É fácil a gente comover-se. Daí, é fácil a gente evoluir para a revolta. E ,se muita gente se comove e revolta, mais fácil é sentirmos que fazemos parte de um movimento colectivo que se comove e revolta com a situação, sentimo-nos confortáveis com a causa comum. E a causa comum esgota-se nisso, em comovermo-nos e em revoltarmo-nos. Ou seja, na realidade é uma causa inútil.
Difícil é sermos racionais, consequentes. Difícil é percebermos que escolhas devemos fazer para poiarmos quem saiba evitar que situações como as que nos comovem e revoltam voltem a acontecer.
Falo, neste caso, em defendermos, no nosso país, políticas de acolhimento de refugiados, falo em termos programas de acolhimento para crianças sem família, falo em termos políticas articuladas e sérias de imigração. Falo em não cedermos a populismos, em não ficarmos revoltados se o Correio da Manhã fizer reportagens a dizer que os nossos impostos servem para pagar casas para estrangeiros, sem cuidarmos de saber que os estrangeiros em questão são, afinal, corajosas pessoas que fugiram da guerra, da fome, da violência. Falo em escolhermos quem nos represente na União Europeia para defender a mesma coisa em todos os países da UE. Falo em apoiarmos quem, na UE, quer fazer frente aos Salvinis deste mundo. Falo em transformar a nossa comoção e revolta em coerência.
Volto aqui para dizer que, depois deste, comecei a escrever outro post dedicado aos livros mas, à medida que ia escrevendo, ia pensando que não deveria publicá-lo senão este iria já lá mais para baixo. Há alturas em que temos que pôr de lado o nosso egoísmo. Apetecia-me escrever mas, na realidade, estaria a relativizar a importância do tema deste post. Não a importância do post que os meus posts valem zero. Mas o tema, esse, sim, é importante. Sem a nossa atenção, cuidado e alguma abnegação tudo continuará igual, imensas correntes de gente a enfrentar o perigo, tantas vezes soçobrando pelo caminho, tantas vezes devolvida como mercadoria indesejável, tantas vezes agredidos, tantas vezes separados dos seus. Por isso, é com este post que termino a minha jornada: desejando que o mundo rico acorde para a necessidade de acolher os que fogem da guerra, do medo e da pobreza.
Temos por vezes a tentação de acharmos que temos a solução para todos os problemas. Nem paramos para pensar que a coisa pode ser muito mais complexa do que imaginamos ou que desconhecemos a maior parte das verdadeiras condicionantes. Ou isso, ou pior: sem qualquer veleidade, achamos que conseguimos traçar a fronteira entre o bem e o mal, como se o bem e o mal fossem campos contrários e bem identificáveis -- e, a partir daí, armarmo-nos em espectadores à espera que uns vençam os outros. Tontos que somos, todos, temos também, muitas vezes, a tentação de assumirmos como adquiridas algumas realidades, sem que nos ocorra que, um dia, do nada, o enredo pode virar-se do avesso e o nosso papel passar a ser o oposto do que foi até então.
O que se passa na Venezuela é um desses casos e eu, apesar de dada a tentações, neste caso não me sinto tentada a nada: não dou palpites, não sei nada, não percebo nada, não faço ideia como é que aqueles pobres infelizes podem sair daquilo.
Era um país rico, promissor, um chamariz para investidores e, afinal, quando caíu o grande líder dos pés de barro, ficou à vista o atraso de vida que ali grassava. O sucessor, um arremedo de sucedâneo do morto, é outro Trump -- só que com conversa bolivariana. O país arrasta-se na maior miséria, num ambiente de bradar aos céus e o Maduro continua na dele, a clamar pelos amanhãs que cantam, brandindo ameças contra o Trump, contra os bandidos de Portugal que o roubaram, contra muitos outros inimigos, todos sabotadores, contra-revolucionários. Sendo que algumas vezes tem razão, ao embrulhar tudo na mesma linguagem lunática, ao mostrar a deformação lógica que enforma todos os raciocínios e ao exibir os tiques ditatoriais, mesmo quando teria razão, perde-a por completo.
No meio disto, em vez de aparecer uma verdadeira alternativa, apareceu um que, fisicamente, até parece uma espécie de Obama mas sem nada a ver, sem que se perceba ao que vem, com a agravante de andar a ser levado nas palminhas pelo próprio Trump, pelo Bolsonoro e por mais um ou outro que mais valia estarem calados, ou seja, por gente que não é flor que se cheire.
Por vezes, ao saber da pobreza, da fome, da falta de medicamentos, dos cortes de electricidade, dos hospitais sem condições, ou ouvir testemunhos impressionantes em que se percebe a paranóia, o sectarismo e a cegueira do Maduro e dos que o apoiam, ocorre-me uma daquelas soluções a la minute (que caem pela base ao mais leve escrutínio): porque é que as nações Unidas não intervêm e não arranjam um qualquer comité que governe o país até que a dignidade seja restituída aos cidadãos e que haja comprovadas condições para levar a cabo eleições livres?
Mas se, na verdade, não sei qual a solução, custa-me compreender que, na era em que as máquinas aprendem e em que já não há cão nem gato que não use coisas que recorram a inteligência artificial ou a computação na nuvem, em que sequenciar o ADN já é canja de galinha, ainda não exista a solução para impasses governativos destes, em que quem está no poder não dispõe das mais básicas competências (a todos os níveis) para governar um país e em que não aparece alternativa credível. Deveria haver um manual com as instruções para seguir em cada caso. Mas pelos vistos não há e pelos vistos não é fácil saber o que fazer... e, portanto, tirando muita informação cruzada e muita contra-informação, não acontece nada. E os pobres coitados que ainda não conseguiram fugir, vão sobrevivendo sabe-se lá como.
A reportagem abaixo, da BBC, pode fazer alguma impressão (a mim fez-me muita) mas acho que deve ser vista. Por cá, em especial os camaradas do PCP deveriam conseguir tirar as vendas e ver o que aqui se mostra, mas ver com olhos de ver.
Já aqui o contei e desculpem por me repetir. Lembro-me muitas vezes de quando a minha mãe -- numa altura em que deu aulas perto de um bairro de lata -- no regresso à escola depois das férias, chegou a casa impressionada com a resposta que recebeu de uma aluna à pergunta sobre os presentes de Natal. A menina, toda contente, disse que tinha recebido um plástico muito bonito para pôr por cima da cama para não chover. A minha mãe ficou muito comovida e eu, que era adolescente, também o fiquei. Tanto que essa imagem não mais me abandonou.
Lembro-me também de quando ia beber café a uma pastelaria perto de casa e me fazia muito impressão, no dia de Natal, perto da hora de almoço, ver pessoas a comer sozinhas, com ar apagado, olhar baixo, quase como se não suportassem a imagem alvoroçada dos sorridentes que ali iam beber café, comprar pão ou buscar bolos de última hora para apressadamente voltarem para casa, para junto da família.
Também me lembro de um colega que dizia que na noite de Natal jantava com a mãe, ia para casa cedo porque a mãe jantava muito cedo e, no dia, ia com ela comer um prego o que, para ela, era uma excentricidade, uma aventura especial. E ele contava esse seu programa de Natal como se quisesse disfarçar o que quase me parecia vergonha.
A minha véspera e o meu dia de Natal são festas em família, felizmente gente sempre animada. Temos tido problemas, e quem os não tem?, temos perdido pessoas que amamos, alguns têm estado doentes, sustos daqueles mesmo maus mas que, por sorte, têm sido ultrapassados, outros assistem ao lento declínio dos que lhes são mais próximos. Mas, talvez porque há sempre crianças e as crianças, com a sua graça e alegria, fazem ultrapassar qualquer sombra e mágoa, até agora e desde que me lembro, por sorte, os meus Natais têm sido sempre felizes.
Contudo, tempos houve em que, num lado da família herdada, algumas pessoas incompatibilizaram-se com outras e deixaram de passar os Natais juntos. Custava-me muito isso mas nada podia fazer. Nessa altura, eu, o meu marido e os meus filhos íamos ver esses que tinham sido banidos pelos outros. Tentávamos levar-lhe um pouco do calor familiar e de alegria. Quando a última dessas pessoas morreu e tivemos que 'desmanchar' a casa, encontrei os presentes que lhes deixávamos pelo Natal, muito estimados, com a data desse Natal escrita à mão.
Não é um dia diferente dos outros mas, em volta dele, a sociedade criou toda esta imagem de ilusão, de inclusão, prosperidade e afecto que, provavelmente, deixa um pouco desamparados os que não têm a possibilidade de viver o Natal dessa forma. Penso especialmente naqueles que perderam entes muito queridos e em que as circunstâncias da vida e o tempo ainda não não esbateram a dor. Penso em Leitores que, ao longo do tempo, me têm contado as suas perdas e os seus imensos desgostos. Lamento muito e gostava que, um dia, a memória suavizasse a perda, transformando-a sobretudo em saudade, em doce saudade.
Esta segunda feira vou ter um dia bem preenchido com todo o tanto que tenho que fazer mas penso que, antes de sair de casa para ir festejar a véspera de Natal junto de parte da família, ainda conseguirei vir aqui -- mas temo que seja muito a correr. Por isso, é agora que me alongo.
E o que agora me apetece dizer é que perdas e dores sempre acontecem, sempre, mas que a vida sempre continua.
E também que não é de agora que o mundo está cheio de infortúnios, de injustiças, de desigualdades, de pobreza e de solidão. Penso que o mundo nunca foi perfeito e nem valerá muito a pena encontrar culpados. Se hoje as disparidades são tão escandalosas, se há tanta gente a viver no limiar da miséria, a verdade é que não consigo apontar o dedo a um grupo de culpados em particular, especialmente quando são os mais desfavorecidos que elegem aqueles que mais os prejudicam e mais acentuam o fosso entre extremos opostos. Somos todos nós, globalmente, que plantamos as sementes do mal e que, dessa e de outras formas, nos afastamos da nossa humanidade.
A felicidade não é eterna, não é infinita, e também não tem receita, nem tem que ser igual à dos outros, e, claro, não se mede. Acredito que a felicidade pode ser um somatório de breves instantes, de coisas de nada, de coisas muito cá nossas. E, mesmo quando se perde, pode voltar a ser encontrada. Pode vir sob a forma de uma palavra, de um sorriso, de um gesto, de um vislumbre, de uma recordação.
Durante algum tempo eu gostava de, nesta altura, aqui referir o nome de todos os meus Leitores cujo nome, por me terem contactado, eu sabia. Mas são muitos e temo esquecer algum. Por isso, apesar de não o nomear agora aqui, querido Leitor ou Leitora, saiba que não esqueço quem um dia quis chegar até mim. Para si vai o meu afecto e, ainda que apenas desta forma tão limitada, vai também a minha companhia.
Abaixo mostro vídeos onde se podem ver as casas dos muito ricos em Nova Iorque, depois as inconcebíveis 'casotas' dos mais desfavorecidos em Hong Kong, depois o que é a vida nas favelas do Rio de Janeiro e, finalmente, o que é viver no deserto. São vídeos que acho muito interessantes e que fazem pensar. Este é o mundo em que nos foi dado viver e não sei se temos sido suficientemente inteligentes para o usarmos da melhor forma.
E talvez isto nem tenha muito a ver com o espírito natalício mas permitam que vos diga que acho que não há relação entre o valor das habitações e o nível de felicidade dos seus habitantes. Não há regras de três simples nestes casos. A felicidade não depende do número de presentes recebidos pelo Natal nem dos metros quadrados ou do conforto da nossa casa. A felicidade é outra coisa, uma coisa muito só nossa.
Contei aqui uma vez mas recordo. Desde há muitos anos e por razões que não vêm ao caso acontece não usar transportes públicos. Se calha ficar sem carro porque tem que ir à oficina já parece que estou a pôr em causa a minha sobrevivência e só fico tranquila quando me asseguram que me trazem um de substituição.
Lido assim e, ainda mais, por quem não tem estas mordomias, há-de parecer que estou para aqui a armar-me ao pingarelho. Mas claro que não estou. As coisas são o que são e as minhas circunstâncias são estas. Claro que preferia ter também motorista mas essa sorte só tenho ao fim de semana ou de vez em quando, em viagens mais longas (mas, nesses casos, tenho que ter o trabalho de cravar alguém).
Andar de metro, de autocarro, de comboio ou de metro é experiência que não tenho há milénos.
Mas uma vez aconteceu ter que ir de autocarro não sei onde. Não faço ideia porquê. Provavelmente teria o carro na oficina e, talvez por estar de férias, ninguém tratou de me arranjar carro de substituição e não estive para me dar a esse trabalho. Não sei. Nem me recordo onde fui. O que sei é que foi uma experiência fascinante.
Relembro.
Informei-me de percursos e horários e fui para a paragem de onde partia o autocarro um bom bocado antes do horário. Quando ele chegou, entrei. Fiquei lá sozinha. Passado um bocado começaram a chegar mulheres. Todas negras. Tenho ideia que todas gordas. E tenho ideia que todas se conheciam. Curiosamente sentava-se cada um em seu banco. Percebi depois porquê. Pousaram um saco no assento ao lado e de lá tiraram o farnel. Pão. Desataram todas a comer. Rapidamente um intenso cheiro a pão com chouriço alastrou pelo autocarro. E conversavam alto e riam de gosto enquanto comiam.
Eu estava encantada. Ouvir aquelas conversas e aqueles risos era, para mim, pitéu do melhor. Depois o autocarro partiu e, noutras paragens, outras pessoas iam entrando, a grande maioria negras. Percebi que eram empregadas de limpeza. Vinham de trabalhar em casas particulares e iam trabalhar nas limpezas dos escritórios, ao fim do dia. E iam naquela alegria. O sentido de humor e a energia delas surpreenderam-me de uma maneira que ainda hoje, anos depois, recordo a minha admiração.
A vida de muita gente é árdua. Não sei como fazem para conciliar com a vida pessoal e familiar.
Aliás, sei.
Recordo-me daquele ano em que fiz voluntariado na escola secundária que é considerada uma das mais problemáticas do país (senão, mesmo, a mais problemática). Já falei algumas vezes dessa experiência. Não é o assunto de hoje pelo que não vou deter-me nos diversos casos que me emocionaram e me mostraram uma dos lados sombrios da vida. Quero apenas falar duma jovem negra, também reboluda, também extrovertida, também muito faladora.
A toda a hora dizia que queria deixar de estudar, que estava ali apenas porque era obrigada, que queria chumbar para poder deixar de vez a escola. Já devia ter uns dezoito anos e andava ainda no 8º ano. Não sabia nada. Não prestava atenção a nada. Não queria participar em nenhuma actividade. Desinteresse puro. Foi ela que, quando eu escrevi no quadro a palavra 'bondade' e pedi que escrevessem alguma coisa sobre isso, desatou a rir, lendo a palavra com aquele sotaque negro, sincopando a palavra, silabando-a com ar de quem vê um alien em forma de palavra: "bon-da-de". E muito alto, rindo: O que é isso? Bon-da-de? Nunca ouvi. Bon-dade, bon-da-de. Ahaahaha.
Expliquei. Não prestou muita atenção. Era um conceito que lhe era estranho.
Quando lhe perguntei que profissão queria ter, olhou-me admirada. Não queria nenhuma. Quando lhe perguntei porque não queria aprender, respondeu que tinha que ficar em casa a tomar conta dos irmãos porque a mãe ia trabalhar e os irmãos mais novos ficavam em casa sozinhos. Fiquei a olhar. Nestes momentos, sinto crescer em mim uma emoção forte e sinto que felizmente sei conter-me porque, por dentro, as lágrimas avançam como uma onda. Ela deve ter sentido que eu queria perceber melhor porque me explicou. Quando aqui estou, só penso neles. Devia estar lá a tomar conta deles. A minha mãe não tem a quem os deixar. Nessa altura, estava a falar baixo e sem se rir. Eu queria dizer-lhe que deveria estudar, para poder ter uma melhor vida, para melhor poder ajudar os irmãos. Mas como dizer isso, sabendo das outras crianças sozinhas em casa?
Como se fazem adultos saudáveis e alegres e como é que estas mulheres que, para poderem sobreviver e alimentar os filhos, trabalham de manhã à noite, deixando os filhos entregues a si próprios, ainda são capazes de rir e brincar, abstraindo-se das dificuldades e festejando a vida, é coisa que me enche de espanto e admiração.
Talvez seja a pele cor de chocolate que tem o condão de lhes adoçar o coração. Mas não sei.
Filipe disse o poema. Benedita ouviu-o de olhos fechados. Pensou que poderia ficar a vida inteira assim, tranquila, de olhos fechados, ouvindo Filipe a contar histórias, a desfiar memórias, a dizer poesia.
Quando acabou, foi como se acordasse, como se tivesse que encarar o mundo de novo.
E pediu: Mais, Filipe. Não pares. Parece que a tua voz cura a minha ansiedade, faz-me esquecer os meus medos. Talvez vocês não saibam. Tenho sempre medo. Medo pelo que a minha mãe possa fazer. Tanto medo. Ela pode voltar a fazer o que já fez. Ela nunca mais se cura. Tenho tanto medo. E medo pelo que a minha irmã possa fazer. Posso nunca mais saber dela. Medo pelo que o meu pai possa fazer. E nem sei dele. Se calhar já nem é vivo, se calhar nem se lembra de mim. Medo por mim. Medo que um dia acorde e o meu rosto esteja deformado, medo de não conseguir sorrir, medo de não conseguir enfrentar a luz do dia ou a luz dos flashes, medo de acordar sem me lembrar do meu nome, medo de não ter vontade de viver.
Ou outros ficaram em silêncio.
Depois Meninha reagiu. Abraçou-a, fez-lhe festas no cabelo: Que é isso, menina, nem diz bobagem, não. Menina tão linda, tão boazinha... Pr'a quê essa tristeza, esse mal de viver...? Deixa isso pr'a lá. Fico até assustada por você. Porquê isso, Beny? Não tem razão pr'a isso, não. Qu'é isso, menina? Deixa isso pr'a lá, menina, deixa mesmo, ouviu? Me escute: cê não sabe o que é medo, não sabe o que é ter razão pr'a ter medo, menina.... Se eu fosse te contar meus troços, cê nem ia acreditar.'
E parou.
Benedita, surpreendida, disse: Sempre tão alegre, Meninha. Sempre te vi tão alegre. Que medos são esses...? Conta...
Filipe, baixo: Se não quer, não fala, Meninha. Deixa. Eu continuo a contar histórias...
Então, repararam que Meninha deixava correr uma lágrima enquanto começava dizer em voz baixa e trémula: Tanta pobreza na minha meninice, viu, Beny? As crianças eram criadas na rua, comiam o que os vizinhos davam, o que achavam, o que pegavam. Levava tareia de toda a gente. Não era igual aos outros menino, não queria aquela pobreza pr'a mim, não aguentava mau-trato. Fugia da rua, ia pr'a avenida, pedia dinheiro a quem passava. E vinha o policial e me levava. Ia pr'a casa de correcção. E fugia. Não aguentava. Queria outra coisa pr'a mim. Minha mãe teve pr'a cima de dez filhos, nem sei, a gente nem contava os que vinham chegando, ninguém ligava pr'a nenhum, nem ela ligava. Acho que dava alguns. Os mais bonitos, sempre havia alguém que queria pegar. Dos outros, nem isso ela queria saber, nem dava nem queria saber. Pai não conheci. Ninguém queria saber de uma criança suja e esfomeada que andava fossando pelas rua. Não sei como me criei. Ia na escola uns dias e fugia nos outros. Fui aprendendo. Mas fiquei bruta, sabendo coisa nenhuma. Um desgosto ser assim, uma ignorante. Não tenho raízes, não. Quando andei na rua passei muito e nem posso dizer quanto. Quero esquecer. Criança pobre, sem dono, aceita tudo pr'a poder ter alguma coisa pr'a comer. Até que um dia um senhor que era director numa televisão quis saber de mim. Era importante, ele, gente fina. Me ajudou muito. O que eu fiz pr'a ele não conto, tenho é dívida. Deu comer, deu tecto. Aí já eu tinha treze ou catorze anos, espigada. Levava-me com ele nos estúdios, fazia limpezas, fazia tudo, ninguém dizia que eu era tão novinha assim. Aprendi a tratar cabelos, a fazer maquilhagens. Foi lá que arranjei maneira de vir pr'a cá. Não aguentava mais.
Benedita, a medo perguntou: Mas ele não te tratava bem, Meninha?
Tratava, sim. Mas não do jeito que eu queria. Sofria muito, mas tudo escondido. Tinha medo que ele me pusesse na rua, não me levasse mais com ele. Fui fazendo o que ele queria. Mas era uma menina, sabe? Tinha meus sonho, minha liberdade pr'a conquistar. Não queria ser serva. E a voz de Meninha muito presa, agarrada às más memórias, era uma voz cheia de infelicidade.
Benedita, temendo o pior: Mas ele não tinha família?
Meninha, quase rouca: Tinha. Mas não dava muita bola pr'a ela, não. Visitava eles às vezes mas nunca conheci. Mas tinha muitos amigos. Políticos. Gente da moda. Gente do cinema. Jornalistas. Vivia sozinho. Mas tinha muita visita. Uma cobertura de luxo. Muitas festas, muita comida, muita bebida. Todos cheiravam. Queriam que eu também. Não ia acreditar se eu contasse. Muita coisa. Muita meninagem, às vezes, também. Coisa que não quero nem lembrar.
Filipe abraçou-a. Deixa, Meninha, não conta. Deixa. Há coisas que o melhor é deixar enterradas no passado. Para quê remexer? Não conta.
Depois, tentando sorrir: Olhem, meninas, a conversa está triste. Vamos parar com isto. Vamos ouvir música. Posso fotografar... Querem? Ou preferem dançar...?
Benedita abraçou Meninha. Não disse nada. Apenas abraçou.
Depois disse: Boa. Vamos fazer uma sessão. Vamos divertir-nos. Chega mesmo de tristezas, de más recordações, de medos. Já chega. Vamos fazer uma sessão das boas. Filipe, mostre o que vale. Apague a tristeza do nosso rosto. Vem Meninha, vamos escolher uma roupa bonita.
Mas Meninha ficou jururu mesmo. Sentou-se num canto do sofá. Tentou sorrir, fazer piada. Vai você, Beny. Fico a ver. Prefiro, acredita. Faz tua cara mais hot. Arrasa. Faz Filipe salivar, vai. Ele que é tão abusado... deixa ele pr'a morrer, vai.
E, então, Beny começou a despir-se, procurando com o olhar a objectiva de Filipe. Toda a sua vontade de viver naquele olhar, como se do que ele soubesse conquistar dependesse a sua vida. Vai Filipe, mostra do que és capaz. Faz parecer que sou a sua wild rose. Ou não. Faz parecer que sou uma leoa sem medo. Faz parecer que estou aqui para te conquistar. Faz parecer que estou aqui para te comer, Filipe, faz...
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O episódio que acabaram de ler e que acabei de escrever, o oitavo, vem na sequência de:
O vídeo que eu tinha para partilhar é o que aqui tenho mais abaixo. Simon Sinek é um destes novos 'gurus' cuja profissão é ser orador motivacional, consultor de marketing e autor de livros sobre os temas de que fala. Há cada vez mais pessoas que têm este tipo de ocupações. Falam bem, sabem captar o ar do tempo, criam empatia com quem os ouve -- e são muito bem pagos.
Estive a ver o vídeo e claro que Simon Sinek tem razão. E sabe expor as suas ideias: é claro, tem graça, fala de temas nos quais toda a gente se revê. Por isso o contratam, por isso o aplaudem.
Aquilo de que ele fala é um facto com o qual sou confrontada diariamente. Eu e, certamente, toda a gente. Meio mundo agarrado ao Face a ao Insta, numa dependência absurda, toda a gente a ver as chachadas que toda a gente publica, replica, papagueia. Uma cultura que se funda no imediatismo, na estupidificação, na ausência de pesquisa, de reflexão. Uma palerma qualquer diz uma parvoíce, o Face pega nisso e pespega-a no mural dos 'amigos', alguém acha graça e dá ênfase e, num ápice, a parvoíce propaga-se como fogo em pasto seco. E depois é ver as andorinhas descerebradas desta vida a papaguear a parvoíce como se fosse ciência da boa, debates, jornais, toda a gente a cavalinho na palhaçada que um tonto qualquer se lembrou de postar.
Neste caldo de pseudo-informação e galopante ignorância em que se vive ansiando pelos likes, vai crescendo a juventude.
Chegam ao mundo do trabalho cheios de convencimento, querendo tudo sem acrescentarem nada. E sempre agarrados ao smartphone.
Há excepções, claro que as há. Mal de nós todos se as não houvesse. Mas nunca como agora tenho constatado a chegada ao mundo de trabalho de adultos que não passam de adolescentes retardados, que aparecem com lemas de vida que são de uma futilidade aberrante e em quem não se detecta paixão, saber: apenas vacuidades tranvestidas de fúteis lemas de vida.
E faço notar que esta tendência me parece galopante, ou seja, a cada nova leva, mais isto se nota. E assim é vê-los, com trinta e tal anos e ainda conversa de adolescentes. Trabalham horas a fio (se for caso disso), entregam-se mesmo que seja a projectos que, espremidos, não valem um caracol, vão de férias para o estrangeiro, ao fim de semana frequentam os restaurantes da moda -- e raramente pegam num livro e, se pegam, é num livro badalado nas redes sociais e que invariavelmente é pura treta ou num livro para, infantilmente, se porem a pintar e do qual depois falam como se fosse uma sofisticada terapêutica. Não sentem necessidade de se reproduzir. Os filhos, quando chegam, chegam cada vez mais tarde porque antes disso querem eles curtir, passear, ter experiências, 'ser felizes'.
E é neste contexto que aparecem, depois, os oradores inspiracionais ou os autores de livros motivacionaisda que, no fundo, parasitam o status quo.
E a mim, que vivo num outro mundo, que, na volta, sou mesmo uma rústica ou, até, um bicho do mato, cansa-me esta sociedade que vive cada vez mais sem raízes, sem asas, sem pernas para andar, sem braços para fazer coisa que se veja -- apenas planando por cima das redes sociais.
Ainda por cima, tenho isto de saber quão perversas podem ser as redes sociais. Ainda por cima, tenho isto de achar que as pessoas estão a tender para uns objectos animados a quem desregulados impérios manipulam alegremente.
E, andando eu -- cansada, pouco motivada -- a cirandar pelos blogs da minha galeria lateral, dou com um texto dos valentes, daqueles que, de uma penada, nos dão uma lição a sério.
Quando eu andava no liceu, havia lá uma Contínua (como, na altura, eram chamadas) a quem chamávamos Menina Alice. Era forte, usava uma bata cinzenta justa com um cinto estreito na cintura e estava sentada numa secretária no corredor -- e eu gostava imenso dela. Para mim era como se fosse uma tia, uma amiga. O que ela me aconselhava e repreendia... Dizia: 'És uma quebra-corações'. Outras vezes dizia: 'Com tanto pretendentes, foste escolher o pior de todos. Tem juízo.'. Eu achava graça, gostava de conhecer a opinião dela. E ela queria saber as notas que eu tinha e eu achava graça ela interessar-se como se fosse pessoa da família. E era uma fera quando o pessoal se portava mal, quando havia rebaldaria nos corredores ou fusuê nas salas antes de chegar o professor. Impunha um respeito que ninguém questionava. Tinha-se a sensação que, se fosse preciso, ela pegaria os relapsos pelas orelhas ou pelas golas, aplicando-lhes um justo correctivo.
Também quando os meus filhos andavam na escola, era sempre às auxiliares que eu me dirigia em primeiro lugar: gente abnegada, atenta, dedicada.
Mas, pedindo que sigam o link para lerem o texto da Alice Alfazema na íntegra, transcrevo um excerto:
(...) Não me lembro da primeira vez que tive de lavar as sanitas, algumas até desentupi-las, varrer, lavar, esfregar, carregar baldes de lixo...e voltar ao mesmo, quem tem crianças em casa sabe como é, agora multipliquem isso por mais de oito centenas. Enquanto lavava as sanitas era ainda capaz de ter de retirar as luvas, atender o telefone, ir dar um recado, ou ver outra situação qualquer e depois voltar a calçar as luvas e lavar o resto das sanitas, entretanto as pessoas iam entrando e saindo da casa de banho como se nada fosse.
Num outro momento da minha estadia na escola pedi opinião a uma professora sobre o facto de eu querer entrar na faculdade, ao qual obtive a seguinte resposta: inscreva-se, inscreva-se, que eles agora estão a aceitar toda a gente. E não havia mais nada a dizer. Calei-me. Agora que já terminei a licenciatura estou no bar a abrir carcaças e a por manteiga no pão, não tenho nada a acrescentar pois tenho uma faca com uma serrilha muito boa e a manteiga é dos Açores. (...)
Dias tão longos estes meus. É tão tarde, agora que consigo ligar o computador. Estou praticamente a dormir. Não tenho conseguido ver e, muito menos, responder aos muitos mails que enchem a caixa de correio. Uma semana difícil em dias de calor e afazeres.
E muito trânsito. Hoje pensei que talvez pudesse gravar-me porque, não podendo escrever, podia ir falando e não desaproveitava tanto o tempo.
Por vezes, enquanto ali vou, ouço com atenção gente de outro mundo. Hoje ouvia com interesse um algologista. Não sabia que havia algologistas. Fiquei a saber que são botânicos que se dedicam ao estudo das algas. Frequentemenete penso que são vidas bem melhores que a minha. Ele falava de variedades de algas. Umas grandes, castanhas, que é como se fossem as árvores do fundo do mar. Estas vão rareando na costa portuguesa. Depois contou que dos milhões de toneladas que se consomem, a larga maioria são de aquacultura e que os chineses até as adubam e que há abusos. Tudo novidade para mim. Penso que, com tanta costa, porque não estamos nós, em força, nisto das algas?
No outro dia era a viola campaniça; e ali vou eu, a caminho de reuniões em que se vão decidir negócios ou admissões de pessoal ou coisas assim e, em vez de ir concentrada nesses temas, vou é a ouvir de gosto sobre quem faz melhor que ninguém as violas campaniças ou quem as toca com sabedoria. A fala amorosa de quem ganhou amor a esta guitarrinha popular, o prazer de quem se apaixonou pela música que nasce dela e das gentes do povo -- e eu, encantada, a ouvir, a aprender. De vez em quando, quando parada num semáforo, pesquiso no google sobre o que ouço e, até essa altura, desconhecia. Dessa vez foi: Como é uma viola campaniça?
Esta sexta-feira, de tarde passei à porta de um edifício em que já trabalhei. Parei no semáforo lá à porta, vi a passagem de peões e lembrei-me de há uns anos.
Nessa altura, eu não punha o carro lá no parque. Aquilo era apertado, para eu arrumar no local marcado no chão que me estava destinado tinha que ir de marcha atrás e, como os meus colegas eram madrugadores e eu não, quando eu lá chegava já eles lá tinham os carros e eu tinha que ter cuidado não fosse dar cabo dos carros deles. Então, marimbava-me para o meu lugar no parque e deixava nas ruas lá por perto e ia a pé. Um belo dia ia eu a entrar no edifício e reparo que há sangue no passeio.
Pergunto à recepcionista, por sinal queridíssima pessoa por quem nutri verdadeira estima, que sangue é aquele. Diz-me que fulana de tal, minha colega, amiga e companheira de almoço, tinha acabado de ser levada para o hospital. Atropelada. Uma perna escalavrada, coisa feia.
Lá fui logo para ter com ela. Mal. Nem a consegui ver. Tinha que ser operada. Tendões rasgados, ferida extensa, fractura. Para ela, esse foi o princípio de uma odisseia que haveria de durar anos. Fez várias cirurgias, uma recuperação nada fácil. Mas a coisa haveria de ser complicar pelo facto do causador do atropelamento em plena passadeira de peões ser um motard sem carta de condução e sem seguro.
Quando já estava funcionalmente quase boa, na verdade estava defeituosa, a perma horrível ali à altura da canela, bem à vista. Quis fazer cirurgia plástica e o seguro normal já não cobria isso. Quando um condutor não tem seguro há um seguro geral que, creio eu, o Instituto dos Seguros garante. Só que também não cobria a reconstituição estética. Resolveu, então, aconselhada pelo advogado da empresa que desde o início se prontificou a ajudá-la, avançar com um processo contra o condutor. Por essa altura, ela alimentava um ódio de estimação em relação ao homem que, no dia do acidente, nem conseguiu ver. Eu apoiava-a nessa demanda pois ninguém merece ver a vida virada do avesso, passar a vida a caminho do hospital e gastar um dinheirão, por causa de um estupor que vem a abrir e nem se rala de andar a conduzir, na candonga, quase matando a minha amiga.
Um dia, antes de avançar com o processo, o advogado resolve promover uma reunião entre ela e o malandro. Ela, pessoa meio atarantada nestes apertos, pediu-me para ir com ela. Claro que fui. Pois à hora devida, com espanto, vemos um pobre homem, muito magro, ar muito pobre. Tímido, cheio de medo, confessa-se analfabeto. Ia numa mota barata para arranjar uma horta na berma da estrada lá ao fundo, distraíu-se com o sol, não viu o sinal, não viu a senhora. Não tinha dinheiro. Estava preparado para se deixar prender, aceitava o que quisessemos fazer com ele, assumia a culpa, já a tinha assumido, já estava metido em trabalhos, já lhe tinham ficado com a mota, uma mota velha. Já não tinha como ir cuidar da horta.
Eu e ela e o advogado nosso colega logo ali arrependidos, tão arrependidos, e, mesmo sem falarmos uns com os outros, logo de acordo em deixarmos ir em paz o pobre homem. A minha amiga, completou os tratamentos a expensas próprias mas só até certo ponto. Manteve uma cova muito feia na perna e umas dores agudas que a incomodam quando o tempo muda. Não quis continuar a afundar ali mais dinheiro. Mas nem pensar causar ainda mais angústias na vida daquele homem cujo rosto e cujo corpo evidenciavam uma vida difícil.
Ao parar ali, naquele semáforo, ao pé daquela passadeira, lembrei-me da minha amiga e lembrei-me daquele homem tão pobre. Ela, antes, dizia que ele lhe tinha desgraçado a vida e ele, coitado, disse também que naquele dia tinha desgraçado a sua vida.
E era isto que eu pensei dizer para um gravador quando estava no carro. Se depois pudesse converter a fala em escrita, à noite podia dormir em vez de estar aqui a escrever quase de olhos fechados.
Quando estava a pensar naquele parque de estaconamento também me lembre i de outra coisa e pensei contar-vos mas agora já não consigo. Fica para outra vez. Aliás não sei se já não a contei.
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E tirando isso não sei de mais nada de que a esta hora me apeteça falar. Aliás, sei, sei sim. Mas não é coisa que possa reduzir a meia dúzia de palavras e o sono é muito e não me arrisco a escrever sobre isso sem censura interna. A esta hora e cansada como estou, temo que já não consiga ter mão em mim. Portanto, com vossa licença, fico-me por aqui.
Presumo que o texto aqui exposto esteja também defeituoso, letras a mais ou a menos e de vírgulas nem quero nem dizer nada porque, lá está, pecarei por defeito. Relevem, por favor, mas já não consigo rever, já nem os dedos se mexem sobre o teclado.
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As imagens que puderam ver são retratos da autoria de Steve McCurry e, naturalmente, não têm nada a ver com o texto. Lá em cima, Pedro Mestre, mestre da campaniça, visita Mariana Maria na sua taberna em Ourique Gare.
Li uma notícia que me deixou petrificada. Um acontecimento que julgaria impossível. Li com horror e sem conseguir encontrar uma explicação à luz do mundo que conheço, ou talvez, do meio em que vivo. Talvez seja problema meu por desconhecer que se pode chegar a um extremo destes nos dias de hoje. Talvez seja miséria, sim. Ou talvez seja apenas um caso sem paralelo, talvez alguma demência, talvez um estado de abandono extremo.
Não sei se por cobardia ou desconhecimento das palavras certas perante uma situação tão triste, não vou dizer mais nada. Acho que só um texto feito de lágrimas faria sentido. E silêncio. Um silêncio muito fundo, um silêncio que recue até onde deixamos a nossa humanidade cair num negro abismo.
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Por isso, permitam que me desvie para as altas montanhas, que procure a liberdade dos nómadas, que me entregue ao sonho dos voos que cruzam os infinitos horizontes. Permitam que sorria ao ver o sorriso de uma menina com a pele do rosto curtida pelo frio e pelo sol, permitam que me admire com a coragem e ousadia de uma menina que desafiou convenções lá bem no fim do mundo.
Esta é a história de Aisholpan, a menina de 13 anos que não tem medo de águias, que não tem medo do mundo, a menina que enfrenta as montanhas e a força dos altos voos descendo sobre si com as garras afiadas com a alegria de quem vive no meio dos seus, rodeada de lonjuras e de beleza
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E queiram descer até ao post seguinte, caso vos apeteça saber 'as últimas' sobre Sylvia Plath e Ted Hughes.
Paixão, violência e tragédia numa história que podia ter sido apenas poética.
Segundo as tendências actuais, daqui a 2030, 69 milhões de crianças com menos de 5 anos morrerão principalmente de causas evitáveis, 167 milhões de crianças viverão na pobreza e 750 milhões de mulheres casar-se-ão durante a sua infância.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta-feira.
Se eu estivesse a escrever um livro, talvez desenvolvesse o assunto. Falaria sobre o período negro que se seguiu, as desconfianças, as suspeitas que desencadeavam brigas familiares, a vergonha, as tentativas de ocultar do exterior o que se passava, as acusações, a culpa, as aflições, as traições. Mas não estou a escrever um livro. Não.
Por isso, omito aquilo que a família pretende manter escondido, omito as consequências sobre centenas de outras vidas. Vou manter-me focada no Pedro e na Clara, essas duas pessoas que se conheciam dos meios virtuais e a quem as afinidades uniram e que, por circunstâncias acidentais, se aproximaram ainda mais depois do dia desafortunado em que se conheceram no mundo real.
Direi apenas que Pedro tinha razão ao preocupar-se. A sua família foi uma das que muito tocada foi pela crise financeira. Depois, por uma sucessão de gestos precipitados ou impensados, por vinganças absurdas e, finalmente, já com a situação fora de controlo, a família de Pedro perdeu praticamente tudo o que tinha. Nada de mais nem de diferente do que aconteceu a várias famílias que por cá, como em muitos outros países, fruto de uma excessiva alavancagem financeira, acumularam dívidas desalicerçadas que, uma vez em situação de desequilíbrio, deixaram a nu a vulnerabilidade do que se pensava ser uma sólida e eterna riqueza familiar. Umas coisas eram garantias de dívidas para adquirir outras que vinham também a ser garantias para outras dívidas. A queda de uma fez inevitavelmente cair tudo. Gravações, denúncias e rivalidades fizeram o resto. O assunto avançou para os tribunais. Entretanto, três dos membros da família -- e aqui leia-se família alargada pois a família, sendo grande, favorecia a família alargada (primos, tios, cunhados, sobrinhos) -- já puseram termo à vida. A vergonha e a impotência, a incapacidade de enfrentar uma vida para a qual não se tem preparação, tornam-se, por vezes, insuportáveis.
A ter que pagar a advogados, sem trabalho e vivendo agora num modesto apartamento, Pedro é uma sombra do que era há pouco tempo atrás.
Trava várias batalhas: a da recuperação de uma honorabilidade que deixou de lhe ser reconhecida, a da justiça, a da tentativa de não perder o respeito dos filhos que, industriados por uma mãe revoltada, o culpam das desgraças que se abateram sobre a família e, de forma muito emotiva, também a da tentativa de recuperação de parte da bela biblioteca da família.
Do que sobrou, depois das repartições (vividas sob um clima de ameaças e gritarias), Pedro ficou com algumas mercadorias que escaparam aos arrestos, alguns prédios velhos que não estavam hipotecados e que estão arrendados com rendas baixas, uns quantos terrenos de mato que estavam esquecidos. Alguns, poucos, funcionários ocupam-se ainda de vender o que sobrou. Pedro trabalha com eles. É disso que vive. Conseguiu salvar ferramentas da sua oficina de encadernação e também faz trabalhos para alguns antiquários e isso é também uma ajuda.
Clara tem-se mantido a seu lado. Apoia-o de todas as maneiras possíveis. Tenta segurá-lo quando sente que o seu ânimo se está a esboroar. Acompanha-o quando sente que ele precisa de alguma força para travar lutas mais complicadas ou antes de se ir encontrar com os filhos. Incentiva-o a arranjar-se, a fazer a barba, a recuperar a capacidade de sorrir.
Muitas vezes, quando está à espera dele, mal o reconhece: parece um velho abandonado. Clara repreende-o. Dá-lhe o braço, quer que ele perceba que é por bem que se zanga .
Uma vez ofereceu-lhe um blusão. Quando ele viu o que era, virou o rosto. Ela percebeu que ele chorava. Fingiu que não percebia. brincou, disse que era uma consumista, que já não tinha nada que comprar para ela própria, que tinha visto o blusão tão barato que, só mesmo para não o deixar lá ficar, o tinha trazido. Clara não quer que Pedro se sinta humilhado, vencido. Quer que ele recomece. Mas quem perdeu tanto como ele, sente-se amputado e não sabe se será capaz de voltar a andar. Uma vez disse: Mesmo que quisesse, é com esta idade que vou recomeçar? Como vou ter força para enfrentar recusas ou desinteresses? Vou fazer o quê? Pedir? Humilhar-me? A única coisa que sei fazer é gerir empresas. Mas, depois do que aconteceu e com esta idade, quem é que me vai contratar?
Nessas alturas Clara receia que ele queira desistir de tudo, até de viver.
Para ver se o anima, Clara traz sempre um livro de poemas. Sentam-se num banco de jardim ou numa esplanada e Clara abre o livro e lê poemas. Outras vezes, pede que Pedro os leia. O tempo muda de feição quando estão assim, a ler poesia um para o outro.
Geralmente, Pedro trata do assunto da recuperação da biblioteca com o advogado da família chinesa que lá vive agora. Mas um dia quis ir lá. Combinou com o advogado, o advogado organizou tudo. Clara acompanhou-o. Ia muito nervoso, pensou voltar para trás. Clara animou-o. Anda há tanto tempo com essa ideia. Não vai descansar enquanto não o fizer. Não adie, vá. Pedro não falava, tanta a ansiedade. Quando chegaram perto da porta, Clara lembrou-se do dia em que o tinha conhecido. Tinha batido à porta sem saber o que ia encontrar. Tanta coisa tinha, entretanto, desmoronado que isso parecia ter acontecido numa outra vida.
Foi ela que, também agora, bateu à porta. Quando a porta se abriu, ele estremeceu. Clara deu-lhe o braço. Sentiu que ele estava a tremer. Encostou-se ao de leve e sentiu tanta, tanta pena, teve tanta vontade de chorar. Pensou: Pobre, pobre Pedro.
Depois apareceu uma empregada. Abraçou-se a Pedro. Chorava, chorava. Clara percebeu que ela dizia: Meu menino, meu menino... Pedro abraçou-a em silêncio. Clara viu que ele continha as lágrimas. Talvez por isso não disse uma palavra, apenas fez uma trémula festa no cabelo branco de Maria de Lurdes.
Clara sentiu que as lágrimas se soltavam mas secou-as rapidamente e disfarçou. Vamos lá, disse.
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Lá em cima, Leonidas Kavakos e Enrico Pace interpretam o Adagio da Sonata Nº 3 para violino de Brahms.
Já aqui acima Simon and Garfunkel interpretam Bridge Over Troubled Water
A primeira fotografia, feita no domingo passado, mostra o Jardim da Estrela
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Este capítulo vem no seguimento de 'Desabamento' (de onde poderão passar para os capítulos anteriores) e continua em 'A primeira noite de amor'.
Porque as imagens falam por si (e algumas são difíceis de ver), sem mais palavras deixo-vos com duas reportagens sobre Angola.
Não nos esqueçamos que de Angola provém capital que tem servido para comprar muitas empresas de Portugal (nomeadamente grande parte das empresas de comunicação social e pelo menos num grande clube de futebol)
Angola: The World's Deadliest Place for Kids | Nicholas Kristof | The New York Times
Nicholas Kristof reports on the rampant corruption in oil-rich Angola, which is depriving children of education and contributing to the highest rate of child mortality in the world.
Exploring one of the world's most expensive cities-LUANDA
Nas empresas que pertencem a Grupos é normal criarem-se órgãos de gestão conjunta por forma a capturar sinergias, adquirir eficiências e tudo isso de que os consultores gostam de falar e as administrações de ouvir.
Criam-se Serviços Partilhados ou Direcções Centrais, estudam-se os modelos de governo desses novos serviços que trabalham para todas as empresas, aferem-se indicadores que reflictam o bom funcionamento dos mesmos, etc, etc, etc. Conheço bem estes processos.
Quando isto acontece, criam-se mecanismos que permitam validar se está tudo a funcionar bem e, se necessário for, corrige-se a trajectória ou procede-se, com alguma regularidade, a um conjunto de ajustamentos.
Claro que uma empresas ou um grupo de empresas não é a mesma coisa que um conjunto de países. Claro que não, é mais simples, muito mais simples. Terá o seu qb de política, de diplomacia, de militarismo, de democracia, de estratégia, de humanismo, etc, mas tem sobretudo a ver com gestão.
Mas se nas empresas se avança de uma forma organizada, estudada, monitorizada, como é que nos países se avança à maluca como aconteceu com a adopção da moeda única?
A Europa não tem um modelo de governo a sério, não tem órgãos que monitorizem e validem e corrijam as trajectórias, não tem sequer gente capaz à frente dos lugares mais importantes. Quando nos países de origem se querem ver livres de alguém, de emplastros, de pesos-mortos, de alforrecas ou chernes, chutam-nos para a Europa. Depois, o que acontece é que cada totó que tem assento nos lugares onde mais se decidem os destinos da Europa responde é perante o seu eleitorado doméstico onde as motivações são culturais e regionais, mal informadas sobre o que se passa nos outros Estados.
Aquilo a que se tem vindo a assistir nesta Europa desgraçada, acéfala, à deriva, é uma perfeita aberração: para obedecer a ditames absurdos, para encaixar em tratados ridiculamente inalcançáveis e para agradar aos eleitorados nacionais, um bando de anormais tomou decisões que, à semelhança de tudo o que decidem, representaram um atentado brutal contra um dos seus Estados. Uma União como esta, em que já nada faz sentido e que não tem governabilidade ou que não é monitorizada pelos cidadãos dos seus Estados membros, é um aborto, uma porcaria.
Não faz sentido um país pertencer a uma União que destrói a vida do seu povo, que destrói a sua dignidade, a sua economia, a sua esperança.
Não me interessa saber se a culpa foi do partido A, B ou C ou do lunático X, do inexperiente Y ou do atrasado mental Z. O que me interessa é como é que, no conjunto, deixámos que aqui se chegasse e ainda continuamos a fechar os olhos a este projecto falhado.
Tragédia, miséria, humilhação - e tudo é encarado na maior ligeireza, como se isto pudesse ser reduzido a pequenos episódios. Para evitar mais tragédia, miséria, humilhação todos nós nos deveríamos levantar para exigir que ou nunca mais tal aconteceria ou bardamerda para esta porcaria (e peço imensa desculpa pelo meu linguajar mas é o que me ocorre dizer a este propósito).
O que aconteceu com a Grécia e que está ainda a acontecer e as reacções que ouço mostram bem a estupidez que é esta União Europeia. Da forma como está e como funciona, acho que, ou há a capacidade de a repensar e refundar (o que me parece ser altamente improvável) ou mais vale limpar as mãos à parede -- antes que haja alguma coisa ainda mais séria (e que já me pareceu mais longínqua).
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Pedro Santos Guerreiro, com aquele seu ar de menino bem comportado (daqueles que deixam crescer a barba para ver se parecem mais crescidos), continua a mostrar que é inteligente, lúcido, e um excelente comunicador. Escreveu mais um artigo brilhante e eu não poderia deixar passar isso em claro.
O Syriza já está destruído, podemos agora salvar a Grécia?
Chegará o momento em que tiraremos as mãos das carteiras e as poremos na consciência. Chegará o momento em que já não veremos os ricos que roubaram mas os pobres que ficaram. Em que não quereremos ressarcimento mas reparação. Em que perceberemos que não se pede sequer solidariedade, mas piedade. Em que nem os sádicos se divertirão com o espetáculo degradante dos políticos gregos. A União Europeia foi longe de mais na violência estéril e vingativa. Para destruir o Syriza está a ceifar-se um povo. Já não é indignação, é súplica: SOS Grécia. E se tudo o resto falhar, apele-se à inteligência, que não é de esquerda nem de direita, pois é preciso mudar aquele plano que, além de horrível, é burro, é mau, é pior para todos.
Nos palácios de Bruxelas, nos sofás de Berlim ou mesmo nos bancos de jardim de Lisboa permanece apetecível distribuir culpas e medir ideologicamente o debate. Mas nas ruas de Atenas já passámos essa fase. Sobra o desespero de saber que nada vai valer a pena porque pagar ou não pagar parece indiferente, o tudo ou nada resultará sempre no pouco, no de menos, no insuficiente, porque o plano não funciona. Repito: a Grécia vai ter uma recessão pior do que a que os Estados Unidos viveram na Grande Depressão de 1929. Repito: o plano económico vai falhar porque foi concebido para falhar. Repito: desistimos dos gregos e resistimos a ver o desastre encomendado.
(...)
É preciso mudar o plano. Somar à austeridade um programa de investimento que estimule a economia e que apoie casos sociais de pobreza. Isso é ser inteligente, até porque é a única forma de tentar recuperar parte da dívida. Talvez a linha dura dos alemães queira apenas humilhar o Syriza e tenha feito um plano para que, depois da capitulação de Tsipras, mude o plano para melhor. Até seria bom que isso fosse verdade. Seria maquiavélico mas, ao menos, saberíamos que a loucura iria mudar. E que, portanto, a Grécia haveria de ter uma saída da crise em vez de uma saída do euro. Para já, o que vemos é o que temos, um país inteiro a afundar-se na desgraça.
Os gregos estão desesperados porque a situação é desesperante. Coloquemo-nos no lugar deles por um minuto: um governo de extrema-esquerda ajoelhado depois de cinco anos de tareia, de desemprego e de austeridade, depois de décadas de corrupção e roubo institucionalizado com os governos de centro. E o que lhes dizem que se segue? Pobreza. Talvez a esta hora também estivéssemos na rua.
[Artigo completo no Expresso; recomendo a sua leitura. E daqui envio os meus parabéns e o meu agradecimento ao Pedro Santos Guerreiro, um grande jornalista]
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Outra análise que recomendo é a de Viriato Soromenho Marques, no DN.
O pior de dois mundos
No tempo em que Deus não tinha ainda morrido, o espetáculo da tragédia de série B em que a Europa se transformou provocaria tremor e ranger de dentes face à expectativa de um castigo divino. Obrigar um primeiro-ministro a impor um programa em que não acredita, que foi derrotado esmagadoramente num referendo, parece desprovido não só de bondade mas de eficácia. Agravar a austeridade quando ninguém, mesmo entre os credores (FMI, por exemplo), parece acreditar que a dívida grega já existente possa alguma vez ser paga, é um absurdo cruel. A Grécia transformou--se no labirinto em que a lógica e a ética pública dos governantes europeus se perdeu. Por um lado, acusa-se a Grécia de - e isso é verdade - não ter sido capaz de construir um Estado moderno pós-clientelar, baseado em sistemas universais abstratos (nomeadamente de recolha de impostos), por outro, lança-se sobre ela uma barragem de planos de "resgate" que aniquilam o embrião de competência e organização administrativas, além de fazerem recuar os indicadores macroeconómicos para os níveis de uma economia de pós--guerra num país derrotado, deixando milhões de cidadãos aturdidos, empobrecidos e entregues à mais devastadora e desamparada das solidões. Ninguém sabe se Tsipras cumprirá o titânico e envenenado caderno de encargos que poderá garantir a Atenas arrastar-se num terceiro resgate. Mas, rompendo o véu obscuro da novilíngua do Eurogrupo, se a "confiança" (leia-se, submissão) não for demonstrada, o "acordo" (leia-se: ultimato) falhará. Nessa altura, talvez a Grécia seja arrastada para fora da zona euro numa explosão de desordem e violência social. Com isso, a zona euro entrará na lista infame dos crimes contra a humanidade.
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As imagens foram obtidas na net e mostram o dia a dia grego com execpeção da última que mostra um homem derrotado, humilhado até à exaustão (independentemente de se ele agiu de forma madura ou inteligente ou não).
A pintura é de Theodore Ralli (pintor grego, 1819-1878), Eavesdropping
A música é do compositor grego Dimitri Mitropoulos --- Greek Sonata 1920 [1. Allegro non troppo (ma con passion) -- piano Charis Dimaras]
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Aconselho também que vejam o vídeo que Leitor, a quem muito agradeço, me deixou em comentário num post abaixo.
E, visto no blog do Embaixador Seixas da Costa, Duas ou Três Coisas, que pergunta: Em 2015, como será?e no Ladrões de Bicicletas onde Nuno Serra pergunta Fundo de Activos ou Pacote de Indemnizações?, um quadro com números que nos deveriam fazer pensar. E chorar. E lutar.
Uma vergonha insuportável.
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Vinha com ideia de escrever sobre amor, de incluir uma música da Melody Gardot, coisinhas saborosas e estivais desse género. Afinal, deu-me para isto. A ver se mais logo não me desvio dos meus românticos propósitos.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira.