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quinta-feira, agosto 06, 2020

Devagar, o futuro começa a desenhar-se




Ontem foi um dia importante na minha vida. Concretizei um desejo antigo, tão antigo que já tinha afastado da mente. Acho que uma maneira de uma pessoa não se sentir frustrada é deixar para lá aquilo que está para além das nossas possibilidades, para além daquilo que está sob o nosso alcance e controlo. Lutar por aquilo que se quer, sim, mas medindo o poder de fogo de todos os lados. Se a gente quer coisa que não é para o nosso bico, passo maior que a perna ou coisa do género, então, mais vale pôr os pés na terra e deixar que o tempo faça o seu caminho e nós o nosso. É que, quando o desejo é forte, a sua raiz fica submersa, viva, e, quando surge a oportunidade, eis que logo o sonho floresce. A vida tem-me ensinado isto: não se deve forçar nada. Quando a coisa não flui, não vale a pena insistir. Ou melhor, não vale a pena fazer de conta que não se percebe que não vai dar. Padecer ou fazer de conta não. As coisas, quando não têm que acontecer, não acontecem. E, quando é para a acontecer, acontecem. Parece La Palice? Pois, se calhar é. Claro que esperar, saber esperar, saber esperar que a oportunidade se cruze com a nossa disponibilidade para aproveitar a oportunidade, não é fácil. A gente gosta de se impacientar, de se armar em injustiçados ou frustrados, a gente gosta de cair no chorinho disfarçado de raiva. Ficar na nossa, à espera que apareça o bocado que nasceu para ser comido por nós, é coisa que ou é genética e se consegue na calminha ou tem que ser trabalhada.

Mas, portanto, foi dia bom. Um consolo, um sentimento de sonho feito realidade. Mais: a sensação de que o caminho está no início. Uma nova vida está a começar e tão, tão diferente do que foi até aqui.

Penso: há muitos anos, durante muitos anos, o quis. Não era possível. Não era ainda a altura. Se o tivesse forçado, não estaria aqui onde estou hoje. E, olhando para o dia de hoje e o que poderia ter sido, penso que ainda bem que, na altura, não aconteceu.

E, se na terça-feira foi dia bom, esta quarta-feira não lhe ficou atrás. Não. Ultrapassou. A alegria e o prazer partilhados. Todos contentes com esta opção. Um dos meninos dizia, espantado com o que estava a conhecer: eu não admito...! eu não admito...! Mas penso que era confusão vocabular, confusão causada pela alegria, devia querer dizer que não acreditava.

Contudo, dado o muito trabalho, afazeres e obrigações, não me são fáceis estes dias. Chego à noite e sobram-me deveres por cumprir e, portanto, em vez de estar a descansar, estou a trabalhar. Ao longo do dia, vendo os mails a chegar ou os telefonemas por fazer a acumularem-se, algum stress se vai apoderando de mim. Mas vou gerindo pois, apesar de um pouco de stress ser saudável [J. dixit], tento manter-me serena, penso que, à noite, recuperarei os pendentes.

Um destes dias, talvez desvende aquilo de que falo. Mas não agora. Agora ainda me sinto debaixo da crista da onda, em risco de, em vez de cavalgar o canhão, ser esmagada por ele. Mas não é nada de especial. Só é especial para mim. Apenas mais uma parcela da minha vida em mutação.

Mas, apesar de tudo, apesar de ainda estar longe do tempo em que conseguirei desfrutar em plena liberdade e tranquilidade o que é esta minha nova opção de vida, a verdade é que, ainda assim, já é bom.

Também soube que a minha mãe foi ao médico e lhe calhou a que, em tempos, foi a minha melhor amiga. Ela perguntou por mim e a minha mãe esteve a contar-lhe. E esteve a falar dela própria e eu, sabendo o que a minha mãe me contou, fiquei muito contente com as novidades. Ríamo-nos tanto. Tanto, tanto. Eu chorava a rir e ela, embora menos exuberantemente, também. Depois arranjou um namorado muito fora do mainstream e afastou-se um pouco. Seriam as últimas pessoas que eu imaginaria juntas. Mas, na realidade, embora por motivos talvez diferentes, ambos eram incomuns. E essa invulgaridade uniu-os. Depois, iniciaram o seu caminho e eu fui pelo meu. Mas lembro-me muito dela. Ainda no fim de semana passado tinha perguntado por ela à minha mãe. No fundo, gostava de perceber se ainda nos daria para desatarmos na galhofa, ambas a rir como umas perdidas, eu a chorar a rir, o rosto todo molhado de lágrimas que rebentam com a explosão de alegria, ela a tentar conter-se mas também a rebentar a rir só de ver o meu estado hilariante.

Penso que, um dia destes, hei-de voltar a estar com toda essa gente boa que, de certa forma, faz parte das minhas memórias e, logo, de mim, e a quem a vida introduziu distância e alheamento de permeio. Ela e a outra que se desviou creio que fatalmente. Dessa também gostava de saber. Nunca percebi que coisa aconteceu naquela cabeça para ter virado uma pessoa tão tresloucada, tão desligada daquilo a que antes dava valor. Tão crazy. Nunca consegui perceber, ela nunca deixou que ninguém percebesse. Era uma menina bem comportada e, do nada, virou uma doida que não acautelava nada. As situações em que se meteu não lembram ao diabo. Uma menina família, ajuizada, de repente a fazer toda a espécie de maluquices. Que será feito dela? No outro dia, a minha filha pesquisou pessoas minhas conhecidas no facebook. Não a encontrou. Terá mudado de nome? Usará um nome que nada tem a ver com o nome de solteira? Que eu saiba, apesar de uma vida amorosa fértil, não chegou a casar-se. Portanto, deveria ter o mesmo nome. Fiquei intrigada. A minha mãe também nunca mais soube dela. Como seria se nos encontrássemos? Seríamos duas estranhas? As últimas vezes foram tensas. Critiquei-a e ela não gostou. Nem foi tanto criticar, foi perguntar, foi não conseguir explicar e pedir-lhe que me explicasse. E ela, tomada por uma urgência caótica, sem querer fazê-lo, creio que sem conseguir fazê-lo. Dir-se-ia que talvez drogada. Mas não. A droga dele era outra, creio que era o medo de ficar sem ninguém, a urgência em ficar com qualquer um não fosse ficarem todos 'tomados' e não sobrar nenhum para ela. Uma coisa difícil de compreender. Era linda. Mas as mulheres muito bonitas têm frequentemente esta insegurança.


Mas estou capaz é de ir já deitar-me a ver se consigo dormir. Cansada como ando, volta e meia nem capazmente consigo dormir. Se calhar, vou pôr um daqueles valdispert debaixo da língua. Preciso de descansar senão, de noite, começo a elencar o que tenho que fazer, aquilo de que não posso esquecer-me, e, de dia, nem rendo o que tenho que render. Bolas para isto. O calor também não ajuda. Tanto calor.

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O vídeo abaixo não tem nada de nada a ver com a conversa. Ou, se calhar, tem. Sei lá. 
Cavalos e flamingos -- e cada um que escolha o seu lado. Ou não escolha coisa nenhuma e fique-se apenas a observar.

Salut d'amour, Op. 12, de Elgar também aqui apareceu nem sei porquê. 

Muito menos a Menez. A não ser que seja por gostar da sua obra.

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E, bora lá, para a frente é que é caminho.

E uma bela quinta-feira

sexta-feira, julho 04, 2014

O Um Jeito Manso faz quatro anos e já foi visitado mais de 650.000 vezes. À surpresa por ter chegado até aqui, junta-se-me o sentido agradecimento por todos quantos me têm acompanhado e que, com a sua presença, tantas vezes silenciosa, me motivam a continuar. Do fundo do coração, o meu muito obrigada.



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E eis-me chegada ao quarto aniversário do Um Jeito Manso. O tempo passa. 



Repito-me: nunca, quando comecei numa noite quente de um sábado de verão, in heaven, sem saber ao que ia, poderia alguma vez imaginar que gostasse tanto de aqui estar.

Tantas vezes já aqui o referi. Não conhecia este mundo, nada sabia das técnicas associadas a isto, ia experimentando, por instinto, e, de resto, também não conhecia ninguém na blogosfera, ninguém para me ensinar, ninguém para me recomendar. 

Logo nessa noite, para ver como era isto de publicar posts, escrevi três, muito pequenos, para ver como se inseriam fotografias, para ver como se escrevia, se alinhava o texto, etc.



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No terceiro post escrevi um poema de Nuno Júdice que tinha acabado de escrever, com pincel e tinta, num canteiro alto que antes tinha pintado com cores a la Rothko.

Não esperes; o dia de hoje é
o dia que desejas e não é todas as manhãs
que esta luz te abraça com o seu fulgor
de ave, convidando-te a partir até ao fim
da terra.

E rematava com umas palavras que diziam aquilo que enforma a minha atitude perante a vida: Sejamos optimistas, 'sejamos realistas - exijamos o impossível', levantemo-nos. Hoje.

E assim vim andando.

Começar do zero, a tactear. Uma, duas, três visitas, depois quatro, cinco, seis. Dez pessoas?! Tantas... Quem serão? Um caminho de passos pequenos, pequenas descobertas, pequenas surpresas.

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Não me ocorreu na altura dar-me a conhecer, não fazia sentido, era apenas uma experiência. Depois, quando começou a ser um prazer, também não fazia sentido identificar-me. As palavras que eu escrevia e as minhas escolhas (imagens, músicas) deveriam continuar a valer por si. Além do mais, o anonimato é-me confortável. Não quero que as minhas opiniões sejam relacionadas com o sítio onde trabalho tanto mais que exerço uma função de alguma responsabilidade, ou criem qualquer tipo de embaraço entre colegas ou perturbem de alguma forma a forma isenta como me posiciono profissionalmente. Poderia usar um pseudónimo mas um pseudónimo ou coisa nenhuma é a mesma coisa. Além disso, os Leitores começaram a tratar-me por UJM ou Jeitinho e isso é uma forma tão boa como qualquer outra de ser tratada.

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Não encontro registo do número de visitas que tinha tido quando decorreu 1 ano que por aqui andava mas devem ter sido poucas.

Mas já encontro de quando se concluíram os 2 anos: 137.000 visitas e já, nessa altura, eu tinha mostrado o meu espanto. Os números começavam a surpreender-me.


Quando há um ano atrás, cheguei ao 3º aniversário, estava eu admiradíssima. Num ano as visitas mais do que tinham duplicado: já eram, então, 300.000. O número crescente de visitas era para mim um mistério. De onde vinham tantas pessoas para ler o que eu aqui escrevia? 


Pelas estatísticas consigo saber que vêm sobretudo de Portugal (60%), depois do Brasil (14%) e a seguir, bem mais abaixo, dos Estados Unidos, Alemanha, e depois já mais abaixo, com menos de dez mil cada país, outros países, alguns francamente surpreendentes como é o caso, por exemplo, da Polónia ou da Ucrânia. Aparece-me nas estatísticas com muita frequência o google translator pelo que presumo que estejam a traduzir os textos que escrevo…. E, do que tenho verificado, esta distribuição das visitas por países e o crescimento que tenho verificado é francamente consistente.

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Hoje chego aos 4 anos de Um Jeito Manso e, para minha perplexidade, já passei as 650.000 visitas. 


Como foi tal possível? Ainda não consigo perceber.

Se olhasse para este crescimento do ponto de vista matemático teria que concluir que estou em presença de uma progressão geométrica, cujo valor duplica de ano para ano. Mas acho que não devo ver isto nesta perspectiva até porque pode faltar-me a inspiração, pode faltar-me a motivação ou posso começar a desiludir os Leitores.

Não acredito que este ritmo de crescimento se mantenha pois, sendo o blogue unipessoal e anónimo, ele depende apenas do seu conteúdo e de mim que o faço e eu sou falível, forçosamente falível.



Vamos ouvindo, por favor






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Quando vejo o bebé a portar-se mal e lhe pergunto o que é que está a fazer, ele responde-me com ar descarado: coijas. Assim estou aqui: faço coisas. O que me apetece em cada dia. Sento-me aqui e, a maior parte das vezes, não sei sobre o que vou falar. É o que me ocorre.

Não tenho uma agenda, não tento forjar uma imagem, não tento fazer-me passar pelo que não sou. Mostro-me como sou, sem disfarces, mais nua do que se estivesse aqui com fotografia e número de BI. Estando aqui anónima, livre, um ponto incógnito no meio de milhões de outros pontos que cruzam os ares neste mundo feito de seres, perfis, contas, likes, onde se cruzam desabafos, gritos de alma, suspiros, pedidos de ajuda com vaidades, ficções, ou maldades, azedumes, vinganças. A minha voz perde-se no meio de milhões de outras vozes e eu não tento falar mais alto, ter mais razão, criticar os outros que, tal como eu, deixam sair a sua voz na imensidão do universo. Tento apenas, porque assim sou quando estou cara a cara com quem quer que seja a falar do que falo aqui, defender as minhas ideias, os meus ideais, e falar de justiça, de beleza, divulgar aquilo que, de alguma forma, me toca e deixar uma palavra de esperança. Acredito que, quando queremos, alcançamos (pelo menos a maior parte das vezes).

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E assim, sendo eu em cada palavra que escrevo, aqui tenho vindo a acompanhar o tempo que passa.

Mas nunca acreditei que todos os dias fosse capaz de escrever coisas, escolher coisas, desencantar coisas e tenho a noção de que isto é capaz de ser uma realidade finita. Talvez chegue o dia em que não terei nada para dizer, nenhum fotógrafo ou pintor ou músico para descobrir, nenhum novo poema que me encante. Aí pararei.

Acontece também uma coisa: eu sempre fui de ler muito e de pintar e de fazer tapetes de arraiolos e de descobrir novas coisas (grafologia, por exemplo) e ainda sou. Tenho muita vontade de voltar a ter mais tempo para ler, de ter tempo para aprender a fazer vídeos por exemplo e o que me vier à cabeça. E isto de aqui, à noite, no meu turno da noite que começa invariavelmente depois das dez da noite senão depois das onze, me sentar e aqui estar até adormecer, é muito absorvente, não dá para acomodar outros vícios.


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E, portanto, sei lá se consigo esperar muitos anos, até me reformar, ou se atalharei caminho um dia destes?

Não sei.

O que sei é que hoje ainda cá estou, amanhã talvez também. Daqui por um ano, logo veremos.
E também logo veremos se, por essa altura, já terei ultrapassado o 1.000.000 de visitas.
O que sei é que este grande afluxo de visitas - que presumo que cheguem uns pela mão de outros, ou aterrando aqui através de pesquisas nos motores de busca - me tem trazido um número crescente de contactos.

Já aqui vos contei que fui contactada para participar num programa de grande audiência da televisão (e que recusei, claro) e também já o referi muitas vezes a pena que tenho por não ter tempo para responder a todos os comentários, tão interessantes, que mereciam ser discutidos, que mereciam, pelo menos, uma palavra de agradecimento. O mal é meu que, assim que me ponho a escrever, perco a noção dos limites e uso o pouco tempo que tenho em cada coisa que faço. Não doseio porque me entrego toda em todas as palavras que escrevo e, por isso, opto frequentemente pela solução mais radical: não responder. Mas fica sempre um remorso terrível a roer-me. Também recebo muitos mails e não consigo, por vezes, responder a todos, ficando-me sempre com a incómoda sensação de estar a ser mal educada, mal agradecida.

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O que acontece é que, pura e simplesmente, não tenho tempo.

Também não consigo ler livros originais que me enviam, pedindo a minha opinião. Não apenas o tempo me escasseia como não me sinto habilitada a pronunciar-me sobre algo tão importante na vida de uma pessoa como é a escrita de um livro.

No entanto, tenho que vos confessar que tenho conhecido pessoas interessantíssimas através do blogue ou, em particular, através dos mails que me chegam por via do blogue.

Tivesse eu mais tempo e estou certa de que seriam amizades que haveriam de se estreitar pessoalmente.

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Ainda há pouco estive a responder ao mail de uma leitora que por aqui conheci e por quem sinto aquela atenção vigilante e amiga que se sente por quem nos é muito próximo, quase como se nos conhecêssemos desde a infância. Diz-me ela que por aqui me acompanha como se eu fosse da sua família e que quase consegue ouvir os pimentinhas quando falo deles. Fico sensibilizada.

A gente escreve e vê as estatísticas a subirem mas não sabe se quem lê, gosta do que lê.

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E, vendo que as minhas palavras podem ser uma companhia, podem ser a família que por vezes, na realidade não existe, comovo-me.

Fico com vontade de todos os dias conseguir dizer uma palavra de proximidade, quase como se as minhas palavras pudessem ser um braço infinito que conseguisse chegar até a casa de cada um que me lê com estima, para que a minha mão pudesse fazer uma festa a quem não tem quem as faça na realidade.

Ou que as minhas palavras conseguissem transportar a alegria necessária para que todos nos juntássemos numa roda, em dança, alegres como crianças.

Ou que transportassem o misterioso sonho de veludo que habita fronteiras clandestinas, ou quartos frescos onde a sombra é cúmplice, ou os jardins atraentes como perigosos abismos onde se passeiam faunos, mulheres nuas ou cavalos azuis.



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0 - A primeira imagem, Blue Flower, é uma pintura de Georgia O’Keeffe, pintora americana muitas vezes aqui presente e abre este texto para deixar muito claro que este é um blogue de uma mulher, uma mulher que gosta muito de ser mulher.


1 - A imagem seguinte, também em azul, é de Mark Rothko, pintor que misteriosamente me atrai sem que eu consiga explicar porque tenho vontade de mergulhar nas suas cores quando elas eram luminosas ou vontade de rezar ou ler poesia quando as cores começaram a indiciar o negrume no qual viria a mergulhar.


2 - A segunda é de Balthus e é a imagem que encimou o Um Jeito Manso nos seus primeiros dias. É uma das suas meninas levemente más, maliciosas, perigosas com quem, por vezes, às escondidas me identifico.


3 - A terceira, a mulher que pensa ao pé de livros é uma pintura de Menez. Assim gostaria eu de ter tempo para estar: em silêncio, sem limites, sem pressa.


4 - A fotografia seguinte é de Man Ray, e mostra Kiki de Montparnasse de olhos fechados com uma máscara atenta. Quase assim sou eu: sossegada enquanto a UJM escreve e dá a cara pelo que lhe apetece.

  •  O vídeo traz-nos Caroline Nunes, uma inesperada adolescente brasileira, num jardim de uma cidade de Minas Gerais, Poços de Caldas dizendo o magnífico Tabacaria de Fernando Pessoa aka Álvaro de Campos.

Não sou nada.
Nunca serei nada.
Não posso querer ser nada.
À parte isso, tenho em mim todos os sonhos do mundo.
Janelas do meu quarto,
Do meu quarto de um dos milhões do mundo que ninguém sabe quem é
(E se soubessem quem é, o que saberiam?),
(...)


5 - A fotografia seguinte é uma das belas fotografias de flores e não só de Robert Mapplethorpe que está comigo desde o início do Um jeito Manso


6 - A mulher que sonha sonhos inconfessáveis é Marie Thérèse de Pablo Picasso, que copiei para azulejos e que tenho na minha sala in heaven.


7 - A seguir está Celle qui fut la Belle Heaulmière, uma pequena escultura de Rodin, uma das que, até hoje, mais me tocou.


8 - A seguir tenho uma aguarela de Guilherme Parente: as suas cores vivas e felizes sempre me transmitiram a inocência da infância e a elas regresso quando sinto vontade de me purificar. 


9 - A seguir, a mulher que passa ao de leve mas deixando um rasto de sedução é Kate Moss fotografada por Annie Leibovitz, duas presenças que aqui muito me têm acompanhado.


10 - A seguir está La danse de Henri Matisse, que igualmente fiz reproduzir num painel de azulejos e me acompanha in heaven. A alegria sem pecado e a partilha total aqui bem presentes.


11 - Seguem-se os Cavalos Azuis de Franz Marc, cujos passos subtis e ardente resfolegar ouço quando, à noite, o luar invade as minhas noites in heaven.

  • Para terminar, uma mulher que também aqui me tem acompanhado com frequência: Sylvie Guillem, a graciosa, elástica e vibrante mulher das longas pernas e personalidade vincada. Dança o Bolero de Ravel, música que é um bom acompanhamento para actividades não declaradas.

E mais não digo.


Dancemos, provoquemos, batamos o pé, voemos



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Por agora, por aqui me fico. O meu dia foi longo e eu estou com sono, coisa que, de resto, é um clássico por aqui, certo? Não consigo rever o que escrevi. Estou a pé há quase há 18 ou 19 horas, nem sei, e não consigo energia para rever este lençol. Ponho-me a escrever e a escolher imagens e o tempo vai passando e, quando chego ao fim, até tenho vergonha do tamanho do castigo que vos inflijo e das lindas  horas a que me vou deitar.

E portanto, assim sendo, desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta feira e por aqui vos espero amanhã e depois de amanhã e depois de depois de amanhã e depois e depois e depois... durante muito tempo: será sinal de que estamos vivos, bem dispostos, eu sem ainda ter ido entregar-me de corpo e alma a uma outra qualquer actividade e vocês com paciência para me continuarem a aturar.


Obrigada uma vez mais, mil vezes obrigada! E sejam felizes, está bem?


sábado, março 09, 2013

Ser mulher, gostar de ser mulher, gostar de ser tratada como mulher, não aceitar ser menorizada por ser mulher. E algumas mulheres: Graça Morais, Joana Vasconcelos, Bela Silva, Paula Rego, Kate Moss, Pina Baush, Gabriela Montero, Ruth Palmer, Maria Teresa Horta, Maria Bethânia




As Mulheres de Graça Morais


Ontem, 8 de Março, Dia Internacional da Mulher, quando começava o dia, escrevi umas frases vagamente alusivas ao tema. Agora, à hora que escrevo, o dia chegou ao fim e eu, em contra-corrente, em vez de falar das que são espancadas, abusadas, exploradas, quero aqui falar nas mulheres fortes, que se afirmam, que não aceitam a menoridade que apenas na cabeça dos ignorantes existe.

Falo das mulheres que resistem, que lutam, que olham de frente sem acharem que têm que se esforçar mais do que devem, sem aceitarem fazer concessões de qualquer espécie, das que sabem, porque sabem, que são tão válidas como os homens, das que olham de frente e sem medo quem as ameaça ou das que, tendo razão para ter medo, o enfrentam, falam, pedem ajuda, apresentam queixa.

Não haveria, no nosso mundo ocidental, quem as menosprezasse se elas (elas - nós todas mulheres) não o permitissem.



Uma Mulher de Menez


Vergonhas, inibições, medo de censura, tudo coisas que atrapalham os movimentos, que tolhem a vontade, que diminuem a força. E é contra isso que as mulheres, nós todas, temos que lutar.

Ter orgulho em ser mulher: isso é o que é preciso. 


Já aqui o falei muitas vezes. A minha vida profissional tem sido, toda ela, feita num ambiente empresarial, que, pela sua natureza, é tipicamente masculino. Nunca, em momento algum, me senti preterida ou subvalorizada. Sempre vivi, nas empresas, como em todo o lado, de igual para igual. Se tenho que discutir, discuto, se acho que devo ceder, cedo, se me parece oportuno negociar, negoceio, se tenho que exigir, exijo, se devo ouvir, ouço. Sejam com homens, seja com mulheres, sem qualquer diferença.



Mulheres de Joana de Vasconcelos


Decorreu recentemente lá nas empresas uma coisa que se chama avaliação 360º, coisa contra a qual lutei veementemente mas em que, não tendo conseguido levar a minha avante, não tive outro remédio senão participar. Trata-se de cada pessoa se autoavaliar segundo uma grelha, ser avaliada pelos seus superiores hierárquicos, pelos seus subordinados e pelos seus pares, tudo segundo a mesma grelha. Acho isto perverso.  Trata-se de preencher questionários anónimos e eu acho que uma pessoa avaliar os outros a coberto do anonimato é dar cobertura aos cobardes que gostam de ajustar contas pela calada. Há casos sinistros. E geralmente, quando isso acontece, quem é objecto de uma valiação miserável, em vez de achar que tem que melhorar (que é o objectivo disto) fica é furioso, a olhar de lado para toda a gente, tentando descobrir quem o apunhalou pelas costas.

E este método extraordinário aplica-se por igual e segundo igual grelha (umas duas ou três páginas cheias de de questões), desde as posições mais baixas da hierarquia até à administração. Uma coisa que me incomoda mas que, estupidamente, se usa em imensas organizações. Mas adiante.

Fui, portanto, avaliada por toda a gente (da mesma forma que tive que fazer o mesmo). Numa empresa em que as mulheres são uma pequena minoria, devo dizer que tive uma avaliação superior à da média dos meus pares que são quase todos homens (já aqui o disse: num grupo de umas vinte pessoas ligadas à gestão, somos apenas duas mulheres). Ou seja, trabalhando comigo há vários anos, os meus pares reconhecem o meu valor e sabem que o meu valor enquanto profissional é independente do meu sexo.

No entanto, sou muito feminina e gosto muito de ser mulher. Nunca tive que esconder ou minimizar a minha feminilidade, nunca. E eles, subordinados, pares ou chefes homens, reconhecem a minha feminilidade, sem que sintam que isso diminui a minha competência profissional.



Uma Mulher de Bela Silva


E, no entanto, conheço tantas mulheres jovens e ainda tão amedontradas, sentindo-se tão inferiorizadas e achando que, para se afirmarem ou progredirem, terão que cair nas boas graças de algum homem, terão que mostrar a perna, o início dos seios, fazer sorrisos insinuantes. Disparate. Podem até mostrar o que quiserem mas por graça, para seu próprio gozo, por qualquer motivo mas nunca como moeda de troca ou como encoberta promessa. Fazer isso é menorizar-se. 

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E às mulheres que vivem com homens a quem já não amam, o que eu digo é que não o sintam como uma derrota e não receiem 'os outros'. Sopesem as contrariedades, avaliem se as ausências e as renúncias compensam as dificuldades que se seguiriam a uma separação. E, de qualquer forma, nunca aceitem a falta de respeito ou a violência, isso nunca.



Mulheres de Paula Rego


Fazer o que se quer, não virar as costas aos sonhos, não recear a opinião dos outros, não se deixar enredar em pequenas intrigas, pequenos receios, não deixar passar os anos sem viver, não deixar que nos anos que ficam para trás fiquem também as ambições - são conselhos que dou a qualquer mulher.

*

Antes e depois das sessões de fisioterapia em piscina, temos que nos vestir e despir no balneário. Geralmente cada mulher vira-se para o cacifo em que tem o saco com a sua roupa e limpa-se e cobre-se com a sua toalha, tentando vestir-se e despir-se com alguma discrição. Ninguém se põe a olhar para a vizinha do lado e, estando cada uma dobrada e tapada pela toalha, quase consegue encobrir a sua nudez. Uma ou outra lá é mais desinibida mas, ainda assim, com alguma reserva. Se conversamos umas com as outras, geralmente há sempre uma toalha ou uma peça de roupa entre o nosso corpo e o olhar das outras.

Pois bem, esta semana, chegou, de novo, uma mulher jovem. Despiu-se com grande descontração, foi nua e sem toalha para o duche e de lá saíu também assim. Depois limpou-se mas, enquanto o fazia, ia conversando e, enquanto arranjava a roupa para se vestir, estava a meio do balneário, não virada para os cacifos mas de frente, nua, conversando connosco de forma que tínhamos que a olhar. Tinha o cabelo apanhado, seios bem definidos, um fiozinho colorido em volta da fina cintura, a zona pélvica depilada apenas com uma pequena tira ao alto de pêlos púbicos aparados.



Kate Moss, uma Mulher dona de si própria


Toda a figura era curiosa, até pelo seu rosto. Tivesse eu ali a minha máquina, ter-lhe-ia pedido que me deixasse fotografá-la. O que eu gostei de ver o seu total à vontade com o seu corpo...!

Depois encontrei-a no ginásio com uma fisoterapeuta que a punha a fazer posições do além, quase contorsões. Via que tinha dores mas não se eximiu ao esforço e, apesar das dificuldades, ria e, numa altura, fez uns passos de uma incrível leveza, parecia que dançava. Percebi que devia ser bailarina. E é, com certeza, uma mulher livre.





Poderia continuar a falar de mim (e falo não por me considerar um grande exemplo mas porque é o exemplo que melhor conheço), poderia falar de outras mulheres, de políticas, de resistentes, poderia falar das mulheres artistas de que acima mostrei obras, poderia falar das mulheres que abaixo interpretam músicas, poderia falar das mulheres que têm uma estreita relação com as palavras e disso fizeram a sua afirmação profissional e pessoal, poderia falar de tantos e tantos e tantos casos: mulheres que sabem que não são inferiores pelo que jamais aceitariam ser vítimas de inferiorização.





E que cada mulher afirme a sua vontade, tome o destino em suas mãos, não espere, vá, não se lamente, avance. Seja em que situação for.


O homem que percorro
com as mãos
e a lua que concebo
na altitude
do tédio
o oceano
penso paralelo — ventre
à praia intata
das janelas brancas
com silêncio
ciclamens-astros
entre
as vozes que calaram
para sempre
o verbo — bússola
com raiz — grito de relevo
O homem que percorro
com as mãos
a estátua que consinto
a lua que concebo.


[Poema Antigo de Maria Teresa Horta]




*

Apetecia-me continuar aqui, estaria de gosto, mas há que haver algum comedimento, não é...?


*

A todos os meus leitores desejo um bom sábado. 
Agora troveja forte e feio, chove, está uma noite de assombros e eu gosto de noites assim. 
Se o dia estiver na mesma vai estar um belo dia para ficar no aconchego e nas leituras. 
Que, para Vós, seja um dia muito feliz.