Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, outubro 23, 2019

Qual a última palavra?





Àquela pergunta maçadora sobre que livro levaria para uma ilha deserta caso apenas pudesse levar um, eu responderia: não respondo. Apenas respondo a perguntas que fazem sentido ou que falam de situações prováveis.

Mas agora, estava aqui a preguiçar, ocorreu-me uma ainda mais absurda: se fosse deixar de falar e só tivesse mais uma palavra para dizer, qual diria?
E isto não é improvável. Não me vou repetir contando detalhadamente o que aconteceu a uma tia do meu marido que um dia deixou de falar, conto apenas por alto. A irmã e o marido começaram por pensar que se tinha assustado por o gato ir ficando entalado na porta da cozinha. Mas não ultrapassava o susto, se é que era susto. Depois contaram à família. Era improvável, ninguém levou a sério. Partidas do sistema nervoso, dizíamos. Até que já começava a parecer estranho demais e chamaram um médico. E o médico mandou fazer exames e os exames revelaram o que ninguém podia alguma vez suspeitar. Quando a fui visitar ao hospital, ainda todos incrédulos, ela, que sempre tinha simpatizado comigo, quis sorrir, quis dizer alguma coisa. Mas não conseguiu. E, então, as lágrimas começaram-lhe a correr. Fiz-lhe festas na cabeça, no cabelo. Uma situação muito triste. Deixe, vai passar, disse eu. Ela não acreditou, vi-lhe no olhar. E tinha razão. Não voltou a falar.
O meu pai também quer falar e quase não consegue. Esforça-se bastante mas as palavras não saem ou, se saem, não se percebem. E ele fica desesperado, triste. Desiste. Deixa-se ficar naquele isolamento de quem não consegue comunicar.


Por isso, se eu soubesse que me iria acontecer uma desgraça qualquer desse género, que última palavra diria? E, agora, ao escrever 'última palavra' também me ocorreu outra situação. Mas nesse caso tanto daria porque não ficaria a guardar memória dessa última palavra. Mas, permanecendo viva, que palavra diria, consciente de que estava a dizer a última?

Não sei. Tenho que pensar nisso.

Quando o carro onde ia numa descida em direcção a uma rotunda cheia de carros perdeu os travões e galguei o lancil e fui espetar-me contra uma coisa de chapa, pensei que podia estar a viver os meus últimos instantes e o que me ocorreu foi: nem tempo tenho para pensar nos meus filhos. 

Por isso, talvez que a última palavra fosse: filhos. Mas se a generosidade fosse maior e pudessem ser três, talvez fossem também vida e luz. Mas bom, bom, era se pudessem ser quatro. Aí já podia ser também amor. Ou cinco. Juntava: palavra. Já agora seis. Mar. E porque não sete? Juntava o nome do meu amor. E agora que escrevo penso que não disse netos. Pois não. Mas é que quando tive o acidente ainda não tinha netos e quando pensei que não tinha tempo para pensar nos meus filhos, era mesmo só neles que estava a pensar. Mas agora, quando penso em filhos, penso nos meus filhos e nos filhos dos meus filhos. Por isso, estão todos incluídos, no princípio. No princípio e no fim. E se viver até conhecer os filhos dos filhos dos filhos então melhor -- filhos, uma palavra matrioska.


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Só sei que a última imagem é uma pintura de Van Gogh, as outras desconheço.

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Felicidade a todos.

[Felicidade também podia ser uma das últimas. Mas a última das últimas talvez fosse silêncio]

sexta-feira, outubro 18, 2019

Boogie-woogie a salvar-me o dia






O dia que já terminou não se recomenda. Fui lá porque quis, porque sei que, no meio de muito aparato, há sempre alguma coisa que se aproveita. O pior é que o pouco que se aproveita está envolto em muita buzzword, em muito daquele jargão para o qual já não tenho muita paciência. Sinto-me bicho raro, ave em extinção no meio de muita gente muito feliz com pouca coisa. Há muita gente que gosta muito de se rever e que cultiva esse networking. Eu não. Sou bicho do mato que não encaixa no fusuê urbano, incomoda-me o burburinho, os grupinhos em que as pessoas falam muito, julgando que estão a falar a sério. não dizendo nada que me interesse. 

Na volta é o peso da idade. Com mais de mil anos, já vi e ouvi muita coisa, já distingo a milhas o que é sol de pouca dura, pechisbeque, deslumbramento à toa, palavras que só duram um ano. E depois basta-me olhar para a pinta de um cromo para perceber que dali não sai sumo que se aproveite, só entusiasmo fajuta por coisa de nada, tesão do mijo disfarçada de motivation. Hoje até pontapé na gramática um expert da cocada preta deu. Eu que estava alheada, com a consciência desligada, sem prestar atenção ao que ali se dizia, até acordei, espantada, com o pontapé. Apenas me acalmei porque pensei que se calhar foi engano, distração, nervos. E pensei que quem me garante que, volta e meia, a pensar já na frase seguinte, não atropelo a frase em que estou. Quando me dá para fazer vídeos, aqueles que estão no youtube, nem gosto de ouvir e não é só pela voz que mais parece presa à terra do que saída de dentro de mim, é também porque constato que salto palavra, que encurto raciocínio para passar à frente e falar do que vem a seguir. E quem me garante que, quem ouve, não diz também olha-me esta, que nem palavra direita diz, que nem remata a linha com que cose as palavras, que deixa buraco a meio do palavreado. Por isso, desculpei o pimpão que não soube usar o tempo verbal e disse uma asneira. E voltei a alhear-me.

Mas vim cansada. Cansam-me já algumas coisas que há uns anos me pareciam suportáveis. A questão é que as palavras foram mudando mas as coisas permaneceram as mesmas. E tanto tempo a ver o mesmo tipo de pessoas a dançar a mesma dança na mesma curta pista já cansa. 

E o pior é que, aqui chegada, muito mail profissional e muita treta me esperava. Uma pessoa com a cabeça feita em água e, em vez de poder descansá-la, tem que queimar os poucos neurónios que restam com matéria igualmente desinteressante e, por vezes, arreliadora. Uma gaita.

Quem acabou por me salvar o dia -- ou melhor, o nada que restava dele -- foi o meu amigo: o algoritmo do YouTube. Cá para mim pensou: poor girl, so needed of an innocent joy. E nem sei se o algoritmo agora se expressou da melhor maneira porque nem era bem isto que eu queria dizer. Era mais que ele me apareceu a dizer que achava que eu ia gostar disto. E isto eram uns vídeos em que Brendan Kavanagh, por acaso versado em Literatura mas que tem esta graça de tocar em gares ou aeroportos atraindo toda a espécie de gente livre, se divertia à brava. É que, vendo um piano ou alguém a tocá-lo, uns chegam-se e desatam a dançar, outros sentam-se ao lado dele e tocam, outros cantam. Gente que dá gosto ver. Não se armam em inteligentes, não usam palavras da moda, não se entusiasmam com a perspectiva de terem algum pequeno poder. Não. Do que se vê, é gente que fica feliz só por existir.

E foi assim que, apesar do sono e apesar de saber que daqui a nada tenho que estar a pé para mais uma dose -- e bolas para as doses servidas de madrugada, não há saco que aguente estes eficientes executivos que impõem um regime madrugador aos outros -- me deixei aqui ficar a ver e ouvir estas alegres pianadas. Escolhi alguns para que vejam se também gostam como eu. Tão bom.

Era bom era que nos lugares que frequento tivesse a sorte de haver também disto: gente a tocar piano, a dançar, a improvisar, a dar largas à vontade do corpo. Isso é que era. Mas não tenho essa sorte. Só o meu amigo algoritmo do YouTube é que me conhece bem e me aparece a desoras, a dar-me o braço para me pôr a dançar com os olhos e a sorrir com os dedos.












Enfeitei o post com pinturas de Toulouse-Lautrec por algum motivo que não consigo descortinar. E lá em cima um tango nude pela Compagnia Khorakhané Danza pelas mesmas desrazões.

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E a todos desejo um dia feliz, vivido em liberdade, com boa disposição. E saúde.

😍

segunda-feira, outubro 14, 2019

A minha experiência na urgência de um hospital




Infelizmente, nos últimos anos, já tive que ir muitas vezes a hospitais, muitas vezes às urgências, outras vezes ao SO, outras vezes a enfermarias. Muitos sustos. Se em alguns casos, os meus familiares recorreram a hospitais privados (e felizmente têm seguros que lhes permitem fazer face a essas despesas), noutros a experiência é a dos hospitais públicos.

Durante a semana que passou, o meu pai esteve, uma vez mais, no hospital. Foi chamado o INEM e foi levado paar o hospital público da cidade.

A urgência estava apinhada. Os corredores estavam pejados de macas com doentes que gemiam, gritavam, arfavam. A chamada sala aberta -- que não percebi se era apenas a sala onde estava o meu pai ou se também uma outra sala -- estava identicamente cheia de doentes em estado complicado. Lá fora, várias ambulâncias não podiam ir-se embora pois não havia macas suficientes no hospital e os doentes que tinham levado continuavam nas macas das ambulâncias. 

Ao fim de duas horas do meu pai ter entrado, consegui ir ao pé dele e a enfermeira disse-me que ele aguardava o resultado de exames mas que, da forma como aquilo estava, ainda deveria demorar talvez mais uma hora ou hora e meia. Não consegui falar com o médico que lá vi pois, enquanto lá estive, ele esteve ocupado. Aliás, coitado, não sei como aguentava aquilo.

Ao fim de cerca de mais duas horas cá fora e sem nada conseguir saber, a informação que, a muito custo, consegui obter é que afinal ainda não tinha ido fazer os exames pelo que continuaria em observação e em manobras de mitigação dos sintomas. Esperámos. Até que acabaram por nos dizer que podíamos ir para casa e voltar de manhã para tentar obter notícias. 

Ao fim da manhã do dia seguinte o meu pai teve alta e na nota de alta pode ler-se que ainda aguarda RX ao tórax. A urgência estava ainda mais caótica. Aparentemente desistiram de esperar que ele fizesse o exame e mandaram-no para casa.

E a minha dúvida é a seguinte: ainda não começaram as gripes e durante as longas horas que lá estive não vi que chegassem tantos doentes que justificassem tal lástima na urgência. Aliás, hoje vi na televisão que as ambulâncias tiveram que ser desviadas de lá pois a urgência não conseguia receber mais doentes.

Portanto, inclino-me para que aquela situação desastrosa terá origem não em afluxo anómalo de doentes mas, sim, num estrangulamento interno na própria urgência: ou faltam médicos, ou enfermeiros ou pessoal auxiliar ou, então, pessoal ou equipamento no laboratório ou nos aparelhos de diagnóstico como o RX. E deve ser por isso que os doentes se acumulam nos corredores sem que lhes consigam dar 'vazão'. Diria eu que uma averiguação básica deveria ser capaz de identificar as razões do estrangulamento e, sem grande acréscimo de custos, resolvê-la.

Contudo, aqui entra uma outra dúvida que tenho. Por todo o lado se vêem hospitais privados em construção ou hospitais privados já existentes em obras para duplicar a sua capacidade. E não apenas novos grandes hospitais mas também clínicas. E eu interrogo-me: de onde vêm tantos médicos, tantos enfermeiros, tantos técnicos de meios de diagnóstico? Não percebo. Não pode haver tanto pessoal. em especial médicos. Que eu saiba não abriram mais faculdades de medicina nem alargaram o número de vagas. Portanto, ou muito me engano ou é na escassez física de recursos humanos que reside a raiz do problema.

E, se assim é, que se inventariem os técnicos de saúde necessários no país (médicos, enfermeiros, técnicos - e não junto aqui o pessoal auxiliar pois admito que seja mais fácil recrutá-lo do que aos que exercem funções mais especializadas). E que, por uma vez, se tirem as análises partidárias da equação -- porque são estúpidas e tendenciosas -- e se faça uma análise algébrica simples. E se há um défice efectivo de profissionais pois que, com urgência, se estabeleçam protocolos com as escolas e institutos para aumentar rapidamente o número de vagas (e se mande a Ordem dos Médicos à fava caso não queiram alargar o número de vagas). Mas, até lá, que se recrutem do estrangeiro todos os que hoje e nos próximos anos faltam. Urgentemente.

E não falei noutros técnicos que provavelmente são também deficitários: os técnicos de manutenção de equipamentos médicos, nomeadamente os de electromedicina e outros mais sofisticados. Se esses equipamentos avariam e não houver quem os repare, os doentes esperarão horas a fio por um resultado que pode não vir.

Acredito que não está em causa um aumento significativo no orçamento da Saúde pública pois o que hoje se paga em trabalho suplementar, em folgas compensatórias, em pagamento de reparações de equipamentos seja a que custo for a empresas externas poderia ser compensado por ter mais técnicos residentes a praticarem horários normais.

Este tema tem que ser visto desapaixonadamente mas tem que ser visto já. É que não estou a falar apenas do desconforto de doentes e acompanhantes que esperam horas a fio: falo da saúde das pessoas. Falo de experiências que podem ser traumáticas ou fatais na vida das pessoas.

Diria que António Costa deveria conseguir um acordo de regime para conseguir pegar o tema da Saúde pelos colarinhos. Se não há pessoal que chegue, e estou convencida que não chega mesmo, o lençol não esticará e rasgará pelo lado mais frágil: o Serviço Nacional de Saúde. E isso não pode acontecer. É a saúde de todos que tem que ser defendida.

E Marcelo Rebelo de Sousa que tanto fala da Saúde deveria assegurar isto mesmo: o tema não é de esquerda nem de direita nem de chicana nem de bandeira nem arma de arremesso nem de ricos nem de pobres -- o tema é sério, é urgente e é de todos.

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As pinturas podem não parecer mas são de Rothko,  «Une berceuse de la mort...» é de Fauré

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Uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

Duncan, o grande amor da vida de Keynes e de Nessa Bell



Por vezes tenho pena de não ter pena para aprofundar os assuntos que me interessam. Guardo para o blog apenas o fim dos dias, quando a minha vida externa me liberta. E, quando chego ao fim dos dias, já tenho o fim da noite à vista e, geralmente, já estou cansada, incapaz de estudos e profundidades. Acresce a estas limitações o paradoxo de me deixar interessar por inúmeros assuntos e de, quando o interesse aparece, ter uma grande curiosidade em desvendá-lo. E, então, é como com os livros: vou juntando coisas para fazer, para estudar, para descobrir.

Talvez um dia. Talvez a maior parte nunca.

Isto para dizer que há um grupo de pessoas, uma época e um modo de vida que sempre despertaram a minha atenção. Ao revisitar imagens desse tempo e desse modo de vida no filme Vita & Virginia voltei a sentir vontade de ir conhecer um pouco melhor alguns dos personagens menos mediáticos (se é que assim me posso pronunciar).

Vanessa Bell, a irmã de Virginia, a Nessa, tão amiga, tão próxima, foi pintora e casada com Clive Bell. Clive Bell era um dos membros do grupo de amigos que gostavam de literatura, de pintura, de arte em geral, de conversar, de polemizar. 

Contudo, no filme, quem se vê em cumplicidade, a partilhar o estúdio, como se fosse o companheiro de Nessa é Duncan. Ora Duncan é homossexual. Fui confirmar. De facto, Vanessa, casada com Clive, tinha um amor profundo com Duncan Grant, homossexual assumido. Conseguiu, contudo, seduzi-lo a ponto de terem uma filha. Duncan tinha também um afecto profundo por ela.

Sobre Vanessa Bell, transcrevo da wikipedia:
(...) Após as mortes da sua mãe em, 1895, e do seu pai, em 1904, Vanessa vendeu o 22 Hyde Park Gate e se mudou para Bloomsbury com Virginia e os seus irmãos Thoby (1880-1906) e Adrian (1883-1948), onde eles conheceram e começaram a se socializar com artistas, escritores e intelectuais que viriam a formar o Grupo de Bloomsbury.
Casou-se com Clive Bell em 1907 e tiveram dois filhos, Julian (que morreu em 1937 durante a Guerra Civil Espanhola aos 29 anos) e Quentin. O casal tinha um casamento aberto, ambos tendo diversos amantes durante a vida. Vanessa Bell manteve relações extraconjugais com o crítico de arte Roger Fry e com o pintor Duncan Grant, com quem teve uma filha, Angelica, em 1918, que Clive Bell criou como sua filha.
Vanessa, Clive, Duncan Grant e o amante de Duncan, David Garnett, mudaram-se para o campo de Sussex antes do estopim da Primeira Guerra Mundial, e estabeleceram-se na Charleston Farmhouse, perto de Firle, East Sussex, onde ela e Grant pintaram e trabalharam em encomendas para o Omega Workshops, atelier fundado por Roger Fry. A sua primeira exposição ocorreu no Omega Workshops em 1916. (...)
Sobre Duncan Grant, transcrevo:
(...) Vanessa queria muito ter um filho de Duncan e ficou grávida na primavera de 1918. Embora se suponha que as relações sexuais de Duncan com Vanessa terminaram meses antes de Angelica nascer (Natal, 1918), os dois continuaram a viver juntos por mais 40 anos.
Viver com Vanessa não era impedimento para as relações de Duncan com outros homens, antes ou depois de Angelica nascer. 

His lovers included his cousin, the writer Lytton Strachey, the future politician Arthur Hobhouse and the economist John Maynard Keynes, who at one time considered Grant the love of his life because of his good looks and the originality of his mind.
Angélica cresceu acreditando que Clive Bell era o seu pai, até porque tinha o seu apelido e o comportamento dele nunca lhe deu nenhuma indicação em contrário.  
Duncan e Vanessa tinham um relacionamento aberto, embora ela aparentemente, nunca tenha tido outras relações depois de passar a morar com ele e de ter o seu filho. Duncan, pelo contrário, teve diversas relações sexuais esporádicas e vários relacionamentos sérios com outros homens, sobretudo com David Garnett. No entanto, o seu amor e respeito por Vanessa manteve-se até à morte dela, em 1961. (...)
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Uma fonte inesgotável de motivos de interesse.
Agora já fui atrás do Keynes mas isso já não cabe aqui e, de resto, daria pano para muitas mangas.

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Já agora, Angelica Garnett, a filha de Vanessa e de Duncan


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Vanessa Bell foi, nas pinturas acima, pintada por Duncan Grant. Mais abaixo pode ver-se Duncan com Keynes e, na última, com Ness. Lá em cima Hélène Grimaud toca Bach

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domingo, outubro 13, 2019

Qual dos três o mais safadão...?




Alterámos os planos. Éramos para ter seguido para o campo mal os meninos fossem para casa com os pais mas o que aconteceu foi que, antes de irmos, resolvemos descansar um pouco. Ora o corpo agarrou no sono e não o largou e, quando acordámos, achámos que já era tarde para ir. E havia ainda aquele pendente, a minha vontade de ir ver o filme de que falo no post seguinte. Pesquisei onde havia a seguir uma sessão e fomos.

À vinda, como geralmente acontece no rescaldo de estarmos com eles, contamos um ao outro situações a que o outro não assistiu. 

Por exemplo, eu contei como o bebé desatou a perseguir a irmã que, apesar de fazer duas ou três dele, tem medo quando o vê assim.
É que, quando está naquilo, nunca se sabe o que dali pode sair -- pode dar-lhe para bater, para arranhar ou morder e tudo just for the fun of it. Claro que toda a gente se zanga mas, enfim, ele continua a querer testar os limites. 
Então ela, grandona, corria à volta da mesa a gritar, toda furiosa: 'Pára bebé!' e ele, formigoto,  corria atrás dela a imitá-la: 'Pára bebé! Para bebé!'. Uma cena divertidíssima.
E isto estando adoentado. Pouco depois até o senti quentinho, ficou muito sossegado, muito bem comportadinho. Quis pôr-lhe o termómetro e até foi muito colaborativo, até me disse como aquilo funcionava, tudo muito bem. Mas foi sol de pouca dura, não consegui que se aguentasse sossegado ou com o termómetro posto até aquilo apitar.
E o meu marido contou-me que a menininha mais linda lhe tinha dito que ia a uma festa de anos de uma amiga que vive relativamente perto da nossa casa. Explicou onde. Depois, muito querida, disse ao avô: se passares lá ao pé, eu vou à varanda para te dizer adeus. Ele derretido, com algum sentimento de culpa, 'Mas não vai dar, nós vamos para o campo...' e ela, a fazer-se de incrédula: 'Mas achaste mesmo que eu ia à varanda dizer-te adeus...?'. Pimbas. E ele a contar-me isto reconhecendo o baldinho de água fria que levou pela cabeça abaixo mas, ao mesmo tempo, reconhecendo que aquele temperamentozinho refinado lhe é vagamente familiar...

Mas o melhor está reservado para o mano do meio. Inteligente, boa onda, um artista, um divertido, um malandreco de primeira apanha. Descobriu um livro de fotografia em que conhecidos fotógrafos fotografam mulheres. Contudo, como é expectável, entre fotografias de toda a espécie,  há algumas em que se vêem algumas mulheres em poses mais eróticas ou outras como deus as deitou ao mundo. Pois fui dar com ele muito absorto a ver o livro. Aliás, ao entrar na sala e vendo-o tão compenetrado a ver um livro, nem me ocorreu nada de mais. Ela deveria estar a querer que eu lhe fizesse um penteado e o bebé deveria estar a querer a tejôra roxa para fajê tabalhos pelo que ele estar sossegado com um livro até me pareceu muito bem. Mas, ao fim de pouco tempo, tanta compenetração fez-me espécie. Perguntei: 'Que livro é esse?'. Sobressaltado, fechou o livro. Fui ver e quis escondê-lo. A minha reacção automática, quando percebi a razão de tanto interesse, foi tirar-lhe o livro. Tem sete anos mas já é malicioso todos os dias. Peguei no livro e fui pô-lo num canto da estante da outra ponta da sala, num sítio onde não daria com ele.

Passado um bocado e tendo eu saído da sala, provavelmente na altura em que o bebé pediu para fazer cocó ou que o avô me chamou para qualquer coisa, ao reentrar, vejo-o a levantar-se à pressa, atirando o livro para longe. Zanguei-me: 'Não se deve desobedecer. Se não é para ver o livro, não é para ver. Certo? Ai. Queres que me zangue? Ai, ai!' E coloquei o livro num sítio mais inacessível.
Contudo, ao mesmo tempo, estava na dúvida. Será que deveria mesmo impedi-lo de ver o livro? Ou deveria deixar e aproveitar para lhe explicar a naturalidade das coisas? Mas não ia voltar atrás senão ficaria absurdo e, sobretudo, não havia disponibilidade possível para prelecções.  Nem, de resto, tenho a convicção de que, nestas coisas, as prelecções sirvam para alguma coisa.
Quando ele se foi deitar, coloquei-o por cima dos outros livros, na prateleira de cima, onde ele não o localizaria.

Pois hoje de manhã, conta-me a irmã: 'Sabes? Vou contar uma coisa. O mano disse uma mentira. De manhã, quando acordei, vi que o mano estava na cama a ver aquele livro que tu não querias e, quando me viu, escondeu-o atrás das costas e, sabes o que ele me disse?, disse que o livro tinha aparecido lá na cama'. Fiquei estupefacta. Olhei para ele. Com naturalidade, encolheu os ombros. Tentei zangar-me: 'Ai! Mas isso faz-se?'. Voltou a fazer um ar de quem já não poderia  fazer nada. E eu não disse mais nada pois estava sem perceber como tal tinha sido possível.

E ainda não percebo. Como foi que ele deu com o livro? Como é que lá chegou? E a que horas acordou para ir à sala, pé ante pé, numa de caça ao tesouro? Não percebo mesmo.

Entretanto, no chão, ao pé da mesinha que o bebé usa como 'mesa de trabalho' e onde há folhas, lápis, fita-cola, tesourinha e etc, estava um rolinho de cartolina branca. Pensei que tinha sido o bebé, ao ir buscar folhas para recortar, que tinha descoberto aquele rolinho algures. 

Quando se foram embora, como sempre, pusemo-nos a apanhar as 'cenas' que sempre aparecem fora do sítio, algumas vindas nunca se sabe de onde. Deitei fora as folhas recortadas ou riscadas e, quando apanhei o rolinho, fiquei ainda mais espantada. Era um diploma que há algum tempo me deram na empresa por já lá trabalhar há tempo suficiente para se poder dizer com propriedade que estou a caminho de fazer parte da mobília. Ora, por que raio de carga de água estava aquilo ali...? Pensei: a sorte que foi o bebé não o ter recortado... Depois lembrei-me. Quando recebi aquilo -- bem como uma placa de prata --, não sabendo onde pôr, coloquei na estante grande, sobre os livros, numa das prateleiras de cima. Ora como é que aquilo veio parar ao chão? Ainda por cima estava no lado oposto ao do tal livro? Não sei. Terá aquele manganão, ao romper do dia, andado com alguma coisa a 'varrer' as partes de cima das prateleiras? Não faço ideia. O que sei é que, à medida que vão crescendo, os desafios vão mudando.

Mas não são apenas desafios: são perplexidades, são enlevos, são encantamentos, alegrias, momentos que ficarão na nossa memória, são boas razões para gostar de viver.

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As crianças na arte foram pintadas respectivamente por George Jamesone, provavelmente por William Mosman, Hugh Cameron, Pere Borrel del Caso e Glenda Brown. Lá em cima o Coral Santisima Trinidad de Valencia com o coro de pequenos cantores e o  Coro de la Eliana dirigidos por Basilio Astulez interpretam Mare Nostrum.

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E a todos desejo um feliz dia de domingo

sábado, outubro 12, 2019

Um dia animado, uma noite animada




Logo à abertura, aí estava eu. Mas não fui lesta pois abasteci-me de tomate, alface e uvas e só depois fui tirar a senha para a carne. Cinco pessoas à minha frente. Uma pediu um  pedaço de carne e olhava para mim como que a justificar-se ou a querer a minha aprovação: devia dar um bom guisado, esta parte é a mais saborosa. Depois, quando o senhor pôs a peça ao alto (e estou obviamente a referir-me ao bocado de rabadilha), ela achou que se calhar a outra ao lado era melhor, ele que visse. E olhava para mim e justificava a escolha. Acontece que eu, na primeira hora da manhã e ainda apenas com um café, não consigo socializar. Depois que o senhor do talho a cortasse aos bocadinhos. Mas queria ver o tamanho dos quadradinhos. E eu pensava que ela devia dizer cubinhos. Entretanto, os outros empregados traziam peças para o balcão ou atendiam encomendas. Só um estava de serviço ao público. Nestes momentos começa a subir por mim acima uma impaciência que não se aplaca com facilidade. A seguir foi um senhor que também estava irritadiço pois disse, como se estivesse a dar uma chazada à outra que ainda estava, nas calmas, a arrumar o saco no carrinho, 'Para mim é rápido, é meia dúzia de peitos de frango e não é preciso escolher nem cortar'. Entusiasmei-me. Mas não. A seguir era uma senhora que trazia na mão duas embalagens, cada uma com seu pato. Com ar auto-justificativo de quem estava a dar um golpe mas um golpe legal, disse: 'Eu tenho senha. É só para cortar. Os patos são tão grandes, em asa não consigo' Enchi-me de tolerância. A senhora dava instruções precisas, depois punha-se de bicos de pés para espreitar, depois tinha dúvidas se havia de cortar um bocado mais e olhava para o senhor e para mim a dizer 'são tão grandes, tenho que mandar cortar'. E eu poker face. Sem paciência, a ver a vida a andar para trás. A seguir ao corte dos patos, como se pedisse um favor, a senhora pediu umas bifanas mas o senhor que escolhesse um bocado bom e as cortasse fininhas. O empregado, a paciência em forma de gente, alçou um e outro bocado até obter aprovação. A partir daí entreguei para deus. Que demorassem o que quisessem. Quando chegou a minha vez limitei-me a pedir o que queria e em dois minutos estava despachada. Depois foi ir ao leite, aos iogurtes, ao queijo, à massa, às amêndoas. Depois fui nas horas a casa, pôr as coisas no frigorífico.

À tarde, iríamos buscar três meninos à escola. Jantariam e dormiriam cá.


Não cheguei muito cedo ao escritório.

No meio de análises e auditorias e apresentações, ligou a minha filha. Se calhar havia uma alteração de planos. Podia eu ir buscar os meninos dela à escola e levá-los para casa e se calhar, se fosse preciso, ficar com eles? Sim, podia. Dividíamo-nos, eu ia buscar os dela, o meu marido os do irmão.

A seguir ligou o meu filho. Que nestas ocasiões é que parece que é tudo a ajudar: o bebé estava doente, até tinha ido com ele ao hospital de noite. Nada de mais, faringite, coisa vírica. Não tinha pregado olho, tosse de cão.

Avisei a minha filha que ela, quando sabe que há virose no pedaço, põe-se logo ao largo não vá ir de carreirinha, correndo todos. Então não, era melhor não correr o risco senão ainda apanham também a virose e, já agora, é melhor não. 

Pelo meio, houve muito trabalho e reunião e, claro, o arranca-rabo com o tal herói que ontem, na minha ausência, pintou a manta com quem não lhe podia fazer frente e que hoje estava de bolinha baixa, todo ele peace and love. Deixei que fizesse de conta que nada se tinha passado e, no fim, creio que com ar de poucos amigos, disse-lhe que fossemos ao que interessava. Encostou-se à parede e levou a tareia para a qual estava guardado. Desdisse-se, contradisse-se, apatetou-se. Mas não abrandei. 

Depois saí mais cedo e nem ai nem ui, bom fim-de-semana. Ficou especado, certamente pensando que estava baldar-me para lhe mostrar como é que era. Saí faltavam vinte minutos para as seis. 

Avisei o meu marido que estava a caminho e ele disse que também. Encontrámo-nos e depois fomos, num único carro, buscar os mais crescidos à escola e o bebé a casa da outra avó que tinha feito uma taça de arroz doce para os netos, em especial para o bebé que gosta muito e para o caso de não querer comer muito, disto come ele sempre. Na rua, o meu marido, quando viu o arroz doce, todo ele se sorriu, agradecido. Esclareci logo: 'Estás a agradecer...? Julgas que é para ti...? Não é. É para os teus netos...' Ficou meio atrapalhado pois, em frente da comadre, fez papel de lambão. Mas ela riu, satisfeita por constatar o sucesso do seu arroz doce. 

Já cá em casa, depois de tomarem banho e vestido os pijamas, a minha menina linda quis ajudar-me a fazer o jantar e depois o bebé também e depois já estavam desertos para jantar e depois de jantarem como os lobos, bebé incluído, já ela queria fazer o trabalho do Clube de Leitura e o bebé brincar com o telefone a fazer de conta que estava a encomendar pizas (duas pijas gandes com xiambe, queijo, jeitonas, dois minutos, vem na mota?) e o rapazinho do meio, que está alto e espigado, quase tão alto como a irmã, a ver futebol. 

E depois quiseram fazer uma vídeo-chamada para os pais e pegaram no meu telemóvel mas não encontravam o WhatsApp e ficaram muito admirados por eu não ter, como se tivessem chegado a uma casa sem electricidade: 'Como? Não estou a perceber... Não tens WhatsApp...? Como é que é possível? Como é que fazes vídeo-chamadas...?'.  Entretanto, a minha filha ia mandando fotografias dos meninos, grandes e lindos, que os primos queriam ver, todos curiosos.

Escuso de dizer que eu estava sem conseguir ir à casa de banho desde que tinha chegado a casa. Não dá para explicar. Mobilizam-me de uma tal forma que nem para ir à casa de banho tenho tempo.

Entretanto lavaram os dentes, foram para a cama e, como sempre, quiseram que eu contasse a história da princesa Margaret. 

Hoje foi sobre a ida da princesa Margaret e dos primos e respectivos pais a ver os golfinhos, visita perturbada pelo cão Kikas que, como sempre, se infiltrou e que, as usual, se tornou o focal point da história. Fiz e fiz render a história a ver se adormeciam, já eu mal conseguia articular palavra tal o sono, mas chegada ao fim e beijinhos, beijinhos, meus amores mais lindos, durmam bem, beijoquinhas, ela quis ir fazer chichi porque se tinha esquecido. Lá foi. A seguir chamou-me ele, o menino do meio, a dizer que achava que não ia dormir bem porque ouvia barulho, já tinha ouvido dois aviões. E o bebé quis ir para a cama da irmã. E depois da cama da irmã, quis já nem sei o quê e depois beber água até que acabei por chamar o meu marido: que fosse para o pé do bebé contar uma daquelas suas histórias que o fazem desatar a dormir. Quando lhe perguntei, no outro dia, como eram as histórias que punham o bebé KO disse que era dizer raças de cão. Fiquei zonza: 'Raças de cão? Mas como? Como é a história?'. E ele, 'Como o quê? Nada a saber. Pastor alemão, labrador, boxer, etc'. Desta vez esteve lá que séculos. Veio azul: 'Ganda baile que o puto me deu. Repetia tudo o que eu dizia como se não acreditasse'. E eu. 'Repetia como?'. 'Então, assim: era uma vez uma cadela preta. E ele: 'Uma cadela preta...?!' e eu 'Sim, uma cadela preta com patinhas brancas. E ele 'Com Patinhas brancas...?' e eu 'Sim, e tinha orelhas castanhas' e ele 'Orelhas castanhas...?!?'. Um baile.'


Agora dormem os três. Ou melhor: os quatro. Ou melhor ainda: os quatro e meia já que eu também já estou mais para lá do que para cá.

Agora mesmo o meu filho enviou uma mensagem a perguntar por eles. Febre ele não teve e tosse, sim, é tipo tosse de cão mas esporádica. Espero que a virose esteja a passar e que não tenha contagiado os irmãos. E espero que a noite corra bem. Amanhã a manhã vai ser cheiinha como um ovo, nem sei ainda como vai dar tempo para tudo. O meu marido perguntou: 'Já pensaste como é que vai ser amanhã?' e eu respondi 'Não faço ideia' e ele respondeu 'Ok, já vi tudo'. E eu devia ter feito como o bebé: 'Já viste tudo..?' mas não tive energia para tanto.

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E face a isto não tenho energia para falar do baile que o Costa deu à Catarina, deixando-a a chuchar no dedo, nem tenho apetência para falar do Nobel da Paz pois não sabia deste senhor da Etiópia nem dos da Literatura de que tenho ideia que nunca li nada ou, se li, não estou a ligar o nome à pessoa.


O que sei é que fui dar um little giro à hora de almoço a ver se ganhava pica para desancar o outro infeliz e, no meio do giro, incluí a Almedina que é lugar da minha simpatia. Estava lá um dos advogados mais mediáticos do país a contar uma história toda cheia de pormenores e ênfases. A livreira ria, estou em crer que, sobretudo, por simpatia, e ele, entusiasmado, caprichava nos pormenores. E eu, que ia só em que paravam as modas, descobri um daqueles livros que me palpita que me vai encher as medidas. Mas quando?

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A pintura é contemporânea e mexicana e a o Lullaby é de Brahms

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E eu desejo-vos um sábado dos bons

sexta-feira, outubro 11, 2019

Um dia saturado






O meu dia foi cheio de complexidades. Por vezes impeço-me de pensar pois parece-me que já não consigo processar mais. Forço-me à pausa. De manhã, por mais do que uma vez disse: 'Não eu'. Não quero que pensem que quero alijar responsabilidade mas chega a um ponto que sinto que já chega. Que alguém faça mas que não eu. Sempre fui de ir acomodando mais e mais trabalho e sempre sem pedir nada em troca. Não gosto de transaccionar a responsabilidade que assumo. Mas o mundo muda, as complexidades aumentam, e sinto que não consigo encaixar mais e mais e mais.

Saí de lá cheia de telefonemas não atendidos, mensagens não respondidas. No carro, a caminho de almoço, telefonemas. Crise noutro lugar. Pedido de apoio. Cheguei lá e ouvi o relato do que se tinha passado e, enquanto falava, foram chegando mais mails e mais mensagens. 

Fui para outra reunião. Correu bem mas eu a perceber que vai sobrar para mim. No fim, a confirmação: sabe que isto vai exigir mais de si, mais disponibilidade? Sabe isso, certo? E eu, com franqueza: 'Ainda não pensei nisso. Logo penso. Acho sempre que consigo conciliar mas já não sei. Mas não consigo pensar já nisso. Logo se vê.'. Do outro lado, uma certa apreensão. E eu sem conseguir adiantar mais nada.

Há quem planeie, quem seja calculista. Eu não. Penso que, na hora, logo vejo.

Mas agora acho que a equação começa a ser impossível. Não sei. Não tenho descanso e isso, por vezes, pesa-me. 

Mal saí de lá mais uma mensagem, mais um desabafo e um pedido de ajuda. Fui à procura do animal que tinha molestado aquele pobre indefeso que me pediu ajuda. Ia nos cascos, capaz de o virar do avesso. Mas não o encontrei. Saí. No carro, ao telefone com o que me pediu ajuda. Agora, aqui em casa, desforrei-me: um mail que deve deixar aos urros o estupor, deixá-lo a sentir pimenta no rabo, orelhas de burro, cara de palhaço. Amanhã sempre quero ver como será quando me tiver pela frente. Não suporto --  mas não suporto mesmo -- os todo-poderosos que exercem a sua prepotência junto dos mais indefesos. Não suporto. Não admito. Levo às últimas consequências. Vou encostá-lo à parede e só tenho pena de não poder obrigá-lo a sujeitar-se a um toque rectal com um dedão de meter medo. Que fúria sinto quando vejo os mais indefesos até com medo de se queixarem não vá ainda serem alvo de retaliações. Há gente muito estúpida.

Enfim. 

Já chega de pensar nisso. Estou saturada, como acredito que dê para perceber.

Volta e meia, à hora de almoço, a correr, vou ver os livros esperando não ver nada que me agrade. Mas agrada sempre. No outro dia vi alguns que devem ser mesmo bons. Estão aqui. Não consigo tempo para eles. Um tem uma capa espantosa, graficamente falando. Chama-se 'Já então a raposa era o caçador'.  As raposas são seres cativantes. Deitar-lhe o laço. Mas quando?

No outro dia, a meio da manhã, vinda de outra guerra, vou a chegar e vejo alguém que conheço. Parei o carro de longe. Vi de longe. Observei. Pensei, vou levar o carro até lá, parar o carro, falar. Mas não consegui. Depois enchi-me de coragem e andei com o carro. Pensei, se me vir, páro o carro. Mas não viu e eu segui. Fiquei a pensar 'que disparate, porque não parei o carro, porque não falei?'. Segui, sem me perceber. 

Se calhar é isto de já não conseguir acomodar mais, de já não conseguir assimilar mais, de recear complicações a que não consiga acudir. 

Só quero silêncio, palavras límpidas, flores de mil cores, gestos simples, afectos de verdade, livros bons, conversas transparentes.


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E por aqui me fico. 

Pinturas de Tawaraya Sōtatsu ao som de finais de grandiosas pianadas 

Desejo-lhe um dia muito bom

quinta-feira, outubro 10, 2019

MENstruação - coisa também de homens...?
[E, de passagem, um breve lamiré sobre o Montenegro a querer restaurar o cavaquismo e o passismo como forma de curar as laranjas do bicho-rio]





Já aqui falei de menstruação: de como me chegou tarde o que muito me inquietou quando era menina moça, de como uma vez fiquei com a saia branca toda manchada de sangue tendo sido um colega que, completamente encabulado, me avisou, de como ao fim de nove meses de gravidez mais uma data deles sem ela (talvez por estar a amamentar) quando apareceu me ter pregado um susto, julgando eu estar com perigosa hemorragia, tendo sido o meu marido a sossegar-me ('Não será a menstruação?').

Também já falei de quando se foi sem deixar saudades e sem que a sua ausência me tenha causado agasturas, calores, securas ou outros transtornos.


Por isso, não é disso que vou falar. Vou falar é do que se passou ao longo dos férteis anos em que sangrei.

E o que é importante é que os homens saibam que as mulheres são seres fortes e milagrosos. Quando se pensa nisso tem que se reconhecer que o que se passa no corpo das mulheres é coisa mágica.

A mim sempre me doeu muito. No dia antes de aparecer sentia um incómodo surdo e profundo no baixo frente. Depois doía mesmo. E sangrava. Sempre fui de abundâncias. Tinha que ter pensos dos muito absorventes e tinha que levar sempre uns quantos de reserva para ir mudando. Depois, como tinha pavor que passasse para a roupa, passei a usar tampão e andava sempre a mudá-los. E muitas vezes, nos primeiros dias, usava tampão e um penso fininho para o caso de o tampão não absorver tudo ou de estar nalguma reunião e não poder trocar. Aliás, agora que falo nisso, lembro-me que odiava ter reuniões prolongadas quando estava com o período pois, se estava com o tampão, sentia que estava ensopado até à quinta casa e, se estava com penso, temia que voltasse a passar para a saia.


Mas o tampão tinha outra. Quando ia para a praia ou para a piscina obviamente que tinha que ser tampão. E não tem conta as vezes que o meu marido me avisava que estava a aparecer uma ponta do fio. Um horror. Ainda agora, por vezes, quando estou deitada na praia me ocorre espreitar não vá ter uma ponta de fio a espreitar na virilha.

Não sei se isto acontece com todas as mulheres. Comigo aconteceu. E acontece. Parece que, por vezes, me lembro ainda daquela dor cava, rasgão dolente no interior do baixo frente.

E havia um outro aspecto negativo. Aquela coisa de que tanto se fala, o TPM ou SPM, síndrome ou transtorno pré-menstrual, comigo não era mito urbano, era realidade e da pesada. Para aí dois dias antes e, em especial na véspera, eu ficava prestes a explodir. Uma impaciência inexplicável tomava conta de mim. Tinha que me conter, mas conter muito, para não mostrar que uma raiva descontrolada crescia dentro de mim, muitas vezes por coisas de nada. Outras vezes, a explosão acontecia e era de uma tal violência, uma tal fúria que se auto-alimentava que, volta e meia, a coisa acabava comigo lavada em lágrimas porque a guerra tinha ido num tal crescendo que só podia acabar num esvaziamento total, incluindo o dos sacos lacrimais. Claro que no trabalho eu continha-me mas isso implicava que a coisa ia acumulando. Naqueles dias a irritação que eu sentia era uma coisa diabólica que eu tinha que tentar refrear. Mas, chegada a casa, era só aparecer o primeiro pretexto. Podia ser a porcaria mais insignificante que era como se se abrisse uma válvula. Depois, assim como vinha, assim ia. E daquela erupção, daquela lava torrencial e em brasa, nada restava. Até ao mês seguinte. Nunca me deu para tentar saber a explicação para isto pois saber ou não saber ia dar no mesmo mas deve ter a ver com um fervilhão hormonal em que diabo nenhum conseguia ter mão.

Isto vinha frequentemente a par de uma dor de cabeça do caneco. Era normal ter que tomar um ben.u.ron pois a par da raiva mal contida vinha uma tensão danada na cabeça que parecia querer explodir.


E vem isto ao caso porque li de uma campanha publicitária que brinca com a hipótese de não serem só as mulheres a passar por isto. Haveria de ter graça. Os homens terem uma parte do corpo que todos os meses se atapetava, se cobria de uma manta macia e fofa para poder acolher uma vida nova e, quando isso não acontecesse, ir tudo fora para que a caminha esteja feita de novo e limpa todos os meses. Sangue fresco, espesso, escorrendo do corpo. Dores nas entranhas. A alma em revolução. Melhor ainda se a vida pudesse mesmo ser gerada no interior do seu corpo, a barriga a crescer, um serzinho a dar cambalhotas e pontapés dentro deles. E os seios a incharem, os mamilos a repuxarem. Havia de ser giro: um drama pegado. Maricas como são, haveria de ser um fartote, sempre feitos vítimas.


Mas vejam, tem graça.

É a campanha da Thinx, uma linha de lingerie adequada àquela altura do mês.


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Não consegui identificar os autores das pinturas que escorrem sangue mas sei que é Anna Caterina Antonacci que aqui vem de novo mostrar o que é uma mulher em brasa

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E não venham dizer-me que estavam era à espera que eu comentasse aquilo do Montenegro. Nem pó. Com o sono com que estou, ia mesmo falar dele, ia, ia. Só se fosse para dizer que ou o tecido das gravatas que usa não é bom ou é ele que não sabe fazer o nó. Ou as duas coisas. Ou então não tem pinta para usar gravata. O nó das gravatas às vezes está razoável mas é só às vezes pois, em geral, aquele nó parece um matacão mal parido, torto, um calhau mal jeitoso. Ou então é ele que é assim. Portugal estava um miminho, os portugueses é que não, dizia o puxa-saco do Láparo. Portanto, depois da múmia sair da marquise para vir louvar a Marilú eis que agora é o joker de trazer por casa, o caralinda do passismo, a aparecer a querer ressuscitar o cavaquismo e o laparismo. Boa malha. Portanto, depois do dia de ontem e da noite quase não dormida, ia mesmo gastar a minha beleza a falar disso. Era o ias. Falo da menstruação para homens e é um pau por um olho.

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E agora só vos digo que relevante é o que os 20 filhos da mãe do post abaixo andam a fazer ao ar que respiramos.

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quarta-feira, outubro 09, 2019

A noite num não-lugar





Estávamos varados de fome e o meu marido tinha lido que o McDonalds estava aberto 24 horas por dia. Dirigimo-nos para lá. Dá, pois, para perceber o tamanho da fome. Eu hamburger não me estava a ver a comer àquelas lindas horas mas, em contrapartida, já só pensava numa coisa frita com puré de maçã por dentro que eles lá tinham e que eu só pensava que tomara que ainda tivessem. Afinal, estava fechado, já passava da meia noite. O que estava aberto as tais 24 horas por dia era o McDrive. Mas ir para uma fila, que estava de bom tamanho, e trazer um saco para casa ou ficar a comer ali no carro, isso não. Portanto, desandámos.

Vínhamos no carro e só falávamos no que haveríamos de comer. Eu disse: noutros tempos eu pensaria numa tosta com queijo a derreter lá dentro, fiozinhos de queijo cheiroso a derreter-se-me na boca. Mas, então, ao entrar em casa, ocorreu-me: temos ainda um bocado de pão de espelta, temos um resto do frango que assei no domingo, temos alface. Oh pá, que belo pitéu em perspectiva. E assim foi. Deliciosa. Uma sandes para cada um. Depois uvas brancas fresquinhas e, a rematar, um quadrado de chocolate preto e dois cubos de gengibre cristalizado (passados por água para tirar o açúcar). Um jantar e pêras. Agora passa da uma e meia e estou bem, confortada.

À vinda do trabalho, vinha a pensar que tinha que falar aqui da múmia que saíu da marquise para vir louvar a Marilú dos Swaps, aquela que falhou todos os orçamentos, que corporizou a austeridade para além da troika. Saíu da marquise para mostrar que não aprendeu nada, a múmia, o marido da cavaca. E pensei também que tinha que falar naquele da IL, o liberal que também gagueja e que tem cara de maluco, mais ainda que o emplastro com quem tem perigosas parecenças.

E tinha ainda um tema privado para dele aqui desfiar uns fiozinhos e vinha a pensar como haveria de disfarçá-lo para que dele não sobrasse aparência reconhecível. 

Mas, isto, a gente nunca sabe. Aparecem imprevistos e nem sempre agradáveis.

Acontece. Portanto, lá fomos.

E o que tenho a dizer, porque só gosto de falar do que não me faz mossa, é que há lugares que são não-lugares. Lugares de não-permanência. Lugares de despojamento. Por vezes de solidão.

E em lugares assim a gente percebe que há momentos em que somos todos iguais: novos e velhos, homens e mulheres, ricos e pobres. Olha-se à volta e nada no comportamento os distingue.

Por exemplo, poderia falar da mulher que não percebi se era nova ou assim-assim e que talvez fosse drogada ou alcoólica e a quem faltavam dentes, a pele escurecida, muito magra. Estava com alguém que talvez fosse amiga. Mandavam sms uma para a outra, olhavam para o que tinha chegado, teclavam com rapidez, quase de olhos fechados. Ou podia falar do homem bonito, alto, bem constituído, de calções de ganga, blusa de algodão com decote em bico, cabelo grisalho curto, e que tossia como se lhe doessem as costas, como se quisesse conter a tosse para evitar a dor, que mal conseguia abrir os olhos, como se estivesse cheio de febre ou sedado e que, de vez em quando, com muito esforço, se levantava e ia lá fora fumar. Estava sozinho e eu pensei que, naquele estado, deveria sentir-se triste por não ter ninguém ali consigo. Ou a senhora que falava muito, contava coisas, revelava grande auto-estima, relatava a forma assertiva como tinha resolvido situações, mas eu olhava e via e pensava que aquilo não era assertividade, era  exibicionismo. Em frente, duas outras, muito atentas e deslumbradas. E então disse que tinha 66 anos e as outras não queriam acreditar, quiseram que ela repetisse, e ela repetia e as outras quase se derretiam a gabá-la 'está óptima!' e ela sorria, superior, jovem forever. E não percebi se alguma delas estava doente ou se estavam a acompanhar doentes por quem não se importassem nem um bocadinho. Podia, talvez, falar da jovem esbelta, altíssima, de quem a minha mãe disse que podia ser modelo. E eu olhei e pensei que sim, que tinha uma altura e uma elegância incomuns. E também não percebi se estava doente. Em contrapartida, numa fiada de cadeiras, um rapaz gordo dormia ferradamente. Tinha uma fita amarela. Também estava sozinho. Um segurança foi tentar acordá-lo, levantou-o, tentou perguntar-lhe qualquer coisa mas o rapaz nem abriu os olhos, voltou a deitar-se. Ou poderia falar das ciganas gordas, do casal de namorados, do casal que não abriu a boca, como se não se conhecessem. E outros.


Podia um dia pedir autorização para fotografar estas pessoas, estas ou as que se vão sucedendo, todas parecidas. Gostava mesmo.

Mas não tirei. E agora já são quase três da manhã. Pelo meio disto tenho parado sem querer, estou cansada, com sono.

Fico-me, pois, por aqui.

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Sade canta Kiss of Live e a Paula Rêgo faz-me companhia.

Não consigo responder a comentários os mails. As minhas desculpas, A ver se consigo durante o dia.

E sorte, saúde e felicidade para todos.