Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, setembro 20, 2018

Irresistíveis tentações




No primeiro dia fui logo a uma livraria. Estava sem tempo mas não consegui deixar de ir. Estava sem disponibilidade para passarinhar calmamente, para folhear, espreitar, tomar-lhe o pulso. Ao entrar, olhei o relógio e hesitei: entrar para quê, sem tempo? Mas foi mais forte. Ainda assim trouxe o livro do Manuel Alegre, 'Todos os Poemas são de Amor' e o da Hélia Correia, 'Um Bailarino na Batalha'. E trouxe-os só porque sim, só porque não podia deixá-los lá ficar e porque, de certeza, iria gostar mesmo que nem de tudo ou não muito de tudo. 

No dia seguinte, cruzei-me com a mulher com andar de passarinho em terra. Hélia Correia que, quando escreve, escreve como se desenhasse palavras no céu e que, quando fala, fala com assertividade e luvas de combate, quando anda, vai hesitante, o corpo pouco afirmado. Forço-me a pensar: 'Também já não é uma miúda, já vai para os setenta'. Mas não é isso, é mesmo aquela sensação de que não estará muito habituada a andar com os pés em terra, como se o seu mundo fosse o das brumas imateriais. Pensei: 'Hoje é que devia ter aqui o livro'. Mas fiquei a pensar: 'Se o tivesse, iria maçá-la? Teria o direito de ir interromper o seu caminho? Acho que não. Que futilidade absurda a minha se me achasse com o direito a interromper o seu andar para lhe pedir que escrevesse o seu nome...'

Regressei, pois, à minha vida na cidade, nas torres cristalinas, regressei àquele mundo em que os problemas se sucedem, em que há sempre coisas para decidir, assuntos para encaminhar, agendas para compatibilizar. Não há tempos mortos. Por isso não tenho tempo para pensar na aridez que são esses momentos quando comparados com os passeios no meu bosquezinho atapetado, tão perfumado, tão feliz para os pássaros que lá habitam e para mim.

Felizmente, de vez em quando, uma inesperada conversa sobre um poema ou sobre uma estranha opção na tradução de uma antiga expressão vem atenuar a falta de ar puro. Mas é insuficiente. E, então, fui de novo à livraria. Sempre com pouco tempo mas, desta vez, forçando-me a algum vagar, mesmo que breve vagar, para olhar com olhos de ver.

E vi 'Ru' de Kim Thúy. Não conheço, nunca tinha sequer ouvido falar. Foi a capa. Foi o que li na contracapa. Foi ter lido que Ru -- que em francês quer dizer 'riacho' ou 'torrente' -- significa 'canção de embalar' em vietnamita. E foi, ao espreitar-lhe a alma, ter gostado do que li. E ter gostado da paginação. Sou sensível a coisas assim. Como nos perfumes sou sensível ao nome ou ao desenho do frasco. Trouxe.

E também 'O regresso' de Hisham Matar. Ignorante, chegada do campo, sem conhecer autor, sem saber de novidades, só chegada a desenho de capa. Este tem passarinho abstracto e umas cores simples que logo puxaram por mim. E depois história real, coisa em cru. Gosto de coisas cruas. Trouxe.

E mais. Outro.
Um delírio. Só coisa imprevista, só coisa tentadora. Três semanas fora e tudo isto, assim. Surpresa atrás de surpresa. Não necessário novo de nascimento. Novo de coisa inusual ali no meio de tanta letra vazia. 
Desta vez  'Dicionário do Diabo' de Ambrose Bierce, prefaciado pelo casto abade de Belém, que Deus me perdoe que até gosto do que ele escreve, mas parece que quando lhe cheira a pecado, logo estende a sua platónica bênção. 'O Dicionário do Diabo é um manual de guerrilha contra o conformismo', escreveu Mexia. E a encadernação? E as ilustrações? Preciosas. Pois bem: trouxe.

E quando pensava que já estava saciada e que o melhor era parar de olhar já que, como se sabe, quem muito olha sempre acaba por ver, um outro: 'Confabulações' de John Berger. A capa: muito boa. E que não fosse. John Berger. Só ele vale um delíquio. Abri e aquela vertigem de quando estou à beira de ceder à tentação de me despenhar já se fazia sentir. Tudo o que li me fez amar este livro. Claro: trouxe.

Enquanto ia pegando neles, objectos preciosos, ia pensando que nunca conseguirei deixar de procurar novos livros. É um luxo supremo, o de nos rodearmos de palavras, de ideias, de mentes livres, da melodia misteriosa que se desprende das páginas, do gosto bom de ter um objecto material, um objecto que tem origem numa árvore. 

E trouxe ainda mais dois. Mas a conversa vai longa e eu estou cansada. A vida não é fácil e o dia que já entrou também não o será. Pode ser que me apareça alguém que me fale de poetas ou posso eu ver espaço para falar de silêncio, de bibliotecas, de luz. Seja como for, se calhar não faz muito sentido eu, em vez de ir descansar, continuar aqui a escrever como se não houvesse amanhã.


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Nós fomos noite e noite até ser dia
nós fomos noite e a noite fomos nós
fomos a noite e os corpos e esses nós
com que a noite se atava e desfazia

fomos a noite e o que sobrava dela
e o que sobrava dela foram luas
que circulavam à volta de uma estrela
ora nas minhas mãos ora nas tuas.

[de Manuel Alegre]


Houvera noites cheias de estrelas muito baixas, tão baixas que dir-se-iam ao alcance da mão. Depois, a lua regressara e, aos poucos, ia ocupando o céu com a sua luz. Fazia, pois, meio mês que vagueavam. E, como os homens tinham garantido que estavam sem semente para deitar, que a fadiga e a fome os transformavam em eunucos de toda a confiança, dormiam todos na frescura, desenhando, sem o saberem, uma flor, um girassol.


[de Hélia Correia]


Apesar de todas essas noites em que os nossos sonhos escorriam pelo soalho inclinado, a minha mãe continuou a ambicionar um futuro para nós. Arranjou um cúmplice. Ele era jovem e sem dúvida ingénuo, pois ousava exibir alegria e desenvoltura no meio do monótono vazio do nosso quotidiano.


[de Kim Thúy]


Ali estava ela, a terra. Cor de ferrugem e amarela. Da cor da pele acabada de sarar. Talvez eu pudesse finalmente ser libertado. a terra tornou-se mais escura. Rebentos de vegetação verdes cobrindo levemente as colinas. E, de repente, o mar da minha infância.Os exilados romantizam tantas vezes a paisagem do seu país natal! Eu preveni-me contra isso.


[de Hisham Matar]


Política, n. Um meio de subsistência a que recorre a franja mais degradada das nossas classes criminosas. Uma luta por interesses disfarçada de disputa por princípios. A gestão dos negócios públicos para obter vantagens privadas.

Político, n. Uma enguia no lamaçal basilar sobre o qual a super-estrutura da sociedade organizada é erigida. Quando se contorce, confunde a agitação da cauda com o estremecimento do edifício. Comparado com o estadista, tem a desvantagem de estar vivo.


[de Ambrose Bierce]


Na semana passada, quando te estava a ver e a ouvir atuar, Yasmine, tive um impulso de te desenhar. Um impulso absurdo, porque estava demasiado escuro; não conseguia ver o bloco de desenho nos meus joelhos. Houve momentos em que rabisquei sem olhar para baixo ou sem tirar os olhos de ti.


[de John Berger]

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Só um bocadinho de John Berger para eu matar saudades


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As pinturas que fui buscar para aqui ter entre os livros são de Hai Ja Bang e viémos ao som de Händel - Yet can I hear that dulcet lay - com Bejun Mehta

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quinta-feira, maio 11, 2017

Falar com eles...?
Não sei, não. Só se for com alguém que encaixe nos meus requisitos.





Gosto de ler sobre o processo de criação. Ler ou ouvir. Sejam escritores, pintores, escultores. Se calhar tabém músicos mas, não sei porquê, sobre música não me desperta tanto interesse.

Gosto de ler diários de escritores. Claro que não de quaisquer escritores. Nunca me passaria pela cabeça ler um diário do Valter Hugo Mãe, do Gonçalo M. Tavares, ou de grande parte das pessoas que podemos ver na Feira do Livro (é verdade... deve estar quase a abrir, não...?). Sou tão exigente no gostar de outras pessoas. Sendo eu pessoa em quem os outros vêem alguma simpatia, a verdade é que tenho alguma impaciência para com um grande número de pessoas. Pessoas agressivas: zero, não tolero. Pessoas secas, desinteressadas, inertes, indiferentes perante tudo: zero, não tolero. Pessoas que acham que sabem tudo e que, na prática, por serem pouco inteligentes, não sabem disfarçar a sapiência e, pior, maltratam aqueles que acham cultural ou intelectualmente inferiores: zero, não tolero. Pessoas que monopolizam qualquer conversa, egocêntricos e narcísicos: zero, não tolero. Pessoas que só vêem o lado mau da vida, que não acreditam em nada nem em ninguém, que acham que não vale a pena empenharem-se em nada, pessoas geralmente corrosivas: zero, não tolero. E etc.


Portanto, se eu pensar que gostava de conversar com um escritor que admire, logo dou um passo mental atrás pois quem me garantiria que, sendo bom de escrita, não seria um desastre no convívio?

Não há muitos escritores portugueses que ainda escrevam que eu admire. Se, em relação a essa minoria, imaginar como serão como pessoas, tenho que confessar que a lista fica tão exígua que eu agora só me lembro de uma pessoa, da Hélia Correia. Penso que poderia estar um dia inteiro a lidar com ela, na cozinha, no quintal, talvez à janela. Mas não me lembro de outro, imagine-se. Mas admito que é o de sempre: quando é fazer listas, tenho uma branca.


Aliás, agora ocorre-me que também gostaria de conversar com Pedro Támen. Gosto muito da poesia dele e das suas traduções, duas artes especiais. Acho que deve ser agradável falar com ele, tem ar de ser pessoa interessante. 

Um com quem eu teria adorado conversar era o Cesariny. Ou a Agustina. De resto... Tenho que dar uma volta pelas estantes e montes aqui da sala a ver se não haverá mais alguém. Ah, talvez o Mia Couto. Tem ar de ser silencioso e de falar das terras por onde anda com o olhar perdido nesses horizontes.

Bem, se continuar por aqui com esta conversa, talvez me vá lembrando de um ou outro.

De qualquer forma, nunca vou a Encontros de Escritores ou sequer me abeiro deles nas Feiras do Livro. Ali é tudo circunstancial, desligado da alma, toca e foge, um smile e já chega. Nem pensar. Uma conversa com alguém interessante (mesmo que não seja artista de nenhuma arte) tem que ser conversa com vagar.


Talvez para colmatar esse meu gosto que não consigo consumar, volta e meia ponho-me a ver videos com entrevistas. Deixem que partilhe convosco (enquanto na televisão dá o futebol e reparo que o Cristiano Ronaldo está ruivo e com a pele cor de laranja).

Ian McEwan fala do seu processo de escrita




Philip Roth fala de como é escrever sobre sexo



Já agora, a Hélia Correia a falar do livro da sua vida



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Entretanto já fui ali jantar. Tinha deixado o jantarinho a preparar-se e estava saboroso. Assei um lombo de peixe sobre cama de maçã aos gomos e, por cima, coloquei-lhe tomate maduro às rodelas largas. Um pouco de sal, orégãos, alecrim e azeite. Antes forno aquecido ao máximo. Quando o tabuleiro entrou, baixei para 150º e deve ter estado para aí 1 hora. Acompanhei com feijão-verde e brócolos cozidos e, para sobremesa, frutos vermelhos (framboesa. mirtilos).

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Apeteceu-me ter um vídeo dançante: um tango de Piazzolla Tango - Oblivion

As fotografias são selfies de Flora Borsi combinadas com fotografias de animais

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E um dia feliz a quem por aqui passa.
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sábado, agosto 22, 2015

Ela diz que se alguém lhe manda um mail é como uma agressão. [Ela é Hélia Correia]


Escreve à mão ou no computador?

Embora pareça uma contradição com a imagem que as pessoas têm de mim, sou extremamente competente em informática. Resolvo 90% dos problemas que aparecem aqui em casa com o meu namorado e com amigos. Gosto muito de máquinas, desde que estejam paradas porque num carro não entro por implicar perigo para outros seres.

Olho de gato
(fotografia de Andrew Marttila)



Relaciona-se bem com a máquina?

Tenho uma relação muito autoritária e muito arrogante com elas, é uma coisa que está ali para eu mandar nela. 
Quanto a escrever, faço-o no computador já há muitos muitos anos. Preguiçosa como sou, faço um esforço tremendo para escrever qualquer coisa à mão. 
Se tenho de tomar uma nota , comida para a Emily [a gata], por exemplo, faço só o "C" [de comida] e o desenho do gato. Só que depois não sei o que escrevi.

St. Florian Monastery, Austria



E a investigação?

É na internet, porque é uma coisa fabulosa. Eu continuo a apreciar as grandes enciclopédias na Biblioteca Nacional mas agrada-me ter as bibliotecas do mundo todas ao alcance da mão. É uma coisa extraordinária e maravilhosa isso. 
O que não pratico e nem nunca farei, porque odeio e assusta-me, é a interacção das redes sociais. Ter o espaço invadido por não sei quantas pessoas. 
Já os e-mails endoidecem-me, tanto que mudo frequentemente de endereço e deixo tudo esquecido no anterior. Se alguém me manda um e-mail é como uma agressão. E não lhes respondo.

E o fim do livro tradicional por causa do livro digital...

Herb garden book sculpture
(Julija Nėjė)

Não me faz impressão porque o texto é o texto e o livro é um suporte que tem poucos séculos. Se o suporte vai mudar não me preocupa. O texto é o texto, esteja onde estiver. O livro tem o tempo do Gutenberg, é muito recente. Gostaria imenso de folhear livros de papiro ou de pele de carneiro. 
Principalmente, gosto do grande livro imaterial -- esse está a desaparecer --, o livro oral que é quase aquele sonho de Fahrenheit do Bradbury: ter um livro na cabeça. Os actores têm Shakespeare na cabeça. Não é impossível a pessoa ter livros na cabeça.
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Extracto da entrevista concedida por Hélia Correia a João Céu e Silva no Diário de Notícias de 20 de Agosto de 2015


[Hélia Correia recebeu o Prémio Camões 2015. Escritora e com um livro de poemas que é um dos livros de poesia da Língua Portuguesa (A Terceira Miséria), Hélia Correia é também uma mulher que exprime as suas opiniões políticas de forma desassombrada]

As fotografias que usei para ilustrar o texto foram obtidas no Bored Panda.

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Já agora, por falar nisso,



A Book trailer made by High School Students for their AP English Literature class. This is an interpretation of Ray Bradbury's "Fahrenheit 451"

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No post abaixo poderão ver dois vídeos que espelham os contrastes gritantes da realidade angolana. Imagens chocantes que retratam uma realidade chocante. E focam apenas uma parte do que lá se passa.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo fim-de-semana. 
Que descansem, que se divirtam, que estejam bem - é o que vos desejo.

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quinta-feira, julho 09, 2015

Esta é a ditosa língua, minha amada - grande discurso de Hélia Correia ao receber o Prémio Camões. [E a mais recente sondagem que dá o PS a distanciar-se, e a Lagarde a defender a reestruturação da dívida da Grécia e, para aumentar a barafunda, nails de gel e sei lá que mais]


Eu conto. Cheguei a casa quase às dez da noite depois de um dia de trabalho em que nem tive tempo para pensar na morte da bezerra. Agora, aqui em casa, já estive a preparar a valise para amanhã de manhã me pôr a caminho. Dois dias fora. E acabei de ver que preciso de retocar o verniz. Retocar não, tenho é que retirar o anterior e aplicar uma camada nova. E agora arranjei um novo que tem um gel que se aplica por cima, para simular as nails de gel. Vamos ver se resulta. Vejo lá as raparigas todas com unhas enormes, super-coloridas, super-grandes, super-brilhantes -- e eu completamente banal. Então, no outro dia, li não sei onde que há estes conjuntos de verniz+gel e que isto seca rapidamente, não requer nada daqueles apetrechos das super-manicuras. Numa corrida à hora de almoço, dei um salto à Sephora. O difícil foi a côr. Só gosto de me ver com cores neutras e só lá tinham pink, verde, azul, cinzento, preto. Mas afinal isto era na marca que eu tinha dito. Pedi produto idêntico mas de uma marca qualquer desde que em tom nude. Trouxe l'Oréal e ainda me saíu mais barato. Bem, vou parar para me atirar ao assunto.

Pronto, já está. Parece igual aos outros mas se calhar é esta luz que não deixa ver bem. Pode ser que, daqui a nada, à luz do dia, me deslumbre com as minhas próprias maravilhosas nails.

Enquanto estou nisto, vejo as notícias na televisão: o PS finalmente numa rota ascendente nas sondagens. 


Pode ser que estejamos perante uma tendência estável e que, a partir de agora, seja assim, milho a milho, até que o eleitorado demonstre que acredita no PS. Pelo que ouço, o pessoal odeia o Passos Coelho e as suas políticas mas ainda não se revê nas políticas do PS.
É isso: o PS tem que sair da casca e começar a afirmar-se. Se arranjar uma mão cheia de gente qualificada e credível que saiba expôr o que defende, de uma forma clara e assertiva (vejam-se as excelentes prestações televisivas do Embaixador Seixas da Costa, como ontem referi), num ápice o distanciamento do PS face aos malfadados PaFs se acentua. 

Agora estou a ouvir outra coisa extraordinária: a sempre bronzeada (com ar quase esturricado) Lagarde afirma que a solução para a Grécia tem que, forçosamente, passar pela reestruturação da dívida. Oh la la.

Sempre quero ver o que vão agora dizer o Láparo, a Marilú e o Nuno Melo: que a Lacoisa é defensora dos relapsos desta vida? 
Ai, as cambalhotas que os seres destituídos se vêem forçados a dar. Mas nada garante que percebam que as dão, provavelmente cambalhotam, rebolam-se e pinoteiam sem sequer perceber que o estão a fazer. Tudo é possível. Ou então, dão por isso e acham que nós é que somos burros, pois, depois das cambalhotas trapalhonas, não é raro aparecerem a gabar-se de que fizeram um elegante pas-de-deux. Aliada à falta de inteligência vem neles a falta de vergonha.

Bem. Adiante. Tenho que ir ao que interessa que se faz tarde.

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Em primeiro lugar, quero dizer que recebi com grande tristeza a notícia da morte do meu professor de Grafologia, o querido Dr. Alberto Vaz da Silva de quem aqui falei no outro dia. Vão partindo. Vão voando para outro universo. Fica-nos a memória e o carinho que sentirmos quando nos lembrarmos deles.


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Em segundo lugar, quero aqui deixar o extraordinário discurso de Hélia Correia ao receber o Prémio Camões. 



Hélia Correia discursa ao receber o Prémio Camões - com um vestido azul e uma echarpe branca, as cores da Grécia


Σμυρνέικο Μινόρε - Σαβίνα Γιαννάτου - Primavera en Salonico - Smyraean Air 
Savina Yannatou


É um discurso longo e sei bem que a blogosfera é mais lugar de toca-e-foge do que de textos que nos envolvem como uma longa túnica. Não quero saber. O Um Jeito Manso é um lugar onde as palavras reinam, delas é todo o espaço que queiram ocupar. E as palavras de Hélia Correia merecem mais, muito mais do que todos os espaços onde a língua portuguesa seja amada e respeitada.





O peso destes nomes curvaria gente bem mais robusta do que eu, não fosse o caso de a leveza ser o primeiro atributo de um escritor. Aliás, quanto mais os frequentamos, menor pavor inspira a sua sombra.

Não venho aqui como parceira mas como íntima, como alguém mais ligado pelo amor do que por ambições identitárias. Com Luis de Camões passeio em Sintra, enquanto ele espera o jovem rei que anda pelos bosques, enfeitiçado, já um pouco ensandecido. E a ligação aos meus contemporâneos, Sophia e Saramago, Eduardo Lourenço, Maria Velho da Costa, Mia Couto, feita de encantamento e aprendizagem, toca-me infantilmente o coração quando me traz afinidades, uma flor de frangipani que esvoaça num jardim de Maputo, as palavras que não partiram com quem já partiu, uma tão querida voz ao telefone, uma carta enfeitada de papoulas. Estou com eles, não entre eles. E assim estou bem.

Devo falar de tripla gratidão: a gratidão aos promotores deste prémio ao qual foi dado o nome maior das nossas letras, a gratidão aos membros do júri que escolheram a minha escrita para tamanha dádiva, a gratidão a um acaso de nascimento que me deu como língua materna o português.

Também com gratidão evoco a tão citada, e mal, passagem escrita por Pessoa, aliás Bernardo Soares, pois que, achando-se escrita, e por ele escrita, me abre um certo caminho à ousadia: que amo mais a língua do que a pátria. Que me imagino armada, a defendê-la contra quem a quisesse aniquilar. As lutas pela independência que travámos deixam-me o arrepio de pensar que o português se perderia, se perdêssemos. Que morte há de ter sido a de Camões, julgando que morria com a pátria, isto é, com o lugar dos seus poemas!

Rodrigues Lobo formulou-lhe o elogio de maneira concisa e musical ("branda para deleitar, grave para engrandecer, eficaz para mover, doce para pronunciar, breve para resolver") durante a ocupação filipina. Os rumos da política eram uns, o castelhano em palácio havia muito que se fazia ouvir, mas essa língua da nação, tão acabada que sem esforço hoje a lemos, tão fadada para arrebatamentos de oratória como para a sátira, como para o lirismo, cultivando sem vénia a erudição para logo a seguir brincar com ela, essa língua era a grande resistente – não a expressão de um povo: a sua essência.

Faz agora oito séculos esta língua. É a prosa formal de um testamento que atesta a data. E prosas há tão belas naquele dealbar, tão saborosas ainda quando anónimas, que dir-se-iam um bom pressentimento sobre o tanto e o tão grandioso que depois ia ser escrito. Mas é na poesia que parece avistar-se um destino, no sentido não de fatalidade mas daquilo a que alguns chamam o talento colectivo e que talvez não passe de especial, convidativa variedade na fonética.

Fácil é para nós esta função de herdeiros de tesouro tão diverso e tão bem acabado, tão antigo e, no entanto, tão reconhecível. Enquanto noutras línguas a pronúncia se foi modificando, a ponto de uma rima do século XIX já não se efectivar passadas décadas, nós cantamos Camões sem que se torne necessária qualquer adaptação. Como se cada uma das palavras reconhecesse o seu momento de perfeição e nele se detivesse, porque o quis. O apetite pelos estrangeirismos, moderado que foi, não lhe fez mal. Incorporou-os elegantemente. Não me refiro às condições presentes, pois, do que ninguém sabe, ninguém fala. E ninguém sabe o que está hoje a acontecer.




Esta paixão pela língua portuguesa, que aqui confesso, cega não será, superlativa muito menos. Entendo-a rica, porque vem das boas famílias dos antigos e o que recebeu multiplicou. Mas nunca afirmarei que é a mais rica ou a mais bela do mundo. Cada povo verá no seu idioma mais virtudes que em idiomas alheios. Que a disputa, se a houver, seja festiva, pois que os idiomas não ocupam espaço e não geram rivais mas poliglotas. Anterior à festa, está, porém, aquilo que dizem História. E a História é bruta e territorial.

Para abordar o assunto do domínio da língua portuguesa sobre os povos são necessários delicadeza e conhecimento, inteligência e desassombro em dose máxima. Dou-me por incapaz e renuncio a uma tentativa de discurso. Sei, sim, que houve opressão e apagamento. Mas talvez não nos caiba desculparmo-nos pelos conceitos e acções de antepassados, visto que não nos assumimos legatários e o continuum moral já foi cortado. Algum dia teremos, quero crer, a congratulação como vingança.

As línguas são os únicos seres vivos que não têm origem natural. O erro humano pode prolongar-se, mesmo inocentemente, por descuido. O português carregará ainda alguma febre imperial no corpo e é natural que desconfiem dele. Mas acontece que a repressão é mecânica e a língua é biológica. Se chega às terras de outros povos na bagagem do colonizador, em breve sai e se desnuda e se alimenta, e adormece e procria. As armaduras ficam no chão, enferrujadas, podres. A formação orgânica progride.

Que desígnio será o seu, agora, se não o de trocar e conviver, isto é, integrar a plenitude, reconhecendo e respeitando a alteridade? Com os nossos instrumentos humanistas, seremos nós os capazes de "Medir", como escreve o Professor Eduardo Lourenço, "esse impalpável mas não menos denso sentimento de distância cultural que separa, no interior da mesma língua, esses novos imaginários"?

Como num pesadelo, não sabemos por que meio fomos dar a esta nova era de horror e de destruição. Umas são nossas velhas conhecidas, outras indecifráveis, por ausência de modelos anteriores. Não lhes antecipámos a chegada. Na Idade Média que nos ameaça não há cancioneiros nem reis-poetas. Na ditadura da economia, a palavra é esmagada pelo número. A matemática, que começou nobre, aviltou-se, tornando-se lacaia. Se a literatura salva? Não, não salva. Mas se ela se extinguir, extingue-se tudo.

O nosso mundo de sobreviventes está seguro por laços muitos finos. Eu vejo os fios que unem os textos nas diversas versões do português, leves fios resistentes e aplicados a construirem uma teia que não rasgue. Quando o angolano Ondjaki dedica um poema ao brasileiro Manoel de Barros, quando Mia Couto reconhece a influência que teve Guimarães Rosa na sua escrita transfiguradora e transfigurada pelas africanas narrativas do seu povo; quando a portuguesa Maria Gabriela Llansol  considera Lispector «uma irmã inteiramente dispersa no nevoeiro», vemos a língua portuguesa a ocupar - não como o invasor ocupa a terra, mas como o sangue ocupa o coração - um espaço livre, um sítio para viver, uma comunidade de diferenças elástica, simbiótica e altiva. Esta é a ditosa língua, minha amada.

Eu dedico este prémio a uma entidade que é para mim pessoalíssima, à Grécia, cuja voz ainda paira sobre as nossas mais preciosas palavras, entre as quais, quase intacta, a poesia. Dedico à Grécia, sem a qual não teríamos aprendido a beleza, sem a qual não teríamos nada ou, no dizer da Doutora Maria Helena da Rocha Pereira, "não seríamos nada".    

ζουν Ελλ?δα , zoun Elláda, viva a Grécia.



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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta-feira. 
Desejo-vos tudo de bom, muitas alegrias, sonhos felizes.

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domingo, julho 05, 2015

Nem precisa [quase] de legenda


De Leitor, a quem agradeço, recebi uma fotografia que acompanhava o texto que, esperando que não leve a mal, me atrevo a transcrever:

Quando nos livramos destes reverentes e obrigados com os poderosos e maus como as cobras para com os outros? Espero, apesar do evidente patinar da campanha do PS e da pouca  capacidade de António Costa fazer passar a ideia de que  será um bom 1º ministro, já em outubro deste ano. 



Concordo.

Antes de mostrar a fotografia, permitam umas observações.

António Costa, apesar de agora estar a arrebitar, não tem sabido rodear-se de uma equipa que o ajude a passar uma mensagem forte, em que se retenham ideias chave, ideias que mobilizem. Ora, razões para arrasar este governo indigente não faltam. E, no entanto, parece que não conseguem pegar nas cavalices que os outros têm feito, desmontá-las, evidenciando junto dos portugueses o desgoverno absoluto a que se tem assistido.

Um exemplo: Perante uma notícia escandalosa como a seguinte:
O Tribunal de Contas arrasa o processo de privatização da EDP e da REN. Os juízes sublinham que os rendimentos anuais das empresas podiam ter rendido, no longo prazo, mais dinheiro aos cofres públicos. O relatório denuncia ainda um conflito de interesses, com consultores a trabalharem ao mesmo tempo para os compradores e para o Estado.
vimos o PS, em força, a pés juntos, saltar em cima deste desGoverno de PaFs que tanto tem empobrecido o País sem acautelar os interesses nacionais? É o viste.

E sobre a Grécia*? O que pensa, de facto, o PS? Alguém sabe? É o sabes.

No PS cada um diz o que quer (o que é uma boa coisa) mas depois parece que não há ninguém que fale, de forma inequívoca e oficial, em nome do PS. António Costa parece estar a especializar-se em conversas redondas, que dão para tudo e para o resto. Uma pessoa quer perceber qual a posição do PS e é o percebes.

E há os desastres. Cada debate com Passos Coelho na Assembleia da República é uma oportunidade perdida: Ferro Rodrigues enrola-se nas suas próprias palavras e o que passa é a imagem de um homem com as feições descaídas pelo tédio, com um casaco sempre grande demais, uma roupa pendona, mal amanhada, a voz evidenciando o enfado que lhe vai na alma.

Agora uma coisa é certa: Ferro Rodrigues foi um tiro no pé que o António Costa deu; ele próprio, António Costa, tem desperdiçado o enorme capital de confiança que tinha e não tem sabido capitalizar o desconforto dos portugueses face às aberrações sucessivas deste desgoverno.
Mas, meus Caros, nada, nada, nada disto se compara com a indigência, a falta de nível, a falta de maneiras, a falta de moral, a falta de jeito, a falta de competência, a falta de cultura, a falta de tino, a falta de ética, a falta de sentido de Estado, a falta de tudo o que é vital para se estar nestas funções que é evidente no láparo, nos seus ministros e secretários de estado e da mal arraçada entourage que gravita em volta de todos eles.
Por isso, também estou certa que o PS ganhará as próximas eleições e será já em Outubro que nos veremos livres de gente como a pequena criatura aqui abaixo.



Apesar de eu não ter uma visão tão radical do momento aqui retratado, nem me pareça que o coisinho aqui da fotografia ofenda a República -- pois acho que o que aqui se vê o retrata é a ele, o estilo dele, a fraca dimensão dele -- permito-me transcrever a legenda desta fotografia que pode ser vista no blogue Ponte Europa

Quando um ministro lambe a mão de um clérigo não é apenas um homem que dobra a coluna, é o réptil que humilha a República, insulta a laicidade e trai o País. [Carlos Esperança]


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* A propósito da Grécia, um outro Leitor, a quem também muito agradeço, enviou-me um conjunto de vídeos sobre um evento no Fórum Lisboa. Merecem a nossa atenção. Com muito gosto aqui divulgo um deles.


A crise europeia à luz da Grécia | Intervenção de Hélia Correia





Quem esteja interessado em ver todas as intervenções pode vê-las aqui.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

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quinta-feira, junho 18, 2015

Hélia Correia, Prémio Camões - o reconhecimento de uma mulher das palavras e dos montes, dos sótãos e dos sonhos, da voz livre e desperta, do olhar de menina e do coração de fadinha






No outro dia vi-a outra vez. Ia sozinha, ligeira e com aquele passo levemente incerto dos pássaros quando caminham em pequenos saltos. Apesar da cara de menina, daquele corpo leve a que apenas parecem faltar as asas, reparei que estava um pouco mais velha. Depois pensei: mas que ideia, então o tempo não haveria de passar por ela tal como passa por mim e por toda a gente? 

Hoje, ao vir para casa, ouvi nas notícias que Hélia Correia tinha ganho o Prémio Camões e ouvi-a a falar, surpreendida, dizendo-se como que envergonhada por achar que estaria ali deslocada naquela galeria, já que tantos escritores trabalham tanto e que ela, menos assídua, senhora de obra escassa quando comparada com a de outros, ociosa (dizia-se ela), não se compara com esses. E falava com aquela sua voz leve, risonha, de menina.


Mas orgulhosa, contente, claro, é um prémio que tem o nome Camões e já atribuído a escritores tão ilustres, claro que sim.

E então ouvi que tem 66 anos e, se não tinha ficado surpreendida com as suas palavras, fiquei e muito com a sua idade. Na minha cabeça Hélia Correia teria ainda uns quarenta e tal, cinquenta e tal, talvez -- mas talvez, mesmo, que não tivesse idade. Afinal, estava enganada: o tempo não tem passado por Hélia Correia, ouvindo-a poderia ter 6 anos. 

Já aqui falei delas várias vezes.

Admiro-o muito, admiro a forma acutilante e firme quando se insurge contra as injustiças ou os atentados à liberdade e ao respeito pela dignidade humana (nessas alturas talvez tenha os tais 66 anos ou 666, é, nessas alturas, uma guerreira antiga que se agiganta.

E depois adoça-se, voa, parte para um mundo onírico e pode falar da Escócia de onde veio o seu sangue primordial, das montanhas verdes e frias, ou da Grécia onde a sua matriz intelectual se enleia.

E a sua escrita é densa, umas vezes, suave, outras, e embrenhamo-nos com ela em casas tristes e em florestas verdes e sentimos a doença nos corpos e o desejo e a dor pelas perdas, tantas, e voamos com as fadinhas, e sorrimos com os sorrisos dessa little people que habita reinos mágicos.

Fluida e bela a sua escrita que tem essas duas vertentes: por vezes os pés na terra, por vezes a cabeça na lua, nas nuvens, nos céus das lonjuras.

Que bem atribuído lhe foi o prémio Camões, que orgulho sinto por ela.

A palavra à querida Hélia Correia a quem daqui envio os meus entusiasmados parabéns. 

Para quê, perguntou ele, para que servem
os poetas em tempo de indigência?
Dois séculos corridos sobre a hora
em que foi escrita esta meia linha,
não a hora do anjo, não: a hora
em que o luar, no monte emudecido,
fulgurou tão desesperadamente
que uma antiga substância, essa beleza
que podia tocar-se num recesso
da poeirenta estrada, no terror
das cadelas nocturnas, na contínua
perturbação, morada de alegria;
 
A terceira miséria é esta, a de hoje.
A de quem já não ouve nem pergunta.
A de quem não recorda. E, ao contrário
Do orgulhoso Péricles, se torna
Num entre os mais, num entre os que se entregam,
Nos que vão misturar-se como um líquido
Num líquido maior, perdida a forma,
Desfeita em pó a estátua. 
De que armas disporemos, senão destas
que estão dentro do corpo: o pensamento,
a ideia de polis, resgatada
de um grande abuso, uma noção de casa
e de hospitalidade e de barulho
atrás do qual vem o poema, atrás
do qual virá a colecção dos feitos
e defeitos humanos, um início. 

Sim, falamos de sombras. Vendo bem,
incendiámos tudo: Alexandria
e os sábios, as mulheres. Incendiámos
o grande coração. Temos aos ombros
o apetrecho dos destruidores,
não a pólvora, não: essa arrogância
pela qual o ocidente se perdeu
...

Entrava justamente pelas janelas a primeira poalha da aurora e Filipe sentiu-se adormecer. Ouviu no pátio os cascos dos cavalos, o crepitar das rodas no cascalho. Brutas interjeições de incitamento dividiam os ares como um chicote e as gargantas das mulheres gemiam, culpando a noite que as envelhecera. O sedimento da melancolia, que as casas como esta depositam a velocidade pouco habitual, também viera amaciar o quarto, cobrir a laca branca da mobília com um ar saturado de impurezas.


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Hélia Correia fala do seu livro A Chegada de Twainy, ilustrado por Rachel Caiano, Relógio D'Água





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Os poemas pertencem ao magnífico A Terceira Miséria (poemas sobre a situação da Grécia).

O pequeno texto em itálico pertence ao conto A Compaixão que pode ser lido no livro Contos de Hélia Correia da Relógio d'Água

June Tabor interpreta Unicorns

Uma interessante entrevista a Hélia Correia -- intitulada É preciso que as pessoas saiam de casa, que se unam. O corpo faz falta  -- feita por Christiana Martins pode ser vista no Expresso

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segunda-feira, dezembro 15, 2014

Feijoada e início da plantação da horta em casa do meu filho. E livros, livros da vida. E um post antigo que está a receber um número invulgar de visitas.




A minha filha, no sábado ao fim do dia, estava eu e o meu marido a vir de casa dos meus pais, perguntou-me o que estávamos a pensar fazer este domingo. Respondi-lhe que idealmente nada, que adoraria ficar em casa estendida a ler o jornal.

Ainda não estou boa, longe disso, começo a temer que algum osso se tenha mesmo estalado, e depois, por um motivo ou por outro, há sempre coisas para fazer que me impedem de cumprir o repouso que sinto que seria benéfico. Como desde há uma semana que estou a trabalhar, não consigo evitar estar parte do dia sentada, ter que entrar e sair do carro (coisa que me custa) e outras actividades simples mas, para mim, ainda dolorosas. Depois, na sexta-feira à hora de almoço foi a apresentação das actividades à família do mais crescido (1º ano) e eu quis ir e foi tão bom, tão bom, vê-lo tão responsável, tão contente; e ele, a seguir, até porque eu quis que ele se sentisse orgulhoso nisso, andou a mostrar-me a escola, o que envolveu lances de escada para cima, para baixo, piso desnivelado, sobe e desce pelos recreios e, portanto, lá me desconjuntei um bocado mais. Mas, enfim, como não gosto de fazer o papel da entrevadinha, lá ando a fazer de conta que estou quase bem, embora a passada ainda esteja lenta e meio deficiente e, sobretudo, um bocado penosa.

Dado o sábado de trabalhos esforçados que tive (conforme descrevi no post seguinte), estava mesmo a apetecer-me um domingo de dolce fare niente. Mas ela sugeriu: também se combinarmos qualquer coisa de uma ou duas horas à tarde, tens o resto do dia para estar em casa. Concordei, mas que logo se via.

Entretanto, o meu filho que é hiperactivo e tem uma mulher que forma uma equipa perfeita com ele, alinhando nos seus excessos, combinou para este sábado um almoço com amigos de trabalho e curso. Ao todo 17 pessoas. A casa ainda em parte a precisar de arrumação, candeeiros ainda por pôr, uma casa de banho ainda metade por fazer, etc, e eles, na boa, já com vontade de lá ter amigos. Mas percebo-os: esta casa tem sido um projecto de vida e eles muito naturalmente orgulham-se dela. Para o almoço fizeram feijoada e, para os mais pequenos (cinco), frango assado no forno com arroz. Tudo cozinhado por eles. Incluindo o feijão.

Ao contrário de mim que sempre usei feijão de lata, eles compraram feijão seco, puseram-no de molho, cozeram na panela de pressão. E, para grande espanto deles, o feijão cresceu, cresceu, cresceu.

Por isso, à noite, depois de eu ter falado com a irmã, por telefone contou-me que comeram que se fartaram mas que tinha sobrado tanto que já tinham congelado três caixas de feijoada e que ainda lá tinham uma enorme tachada. E, portanto, perguntava se não queríamos lá ir almoçar e que ia também dizer à mana. Ou seja, este domingo lá estivemos outra vez  todos juntos, agora já lindamente instalados na casa de jantar, amesendados para uma farta almoçarada: restos das entradas que os amigos tinham levado e a bela feijoada, gostosa e farta, as carnes, os enchidos e o feijão no ponto, e, diz quem comeu, frango também bem bom.

É um prazer ver como o que parecia impossível se tem vindo a concretizar, e tudo de uma forma harmoniosa, despretensiosa e feliz. Quando a casa estava em obras e lá íamos ajudar ao fim de semana, eu levava farnel para o lanche e toda a gente lanchava sentada na escada, muitas vezes com as mãos mal e porcamente lavadas, pois os pimentinhas vinham de mexer na terra e eu lavava-lhes as mãos com a mangueira mas a coisa nunca ficava perfeita. E agora as obras praticamente acabaram e já estivemos em volta de uma grande mesa, dentro daquela casa tão bonita, em que a luz entra por todo o lado.

Mal o almoço acabou (e já se sabe que são sempre demorados estes almoços, muita conversa, muita animação), antes que escurecesse ou se pusesse mais frio, o meu filho comunicou à brigada dos pimentinhas que havia trabalho na horta. De manhã, eles tinham ido a um mercado já nem me lembro onde e compraram rebentos de coisas para plantar: alface normal, alface roxa, couves. E tinham sementes.



Então lá estiveram todos a trabalhar, a abrir as pequenas valas, a plantar, a pôr sementes em vasinhos, etc.


Só aqui tenho a pequena dona da casa com o seu primo mais novo porque o maninho e o primo mais velho ficaram sempre de frente nas fotografias mas, enfim, acho que dá para perceber a atenção que dedicam a estes trabalhos e como se sentem úteis e se portam de forma responsável. Uma graça.



Depois o mais crescido foi perguntar à tia se não tinha feito bolo e ela disse que não mas que, se ele quisesse, podia ir fazer um e perguntou se ele queria ir ajudá-la. Claro que quis. Mais uma tarefa - fica todo entusiasmado de cada fez que tem uma incumbência. Um belo bolo de cenoura e iogurte de banana feito com 1/3 de farinha de trigo e 2/3 de farinha de aveia. Estava delicioso, macio, sentindo-se levemente o crocante da aveia. Comemo-lo ao lanche, ainda morninho. E uma vez mais, já estava a anoitecer, havia aquele cheiro bom das casas de família, cheiro a bolo de forno, a torradas com manteiga a derreter. Acompanhei com um belo chá perfumado. Pelo meio, antes disso, ainda fui a um chinês comprar um tapete para pôr antes da escada para não a sujarem nem encherem de terra o tapete que está à entrada da cozinha e a minha filha ainda lá comprou umas pantufas para cada um. Depois, o meu marido, o meu filho e a princesa mais linda foram ao Leroy ver se compravam um aquecedor e, com isto tudo, a verdade é que só cheguei a casa depois das 7 da tarde.

Claro que não me cansei, nem um pouco, mas a verdade é que só há bocado é que consegui ler o Expresso, e mesmo assim, deixando várias coisas de lado. Daqui a nada é meia noite e eu já estou é a pensar no que esta segunda-feira tenho que fazer, muita coisa, e eu sem saber bem para que lado me virar, e gostava de ter alguma concentração para pensar num tema interessante para trazer aqui e estou nisto.
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A música lá em cima é Memórias do Rodrigo Leão e escolhi-a porque estou certa que os meus queridos pimentinhas vão guardar as melhores, melhores, memórias destes dias tão felizes em que estão juntos, neste ambiente familiar tão simples, em que trabalham, contactam com a natureza, em que se sentem úteis e sempre tão amados.
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Há pouco, ao espreitar as estatísticas, reparei que um post escrito há muito tempo, há sensivelmente dois anos, estava a receber muitas visitas. Chama-se "Silêncio e tanta gente. Troco a minha vida por um dia de ilusão". Fui ver, reli. Já nem me lembrava de o ter escrito mas gostei. Como será que alguém descobriu um texto escrito há tanto tempo? Presumo que o tenha divulgado entre conhecidos. É engraçado isto. Estarão a gostar de ler? O que pensarão da forma como escrevo? E fiz acompanhar esse post pela voz da Maria Guinot em 'Silêncio e tanta gente', essa canção tão bela e agora estive a ouvir e gostei tanto, que canção tão bonita.

E fiquei com saudades de escrever este género de coisas, de ficcionar, de me pôr na pele de outros. A ver se retomo.
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Tinha em mente ainda escrever hoje um post sobre livros, talvez com algumas sugestões para presentes, mas estou com tanto sono que não é agora que vou começar uma coisa dessas. Mas também não gosto de recomendar livros. Muitas vezes, falo de autores de que nunca ninguém ouviu falar e as pessoas ficam a olhar de esguelha para mim, como se eu estivesse a milhas do que está a dar. Depois, caridosamente, dizem-me, Olhe, como gosta tanto de ler, já leu o último de Fulano de Tal? E avançam com nomes de livros de que nunca ouvi falar, escritos por autores que acho que jamais lerei e eu digo que não e as pessoas desatam, no maior entusiasmo, a engrandecer a qualidade da coisa e, quanto mais falam, mais eu tenho a certeza de que nem que me pagassem. No outro dia, uma até me disse que eu era preconceituosa por afirmar que os meus gostos andam por outros hemisférios sem ter lido e, portanto, sem saber se não estava a cometer uma injustiça. Respondi que sim, que talvez seja preconceituosa. É que basta que o livro esteja nos tops de vendas, ou na prateleira da literatura fantástica ou do romance histórico ou que tenha uma capa de treta para eu passar ao largo. Outros, que estão em sítios que enganam, iludem-me e levam-me a folheá-los mas basta fazer uma diagonal em duas ou três folhas para ver a indigência que ali vai. Ora, sendo o meu tempo tão escasso, qual o sentido de o desbaratar com tretas? Mas não posso dizer isto assim, tal e qual, não posso ser tão explícita não vão as pessoas ficar ofendidas pois elas gostam e a elas parece indiscutível que se goste daquilo. Por isso, não gosto de falar sobre livros com a maior parte das pessoas que conheço.

Mas, enfim, logo vejo. Estava tentada a dizer que livros comprei para oferecer mas isso não pode ser, eles liam isto e deixava de ter graça.

Não é fácil.
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Estive a pensar. Custa-me ir dormir sem que vos deixe aqui hoje alguma coisa em concreto e, por isso, em vez de ser eu a recomendar livros, partilho convosco a voz de duas escritoras que aprecio muito e que recomendam aquilo a que se poderá chamar 'livro da vida' delas. Dá gosto ouvi-las a falar de livros.


Os livros da vida de Maria Teresa Horta




O livro da vida de Hélia Correia



(Gosto tanto de ouvir falar de livros.)
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa semana a começar já por esta segunda-feira.

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quarta-feira, janeiro 22, 2014

"Com respeito às palavras" de Hélia Correia no Público: um grande, grande, grande artigo! Grande, belo, acutilante, lúcido - o que quiserem. É imperdível, digo-vos eu.


No post a seguir falo sobre a sexualidade de um certo deputado do PSD e, mais abaixo, mostro o resultado da minha ida aos saldos. Conversetas. Coisas menores. Ligeirezas.

Mas agora, aqui, é coisa bem diferente. A vossa atenção, por favor.

*

Silêncio por favor que é tempo de um certo Redondo Vocábulo





Agora abro alas para falar de um texto do mais maravilhoso que há. Gostava de o transcrever todo. Gostava de o saber de cor. Gostava de o ter escrito. Gostava que toda a gente o lesse. Gostava que toda a gente gostasse tanto da Hélia Correia como eu gosto. Gostava que Portugal inteiro a pusesse num pedestal e a ouvisse e que as suas palavras ecoassem por essa Europa fora.

Como é que esta mulher que parece viver entre fadas e duendes, acariciando gatos e outros seres misteriosos, aparentemente perdida entre sótãos, florestas, poesias, ficções e devaneios de toda a ordem tem depois esta lucidez tão vibrante, esta precisão de atiradora profissional? Pasmo. Sempre pasmei. Mas hoje mais do que nunca.

Peço-vos, mas peço-vos encarecidamente que, no fim, abram o link para o artigo completo e, palavra a palavra, tomem o texto de Hélia Correia nas vossas mãos, pensem nele, levantem-se com as palavras dela como bandeira.


Transcrevo um pouco, apenas um pouco (destaques meus). E vou ilustrar com os graffitis de outro grande, Banksy, ao som de um outro espírito brilhante, José Afonso.



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No rigor do latim, “indignado” é o que é tornado indigno. E eis, porém, que a palavra não se aceita a ela própria, empreende uma singular rebelião. Nega a humilhação que cai sobre ela. Vejam o quanto esta palavra é poderosa. Como deitou ao chão a sua origem. Como tomou nas mãos a sua vida


I

Não tenho competência para escrever sobre os eventos da realidade. Começa a falha pelo léxico: nem sei se o termo “evento” pode usar-se aqui. Não aprendi o bom vocabulário. E quanto à organização para o discurso, saber onde ele começa e como acaba, mais o que pelo meio se vai pondo, tão pouco faço a mais pequena ideia. 

(...)

Parece, às vezes, que o cenário da ficção científica assentou no planeta actual: que criaturas mais ou menos humanóides nos conquistaram pelo interior e desapoderaram-nos de tudo, esperança, dignidade e alegria. Vimos tanto clamor nas praças gregas, cólera e fogo com nenhuma consequência. É como se entre os protestantes e o poder não houvesse trajecto, não houvesse natureza contínua. Duvido até que conseguissem procriar se a carne de uns e de outros se encontrasse. Respiram ares diferentes e não faz sentido algum que certa retórica da esquerda os desafie a que experimentem a pobreza, a que tentem viver com o salário que destinaram para os indefesos. Provavelmente viveriam bem porque não se alimentam como nós. Nem dormem como nós. Talvez nem morram. A verdade é que pouco pensamento nós conseguimos produzir sobre eles. A desumanidade é um mistério.

II


Por que aceitamos que se fale, por exemplo, nas “gorduras do Estado”? O Estado não tem metabolismo. Tem excesso de despesas, muitas delas em mordomias e em disparates.Um Estado não “emagrece”: corta nos gastos, e a escolha para os cortes tem critérios, e os critérios não se aplicam ao acaso. Aquilo que se chama ideologia, a moldura mental com que um comum destino se interpreta e planeia, decide a escolha. E escolhe-se cortar naquilo que é empecilho ao projecto, no que se quer extinguir ou, pelo menos, fazer partir para onde não se torne visível. Com a metáfora sobre o corpo obeso dá-se a volta ao assunto, transformando-o em algo humanizado e censurável. Fica fora do alcance da razão — nos labirintos do imaginário, naquilo que culturalmente assimilámos a ponto de esquecer — a simpatia pela causa. Dentro de nós, a ideia do descuido, da glutonice, da preguiça, enfim, do Sul, facilmente coabita com a ideia de punição e de dieta rigorosa. Tomar medidas para emagrecer é justo e bom. Se implica sacrifícios, são sacrifícios de ginásio, desses que conferem certa estética ao suor. Só um bulímico se recusa a entender e a estimar um regime que assegura saúde e elegância a quem o siga. Alcança longe, a manha da metáfora. 

(...)

Se hoje as pessoas continuam a marchar é porque, à força de repetição, os sapatos estão enfeitiçados. Não é de dança, mas de espasmo, o movimento. O grito que invectiva já não faz estremecer o seu destinatário. O seu destinatário olha para “aquilo”, chama-lhe “aquilo”, e vai à sua vida. Mostra um grande talento para apoucar. Nós que talento revelamos? O da fé? O da brava teimosia? Repetimos os nossos argumentos… “até à náusea”: assim acaba a frase que herdámos da retórica latina. Não é possível refazer a língua? É, sim.

III
(...)

Por que usam a palavra “austeridade”? Porque há nela uma certa ressonância de coisa justa, de atitude respeitável. Alexandre Herculano foi austero. Sóbrio, frugal, um tanto seco na expressão, honesto, incorruptível — isso mesmo. A austeridade é um estádio a que se chega num percurso moral muito esforçado. É um modo de vida, uma atitude pela qual alguém opta, numa escolha inteiramente pessoal, quando recusa render-se ao luxuoso e ao supérfluo. Classificar alguém de “austero” significa que lhe atribuímos qualidades pouco usuais no cidadão vulgar. Ouvimos a palavra e logo o nosso dicionário subconsciente nos assinala que é para respeitar, acatar e temer. Se há uma “austeridade” que castiga é porque andámos na dissipação. Pressupõe-se que nós baixemos a cabeça sob o pecado que a palavra implica. 

Na verdade, não há “austeridade” aqui. Há alguém empurrado para a miséria. É um processo involuntário, imposto por uma força superior, neste sentido de que não pode desobedecer-se. E imposto, no sentido, também, da inocência. Estamos a pagar o quê, porquê? Em que momento é que prevaricámos? Foi a comprar mais um televisor, foi a escolhermos uma sala com lareira? Nós aprendemos, no devido tempo, que não podemos alegar ignorância da lei se a violámos, mas havia uma lei contra o conforto? Havia alguma lei que proibisse os filhos de viverem como tinham vivido os patrões dos seus pais? Devo dizer aqui que o consumismo me desperta uma viva repugnância, que admiro e sigo, porque quero, a vida “austera”. Mas, porque eu ando de transportes públicos, entenderei que a compra de um automóvel deve entregar o cidadão ao agiota? Estou a falar de pequeninas coisas, de minúsculas coisas que não chegam para lançar uma pessoa no inferno. O grande gasto, o gasto vil, onde se oculta? 

Não, não nos pedem a “austeridade”. Eles exigem a pobreza e as suas consequências. Não, não fizemos mal. O que fizemos foi por fraqueza de desprevenidos ante a perversidade dos banqueiros. Não nos aliciavam com empréstimos? A bruxa má não estava a oferecer maçãs? Ficaremos agora deitados no caixão, narcolépticos, à espera de algum príncipe? 


Vamos de história em história, adormentados.

Uma palavra envenenada estraga o mundo. Basta atentarmos em “democracia”, palavra vinda de tão longe, trabalhada, moldada, experimentada tanta vez. Parece ter sofrido uma anquilose, uma patologia da velhice que a transformou numa entidade rígida. E o conceito que lhe corresponde imobiliza, prende, como num propósito de teia. Diz-se: o eleitor votou em liberdade. E essa liberdade manietou-o. Mais não pode fazer do que esperar pelo próximo processo eleitoral. E censuramos os abstinentes que nos respondem que “não vale a pena” — quando os factos lhes dão toda a razão. Porque a democracia está disforme, ainda que insistamos em louvá-la.

Se olharmos sem a ilusão veremos quão irreconhecível se tornou. Veremos como finda o seu processo ali onde devia ter início. Melhor dizendo: finda o que, em rigor, é perene. A palavra “escrutínio” significa, para nós, simplesmente, a contagem dos votos. Mas escrutínio não é apenas isso: é vigilância. É observação continuada, é um exame de comportamentos. Por alguma razão os ingleses, experientes neste assunto, ainda aplicam a expressão under scrutiny aos governantes. O sustentáculo da democracia está na possibilidade e na probabilidade de cada cidadão vir a ser eleito e, uma vez eleito, prestar contas. Essa é a superioridade da República e a sua beleza. O voto é só um expediente técnico que o espaçamento temporal vicia. 

Como se leva isso à prática não sei. Mas sei como se leva ao pensamento. E sei que o pensamento é o que faz levantar a cabeça. Estamos num tempo novo, rodeados por luz e escuridão para as quais não temos nem mapa nem farol. Temos modelos tão inspiradores como remotos. Certo é que a palavra é a obra do humano e a palavra não cessa de existir. Com palavras se fazem os fascismos, e Magnas Cartas e as Constituições. Cultivá-las, estudá-las, não nos salva talvez. Mas dignifica-nos. E se podemos aprender algo com o passado, antes de o perdermos completamente de vista, é que a dignidade se conquista e que a indignação a isso ajuda.


*   *   *

Relembro: não deixem, por favor, de ler o texto na sua versão integral.

Relembro também:  se quiserem saber das minhas compras nos saldos ou se aquele tal deputado do PSD é gay, então vão de encontro ao meu lado 'pipoca mais doce' e desçam, por favor, até aos dois posts seguintes.

*   *   *

E, assim sendo, por agora fico-me por aqui. 
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta feira.
E que as sábias e belas palavras de Hélia Correia vos acompanhem.


sábado, novembro 23, 2013

"Os escritores (também) têm coisas a dizer", e tantas que lhe disseram, a ele, o homem dos sete instrumentos e da Tinta da China, Carlos Vaz Marques. Hélia Correia fala do que é um grande texto e Agustina Bessa-Luís fala de pessoas frívolas: duas mulheres escritoras que concederam grandes entrevistas a CVM. Tang Chew Liang ilustra este post e Benjamin Britten acompanha.







Não há nisso uma certa queda para a misantropia?
Não. Acho que não sou nada misantropa. Amo bastante a raça humana. Mas é um amor mais abstracto do que concreto.
Amo mais a raça humana abstractamente do que depois as pessoas no seu corpo e com o seu volume, com o espaço que ocupam.

Um grande texto pode dizer as barbaridades que entende?
Pode. Em termos ideológicos, pode. E tem dito. Olhe, o Celine.

Hélia Correia
E o que é um grande texto?

Um grande texto, costumo dizer, é o que tem uma escrita holográfica. 

É o que, em vez de fazer a fotografia do real - que não me interessa -, consegue dar profundidades que eu não alcanço de outra maneira. Que só alcanço por aquela combinação de palavras que aquele escritor conseguiu. 

Está lá outro universo dentro. 

E porque, também costumo dizer, eu não quero que me contem histórias, eu conto-as a mim mesmo. Toda a minha vida é feita de histórias. 


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A Agustina é alguém que tem vindo a fazer uma espécie de levantamento dos estratos geológicos que são atitudes culturais das últimas décadas. Como é recolhe os sinais da mudança social de hábitos e de comportamentos?
No contacto humano. O ser humano é a minha grande escola, é a minha grande fonte de informação. É o meu arquivo, inclusivamente. Eu, por exemplo, aos cinco anos não gostava dos adultos porque os considerava falsos, mentirosos e hipócratas.

E ainda pensa isso?
Hoje penso, mas de outra maneira.  Porque não são só isso. Eles são isso como defesa, como simplificação. Hoje, por exemplo, dou muita importância às pessoas que são frívolas.

Porquê, o que é que a frivolidade nos dá?
A frivolidade é também uma forma de hipocrisia porque as pessoas não são aquilo. A pessoa, quanto mais frívola nos parece, mais esconde a sua natureza profunda.
Agustina Bessa-Luís

E porque é que dá essa importância especial aos frívolos?
Porque têm mais a noção da sua fraqueza e, portanto, têm de se revestir de qualquer coisa que se imponha - inclusivamente, de uma maneira chocante - mas que é, de certa forma, uma carapaça que os defende.


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Este livro, 'Os escritores (também) têm coisas a dizer", contém ainda entrevistas de Manuel António Pina, Dulce Maria Cardoso, Gonçalo M. Tavares, Valter Hugo Mãe, Mia Couto, Antonio Tabucchi, Eduardo Lourenço e António Lobo Antunes.


Da mesma colecção comprei também agora 'Como Ler um Escritor' de John Freeman e do qual um dia destes darei notícias.

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A música lá em cima, interpretada pelo The Dragon School Choir acompanhado ao piano por Vicky Savage é de Benjamin Britten ( Lowestoft, 22 de Novembro de 1913 — 4 de Dezembro de 1976, OM, Barão Britten de Aldeburgh, compositor, maestro, violetista e pianista britânico), são excertos de Friday Afternoons:


3. Cuckoo! (Words by Jane Taylor 1783-1824)
10. Jazz-man (Words by Eleanor Farjeon 1881-1965)
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As imagens, Fashion in Leaves, moda com flores ou folhas, são da autoria de Tang Chew Liang de Kuala Lumpur.

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Peço-vos ainda o favor de descerem um pouco mais até aos excertos da frontal entrevista de Sobrinho Simões ao Público. São momentos assim que marcam os pontos de viragem.

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Resta-me desejar-vos, meus Caros Leitores, um belíssimo fim de semana.