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sexta-feira, maio 02, 2025

Gatinhos made in heaven

 

Claro está que, mal tomei o pequeno-almoço, fui, pé ante pé, atravessando um canteiro (no qual tinha plantado na véspera um medronheiro e uma murta), espreitar a mamã-gata e os seus bebés-gatinhos. Numa das passagens para aquele espaço o meu marido colocou uma espreguiçadeira dobrada e uns paus, para evitar que o cão por lá passe e, num outro lado, mais largo, colocou uma rede. Se não fosse isso, os pobres gatos não teriam sossego. O nosso guardião, à falta de rebanhos para guardar, guarda-nos a nós e, à falta de lobos ou outras ameaças, atira-se a tudo o que mexe. Sempre que a pobre gata se aventura para fora do seu esconderijo, provavelmente para procurar alimento, o cão-segurança atira-se a correr e a ladra, ladra, furibundo, pronto para resolver o assunto de qualquer maneira. Felizmente a gata é ágil. 

Mas, então, dizia eu, pé ante pé, lá fui. Subi para um banco de pedra e filmei (publiquei uma story no Instagram) e fotografei. A gata põe-se a olhar fixamente para mim enquanto estou naquilo, e eu percebo-a. Se eu visse algum lobisomem a rondar-me a mim e às minhas crias fazia o mesmo: embora sentindo uma certa impotência, não deixaria de atacar quem se aproximasse, possivelmente para roubar ou atacar alguma cria. Os gatinhos, em contrapartida, ignoram-me. Mexem-se encostados uns aos outros, um passou por cima da mãe e foi pôr-se do outro lado. Ainda não têm noção dos perigos.

Olho-os enternecida, maravilhada. São de uma fofura extrema. E acho a gata, pintalgada, um verdadeiro encanto. E pelo menos dois dos gatinhos parecem ter saído à mãe. Engraçado que um me pareceu todo preto e outro todo branco. A natureza é uma conjugação de milagres, de maravilhas, de coisas incompreensíveis e de uma beleza extraordinária.

Pareceu-me que são seis, os gatinhos. 


O pior é que, à tarde, quando lá voltei já só vi dois. O meu marido diz que talvez estejam escondidos no meio daquela tralha, mas andei a espreitar e só vi estes dois, espantados, imóveis. Um deles parece que tem uma máscara. Só visto. Só me apeteceu pegar neles, aconchegá-los, trazê-los para casa, arranjar-lhes uma caminha quentinha, pôr leitinho num pratinho. Mas claro que não fiz isso, acho que seria pura maldade. Estão certamente muito melhor com a sua mãe e com os irmãozinhos. 

De qualquer forma, receio que a mãe-gata, temendo as minhas intenções, tivesse pegado já em alguns e estivesse a levá-los para um lugar menos exposto aos meus arroubos fantasiosos ou às minhas sessões de paparazzi. 


De que se alimentará a mãe-gata? Ratinhos? Há séculos que não vejo nenhum. Outros bicharocos? E encontra-os sempre por lá? Nunca me apercebo de perseguições, caçadas. A vida dos animais in heaven surpreende-me. E ocorreu-me que, se há gatinhos, então, para lá da gata, há também, com certeza, um gato. Mas que será feito dele?

Só espero é que vão todos ficando por lá. O paraíso deve ser isto. Flores, animais, canto dos pássaros, ar puro, uma paz que se se impregna em nós.

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Claro que, talvez por tudo isto, porque nos habituamos a um certo grau de pureza, o nosso grau de paciência para com os disparates da Clara Ferreira Alves nos deixam transtornados.

quinta-feira, maio 01, 2025

Mamã-gata e os seus cinco gatinhos-bebés

 

Na casa 'urbana', dá para isolar a zona do nosso quarto de forma a que o cão não consiga para lá ir. Mas a casa, in heaven, é diferente. É uma casa, a todos os títulos, especial. Um dia conto-vos. Entre outras particularidades, tem aquela que eu sempre desejei: passa-se de divisão em divisão de forma contínua, sem portas. Mas tudo tem o reverso. Não é fácil isolarmo-nos. Poderíamos fazer mais do que fazemos mas não é fácil até porque não queremos deixar de ouvir o que se passa na outra ponta da casa. Encostamos a porta do corredor que dá acesso à zona dos quartos mas não fechamos a porta do quarto. E o que acontece é que, a meio da noite, o espertalhão do dog empurra a porta do corredor e vem deitar-se sobre a cama, aos pés. Como sou mais pequena que o meu marido, é aos meus pés que ele encontra mais espaço. A partir daí, fico com menos margem para me acomodar a meu gosto. Bem posso dar-lhe pontapés que ele não se torce nem se amolga. Ao fim de algum tempo acaba por sair e ir deitar-se no tapete aos pés da cama. Mas, até sair, tenho eu que me Não sei se é por isso mas acordei com uma dor nas costas. E, ao longo do dia, a dor foi mordendo com mais força.

Por isso, não apenas não dormi muito bem de noite como, de dia, não andei especialmente famosa.

Face a isso, quando me reclinei aqui no sofá para ver o debate, começou a dar-me o sono e... adormeci mesmo. O meu marido, de vez em do, perguntava-me: 'Mas... estás a dormir...?'. Tentava acordar mas debalde.

Por isso, não consigo pronunciar-me. Se calhar, ainda que involuntariamente, poupei-me.

O que posso dizer, e amanhã a ver se até publico um vídeo no Instagram, é que aconteceu uma coisa. O meu marido contou-me que, quando foi buscar um podão ao recanto bagunçado ao pé do forno de lenha onde costuma amontoar ferramentas desse tipo, redes, oleados e nem sei bem o quê, saltou de lá um gato bonito, pintalgado. 

Quando fui para aqueles lados, o cão ladrava furiosamente lá ao pé, a olhar fixamente para lá. O meu marido disse: 'Este também já percebeu que o gato se esconde aqui'. 

Às tantas lembrei-me: 'Não haverá para aqui gatinhos?'. É que estranhei o olhar fixo e o ladrar transtornado da nossa fera. E fui espreitar. Então, para minha alegre surpresa, vi a coisinha mais fofa, mais fofa, um gatinho bebé, também pintalgado, fundo branco e manchinhas pretas e manchinhas amarelas, narizinho esborratado. Uma ternurinha fofa.

E, ao longe, a gata a espreitar.

O meu marido, então, foi buscar rede e conseguiu isolar minimamente a passagem para aquela zona, senão a coisa corria sérios riscos de acabar mal. 

Passado um bocado, puxei a rede para o lado e, pé ante pé, fui-me aproximando. Já não vi o gatinho, já não estava no sítio em que o tinha fotografado. Subi, então, para cima de um banco... e vi a cena mais ternurenta, mais linda, mais maravilhosa. Do outro lado, no meio daquela inqualificável bagunça, ao fundo, a gata rodeada de gatinhos. Cinco. Cinco gatinhos fofos, lindos, um amarelinho, um pareceu-me escurinho, outro branquinho, um malhadinho e outro de que só vi a cabecinha e que me pareceu clarinho. Fofos, fofos, um milagre da natureza. Mais um milagre. Se calhar nasceram ali. 

Não sei de que se alimentam. Não sei se deveria fazer alguma coisa por eles. Admito que o melhor é não fazer nada. Mas a minha vontade é pegar neles, adoptá-los, fazer com que fiquem por aqui. Mas, claro está, tudo isto é platónico, pois, com o medo que tenho de gatos, não sou capaz de me aproximar e deitar a mão a nenhum deles. Imagino que a mãe-gata, se eu ousasse a fazer isso, me saltaria em cima e me arranharia furiosamente. Desconfio dos gatos, tenho medo deles. Estou melhor a respeitá-los de longe.

Mas não imaginam como fico feliz com isto. Se eu conseguisse ter por aqui, convivendo alegremente, gatos, esquilos, uma possível raposa, o nosso cão, passarada, ficaria ainda mais feliz. Os javalis não, podem ficar longe.

Só espero que, de manhã, a família gatinha ainda lá esteja e que eu consiga fotografá-los para vos mostrar. Hoje mostro o possível, apenas o primeiro que vi.

E mostro um pouco de como está o campo por aqui. Lindo.

O meu marido diz: 'erva e mais erva, isto está a pedir ser tudo cortado'. E, claro, eu acho o contrário. Acho tudo lindo, lindo, verdinho, viçoso, inacreditavelmente perfeito, milagrosamente perfeito.






Feliz Dia do Trabalhador.

quarta-feira, setembro 04, 2024

O leopardo das neves é forçosamente o mau da fita?

 

Não me pronuncio sobre o caso de um relatório que deu à luz nove anos depois dos factos analisados: la Miss Swaps era ministra das Finanças quando Pinto Luz, actual ministro, era Secretário de Estado e quando lo passista mas passista de todos los passistas, Passos Láparo de seu nome, era primeiro-ministro e quando parece que todos engendraram um esquema para venderem la TAP sendo que los compradores terão comprado la TAP com lo pelo de lo próprio cão e que terão engendrado um esquema de se banquetearem com bonus, quiçá, limpos de taxes ou, pelo menos, más limpos. Não me pronuncio porque está tudo torto nisto a começar nos entortados que levam quase 10 anos a elaborar um relatório sobre um tema tão relevante e a acabar no possível embaraço de ver os impolutos passistas, los más amigos do joker Montenegro, o tal que ri com risinho jocoso como se tivesse uma folgada maioria e pudesse fazer o que muito bem lhe der na mona, todos envolvidos na novela TAP. E eu não me pronuncio pois só me apetece enfiá-los a todos no mesmo saco de gatos e deixá-los a arranharem-se uns aos outros com câmaras de Big Brother lá dentro, a passar na TVI 24 horas por dia com o Goucha, vestido de sorvete a interrogá-los não faço ideia a propósito de quê.

Quanto ao Orçamento de Estado para 2025 o que tenho a dizer é que acho que o PS o deve chumbar se o PSD insistir em incluir a descida do IRC, a descida do IRS jovem (em vez de uma descida generalizada de IRS para toda a gente). E já nem falo na aberração da borla do IMT para jovens. O PS não pode deixar passar aberrações. Se os da AD querem fazer parvoíces que as façam sozinhos. Se sozinhos não conseguirem fazê-las, azarinho, não as façam.

O meu dia não foi fácil e chego a esta hora e só me apetece descansar a cabeça. A sério. 

Mas, por motivos que desconheço, tenho o dog de guarda a ladrar freneticamente, ininterruptamente, parece que em resposta aos do lado que ladram igualmente à força toda. Provavelmente é o gato branco, o tal esfingíco, quase sem pelo, quase assustador, que anda outra vez a desafiar a paciência da bicharada aqui da zona. Já devo ter falado dele. Põe-se a olhar para nós, quase como se nos desafiasse. Sei que é um gato porque não é um coelho nem um esquilo, muito menos um cão ou uma rola, mas é um gato deveras estranhíssimo. Quando o cãobeludo dá por ele, salta, corre e eu grito, chamo por ele, em pânico, com medo que estraçalhe o gato. Nem quero pensar. O que vale é que o gato, que parece hipnotizado a olhar para nós, quando se sente perseguido pelo dog, salta e corre e trepa e consegue salvar-se. Quando o dia dobra, põe-se a gemer aqui no jardim, geme como nem sei bem o quê, talvez como uma velha desdentada e desolada, talvez como um bebé diabólico. Supostamente está a miar mas é mais um choro pungente, prolongado, intenso. A minha filha no outro dia disse que se calhar é uma gata com cio. Não sei, não faço ideia.

No outro dia, estava eu numa cadeira ao sol a ler quando dei por mim a sentir-me observada. Olhei em volta. Pois bem. Em cima do muro, perto de mim, um gato normal, cinzento raiado, olhos claros, lindo, não muito grande. Gostei dele. Mas nunca mais o vi. 

Às tantas, de noite, há orgias felínicas no jardim. O pior é que os cães, que não são de números destes, desatam a ladrar, possessos. No outro dia, de madrugada, era o gato a lamuriar-se alto e bom som e um dos cães dos vizinhos a uivar, outros a ladrarem e o nosso, que deve ter equacionado a que turma se juntar, desatou também a uivar. Acordámos com este concerto.

E é isto. 

O que também é extraordinária é a vida dos animais nos penhascos. Rochedos íngremes, esfarrapados, os animais a terem que andar a ver onde pôr as patas. Não podem ter descanso nem flanar com a cabeça na lua. Qualquer passo em falso pode ser a morte do artista. Ainda por cima com o passaredo rapinoso à espreita e com o belíssimo, belíssimo, leopardo das neves a rondar. Vagaroso, confundindo-se com as sarapintas das rochas, silencioso. E os pobres bebés, coitados, ali tão à mão de semear. E a gente vê e assusta-se, dá-se logo à empatia, coitado do cabritinho. Como se o leopardo não tivesse direito a alimentar-se. Como dizia hoje uma vizinha da rua da minha mãe, 'isto a vida não está fácil é para ninguém'. Ah pois não.

Ah, é verdade, não sei se isto do leopardo das neves é uma metáfora ou se é apenas uma coincidência. Ou nem isso. Não sei.

Baby Goats do Parkour to Escape a Leopard | Animal Babies | BBC Earth

Markhor goats face perilous mountain ranges, fearsome wolves and formidable eagles. However, no opponent is more menacing than the snow leopard. These elusive cats may have evolved to hunt, but the markhor goat kids were built to survive.


Dias felizes

terça-feira, abril 20, 2021

Uma gaiola pouco consensual e um gato com um olhar verde e intrigante

 


O Leitor Anónimo desata a rir com a minha inocência. Na volta é o mesmo sátiro que resolveu atentar contra o mesmo bucolismo e, onde eu imaginava passarinhos debicando as doces romãs, ele veio aqui despejar um balde de água fria na minha prosa, dizendo que era obra de ratazanas, qual passarinhos. Há pessoas que gostam de dar desgostos aos outros. Agora foi com a gaiola. 

Toda sonhadora e romântica, idealizo uma gaiola branca, elegante, aberta-- e imaculada. O supremo requinte: um lugar sofisticado para os pássaros poderem recolher-se, alimentar-se, tomarem uma bebida, colherem inspiração, darem uma flirtada. Tal como aquele belo sunset na bela cidade de onde se vê o rio e todo o casario e onde se está tão bem, assim a minha open gaiola, uma espécie de hotel de cinco estrelas sempre de porta aberta. Sejam pardais, rolas, melros, picapau, cuco, todos esses pássaros que por aqui esvoaçam e cantam, todos serão muito bem acolhidos. E tal como quando a gente vai a um lugar requintado não vai pôr-se a sujar o espaço, assim imagino eu os belos e cantadores pássaros: educados, civilizados. 

O meu marido é o contrário, não liga patavina aos meus devaneios e atalha cerce: Quando aquilo estiver tudo cagado, vais tu limpar? 

Não respondo, não gosto da pergunta. 

Ao fim da tarde, toda de mansinho, voltei à carga: Não queres vir ver onde é que a gaiola fica bem...? 

E ele: Não.

Não me deixo abalar por tão pouco. Fui para o jardim avaliar qual a melhor localização. Ou no canto, lá em cima, no ponto mais alto, ou cá em baixo, mais perto do terraço, junto à chuva de hastes do jasmim amarelo. 

Depois voltei para junto dele: Não queres vir à garagem ver o tamanho da gaiola e como é que a tiramos de lá...?

E ele: Não.

No problem. Fui eu. Tentei tomar-lhe o peso. Nem arredou pé: pesada, pesada. Olhei-a por baixo e vi que, afinal, tem rodas. Portanto, menos mal. Mas, tão pesada, como puxá-la? Pensei que, se calhar, tem que se amarrar uma corda e puxar.

Voltei para o pé dele: Já percebi, tem rodas. Temos que puxá-la pela rampa da garagem. 

Ele: Temos...?

E eu, fazendo de conta que não percebi a nuance: Amanhã tratamos disso.

E ele: Sim, sim. Como quem diz: Vai esperando.

Portanto, está garantido. Não vai ser fácil, vai dar luta. Mas cá estamos.

À hora de almoço quis ir comprar alpista. Disse-me simplesmente: Não vou. 

Respondi-lhe: É que acho um bocado disparatado alimentá-los a basmati.

Fez de conta que não ouviu. Não fui sozinha, não sei dar com aquilo, ainda não conheço bem os trajectos. Mas é outro assunto que tenho que resolver. Também ainda não vi onde são os bebedouros, se estão dentro da gaiola ou se terei que arranjar umas tacinhas. Nem sei se basta ter uma casa bonita com comidinha e bebidinhas para eles se sentirem atraídos ou se é suposto ter alguns motivos de atracção, vasinhos pendurados, por exemplo. A minha filha falou em espanta-espíritos. Sou navegadora de primeira água nisto de gaiolas, não sei. 

O meu marido diz: Ocupas todo o espaço, não vais descansar enquanto não encheres o jardim de toda a espécie de coisas. 

Disse-lhe: Não sei a que te referes.

Disse: Vê com as suculentas. O terraço já está cheio delas.

E eu: E então?

E ele: Então, nada. É isso.

Resumindo: a ver se esta terça-feira tiramos a gaiola da garagem e a ver se um dia destes arranjo maneira de comprar alpista.

Entretanto, uma novidade. De manhã, um misterioso gatinho preto de belos olhos verdes passeava-se pelo terraço. Não faço ideia de onde veio. Estava a trabalhar e ele a espreitar para dentro de casa. À tarde, demos com ele sobre o telhadinho do barbecue. Aproximei-me. Não fugiu. Fotografei-o. Parece-me um gatinho novinho, ainda com uma espécie de penugem misturada com o pelo. O pêlo é preto mas, ao sol do fim da tarde, parecia com laivos de ruivo. O olhar é penetrante, quase irreal, quase abstracto. 

Não tem medo nem me estranhou. 

Mas não sou entendida. Não sei. 

Fui ter com o meu marido e disse: Vou dar-lhe leite.

Ele: Mais outra...

Quando estava a preparar o lanchinho, o meu marido chamou lá de dentro: O que é que estás a fazer?

Eu: A preparar o leite. Porquê?

Ele: Porque é que estás a mexer no microondas?

Eu: Para aquecer o leite. Não ia dar leite frio.

Ele, lá de dentro: Está tudo perdido.

Fui pôr a embalagem de plástico com leite morninho no telhadinho. Inho, inho. O gatinho afastou-se um pouco. Ficou a espreitar. Mal me afastei um pouco, foi beber.

Depois lambeu-se, enquanto os olhos brilhavam de tão verdes. Tão, tão verdes.

Agora estou a pensar: será que vai perturbar os pássaros que forem curtir o spa na gaiola? Terei que ver isso. Será que deveria arranjar uma casinha também para ele?

Só aventuras.

[Só espero que o Leitor que gosta de vir para aqui com um baldinho de água fria na mão para um just in case não venha agora dar-me mais alguma notícia desconcertante. Não é um gato? É uma pantera? Conte-me tudo]

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Um dia feliz para si que está aí desse lado. 

domingo, dezembro 13, 2020

Memórias e medos a caminho de um heaven transbordante de cogumelos mágicos

 


Quando eu era pequena tinha medos. Aliás, tinha um medo. Um senhor medo: um pavor. Tinha medo de ver alguém com alguma doença que me parecesse grave. Era um medo incapacitante. Toda eu tremia por dentro, aterrorizada. Não sei precisar quando nasceu esse medo. Seria quando o meu avô materno morreu? Não sei. Pensava que teria uns três anos quando ele morreu num acidente. Afinal, tinha dois anos, disse-mo a minha mãe. No outro dia, quando morreu a filha do Tony Carreira, a minha mãe disse que nem queria imaginar o choque da família ao receber a notícia. Chorava enquanto falava. Perguntei porque chorava assim. Disse-me que se lembrava de quando recebeu a notícia do acidente do meu avô. Diz que até hoje ainda não recuperou do choque e desgosto. Imagino como terá sido, na altura. Tinha vinte e cinco anos, ela. Tinha uma relação por vezes um pouco indiferente em relação à mãe mas era amicíssima dele. Durante toda a vida presenciei o desgosto pela morte prematura do pai. Foi um acidente traumatizante. A minha avó, que era apaixonada pelo marido e que nesse dia ia ao cinema com ele, teria quarenta e um ou quarenta e dois. Durante anos a vi chorar ao falar do meu avô. Vestiu luto durante quase toda a vida. Na altura esconderam de mim (já o contei muitas vezes) mas devo ter percebido. Penso que é, portanto, provável que tenha nascido aí o meu medo da morte. 

Depois foi um acidente grave que aconteceu ao irmão da namorada de um dos meus tios, aquela que veio a casar com ele e de quem eu ainda sinto muitas saudades, custando-me, por vezes, até a acreditar que já se tenha ido, tão alegre era e tão saudável parecia. Ficou paraplégico, esse irmão dela, o mais novo de cinco irmãos. E eu, que o conhecia bem, um jovem simpático e tímido, ao ver a consternação de toda a gente, dos meus pais, dos meus avós, dos meus dois tios, jovens como ele, fiquei soterrada pela dor que sentia em toda a gente. Esteve internado durante muito tempo. Eu desejava que ele não regressasse, antevendo já o terror que nasceria da proximidade. Lá por casa, sabendo-me muito sensível a esses sofrimentos, escondiam de mim, falavam por meias palavras ou em voz baixa. Eu ouvia, pressentia, adivinhava. Os pais dessa que viria a ser minha tia, face ao estado em que tinha ficado o filho, tiveram que mudar de casa. Era uma casa térrea que ficava na mesma rua que a escola infantil em que eu andava. E eu, a partir daí, passei a ter medo de ir para aquele lado do recreio com pavor de o ver ou de me aperceber que alguma coisa de grave estava a acontecer. Mas devia perceber que, se falasse neste meu terror, preocuparia os meus pais. Por isso, calava-o, escondia-o.

Depois foi o pai de uma colega de escola, uma a casa de quem eu ia muito até porque, por coincidência, também morava perto da escola. Além disso, ele era colega do meu pai. Eu percebia que se passava alguma coisa de grave e morria de medo. Nunca mais lá fui a casa, para desgosto da minha colega. Nem falava com ela na doença do pai com medo de descobrir que a morte rondava a casa. Quando ele morreu, a minha vontade era não ir à escola. Fui mas nem olhava para a rua, aturdida de pavor. E quando ela regressou à escola nunca falei na morte do pai com medo de saber pormenores e com uma pena imensa por ela já não ter pai e porque tinha ouvido dizer que ele estava muito magro, irreconhecível, e que tinha muitas dores.

Durante anos íamos passear e fazer compras à Baixa, usando um transporte público que era usado por quem também ia para a 'Palhavã', o IPO. O pavor que eu sentia, o terror que me trucidava as entranhas só eu sei. Se via alguém com pensos, ligaduras ou ar de doente quase morria de medo. Mas escondia-o. Tinha medo de preocupar os meus pais. Penso que eles perceberam pois tenho ideia que tentavam que eu compreendesse que não tinha mal nenhum. Mas era mais forte que eu. 

Feridas, chagas, sofrimentos terminais, tudo isso sempre me aterrorizou. Mas só nos outros. Penso que, no fundo, sobretudo, tinha medo de deixar transparecer o meu medo e que as outras pessoas se sentissem ainda piores por verem os cuidados e medos que me inspiravam. E a verdade é que penso que isso ainda subsiste em mim, embora mais controlado.

Comigo, no entanto, não existe esse medo. Em mim, suporto relativamente bem a dor física, tenho uma certa coragem e desprendimento em relação a mim própria.

Já o contei. Desculpem que me repita. Quando era pequena, talvez três anos, parti uma clavícula. Estava em casa sozinha com o meu avô paterno. Gostava de me pôr de joelhos em cima de um banco que havia na cozinha e de me balouçar lá em cima. Ninguém queria que eu fizesse isso mas eu gostava de pôr o banco em dois pés e de o inclinar para ver até onde conseguia equilibrá-lo. Os meus pais e a minha avó agarravam-me, zangavam-se. Mas o meu avô, muito meu amigo e muito condescendente, tinha dificuldade em zangar-se. E, naquele dia, o banco virou-se, eu caí e, ao contrário do que costumava acontecer, chorei muito. O meu avô percebeu logo que alguma coisa se passava e mandou chamar o meu pai que estava a trabalhar. Quando o meu pai chegou, lembro-me bem, eu estava na cama do quarto ao lado do quarto dos meus avós e estava a chorar. O meu pai vinha assustado e ao tentar perceber o que se passava deve ter-me mexido no braço ou deve ter visto, através da pele, que o osso estava partido. E eu vi o meu avô também assustado e a declarar-se culpado, e o meu pai, aflito, quase a chorar. Então, para os descansar, disse que já não me doía e fiz de tudo para não chorar. Fui de imediato levada ao médico que, à vista, percebeu logo o que se passava. Tinham-me pegado ao colo e puseram-me numa marquesa que me lembro como sendo muito alta mas que, se calhar, era normal. Sei que o médico disse que ia, com as mãos, endireitar os ossos, alinhando as duas partes. Avisou que ia doer e que eu tinha que ser corajosa. E fui. Lembro-me bem. Doeu-me muito. Mas não chorei. Os meus pais sim. O médico ficou espantado com a coragem daquela criança; e eu hoje espanto-me com isto. 

Toda a vida fiz de tudo para me mostrar corajosa para não assustar os outros. 

Corria muito, descia a correr por veredas, voava pelo campo em descidas acentuadas, subia muros e árvores, brincava muito, caía muito, esfolava-me toda. Para não assustar os outros, não chorava. Tenho os joelhos com marcas, tamanhos os ferimentos que fiz. Por vezes, infectavam. Os meus pais desinfectavam, muitas vezes com tintura de iodo, que me ardia e magoava muito. Lembro-me, em especial, já andava na primária, de um ferimento profundo que fiz num dos joelhos. Estava ainda a cicatrizar, voltei a cair, entrou areia. Infectou, já tinha pus. Pedi, então, ao filho de uma vizinha da minha avó, um recém adolescente, que tratasse de mim para não preocupar nem a minha avó nem os meus pais. Ainda me lembro: eu sentada num muro, ele com um pauzinho a retirar os grãos de areia da carne viva. O que me doía... Depois ele foi a casa buscar mercurocromo. Quando a minha mãe viu o estado em que aquilo estava, ficou toda zangada. Eu não me queixava. Por causa disso, não tive tétano por um triz, tendo que ser levada, a meio da noite, de urgência, para o hospital, onde, a custo, me espetaram uma seringa na barriga.

E de tal maneira me habituei a esconder as minhas dores que acabei mesmo por me tornar a modos que estoica em relação a mim própria. 

Em contrapartida, mantive-me medrosa em relação aos outros. Por exemplo, com os meus filhos sempre fui de uma fragilidade total, por vezes absurda. Mal tinham alguma coisa, logo eu ficava num estado de nervos que frequentemente não era proporcional ao mal que os assolava. Penso que notoriamente vinha desses tempos primordiais em que o medo me estrangulava. Mas nem era preciso ser alguma coisa de especial: bastava uma coisinha. Lembro-me, por exemplo, do que eu sofria quando eles tinham os dentes quase a cair. Nunca fui capaz de os ajudar a tirá-los. Uma vez a minha filha tinha um dente preso por um fio. Já nem conseguia comer. Estávamos numas termas (um tempo abençoado, esse). E estávamos a almoçar no restaurante de lá. Com o dente preso por um fio de carne, fomos as duas ao quarto a ver se conseguíamos resolver aquilo. Mas qual quê... Só a perspetiva de poder magoá-la me deixava transida. Ela a querer que eu puxasse e eu aflita. Pior: já a sentir-me mal, quase a desmaiar. A miúda, pequena, a tranquilizar-me e a incentivar-me e eu está quieto. Tive que me sentar na cama e ela, corajosa, ao espelho, teve que resolver, sozinha, o assunto. Às vezes ainda fala disso. Uma vez foi o meu filho. Também caiu de um banco na cozinha, a mesma coisa que eu. Só que se magoou num dedo, cortou-se. O meu pânico ao ver como ele tinha o dedo, ao pensar como lhe devia doer, a minha aflição quase despropositada. Felizmente não sou de exteriorizar senão ainda mais ridículo ficaria. Fico transida, sem falar, simplesmente num temor enorme.

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E vinha para escrever sobre outra coisa e, afinal, distraí-me e acabei por me perder. Não era de nada disto que eu vinha para falar. Ia contar que, à ida para o campo, íamos a ouvir o Jaime Nogueira Pinto e o Pedro Tadeu a falarem da pandemia e das pestes ao longo da história, tema do último livro do Jaime Nogueira Pinto. E falavam de como isto vai mudar a vida e o mundo e do medo com que aprenderemos a viver porque primeiro que esta se extinga muito tempo decorrerá e, a seguir a esta, outra pandemia virá. Aprenderemos a viver com medo do invisível, do mal que nos pode chegar através de um filho, de um neto, de um amigo. E falou de como é desolador o estado da baixa de Lisboa, muitas lojas fechadas, provavelmente definitivamente fechadas. E eu pensei como deve ser frustrante e triste para as pessoas mais velhas que poderiam viver os seus últimos anos mais tranquilamente e agora a terem que andar de máscara, sem a ternura de um beijo ou abraço, longe da companhia dos seus.

À tarde, ao receber o telefonema de um amigo, soube que uns outros tinham tido covid e, mais estranho, soube que uma delas, que teve covid há quatro meses, semanas de sintomas e testes positivos, agora, num teste serológico, soube que não está imune. Foi a outro lugar fazer o mesmo teste, convencida que o primeiro estava errado, e obteve a confirmação: está como se não tivesse tido covid. E fiquei a pensar que esta porcaria desta doença, de facto, tira o tapete a toda a gente. Parece não seguir um padrão e isso mais difícil se torna de gerir. Uma roleta russa. 

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Mas isto das pandemias e dos medos até era para ser de passagem pois a minha ideia era mesmo falar da maravilha dos verdes in heaven. Do perfume do campo. Dos passarinhos e dos seus alegres e inocentes cânticos. Dos cogumelos. E da gata. 

Num blog, a escrita deve ser contida, parca. E eu, sabendo disso, esqueço-me e escrevo desabaladamente, esquecendo-me de que pouca gente deverá ter paciência para estes longos testamentos. Por isso, agora que vejo o comprimento do que já escrevi, não vou poder alongar-me a descrever o encantamento em que por ali andei. Apanhei laranjas e tangerinas, comi algumas, fotografei tudo o que vi, vagueei, maravilhei-me.

A quantidade e variedade de cogumelos continua a deixar-me espantada. Hoje até com uns redondos e peludos, coisa nunca vista, me deparei. Outros, umas bolinhas acastanhadas, compactas, superfície também a querer dar-se ares de felpuda. Outros cor de laranja, ondulados e como se de borracha, outros translúcidos, outro grande, quase azul. Uns grandes, outros minúsculos. Outros aos folhos verdes, como se de bordado inglês às palas. Não sei que terra mágica virou o meu querido e abençoado heaven para dele saírem seres tão extraordinários. Nem sei o significado disto, se é que tem significado. Mas será que, nas grutas, também vivem animais assim, às cores, seres nunca sequer imaginados? Teria graça.

E, de novo, eu a levitar por ali, silenciosa, em estado de êxtase, e ela, esfíngica, a observar-me. 

Aproximei-me, quase emocionada por ela estar ali, parada, a ver-me. Deixou-se estar. Fui-me aproximando, falando com ela. E ela a ver-me. Até que, sem querer desliguei a máquina e, ao voltar a ligar, o som de arranque a fez ir-se embora. É esquiva. Mas sinto-a como um ser superior. 

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Como é bom de ver, as fotografias foram feitas in heaven e acompanham The Lullaby Project pelas mãos de Catrin Finch & Seckou Keita

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Desejo-vos um belo dia de domingo, sem medos.

Saúde. 

sexta-feira, dezembro 04, 2020

Conto de Natal: o lobo e a gatinha

 


A gatinha anda por aí. Branquinha e cor de mel. Silenciosa. Apanha sol, desliza por entre as flores, disfarça-se por entre as sombras, oculta-se em plena luz. Existe e isso chega-lhe. Quando se espreguiça sabe que é feliz e essa é a felicidade maior, a que não precisa de ser procurada. Por vezes brinca. Brinca às escondidas, a gatinha. Foge, espreita, vigia, tem vontade de se aproximar mas também tem vontade de fugir, e hesita. Hesita, hesita. Esconde-se. Brinca. Não diz nada. À gatinha nunca ninguém ouve uma queixa, não é disso. É mais de virar as costas e dar um bye. Mas fica de longe, a espreitar. A esperar. A querer aproximar-se. 

Escuta, confunde-se com o silêncio. E espreita. Observa. Talvez pense. Ou talvez não. Não é de pensar, é mais de sentir.

Mas, na sua inocência de gatinha feliz, ela sabe que o mundo não é bem assim, não é só o muro em que se deita ao sol, os carreiros por onde se esgueira entre as árvores, os pássaros que por ali andam. Não, não. Ela sabe que há perigos.


Muitas vezes pensa que, se fosse de pensar, pensaria no que faria se o perigo acontecesse. Ocorre-lhe que não sabe. Não sabe pensar nem sabe o que pensaria se pensasse. Por isso não se defende. Nem se atormenta. Se fosse outra a sua natureza talvez se amedrontasse com pensamentos envoltos em medo: Ai... Se surgir um lobo... o que farei? Assustar-me-ei? Morrerei de aflição? Esconder-me-ei? Desafiarei o lobo? Ou esperarei que ele se decida e só então verei? 

E o lobo? O que faria o lobo? Assustar-se-ia com a doçura da gatinha? Teria coragem de atacar quem parece nada temer?

Talvez o lobo tivesse vontade de chamar a gatinha. Mas não sabe o seu nome. Se quiser chamá-la, talvez se limite a fazer bschhh, bschhhh, bschhh. De que outra forme a chamaria? Apenas com o bater do seu coração? Talvez o lobo pense que, se tivesse dois corações, assim a gatinha o ouvisse. Assim, não ouve. Então, entre respirações, talvez ensaie o tal chamamento: bschhhh, bschhh. 

A gatinha fará de conta que não ouve. Gosta de fazer que não percebe, gosta de se fingir desinteressada. 

Talvez o lobo se deite, silencioso, disfarçando o tremor que lhe nasce da ansiedade, talvez em surdina balbucie bchhh, bschhh, bschhh. Os olhos luzindo na noite, a respiração ofegante, o lobo quer mas não quer, quer mas não quer. 

Que faria ele se estivesse perto da gatinha? Não sabe. Não sabe lidar com gatinhas despreocupadas, felizes. Receia que a gatinha quebre o seu coração em dois. Ficaria, então, com dois corações mas incompletos, despedaçados.

Recuará, certamente, o lobo. Hesitará. Os lobos são seres literários, uivam em silêncio na calada da noite, são seres solitários, preferem viver nos sonhos, nas páginas dos livros, preferem a companhia das palavras. São seres dúplices. Atravessam os caminhos frios e sombrios em que não há vivalma, escondem-se onde ninguém os pode ver, vivem em grutas, são vultos, confundem-se com vultos, desdobram-se em vultos. São obscuras emanações da noite. Desconhecem a voluptuosidade do sol sobre a pele, desconhecem a alegria de pouco mais saber do que viver sem pensar.

Mas o lobo é também um ser atento e cultivado, sabe que é natal. E, então, armado em bonzinho, anda um pouco mais, rasteja por entre as ervas húmidas da noite, o bafo morno transformado em fumo, quase deslizando por entre as silenciosas sombras da madrugada, põe o peito a descoberto para que melhor ela lhe arranque o coração, mostra as patas cheias de cicatrizes, quer que a gatinha saiba que já foi ao fim da noite. Depois aproxima-se ainda mais e sussurra: rom-rom... rom-rom... rom-rom...

Quanto à gatinha não vou nem dizer qual a reacção. O conto é de natal mas convém que tenha algum suspense, pelo menos para poder ter continuação.


Miaaaauuuuuuuuuuuuuu.....................................

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E um dia feliz para todos, sejam vocês gatas, gatos, lobos ou lobas.

segunda-feira, novembro 16, 2020

Uma gata in heaven tendo por companhia uns Sapatos de corda.
[Com vossa licença, vídeo da autora incluído]

 



Um passo atrás, e regresso a sábado. Dia tranquilo, de passeios vagarosos por entre as árvores, pisando o musgo, a caruma molhada, a terra macia e perfumada.  

A casa estava fria depois de ter estado fechada durante duas semanas. As casas entristecem quando se sentem sozinhas. 

Quando entro, sinto logo aquele cheiro tão característico. Parece que ainda guarda, meses após, o registo olfactivo dos últimos aconchegantes calores da lareira. Ou talvez seja da lenha que ainda ali está, a lenha dos cedros que o meu marido desbasta. Ou das azinheiras. Madeira tão perfumada e boa. Abro portadas e janelas, quero que entre a luz. Sinto a felicidade do reencontro. Admiro-me: deixei a almofada fora do sítio? Deixei. Recordo-me que não tive tempo de deixar tudo em ordem. Depois não quero saber, mal posso esperar por sair e ir ver o que há de novo.

Ontem não contei que voltaram a aparecer aquelas grandes pegadas. Um bicho que escava a terra nos sítios em que a terra é mais fofa. Tenho ideia que é na altura em que os cogumelos rebentam da terra que aparecem as marcas daquele bicho misterioso. Javali, talvez. O J. diz que sim, que aquilo é obra de javali, e eu acredito. Não sei onde se esconde. Talvez na gruta maior, mas não averiguamos. Há mistérios que não devem ser desvendados. 

Depois, volto a casa. A sala de baixo, desde que a minha filha a transformou, está agora um elegante e clean lugar de tranquilidade. Apetece estar. Foi dia de leitura. Reclinada no cadeirão, uma mantinha macia no colo, aquele calorzinho bom das tardes de outono. Nas mãos, Sapatos de Corda. Mónica Baldaque fala das suas memórias, fala dos seus pais. Gosto do que ela diz da mãe. As filhas podem ser intransigentes, pouco benevolentes para com as mães. Por vezes guardam memória de apontamentos insignificantes que as marcaram sem que as mães sequer tenham ideia de que falam. Idealizam uma mãe perfeita e as mães são como elas são enquanto mães, mulheres normais, esforçadas, dedicadas e cheias de amor, mas humanas, imperfeitas. Mas Mónica, quando fala de Agustina, não se coloca como uma filha que avalia ou julga a mãe, muito menos como uma filha que acerta contas com a mãe que habita o seu passado. Não. Há ali uma muito genuína e muito profunda admiração. Mais do que como mãe, ela vê Agustina como um Ser. 

Minha Mãe, mais do que uma filha, uma mulher, uma mãe, era um Ser. Um Ser raro, indefinível, pairante, impossível de encaixar em qualquer modelo. Exercitou a paciência para com Deus e a Vida, e sempre procurou o sentido dela e das criaturas que a habitam.

E fala do pai também com admiração, como se fosse outro ser especial, um guardião da liberdade e da criatividade da mãe, alguém que também reconheceu na mulher aquele toque da excepcionalidade que se presencia de perto once in a lifetime e, por tê-lo reconhecido e venerado, lhe deu todo o espaço e tempo do mudo. Viveu até ao fim, serenissimamente devotado à mulher da sua vida.

Para entrar na vida de minha Mãe, arrumou o seu próprio passado, não sei se com um sentimento de culpa, e caminhou ao lado de sua mulher. Aceitou partilhar um destino, construiu-o, por amor a minha Mãe e à inspiração que ela transmitia, e sustentava os sonhos.

Lê-se o livro e reconhece-se que Agustina paira naquelas memórias. São as memórias de Mónica a propósito da mãe e a influência daquela mulher misteriosa e ímpar está marcadamente presente.


De vez em quando saí para ver os verdes das árvores, dos arbustos, dos musgos ou o rubro das folhas das parreiras, aspirar os odores da terra e ouvir os pássaros. E, contei-o também, voltei a ver o gatinho. Não sei se é sempre o mesmo. Deixou-me chegar muito perto. Eu aproximo-me e ele, ou ela, deixam, expectantes. Há curiosidade de parte a parte, um namoro longo.

Fiz um vídeo. Não está capaz. Não sei filmar, já se sabe. Mas mostro-o, ainda assim. Talvez um dia volte a mostrar outro, já eu a fazer uma festa no enigmático animal que me espia. Senta-se a olhar para mim. Talvez ache estranho que, de vez em quando, ali apareça esta que passeia como se flutuasse, em estado de encantamento, olhando tudo como se fosse a primeira vez.

Uma gata in heaven

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Voltei às minhas fotografias: já consigo passá-las para o computador e é com gosto que as partilho.

Joana Gama interpreta Für Alina de Arvo Pärt

E era bom que alguém ouvisse o meu apelo do post aqui já abaixo

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Desejo-vos uma semana feliz -- a começar já por esta segunda-feira

Saúde. Força. Boa disposição.

domingo, novembro 15, 2020

Um dia in heaven com cogumelos, fetos, caruma molhada... e um gato espião, silencioso.

 




Não posso dizer que seja um silêncio absoluto. Não é. Há sempre pássaros a cantarem. O que acontece é que, ao contrário dos pássaros que se passeiam pelo jardim da outra casa, grandes, arrojados, com cantos despudorados e salientes, estes aqui são discretos, inocentes, suaves pipilares, cânticos airosos, breves, brincadeiras de uns para outros. 

Como o dia esteve chuvoso e não frio, os odores evolam-se da terra e são odores quentes, húmidos, íntimos. Passear por aqui é como andar por entre verdejantes veredas no paraíso. O solo está coberto de caruma macia, molhada, ou por sumptuoso musgo, aveludado, muito verde. 

Destoam e, por isso, sobressaem as piracantas que estão ao rubro: as bagas são cor de fogo ou tingidas de carmim. Os medronhos estão encarnados por fora e amarelos, sumarentos e doces no interior. As laranjas começam a ficar maduras. Estão pesadas, com uma cor cheia de sol e perfume.

As folhas que ainda resistem nas videiras estão cor do fogo de outubro mas são já uma escassa amostra. As que estão no chão, tal como as dos plátanos, estão molhadas, brilham naquele estertor inocente que precede o seu fim. Há muita beleza em todos estes ciclos que, ano após ano, marcam o inexorável avançar do tempo.

E, uma vez mais, há cogumelos por todo o lado. De vários tipos, tamanhos, cores e feitios, eles rebentam da terra, aparecem de sob as pedras, encravam-se por entre os troncos das árvores. Surpreendem-me pela profusão e diversidade. Acho-os daqueles milagres que me fazem ter vontade de me ajoelhar e abençoar a fertilidade milagrosa da terra. Não sei se há um significado nisto. Na minha ignorância penso que este fenómeno só pode ser explicado pela total ausência de poluição. Ou, então, pelo profundo amor que a terra sente que temos por ela, agradecendo e demonstrando a sua retribuição desta forma exuberante.

E voltei a sentir-me observada e, uma vez mais, era um gato silencioso. Deixa-se estar a olhar para mim.

Filmei. O vídeo ficou impossível, movimentos agitados em excesso. Estou a tentar carregá-lo mas talvez não consiga incorporá-lo. Aproximo-me e ele não se mexe. Quando estou quase junto, ele levanta-se, dá meia volta, avança dois passos e volta a sentar-se. Estive perto, nunca tão perto antes. Começa a aceitar-me sem muitos receios. Sabe, melhor que os outros, que sou de confiança: tento sempre compreender.

Por causa do recolher obrigatório, teremos que sair cedo. Ainda tentaremos ver parte da família. Esta situação deixa-me vergada de saudades. Estava a jantar e a pensar que haveria de fazer um empadão de puré de batata com carne picada estufada em tomate no interior e que cobriria com pão ralado e levaria ao forno para 'quando eles lá forem'. O meu marido perguntou: 'quando?' e eu fiquei sem saber, triste. Quando poderei voltar a tê-los a todos à volta da mesma mesa, todos a falar, a rir, a contar histórias, a provar e repetir os petiscos?

Os senhores das mudanças, três vigorosos e bem dispostos brasileiros, vieram cá hoje buscar a mesa de ping-pong que ficará melhor lá, na garagem, que é muito grande e tem janelas e um grande portão. Penso: vão gostar de fazer torneios, jogar a pares. Mas quando? É certo que o tempo corre mas quando nos veremos verdadeiramente livres deste corona de uma figa, para não termos que estar de máscara, para nos podermos abraçar à vontade?

No outro dia, lá em casa, a minha menininha experimentou uma tiara, travessões com laços, um gancho com esvoaçantes penas e etéreos tules. Adorou. Mas estava de máscara, eu de máscara, as janelas da casa abertas, o frio a entrar. Não tem grande jeito, isto. Não nos vemos inteiros, nada é confortável ou lógico. Mas, claro, não pode ser de outra maneira pois somos responsáveis. Mas não é agradável.


Mas, enfim, não vale a pena carpir. O que vale é resistir, aproveitar o contacto com a natureza, aproveitar o lado bom do recolhimento.

E estava aqui a fazer tempo a ver se o vídeo acabava de ser carregado mas, com a internet móvel e pedal, é para esquecer. Também não deve estar capaz de ser visto. Tenho que aprender a segurar na câmara com mais vagar e maior firmeza para não se sentir a oscilação e para, quando a desloco, não ser uma almareaçãoo.

Fico-me, pois, por aqui.

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E queiram descer, caso vos apeteça ver uma bela paródia em volta de Biden e Trump.

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Um bom domingo!

quinta-feira, junho 18, 2020

Contra os chatos e os convencidos
marchar, marchar





Porcaria da internet. Isto hoje está naqueles dias impossíveis. Carrego numa qualquer opção e o ecrã põe-se branco, atordoado dos pensamentos, em total estado de estupor catatónico. Há bocado, estava eu a tentar descortinar uma complicação no meu computador, ouço o bebé: 'Pocaria da internet!'. Perguntei: 'Então, que se passa?'. E diz ele, apontando para o computador que estava a usar: 'Isto não anda!'. De facto. Todo o dia tem sido este desespero. Não mexe. Impossível escrever aqui com isto neste estado, em aberto e acintoso contravapor. Apetece-me desistir.


Enquanto não desisto, conto uma coisa. Quando estavam a sair, digo ao bebé: 'Olha, meu amor, gostei muito que cá tivessem estado' e responde-me ele: 'Nós ainda cá estamos...'. O meu filho disse: 'O tempo verbal que usaste não lhe pareceu correcto'. E fiquei a pensar que a nossa pressa em viver leva-nos a cometer estes erros, a transformar em passado o que ainda é presente. menino mais fofésimo.

Os manos estiveram com aulas e avaliações, tiveram boas notas, brincaram, zaragatearam um com o outro, brincaram com o maninho mais novo e, como sempre, encheram-me o coração. Os pais trabalharam, nós trabalhámos. E o tempo avança.

Entretanto, para além dos números assustadores de países em que a pobreza intelectual ou económica impera, vamos sabendo de novos surtos do corona na China e que, por cá, os números não descem tanto quanto deviam. Na volta, ainda nos arriscamos a ter mesmo a tal segunda onda que nos impedirá de voltarmos tão cedo a uma vida descontraída. Estou bem como estou mas, ao mesmo tempo, penso que qualquer dia vou mesmo ter que voltar a trabalhar em torres de vidro, sem janelas, e isso traz-me uma certa ansiedade. O bebé, quando se fala em escola, muda de conversa, levanta-se. Não lhe agrada. Está bem assim. Eu também estou.


Bem. Hoje vinha para falar de outra coisa. Aliás de duas coisas.

Uma é um mistério: estando aqui sossegada em casa, por que estranha razão não me dá para ler? Volta e meia pego num livro mas, confesso, ao fim de pouco tempo, pouso-o. Não sei porquê. Parece que não quero trazer para dentro desta insólita liberdade que agora vivo nenhum dos meus anteriores hábitos. É absurdo dizer isto a propósito dos livros e, na volta, nem tem nada a ver mas, se não é por isso, por alguma razão é.

A outra é esta: não tendo aqui senão a televisão corrente, quase não a vejo. Não suporto ver gente que se leva muito a sério, gente que se acha, gente que sabe tudo e não se ensaia nada de tecer juízos morais sobre os outros. Parece que toda a gente que ali vai se acha importante, sabedora, superior. Um tédio, uma seca, um saco. Desligo. Mudo-me para a netflix ou vou descobrir vídeos.



E penso: à distância, em reuniões remotas, consigo evitar muitos maçadores. A hipótese de voltar a frequentar a cidade, os corredores, os salões e demais antros de gente parva é daquelas que também me assusta.

Por exemplo, o vídeo abaixo. Uma graça.


Ou este:


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Fotografias de  Fee-Gloria Groenemeyer

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Saúde e alegria para todos

segunda-feira, maio 25, 2020

É um desnudamento quando escorregamos da pele para fora, para o vazio







Conheço uma pessoa, que não conheço, que me disse que queria ver-se livre das palavras. E, no entanto, para mim ele é feito de palavras. Quando penso nele, penso nas suas palavras. Conhece milhares de palavras e de cada palavra ele conhece o sentido e o anti-sentido e sabe edifícios que as usam como materiais de construção. Há quem de um conjunto de pedras construa uma catedral e ele era menino para fazer o mesmo. Diz que não. Diz que está cansado delas. Mas de uma palavra nascem-lhe ramos de rosas invisíveis, bandos de pássaros inventados, rios infinitos e muito belos, montanhas secretas habitadas por seres nunca antes vistos. O seu mundo é o das palavras e eu estou em crer que ele sente através do que as palavras lhe dizem. Aliás, nem sei se sente ou se apenas constrói pensamentos que, por vezes, às escondidas, falam de emoções. Mas nem disso estou certa. Até porque o desconheço. Mas não acredito que queira mesmo esquecer-se das palavras. Aliás, estou em crer que, sem palavras, ele deixaria de existir. Pelo menos, enquanto pessoa. Talvez se transformasse em bicho. Talvez se transformasse em personagem de uma ficção que jamais quererei descortinar. Mas talvez as palavras também se recusem a abandoná-lo. Há pessoas a quem as palavras nunca abandonam. Há pessoas a quem as palavras correm nas veias e que, se não estou enganada, trocariam um amor e a própria vida pelas palavras. Pessoas que talvez tenham nascido de uma palavra e cuja vida seja a insana luta para descobrir a palavra de que nasceram.


Estive a ler aquele livro que a querida JV em boa hora me recomendou: O rei faz vénia e mata. Lá se fala de palavras, daquelas que parecem coladas aos objectos, daquelas que a gente pensa que conhece, daquelas que queremos que voem para muito longe, daquelas que escondem segredos. Palavras que não descrevem nada, palavras que existem sem razão, palavras a quem ninguém conhece, palavras sem carne, sem veias, sem escamas, palavras que só existem noutras línguas e que querem dizer coisas estrangeiras, que nos são estranhas. Ou não diz nada isso e sou eu que agora estou  a inventar o que estou a escrever? 

Por exemplo: o homem feito de palavras e que quer esquecê-las existe? Não sei. Não sei mesmo.

As palavras que eu escrevo sobre as palavras e que fotografo existem ou são meras pinturas de coisa nenhuma?


Há um lado secreto de mim, habitado por outras que não eu, outras que desconheço e a que apenas o homem das palavras tem acesso. Mas, como ele não existe, é como se ninguém a elas tivesse acesso. Ele não sabe falar comigo e eu não sei falar com ele. Por vezes, penso que ele fala a mesma língua nocturna que uma das outras que me habita mas, quando a noite se fecha, eu desapareço e dele não sei mais. A noite é um país desconhecido feito de labirintos que são percorridos por criaturas silenciosas que gostam de percorrer caminhos sem fim que acabam quando a noite acaba.

Caprichos negros, raivosas melancolias, ânsias da cor das nuvens que se avolumam no mar -- extrai Herta Müller da Explicação dos Pássaros de António Lobo Antunes para o colocar no livro de onde extraí eu o título deste post. 
E eu leio e gosto de ler. Não sei se são palavras que façam sentido mas as palavras que fazem mais sentido são palavras assim, intemporais, desligada da geografia em que foram proferidas.
Se, por exemplo, eu disser que caminhei, um dia, sobre uma estrada que descia e que voei ao lado de canteiros de flores e que do nada, dessa varanda encantada, nasceu um abraço prometido, um sorriso eterno, uma surpresa sem palavras e um fio que se estendeu pelo infinito, para sempre eu presa a esse fio, e que, por ele, enfrento minotauros enlouquecidos e desfaço tapeçarias que invento todos os dias, será que alguém pode levar a mal que nada se perceba do que digo? 

A liberdade de cerzir palavras -- construindo esconderijos, recantos, segredos, loucuras, fantasias, promessas, pedrinhas, conchinhas, caligrafias, gestos perfumados, pétalas de flores indecentemente sedosas, lânguidos sussurros de inexistentes leopardos azuis, gritos de pássaros loucos, memórias acarinhadas como raros tesouros, sombra de árvores acolhedoras como ventres maternos, gatos deslizando no silêncio da noite, sonhos, bordados, umas mãos que nos esperam -- essa liberdade ninguém me tira.  Mesmo que nada faça sentido. Aliás, sobretudo se não fizerem sentido. Já o confessei. Não quero despojar-me de palavras, gostava era de ser capaz de dizer coisas que fizessem sentido para outras pessoas como se fossem elas que as tivessem dito. Ou que façam sentido num outro lugar, num outro tempo, como se eu tivesse renascido para as dizer, como se eu tivesse que inventar uma pessoa para gostar de me ler.


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Hoje à noite apareceu um pirilampo. Estava na parede, junto à porta, do estúdio. Luzia como se não fosse possível. Vê-se e custa a acreditar. A natureza é cheia de improbabilidades. Há muitos anos que não via um pirilampo. Os meninos nunca tinham visto e creio que a mãe deles também não. 

O gato, que a minha filha diz que é uma gata, senta-se agora sobre a mesa de pedra que está em frente da sala. Vê-nos a olhar para ela e deixa-se ficar a olhar para nós. 

Os pássaros têm cores cada vez mais vistosas. Hoje esteve aqui um à porta que tinha o papinho num verde pistácio. Saltitava de alegria. E as rolas andam muito próximo, vivem nestas árvores que eu plantei e que agora roçam o céu. São lindas.

Há inúmeras lagartixas, perfeitas, ágeis. Não sei a que se deve. Parece-me um milagre a existência de todos estes animais.

A borboleta amarela que todos os anos me acompanha enquanto caminho veio de novo ao meu lado, minha guardiã, minha alma efémera e fugidia, minha alma todos os dias renascida.


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E, a propósito de coisas que parecem estranhas e sem sentido mas que, de tão inusitadas se tornam insólitas e especiais, deixem que partilhe convosco um vídeo que me prendeu do princípio ao fim sem que eu saiba dizer porquê. Parece-me uma coisa meio louca, sem nexo, insustentável. E, no entanto, uma coisa tão bonita, tão transcendente, tão indefinível.


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Desejo-vos uma boa semana.

Saúde e motivação. E que a beleza das coisas não vos abandone.