não sou para aqui chamada.
Mas, portanto, estava na sala, a janela aberta, e os pássaros num concerto. Tantos pássaros que ali vêm cantar. Dá felicidade ouvir pássaros a cantarem ao desafio, tranquilos, apenas sendo pássaros. 


Quando saímos de lá, já eram sete da tarde e ainda tínhamos que ir a casa dos meus pais e isto sabendo que, quando chegássemos à nossa, ainda haveria sopa para fazer e uma máquina de roupa para despachar. E já com fome. Portanto, parámos na tasquinha ao pé da bomba de gasolina e fomos petiscar. Belos petisquinhos entre gente da terra que via, animadamente, o futebol.

Com tudo isto, chegámos a casa tarde e só muito mais tarde consegui aterrar aqui.

Para combater o sono, pus-me a ver outros blogues ou jornais online.

E, no The Guardian, li que faz bem à saúde física e mental ter um diário. Ajuda a estruturar ideias, a desabafar (a quem disso sente falta) e até reforça o sistema imunitário. Em particular, parece que previne ou ajuda a ultrapassar a depressão.


Transcrevo uma parte (e desculpem por não traduzir mas, a esta hora e no estado que estou, adormeceria de imediato se me pusesse com traduções):

Professor James Pennebaker, who specialises in social psychology at the University of Texas, has spent many years looking at how writing down our feelings may boost immune functioning. In Opening Up by Writing it Down, which he co-authored with Joshua Smyth, Pennebaker says expressive writing improves health and eases emotional pain. He includes findings from hundreds of studies showing the health benefits of expressing emotions, particularly after trauma.

Pennebaker explains: “By writing, you put some structure and organisation to those anxious feelings. It helps you to get past them.”Pennebaker has also found that suppressing negative thoughts, rather than talking about them, can compromise immune functioning.
This is why the effect of writing journals can be so powerful for men. The single biggest killer of men between 20 and 49 is suicide. Part of the problem is that when men become depressed, they conceal their feelings and prefer not to seek help. While 67% of women will tell someone if they feel depressed, only 55% of men will confide in someone. This is slowly changing and men are speaking out – from Rio Ferdinand to Professor Green and Prince Harry.
While this work is hugely important, there are still plenty of other men out there who may not feel quite ready to talk and prefer to keep things private. This is where the power of keeping a journal can be so helpful. It’s the next step, without feeling too exposing, where men can communicate in private the highs, lows and all their emotions in between. Journals are a safe space to offload, without fear of being judged.

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Ah, é verdade, o mais importante: falei com a convalescente que já estava a pé, a voz animada e à espera de ir para casa. E eu fico muito contente por ela e por todos, porque quando um de nós tem um problema somos todos que o temos. Mas o pior já passou e bola para a frente porque para a frente é que é caminho. 

E a vida é uma coisa extraordinária, um milagre permanente e eu fico em estado de encantamento com o que me é dado presenciar e viver. 
[... E eu já escrevi que me fartei. Tenho que ter atenção. Se escrever um diário é uma terapia, então convém não abusar senão torna-se uma overdose. Cerrto?]
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Fotografias feitas in heaven, dentro e fora de casa

A música é um cover de The sounds of Silence numa interpretação de Nouela

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

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sábado, fevereiro 25, 2017

Quando a brigada da limpeza prova que Natal é sempre que um homem quer
- ou como isto da embrulhada do Marquês é para esquecer
(Agora até o Zeinal Bava e o Granadeiro estão ensarilhados no processo do Sócrates? Oh la la)





A minha sexta-feira foi chata e comprida: começou cedo, acabou tarde e, nem à hora de almoço, consegui intervalar. De notar, contudo, que nem o almoço foi chato (deverei até confessar que, bem pelo contrário, foi superlativo: lugar fantástico, a melhor vista possível, comida excelente, um serviço de primeiríssima e uma companhia irrepreensível: eu e quatro homens simpatiquíssimos), nem a reunião da tarde foi desagradável (deverei até dizer que foi das melhores dos últimos tempos) nem a manhã foi das piores. Simplesmente não consegui alhear-me nem por um instante da persona que me habita quando estou a trabalhar. E também não é que eu antipatize com a dita persona, é mais que preciso de, volta e meia, deixar vaguear a mente, olhar pela janela, esticar as pernas, pensar que me estou a marimbar. Ou seja, necessito de, de vez em quando, intervalar. Fazer silêncio. Ouvir os sons íntimos do silêncio. E não consegui. 


Seguiu-se que saí pouco depois das sete da tarde a pensar que ia chegar a cedo a casa, que poderia ainda ir fazer uma breve caminhada -- e apanhei um trânsito tramado. Cerca de uma hora. Não foi dos piores dias mas, caraças, apetecia-me não apanhar nem um carro pela frente e foi o que foi. E, para fim de festa, tendo resolvido ir jantar fora, decidimos não ir à praia mas ficar por perto. O restaurante foi um dos nossos preferidos, a comida é boa, o serviço de grande cordialidade. Só que estava cheio e demorou, demorou. 

Por isso, cheguei a casa tarde, farta de estar de saltos altos, farta do colar, dos brincos, do relógio, farta de estar com camisa de seda, farta de estar de meias de lycra, farta, farta, fartinha.


Agora, já confortável, instalei-me com vontade de ver coisas boas. E, por acaso, tive sorte: dei uma volta pela net, vi as fotografias maravilhosas que mostrei abaixo e que fizeram com recordasse o nascimento dos meus filhos. 


Só que, agora, ao prestar atenção à televisão, vejo que Henrique Granadeiro e o oustanding Zeinal Bava são arguidos no Caso Marquês, suspeitos, ao que parece, de receberem dinheiro do Grupo Espírito Santo. E fico espantada. Já lá vão mais de vinte arguidos neste processo. Num país pequeno como este, parece que não há processo que não se transforme num mega-processo. Seja porque se oferecem robalos, seja porque se opina sobre o revestimento do chão do apartamento do amigo, seja por que for, é tudo metido ao barulho e um processo, em vez de durar meses, arrasta-se durante longos anos, massacrando a vida de todos aqueles que caíram nas malhas das suspeitas.


Fico admirada com isto. Não que ponha as mãos no fogo seja por quem for e muito menos o faria pelo Zeinal -- e até admito que seja do sono e do estado de saturação em que me encontro -- mas o caso Marquês não tinha a ver com o Sócrates? O que é que o Zeinal e o Granadeiro e de quem recebiam ou deixavam de receber dinheiro tem a ver com o Sócrates?


O Rosarinho, com o beneplácito do Super-Judge Alex, estão para ali a armar um enredo, um enleio que não se percebe como é que, em vida dos visados, isto tudo se vai desensarilhar tal a diversidade de suspeitas, tal o leque de visados, tal a barafunda que já está para ali armada.

Agora fiz zapping e fui parar a um programa onde andam todos nus numa praia mas onde os seios das mulheres e os genitais de todos aparecem desfocados. Se é para tapar, que lógica tem pô-los nus?

É a gota de água. Parece não haver limite para a parvoíce.


Ou seja, e para atalhar razões: não há pachorra. Ou, admitindo que o mal seja meu: não tenho pachorra.

Conto, pois, com a vossa compreensão para permitirem que intervale. Fiquemos, pois, com um momento à maneira. Prestem atenção à letra das canções. 

Cleaning Crew


(com a partipação de Cecily Strong, Emma Stone, Leslie Jones)


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A música lá em cima é The sounds of Silence, de Simon & Garfunkel, numa interpretação de Nouela.

Os desenhos com flores são da autoria de Georgie St Clair

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Pensava que ainda escrever mais um episódio da Dindinha mas é-me impossível.
Vou pregar para outra freguesia.

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E não deixem, por favor, de ver as fotografias maravilhosas do post que se segue.

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