Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, fevereiro 27, 2020

Thanks for the Dance


Thanks for the dance
I'm sorry you're tired
The evening has hardly begun
Thanks for the dance
Try to look inspired

One, two, three, one, two, three, one

Amavam-se sem saberem como se amar. Amavam-se evitando-se. Amavam-se temendo todas as impossibilidades e, ainda mais, todas as possibilidades. Amavam-se vendo o tempo passar sem que os seus caminhos convergissem. Amavam-se sem saberem se era amor aquilo que sentiam. Amavam-se sem saberem se eram retribuídos. 

And there's nothing to do
But to wonder if you
Are as hopeless as me
And as decent

Amavam-se e eram incapazes de tentar obter uma resposta. Amavam-se farejando-se de longe, temendo o perigo da proximidade. Amavam-se, sem saber se era amor o que sentiam. Amavam-se incapazes de o dizer. Amavam-se alimentando-se de todas as dúvidas. Amavam-se como se não pudessem viver um sem o outro, sabendo que sempre viveriam um sem o outro. Amavam-se ignorando-se. Amavam-se desconhecendo-se.

We're joined in the spirit
Joined at the hip
Joined in the panic
Wondering
If we've come to some sort of agreement

Amavam-se por vezes cansados do amor-desamor que os habitava. Amavam-se e não havia metáforas que o pudessem disfarçar. Amavam-se sem esperança, na maior solidão. Amavam-se fingindo que não era amor o que sentiam. Amavam-se acreditando que não era amor o que sentiam. Amavam-se sentindo-se agradecidos por se amarem. 

Thanks for the dance
It was hell, it was swell
It was fun
Thanks for all the dances
One, two, three, one, two, three, one

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Thanks for the Dance
There's a rose in my hair, my shoulders are bare
I've been wearing this costume forever
Turn up the music, pour out the wine
Stop at the surface, the surface is fine
We don't need to go any deeper

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[As raposas solitárias que atravessam a noite em silêncio foram pintadas por Franz Marc]
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sexta-feira, janeiro 10, 2020

O Sistema de Privilégios segundo João Habitualmente



E se de repente defendesse o latifúndio
só para garantir o teu corpo inteiro?

um sistema de privilégios
em que esteja incluída a curva do esterno
a curva que arqueja
quando vimos do ventre

Subo? Não subo?
Ali a meus pés
a meus pés e em minhas mãos
a região soberba das mamas

por que não eriças desta vez os mamilos?
Não falas, não gemes -- esperas apenas que eu passe

Sigo o método dos ladrões
e avanço como em propriedade minha
não espero, não me detenho
cansei-me do desejo adiado

a vida é à semana
e teu corpo a festa e o feriado

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E, para quem acha que me passei e que virei exibicionista, agora uma imagem que prova bem que não senhor,  esta que aqui vos escreve continua a ser a Santa UJM que tão bem conheceis, com os mamilos eriçados e tudo. Ámen. 

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O casto poema é de João Habitualmente in 'Um dia tudo isto será meu'. Vem ao som de I'm your man de Leonard Cohen. Kate Moss aqui é fotografada por Tim Walker.

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Até já

sábado, novembro 23, 2019

Obrigada pela dança



Do centro da terra, do alto dos montes, da curva dos rios, escorrendo da haste das flores, escondido no rasgão do tronco das árvores, no alto da cúpula mais altaneira, no ventre macio de uma mulher, no nome que se esconde de alguém que se esconde, na voz de quem, em silêncio, escreve ou diz um poema, no uivo do lobo na dobra da noite mais fria, no abraço quente de um homem apaixonado, nas palavras nascidas de lugar nenhum, no sussurro insano dos amantes, nas mais pequenas coisas, em tudo, se esconde o sentido do que somos. 

Não estendas a invisível linha do tempo sobre o solo nem a imagines sobre um céu azul e liso, não queiras decifrar a melodia que desponta entre palavras nem o obscuro segredo que se oculta na sombra das palavras. Não há significado ou solução ou, se há, são irrelevantes. O que importa não tem nome, não tem dimensão, não tem matéria. Tudo o que importa é efémero, misterioso, indizível. Tudo o que é importante pousa devagarinho sobre o teu coração e aninha-se na concha da tua mão e procura o amparo do teu abraço e procura o teu sorriso contido e lambe como um bicho sedento e louco o sal das lágrimas que escondes. Pode parecer o sopro do vento, a música da chuva, o som da tua ou da minha respiração, pode parecer a espuma de uma onda, um tronco deslizando sobre as águas, uma palavra deixada por aí, um passo de dança apenas imaginado, o rasto de um sonho, a carícia pela qual eu e o tu ansiamos.

E se tudo nasce de um acaso e é feito de nada e se tudo acaba tornando-se em nada, então não estranhes que festeje o breve instante entre o nada de antes e o nada de depois e respeite o eterno mistério do breve arco e de tudo.

Nem estranhes que me emocione com a elegância, a gentileza e a indescritível beleza de cada momento. Nem estranhes que me deslumbre com as sementes de infinito que se desvendam em vozes que nos chegam dos tempos da infinita luz. 


sábado, outubro 26, 2019

Ergo-me do lado de cá do mar, do lado de cá de mim





A JV, em cujo gosto confio sem questionar, recomendou-me o 'O rei faz vénia e mata' e eu, que sou bem mandada, fui à procura dele. No outro dia fui à livraria grande. Não tinha. Encomendariam mas, tal como tinham informado num outro dia, teria que pagar logo. Ora embirro com isso. Há abébias que não dou, tenho por lema de vida não contrariar as minhas embirrações. Portanto, fui esta sexta-feira à livraria pequena. Não tinham mas encomendaram. Gente de paz. Gosto de lá. Pequenina mas o que lá há é tudo bom. 

Os clientes também são dos que gostam de livros, gente que, do que percebo, é gente do bem.


Só uma cliente hoje me pareceu ser sombria. Tinha um semblante carregado, chegou, leu um papel e pediu um livro. Depois disse que queria talão de troca porque era para oferta e, a seguir, disse que era com contribuinte. A livreira, jovem simpática e insegura (talvez por ser recente lá), perguntou-lhe o número de contribuinte, tirou o talão, perguntou se queria saco. A cliente, com ar de poucos amigos, perguntou: 'E o talão de troca?'. A jovem fez um ar atrapalhado, pediu desculpa, que tirava já. A cliente, com ar superior, carregou no cenho: 'Eu tinha dito que era para oferta!'. A jovem voltou a pedir desculpa, aflita. E eu pensei que a vida daquela mulher devia ser muito má para descarregar tanto azedume em cima de uma pessoa tão insegura e esforçada como a jovem livreira. 


A seguir aproximou-se um homem muito alto, muito bonito. Deslizou como um leopardo por entre os livros, folheou alguns. Pensei que o conhecia, o nome à espreita atrás do pensamento. Depois ele passou a mão pela farta cabeleira e eu confirmei que era mesmo ele. Pensei que era a primeira vez que via uma pessoa da televisão que, em vez de ter metade do tamanho que parecia, tinha era o dobro. Pensei também que era mais bonito do que antes pensava que era. Pensei que era bom que falasse para eu poder confirmar se o mesmo com a voz. Falou mas foi em voz baixa, não conseguir distinguir o timbre. Esteve ao pé da caixa a falar com a livreira. Então chegou uma jovem que deveria ter metade da idade dele mas que deveria andar pelo metro e oitenta, cabelos muito compridos, daqueles que as jovens põem todo para um lado. E um vestido branco, pelo meio da perna, solto, botas, e, por cima, um casaco leve, também comprido, quase do tamanho do vestido, grandes bolsos. Chegou-se a ele, deu-lhe um beijo na boca que ele recebeu com indiferença. A seguir ela recebeu uma chamada e foi atender lá para fora e ele continuou a ver os livros.

Quando ia a sair, reparei na agenda literária. Folheei. Gostei. Pensei que talvez me habitue a tomar apontamentos. Voltei atrás. Depois vi as tisanas da Ana Hatherly. Tentei-me. Vi o I'm your man. Folheei. Não me tentei. Não sei se quero saber mais dele. Acho que há pessoas que não devem ser dissecadas para que não percamos o encantamento cego pelo que fazem.


Quando vinha a sair, saíu também o gigante, lindo, tranquilo. Seguiu como se se tivesse esquecido da namorada. Ela, ainda ao telefone, pondo o cabelo ora sobre um ombro, ora sobre o outro, foi atrás dele.

Tive pena de ser míope porque não consegui ver que livros ele tinha levado. 

E a seguir fui eu que recebi um telefonema e foi ainda ao telefone que desci ao interior da terra e foi ao telefone que conduzi até ao escritório. E toda a tarde foi uma complicação, tantos telefonemas, tantos mails, tantas mensagens, tanta gente a vir falar ao meu gabinete que acabei o dia tarde e com a cabeça feita em água. E quando cheguei a casa ainda tinha mails para responder e agora já os despachei a todos mas sei que nos próximos dias a coisa vai agravar-se porque estamos numa fase crítica e porque junta-se a fase dos forecasts e orçamentos e análise de desvios e isso em cima de tudo o resto é uma canseira. 

E agora estou aqui a pensar que podia ter preparado uma infusão de chá branco porque isso faria pendant com as tisanas que tenho estado a bebericar no intervalo destes rabiscos.


112. É de noite. Deito-me no chão e penso no meu corpo. Estou no meu corpo a seu lado. Estou do seu lado. Interrrogo que queres. Querer é a lei da boca.
113. Estás de visita meu corpo se agita o que é belo me agride. Uma chuva de dardos reconstrói o mistério que conduz ao êxtase. Nos amantes há sempre esse decisivo horror.


E, ao prosseguir, ocorre-me que, afinal, com estas palavras, talvez ficasse bem algum gengibre na infusão de chá branco.

Ocorre-me também que tão bom como estar aqui, em silêncio, a escrever a meio da noite é conhecer pessoas extraordinárias que chegam até mim pelas suas palavras tal como eu lhes chego pelas minhas palavras. Uma teia, uma rede feita de palavras unindo-me a pessoas que, longe de mim, desconhecidas, imateriais, sabem tocar o meu coração. Umas chegam com o seu nome, a sua história de vida. Outras chegam com outros nomes, outras histórias. Mas há verdade em tudo. E eu sinto o pulsar, o respirar, o olhar de todas essas pessoas, aí desse lado, tão perto de mim.  E não sei como agradecer o bem que me fazem sentir.


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As imagens mostram trabalhos de Ana Hatherly tal como são dela as duas tisanas que transcrevi (do livro '351 tisanas') e as palavras que escolhi para encabeçar o post. Lá em cima, Leonard Cohen interpreta Happens to the Heart 

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Desejo-lhe, a si, um bom sábado, um sábado com saúde, alegria, afecto, tranquilidade

domingo, setembro 22, 2019

Goal.
Leonard Cohen ainda e sempre entre nós



Silêncio, por favor. 

Leonard Cohen entra, de novo, nas nossas vidas. Ainda vivo. Sempervirens. Eternamente cantando para nós, eternamente envolvendo-nos no veludo esculpido no carvão das suas palavras e da sua voz.

I can't leave my house
Or answer the phone
I'm going down again
But I'm not alone
Settling at last
Accounts of the soul
This for the trash
That paid in full
As for the fall - it began long ago
Can't stop the rain
Can't stop the snow
I sit in my chair
I look at the street
The neighbor returns my smile of defeat
I move with the leaves
I shine with the chrome
I'm almost alive
I'm almost at home
No one to follow
And nothing to teach
Except that the goal
Falls short of the reach



quarta-feira, setembro 18, 2019

E Deus criou o Brad Pitt




Não tenho culpa. Gosto de homens bonitos. Conheço quem goste de homens feios. Aliás, ainda bem que é assim pois de outra forma ou havia carradas de homens bonitos pendurados ou a mesma coisa mas em feio. Assim há procura para tudo, e assim é que está certo.

Mas eu, santa paciência, sempre gostei deles não apenas bem apessoados (como diz a minha amiga bicha) mas, mesmo, giraços. Dantes dizia-se 'borrachos' ou, antes disso, 'pães'. Também se diz 'gatos'. Por mim, qualquer epíteto lhes assenta bem.

Depois de ter gostado de vários meninos quando era pequenina, sobretudo de um -- embora fizesse de tudo para lhe fazer ciúmes -- o primeiro de quem gostei a sério, na minha condição de pré-mulher , era o oposto do que viria a ser o meu 'género'. Esse era louro e tinha qualquer coisa de Brad Pitt. Tinha aquele tipo de nariz, aquele tipo de irreverência, aquele tipo de charme. Era um bad boy que, enquanto dançávamos, me abraçava de uma forma que fazia despertar em mim o efeito, até então desconhecido, das hormonas em erupção. E a forma como me afastava devagar o cabelo para um dos lados para me beijar o pescoço com aqueles lábios que ferviam incendiava todos as terminações nervosas do meu corpo. 

Numa fase indefinida entre o primeiro e o segundo, houve uma breve história com o que devia ser o mais bonito do liceu. Lindo, cabelo castanho escuro, olhos muito verdes, um corpo de modelo. A menina Dina, a contínua daquele corredor, dizia-me: 'Sabes escolhê-los' e, quando me via a balançar para o primeiro, meu primeiro grande, grande amor, censurava-me: 'Mas há lá comparação...? Podendo tu ficar com aquela brasa, que é que tu vês neste ali?'. Mas via. Era não apenas um bad boy mas também um sexy boy mas isso, se calhar, só eu é que sabia. E sendo um bom jogador de futebol e um aventureiro, um desafiador, um maluco que se metia em todo o tipo de sarilhos, surpreendia a turma inteira quando revelava ser um exímio diseur, em especial de poesia. Eu ficava arrepiada e, pelo silêncio durante e no fim, presumo que toda a gente também o ficava. 

O segundo, o artista, era muito talentoso e era bonito, diziam-no até muito bonito, e tinha pele clara e olhos cor de violeta mas cabelos pretos. Já aqui falei muitas vezes dele, não vou repetir.

Do terceiro, o moreno, mais moreno que sei lá o quê -- em especial quando está bronzeado como agora está -- é fisicamente o oposto do primeiro.

E o que se conclui daqui é que isto de géneros, cor de pele, cor de cabelo ou de olhos é bem capaz de ser pormenor. Ou melhor, para ser franca, pormenor não é. O primeiro, apesar de louro, como andava sempre na rua e fazia imenso desporto e deslocava-se de bicicleta e mota (sem capacete), andava sempre bronzeado e o cabelo com madeixas arruçadas, coisa que eu achava o máximo. Homens de pele muito branca não fazem o meu género. Mas isto é porque, na volta, não calhou conhecer um especial de corrida e copinho de leite.

Quando vi a primeira vez o Brad Pitt, no 'Thelma e Louise', fiquei rendida. Coisa mais linda. E em 'Lendas de Paixão'? 

Por duas vezes foi eleito pela People o homem mais sexy do mundo, em 1995 e em 2000.

E tinha graça quando andava com a Gwyneth Paltrow e, depois, com Jennifer Anniston. Fazia casais bonitos. Estavam bem para ele e ele para elas. Quando foi o romance com a Angelina Jolie não gostei. Não sei. Muito stress em cima dele. Tinha que ser muito bem comportado, muito politicamente correcto, muito marido ideal a acompanhar a sua muito politicamente correcta Angelina. 

Depois foi o que foi. E o álcool e os Alcoólicos Anónimos e a magreza.

E agora eis que, de novo, é o Brad Pitt que aparece.


O mesmo Brad. Lindo, sexy, aquele sorriso que arrasa corações, aquela vontade de olhar (e não falo em mexer por mero realismo).

Onde aparece causa furor. Ele sorri, aquele sorriso irónico, lindo de morrer. Já tem 55 anos e a beleza e o charme só fizeram foi crescer.


O The New York Times escreveu um artigo a que deu o título: 'Os planetas, as estrelas e Brad Pitt'. 


E o Madame le Figaro escreve: Et Dieu recréa Brad Pitt (sur les cendres encore chaudes de Brangelina) de onde aproveitei a ideia para o título deste post.

As nove cenas mais sexy de Pitt, Brad Pitt



E até já

quarta-feira, agosto 21, 2019

A casinha das manas Poppy & Cara.
E alguns dedos de prosa a propósito disto, de casas.







Bem, repetir-me-ei se disser que gosto imenso de decoração. Tal como aqui já uma vez contei, em conversa com a Isabel, tenho um movelzinho cheio de revistas de decoração. Art et Décoration, por exemplo. Ou a Casa Cláudia, também por exemplo. Ou a Casa e Jardim. E outras. Tudo coisas que demonstram à saciedade que sou vcc. Mas, desde tempos imemoriais, sempre gostei. E muitas vezes gosto até mais das casas que são o oposto das minhas. Não interessa. Gosto, mesmo que não tenha nada a ver comigo. Se bem que isto de 'ter a ver comigo' tem que se lhe diga. É que mudo. Pode haver coisas de que eu gostava antes e que hoje já pouco ou nada me dizem. 

Por exemplo. Ainda hoje estive vai que não vai para comprar um vestido que, até não há muito, seria incapaz sequer de supor a hipótese de o usar. Hoje até o provei. E gostei de me ver, caraças. Mas é de tal forma extravagante, tem tais cores, é todo ele tão extraordinário que me parece encaixar em mim que nem uma luva. Só não comprei porque o vestido é tão bonito e tão vistoso que não estou a ver que o pudesse repetir muito. Ora estar a comprar um vestido para apenas o vestir quando o rei faz anos, quando ainda por cima nem rei temos, parece-me coisa para quem é dado a luxos, o que não é de todo o meu caso. Mas isto para dizer que me vi dentro daquele vestido e gostei -- quando antes tinha que ser vestido simples, justo, quiçá em preto. Com as casas a mesma coisa. Saísse-me o euromilhões e era ver a casa que eu ia ter. O oposto desta em que estou. No entanto, gosto da minha. Só que acho que a casa cristalizou no tempo e eu não. 
Mas acontece-me ir a casas de outras pessoas e, sem querer, dar por mim a pensar: aquele espelho está acima demais, aquele móvel devia mudar de sítio, aqueles sofás são escuros de mais. E, confesso, é com esforço que me mantenho de bico calado. Bem, na casa dos meus filhos volta e meia dou palpites. É mais forte que eu.

Quando mudámos de casa ou quando andávamos à procura de uma casa de campo vi montes, resmas, paletes de casas.
Já o contei. Repito-me. Sorry.
Mas ficava estarrecida com o que via. Há casas que revelam a vida triste dos que lá vivem. Há casas que mostram quão fictícias são as vidas dos que lá se esforçam por parecer felizes. Há casas que deprimem quem lá entra, nem que apenas por minutos.

Não me lembro se já contei sobre uma casa que me deu muita tristeza. Era uma casa grande, envolta por um jardim relvado. Quem mostrou a casa foi a dona. Uma mulher bonita, vistosa, platinada, bem maquilhada, bem vestida. A casa, mal entrei, deu-me vontade de fugir. Um hall enorme. Chão aos losangos de mármore em preto e branco. Vitrais nas paredes. Uma escadaria hollywoodesca. Uma sala grande com uns sofás de veludo em preto com almofadas também em veludo, umas em dourado e outras, se bem me lembro, rosa choque. Na sala de jantar, uma mesa de vidro com grandes pés dourados. E uns jarrões gigantes que não me lembro se eram chineses ou achinesados. E aquele chão que só por si canibalizava qualquer decoração. E lá em cima os quartos com grandes cortinados vaporosos e uma colcha com folhos. Tudo uma coisa do além, tudo a pretender ser ofuscante, tudo too much. Um kitsch copioso, quase opressivo. E, então, a senhora, comovida, contou que era com grande desgosto que ia separar-se daquela casa de sonho, uma casa que tão carinhosamente tinha decorado. O marido tinha arranjado outra, tinha saído de casa, estavam a divorciar-se, ela não podia conservar a casa. Estava de rastos.


Tive muita pena. Devo ter dito que compreendia o desgosto, e compreendia mesmo, mas escondi tudo o que pensava pois o que, sobretudo, pensava é que aquela casa era um cenário impossível, uma ficção, ali não seria possível viver uma vida a sério. E quase apostava que a senhora era daquelas que quer manter sempre a casa imaculada, nem uma almofada torta, nunca uma toalha molhada, amarfanhada a um canto do toalheiro.
E digo isto, detestando a maneira como o meu marido põe a toalha no toalheiro. Mas, ao fim de algum tempo, desisti. Que se lixe a toalha. Não vou estar a maçá-lo a ele e a mim por causa de uma toalha. E almofadas fora do sítio, cá em casa é mato. Isso e tudo. Mas a casa daquela senhora era notoriamente o cenário de um filme do qual o actor principal fugiu -- melhor, em que qualquer actor fugiria.
Isto para dizer que as casas são importantes na vida das pessoas. Têm que ser boas para acolher a vida, têm que saber respeitar a vida de quem lá vive. E é bom que deixem entrar a luz e o ar, que gostem de movimento, de desarrumação, que tenham cor e que, simultaneamente, sejam lugares, também, de recolhimento e serenidade. Se, pelo contrário, rejeitam as manifestações de vida ou tentam domesticá-la, então, não são casas, são prisões, são gaiolas, são armadilhas, são uma caixa cheia de tristezas. 

Podia ir, aqui, agora, para enfeitar o texto, fazer umas fotografias às minhas almofadas, às minhas caixinhas de música, às minhas clepsidras, às minhas pequenas ânforas de vidro fosco e cor de água, às minhas molduras com gente desalinhada lá dentro, aos meus livros. Mas não me apetece. Estive até agora com um olho no burro e outro no cigano, deliciada a ver um dos meus programas de eleição, a Prova Oral do Alvim. Já vos contei que adoro o Alvim? Love, love, love. Tudo o que é maluco me encanta. E hoje teve lá outro dos meus malucos de estimação, o Pedro Paixão. Que bom, o Alvim e o Paixão juntos. Um pitéu. Um piteuzaço.

E agora, mal o Paixão acabou a leitura do texto sobre o seu amor adormecido (coisa mais boa de ouvir...), virei para o Alone. Está a dar o último episódio. Emocionante. O David vai ganhar. Quem diria? O mais inábil, aquele que eu achei que não ia aguentar. Foi a força da vontade de obter o dinheiro para pagar os estudos dos filhos, foi a força do grande amor que sempre demonstrou por eles e da vontade de os compensar por nunca lhes ter podido dar o que eles precisavam.

Por isso, já estão a ver, não é fácil levantar-me e fazer uma reportagem fotográfica caseira.


Passo, então, à fantástica casa das manas Delevigne, a Poppy e a Cara. Lá está: acho que nunca decoraria a minha casa assim. Acho. Mas sei lá. Até porque, por acaso, até gosto. Caraças. Gosto mesmo. São da casa delas as fotografias que aqui coloquei. E a graça delas...?



Não é tão gira, a little casinha delas?

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Quanto à perspectiva de mais uma greve do Pardal só tenho a dizer que não há pachorra. Enquanto as televisões continuarem a dar-lhe palco isto não vai parar porque é isto que ele quer: palco para poder exercer a sua agenda pessoal.

Isto vai sair do bolso dos pobres dos motoristas que andam a ser instrumentalizados e ainda não perceberam.

E, senhores juristas, uma questão de carácter geral: qual a forma legal de lidar com uma pessoa que pratica a sistemática manipulação ou o desvio da verdade? Pergunto.

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quinta-feira, agosto 15, 2019

O segredo por detrás dos dons divinatórios de Dave, o mago.
[Ou como os mágicos, cartomantes ou espiões têm agora a vida facilitada]
Ora vejam, por favor.
Ah, e já dei nome ao meu folhetim: 'A Agente Secreta'.




Andava sem saber que nome dar à minha história. E chamo-lhe história sabendo que história não será bem o termo. Folhetim. Talvez folhetim como nas vezes anteriores em que me deu para ficcionar. Não sabia que nome dar a este folhetim. Ao escrever cada episódio nunca sei onde vai dar e, por isso, não sabia se ia contar a história do Manel, a da Clara, a do roubo de informação sensível, ou a de viver uma vida de segredos ou o quê. 

Mas hoje acordei com um nome. Como tantas vezes, é no escurinho de uma noite de sono que se me faz luz. E foi, de novo, o caso: acordei a pensar que lhe ia dar o nome de 'A agente secreta'. Simples. Sem rodeios. Claro que o título, em si, encerra uma subtileza mas isso é coisa que, cá para mim, é muito bem capaz de ficar só para mim. Neste momento ainda não sei se conte mais uma ou outra coisa ou se já chega. A bem dizer nem sei se, de facto, até já não disse demais. Mas já disse, está dito. 


E conto-vos mais: já me chamaram a atenção para que me estava a esticar, que tivesse cuidado, que há coisas que não são para ser reveladas. Não acho. E sou assim: se sinto que tentam constranger-me, esperneio. Esperneio às claras, dou um chega para lá. Preciso de espaço e sei o que faço. Podendo parecer que digo demais, na realidade só digo o que considero que faz sentido ser dito. E o que contei no meu humilde folhetinzinho é coisa pouca, nada, só efabulações. Nada daquilo aconteceu. Pelo menos não a pessoas com aqueles nomes.

Enfim. Agruras cá minhas.

É como eu saber, quase antes de se saber, que o Pardal não é flor que se cheire e que é bom que quem tem o caso em mãos se despache para que quem ainda não percebeu o que ali está fique rapidamente a saber quem é o 'artista' que está a armar toda esta baderna. E não é que tenha pena do Bloco de Esquerda ou do PSD ou de todos quantos ingénua ou oportunisticamente apoiam o Pardal e as suas 'habilidades': tenho, isso sim, pena dos motoristas, dos trabalhadores honestos que não sabem com quem se meteram e a quem esta brincadeira vai sair cara.


Mas o tema deste post é outro. Tem a ver com a forma como nos movemos, como agimos. Tem a ver com a forma como nos colocamos a jeito. Como nos tornamos vulneráveis. E aqui uso o nós  -- que não é majestático mas, apenas, humilde -- apenas para que não pareça que me sinto acima das armadilhas que aí estão a cada passo. 

Vejam, por favor, este vídeo. Vejam com atenção. E aceitem, por favor, a minha sugestão: pensem.


Facebook, Instagram, até o WhatsApp: a vida toda exposta, tudo registado, partilhado -- conversas, fotos. Mesmo o LinkedIn. Tudo. O que se faz, por onde se anda, por onde se andou, aquilo de que se gosta,  as pessoas com que se dá. Dir-se-á: há coisas que são privadas, apenas para quem faz parte do grupo. Pois, pois. Poderia explicar como um amigo passa a outro que passa a outro... até que vai parar onde não se faz ideia. Mas acho que não são precisas muitas explicações.

Poderia ainda referir a vida facilitada que agora têm todos os que, por um motivo ou por outro, pretendem obter informação sobre alguém. Mas também acho que não são precisas grandes explicações. Dá para perceber.

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E agora vou pensar se acrescento mais algum bocadinho de prosa à 'Agente Secreta'. Mas não é fácil: como dizer o que não pode ser dito sem que me desnude?

E espero que gostem das pinturas de Jason Anderson tal como espero que gostem de ouvir Leonard Cohen com Hey, That's No Way To Say Goodbye. É que, por vezes, não há maneira de dizer adeus.  E eu detesto dizer adeus. Por isso, não vou dizer. Nem agora nem amanhã, ao acordar. Se calhar, nem nunca.

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segunda-feira, julho 01, 2019

Pode um amor...?



A história de amor entre Leonard e Marianne é bem conhecida. Durou uma vida. Viveram juntos, em tempos de sol e mar, e ela foi a sua musa até que a necessidade de ganharem a vida falou mais alto e se separaram, cada um à sua vida, para se organizarem. Mas o amor prevaleceu. 


Melhor: foi prevalecendo porque amores nascidos na luz dificilmente se mantêm luminosos em ambientes confinados.


Até que outros amores entraram em cena. Entraram e saíram e foram entrando e saindo. Leonard sabia falar de amor e sabia amar as mulheres e elas retribuiram.

A distância e o tempo foram depositando no coração de Leonard e Marianne aquela poeira feita de saudade que faz dourar as memórias e a nostalgia daquele amor solar sempre se manteve. 


A carta de despedida e amor que Leonard enviou à sua musa doente, pouco tempo antes de partir, correu mundo e mostrou que há amores que são eternos. Tinham ambos outras companhias mas isso não impedia que o afecto entre ambos estivesse ainda vivo. 
Dearest Marianne,
I’m just a little behind you, close enough to take your hand. This old body has given up, just as yours has too, and the eviction notice is on its way any day now.
“I’ve never forgotten your love and your beauty. But you know that. I don’t have to say any more. Safe travels old friend. See you down the road. Love and gratitude. 
Leonard
Pouco tempo depois de Marianne, foi a vez dele também se ir. 

Pode o mundo agigantar-se de permeio deixando os amantes apaixonados tão pequenos e impotentes, pode o tempo cavar um fosso que parece devorar a memória, pode a vida de todos os dias traçar outras linhas e outros destinos. Pode. Mas, apesar de tudo, a raiz do amor que se espalhou sob a pele, que se insinuou no coração, na mente, no corpo inteiro, um amor nascido das palavras, selado pelo olhar e unido pela cumplicidade, manter-se-á viva até ao fim. Alimentar-se-á de tudo, de cada pequena coisa, de um sorriso que se intui, de um golpe de inteligência que se apercebe mesmo que ao longe, de um poema que se ama em conjunto, de doces recordações, de um raio de luz que um dia pousou ao de leve no outro, de umas flores que para sempre emoldurarão a visão do amado naqueles inocentes e distantes dias em que eram felizes. Cada pequena coisa será sustento para a raiz de um grande amor, de um amor nascido para ser eterno.

Marianne & Leonard: Words of Love




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Escrito depois de ler: Leonard Cohen and Marianne Ihlen: the love affair of a lifetime de Andrew Anthony no The Guardian

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Canções inspiradas em Marianne





Always

domingo, julho 08, 2018

A tarde cresce com o seu passo de tigre sobre as hortas




Almocei um peixe a saber a mar na beira-praia. Antes tinha ligado à minha mãe, que se arranjasse, que passaríamos lá a apanhá-la. 
Não, não, o teu pai. Não. Já sabes que não. Não quero. Já sabes. Não.
       -
Sempre isso. O pai nem dá por nada. É como ir às compras. Vá.
Não é, não é a mesma coisa. Não. Não gosto de sair e deixá-lo aqui. Já sabes.
       - Ora, deixe-se disso e vá-se arranjar. Não demoramos. Vá.
Mas tenho que avisar a Z., tenho que lhe pedir que fique cá. 
       - Sim, claro, ligue-lhe.
Mas agora ela foi tratar de uma senhora longe daqui e nunca leva o telemóvel. 
       - Vá, então ligue daqui a nada para o fixo de casa dela 
Pouco tempo depois, apanhámo-la. Tudo combinado com a Z. Com a blusa nova em tricot, de meia manga, muito elegante, acabada de fazer por ela a partir de fios de linha que há muito tempo uma tia do meu marido lhe tinha mandado, um em cor de pérola e outro em cor de mel claro. Estava como sempre, toda jovem e solar, sorridente e conversadora.


Gostou do restaurante, relembrou o lugar que tão bem conheceu quando não era nada disto. Agora tudo está mais bonito. Aliás, é geral: as cidades estão todas mais bonitas.

A comida boa mas o serviço demorado. Portanto, almoço longo. A ver o mar, os barquinhos, as pessoas na praia. Bom. Sem pressas.

Regressou contente e eu feliz por vê-la feliz. 

Depois, já só nós dois. Aqui chegados, estava aquele verão que aqui é tão intenso e bom. Biquini, espreguiçadeira, o perfume da figueira, os pássaros.


Mas, antes de preguiçar, caminhei, contemplei as flores, observei as diferenças desde a semana passada, a caruma que cresceu nos caminhos, os orégãos mais floridos, os figos a deitar corpo.

Quis registar-me imersa em verde. Fotografei-me. Um dia ainda me rendo à moda das selfies, provavelmente quando as selfies tiverem passado de moda. Não sei porquê, a mini-mini maquininha disparou o flash. Sabe que não quero mostrar-me e mostrou ser mais inteligente do que eu supunha.


Depois, deitei-me entre a sombra da figueira e a do telheiro. Pensava que ia dormir mas não. Olhei as telhas. Estão aqui há mais de vinte anos. Vão mudando de cor. Cada vez estão mais bonitas. Com o tempo estão tão verdes como o verde que aqui nos rodeia.

A estrela de vidro que tem lá dentro uma vela mantem-se amarelinha e eu gosto de vê-la suspensa das traves de madeira.


Uma paz tão boa, tão doce e luminosa.

Não sei porquê, resolvi fazer um exercício. De olhos fechados, pensei: agora a perna -- e senti a perna --, agora a outra -- e senti a outra --, devagar, agora o braço. Pensei: isto, se calhar, é meditação. E é bom.

Tranquila de corpo e alma, pus-me a ler.

Depois veio o meu marido e armou-se em cigano, daqueles que não conseguem ver sem mexer. E então, para nosso espanto, ouvimos um pipilar furibundo. Uma valente desanda, alto e bom som, com irritação e veemência. O meu marido tirou a maozinha e deitou o olhar ao alto, tentando descobrir o pássaro puritano. Eu também, intrigada. Mas só depois o vi a bater as asas apressadamente, enquanto levantava voo. Disse-lhe: Como vês, até irritaste o pássaro. Não ligou, riu-se. Não aprende a portar-se bem nem por mais uma.

Continuei a ler.


A prosa boa que conheci do blog que a autora em má hora tirou do ar. E eu, under a fig tree, os passarinhos, os verdes all around, tudo tão bom, chego ao apontamento 83 onde, a terminar, leio assim:
A tarde cresce com o seu passo de tigre sobre as hortas.
Parei. Gostei. Uma coisa que não lembraria a ninguém mas que me soou bem. Imaginei. Lá em baixo, na minha horta, um tigre, com o seu passo subtil e vagaroso, a avançar, lento, inteligente, perigoso.  Haveria de ser azul.

Gostei mesmo da ideia. De olhos fechados, para mim, repeti a frase. A tarde cresce com o seu passo de tigre sobre as hortas. Muito bom.


Numa horta ninguém espera que apareça um tigre. Se eu soubesse que, aqui in heaven, existia um tigre, eu haveria de andar, a respiração suspensa, arrepiada de curiosidade e medo, evitando a gruta e os locais mais sombrios do bosque, aqueles em que ele, traiçoeiro, haveria de se pôr escondido.


E, por isso, que susto sentiria quando inocentemente fosse à horta e... do nada... sentisse um olhar felino ameaçadoramente pousado sobre a minha pele, um olhar cor de mel num corpo sedoso e azul.

Resolvi transcrever aqui a frase.

Só que agora, ao transcrever, reparei que não era bem aquilo. A frase, afinal, é assim:
A tarde cresce com o seu passo de tigre sobre as horas. 
Reli, espantada. Horas? Afinal não é hortas? Bolas. Não pode ser. Logo agora que começava a habituar-me à ideia de que andava um tigre na minha horta.


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E, já agora, por falar em tigres azuis: Jorge Luis Borges


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As fotografias foram feitas este sábado.

Lá em cima Cohen canta Take this Waltz por sugestão contida no apontamento 119 do livro Dano e Virtude de Ivone Mendes da Silva

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domingo, abril 08, 2018

In heaven em dia de chuva, casamento, Pedro Mexia e culinária





Quando vínhamos para cá, vim a ler o tal livro que, para o fazer durar, ando a ler a conta-gotas, O Leopardo, e, no telemóvel, a entrevista de Pedo Mexia. Gosto de ler o que o Pedro Mexia escreve. Os blogs dele eram dos poucos que eu lia quando ainda pouco contacto tinha com o mundo da blogosfera. 

Quando comprava o Expresso, as crónicas dele eram também das primeiras coisas que lia. Fraco Consolo de boa memória.


No entanto, detesto vê-lo metido naquela pangalhada do Governo Sombra (ou melhor, detesto aquele culto da palermice que é o Governo Sombra) e, por causa disso, parece que acabei por me desengraçar um bocado dele.

Mas gostei de ler a entrevista no DN. É a propósito do seu novo livro e aí, do que percebo, fala de vivências em lugares. 

Imagino-o sentado num café, numa esplanada, num quarto de hotel. Parece que anda sempre carregado de canetas com medo que se lhe acabem. Imagino-o escrevendo, vendo as pessoas, observando o ambiente, anotando as suas impressões sempre condimentadas com lembranças de literatura de várias geografias e épocas.


Mal chegámos aqui, in heaven, fomo-nos ao do costume. Agora andamos a desbastar as aroeiras. Crescem muito, deitam ramos a toda a volta. Acabam por formar arbustos gigantes, enormes esferas verdes e perfumadas. O meu marido serra os ramos baixos, desbasta-as fartamente, eu fico-me pelos mais fininhos, e, enquanto ele se atarefa com os ramos grosso, eu vou levando os ramos para o so called campo de futebol, para depois fazermos uma fogueira.

O cheiro da madeira cortada, o perfume do alecrim, dos pinheiros, tudo me encanta de uma forma absoluta. Penso que talvez me sinta tão bem ali quanto os pássaros que cantam com bem sonora alegria.


Começou a chover ao de leve e continuámos. Sabe ainda melhor sentir a chuva quando se está no campo. E eu pensei que, se calhar, o Pedro Mexia -- que conhece tantos lugares e que já leu tantos livros e sabe tanta coisa -- ainda não experimentou estas sensações, estes perfumes, esta imersão nos verdes, os pés sentindo a terra macia e húmida.
Não se é melhor pessoa por podar árvores, por fazer fogueiras que deixam no ar o cheiro ancestral da queima do mato cortado de fresco e do fumo, por andar com a pele molhada como os bichos que por aqui andam. Mas é tão bom que todas as pessoas deveriam poder experimentá-lo para gravarem no corpo e na alma sensações de tempos ainda não tocados pelo progresso.

Depois começou a chover muito. Abriguei-me debaixo de uma árvore. Mas a chuva era torrencial. Corri para me abrigar no telheiro onde tinha deixado a máquina fotográfica. Fotografei. Devia ter filmado para se ouvir o som da chuva, o som do canto dos pássaros, eufóricos, a minha respiração silenciosa para não perturbar o meu encantamento.


Pouco depois, quando a chuva se foi, começámos a ouvir carros a apitar ao longe, aproximando-se, chegando à estrada lá em cima. O meu marido disse: 'Deve haver para aí um casamento'. E eu pensei: casamento molhado, casamento abençoado. O meu marido disse: 'Será o puto? O neto do vizinho? Já têm filhos mas, se calhar, agora é que resolveram casar'. Não sei. O vizinho já morreu e na casa grande vive uma das filhas e tem-nos parecido que no que era, em tempos, um grande armazém no meio da propriedade, vive agora um dos netos com a mulher e os filhos pequenos. Deve ter feito obras, adaptado o edifício. Mas não sabemos.


Entretanto, começou a ouvir-se música. Surpreendentemente, música dita clássica. Diria que Schubert. Os carros foram parando ao longo da nossa vedação -- e, sem que suspeitassem que lá em baixo estavam dois indígenas de serrote e podão em punho a observá-los, pessoas bem vestidas iam andando na direcção da casa lá de trás, do outro lado da rua, ao fundo.

Parecia que estávamos a ver um inesperado filme. Não ouvíamos o que diziam mas víamos que sorriam, que se cumprimentavam, que iam para o que devia ser mesmo um casamento.

Depois a música silenciou-se. Pensei que deveria estar a decorrer a cerimónia.


Algum tempo depois ouviu-se o Hallelujah interpretado por Leonard Cohen. E as pessoas começaram a vir para os carros e os carros começaram a ir lá para baixo. Presumo que iriam para o copo-de-água. Que eu saiba, não há nada lá em baixo. Há um vale, há o rio, há encostas verdejantes, há casas antigas. Não sei para onde terão ido. Talvez tenham arranjado alguma daquelas casas de pedra cobertas pelos enormes salgueiros que parece mergulharem no rio. Talvez lá tivessem uma lareira à espera dos convidados e talvez tenham festejado ao som de outras músicas igualmente bonitas.


O céu foi ficando limpo, bonito, as nuvens escuras aquietadas. E nós continuámos até anoitecer.

Depois voltámos para casa.

Amanhã há mais.

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Vim fazer o jantar. Tinha trazido uma embalagem com dois lombos de salmão que, entretanto, já tinham descongelado.

Não sabia como fazer porque, na prática, pouco mais tinha. Talvez no forno. Mas depois tive uma ideia. Perguntei ao meu marido: 'O salmão com arroz? O que dizes?'. Disse que podia ser.

Tinha uma única cebola roxa. Num tacho coloquei azeite e piquei grosseiramente a cebola roxa, que era de bom tamanho. Estrugi. Descobri um resto de cabeça de alho, pelo que juntei um dentão do dito devidamente picado. Alourou. Juntei uma folha de louro. À vinda para cá tinha parado para comprar fruta e a senhora deu-me um pouco de salsa. Juntei. Coloquei lá, então, os dois lombos de salmão. Juntei também arroz basmati e o dobro da quantidade de água.

Lembrei-me, então: 'Couves'. Fui lá abaixo, a correr, à horta, já quase completamente às escuras. Estava frio. Trouxe duas couvinhas chinesas.

Estas que aqui se vêem em primeiro plano não são as chinesas, são as portugueses.
As chinesas são as mais claras que mal se vêem, atrás 

Lavei as folhinhas e cortei-as para dentro do tacho. Juntei ainda um pouco de alecrim e de sal. Ferveu. Depois de ferver, baixei o lume. Misturei bem. Quando ficou sem água, desliguei. Os lombos tinham-se desmanchado. Com um grafo misturei melhor para o arroz envolver bem os pedaços de peixe e as tirinhas de couve.

Sem falsas modéstias: ficou mesmo bom.

Lavei uns moranguinhos que trouxe da senhora, daqueles pequenos, não adubados. Comemos como sobremesa. Docinhos e saborosos, a saberem a morango.

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Aleluia.


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Voltou a chover. A madeira dos troncos cortados das minhas árvores arde na salamandra, a sala está quentinha e ouço a chuva no telhado, no chão à volta da casa. A noite vai alta e está-se bem.

A minha filha, que é noctívaga como a mãe, acabou de me enviar um filme sobre Inteligência Artificial e escreveu que eu tinha mesmo que ver. Diz que nada que não se soubesse mas, ainda assim, assustador. Mas a rede aqui é muito má, não se conseguem ver filmes. Vejo amanhã ou depois.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo

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