Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, julho 17, 2019

Baby steps para a redenção da humanidade
(em dia de conversa desconchavada -- e don't ask me why isto)





Há coisas em que penso de vez em quando. Parecendo que não, às vezes penso. O devir da humanidade é um dos meus temas de eleição. Podia fazer por menos mas sou assim, se é para pensar, então, mais mais vale pensar em grande. Na humanidade. Pimbas. E se pensam que estou na brincadeira pois saibam que não, que com a humanidade não se brinca. E não me venham com trocadilhos do carvalho, que qual humaninade qual carapuça, que tal enormidade não está à minha altura, que para aí germanidade ainda para vai -- que não, preocupo-me não com o manuel em si mas mesmo com o género no seu todo. Believe it or not. 
E isto do believe it or not agora aqui metido a desconchavo deve ser influência do Kullervo que deu em querer que eu aprenda a exprimir-me em inglês. Podia ser grego antigo para ver se ultrapasso as minhas fronteiras mas não, british, coisa tão brexitiana, tão maysiana, tão borisiana. Ao menos en français para ver se exercitava o meu charme, paroles com mal de vivre lá dentro, paroles com bisous intuídos, paroles sympas, choses comme ça. Mas não, inglês e, ainda por cima, pouco técnico.

Mas, dizia eu, que a humanidade volta e meia assoma ao meu espírito. E vem cheia de problemas e eu, que preciso é de abrir a janela e deixar entrar o ar, fico é cheia de preocupações e falta de perspectivas com medo de falta de futuro.

Ah. Outra coisa. Nada a ver mas querem saber? A meio da tarde tive uma reunião num sítio e resolvi ir a pé. A avenida cheia de turistas, gente de mochilas, jovens de shortinhos e chinelinha, mulheres muito louras com belos chapéus, todas contentes por estarem a passear numa cidade do sul, Lisboa la plus belle. E eu, salto alto, em serviço. E, então, abre-se o semáforo para peões e a passadeira é também passagem para trotinetes e, em sentido contrário ao meu, avança uma meia dúzia delas, cada uma com um deus em cima. Gigantes, musculados, muito louros, muito bronzeados, calções e tshirt de alças. Vi-me no meio deles e pensei que eram cavalos em tropel e me iam levar com eles, na garupa do bicho. Mas não, passaram por mim como se eu fosse transparente, eu a chegar ao passeio oposto e eles a passarem para o lado de lá. Suspirei mas foi suspiro curto pois logo novo tropel, eles de novo, agora na minha direcção, passando por mim, seguindo a grande velocidade, cavaleiros, deuses correndo em terra. Imagem maravilhosa a meio da tarde. Um pequeno exército de guerreiros lindos de morrer.


Mas, dizia eu, a humanidade, quando me invade a cabeça, só me dá ralações. Felizmente não é coisa em que pense muitas vezes. Mas, quando penso, só me apetece dar um chega para lá na ideia, pensar que até que a coisa se estrafegue de vez já eu cá não estou. Mas fico a pensar que ao ritmo a que a coisa se está a dar, mesmo que não dê grilo para mim, na volta ainda vai maçar os meus meninos e os que vierem depois deles e isso maça-me. 

Uma das coisas que me dá que pensar é a falta de água. Medo. As temperaturas cada vez mais altas, calor abrasador, a terra gretando, as fontes e as nascentes secando, os rios exaustos, os peixes asfixiados, mortos, no que em tempos foram margens frondosas, os poços com águas pastosas, contaminadas. Os bichos desidratados, morrendo pelos caminhos. As pessoas precocemente envelhecidas, a pele enrugada, os lábios gretados, a língua inchada, branca.


Procuro, então, notícia de soluções para a falta de água. Máquinas que geram vapor a partir do calor que condensa, vapor que se transforma em água, água que alimenta árvores que se plantam na terra onde já não nasce nada, árvores que fixam a vida.

Aprendo sobre culturas que não precisam de água, procuro histórias de deserto transformado em bosque. Penso: essa é a grande luta. A luta pela sobrevivência. Combater o deserto que avança. Inventar água. 

Não é coisa nova mas cada vez mais penso nisto. Leio como romance bom, coisa melhor que Tolkian -- que nunca li nem vou ler, não só porque sou ignorante encartada mas também porque acho que aquilo ali é mundo de monstros e seres trágicos e eu só gosto de ler história com gente de verdade e vidas com um lado bom. Ou então o contrário, história de lobos solitários, de tigres invisíveis de tão azuis, de cartas manuscritas, de poemas de amor, de rosas inalcansáveis.

La rosa, 
la inmarcesible rosa que no canto, 
la que es peso y fragancia, 
la del negro jardín en la alta noche, 
la de cualquier jardín y cualquier tarde, 
la rosa que resurge de la tenue 
ceniza por el arte de la alquimia, 
la rosa de los persas y de Ariosto, 
la que siempre está sola, 
la que siempre es la rosa de las rosas, 
la joven flor platónica, 
la ardiente y ciega rosa que no canto, 
la rosa inalcanzable.


Device could bring both solar power and clean water to millions

Researchers say one invention could solve two problems for people lacking basic resources

E leio e leio e leio e sobe por mim acima uma vontade de avançar e não posso dizer aqui para onde porque isto aqui não é lugar para business case, isto não passa de uma espécie de diary, daqueles que o erudito Mr. X diz que podiam ser blogs. Embora humble, humble, o meu. Mas, cenas dessas à parte, o que aqui posso dizer é que acredito que o mundo só pode sobreviver se os manuéis germanos do sub-género abaixo de cão desta vida caírem na real e perceberem que é tempo de se deixarem de lorota fajuta, de intriga besta, briguinha da treta, que deviam era concentrar esforços na salvação dos humanos, essa raça de bicho bronco, autofágico.

Mas como pode a humanidade lutar contra os demónios se, quando chega a hora de escolher, tantas vezes escolhe animais -- mas não animais elegantes, honestos, zebras sensatas embora aladas, mas, sim, animais burros, bestas quadradas?


Parece que Stephen King previu o advento da cavalgadura faz muitos anos e agora assiste ao assustador fenómeno de ver a ficção consubstanciar-se no Trump mais Trump que alguém poderia ter inventado. Um susto. Um vídeo que mete medo.


Poças, isto assusta. Trump, o real, é pior que a pior ficção. Mas não é só ele. Gente assim pulula por aí, alimentados a palha, medrando no pasto das redes sociais. É que tantos outros. O Bolsonaro, por exemplo, outro que tal também  à frente desse grande outro país. Impensável. Gente estúpida, ignorante, coveiros da civilização, coveiros do planeta. Tantos.

Eu a querer pensar nos bons exemplos, naquilo em que temos que nos concentrar, e a ver gente estúpida por todo o lado. Penso nos refugiados, essa pobre gente sem terra, sem pão, sem paz, por aí a caminho, tantas vezes enfrentando a morte, em vez de estarem a reinventar as suas terras, a reconstruir cidades, a criar água, a desenhar florestas verdes e riachos, pássaros de mil cores. Uma incompreensão. O tempo a passar, o planeta a ficar exaurido e tanto desaproveitamento de tudo. E tanto que há a fazer. Tanto.



E ponho-me a ver e sou capaz de para aqui estar a ver e ver, todos os exemplos de homens que plantam florestas que encontro. São bons exemplos, histórias felizes, daquelas de que gosto.

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As fotografias photoshopadas de animais são de Julien Tabet

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E dias felizes para todos

quarta-feira, junho 12, 2019

Sinais. Ruben. Olhares. Árvores. Memórias.
E um tango com o perfume de uma mulher.





Há gente que a gente não conhece e de quem, no entanto, já se habituou à companhia. Dois deles são da rádio. Não são só esses mas desses eu hoje quero falar. Poucas vezes consigo ouvir os Sinais do Fernando Alves mas, quando posso, não perco e, mesmo antes dele começar, já antecipo o arrepio que sempre sinto quando aquela voz encorpada roça aquelas suas melódicas palavras que caminham para o final no qual tudo converge, como braços de rio a avançar para uma doce enseada. E não desconheço a mecânica dos rios, não, usei mesmo aquela imagem por deliberação porque assim as palavras dele, correndo, sobressaltando-nos ou levando-nos nos braços e, no fim, não se perdendo no mar mas, antes, tudo se resolvendo e aquietando, represado em nós.


Hoje consegui ouvir. Falava de olhares, de uns olhos azuis e de uns outros, verdes que ficavam amarelos, falava de duas mulheres, uma que recordava e outra que ouvia, e falava também de um poema de Octavio Paz.

Cheguei aqui para ouvir outra vez, o arrepio a querer de novo percorrer-me a pele. E, então, aparece-me o Nónio, que quer que me registe se quero ouvir os Sinais. Um desconsolo. As belas palavras e profunda voz do Senhor Rádio a serem condicionadas por uma treta contra a qual os jornalistas deveriam manifestar-se. Gostava de aqui poder partilhar convosco o que senti ao ouvi-lo. Não posso, não quero ser condicionada desta forma tão escancaradamente absurda. 


E queria, a propósito do que ouvi e de outras coisas cá minhas, falar de olhares, de como, para mim, é indispensável o contacto visual com o olhar do outro. Pelo olhar me desnudo, pelo olhar procuro a alma do outro. E queria contar como os meus olhos mudam de cor e como me desreconheço quando espero um tom do fundo do mar e os vejo, no espelho, da cor de pedras reluzindo ao sol e não sei se é o espelho que lhes dá a luz ou se são os meus olhos que inventam cores novas quando se vêem ao espelho. E queria contar que os meus olhos míopes parece que não precisam de ver para me darem a conhecer o que dizem os olhos dos outros e adivinham até o temor dos que não deixam que os meus os olhem de frente e em profundidade, como que receando que eu mergulhe fundo demais. Mas isto, se calhar, não é bem assim, isto, se calhar, sou eu que sou dada a rêveries, a inofensivas loucuras.

Mas, pronto, não tendo eu para aqui partilhar convosco os Sinais, não falo. 


E foi também no carro que tive uma má notícia: tantas vezes a nossa companhia ao sábado junto à hora do almoço, Ruben de Carvalho -- que se divertia à grande com Jaime Nogueira Pinto, os fantásticos Radicais Livres -- tinha-se libertado das amarras da vida. E escrevo assim não porque a hora careça de metáfora mas porque não gosto de usar a palavra certa. A palavra certa assusta-me quando a a ceifa atinge pessoa que me faz boa companhia. Parece que receio que contagie, que seja mau presságio. Evito.

Muitas vezes tínhamos que levantar o som, apurar o ouvido, eles falavam ao mesmo tempo, riam-se, tinham o prazer da concordância, sempre contentes por se lembrarem das mesmas coisas ao mesmo tempo, avindos apesar de tudo. Histórias, episódios, apartes -- e sempre ambos a completarem-se, rindo da sintonia. Riam um do outro, o da esquerda e o da direita, gozando com a própria irreverência face à ortodoxia. Radicais e livres. E agora o Jaime Nogueira Pinto não terá o seu amigo para desfiar memórias e opinião a par e par e nós, no carro, não teremos o prazer de o ouvir trocando postalinho com o seu companheiro. 


Se calhar vai chegar o dia em que vou começar a sentir que o meu mundo vai ficando mais pobre, sem muitos daqueles que acompanham os meus passos. Ainda não quero dizer isso porque não sou fatalista, não gosto de curtir tristeza. Mas custou-me mesmo que ele se tivesse ido embora e, ainda por cima, sem dar aviso, sem que eu fosse criando mentalização para o que estava para vir. E falo de forma egoísta, não falando no sofrimento dos que lhe são próximos, falando apenas de mim, no carro, a ouvi-lo. Mas acredito que, quem fala na rádio, fala como se falasse para cada um que o ouve e é dessa tertúlia agradável e culta que vou sentir muita falta.

Mas é assim mesmo a vida, cheia de coisas destas, de olhos que se fecham, coisas nem sempre esperadas, coisas que nem sempre causam arrepio bom na pele.

Mas continua. Sempre continua, a vida. 


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Os teus olhos  -  Octavio Paz

Tus ojos son la patria del relámpago y de la lágrima, 
silencio que habla, 
tempestades sin viento, mar sin olas, 
pájaros presos, doradas fieras adormecidas, 
topacios impíos como la verdad, 
o toño en un claro del bosque en donde la luz canta en el hombro de un árbol y son pájaros todas las hojas, 
playa que la mañana encuentra constelada de ojos, 
cesta de frutos de fuego, 
mentira que alimenta, 
espejos de este mundo, puertas del más allá, 
pulsación tranquila del mar a mediodía, 
absoluto que parpadea, 
páramo.

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E para não chegar ao fim num tom dolorido, com saudades de olhares longínquos, com a melancolia de amores perdidos uns dos outros, com a nostalgia de vozes que gostaríamos de ter perto de nós, vou lá acima trocar o Nocturno pelo Redemption e vou colocar as minhas palavras sob a copa das minhas tão amadas árvores que me abrigam quando estou in heaven

Ou melhor: vou acabar a dançar. E vou buscar um dos tangos mais enternecedores e mais sedutores de que tenho memória. E com uns olhos que, na realidade, vêem mas que ali, não vendo a fingir, vêem mais do que todos os olhos que com ele deslizam no salão, a menina deslizando nos seus braços, rendida, transportada.



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Entretanto, por gentileza de um Leitor num comentário abaixo e a quem muito agradeço, recebi a indicação de aqui se consegue ouvir a crónica do Fernando Alves:

http://podcast.static.tsf.pt/sin_20190611.mp3



domingo, julho 22, 2018

Eu, pecadora, me confesso.
[Pior mesmo é não estar arrependida e saber que voltarei a pecar uma e outra e outra vez]




Tenho alguns comportamentos desviantes. Confesso.
Mas, também, porque não haveria de o confessar? Isto ser escrito sob autoria indeterminada tem as suas vantagens. Posso desbocar-me à vontade que não corro o risco de ser apontada na rua: olha a delinquente.... 
Um desses comportamentos manifestou-se na sexta-feira. Conto.
E se deixarem de gostar de mim, não poderei fazer nada. Mas terei pena. Acreditem. Gostava que gostassem de mim apesar de ser tão imperfeita que até cansa.

O hotel tinha cada amenity melhor que as outras. Pior, mesmo, só o facto de o programa de festas ser tão intensivo que não deu para usufruir coisa nenhuma. Mas vinguei-me. Aliás, vingo-me sempre mesmo quando não tenho motivo.
O meu marido passa-se. Mas passa-se mesmo. Mas se eu não lhe ligo quando o tenho à perna imagine-se quando estou por minha conta. 
Portanto, quando guardei as minhas coisinhas no necessaire e o necessaire na valise para fazer o check-out (praticamente ainda de madrugada), guardei todos os frasquinhos que sobraram. Como era a única no quarto e havia produtos para tudo e para dois, trouxe tudo o que não usei e que foi a maioria. 
Quando um colega fez a gentileza de pegar na mala para a pôr no carro, ficou admirado: credo! tão pesada! Fiquei caladinha. Não lhe contei que, para além da roupa da véspera, tinha os sapatos da véspera, o casaquinho da véspera, tinhas os adereços decorativos da véspera -- a saber: fio, pulseira, brincos, anel -- (que eu, nisto do pendant, sou fundamentalista) -- tinha um livro, tinha um frasco de perfume, tinha o computador e respectivo carregador e mais o carregador do telemóvel, tinha o dito nécessaire com uma embalagem de toalhitas desmaquilhantes, cremes, maquilhagens, pente, molas para prender o cabelo enquanto me maquilho e desmaquilho, mini-estojo de costura, mini-estojo de não sei quê (com tesourinha, corta-unhas, lima, pinça, etc), etc, etc, etc -- que eu, sempre que viajo, seja para onde for, seja por quanto tempo for, vou prevenida para tudo -- e, lá está, também os frasquinhos de gel de banho, shampoo e loção corporal. Portanto, não haveria a mala de estar pesada?

Claro que o meu marido, quando viu aquilo tudo na bancada da casa de banho, começou logo com a velha lengalenga, que sou maluca, que é um disparate trazer aquilo, que depois me esqueço de consumir, que faço colecção de porcariazinhas que não servem para nada, etc. Não respondi. Mas pensei que ele ia ver, ia gastá-los num instante. No entanto, hoje de manhã, quando tomei banho (cabelo incluído), nem me lembrei dos meus bons propósitos e usei o gel que agora tenho usado, um que não é gel, é creme de banho, e o shampoo que agora também uso, um shampoo micelar. Mas, quando acabei, lembrei-me que me tinha esquecido dos benditos produtinhos; no entanto, pensei que, felizmente, me tinha lembrado a tempo de ainda usar a loção corporal que tinha trazido do hotel. 

Portanto, besuntei-me toda com ela e fiquei toda cheirosa. Cheira muito bem. Tem um perfuminho discreto, a flor de laranjeira, a ervas do campo, nem sei bem.


Só sei que, enquando, esta tarde, estava a andar aqui no campo, in heaven -- com uma ventania incessante que fazia com que o som das ramagens a ondular em uníssono quase parecesse a voz do mar -- me vinha um cheirinho mesmo bom. E não sabia se era do eucalipto, se dos cedros, dos pinheiros, das figueiras, em especial se daquela grande, vergada até ao chão tão densa a folhagem e tantos os figos, se era do alecrim ou da madressilva, ou se era do meu cabelo ou da minha pele ou, quando passava junto às toalhas (usadas pelo pessoal todo que cá esteve no fim de semana passado), que lavei e que encheram três cordas, se era do detergente novo que tem um cheirinho mesmo bom.


Fosse do que fosse, não apenas estava uma temperatura amena e macia, uma luz suave e dourada, uma música boa dos pássaros misturada com o som do vento nas árvores, como caminhava envolta num perfume tão limpo e tão mas tão bom que só não andei nas nuvens porque não as havia.

Depois disso, fui buscar um livrinho, abri a espreguiçadeira e deitei-me, cá em cima, debaixo da figueira brava gigante junto à casa, a ler e a preguiçar.


Por acaso, não dormi mas não foi por falta de sono: é que o meu marido andava lá para baixo entregue ao seu presente vício, ou seja, a roçar mato -- e eu, como é sabido, não tenho grande confiança nele. Aliás, quando não resisti e fui ver que estragos andava ele a fazer, não apenas tinha cortado silvas, tojo, inúmeros rebentos e pés de aroeira (e, até aí, tudo bem) como, no meio da confusão, já tinham ido ao ar três pés de jovens azinheiras. Com os óculos protectores e com a sua bem conhecida falta de cuidado, para ele é tudo igual ao litro: vai tudo. Fiquei furiosa. Furiosa. Digo-lhe que as azinheiras são animais em exitinção, espécie protegida. Pergunto-lhe que mal lhe fizeram as azinheiras. Mas as minhas fúrias para ele também são iguais ao litro. Portanto, nem consigo ter motivação para prosseguir na fúria. Ou seja, voltei para a espreguiçadeira e entreguei os pés de azinheira para Deus.

E, agora que aqui estou nesta inútil cavaqueira, ou muito me engano ou já fui picada e repicada. Gaita das melgas e mosquitos. A vida no campo tem este lado peregrino e altamente dispensável.

Mas adiante. Vou ali buscar aquela coisa que se liga à corrente e que lança uns ultra-micro-sons ou lá o que é que, supostamente, afastam essa bicheza que me está a deixar toda cheia de comichões.

Pode ser que ainda volte. A menos que seja devorada viva.

sexta-feira, junho 15, 2018

Hei-de reconhecer-te pelo imortal silêncio





Nem todos os homens se podem vangloriar de estar sendo necessários a alguém. A vida é que está mal regulada. Eu compreendo que todas as energias pudessem ser mais bem aproveitadas. E o meu mal não é outro senão o convencimento em que estou de que tenho energia para mais.

Sou árvore que não frutifica quanto é capaz de frutificar, porque a plantaram em mau terreno... É a engrenagem da vida que está mal montada, amigo. Não é minha a culpa.

Seu tio sempre silencioso e triste? É uma atitude. Não lha invejo, mas acho-a acima do vulgar. Não se assiste impunemene ao espectáculo da vida. Felizmente o silêncio e a tristeza são cicatrizes que não envergonham ninguém. Há quem saia desse espectáculo miseravelmente, como duma derrota vergonhosa, cobardissimamente. Seu tio é um dos que detestam o papel de vítima. Faz bem, faz bem: é de homem.

Embevecido, os olhos ávidos nas minhas vestes em desalinho e nos graciosos caracóis que se espalhavam sobre a testa pálida, sua excelência forcejava por devassar as belezas escondidas. Recitando o seu caviloso discurso, o velho sátiro arrastava-se pelo tapete escarlate. Presto agarrou o pezinho descalço, cobriu-o de beijos húmidos e quentes. Um resto de pudor sustinha-me à beira do precipício, as forças já não respondiam, combalidas pelo inebriante filtro de amor.
Apelei para todos os meios de defesa que reclama a honestidade. O cruel assassino gargalhou sinistro e, desfazendo-se do colarinho engomado, voltou à carga. Servia-se com desenvoltura das armas usadas em tais embates, as mais pérfidas que se pode imaginar e seria impossível descrever.
- Mata-me, ó bruto apache! Não posso mais. Eu morro...
Gelou-me o sangue nas veias, a última duquesa diante do patíbulo.

Nada direi do crocodilo.
É um bicho tímido, reservado, a quem a realidade magoa os dentes.


Amor, hoje teu nome
a meus lábios escapou
como ao pé o último degrau...

Espalhou-se a água da vida
e toda a longa escada
é para recomeçar.

Desbaratei-te, amor, com palavras.

Escuro mel que cheiras
nos diáfanos vasos
sob mil e seicentos anos de lava --

Hei-de reconhecer-te pelo imortal
silêncio.


Vou andando e andando,
meu horizonte é cada vez mais longe:
uma árvore, alguém
que sempre me responda.

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  • Extracto de uma carta de Manuel Laranjeira a Amadeo de Souza-Cardoso, 1 de Novembro de 1906
  • Excerto de Dinorá, moça do prazer de Dalton Trevisan in 'Cemitério de Prazeres'
  • Nada direi de José Alberto Oliveira in 'Animal animal, um bestiário poético'
  • Amore, oggi il tuo nome de Cristina Campo in 'O passo do adeus'
  • Vou andando de José Bento in 'Alguns motetos'
Pinturas de Clyfford Still (Estados Unidos, 1904 – 1980)
Lá em cima Tal Ben Ari aka Tula, Roberto Luti e a PFC Band interpretam Teach Your Children | Playing For Change
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sábado, abril 22, 2017

Pecar contra os deuses
[Gonçalo M. Tavares e António Lobo Antunes]




Para se ver como tudo é tão relativo. E, atenção, nisto que vou dizer não há ponta de certezas absolutas. Aliás, se eu tivesse levado a catequese a sério, a esta hora era muito bem capaz de estar para aqui arrependida... e ainda nem pequei. Que isto que estou a pensar deve mesmo ser pecado. E, se não é, para lá deve caminhar. Só pode.

Estou com paninhos quentes. Em vez de ir ao assunto, estou para aqui com rapapés. Já devem ter reparado.

A questão é que quero primeiro pôr-me no ponto para não irritar as leitoras catequistas que preferiam ver-me aqui a carpir, a contar do desgosto que me dá a minha celulite
(mas, azarinho, não a tenho) 
ou a chorar a minha neura e insegurança,
(azarinho, também não sinto tal -- e já bati, outra vez, três vezes na madeira não vá alguma leitora diabólica tecê-las), 
em vez de me verem a opinar toda sentenciosa. 

Por isso estou aqui nas boxes a ver se perco gás antes de começar a escrever. Mas isto custa.

Não quero irritá-las mas também não posso ficar o resto da noite para aqui a bater mea culpas no peito. Que maçadoras que são as catequistas moralistas. 


Quando agora forem ensinar o milagre da Nossa Senhora a aparecer aos pastorinhos, devem ficar a fazer figas para os meninos não andarem a ler os jornais porque isto de os padres e bispos andarem para aí a dizer que claro que Nossa Senhora não apareceu em Fátima (ia lá a Senhora vir por aí abaixo, a descer dos céus, para se ir pôr a atazanar o juízo a três pobres pastorinhos?) e que a palavra correcta não é aparição mas visão imaginativa, deve deixar sem chão muita catequista penitente.

Mas então onde é que eu ia?

Ah, sim. Não ia em lado nenhum.
Andei a passear à beira rio e depois fui jantar à praia e fiz cinquenta mil fotografias... e devem estar tão lindas... e eu sem energia para ir buscá-las à máquina. Tenho que me encher de coragem e ir porque, se não, que imagens vou eu usar aqui? 
Só coisas que me ralem.


Bem. Mas o tema hoje era para ser a subjectividade. Ou melhor: a subjectividade dos leitores ao apreciarem a qualidade da escrita. Podia ser doutra coisa qualquer mas hoje era sobre a escrita.

A questão é que não pode ser o mundo quase inteiro a estar errado e eu certa. Pois se há estudos, cátedras, adaptações a peças de teatro, prémios, traduções all over, a culpa só pode mesmo ser minha. Mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa.

E ainda não saí do ponto de partida. E isto tudo para não confundir a inteligência das minhas catequistas de estimação. Imagino as pragas que elas, a esta hora, já me estão a rogar.

Mas vá. Já chega de atirar bolas para o pinhal. Está mais do que na hora de chutar à baliza.

Pronto. Lá vai.



Gonçalo M. Tavares. Primeiro chuto.

António Lobo Antunes. Segundo chuto.

(Sei que nenhum dos chutos foi à baliza mas aí, lá está, já seria esperar de mais.)

Qualquer destes escritores dedica a vida à escrita, qualquer deles escreve que se farta, qualquer deles é incensado aqui e além mar, qualquer deles pode ser considerado um escritor de culto. E, no entanto, eu acho que o que eles escrevem é ilegível, ilegível no sentido de ser uma coisa maçadora, páginas e páginas de falta de assunto, páginas e páginas de uma escrita ora redonda, ora vazia, ora redundante, ora destituída nem sei bem dizer de quê.
Não se assemelham entre si, um inventa maluqueiras desprovidas de sentido e avança sem nada dizer, personagens com nome e histórias de vida desinteressantes, e uma escrita que se nos varre da ideia à primeira aragem. O outro fala, fala, intercala falas, rodopia, volta atrás, intercala pensamentos, anda para o lado, intercala falas alheias, deita-se de costas, deita-se de frente -- e não passa disso.
Em qualquer dos casos, no meio daquilo, podem aparecer coisas bem apanhadas. Também, em tantas centenas e centenas de páginas, era melhor que fosse tudo esfumável no instante seguinte. Não. Mas, no cômputo geral, vou ali e já venho.


Porém, se me ativer ao êxito alcançado ou ao interesse que uma certa intelectualidade lhes dedica, sou levada a acreditar que me falta o neurónio descodificador daquilo. Quiçá, se eu fosse dada a tomar, cheirar, inalar ou injectar, pudesse olhar aquelas páginas e ver rios de talento, luz a irradiar das frases, pepitas a brilhar ao sol por entre os calhaus. Mas não sou dada a isso. O que a mnha mente capta é, tão só, o que os meus olhos lhe levam. O mal, cá para mim, não deve estar no que eles escrevem mas em mim que não li a Odisseia de cabo a raso, o Ulisses do Joyce, os vários tomos de Proust, a meia dúzia de livros da Ferrante, a Bíblia grega e as outras -- e, confesso, até o Rogeiro eu costumo evitar ouvir, desinteressada que sou de me instruir.

Portanto, atalhando razões: isto é tudo relativo e nunca se sabe se a culpa é do pecador, se é da catequista, se é do próprio pecado.

Ámen.


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Lá acabei por ir buscar as fotografias à máquina. Mas com que esforço...

(A primeira fotografia não foi feita ao cair do dia: foi feita de manhã, quando fui ver como estava o tempo.)

E eu estou a dedilhar no teclado e a dormir... e não faço ideia de que é que estou a escrever pelo que se a escrita estiver ainda mais ensarilhada do que a dos dois génios acima referidos, queiram sentir compaixão por esta vossa pecadora encartada.

Three Little Birds encontra-se aqui integrada no projecto Playing For Change

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NB: Nada contra as catequistas em geral. Acredito que haja muitas que o são por devoção e generosidade. Aqui refiro-me àquelas que o são porque não podem ser da polícia dos costumes, aquelas que se pudessem instituiam a lei do pensamento único e do sofrimento colectivo.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado.

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sábado, maio 02, 2015

Um milhão de visitas. O marido e os filhos da autora de Um Jeito Manso apresentam-na aos seus Leitores.


No outro dia o meu marido, leitor assíduo e crítico deste blogue, disse-me: "Olha, estás quase no milhão de visitas. Acho que era simpático apresentares-te aos teus Leitores". Exclamei logo: ''Estás maluco...?'. Mas ele explicou, "Não é com fotografias, é dizeres como és, descreveres-te'. Rebati: "Mais do que já me descrevi? O que eu sou está bem à vista no que tenho escrito, não sou capaz de dizer mais nada". Ele insistiu, que um milhão de visitas merecia bem que eu tivesse uma atenção especial para com os Leitores.

Fiquei a pensar nisso e, a meio da noite, quando ele se virou na cama, disse-lhe 'Olha, já sei. Apresentas-me tu'. Virou-se para o outro lado enquanto dizia, a dormir, 'Estás maluca'.

Na manhã seguinte lembrei-o da nossa conversa nocturna. Voltou à mesma: "Estás maluca. Já estou arrependido do que disse". Mas nessa tarde enviou-me por mail um texto a que chamou 'perfil' e que me fez rir a bom rir, um texto cheio de provocações e private jokes, Quando eu lhe disse que tinha que retocar o texto, que aquele era impróprio para consumo, pôs-se a vitimizar-se "Tou f... Para que é que me fui lembrar daquilo...?"

Depois pensei que seria engraçado que os meus filhos também falassem de mim aos meus Leitores. Afinal conhecem-me também de ginjeira para além de serem leitores do Um Jeito Manso desde o primeiro dia.

A minha filha, mal lhe falei no assunto - dizendo-lhe que nada de coisas politicamente correctas, que escrevesse o que quisesse, bem e mal, o que lhe viesse à cabeça - aderiu, duvidando é que o irmão, ainda por cima de viagem fora do país, alinhasse. Ficou também muito curiosa com o que o pai iria escrever. E, passado um bocado, já eu tinha um sms a dizer que tinha já enviado por mail. Li e fiquei comovida. Tinha também juntado o testemunho dos filhos.

Do meu filho, recebi esta sexta-feira de manhã um mail que escreveu no telemóvel. Comecei por ficar espantada com o tamanho do texto, estava à espera de uma coisa minimalista, mas depois fartei-me de rir - e comovi-me também.

Ficou a faltar o meu marido. Escreveu-o há bocado enquanto fui levar uma massagem. Quando cheguei e li, também me ri e também me comovi, especialmente com o final do antepenúltimo parágrafo que, depois, de mútuo acordo, resolvemos truncar por ser muito pessoal.

É pois o que eles escreveram, sem lápis azul (com a pequena excepção que referi), que aqui podem ver. De certa forma, é a minha forma de vos agradecer, meus Caros Leitores. Um milhão de visitas é qualquer coisa que nunca eu pensei alguma vez atingir. Ainda nem sei como foi isto possível. Enquanto escrevo, aliás, já vai em 1.000.755. Impressiona-me isto. Mas, apesar de me parecer uma coisa quase incrível, agradeço-vos, agradeço-vos muito.



Primeira imagem que encabeçou o Um Jeito Manso
(The Golden Years - Balthus)


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A palavra ao meu marido


Ao ver que o Um Jeito Manso estava próximo de 1 milhão de visitas, sugeri que, quando fosse atingido esse número, seria uma boa altura para a autora se apresentar aos leitores. Tive a sorte da ideia me cair em cima e ser, amavelmente, convidado para fazer um texto com a sua apresentação.

Felizmente as crianças também foram convidadas e, como já li o trabalho de casa que apresentaram, a minha tarefa fica facilitada.

Deixo, por isso, apenas alguns apontamentos sobre a JM. 

A JM é capaz de rir, rir sem parar, rir até às lágrimas mesmo se não percebemos porquê. 

Quando andamos com a JM numa rua com dois passeios largos e convidativos, invariavelmente a JM caminha no meio da rua. 

Passear com a JM é ficar espantado com o número inimaginável de, muitas vezes excelentes, fotografias tiradas por minuto e, também, descobrir que é possível encantarmo-nos com tudo e com nada. 

Quando brinca com os netos, que adora, a JM é mais uma neta e nem sempre se porta bem.

A JM é teimosa, mandona e dificilmente dá o braço a torcer. 

Tem um fino sentido de humor e, sendo de uma rara inteligência e de uma grande curiosidade intelectual, quer saber tudo e consegue ter um conhecimento profundo sobre áreas muito diferentes. 

A JM opina sobre tudo e mais um par de botas independentemente de lhe pedirem a opinião. 

A JM quando pinta, pinta sem parar, quando escreve, escreve sem parar, quando faz tapetes enche as salas de Arroiolos e quando faz renda ninguém sabe o que fazer a tanta rendinha. A JM gosta tanto de livros que tenho o acesso vedado a alguns equipamentos domésticos que estão completamente ocupados por esses amigos.

 A JM adora a vida e a grande e prazenteira euforia que é viver mas, para ela, nada é mais importante que os netos, os filhos e a família em geral.

Vivo com a JM desde o tempo em que não havia nem computadores, nem telemóveis, muito menos mails ou redes sociais mas, para mim, a JM continua a ter aquele jeito manso que é só seu (...)

Quando o UJM chegar aos 2 milhões de visitas completarei o texto acima.


Aviso: receio que o texto publicado não seja, na íntegra, o texto escrito. Veremos...

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Kate Moss por Mario Testino,
outra imagem que encabeçou o Um jeito manso


A palavra à minha filha e aos seus dois filhos


O ex-bebé: A Tá é bonita

O mais crescido: A Tá só quer o bem para nós, mas ao mesmo tempo é um bocado chata, porque às vezes obriga-nos a comer a comida


A minha filha


A minha mãe é uma mulher sem idade, sem limites, sem medos - características que tanto invejo. 

É em quase tudo uma menina em ponto grande, que tem um gosto apaixonado pela vida, de uma forma inconsciente e irracional. 

Tem uma tremenda falta de bom senso, mas também tem um enorme sentido de humor. Todos os nossos momentos de risos descontrolados enchem-me dessa leveza que ela tanto tem e deixam-me coisas boas cá por dentro. Especialmente se nos juntarmos com a minha avó: nesses momentos somos como 3 meninas simplesmente felizes e não há muitas coisas melhores que esta.

A minha mãe é despenteada, descomplexada e descomprometida. É dura e fala sem parar para pensar nas consequências do que diz. Não se preocupa com condicionantes, nem condicionalismos, mas é absolutamente dedicada e empenhada. Tem uma energia quase inesgotável.

Ao vê-la com os netos descobri nela um lado muito doce e ternurento e, cada vez que os tem por perto, sinto-a derreter. E eu derreto ao ver a felicidade dos meus filhos quando estão nas suas brincadeiras e mimos.

Se batermos à porta, a minha mãe é porto de abrigo. E é a minha mãe quem me põe os pés no chão.


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Cate Blanchett por Annie Leibovitz, outra imagem de Um Jeito Manso


A palavra ao meu filho


A Mãe e as duas faces da lua


A Mãe pediu um texto que a desse a conhecer ao público de Um Jeito Manso, blog da sua lavra que atinge o impressionante número de um milhão de visitas. Avisou desde logo que não queria um texto do género lamechas, o que me pareceu óptimo porque sou pouco dado a demonstrações de afecto.

Opto assim por descrever a Mãe apresentado as suas duas faces, um género de lado bom e de lado lunar ou yin e yang. É arriscado, mas aguento o risco até porque, de qualquer forma, posso contar com uma inevitável censura que irá filtrar algum espinho mais anguloso.

Para começar bem, fica aqui um palavra sobre este blog. É uma demonstração de empenho e dedicação da Mãe, de um esforço imenso para produzir e manter uma ponte com os leitores fiéis. Conheço o dia a dia da Mãe e do Pai e acho notável que tenha a capacidade  de madrugada fora escrever textos de qualidade e em quantidade assinalável. Quem conhece o blog conhece de facto a Mãe. E quem entende a forma como o mantém entende o espírito em constante ebulição que está por trás de tanto trabalho. Mas também poderia falar dos tapetes de Arroiolos ou dos quadros, sempre tão bem executados e em velocidade recorde.

Mas há o outro lado desta moeda: a descrição não seria legítima sem referir a obstinação e inconsequência que a leva a pintar 3 quadros num dia, a escrever texto sobre texto, a fazer tapetes de arroiolos como quem faz rendinhas para o chá. Também é necessário referir a teimosia e um certo  nível de autoritarismo que frequentemente conduzem à via do pensamento único em casa e também, arrisco-me a dizer, no trabalho. Sim, a Mãe é filha única e há todo um lado lunar facilmente decifrável tendo este facto em atenção.

Voltando ao lado bom: a obra e a pessoa são indissociáveis. Quando se fala da casa que conhecem como "the heaven" fala-se de um sonho da Mãe que se tornou realidade devido ao seu empenho. Hoje é uma quinta única, arborizada, com verdadeiras obra de arte espalhadas por um terreno que há pouco mais de uma década era árido. Ninguém acreditou tanto neste projecto quanto a Mãe, e foram a sua persistência e génio que possibilitaram criar algo tão belo e do qual todos nos orgulhamos.

Mas, justiça seja feita, não foi só do génio da Mãe  que se fez a obra, foi também do esforço do Pai, que fim de semana após fim de semana embarcou numa rotina louca de comprar árvores, fazer malas, montar sistemas de rega, gerir micro empreitadas, conduzir, cortar mato, (mas atenção: sem acertar nas árvores ou então...!!!), e o que mais a Mãe inventasse.

Também é verdade que a coisa podia ser posta ao contrário, o génio do Pai ao controlar as vontades da Mãe quando definitivamente ia longe de mais nas suas maquinações, e o esforço da Mãe em convencer o Pai.

Deste ciclo se alimentaram inúmeras, centenas, de conversas que no mínimo podem ser descritas como acesas. Mas a verdade é que, olhando à distância,: encontro um equilíbrio que deu frutos e continua a dar.

A teimosia e intransigência são aspectos bem marcados nesta mulher. Reza a lenda familiar que a minha avó, a pessoa mais paciente do mundo e professora de profissão, em ultima instância só controlava a Mãe com um murro no cocuruto da cabeça. Imagino algo de ligeiro, pouco violento, tipo um martelo, de braço esticado, num movimento completo de 90º, um género de reset para acalmar as hostes compostas de hooligans que agitam o cérebro da Mãe nos momentos mais emotivos.

Nesta descrição não posso deixar de referir que agradeço a forma como me educaram os meus pais. 

Criaram a massa crítica que hoje me permite ser um homem feliz e concretizado. A educação que me foi dada reflecte bem a pessoa que a Mãe é. Uma educação liberal, assente na valorização do ser humano, da cultura, do empenho e do esforço. Sempre pronta a explicar pacientemente a matéria, a prestar interesse ao que aprendíamos. Sempre pronta a conduzir-nos a mais uma viagem à Gulbenkian. Mas sempre em controlo, sempre atenta, sempre a requerer telefonemas para ficar descansada... Hoje sou pai e também já percebo essa necessidade.

Para terminar os aspectos lunares tenho de pôr em texto  a sua incapacidade de planeamento a longo prazo (aposto que não vai concordar com esta). Aliás, o planeamento máximo que consegue tem o raio de pouco mais que um dia. Fui diversas vezes vitima dessa desorganização. Lembro com embaraço, enquanto miúdo, o que era ir a uma excursão levando para comer meia dúzia de ovos cozidos porque "o quê a excursão é hoje e não disseste?!" Ou o que foi ser o único palhaço na história da humanidade com a cara pintada com pomada Halibut porque "então hoje é o carnaval e não me avisaste?!". À distância culpa-me a mim por não a avisar atempadamente mas, sejamos honestos, era um miúdo da primária, cabia-me a mim manter a agenda em dia?. Enfim, sobre este assunto mais não digo porque sofro de um prolongado stress pós-traumático (tal como sobre as inúmeras tardes passadas na Zara a reboque da fantástica parelha consumista que são a Mãe e a minha irmã).

Mas a verdade é que a Mãe contribuiu de forma significativa para que hoje eu saiba aproveitar o que de bom a vida tem para dar, sem perder tempo com tretas, com mesquinhices. Acredito que também a Mãe e o Pai o façam e esta é uma grande lição que lhes devo, saber aproveitar a vida. Isso e saber cuidar dos que nos estão próximos, uma excelente mãe e agora uma avó que os netos adoram.

Termino com a certeza que conhecendo como conheço a Mãe, sei que quer seja o blog, os quadros, os tapetes, o que quer que seja que nos surpreenda de seguida, a Mãe continuará a contribuir para a nossa felicidade e enriquecimento com o seu génio e esforço, por muitos anos e sempre a grande velocidade.


P.S.- Lanço o desafio: que o blog não se torne uma prisão do espírito criativo da Mãe, que se liberte da obrigação de produzir 2 ou 3 textos por dia e que dê asas à imaginação.

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Do fundo do coração agradeço estas palavras que me divertem e comovem. 
(Obrigada, meus amores!)

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E aos meus Estimados Leitores que agora, depois de terem lido isto, já conhecem um pouco melhor a pessoa que aqui vos escreve, agradeço as visitas, a companhia, o incentivo.

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What a wonderful world

Playing For Change


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Permitam que informe: no post abaixo falo do sms que António Costa enviou ao João Vieira Pereira ou melhor, falo da atitude deste último ao divulgar, da forma que fez, o sms que recebeu.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado. 
Muitas felicidades.

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sexta-feira, janeiro 02, 2015

A questão de saber se os tomatinhos ficaram ou não bem lavados e outras peripécias e alegrias nesta minha entrada em 2015.


O mais crescido estava a tomar banho mas dizia que a água estava fria, não queria lavar o corpo todo. Achando que era desculpa, fui lá e chuveirei-o e ensaboei-o todo mas, às tantas, achei que a água estava mesmo fria demais. Então fui ver o que se passava, enquanto a minha filha, apressadamente, acabava o banho e o punha no quarto ao lado para ele se secar e vestir, indo de seguida para a casa de banho para despachar um banho apressado ao mais novo.

Nisto, estando eu na cozinha, reparo que ela já tinha feito umas espetadinhas de tomate cherry com mozzarela fresca e de lá, alto, perguntei-lhe: 'Olha lá! Lavaste bem os tomatinhos?'

Responde-me o mais crescido, do quarto: 'Claro!'

E ela, toda censora, da casa de banho: 'Oh mãe... por favor!'

Escuso de dizer que desatei a rir de tal forma que não conseguia falar, queria dizer que me referia aos tomatinhos cherry mas qual quê...?
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À noite, na passagem de ano, quando nos aperaltámos para ir para a rua, tudo de gorros, casacões, vestidos como se fossemos para o pólo norte, resolvemos que o momento deveria ficar registado. No meio da confusão que é sempre tirar uma fotografia de grupo, eu que estava encostada às costas do sofá que está a meio da sala em frente à lareira, abraçada a um e a puxar por outro que se queria escapulir, nem dei por que o sofá estava a deslizar e por pouco não fui parar ao meio do chão com as crianças por cima. O meu marido registou o momento, eu numa diagonal acentuada, perigosa, encasacada e de chapéu, com as crianças meio caídas em cima, cheias de casacos e cachecóis, e, como de costume, perdida de riso.

A minha filha disse: 'O pai, em vez de ir agarrar a mãe, deixa-se estar tranquilamente a registar o momento...' o que foi um facto mas a verdade é que, se o não tivesse feito, eu agora não podia continuar a rir a ver as fotografias daquele momento de confusão.

Gostava de vos poder mostrar a macacada que ali esteve armada mas, paciência, fica para outro dia.

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De resto, o almoço de Ano Novo correu bem, mas as crianças, talvez ainda na ressaca da agitação da véspera, às tantas, irrequietas, já só queriam era levantar-se da mesa para irem brincar, e o bebé está constipado e estava meio rabugento, sem querer banquetear-se (e logo ele que, usualmente, come como um pequeno alarve). Mas foi bom  na mesma, um belo almoço em família.

A seguir, deslocámo-nos todos para a zona da sala onde o sol bate generosamente e o calorzinho é bom.




Estiveram a brincar, o mais crescido a querer jogar xadrez com o tio mas os outros não paravam sossegados, só a derrubarem as peças - até que eles desistiram. Depois os três rapazes estiveram a brincar com as suas coisas e a bonequinha mais linda entreteve-se a fazer desenhos e a escrever, coisa que gosta muito de fazer.




A seguir, antes que o sol batesse em retirada, fomos para a rua e todos brincaram, correram, saltaram, treparam a uma árvore enorme, jogaram às escondidas. Ao bebé parece que lhe passou a má disposição e voltou à sua forma habitual: brincou, fez cenas, fez-se ao boneco.

O pândego do costume. Um solzinho ameno, um céu limpo, todos felizes, em harmonia.

Há bocado recebi uma mensagem de uma das minhas primas, uma que vive em Coimbra e que, tendo uma menina pré-adolescente, mudou de companheiro, arranjou um outro que já tinha três filhos e que vivem com ele(s) e, para a festa ser a preceito, aos quarenta e tal, engravidou e tem agora uma nova menina que é praticamente da idade deste nosso bebé. Para além disso, têm três gatos e agora também um cão. Ou seja, um permanente arraial. Vivem numa moradia que tem um jardim que, assume ela, é uma autêntica selva, mas que isso não é coisa que lhes tire o sono já que, pura e simplesmente, não têm tempo para cuidar dele. 
Desejava-me ela e passo a transcrever: 'Um óptimo 2015 cheio de saúde, optimismo, tranquilidade e muita paciência para superar as coisas menos boas.' Gostei de ler isto até porque ela perdeu os pais no espaço de pouco tempo (os meus queridos tios de quem já aqui falei cheia de tristeza e saudade) e, apesar de tantas contrariedades, vai levando a sua vida sempre com uma alegria e tranquilidade surpreendentes. Há uma harmonia dentro dela que explica a capacidade que tem de se manter sempre optimista.
Mas, voltando aos meus fofos pimentinhas a brincarem ao sol.










Uma senhora que estava perto de nós a ler um livro ao sol, acabou por se afastar e ir tentar ler o livro para mais longe. Fiquei a pensar que o que para mim era a felicidade de nos ver a todos, unidos, vendo as crianças a crescerem juntas, bem dispostas, brincalhonas, para aquela senhora não passava, com certeza de uma maçada, a maçada da situação de uma família ruidosa ali por perto, a impedi-la de se concentrar na sua leitura. Assim é a vida. Interesses e motivações contrárias tendo que partilhar o mesmo espaço. Ou nem isso, talvez apenas circunstâncias díspares que acabam por levar as pessoas para mundos diferentes.

Quando regressámos a casa, já as crianças começavam a dar mostras de algum sono e já estava a escurecer. Parte do grupo foi à sua vida e outra parte veio para cá. Lanche, filme, pequena sesta, o bom aconchego familiar. Passava das 8 da noite quando a casa ficou silenciosa.

Da parte que me toca, não poderia querer um melhor começo de ano.

Nunca me senti atraída por réveillons em hotéis ou restaurante ou coisas do género. Até não há muito tempo, o nosso grupo de família alargada rodava entre si a casa onde se fazia a passagem de ano. Era um grupo enorme e muito divertido. Mas depois, há algum tempo (e naquela altura em que se diz que os homens já deviam 'ter idade para ter juízo' mas parece que viram adolescentes, com paixões arrebatadas) aconteceram divórcios que introduziram alguma perturbação, até porque o membro que mais animava a festa foi um dos que se separou e já não dava para manter a ex juntamente com a que veio a seguir. E aconteceu, também por essa altura, os filhos adolescentes começarem a ir um para aqui, outro para ali, e era difícil conjugar os programas dos pais que não queriam afastar-se muito dos filhos. A coisa foi-se circunscrevendo mas uma coisa tem sido uma constante: estar junto dos meus filhos no dia de Ano Novo. A família cresceu e já não são apenas eles e, portanto, a animação é agora ainda maior e, confesso, mais feliz.

Contudo, dizendo isto, penso nos que não têm família ou amigos ou os que os têm num número mais restrito. E fico até um pouco sem jeito, com receio que, por contraste, se sintam mais sós. Mas, como tão bem aqui se lê, saibam que não são os únicos. Há tantas pessoas nessas circunstâncias, que não faz sentido que alguém se sinta particularmente desolado por isso (e isto já para não falar nos que estão sozinhos por pura opção ou nos que, estando ou não sozinhos, não são dados a folguedos - e estou a lembrar-me de um amigo meu que sempre fez questão de passar o ano a dormir porque acha uma palhaçada os festins para celebrar uma coisa que, segundo ele, não tem nada que celebrar). 

E se descrevo a minha vivência é não apenas porque gosto, fica um pouco da minha vida aqui registada, mas também porque, justamente, alguns dos Leitores ou Leitoras com menos família e que, nestas ocasiões, pouca vontade têm de festejar, me dizem que gostam de ler e ver o que são estes meus dias em família pois é quase como se já sentissem que eu sou a família que não têm. E eu, muito sinceramente, não lhes quero faltar.

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Há pouco, ao ligarmos a televisão, apareceu-nos um senhor com ar de estar mais para lá do que para cá a dizer coisas, sentado ao lado de uma mesa onde uma moldura tinha ali pegado de estaca. O meu marido fez um zapping a todo o vapor que era o que lhe faltava entrar o ano a aturar aquela múmia quase paralítica.

Passado um bocado, noutro zapping, estava outro mal encarado a falar, um de farta cabeleira grisalha de quem eu, até há algum tempo atrás, achava que tinha um certo charme mas a quem agora acho que não passa de um fala barato com ar de quem nunca dorme o suficiente. Falava sobre a conversa do primeiro (digo eu; mas, às tantas, ainda estava era a falar sobre os submarinos que parece que foram abordados no discurso do chefe) e o meu marido praguejou e rapidamente mandou-o também às urtigas. Por isso, não sei de nada desses assuntos que dizem respeito a senhores requentados. Este ano de 2015 tem que ser bom e, para começar, já estamos a ser mais selectivos: nada de ervas daninhas, lesmas, papagaios, láparos, múmias. 
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E que entre a música:


Imagine - Playing for Change



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E ando com uma vontade de dançar, rir e estar na boa que só visto.


Nazareth pelo Grupo Corpo Companhia de Dança


(Coreografia de Rodrigo Pederneiras. Música de José Miguel Wisnik sobre obra de Ernesto Nazareth)


Uma alegria!



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Permitam que me repita: tem que ser um grande ano, este 2015.

E, no meio desta ligeireza, com muita força desejo também que se olhe a sério, mas muito a sério, caraças, para flagelos que envergonham quem assiste a eles como o do navio com 450 imigrantes a bordo que está sem energia ao largo da costa de Itália ou as formas modernas de escravatura a que Francisco, o meu Papa mais querido, se referiu.


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E, já agora, desejo-vos em particular, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira.

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segunda-feira, setembro 29, 2014

António Costa ganhou as primárias do PS de forma inequívoca e vai avançar como um bulldozer infalível sobre o governo de Passos Coelho. O PS está em festa. Marcelo Rebelo de Sousa, pela parte do PSD, face aos resultados, já começou a despedir ministros. E lembrou ao vice-Portas que é suposto estar presente na coligação. Na actual.


António Costa, o senhor que se segue. Finalmente!


Resultados finais: 

68% para Costa
32% para o Seguro

(Numas eleições enormemente participadas:
creio que votaram umas 170 a 180 mil pessoas)



Não vou agora pôr-me aqui armada em isenta e a dizer coisas de circunstância. Sabidas que são as minhas preferências, claro que estou muito contente. António Costa ganhou as primárias para escolha de candidato a primeiro-ministro por parte do PS de forma estrondosa, esmagadora.



Tenho que confessar que foi com emoção, verdadeira emoção, que vi aquela massa de gente em festa, alegre, pronta para a luta.

O PS andava sombrio, atrás de um líder no qual não se revia. Hoje a energia retida soltou-se e soltou-se em festa, com muita alegria.

Quando Costa pegou no cravo que tinha na lapela e o devolveu aos apoiantes, dizendo que o cravo era deles, sorri. Gosto de gente inteligente e com sentido de humor. À bon entendeur, salut! 


António José Seguro,
o conhecido biquinho mesmo na hora do adeus.
Bye, bye, Tozé,

António José Seguro saíu de fininho nesta noite em que (finalmente!) percebeu que não era querido e ter-se-ia poupado a este desgosto se tivesse sabido ler os sinais. Demitiu-se e abandonou a sede do PS no Rato. 


Era mais do que expectável, pena que não o tivesse percebido antes. Ainda este domingo, ao votar, disse, com ar entusiasmado, que estava muito, muito, muito confiante. Quase me deu pena, palavra.

Querendo ganhar tempo, pensando que conseguiria minar o aparelho, sem o querer acabou por estender uma passadeira vermelha a António Costa. 

O PS e os seus simpatizantes uniram-se em torno de alguém que tem carisma e espírito de liderança, que tem demonstrado uma personalidade forte e um bom carácter, que é culto e boa pessoa, e isso é aquilo de que os líderes devem ser feitos quando almejam governar e conduzir um país. A isso juntam-se os ideais que professa, os ideais democráticos, de liberdade, de solidariedade e desenvolvimento. Ou seja, tem estofo para ser um bom governante. Assim tenha sorte e assim saiba dar corpo ao que se espera dele.

Não sou seguidora de religiões pelo que muito menos tenho arroubos místicos perante uma pessoa tão terrena como eu. António Costa não deve ser visto como um messias para que não venham depois os desapontamentos pueris. Mas acredito que António Costa tem uma força e uma consistência que corporiza bem o espírito de mobilização que pode fazer levantar um país.

Não consigo conformar-me com a actual governação, levada a cabo por alguém que não me merece consideração. A anterior experiência profissional de Passos Coelho jamais poderia dar-lhe preparação para voos mais largos. Acresce a isso o pensamento errático, avulso e inconsistente que se lhe conhece, e uma maneira de ser fria, insensível, desagradável. Não devia saber gerir uma empresa com meia dúzia de pessoas, quanto mais um país.

O País tem sido envergonhado, vergado, sacrificado, seviciado às mãos desta troupe que nos desgoverna. O País quer, obviamente, ver-se livre de Passos Coelho e da sua estúpida política.


António Costa tem agora a responsabilidade de saber mobilizar o país tal como mobilizou os militantes e simpatizantes do PS.


O abraço de Carlos do Carmo a António Costa


Gostei de ver aquela sala enorme em festa, gostei de ver aquela alegria, os sorrisos abertos, a esperança que começa a desenhar-se.


Maria Antónia Palla, a emocionada e feliz mãe de António Costa


Gostei também de ver António Costa ir dar um beijo e receber um apertado apertado da sua mãe, Maria Antónia Palla, antes de subir ao palco para a festa.
Aos jornalistas que queriam saber o que desejava para o filho, Maria Antónia Palla respondeu que o que deseja é saúde e que seja feliz e que consiga concretizar os seus projectos. Também eu.

Gostei também de sentir o toque pessoal de António Costa ao agradecer o carinho da mulher e dos filhos sem o qual não conseguiria prosseguir este percurso. A família, sorridente, ar orgulhoso, retribuíu a emoção com alegria.


A mulher de António Costa, Fernanda Tadeu, e os filhos, Pedro e Catarina, felizes.



Uma palavra para a reacção de Marcelo Rebelo de Sousa que estava a acompanhar isto na TVI, no seu comentário semanal com Judite Sousa. 


A propósito da barraquinha que aí está armada relativa à Tecnoforma e à ONG,  parecendo que estava a desculpar Passos Coelho por ser desleixado, não guardando papéis, acabou por dizer que ele se tinha chamuscado com isto e recomendou-lhe que mostre rapidamente as contas relativas ao que recebeu e se deixe de mas, mas


E, a seguir, face aos resultados nas eleições do PS, largou os paninhos quentes e confessou que agora a oposição, com António Costa, vai ser a doer. Disse que conhece, e bem, António Costa, que foi seu aluno, um aluno brilhante e que, como adversário é temível.  E que Passos Coelho o melhor que tem a fazer é remodelar já o governo, deixando cair de imediato os dois ministros que estão a causar mais embaraços, a da Justiça (que não vai ser possível andar com ela ao colo por mais um ano) e o Crato (que é mais sonso e escorregadio que Paula Teixeira da Cruz mas que também não dá) e também Poiares Maduro que não é capaz de fazer qualquer coordenação política, quanto mais conduzir as coisas até às eleições


E, de caminho, aproveitou para dar uma canelada a Portas, dizendo que está fora quatro em cada sete dias e que qualquer dia Passos Coelho tem que se disfarçar com óculos escuros e ir fazer-lhe esperas para o aeroporto, para o lembrar de que faz parte de um governo de coligação.



Para esses mesmos Passos Coelho e Paulo Portas, António Costa deixou o seu primeiro grito de guerra: este é o primeiro dia dos últimos dias do actual governo.


Assim seja.


António Costa tem consigo todo o partido e todos os simpatizantes.
O País pode contar com António Costa: assim ele o disse e assim eu acredito




Rodeado por abraços apertados, com muito afecto, num contacto estreito e muito humanizado, António Costa saíu em glória da festa e, perguntando-lhe a jornalista o que ia agora fazer, com aquele seu sorriso aberto, disse: Agora vou beber uma imperial.


Bem a merece. Saúde!

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Tenho estado a ouvir a miríade de comentadores que pousaram nos balcões da grande pastelaria em que se transformou a televisão. Há sortido para todos os gostos e opiniões novas, velhas, requentadas, mascaradas, acrobáticas. Um dos factos desta noite que mais motivou e, até, comoveu os comentadores foi a ausência de uma palavrinha por parte de Costa ao Seguro. As pessoas gostam de ver quem está por cima a dar uma esmolinha aos vencidos, ou gostam de assistir a uma farpazita espetada com 'grandeza' mas que se sabe que vai doer como uma humilhação. Estavam à espera disso, daria pano para mangas.

Como Costa omitiu a dita palavrinha, aqui d'el rei.

Pois cá em casa a opinião é diversa: Costa não foi hipócrita. Andou a ser apodado de traidor e ganancioso durante meses, foi insultado publicamente, foi alvo de toda a espécie de ofensas por parte de Seguro. É, pois, mais do que natural que esteja maçado. O que quer que dissesse, não lhe saíria do coração.

Por isso, ou se esqueceu ou se fez esquecido e nós, cá em casa, compreendemo-lo. Mas Costa é um homem com um bom coração e, por isso, logo, logo, vai ser capaz de encontrar o tom e a oportunidade para dar a mão a Seguro.


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Tenho pendente o assunto do Menezes e da D. Cristina Ferreira mas fica para amanhã ou depois. Hoje fico-me por aqui.

Mas, para os que não alinham pelo mesmo diapasão que eu e que não gostam de António Costa nem acreditam que, com ele, chega um sopro de esperança ao País, e para não darem a visita ao Um Jeito Manso por perdida, aqui deixo: 

Imagine - John Lennon - Playing For Change


(Um projecto invulgar e que se traduz em coisas muito boas de ver e ouvir)


A dream you dream alone is only a dream
A dream you dream together is a reality 

John Lennon



The Playing For Change crew began work on a new Song Around the World, John Lennon's "Imagine." It has been an amazing year of production, taking the crew from the favelas of Brazil to the shrines of southern India, from villages in Nepal to the glittering urban landscape of Tokyo and New York, and beyond.

The campaign seeks to advance John Lennon's vision of peace by engaging artists and audiences to contribute to music education programs worldwide. Proceeds raised will help build music schools, support teachers and music programs, purchase instruments, and connect schools for cross-cultural learning and conflict resolution across borders. 


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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.


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