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sexta-feira, maio 05, 2023

Marcelo descurtiu o Costa e ficou com um grande pó ao Galamba mas, resumindo e concluindo, a montanha pariu um very little ratinho.
E ainda bem.

 



Tenho uma dúvida prévia: já não há jornalistas em Portugal? 

Sempre tive para mim que um jornalista é alguém que informa e noticia com isenção. O jornalista deve retratar o que observa sem tomar partido. Um jornalista deve merecer a confiança daqueles a quem se dirige por nunca se desviar da sua rota de isenção e objectividade.

Ora aqui, no nosso rectângulo, quase todos jornalistas caguaram (com u para não me acusarem de falta de educação) para a isenção e saltaram todos para o palco a opinar, a sentenciar, a julgar. Tomam partido, ajustam contas, pedem cabeças, juram vingança. De jornalistas já não têm nada.

Em quem é que podemos confiar para recebermos notícias credíveis, que não venham deturpadas ou conspurcadas pelas suas opiniões? 

Depois de ver as televisões pejadas de jornalistas travestidos de comentadores, fico cansada. Quem é esta gente para sentenciar sobre assuntos complexos? Em vez de noticiarem, é vê-los a rasgar as vestes, a opinarem sobre temas que requerem experiência profissional e conhecimentos na matéria e sobre os quais revelam uma total ignorância -- mas com aquela ignorância dos ignorantes que ignoram a sua própria ignorância -- e se um diz mata o outro diz esfola. E, com receio de perderem a avença, vá de elevar o nível da maledicência. E com receio de ficarem atrás dos outros é vê-los a papaguearem e a macaquearem o que os outros dizem. Uma praga.

O que os jornalistas em Portugal andam a fazer ao jornalismo é contribuir, e de que maneira, não apenas para o fim do Jornalismo como, também, para o clima de pântano que tende a instalar-se. 

À noite (que é quando se liga a televisão cá em casa), de canal em canal, o que se vê é a tropa fandanga dos jornalistas-comentadores e de comentadores-avençados a lançar lama sobre tudo o que mexe.

Sobre a comunicação ao país de Marcelo

Já no outro dia achei desagradável aquela Nota da Presidência, saída durante a intervenção de António Costa. Achei deselegante, uma coisa quase, até, mal educada. Mas a gente depois tenta perceber, em concreto, o que é aquilo e, bem vistas as coisas, não é nada. Ou melhor, tal como referi, pareceu-me uma reacção idêntica à do outro que, furibundo, alegadamente terá atirado a bicicleta contra os vidros

Hoje voltei a achar que a intervenção de Marcelo foi no mesmo sentido. Pôs-se a dizer mal do Galamba e de António Costa de uma forma pouco institucional, pouco elegante, fez insólitos e escusados ataques ad hominem, fez a sua leitura das coisas, uma leitura extremada,  direi mesmo enviesada, pintou a manta... e, depois, nada.

E acho bem que não tenha feito nada. Tudo o que fizesse seria mau para o País (e mau para ele).

E também acho bem porque o País não é o bairro da Mariquinhas habitado por youtubers ordinários, políticos de meia tigela, gente de partidos especializados em banha da cobra e foguetório, pseudo-jornalistas, comentadeiros a metro, avençados a copo e bugalhos à discrição. O País é um país real que tem que ser governado com cabeça, com os pés na terra e com pulso e que se está a caguar para estas tricas laricas ou, para ser mais exacta, para estas merdas paridas pelos media e por alguma gentinha que por aí anda à babugem

Sobre o País real

Por muito que a comunicação social faça e diga, a verdade é que há um país real em que as pessoas trabalham, em que os jovens estudem (quando os profs resolvem dar aulas), em que há segurança nas ruas, em que os restaurantes e as esplanadas estão à pinha, em que todos os concertos, por mais caros que sejam, esgotam, um país em que as praias estão cheias e as pessoas descontraídas, em que as pessoas gostam de viver. 

E o que se vê é que Portugal foi o país da UE com maior crescimento económico, um dos países em que  a dívida pública mais decresceu, um dos países em que a qualidade da democracia é das melhores, um país em que os pensionistas são respeitados, em que tem havido apoios aos mais desfavorecidos, em que o desemprego não tem significado (pelo contrário, há escassez de recursos em muitas profissões), em que, em suma, quase tudo funciona razoavelmente.

Portanto, quem é que, em seu são juízo, iria ferir de morte a estabilidade actual e os bons resultados da governação?

Alguém acredita que o Montenegro, com o artista da Iniciativa Liberal que não dá uma para a caixa (e que levaram aquele youtuber ordinário para dentro do Parlamento) e, quiçá, com o Ventura a tiracolo, governaria melhor o País?

Mais. Tenho para mim que a maioria das pessoas está cansada dos filmes negros inventados por uma comunicação social alimentada por jornalistas travestidos de justiceiros que fazem de tudo para pintar o país de cores tenebrosas ou por uns deputados com alma de pides e outros que devem padecer do défice de concentração, indo atrás de qualquer mosca que atravesse as salas, que fazem de tudo para atormentar a vida a quem lhes caia no goto e para poluir a democracia.

Não quero com isto dizer que toda a gente no país viva à larga. Não. Nem aqui nem em lado nenhum, o mundo é um mar de rosas para todos. Há um caminho a percorrer para esbater desigualdades, para fazer crescer a riqueza geral. Claro que com a inflação (internacional) e com a subida das taxas de juro (idem) há muita gente a suar as estopinhas e o período não é o melhor para quem vive com menores rendimentos. Mas mesmo nisso o Governo tem posto no terreno programas de apoio.

O Governo tem muito trabalho ainda pela frente? Claro que tem. Por exemplo, na Justiça, há muuuiiito a fazer. Não é possível os processos arrastarem-se durante anos.

E têm que fazer um esforço para se articularem melhor entre si. E o Costa tem que dar ordem aos Ministros para se livrarem de todos os assessores, adjuntos e demais canalhada miúda que por lá ande a receber pipas de massa sem que tenham um mínimo de estofo para aquelas funções. 


Voltando ao Marcelo 

Para não sair deste episódio com o rabo ainda mais entre as pernas, Marcelo ameaçou que agora vai fazer a vida negra ao governo. Faz mal. Até porque isso é o que tem andado a fazer nos últimos tempos. Já ninguém tem paciência para isso. Ninguém... excepto a tropa fandanga dos media. 

Os jornalistas, as vizinhas intriguistas e comentadeiras podem gostar muito disso pois é o pasto de que precisam de se alimentar. Mas o País gosta de estabilidade, gosta de pessoas que saibam honrar aquilo para que foram eleitas, que olhem para os objectivos a atingir e não para o seu próprio ego.

Em vez de andar com as televisões atrás, numa de dar permanentes ferroadas ao Governo, a mostrar o preço das batatas, a entrar em bairros de lata a mostrar que ainda há quem viva assim ou a visitar centros de saúde para ouvir as queixas de quem para lá vai às oito da manhã, melhor seria se andasse pelas universidades (por exemplo pelas engenharias, pelas biomédicas, pelas farmacêuticas, pelos politécnicos, etc, a ver em que projectos inovadores estão envolvidos), andasse pelas empresas, nomeadamente, pelas áreas de desenvolvimento e de transformação digital, pelos hospitais a ver as unidades integradas e polivalentes (da dor, da insuficiência cardíaca, do avc, de oncologia, etc) ou a evolução para os domínios dos internamentos domiciliários e do acompanhamento remoto a doentes, ou que andasse pelos municípios a ver a oferta a nível de equipamentos desportivos que cobrem todos os níveis etários, os jardins e parques municipais, que andasse a ver o que há de ofertas dignas e em condições acessíveis a nível de creches e ATL, residências assistidas para idosos, que fosse visitar o que se está a fazer a nível de energias alternativas e de prevenção ou mitigação das alterações climáticas. Etc.

O País tem que ser puxado para cima, tem que se dar a conhecer os bons casos, têm que ser emulados os bons exemplos, temos que saber enaltecer os nossos pontos fortes (que são muitos) em vez de andarmos a dizer mal de tudo, os pés atolados na lama que uns quantos teimam em atirar para o espaço público.

Se Marcelo conseguir a proeza de se reinventar e passar a ser realmente útil ao País, agradecer-lhe-emos.

Se se limitar a andar com as televisões atrás, a lançar atoardas e ameaças veladas, ou a fazer o papel do Chega que faz da maledicência e da acusação o seu móbil de vida, então, dispensamos.


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Pinturas de Joan Miró a ver se dão alguma cor e leveza ao cinzentismo do tema

A música, lá em cima, vem no mesmo comprimento de onda:  El cant dels ocells de Pablo Casals num arranjo para guitarra de LV Johnson
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Um dia bom
Saúde. Serenidade. Objectividade. Paz.

segunda-feira, outubro 31, 2022

Segredo para um coração feliz

 


As romãs estão grandes, pesadas. Tenho que as ir apanhando apesar de a casca ainda não estar bem tingida. Como estão tão grandes e pesadas, a casca de algumas abre e vão caindo bagos. Outras tombam e rebentam na queda. Mas já estão boas. Levei outra vez à minha mãe. Disse que ia dar uma grande ao meu tio. Fui agora pesar uma delas para não escrever aqui uma coisa fora da realidade. Pesava 538gr. 

De manhã, ao pequeno-almoço, junto bagos ao abacate, ao muesli e ao kefir. Ao almoço ou o jantar junto bagos à salada. Gosto bastante. Dão frescura e crocância. Comer só romã não tem muita graça, acho. Mas misturada é uma bela mais-valia.

As laranjas também vão caindo. Ainda pouco maduras, impossíveis de aproveitar. A casca também abre e caem deixando os gomos desfeitos no chão. Se calhar estão desabituadas de tanta água da chuva.

Com as limas a mesma coisa mas caem intactas. Uso-as para fazer chá e para temperar em vez do limão. Gosto muito de limas, são sumarentas, cítricas e com um toque a canela.

O jardim está muito verde, viçoso, húmido, e todos os dias temos que ir à socapa inspeccionar a aparição de mais cogumelos. Rebentam e crescem de um dia para outro. Há-os brancos, pequenos, pé filamentar, alguns mal se vêem, parecem pintinhas brancas, mas também os há castanhos, grandes, gordos. E há uns muito dissimulados, espessos como madeira, colados aos troncos. Temos sempre medo que o cãobeludo lhes chame um figo e não fazemos ideia do efeito que produziriam.

E hoje à tarde finalmente pusemos umas novas iluminações solares que, no outro dia, comprei. 

Uma é uma grinalda com bolas brancas de papel que, quando se iluminam, ficam com uma cor quente, bonita. A outra é um projector com sensor. E a terceira, a mais controversa, é uma fita daquelas que se ilumina em pontinhos corridos. 

O meu marido, se, em geral, tende a ter mente aberta, nestas coisas é assaz conservador. Conservador e minimalista. Isto de eu querer ter grinaldas ou fitas luminosas no jardim tira-o do sério. A mim não. Sou toda a favor de energias renováveis; e ter luzinhas que se acendem à noite depois de terem acumulado energia durante o dia parece-me muito bem. Acabei eu por colocar quase sozinha a grinalda e a fita pois ele teme que o jardim fique a dar-se ares de natal. Não gosta, é avesso a excessos, a pimpineirices, a gracinhas. Não gosta nada. Sobriedade é o seu nome do meio. Como não adoptei para mim nenhum dos seus nomes, sobriedade comigo não consta. Pelo menos, nestas coisas.

A grinalda ficou junto à vedação no terraço da cozinha. Assim há sempre luz. E acho que até fica com um ar bem bonito e acolhedor. O projector foi pacífico, ficou a apontar para a porta lateral e foi ele que o pôs.  O que deu luta mais a sério foi a fita das luzinhas. Quando comprei, pensei que fossem luzinhas brancas e só quando cheguei a casa é que, vendo a embalagem, fiquei na dúvida se não serão luzinhas às cores. Resolvi ir trocar. Ele disse que não era preciso, que se poriam pelo natal. Mas eu acho que não, se não é para trocar, vamos esperar pelo natal porquê? No corredor lateral que dá acesso ao jardim das traseiras, perto da porta do lado, achei que se poderia colocar no muro, entre floreiras suspensas. Creio que nem se vê da rua. Nem assim ele queria pôr. Pus eu. Consideremos que está ali a título experimental. Se se vir da rua e for feio, retiro e logo se vê. Mas agora quero ver como fica. As outras, entretanto, já estão acesas. Presumo que o botão da fita não ficou ligado. Amanhã tratarei disso.

Tenho ainda a reportar que enquanto dava atenção ao francês que a minha menina linda estava a praticar, o mais novo foi para o meu computador. Disse que ia jogar ou ver vídeos. Deixei, claro. Passado um bocado vi-o a teclar furiosamente. Perguntei o que estava a fazer. A irmã disse: 'está a ver se descobre o teu código de acesso'. Fui ver. O teclado bloqueado. Tanto para mexeu e carregou que o teclado bloqueou, não tugia nem mugia. E foi ela, sozinha, que resolveu tudo. Apenas fui solicitada para escrever a password de desbloqueio de ecrã no teclado virtual que ela invocou, indo depois às definições de teclado.

Gera-se sempre uma tal dinâmica que cada um chama e mexe para seu lado. Quando damos por ela já fizeram das suas. O meu marido diz: deixa-los mexer em tudo, fazem o que querem, por isso não te admires. O mais novo, então, é exímio em deixar-nos às escuras. Já por duas vezes nos deixou sem conseguir ver televisão tal a jardinagem que fez nos comandos da box ou da televisão.

Em contrapartida, a irmã está cada vez mais decidida: ela põe a mesa, ela serve os pratos, ela arranja a comida ao irmão mais novo e, no fim, quer ser ela a lavar a louça. E lava tudo com rapidez e perícia, mesmo tachos e frigideiras. E acelera-me para eu ir limpando e arrumando ao ritmo a que ela lava. Ao lanche também quis ser ela a tratar de tudo e, quando resolveram querer ovos mexidos, quis ser ela a fazê-los. Batidos com água, conforme aprendeu com o pai.

Pelo meio, houve pinturas de halloween e não apenas fui a pintora como eu própria acabei com cara de bruxa. Os trabalhos de casa que eram para ser feitos e o estudo que era para ter acontecido ficaram um pouco comprometidos, claro. Não consigo arranjar determinação para os forçar ao que quer que seja. Já dei para esse peditório. Agora é a vez dos pais deles.

E este domingo de manhã, aproveitando a aberta do bom tempo, fomos passear e apanhar sol para a beira-mar com a minha mãe. Muita gente, muita vida. As pessoas começam a curtir o ar livre. Adoro isso. E a minha mãe, toda jovem e fresca, lesta na passada, conversadora e animada, também gosta.

Há bocado, ao fim da tarde, já hora nova, fui para o terraço onde habitualmente nos juntamos para tomar as refeições ao ar livre ou conversar. Fui ver anoitecer, ver as luzinhas solares (que ali estão desde o verão e que, na altura, também deram bastante luta) começarem a iluminar o espaço. Estava sozinha com o computador a ver se via o The Good Doctor. Mas distraí-me e não vi. Fiquei-me pela contemplação do momento. Um pássaro passou por ali. Silêncio. Anoiteceu. Soube-me tão bem estar ali, uma tranquilidade total. Pensei que me sinto bem, que os meus se sentem bem -- e que não peço muito mais que isso. Pensei também que, se um dia me der para tentar meditar, naquele momento em que é suposto pensarmos em situações ou lugares aprazíveis, vou pensar em instantes assim, instantes de serenidade e paz.


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Tenho pena que o vídeo abaixo não tenha legendas em português. A experiência de vida de Lize Venter é impressionante e um exemplo. Depois de uma infância marcada por um sofrimento obscuro, violada por um irmão mais velho, eis que agora consegue o apaziguamento que lhe permite ter o coração feliz. Muito bonito.

Secret to a happy heart - Finding Wonderland

Trigger Warning - This film contains reference to sexual abuse, which may be triggering for some viewers.  If you have been affected by a similar issue and you need someone to talk to, please reach out to an organisation or individual near you for help.  Take care.

“The secret is to surround yourself with people who make your heart smile. It’s then, only then, that you’ll find Wonderland”

Our relationships teach us about so much more than the hearts of the ones we love - they teach us about ourselves.  Relationships show us how to love and be loved, as well as who we want to be in life and who we don't. 

Surround yourself with those who bring out the best in you. The ones who not only want to see you smile but also try to make you smile when you’re down. The ones who try to make your day brighter. The ones who know your value and your worth and remind you of it. The ones who help you bloom.

And have the courage to be a good friend to those who choose you.


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Nesta noite de eleições brasileiras, as imagens são pinturas de Tarsila do Amaral e vêm ao som de Choro N° 1 (Heitor Villa-Lobos) pelas mãos de Turibio Santos

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Nota: Obviamente ficaria angustiada, desgostosa e preocupada se ganhasse o troglodita do Bolsonaro. É um Trump em versão ainda mais abestalhada e ainda mais ignorantão. Uma calamidade para o Brasil e para a humanidade. Foi, pois, com alívio que vi que foi derrotado. Que não volte. Que não faça estragos nem alimente ódios agora que se foi.

Mas tenho que ser sincera: não fico especialmente feliz com a vitória de Lula. Acho que o Brasil mereceria melhor. Não percebo como um país tão grande, tão incrível e diverso como o Brasil não consegue melhor do que um Lula para se posicionar contra o obscurantismo populista, violento, grosseiro e perigoso de um Bolsonaro. 

Mas, enfim, é o que é. 

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Uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Serenidade. Felicidade. Paz.

segunda-feira, junho 27, 2022

Portugal, Portugal

 


Gosto muito do meu país. Gosto dos lugares, das paisagens. Acho que o meu país tem sítios lindíssimos. Gosto dos portugueses. Claro que, como em todo o lado, há gente de toda a espécie. Há os miseráveis e os ignorantes. Há os corruptos e os arrogantes. Os palermas e os parvos. Mas há muito boa gente, gente tolerante, gente generosa, gente talentosa, interessante. E há a língua portuguesa, tão bonita, tão rica. 

Em muitos lugares do país há agora muita gente de fora. Se, por exemplo, estivermos na linha de praia, há uma multidão de jovens que falam outras línguas, muitos surfistas, muita gente descontraída que fica à beira mar a conversar até a noite chegar. Se estivermos na linha de restaurantes e esplanadas, estão cheias. Ouvem-se todas as línguas, as pessoas estão já um pouco bronzeadas e geralmente sorriem, de bem com a vida. E por todo o lado se ouve a língua portuguesa nas suas múltiplas variantes, dos brasis, das áfricas. Uma riqueza extraordinária. O país agora é aberto, alegre, inclusivo, luminoso.

Já lá vai o tempo em que os portugueses eram gente ensimesmada, gente que vivia fechada em casa espreitando atrás do cortinado, gente sempre pronta para a censura castradora, sempre pronta para a maledicência, pronta para rejeitar a diferença.

Ainda há alguns assim. Os que são dessa raça podem correr mundo e assentar arraiais noutras paragens que continuarão a ser assim, soturnos, fatalistas, maledicentes, sempre prontos para cortar na casaca dos outros. Gente maldosa, cinzenta.

Mas são uma minoria. Agora, por onde se passa, já se vê gente aberta à vida, aos dias que passam, à música e à claridade, já se vê gente que aparenta alguma confiança nos dias futuros.

Há ainda gente com rendimentos muito baixos, é verdade, e que, com certeza, não pode ter acesso ao que de bom a vida tem para oferecer. Mas onde não há? Em lado nenhum. Imaginar que há é querer viver dentro de uma utopia. Para além disso, em Portugal há apoios sociais e há a educação e há uma atenção crescente à necessidade de não deixar ninguém para trás. Haveremos de ser ainda melhores. E não é com palavras de ordem e parangonas que as coisas se mudam. É com acções concretas e uma forte consciência social.

Pode dizer-se mal de tudo, claro. Há quem o faça. Os populistas são assim. Ouça-se o líder do Chega e comprove-se: segundo ele, Portugal é uma desgraça, os portugueses uns desgraçados. E eu olho para ele e acho que desgraça é haver portugueses assim, como ele.

Há ainda muito a fazer, muito. Alguém diz que não? Alguém de bom senso acredita que Portugal é perfeito? Claro que não. O que é preciso é que ninguém baixe os braços, que ninguém de bem vire as costas aos que ficam. A partirem, que partam apenas os que não sabem honrar a história, a língua e a garra dos portugueses de gema.

O que temos pela frente é um percurso. Ainda não há cinquenta anos que vivemos em democracia. Durante décadas o país viveu tolhido, amarrado à força à pobreza, à ignorância. Éramos um país fechado sobre si próprio. E isso deixas marcas profundas.

Leva tempo a construir mentalidades novas, a abrir as mentes de forma colectiva, a abrir-se ao mundo. 

Eu estudei em Portugal, perto de casa. Não me ocorreu ir para longe quando podia estar perto. Mas uma prima mais nova já foi estudar para uma universidade a centenas de quilómetros de casa. E a filha de uma outra prima já foi estudar para um outro país, um país longínquo. Os meus pais nunca me deixaram fazer o interrail porque eu queria ir com um namorado e eles acharam que nem pensar ir por aí, à aventura, com um namorado. E casei-me aos vinte porque não me passou pela cabeça ir viver com ele sem me casar. Com os meus filhos foi tudo diferente. Viveram juntos sem se casarem, passearam, fizeram o que quiseram. Não sei como será com os meus netos. Da minha parte, quero que sejam felizes, que realizem os seus sonhos -- mas que amem sempre, de paixão, o nosso país, que sejam sempre solidários com os seus concidadãos, que sintam sempre orgulho em serem portugueses.

Não é um sentimento abstracto. É bem concreto, bem real. É um amor verdadeiro, completo que, em cada pequeno acto, deve ser materializado. É daqueles amores que se quer físico, demonstrado. Quem ama o seu país sente-se também amado. É como com as pessoas. Amor verdadeiro é amor partilhado, é amor tolerante, é amor que se quer construir e para o qual se quer que depois de um dia venha o outro dia. Quando assim não é, então não é amor. 

Há pouco apareceu-me um vídeo que mostra o meu País pelo olhar de um não-português, muitas vezes em imagens aéreas que, obviamente, não são alcançadas por quem anda com os pés no chão. Conheço aqueles lugares mas sob uma outra perspectiva. Gostei de ver. Que país tão bonito.

A seguir, com alguma edição, vi como um casal também não-português vê o nosso país. Vi muitos lugares que conheço e percebo o encantamento de quem os vê pela primeira vez. País mais lindo, o meu querido Portugal.

Partilho-os convosco. Mostram o país visual. Claro que há depois o país vivido, o país do dia a dia, tantas vezes tão difícil. Mas esse não é agora o tema. Só espero é que gostem tanto do nosso país como eu. 

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Os melhores locais para visitar em Portugal segundo Ryan Shirley

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Portugal - The Europe We Didn’t Know Existed!

Portugal has been on every "top travel destination" blog for years. Over a 2-week road trip we explored the beautiful castles, incredible history, and rugged coastline, from Lisbon to Sintra down to the world-renowned Algarve beaches and caves, and then all the way up to the rolling vineyards of the Douro Valley wine region in this fascinating slice of Europe. 

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Mário Cesariny :: Queria de ti um país 

Música de Rodrigo Leão & Gabriel Gomes / Vídeo Cine Povero


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Pinturas respectivamente de Vieira da Silva, Paulo Ossião, Guilherme Parente, 2x Graça Morais, Noronha da Costa, Paula Rego, Cargaleiro.

Carlos Paredes com Luísa Amaro interpreta Canto do Amanhecer

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Desejo-vos uma boa semana a começar já por esta segunda-feira

Saúde. Boa sorte. Compreensão. Paz. 

quarta-feira, julho 21, 2021

Against all odds, na companhia do Dude With Sign e pensando nos vindouros dias da liberdade

 



Mais um dia meio parvo. Não sei o que passa pela cabeça de algumas pessoas para ligarem para outras antes dessas pessoas estarem bem acordadas. Nos tempos longínquos em que uma pessoa tinha uma hora de trânsito pela frente, de certeza que às oito e tal estava toda a gente mais do que a pé. Agora quando uma pessoa trabalha em casa, what's the point? Claro que há os madrugadores que, ainda nem o sol raiou, já estão a pé. Não é o meu caso. Quando os madrugadores se levantam talvez as galinhas também já acordadésimas. Eu não, a essa hora estou no primeiro sono. E pouco antes dessa hora, nomeadamente agora, ainda eu estou a escrever aqui. 

Mas, pronto, há gente para tudo. Ainda por cima uma pessoa atende a ver qual a urgência e não é urgência nenhuma. 

Enfim. Coisas desagradáveis.

Depois, ao estar instalada no canto de que fiz o meu office, vendo a agenda, disse, toda contente: vai ser um dia calmo. E uma vez mais se verificou aquilo de não dar sorte a gente falar cedo demais. A meio da manhã um telefonema complexo. Dei as minhas indicações mas era complexidade a mais para ser só decisão minha. Liguei para quem devia. Nada. O telefone a tocar, tocar e nada. Enviei uma mensagem descrevendo o que se passava e pedindo que ligasse para a pessoa que me tinha ligado.

Junto à hora de almoço fomos fazer a caminhada. Quando estava longe de casa, um telefonema. Era ele. Fiquei desconfortável. Não ia atender ali, no meio da rua, a andar. O meu marido disse que ficasse parada. Não quis. Sabia lá se o telefonema iria demorar meia hora. Não ia ficar plantada no meio da rua. Quis regressar a casa. Ele achou um disparate. Disse-lhe que ia eu, que continuasse a andar. Veio comigo. Uma verdadeira caminhada aeróbica. Em metade do tempo, percorremos o caminho de volta. Já em casa, liguei. Conversámos, analisámos hipóteses, combinámos estratégias.

Depois do telefonema, já mais descansada por ter partilhado preocupações, voltámos à rua e terminámos a nossa caminhada.

Depois de almoço, fui outra vez optimista: pensei que a tarde não se afigurava má de todo, talvez me desse para uma sesta de quinze minutos. Alonguei-me no sofá, pus os braços para trás como gosto de fazer (coisa de que a minha mãe me diz que já leu que não se deve dormir assim porque tem ideia que faz mal a alguma coisa) e, de imediato, senti que estava a deslizar para o sono. Mas isto é fatalidade: o mundo conspira para não me deixar pôr o sono em dia. Uma sonora mensagem.

Claro que poderia tirar o som ao telemóvel mas não consigo, tenho sempre receio de que alguma coisa requeira a minha imediata disponibilidade. Mais uma pancada minha, esta de que tenho que estar sempre em estado de prontidão. O meu marido, de vez em quando, recorda-me: 'sabes aquilo de que há sítios cheios de pessoas insubstituíveis?' Claro que sei. Mas não me acho insubstituível, quero é estar disponível para o que for preciso. E confesso: não sei se isto é caso para procurar um psiquiatra mas, se for, agradeço que me avisem que eu vou. 

Resultado. Nem cinco minutos consegui passar pelas brasas. E depois foi toda a tarde a bombar.

Lembro-me frequentemente daquilo que uma colega que se reformou recentemente me disse uma vez que me encontrou no Colombo, poucos dias antes do apocalipse de Março do ano passado. Estava toda gira, ela, mais jovem, um corte de cabelo todo moderno, melhor pele, uma roupa toda fashion. Ouvi um grito: 'Olha para ela...!'. Reconheci logo a sua voz. Tinha-me visto. Estava apressada, ia encontrar-se num restaurante com uma amiga. Disse-me ela: Ai é tão bom não trabalhar. Penso muitas vezes que, se quem trabalha soubesse que é tão bom não trabalhar, ficariam todos muito infelizes. Ai é tão bom poder fazer o que me apetece. Faço ginástica, encontro-me com amigas, vou aos concertos da Gulbenkian, vou ao cabeleireiro, durmo a sesta, vou até Sagres, faço o que quero.

Aqui em casa, em teletrabalho, penso muitas vezes que é uma tristeza não conseguir gerir o meu tempo por forma a guardar algum para me sentir mais livre, nem que seja por apenas umas horas. De quando em vez lá acontecem uns lampejos que me deixam toda feliz da vida, até faço de conta que estou a entrar em férias. Mas dias como o de hoje, a meio de Julho, já com várias pessoas de férias, com a agenda pouco sobrecarregada, em que penso que vai ser pera doce e, afinal, um telefonema, um mail, uma reunião, outro telefonema, e mais outro, entristecem-me um bocado. O dia vai decorrendo assim, sem tempo para descanso e, quando chega ao fim, acho que foi uma estupidez. Uma seca.

Mas é um propósito que tenho, por todas as razões e mais a que se prende com o que me aconteceu há mês e picos: ir doseando a carga de trabalho e ir aprendendo a guardar algum tempo para mim. Tem que ser.

Quando estava naquela maca de hospital, no meio de gente aos gritos, sem perceber bem o que me estava a acontecer, não posso dizer que tenha sentido grande medo. Acima de tudo o que me ocorria era que seria uma chatice se a minha vida terminasse mais cedo do que era suposto ou se ficasse com limitações. 
Penso muitas vezes no caso do meu colega que trabalhou para além do que era suposto pois foi acedendo a todos os pedidos para que se mantivesse por mais algum tempo em funções e que, ao fim de poucos meses, quando finalmente se reformou -- e quando começava a gozar a liberdade de fazer caminhadas, de almoçar com amigos, de estar mais tempo com a família --, num dia igual a todos os outros, sem que nada o fizesse prever, sentiu um cansaço, sentou-se, apoiou os cotovelos nas pernas e pousou a cabeça nas mãos e, sem qualquer sinal de alguma coisa se passasse, caiu morto. Morte santa, sem dúvida. E não ficou cá para lamentar a morte prematura mas, se tivesse sabido qual o desfecho que lhe estava reservado, certamente teria sabido gerir melhor o seu tempo, guardando mais tempo para si e para os seus em vez de se ter entregue, quase por inteiro, à empresa.

Naquele fatídico dia de inícios de junho, estava eu na maca, sem perceber se o meu coração se preparava para deixar de trabalhar, auto-vigiando os sintomas pelos quais tanto me perguntavam -- tem dor no peito? custa-lhe a respirar? está a transpirar? sente alguma má disposição? náuseas? sente formigueiros? -- e ia pensando que era uma chatice se ainda gozava menos a vida que o meu colega.

Claro que estava também muito chateada por estar assustar tanto a família. E pensava que, se lá ficasse internada ou se tivessem que me operar, ia estragar-lhes o fim de semana. Sobretudo pensava que o meu marido nem devia ter jantado, que, na volta, mal dormia tal a preocupação de se levantar ainda mais cedo do que o costume. Medo de morrer acho que não senti, só chatice e incompreensão pelo que estava a acontecer. Mas, naquela noite terrível, agora que penso nisso, penso que, sobretudo, senti muita solidariedade e compaixão pelo sofrimento alheio a que ali estava a assistir. 

Quando, de manhã, se aproximaram de mim para me repetirem todos os exames, o braço já cheio de cateteres, senti ansiedade mas era sobretudo medo de se descobrir mais alguma coisa estranha que os fizesse querer que eu continuasse lá, preocupação pela preocupação do meu marido e do meu filho lá no hospital e da minha filha em casa sem saberem se eu tinha alguma coisa grave, preocupação de que fosse coisa complicada que tivessem que contar à minha mãe, sabendo eu, de antemão, que ela iria ficar em pânico.

Mesmo quando, antes, accionaram o protocolo dos acidentes cardíacos e chamaram do INEM e me vi enfiada numa ambulância, as luzes azuis a rodar, não tive medo de morrer. Foi mais apreensão por aquilo tudo. Ou talvez, até, incompreensão: bolas, mas será que me está acontecer alguma coisa grave? será que vou desta para melhor sem ter tido tempo de gozar a liberdade do meu próprio tempo? Caraças, que é isto? O susto que estou a pregar a toda a gente, que chatice... Tomara que não se assustem muito... Será que há o risco de isto estar a acabar para mim...? Haverá risco de ir desta para melhor sem sequer me ter prevenido...?

E pensei, uma vez mais, naquela outra vez quando o meu carro ficou sem travões, numa descida que ia dar a uma rotunda cheia de trânsito. Percebi que havia sérios riscos de me espetar. Quando vi que estava a galgar uma rotunda e a ir desenfreada contra uma estrutura metálica, pensei que aquilo me poderia cortar o pescoço. Também não tive medo. Pensei apenas que, se calhar estava a viver os últimos instantes da minha vida e que se calhar nem tinha tempo de pensar em cada um dos meus queridos para mentalmente me despedir deles. Naqueles breves instantes, pensei isso com muita tranquilidade.

Nestas coisas não tenho medo de morrer. Aliás, nem penso nisso. É como aquilo de andar de avião. Não tenho medo. Penso que se tiver que ser, será. E não penso mais no assunto. Não tento controlar ou evitar o que depende do acaso e da lei das probabilidades. Penso que o que for soará.

O que gostava era de, até que a guia de marcha chegue, para além de me manter disponível para os meus, ter também tempo para fazer o que me der na gana: preguiçar, ler, fotografar, passear, dormir, não fazer nada, jardinar, escrever contos, escrever um diário, escrever inacreditáveis maluquices, estar mais perto da natureza, ir comer um gelado quase todos os dias, aprender a fazer coisas, conhecer outras pessoas, vadiar, um dia ter o cabelo azul, noutro platinado, noutro cor de violeta, ousar, experimentar, descobrir estrelas, descobrir poetas, descobrir diseurs. Rir. Dançar. Nadar. Festejar a minha liberdade. Coisas assim.

E é para isso que, mentalmente, tenho que me ir preparando, abrindo caminho.

Tirando isso, tá-se.

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É com alegria que aqui recebo, uma vez mais, o fantástico Dude (with sign), Seth Phillips de seu nome, que, como anteriormente, vem reivindicar grandes medidas. 

O som é Bird's Teardrops || Estas Tonne feat. Peia.

Tenho cá para mim que o título, em especial naquilo das odds, não tem lá muito a ver --

-- mas ando com esta expressão na cabeça e assim, escrevendo-a, talvez me passe.

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Desejo-vos um dia feliz

Saúde. Bons sonhos. Sorrisos. Força.

domingo, janeiro 24, 2021

Ela faz o que pode e pode muito.
Mas nada de tão sério que nos leve a deixá-la assinar por baixo disto.

 



Não é grande altura para se andar em locais mais frequentados. Contudo, creio que todos os cuidados estarão assegurados e obviamente irei votar. Votar é uma conquista civilizacional, um dever cívico. Isto ainda antes de ser um direito. 

Este domingo, portanto, irei votar. 

Li um texto e fiquei a sorrir. 

Se calhar também deveria aproveitar a ocasião para me produzir como in the good old days. Sempre gostei de me pôr toda em pendant, o que se vê e o que não está à vista de todos, desde a lingerie, à maquilhagem, aos adereços, ao perfume. 

Agora, vivendo praticamente em casa, essas frescuras vão-se esbatendo. Claro que me arranjo para as reuniões mas é sempre coisa mais aparente do que real, mais à superfície e muito concentrado no que se vê no ecrã. Poderia aqui fazer aquelo gestozinho irritante dos dedinhos a encolherem-se esticarem-se, fazendo aspazinhas palermas e, ao mesmo tempo, dizer: é o novo normal. Mas é coisa gasta, não o direi. O novo normal está a ser tão duradouro que qualquer dia fará esquecer o que era o velho normal.

Mas isto para dizer que acho que não vou seguir o exemplo. Muitas vezes, na vida real, o meu pragmatismo sobrepõe-se àquele meu gosto pela rêverie que, ao escrever, tantas vezes tão gostosamente me envolve. Não usarei batom. Numa das vezes que fui trabalhar, por hábito, pus um brilhozinho com cor de framboesa nos lábios. Antes de sair do carro para subir ao meu gabinete coloquei a máscara. Só quando a tirei e vi que estava tingida é que percebi: batom com máscara só se for por uma razão psicológica ou por melancolia. Caso contrário, não vale a pena.

Quanto às canetas também tenho uma coisa. Gostava muito de canetas. Era presente que recebia sempre com agrado. Tenho canetas muito bonitas. O prazer com que as recebia, as experimentava... Lindas. Uma, talvez das primeiras canetas boas que recebi, soube há algum tempo que é agora disputado objecto de colecção. Eram lindas as canetas, eram lindas as caixas em que vinham. Por vezes, as caixas ocupavam muito espaço e vinham com manuais que nem eram manuais, eram verdadeiros livros. Contavam a história, contavam o amor com que eram feitas. Ficava sempre com pena de deitar fora as caixas, os livros. E depois, lá está, por causa daquele meu lado que, na prática, é anti-glamour, ficava com receio de as estragar se as usasse dentro da carteira, ficava com receio de as perder e, no final das contas, tudo sopesado, deixava-as ficar bem guardadinhas, inúteis. Quando agora nos mudámos, foi com agrado que, ao abrir as portinhas interiores da escrivaninha, as voltei e rever. E agora, nesta casa, ali continuam arrumadas, bonitas, elegantes, quase virgens. Portanto, amanhã provavelmente usarei uma bic normal.

Perfume, sim, perfume usarei. Não sei ainda qual. Logo verei qual se adequará melhor à minha disposição. Depois contarei.

Quanto ao meu dia de sábado foi, uma vez mais, daqueles dias que se esvaem sem história. Fomos fazer a nossa caminhada e vimos uns homens a trabalharem no arranjo de uma vedação e de um portão. Estavam encostados uns aos outros, concentrados nas mesmas peças -- e sem máscara. Ontem tínhamos visto, num dos programas de culinária com que agora nos entretemos, fazer uma feijoada. Lembrámo-nos que há séculos não comemos nada assim, feijoada, rancho, sopa da pedra. Então, sabendo da existência de um pequeno talho que também vende alguns legumes e fruta, pensámos esticar a caminhada higiénica até lá, a ver se tinham repolho e entrecosto. Tínhamos ideia de ser um estabelecimento pequeno, aberto para a rua. Contudo, ao chegar lá, reparei que o homem estava sem máscara. Fiquei à porta. Perguntei se tinha repolho. Não tinha. Desisti do entrecosto. Mas ele continuou a mexer nas carnes, sem máscara, completamente à vontade. Portanto, não percebo. Numa situação como a que atravessamos, pelos vistos há ainda quem não esteja a perceber a gravidade da situação.

Perto da hora de almoço estivemos todos em videoconferência. Todos, incluindo a minha mãe. Já está autónoma. Tem aulas remotas na universidade sénior, participa em conferências com médicos, com psicólogos, com historiadores. Os meninos ficaram contentes por ver a bisa, toda fresca. Estava com um echarpe branca. Diz ela que ouviu dizer que uma echarpe branca é melhor que um lifting. E, de facto, estava mesmo bem. 

Interrompeu para dizer que tinha morrido o vizinho da ponta da rua, um que estava mal, em internamento domiciliário. Era esperado. No prazo de menos de um ano, é a quarta pessoa que morre naquela pequena rua de meia dúzia de moradias. Nenhum com covid, nenhum de morte inesperada. Qualquer deles era idoso, qualquer deles não estava famoso. Mas parece que, de repente, todas as fragilidades se tornam fatalidades. A nenhum deles faltaram os cuidados. Simplesmente, nestes estranhos tempos, a linha do tempo tem estado a encurtar-se. Não sei explicar. Talvez alguma coisa, antes, os fizesse agarrar à vida e, agora, nada os agarra. No entanto, em qualquer dos casos, estou em crer que nem se aperceberam de covides ou pandemias que os deixassem deprimidos, com pouca vontade de viver -- já estavam noutra. Não é isso, deve ser outra coisa qualquer. E não foram os únicos. Uma ou duas ruas mais acima, morreu uma outra idosa. Isto que eu saiba. Uma coisa estranha. Uma ceifa que um dia a história ou a ciência hão-de explicar. 

Mas não falámos disto tudo na videoconferência, só que ele tinha morrido. E a conversa seguiu naquela animação do costume. Aliás acho que os meninos, entretidos a fazerem maluquices uns para os outros, nem deram por isso. Uns rebolando-se no chão, outros fazendo cambalhotas no sofá. Estas videoconferências com todos são um desatino, não se percebe nada, não param sossegados, falam ao mesmo tempo, uma barafunda. Adorei vê-los. Tão lindos. Só me apetece voltar a abraçá-los, a beijá-los, a puxá-los para o meu colo quando estou sentada. Quando será que poderei fazê-lo?

De tarde, dormitei enquanto vi qualquer coisa de que não me lembro na televisão, talvez um filme, não sei bem. Depois fui apanhar uma laranja, passear um pouco, apanhar camélias caídas. Depois reentrei, trabalhei. O meu marido toda a tarde recebeu telefonemas. Parte da equipa está contagiada ou de quarentena. Tenta desencantar quem possa ir compor a equipa, telefona, recebe telefonemas. Um sufoco. Felizmente, a seguir jogou o seu sporting e, quando isso acontece, todos os problemas do mundo desaparecem. Eu fiz o jantar, depois voltei a falar com os meus ao telefone. E depois jantámos. 

E assim o tempo vai passando. 

E custa-me habituar a esta falta de ritmo.

Daqui a nada vou votar, perfumada, sem batom, com uma bic. 

Espero que a abstenção não seja perigosamente alta, espero que o resultado seja claro e bom para a democracia. 

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"Tudo o que a dança grega nos ensina
é a nudez
nas posições terrenas,
é quebrarmos
pelo plexo solar
onde o vigor
de toda a criatura
permanece"
Isadora não disse tudo isto
mas disse parte.
(...)
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Pinturas de Noronha da Costa ao som de Rita Payés & Elisabeth Roma interpretando Melodia Sentimental. O excerto obviamente não tem nada a ver com o post mas esse era, de facto, o objectivo: é parte de Otherwise de Acidentes de Hélia Correia, livro do qual também é o poema H.H. 23/3/15 do qual extraí o título deste post que, espero eu, também não tenha nada a ver com nada.

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Desejo-vos um feliz dia de domingo

domingo, janeiro 17, 2021

Entre a culinária e o amor com jardins de permeio

 

Pouco a dizer. A casa está arrumada e limpa, não há muito que fazer. Pensei fazer sopa de corvina mas reparei que não tinha tomate maduro. Por isso, depois da nossa caminhada, fomos ao supermercado. Aconteceu o de sempre: vamos lá para uma coisa e vimos de lá carregados. É sempre a mesma lógica: já que ali estamos, aproveita-se para trazer mais coisas para não termos que voltar tão cedo. Mas depois, há-de faltar qualquer coisa que nos voltará a levar lá. Nunca fui fã de idas ao supermercado mas agora é praticamente ao que a minha vida social está reduzida.

Quando regressei a casa, pus uma máquina de roupa a andar e, de seguida, ala que se faz tarde, atirei-me aos tachos. 

Numa panela, coloquei azeite e cebola aos bocados, duas cebolas bem grandes. A cebola é um dos meus ingredientes de eleição. Quando alourou, juntei cinco tomates grandes, bem maduros. Envolvi-os na cebola. Depois juntei um alho francês mas apenas o talo branco -- não as folhas verdes, essas ficam para a sopa de legumes --, uma cenoura grande, umas batatas normais (poucas), uma batata doce e uma maçã. Juntei um pouco de água. Depois juntei um pouco de sal e uma generosa quantidade de salsa e de coentros. Depois de ferver, baixei e ali ficou uns minutos.

Num outro tacho, coloquei um pouco de água, uma cebola grande aos bocados, um pouco de sal, um fio de azeite e uma posta grande de corvina (devidamente escamada). Quando a água ferveu juntei 4 ovos descascados.

Quando vi que estava tudo devidamente cozinhado, desliguei os lumes.

Juntei o caldo de cozer o peixe e a cebola ao tacho da sopa. Moí tudo com a varinha, tudo bem moído para ficar um puré bem cremoso. 

Num prato, tirei as espinhas da posta da corvina. Depois juntei o peixe, aos bocados, bem com os ovos escalfados à panela da sopa. Envolvi tudo.

Digo-vos: bem boa, uma sopa bem gulosa e, creio, bem saudável.

De tarde, depois de estendermos a roupa, estive lá fora, ao sol, a ler. Estava-se bem. Às tantas, olhei para cima e vi uma rola, num ramo, a olhar para mim. Verdade: o pescoço curvado para baixo, a espreitar-me. Fiquei a olhar a ver quem desistia primeiro. Fui eu. 

Quando o sol se baixou e começou a esfriar fui apanhar laranjas.

Num tacho largo, coloquei açúcar mascavado. Cortei, para cima da cama de açúcar, as laranjas às rodelas largas, com casca. Cobri com mais um pouco de açúcar. Esqueci-me de trazer do supermercado paus de canela pelo que misturei canela em pó. Juntei um pouco de gengibre, casca de limão e um pouco de vinho do porto. O meu marido ainda apareceu com uma bebida de maçã, não reparei qual. Só um pouco. Juntei uma pinga de água. Tapei. Deixei que fervesse e depois envolvi as rodelas na calda. Baixei o lume e deixei ficar assim, tapado, durante talvez meia hora ou mais. No fim, deixei ficar a cozinhar por mais um pouco, o tacho destapado, para reduzir. Depois coloquei numa caixa de vidro.

O cheirinho que esvoaçou pela casa não vos digo nem vos conto. Bom, bom, aconchegante. Aquele perfume morno da laranja, do açúcar, da canela...

Comemos, de sobremesa, ao jantar. O meu marido, que nunca engraçou muito com casca de laranja, comeu apenas a parte da fruta. Eu não, eu comi tudo. Gostei. Na parte final, lembrei-me de comer ao mesmo tempo que chocolate preto. Ficou melhor ainda.

E, portanto, é esta a minha vida de agora. Não tarda o Um Jeito Manso vira um blog de culinária. Parece que pouco mais tenho para contar. Uma seca.

Tirando isso, só se for referir que tenho andado de roda do jardim, a pensar numas coisas. Gostava de ter mais isolamento visual em relação aos vizinhos do lado mas não sei como fazê-lo sem modificar a lógica destes espaços. E há a zona que era canil e que agora não é nada e está desaproveitada e podia ser reconvertida. Penso, repenso. Meço. Chamo o meu marido para trocar ideias com ele. Mas ele não tem grande paciência para o meu 'conservadorismo'. Para mim as árvores e as trepadeiras e as flores são sagradas embora reconheça que, se quero conservar tudo, dificilmente poderei fazer alguma alteração. 

Há uma amendoeira que não dá amêndoas. Há um pinheiro entre dois outros. Há uma árvore gigante que faz muita sombra. Mas a amendoeira se calhar fica linda na primavera. O pinheiro é o pinheiro, sagrado. E a árvore grande é óptima para os miúdos treparem. O meu marido desiste. Por ele, põe uns ferros não sei como, corta uma ou duas árvores, faz assim e assado e está resolvido. Eu, em contrapartida, não quero sacrificar arbustos, muito menos árvores, não quero sacrificar a zona de relva junto ao terraço, não quero um conjunto de coisas. E andamos num impasse. 

Mas, ao falar com o meu filho, que está a arranjar o seu jardim com projecto de arquitectura a preceito, pensei que, por uma vez, cá em casa, em lugar de querer que sejamos nós próprios a ter as ideias e a fazer o projecto, talvez possamos pedir uma opinião externa. O meu marido achou logo boa ideia. 

Enfim. Não se pode andar em frente se não conseguirmos abrir mão de algumas coisas mas, seja como for, ainda não estou completamente decidida. Tenho a sensação que, no dia em que chame uma pessoa de fora para ter ideias, se depois me aparece a dizer que temos que nos desfazer disto e daquilo, não poderei simplesmente dizer que me deixe em paz, que baze (do verbo bazar). A perda de liberdade que isso implicará deixa-me, à partida, de pé atrás.

E é isto. 

Não vou falar da situação algo alarmante da covid pois imagino o sofrimento de tanta gente e a exaustão e pânico de outra tanta e pouco ou nada tenho a acrescentar. O que tenho a dizer sobre isso já disse no post abaixo -- e espero que se vá a tempo de travar desgraça ainda maior.

Portanto, para não dizerem que estou para aqui a falar sem dizer nada, vou partilhar um vídeo onde Krishnamurti explica o que não é o amor. Concordo com ele. De certa forma tem um pouco a ver com o que disse aqui no outro dia: o amor tem que ser inteiro. Não é amor se uma das pessoas não é capaz de se dar por inteiro, não é amor se uma das pessoas não ama por inteiro. Não que o amor seja uma coisa perfeita. Não é. E não é que seja uma ficção. Não, o amor verdadeiro é bem real apesar das suas contradições. Mas, na sua essência, tem que haver um núcleo em que tudo é absoluto. 

Krishnamurti - What love is not


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Os jardins foram pintados por Wen Zhengming.
Rita Payés & Elisabeth Roma interpretam Oración del remanso

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Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde

terça-feira, setembro 29, 2020

Ayahuasca...?

 


Sobre práticas religiosas não precisaria nem falar, toda a gente que por aqui me acompanha sabe que não sou de práticas religiosas. Não sigo igrejas. Baptizaram-me, puseram-me na catequese, fiz a primeira comunhão e a comunhão solene. Nada daquilo me convocava para o que quer que fossse. Aquela não era a minha praia. Achava que nada daquilo fazia sentido, nem a perseguição com os pecados nem aquelas cenas surreais que não tinham nada a ver com nada. Não sobrou nada. Desaderi. 

Dada a sentimentos para-religiosos eu acho que sou. Acredito na incompreensível infinitude da perfeição e da beleza. Acredito na eternidade do mar, da terra e do céu e todo o mistério dessa improvável convivência me faz ter vontade de me ajoelhar de estupefacção e rendição. Acredito no milagre do nascimento e no supremo milagre da vida. Tenho, pois, esse lado espiritual. E é uma espiritualidade pouco selectiva. Por exemplo, daqui por algum tempo vou ter vontade de me benzer de espanto de cada vez que vir um cogumelo a brotar da terra. E é o mesmo que sinto quando, ao ver flores ínfimas e de uma perfeição incompreensível, me dizem que são flores aéreas. Curvo-me perante esse lado inexplicável e maravilhoso das coisas. É tudo isso que venero. Também sou capaz de me comover perante a imagem de uma mulher com o filho ao colo. Madona, nossa senhora, mãe. Se há quem lhe chame santa, tanto me faz. Sou capaz de a contemplar e me sentir intimamente reconhecida ao perceber nela o mesmo imenso e incondicional amor que tenho pelos meus filhos e pelos filhos dos meus filhos, um sentimento abençoado que não se esbate com o tempo nem sofre a erosão do quotidiano. 

E, sendo eu assim, claro que nunca senti qualquer apelo por seguir mandamento, restrição, ou lei de trânsito para circular entre capelas ou serviços religiosos. Pastores, padres, bispos, cardeais -- tudo hierarquias que me são estranhas. Afastei-me dos rituais e da castração intelectual metódica do catolicismo tal como nunca senti o mínimo apelo por jeovás, evangélicos, iurds ou o que quer que seja. 

Religião, para mim, não sei o que é que não o simples apelo pela bondade, pela generosidade, pela tolerância, pela liberdade, pelo supremo respeito pela dignidade alheia, pelo amor, pela beleza, pela harmonia, pela transcendência sem nome, sem regras.

Na política também sou assim. Gosto de política. Mas gosto da política abstracta, pura. Gosto da coisa pública e de pensar a melhor forma de a servir. Gosto do pensamento limpo. Gosto de pensar no futuro. No meu pensamento não encaixam ambições ou compromissos relacionados com concelhias, com distritais, com aparelhos partidários. Por isso sou apenas eleitora atenta, votante assídua -- mas sem ligação a qualquer partido. Se a nível das legislativas sou geralmente votante no PS é porque, das opções que se apresentam a votos, é a que me parece mais adequada à minha visão política.

Não participo, pois, em homilias, liturgias, comícios, cegadas do género, cenas que metam aventais, velas, rezas, búzios, cantares em volta, flores atiradas ao mar. Zero. 

E mais. Pode isto que vou dizer a seguir não ter a ver com o anteriormente reportado mas vou, na mesma, dizer. É que gosto de ter controlo sobre mim. Sou livre e gosto de me sentir livre, senhora de mim, na plena posse dos meus direitos, das minhas faculdades.

Talvez por isso, nunca me embebedei. Nunca. Dantes, ao primeiro gole, subiam-me uns calores, dava-me vontade de rir e, de seguida, de dormir. Por isso parava logo aí. Nem apreciava vinho. Até que milagrosamente comecei a gostar e o álcool deixou de me fazer passar por vergonhas. Agora posso beber, e claro que bebo moderadamente, que não me sobem os calores, não desato na gargalhada, não caio de sono. Aprecio, sabe-me bem. E nunca me cai mal.

Muito menos outras drogas. Nunca me droguei. Nunca fumei erva. Nada. Não sinto necessidade e é risco que não quero correr, o de ficar desatinada, descontrolada. Talvez quase todos os meus colegas e amigos o tenham feito. Não faço ideia. Não sinto curiosidade. Não me sinto diminuída ou fora de moda, nunca me senti. Não sou de me encarneirar. Sinto orgulho em ser independente e em aceitar ser guiada pela minha consciência.

Talvez por tudo isto, diverti-me à brava ao ver aqui as minhas ídolas falando de tema afim, o Ayahuasca. Claro que nunca tinha ouvido falar em tal coisa. Não faço ideia se é coisa conhecida em Portugal ou moda que ainda cá não chegou. Tanto faz. O que sei é que as Avós da Razão são uma graça: mentes livres, desbocadas, divertidas. Umas jovens descomplexadas. Abençoadas miúdas que tanta alegria e gosto pela espontaneidade nos trazem.

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Pinturas de: Maximo Laura, Renzo Campodonico, Daniel Rodriguez, Adriana Cillóniz, Ginny O'Brien, Jorge Vilca.
Gustavo Santaolalla interpreta Pajaros
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E uma terça-feira muito feliz a todos quantos aí estão a aturar-me.
Saúde. Alegria.