Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, março 23, 2020

Mais um dia neste limbo de incerteza, rodeada de uma paz que parece de um outro mundo,
mas pensando no incerto caminho que temos pela frente

-- Do not go gentle into that good night --





Este meu domingo voltou a ser atípico. Parece que, por uma qualquer convulsão, simultaneamente temporal e espacial, tivéssemos vindo aqui parar. Esta não é a nossa condição habitual.

Sobretudo, faz-me muita impressão não ter conhecimentos para poder ver o futuro menos enevoado do que agora o vejo.

Levantei-me com mais motivação e fui arrumar roupas e outras coisas que para aqui tínhamos trazido e que, com a loucura que foi a semana, foram ficando fora de sítio. Não trouxemos muita roupa. A saída de casa, tal como tinha sido a saída dos dois escritórios onde habitualmente trabalho, foi algo desorientada, mal pensada, triste. Saímos sem saber por quanto tempo. Não trouxe quase nada, apenas o mínimo, quase uma ida para férias mas sem se saber quando se volta, uma sensação algo angustiante. Para quem me lê e já não trabalha ou trabalha em casa isto pode não se perceber bem mas a verdade é que a sensação que senti foi a de estar a haver um tremor de terra e em que, sem se saber o que vai acontecer, a gente pega em meia dúzia de haveres, os básicos, e sai sem saber se regressa.


E ainda não me habituei bem à ideia de estar em minha casa e, em vez de poder estar vestida à vontade e andar a fazer o que me der na bolha, ter que estar dentro de horários, a atender telefonemas, a ter que estar arranjada, a participar em video-conferências. E a mostrar a minha casa como agora toda  a gente a mostra. 

Temos comido bem e acho que equilibradamente. Fomos ao supermercado creio que na terça-feira da semana passada (ou na quarta? - já não tenho ideia, parece que também ando desorientada com os dias da semana) e, com o que trouxemos, tem-se conseguido variar. E, pelas minhas contas, ainda conseguiremos aguentar-nos com o que temos até ao fim da semana. Com aquela coisa do covid se aguentar activo sobre as superfícies até cerca de 3 a 4 dias, em especial no plástico, a semana passada pusemos em quarentena, no estúdio, tudo o que não fossem frescos. Temos a sorte de podermos dispor de um espaço para estas habilidades.

De tarde, fui lá para fora ler, mas arrefeceu. Fui buscar uma mantinha e estive ali bem confortavelmente. Se me abstraísse das circunstâncias, quase poderia dizer que estava feliz da vida. Mas claro que não estava. Sinto-me inquieta. Depois arrefeceu ainda mais. Vim para dentro. Quando estava a vir, vi no chão uma peça brilhante, colorida. Fui ver o que era. Uma pedrinha de vidro transparente, colorido. Não sei de onde veio. Pensei que pudesse ser da almofada mas não, não tem pedrinhas, apenas missangas. Não faço ideia. Mistérios. Coloquei-a em cima do livro e fotografei-a. Assim ocupo o meu tempo.


Em casa, no sofá, dormitei um pouco. Depois fomos fazer uma caminhada. O meu marido olhou para o céu e disse: 'antes víamos sempre aviões'. E era. Na cidade em que os temos sempre por cima da cabeça já nem damos por eles. Aqui no campo, olhávamos para o céu e lá iam, um pontinho branco deslizando no azul e deixando um véu de tule branco à sua passagem. Era normal vermos dois e três, cada um em sua rota. Parece que foi há muito tempo, num outro tempo. Agora olha-se não se vê nem um. Não se ouvem motas ao longe, não se ouve nada. Apenas o cair da chuva ou o suave som da aragem a correr sobre os ramos das árvores e, sempre, o canto dos pássaros, felizes e desconhecedores de todo este caos.

Entretanto, recebi documentos de trabalho para reuniões desta segunda. Não consegui ler tudo, não me apeteceu ler tudo.


Estive a ler, isso sim, algumas coisas sobre esta maldita pandemia. Passo ao lado de teorias da conspiração e parvoíces para me focar nos aspectos que mais me preocupam: 
  • Em primeiro lugar, como vamos viver até que a imunidade esteja instalada, sendo que a vacina vai demorar e que ainda não estão no terreno alternativas de forma a podermos aguentar o embate até lá. Vamos viver enclausurados durante mais um ano e tal? Como o aguentaremos? Vamos isolar os mais velhos e os mais vulneráveis, mantendo os demais em circulação? Como suportaremos fazer isso? E como suportariam os mais velhos e os mais frágeis a tristeza de tal isolamento?
  • O que vai ser, entretanto, de todos os que vivem de actividades que dependem da circulação ou da concentração de pessoas? Sectores como o turismo, restauração, comércio massificado, todas as formas de espectáculo, viagens, etc, vão viver de quê? E não só esses: sectores como os das limpezas de escritórios, agora que os escritórios estão fechados, e tantos, tantos outros.
  • E o que vai ser o day after, seja ele quando for? Daqui por um ano ou ano e meio, tendo as pessoas interiorizado uma outra maneira de viver, como vai ser? Os escritórios vão voltar a encher-se? Não vão. Não vão até porque as empresas não aguentarão continuar a pagar pesadas rendas durante os meses em que as pessoas estão em casa, grande parte das empresas paralisadas e mal tendo dinheiro para pagar ordenados. E os centros comerciais vão voltar a encher-se? Tenho dúvidas. Com as lojas fechadas ou com a clientela reduzida por tempo indeterminado, grande parte delas fecharão. E os hotéis que estavam cheios de turistas vindos do mundo inteiro como se aguentarão agora que os turistas estão impedidos de sê-lo e que nem tão cedo poderão voltar a sê-lo? Muitas incógnitas. E, certamente, muito desemprego, muitas falências. O mundo, e desculpem se me repito, vai ser outro. Tem que haver muita criatividade, muita reflexão. Tem que se perceber para onde vai o mundo e, até que lá se chegue, tem que se saber como manter vivas tantas pessoas que vão ficar sem ocupação nem rendimentos.

Talvez eu esteja a ver o filme mais negro do que será, no futuro. E, de cada vez que penso em futuro, não sei onde situar-me. Lá para finais de Maio ou em Junho, se tudo correr bem, estaremos a sair da hibernação. Mas não sairemos completamente pois, sem 70% da população imunizada, para que a catástrofe não se abata de novo sobre nós, teremos que limitar fortemente a nossa movimentação. 

Ou aquilo do soro do sangue dos recuperados resulta e aí talvez se consiga antecipar o regresso à normalidade ou se descobre um cocktail que, sem danosos efeitos secundários, consegue atalhar o efeito do bicho no organismo, ou o futuro vai tardar a chegar e, quando chegar, ver-nos-emos chegados a um cenário que não vamos gostar de ver.

Claro que a UE e os Governos, se tiverem juízo, se unirão para fazer frente a uma hecatombe e o mundo não acabará. Mas temos todos que ser criativos, disponíveis para ajudar, temos que deixar de ser comentadores de bancada, maledicentes, clubistas, medíocres. Temos que ter visão, temos que ser generosos.


Acredito mesmo que esta pode ser a oportunidade para fazermos a viragem para um mundo mais inclusivo, mais inteligente, mais saudável e equilibrado, respeitando o planeta na sua infinita variedade e beleza. 

Mas temos que lá chegar. E é esse espaço, esse caminho até lá, esse labirinto que ainda vejo envolto em névoa e incerteza, que me assusta um bocado. Isso e haver tanto estúpido e bronco à solta.

Mas haveremos de lá chegar. Isso eu sei, de certeza. E também sei que, uma vez lá chegados, será um mundo melhor.




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segunda-feira, fevereiro 24, 2020

Louvor da Terra





Hoje de manhã vi que, em cima da mesa redonda que está junto à janela, estava 'O amor louco' do Breton. Estranhei. Depois fez-se-me luz. Pela capa julgaram que era outra coisa

Levei-o. E levei também o outro, o último, aquele a que não tive como resistir, 'Louvor da terra' de Byung-Chul Han, com tradução de Miguel Serras Pereira, coisa que também ajudou ao bom prenúncio.

Dia de descanso. In heaven. 



Lá chegada, e tão cheia de saudades eu estava, depois de abrir as portadas para que a luz pudesse iluminar a casa, saí para o campo.

Caminhei e, para estas caminhadas, eu não quero companhia, quero apenas o som dos meus passos sobre a caruma, o som da levíssima aragem nos ramos, o cantar dos pássaros, o silêncio, o silêncio que traz de longe o som de uma roçadora e o perfume da erva a ser cortada ou a longínqua presença de um cão que ladra no vale ou algures na serra. Caminho em puro estado de deleite e não penso em nada, apenas sinto o que os sentidos me trazem. A beleza das pequenas flores, os líquenes dourados e os pontinhos brancos, o rendilhado das sombras e a luz sobre todas as coisas, os verdes e a paz que deles se desprende, os odores limpos do campo, a suavidade da folhagem ou das superfícies mornas das pedras ou o enrugado dos troncos. As palavras são escusadas enquanto caminho. Por isso, nessas alturas, não gosto de ter alguém por perto. Quero apenas o silêncio. 

Depois, fui para o sol e levei os livros. Estendi-me numa espreguiçadeira, despi-me, deixei que o sol pousasse devagarinho na minha pele. Estava debaixo da grande figueira mas, como ainda tem os ramos nus, a sombra era subtil. E o perfume fresco que me traz a memória das tardes de verão ainda era apenas uma vontade dele.


Continuei O amor louco, verdadeiramente louco, que tinha começado no carro. Li a direito, fui lendo. Até que comecei a abreviar, a saltar. Dantes era incapaz de fazer isto. Dantes, mesmo que não gostasse de um livro, só o abandonava quando lia escrupulosamente todas as palavras. Agora já não é assim. Perdi a inocência. À medida que o tempo passa a gente vai percebendo que tem que escolher bem onde o usa. A Luísa Neto Jorge traduziu e há momentos belos, outros interessantes, outros muito loucos. Talvez um labirinto. Mas não tem aquele fio de Ariadne de que preciso para me guiar, página a página. Qualquer coisa ali me fez ter vontade de interromper. Se calhar não teve a ver com o livro, se calhar teve a ver com o calor brando do sol sobre a pele ou com o sobressalto das rolas a soltarem-se da ramagem perfumada dos cedros, se calhar teve a ver com a vontade de palavras a brotar da terra e não das mãos, nem mesmo do coração.

Fui, então, para o Louvor da Terra. E como gostei. Ia lendo, ia parando, ia sentindo o amor pelo jardim, pelo devir do tempo sobre as flores, o amor pela paz que se desprende das coisas da natureza, ia vivendo a simplicidade do que me rodeava e do que lia.


Por exemplo, sobre um tema que me é caro (e agora nem tem a ver com as flores ou o jardim que Byung-Chul Han amorosamente cultiva):
Gostaria de me desprender de mim no sono, para me tornar ninguém, um ser anónimo. 
E a referência à Carta sobre o Humanismo onde Heidegger escreve:
'Mas, se o homem encontrar de novo a proximidade do ser, terá de aprender primeiro a existir anonimamente. Terá de se dar conta do mesmo modo tanto da sedução da esfera pública como da impotência do privado. Antes de falar, o homem terá de deixar que o ser de novo o interpele, correndo o risco de, depois dessa interpelação, pouco ou raramente alguma coisa lhe restar que diga'.
E continua: 
Hoje temos muito que dizer, muito que comunicar, porque somos alguém. Perdemos o hábito quer do silêncio, quer de nos calarmos. O meu jardim é um lugar do silêncio. No jardim, crio silêncio.
E eu acho estas palavras tão bonitas, tão sábias, tão simples, tão boas para ler devagar.

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As fotografias foram, pois, feitas este domingo in heaven. Enquanto caminhava tinha umas calças brancas e a túnica que ainda tenho vestida, branca, com flores encarnadas à frente. Ao ver as fotografias, vi-me, nesta aqui acima, espelhada na caruma e nas ervinhas e folhinhas secas do chão. No lugar que provavelmente é o do meu sexo uma florzinha amarela, uma pequena réplica do sol. 

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Lá em cima, quem interpreta as Variações Goldberg de Bach é Igor Levit, não Byung-Chul Han que, a páginas 119 do livro, diz que 'Enquanto contemplava o Vesúvio, tocava todos os dias as Variações Goldberg de Bach. Mandei instalar um piano na minha cabana junto ao mar'. E mais à frente escreve: 'A paisagem mediterrânica é íntima. Comove-me no mais fundo do meu ser. Penetra-me o adejar de um pássaro negro. Comove-me profundamente. Aqui tudo é muito próximo e muito íntimo. Íntimo é um superlativo de interior. Estou no meio da paisagem.'

E, ao ler esta passagem, fiquei a pensar que adejar era justamente a palavra que me faltava para o sobressalto dos pássaros quando batem apressadamente as asas para se libertarem da folhagem e me fazem arrepiar porque esse é um som demasiado íntimo que me faz sentir que tenho um pássaro a querer libertar-se do meu peito. Adejar. 

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Desejo-vos uma boa semana --
mas não sem antes vos convidar a descer para verem o fantasminha que descobri, abraçado ao tronco de uma aroeira.

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segunda-feira, fevereiro 10, 2020

Estás vendo coisas





Muitas vezes já aqui o disse: ao vivo, sou uma pessoa reservada, sobretudo em relação ao que me diz respeito. Em ambiente social, falo pouco de mim, prefiro prestar atenção aos outros, ouvi-los, saber deles. Apesar de ser bastante assertiva na defesa das minhas convicções, reservo a minha energia para falar do que me interessa e o que me interessa a maior parte das vezes não tem a ver comigo.

Contudo, quando aqui escrevo, é frequente contextualizar as ideias a partir da minha própria experiência. Assim, é frequente evocar memórias ou registar acontecimentos que presenciei ou vivi e só depois partir para o tema em si. Muitas vezes me interrogo sobre o que me leva a fazê-lo. A explicação que me parece mais fácil tem a ver com o facto de apenas aqui escrever tarde e más horas, quando o dia chegou ao fim, frequentemente estando já esgotada e sem grande cabeça para textos elaborados. Usar-me como objecto de escrita é, assim, subterfúgio fácil para quando as mãos têm vontade de escrever e a mente já pede descanso.

Contudo, hoje, ao ler 'O lado negro da mente', de Kerry Daynes -- que é psicóloga forense e consultora do governo britânico para casos de alto risco --, dei com uma justificação que me agrada mais. Transcrevo:
Contar as nossas histórias pessoais, nomear e reconhecer as nossas experiências, é a principal forma como as pessoas dão sentido ao mundo. Para a maioria de nós, isso significa falar com os amigos ou a família; para outros, é a terapia ou o aconselhamento. A premissa mantém-se: através do simples acto de falar, processamos e compreendemo-nos a nós e aos outros. Quando não contamos as nossas histórias, ou não as podemos contar, elas manifestam-se de outras formas. As emoções precisam de uma voz. Sem ela, acabam por se escapar. 

De seguida a autora fala de um outro facto que me parece ser a razão subjacente a muitos dos males deste mundo:
(...) a arte de falar é mais fácil para uns do que para outros. Para rapazes e homens, muitos deles ainda socializados numa multitude de formas destrutivas para dissimular a fraqueza e a dureza dos seus problemas, a ideia de partilhar um profundo sofrimento emocional com alguém continua a ser inconcebível, mesmo no século XXI. Quando somos castigados ou gozados por expressar, ou mesmo, ter sentimentos, iremos tender a esforçar-nos bastante para parecermos fortes e impassíveis. Excepto no que se refere à ira. O condicionamento masculino é mais predisposto a aceitar ira, uma emoção que tem mais que ver com 'fazer' do que com 'sentir'. 

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Tirando isso, e embora avessa a publicidades, só tenho a acrescentar que o creme corporal iogurtado de gengibre é uma maravilha: macio, muito hidratante, com um perfume fresco e picante. Ficou o meu corpo perfumado e ficou o quarto em que eu estava quando o fiz deslizar na minha pele.

Também estou agora a usar, para lavar as mãos, um gel com aroma de gingerbread e devo dizer que me traz alegria. Os miúdos ontem estavam intrigados, diziam que parecia que cheirava a canela. É um cheirinho bom, inusitado e agradável.

Também posso ainda referir que misturando na mesma chávena uma saqueta de chá branco e outra de gengibre se obtém uma infusão preciosa. Ainda hei-de experimentar juntar uma casquinha de laranja e, quando as rosas do jardim da minha mãe florirem, hei-de trazer de lá uma para experimentar juntar uma pétala. Mas, claro, quando puser a pétala de rosa, não ponho a casquinha da laranja para que não anule o perfume da rosa. Ou talvez até tudo junto fique bem. Hei-de experimentar também.

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As duas selfies bem como as fotografias dos prédios vistos de baixo e do apelo à poesia foram feitos este domingo em Lisboa. 


E, para não virar costas ao desafio, aqui vai, pela pena de Maria Teresa Horta, um Poema sobre a recusa:

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado

nem na polpa dos meus
dedos
se ter formado o afago

Sem termos sido a cidade
nem termos rasgado pedras

sem descobrirmos a cor
nem o interior da erva

Como é possível perder-te
sem nunca te ter achado

Minha raiva de ternura
meu ódio de conhecer-te
minha alegria profunda

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terça-feira, junho 18, 2019

Com incansável inteligência e alguma ocasional petulância






Ao longo do dia, andei de umas para outras sem que nada, durante todas aquelas vastas horas, me tivesse agradado especialmente. Muita reunião, muito roadmap, muito business plan e business case, muita mitigação, muita coisa nessa base e sumo que é bom e eu gosto, pouco e, o que há, fraquinho, fraquinho. Pior: no intervalo, nada. Um compacto de cenas desinspiradas.

Vão rareando as pessoas que me fazem rir ou com quem se consiga ter uma conversa variada sobre temas pouco sérios. Quanto mais pessoas conheço mais me convenço que as pessoas muito sisudas e que só sabem falar de trabalho, por muito que aparentem ser eficientes e ultra zelosas, são, na realidade, umas perfeitas nulidades, fazendo muito bem coisas que geralmente não servem para nada. Acresce que são chatas, muito chatas.

Tenho saudades dos longínquos tempos de grande irreverência, de muito mau comportamento. Tenho saudades de quando me diziam que o meu colega e grande amigo tinha saído do gabinete a apertar a portinhola, isto depois da secretária ter de lá saído segundos antes toda afogueada e sorridente. Tenho saudades dos relatos mirabolantes de um colega que contava histórias inverosímeis e que, quando eu o confrontava: 'Não acredito em nada disso, deve ser tudo mentira' me respondia com ar divertido e gaiato: 'Tudo não, que exagero. Tem um fundo de verdade'. Tenho saudades de quando a minha secretária me contava que tinha pressionado outro meu colega e amigo, dizendo-lhe: 'Se está à espera de ser velho para deixar a sua mulher e vir viver comigo, tire daí o sentido, ou é agora, enquanto somos novos, ou esqueça'.  Tenho saudades daqueles dias divertidos em que a arquitecta que ia comigo ver as obras, saia étnica até aos pés, me dizia: 'Viste como os gajos não tiravam os olhos das minhas pernas? É que a saia é transparente e eu ponho-me em contraluz para os gajos ficarem vesgos'. Tenho saudades daquele presidente, amicíssimo, um mestre, que contava que a vizinha da moradia contígua, no Estoril, era italiana, fogosa e andava nua no jardim... e que ele inventava desculpas para não ficar na casa da cidade, onde vivia com uma namorada vinte e cinco anos mais nova, para ir pernoitar ao Estoril e, mal lá chegado, saltar a cerca e pernoitar com a italiana, sexagenária como ele. Tenho saudades daquele outro colega que, quando chegava à ponta do corredor, dava um salto batendo os pés de lado como se a seguir fosse dançar como o Fred Astaire.
Um paradigma do homem sadio, criado para confiar totalmente nos seus próprios impulsos, graças a uma intensa e jubilosa vitalidade imune ao medo, à má consciência, à malícia e aos expedientes e muletas morais da lei e da ordem que os acompanham.
Eram todos assim, eu a única mulher no meio de um bando de doidos. Mas uns doidos inteligentes, competentes, arrojados, irreverentes, bem sucedidos no seu trabalho, na sua vida. Divertíamo-nos à brava. Só um é que se levava a sério e, portanto, ninguém tinha paciência para ele. Uma vez metemo-nos todos numa bravata que, como todas as bravatas, comportava riscos. Esse tal apertadinho teve medo, acobardou-se, saltou fora. Todos os outros mantiveram-se unidos até ao final, apesar das ameaças, apesar de sabermos que haveríamos de pagar pela nossa insolência (e coragem e coerência). E pagámos, de peito feito, alegres da vida.

O ambiente profissional que conheço, aqui e ali, hoje não tem disso. É tudo muito calculado, muito bem comportado,  muito politicamente correcto, ninguém ousa uma piada mais brejeira, ninguém ousa pisar o risco. Hoje ninguém tem tempo para maluqueiras, anda toda a gente muito ocupada a cumprir objectivos, a atingir os kpi's e a mostrar-se muito eficiente junto do chefe.

Até certa altura, não estava ainda tudo automatizado, não havia mails desde que despertamos até que nos deitamos, não havia telemóveis a levarem o trabalho até nós: e, no entanto, não havia qualquer necessidade de trabalhar até às quinhentas, e, durante o dia, nem sei como, havia tempo para falar de livros, para falar de cinema, para anedotas, para fofocas divertidas, para risotas boas.

Quando penso nisto parece ficção. Ou coisa que aconteceu num outro mundo, numa outra época.

E não sei como é que isto se perdeu. 

Aliás, sei. Houve uma época tenebrosa, dos yuppies, gente muito pseudo-eficiente, gente muito ao sabor de modas, gente que não sabia nada de nada a não ser papaguear jargões em consultês, gente que muito menos sabia da vida, e que apareceu a querer normalizar a diversidade.
Lembro-me de um que apareceu nem sei de onde. Tinha trinta e picos e portava-se como se fosse um grande magnata. Fumava charuto e um dos meus amigos, à socapa, gozava com ele, dizia que parecia aquele bebé, o Baby Herman, semblante autoritário, charuto na boca e... de fraldas. Vi-o depois naquilo dos empresários qualquer coisa de Portugal, que iam refundar Portugal, acho que se chamava Compromisso Portugal. O João Miguel Tavares é que, nessa altura, mesmo andando ainda de fraldas, devia ter aproveitado as causas. Aqueles lá tinham causas. Muito parvalhão acreditou nos el dorados que prometiam amanhãs que cantavam, muito parvalhão lhes deu palco, muitas entrevistas. Muito se assistiu à sua pesporrência fútil e bacoca. O Baby Herman por lá andou a fazer não se sabe bem o quê. Certamente alguém o fez Comendador. Deve ter falido a empresa mas isso não interessa, a memória da malta é curta. 

Mas, enfim, é assim. Os tempos mudam e nem sempre mudam para melhor. E somos todos nós, colectivamente, que deixamos que isso aconteça. Vamos deixando, vamos contemporizando. E, quando damos por ela, o mundo mudou, alagado em mediania... e, quando queremos mudar-nos daqui para um lugar melhor, percebemos que perdemos o pé.

Mas, na volta, sempre assim foi desde o princípio dos tempos: toda a gente sempre a achar que tudo isto não passa de um devir a caminho da nulidade.
Nenhum de nós alcançará a terra prometida: morreremos todos no deserto. O intelecto, como alguém já disse, é uma espécie de doença: incurável.

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Pinturas de Kim Heungsou na companhia de Yiruma com Maybe. Em itálico, excertos de O wagneriano perfeito de Bernard Shaw (incluindo o título)

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Já agora, a propósito de Bernard Shaw, o discurso em louvor de Einstein 
-- e que bom quando as pessoas gostam de rir, de se rir


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E, que nem de propósito, abaixo uma evocação de um mundo transacto, um mundo que já nada tem a ver com este nosso mundo -- um mundo de reis, rainhas, príncipes e princesas, duques e duquesas, caleches e penachos a enfeitar as belezas. Bem podem as ruas protestar e os noticiários falar de brexits, de autodeterminações, de crises políticas, ambientais, sociais que, numa outra dimensão, num tempo que parece pretérito, os soldadinhos vestidinhos com os seus fatinhos bonitinhos continuam a bater o pezinho e a subir as escadas quase aos saltinhos e as realezas continuam a desfilar cheias de capas e capelines. Uma real gracinha.


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E, no meio disto, tudo de bom para vocês: peace and love.

terça-feira, junho 11, 2019

Relato de um náufrago


Tinha levado dois livros e fiquei-me pelo que me foi oferecido e de que falei ontem. Um dia lê-lo-ei de seguida, como merece ser lido. Por enquanto, não resisto à surpresa e espreito e leio e volto a abrir ao calhas, espreito, leio, mais à frente, de novo no início, quase no fim. Qualquer coisa ali me transporta a um outro mundo no qual não posso entrar senão assim, devagar, às espreitadelas.

E ficou lá à minha espera para ser lido com calma e alguma cerimónia, onde possa esconder do mundo alguma da minha perplexidade por, tal como ontem confessei, ter desconhecido até agora esta escrita.


Para ler no caminho de volta, trouxe o outro, 'Relato de um Náufrago'. Como a volta foi maior já que fomos a casa dos meus pais antes de regressarmos, deu para ler bastante. E para ficar agarrada. Gosto de ler histórias bem escritas, as palavras no osso, desadjectivadas, em que o autor nos agarra pelos colarinhos e, nós, ali presos, não nos importamos porque não há uma palavra que desiluda.


Pena esta terça-feira não ser feriado que ficava a ler até acabar e acordava quando acordasse. Assim tem que esperar.

Entretanto, que nem de propósito, tinha no YouTube um outro relato surpreendente de uma outra história verídica. Steven Callahan sobreviveu 76 dias no mar, à deriva, coisa que não dá para acreditar.


Mas acredite-se: aconteceu. E aqui, no vídeo abaixo, pode perceber-se como foi. Não se pode dizer que seja breve mas é muito interessante. As histórias de luta pela vida, ainda por cima quando acabam bem, e quando os próprios sobreviventes contam como foi, são sempre emocionantes.


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[E vão por mim: estou em crer que não vale a pena darem-se ao trabalho de descerem para saber o que acho do discurso do João Miguel Tavares (de que ouvi apenas um excerto) e, sobretudo, da escolha do Presidente Marcelo]

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E dias felizes a todos

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quinta-feira, junho 06, 2019

O beijo conjugal
[Conselho contido no Manual de Etiqueta do Vilhena]


Embora de menor interesse e menos praticado do que o beijo entre o patrão e a criada, o ósculo entre a esposa e o marido tem ainda os seus cultivadores. Se é certo que esse hábito está fora de moda, a etiqueta ainda o prevê em certos casos, como nas gares de caminho de ferro e aeroportos, quando o esposo deixa a mulher, temporariamente, para ir fazer uma dessas viagens de negócios com que periodicamente interrompe a mesmice e a chatice conjugal. Nessas alturas o marido beijará a esposa com uma certa afectividade, direi mesmo algum entusiasmo, principalmente se estão pessoas ao pé, pois esse gesto cai muito bem nos circunstantes.

Já alguém escreveu em qualquer parte (creio que fui eu próprio) que o beijo conjugal é como um chewing.gum: quanto mais se mastiga menos sabor tem. Por isso convém fazer certa economia nessa matéria. Após dez anos de matrimónio, os maridos bem educados beijarão as suas mulheres (refiro-me às legítimas, claro) no Natal e na Noite de Ano Bom. Nessa noite, e possivelmente por efeito do álcool, alguns vão mesmo mais longe. Mas isso já é uma delicadeza extra.

domingo, março 03, 2019

Como um rio que se funde noutro





Olho-me nos olhos. Nunca tive medo de espelhos. As pálpebras, o rosto, as rugas hesitantes que me atravessam a testa. Os cabelos brancos e abundantes. O torso ainda firme e um pouco mais compassivo. O desejo discreto mas imparável. A fala fácil mas um nadinha mais ponderada. Onde está a minha idade? ´Vai aos ziguezagues', diria Sabato. Atiro-me para as nuvens, como sempre fiz, agora mais diurnas. Mais próximas da mão. Deixo-me envolver por elas, 'nuvens que envolvem o tempo', leio num dos poemas da loucura de Hölderlin. Agarro como posso os restos da minha própria. Restos? Olhando para o mar é como se ela, a loucura normal, fosse uma variante do meu olhar nos espelhos da casa, entre estantes caóticas, como gosto que sejam as estantes dos outros, jamais as minhas, encontrar o que não espero encontrar, mas o que mais me concentra nesta casa é o mar, o espelho do mar, o seu peso oscilante, como se ele fosse outro rosto meu, vacilante como o meu, enquanto o olhar de Myah, de todos o mais brilhante, não entra pela casa dentro. Onde estás tu? Como um rio que se funde noutro.


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Palavras de Casimiro de Brito in 'Uma lágrima que cega' ao som de Yann Tiersen com The lost notebook. As fotografias são de Emma Tempest. 

No fim, "On Growing Old" de John Masefield é lido por Tom O'Bedlam e os bailarinos de Introdans dançam Unfold numa coreografia de Robert Battle ao som de uma ária da ópera Louise de Gustave Charpentier

Mas essa já é outra história




Passou por aqui, devorou o leite das minhas terras e deixou-me a celebrar as nuvens que passam. E deixou recados, 'sou  um bocadinho do vento que te amacia', e de facto bebeu-me as arestas, 'as tuas mãos sobrevoam o meu corpo como plumas', e de facto senti-me pássaro mais de gruta íntima que de céus altos, 'noites de eterno luxo', e cada instante foi de facto uma imersão na abundância que deve ser o eterno, 'mais leve do que uma pena apesar do peso', que não senti, o amor bem temperado é assim, um animal imenso que se pode transformar numa flor carnívora, e tu és uma fera, uma boca terrível que não perde nada e se encontrou no outro, que felizmente fui eu, 'uma das que sou', bruxa, luxuosa e mais ainda porque bebeste no meu luxo mas depois disse-te que não, que não nos amaremos outra vez porque me estou a deixar prender nas tuas mãos, que são asas e nuvens e garras, e eu não quero, quero ficar livre e pairar e sofrer outros pesos, se os houver, e 'ó meu amor que pena não te deixares prender'. Amar é também renunciar. Mas essa já é outra história, que depois viverei, e direi.


Palavras de Casimiro de Brito in 'Uma lágrima que cega' ao som de I want you na voz de Tom Waits com fotografias de  Clara Melchiorre


terça-feira, janeiro 29, 2019

Não há ausência se permanece, pelo menos, a recordação da ausência.





Há algum tempo, deparei-me com um velho caderno onde tinha apontado algumas frases que me tinham impressionado. Havia uma extraída de Em Busca do Tempo Perdido, de Proust. 


Dizia:
Mas para desencadear aquela tristeza, aquela sensação de irreparável, aquelas angústias que preparam o amor, é necessário -- e talvez seja isto, mais do que uma pessoa, o próprio objecto que a paixão procura ansiosamente atingir -- o risco de uma impossibilidade.
E se a paixão que me invade, que nos invade, diante destes livros perdidos tivesse as mesmas origens da paixão amorosa descrita por Proust? Se fosse precisamente o risco de uma impossibilidade que justifica o misto de arrebatamento e melancolia, de curiosidade e fascínio, que cresce quando se pensa em algo que existiu, mas que não podemos agarrar com as nossas mãos? Se for o vazio que nos fascina, por que podemos preenchê-lo com a ideia de que o que falta é a peça decisiva, perfeita, inigualável?


Além disso, esses livros tornam-se desafios à imaginação, a outros escritos, ao desenvolvimento de paixões alimentadas pela sua própria inatingibilidade. Não é por acaso que muitas destas páginas perdidas acabaram por provocar a escrita de novos livros.

Mas não é só isso, é algo mais.



Num romance de finais do século passado, uma escritora canadiana, Anna Michaels, escreveu:
Não há ausência se permanece, pelo menos, a recordação da ausência. (...) Se alguém já não tem a terra, mas tem a recordação da terra, pode sempre desenhar um mapa.

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Excerto do livro 'Histórias de livros perdidos' de Giorgio Van Straten, da editora Elsinore, tradução de Carlos Aboim de Brito

Me And Mrs Jones aqui é interpretado por Billy Paul. Marie-Thérèse Walter é retratada por Picasso.

The Loveliness of Love de George Darley é lido por Tom O'Bedlam

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E queiram continuar a descer para verem como é bom saber viver

terça-feira, novembro 13, 2018

Palavrão, calão.
[Post com bolinha encarnada]


A palavra de calão é cristalina. Melhor ainda, muitas vezes, a palavra de calão, ou seja, o palavrão, cristaliza. Instala-se então na língua como uma tiara na cabeça de uma princesa, para não usarmos a equívoca imagem de um broche todo feito à mão no vestido da rainha de Inglaterra. Passa desse modo a ser concorrente daquelas admiráveis expressões idiomáticas que nos põem a ver Braga por um canudo. Nasce, assim, o palavrão idiomático.

O palavrão idiomático embeleza a língua, cumulando-a com as bênçãos da imaginação popular. Usa do oxímoro, da homofonia, é hábil na metáfora e na metonímia, joga na aliteração e recorre, quando lhe dá a preguiça, à desgarrada rima ligeira, até porque quanto mais prima, mais se lhe arrima.

O palavrão é o assalto do povo ao Palácio Imperial da Língua, levando de arrasto dois ministérios. Primeiro, o Ministério da Imaginação, área de governação já tradicionalmente sob tutela (ou, na mínimo, protectorado) do poder popular. Mas depois, prosseguindo a vaga insurrecional, o povo toma também conta do Ministério da Libertinagem, lambuzando-se a turbamulta com o tabu, a blasfémia, as delícias do obsceno, a coprofilia.

O palavrão, na boca popular, advoga uma ideologia igualitária e põe cara e cu de olhos nos olhos. O palavrão idiomático cuida dos seus e tem uma política de habitação, dando casa mesmo ao caralho mais velho. O palavrão idiomático é também defensor de um serviço nacional de saúde: a uma trombose prefere uma trombada. 

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O palavrão é, convenhamos, uma libérrima utilização da linguagem. Dir-se-ia até, uma nua utilização da linguagem, que nos entra, porta dentro, despida do traje de cortesia, da sua requintada casaca, da elegante cinta. O palavra é a linguagem em cuecas ou, porventura, sem elas; é a linguagem gorda, sem regime dietético; é a linguagem que já não cuida de esconder a raiz da sua vulgaridade, autorizando-se tudo o que é baixo, rústico, grosseiro e rude. Os dicionários chamam-lhe também gíria e calão, acentuando o seu cunho ofensivo e agressivo.

O palavrão é o destemido herói que visita, sem inibições morais, todas as mais proibidas e sagradas fendas, colinas, picos, matas, dunas e enseadas do corpo humano. Na boca do palavrão, todo o sagrado é profano, e as transformações que têm lugar no nosso metabolismo também não lhe são estranhas, nem o intimidam ou impressionam. Para o palavrão, o mais hiperbólico, duro ou cruel disfemismo é tal qual limpar o rabinho a meninos.

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[Excertos não sequenciais de 'O pequeno livro dos grandes insultos' de Manuel S. Fonseca. As expressões dos três posts abaixo, o da Baronesa da Perna Aberta, o do cornudo da ordem de S. Cornélio, e os Alfacinhas sem tomates, também]

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E agora uma simples: 'porque é que os habitantes de Lisboa se chamam alfacinhas'?


Pronto. Já vi que não acertam uma. Nem descobriram quem é a Baronesa da Perna Aberta nem o ilustre membro da Ordem de S. Cornélio. Uma pena. Se acertassem, tinha mais umas quantas na manga. Assim, desolada que estou e antevendo que também não vão ser capazes de  descobrir um acoisa tão simples, dou eu própria a resposta à pergunta em epígrafe -- e, pronto, não se fala mais nisso.
Os habitantes de Lisboa chamam-se alfacinhas porque não têm tomates. Se tivessem, seriam saladinhas.
Simples.

E de que cavalheiro, bem conhecido de todos nós, diríamos que 'pertence à Ordem de S. Cornélio e ainda ninguém lhe disse'?


E não dou pistas que não quero influenciar ninguém ou lançar a confusão em lar alheio. Só pergunto. E é mesmo só para perguntar. 

PS: E se não consegue descobrir, tente acertar na resposta à pergunta abaixo.

A quem é que, na sociedade portuguesa, ficaria bem o título de 'Baronesa da perna aberta'?


Não é por nada. É mesmo só para perguntar. Caso ajude, posso acrescentar que, em inglês, diríamos que a dita Baronesa tem umas lazy legs.

sábado, setembro 22, 2018

Ambrósio, my love, vamos falar de sentimentos e de laços sagrados...?


Ambrósio, começo a sentir uma ligação, não sei, diria que especial, sei lá, uma coisa assim, apetece-me que me ensines, ser tua pupila, não sei se estás a ver, ser a tua lolita, (lolona, vá), mas é isto, estou sempre a arranjar pretexto, não percebes isso?, se não percebes é porque és ceguinho, vá lá, abre os olhinhos, olha para mim, conta-me histórias, diz de tua justiça, ensina-me. Está certo que já me ensinaste muita coisa, é ir por aí abaixo que a prova está bem à vista mas, percebes, é tudo na base da prosa sem picante, tudo morno, e eu, se não sabes devias saber, gosto mais de coisas calientes, por isso, vá, diz-me como me vês, diz o que achas de mim enquanto mulher, define-te enquanto macho, diz-me se sabes porque é que ainda estás solteiro, logo tu, meu lindão, coisa mais fofa, mais doce, diz porque, de vez em quando fechas os olhos, encostas os teus lábios à curva do meu pescoço e me chamas querida, diz-me o que, para ti, é o amor, diz-me se é amor ou paixão esta chama acesa e louca que, dentro de mim, arde por ti, meu amor mais doce, meu amor, meu doce. Diz-me se me queres para tua noiva, diz-me o que é, para ti, o casamento -- queres?, não queres?, diz que sim, diz, vá lá --, diz porque quero fazer de ti o meu marido, tenho planos, amor, vais ver. Mas olha, e nem é bom agora falar nisto, mas sou precavida, já sabes, e toda a gente um dia tem que ir e, por isso, a ires vai tu à frente, não é por nada, mas é que, mal por mal, antes ser eu tua viúva do que tu meu viúvo. Credo, nem quero falar nisso.

Mas vá, Ambrósio, amor, já falei de mais, agora é a tua vez, ensina lá a tua querida
Mulher, n. Animal que vive habitualmente nas proximidades do Homem e que é pouco susceptível a domesticação. Das espécies predadoras, esta é a mais amplamente disseminada, infestando todas as partes habitáveis do mundo, desde as graciosas montanhas da Gronelândia à virtuosa costa da Índia. A mulher é ágil e elegante nos seus movimentos, omnívora, e pode ser ensinada a não falar.
Macho, n. Um membro do sexo desconsiderado ou negligenciável. O macho da espécie humana é normalmente conhecido por Mero Homem. Este género tem duas variedades: os que sustentam a família e os que não sustentam a família
Solteiro, n. Um homem que ainda está a ser posto à prova pelas mulheres
Querida, n. A chata do sexo oposto, numa fase inicial do seu desenvolvimento
Amor, n. Demência temporária que se cura com o casamento, ou afastando o paciente das influências que provocaram a enfermidade. Esta doença, tal como a cárie e outras, prevalece entre as raças civilizadas que vivem em condições artificiais; as nações bárbaras que respiram ar puro e comem alimentos simples são imunes aos seus ataques. Chega a ser fatal, embora mais para o médico do que para o paciente.
Paixão, n. Qualidade distintiva do amor inexperiente
Noiva, n. Uma mulher com excelentes perspectivas de felicidade atrás de si
Casamento, s. Cerimónia na qual duas pessoas passam a ser uma, uma passa a ser nada e nada passa a ser sustentável
Marido, n. Indivíduo que, depois de ter jantado, é incumbido de tratar dos pratos
Viúva, n. Uma figura patética que o mundo cristão decidiu encarar de forma humorística, embora a ternura de Cristo pelas viúvas tenha sido uma das marcas mais distintivas do seu carácter

E, assim, Ambrose Bierce disse.

sábado, setembro 01, 2018

A cova do desespero, juro, não me há-de tragar
-- Escreveu Virginia num longínquo 21 de Janeiro --





Claro que, estando nós a ler na nossa língua e não na versão original, não sabemos se o que lemos é mérito apenas do escritor ou se o tradutor o enriqueceu (ou empobreceu) com o seu próprio estilo. Já me aconteceu ler textos que atravessam os tempos e são tidos por obras extraordinárias e eu os achar tocados por uma desconcertante pobreza estilística. Por exemplo, tenho dúvidas sobre o mérito como tradutor de Frederico Lourenço. Traduzir obras vastas e complexas não é coisa à altura de qualquer um pelo que persistência e determinação não se lhe podem negar -- mas já arte e intuição, sabendo interpretar a vontade do autor, disso tenho dúvidas.

Diz Jorge Vaz de Carvalho -- que também se tem abalançado à tradução de obras de envergadura -- que o seu critério geral é deixar transparecer o original, como se se limitasse a copiar respeitosamente o que a autora escreveria se usasse a língua portuguesa, procurando aquilo a que ele já chamou 'a especificidade identitária do texto'.
Não deve ser fácil pegar num texto, especialmente quando se tem pela frente a tradução de seiscentas e tal páginas escritas com fluência, por vezes num registo de coloquialidade, por vezes com uma sinceridade desarmante, e conseguir não desmerecer o original. Traduzir anos de vida para outra língua não desvirtuando o bater de coração do autor enquanto escrevia não é coisa que qualquer um consiga, pelo que, ao lermos um livro traduzido, não devemos deixar de valorizar o mérito do tradutor. Digo eu.
De facto, um diário é um texto escrito despreocupadamente, geralmente sem edição, um 'escrevinhar não premeditado', sem a censura interna que impõe o politicamente correcto e, talvez por isso, as palavras fluam de forma mais espontânea, mais próximas da intimidade de quem as escreve.

Escrever um blog pode ser a mesma coisa que escrever um diário. Escrever sem agenda, sem propósito, escrever pelo simples escrever de escrever. Regista-se o que se fez, o que se pensou, o que sentiu, o que se quer, o que se recorda, aquilo de que se gosta, ou barafusta-se com aquilo de que se não gosta. A mão como um prolongamento, em linha directa, da mente, do coração, da pele.

Os Diários de Virginia são assim: ao longo de anos, dia após dia -- e até poucos dias antes de ter desistido de viver, tragada pela escura cova do desespero --, Virginia vai registando o decorrer dos seus dias: os seus passeios, nomeadamente as caminhadas que dá com o marido e com o cão, os livros que lê, as visitas que faz e que recebe, os amigos, os familiares, os concertos a que vai, as conversas que tem, os acidentes domésticos, a procura de casa, os insignificantes desentendimentos, o tempo, as maleitas, o que está a escrever, o que o marido está a escrever, as idas à biblioteca e as opiniões sobre as pessoas com quem se cruza, as compras que faz. Sobre tudo Virginia foi escrevendo.

Uma vida, por mais profícua que seja, quando dividida em dias, e os dias em momentos, é uma realidade fractal na qual as suas partículas elementares são pequenos nadas, quase iguais aos pequenos nadas de toda a gente. 

Talvez que a diferença esteja na forma como se vivem os nadas e como deles se consegue fazer o sumo que a maioria negligencia e, tanto mais, quanto o sumo é saboroso, único, requintado, quase viciante.

Estou a referir-me, claro, aos Diários de Virginia Woof, traduzidos por Jorge Vaz de Carvalho que também prefacia o livro e nos ajuda na compreensão das referências através de exaustivas notas. Virginia Woolf escreveu os seus diários em papel. Se fosse hoje, teria certamente um blog e eu seria, sem dúvida, uma sua devota seguidora.


E é a leitura deste livro, um blog em papel, que eu vivamente recomendo. 


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Já agora:

A Vida de Virginia Woolf
[legendado em português]


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Lá em cima é Jelly d'Arányi interpretando Mozart Serenade in D K.250 'Haffner' - (ii) Menuetto; Trio, numa gravação de 1925.

Lembrei-me de a ter aqui porque, nos seus Diários,Virginia refere que ia ouvi-la tocar, a ela e às irmãs.

domingo, julho 08, 2018

A tarde cresce com o seu passo de tigre sobre as hortas




Almocei um peixe a saber a mar na beira-praia. Antes tinha ligado à minha mãe, que se arranjasse, que passaríamos lá a apanhá-la. 
Não, não, o teu pai. Não. Já sabes que não. Não quero. Já sabes. Não.
       -
Sempre isso. O pai nem dá por nada. É como ir às compras. Vá.
Não é, não é a mesma coisa. Não. Não gosto de sair e deixá-lo aqui. Já sabes.
       - Ora, deixe-se disso e vá-se arranjar. Não demoramos. Vá.
Mas tenho que avisar a Z., tenho que lhe pedir que fique cá. 
       - Sim, claro, ligue-lhe.
Mas agora ela foi tratar de uma senhora longe daqui e nunca leva o telemóvel. 
       - Vá, então ligue daqui a nada para o fixo de casa dela 
Pouco tempo depois, apanhámo-la. Tudo combinado com a Z. Com a blusa nova em tricot, de meia manga, muito elegante, acabada de fazer por ela a partir de fios de linha que há muito tempo uma tia do meu marido lhe tinha mandado, um em cor de pérola e outro em cor de mel claro. Estava como sempre, toda jovem e solar, sorridente e conversadora.


Gostou do restaurante, relembrou o lugar que tão bem conheceu quando não era nada disto. Agora tudo está mais bonito. Aliás, é geral: as cidades estão todas mais bonitas.

A comida boa mas o serviço demorado. Portanto, almoço longo. A ver o mar, os barquinhos, as pessoas na praia. Bom. Sem pressas.

Regressou contente e eu feliz por vê-la feliz. 

Depois, já só nós dois. Aqui chegados, estava aquele verão que aqui é tão intenso e bom. Biquini, espreguiçadeira, o perfume da figueira, os pássaros.


Mas, antes de preguiçar, caminhei, contemplei as flores, observei as diferenças desde a semana passada, a caruma que cresceu nos caminhos, os orégãos mais floridos, os figos a deitar corpo.

Quis registar-me imersa em verde. Fotografei-me. Um dia ainda me rendo à moda das selfies, provavelmente quando as selfies tiverem passado de moda. Não sei porquê, a mini-mini maquininha disparou o flash. Sabe que não quero mostrar-me e mostrou ser mais inteligente do que eu supunha.


Depois, deitei-me entre a sombra da figueira e a do telheiro. Pensava que ia dormir mas não. Olhei as telhas. Estão aqui há mais de vinte anos. Vão mudando de cor. Cada vez estão mais bonitas. Com o tempo estão tão verdes como o verde que aqui nos rodeia.

A estrela de vidro que tem lá dentro uma vela mantem-se amarelinha e eu gosto de vê-la suspensa das traves de madeira.


Uma paz tão boa, tão doce e luminosa.

Não sei porquê, resolvi fazer um exercício. De olhos fechados, pensei: agora a perna -- e senti a perna --, agora a outra -- e senti a outra --, devagar, agora o braço. Pensei: isto, se calhar, é meditação. E é bom.

Tranquila de corpo e alma, pus-me a ler.

Depois veio o meu marido e armou-se em cigano, daqueles que não conseguem ver sem mexer. E então, para nosso espanto, ouvimos um pipilar furibundo. Uma valente desanda, alto e bom som, com irritação e veemência. O meu marido tirou a maozinha e deitou o olhar ao alto, tentando descobrir o pássaro puritano. Eu também, intrigada. Mas só depois o vi a bater as asas apressadamente, enquanto levantava voo. Disse-lhe: Como vês, até irritaste o pássaro. Não ligou, riu-se. Não aprende a portar-se bem nem por mais uma.

Continuei a ler.


A prosa boa que conheci do blog que a autora em má hora tirou do ar. E eu, under a fig tree, os passarinhos, os verdes all around, tudo tão bom, chego ao apontamento 83 onde, a terminar, leio assim:
A tarde cresce com o seu passo de tigre sobre as hortas.
Parei. Gostei. Uma coisa que não lembraria a ninguém mas que me soou bem. Imaginei. Lá em baixo, na minha horta, um tigre, com o seu passo subtil e vagaroso, a avançar, lento, inteligente, perigoso.  Haveria de ser azul.

Gostei mesmo da ideia. De olhos fechados, para mim, repeti a frase. A tarde cresce com o seu passo de tigre sobre as hortas. Muito bom.


Numa horta ninguém espera que apareça um tigre. Se eu soubesse que, aqui in heaven, existia um tigre, eu haveria de andar, a respiração suspensa, arrepiada de curiosidade e medo, evitando a gruta e os locais mais sombrios do bosque, aqueles em que ele, traiçoeiro, haveria de se pôr escondido.


E, por isso, que susto sentiria quando inocentemente fosse à horta e... do nada... sentisse um olhar felino ameaçadoramente pousado sobre a minha pele, um olhar cor de mel num corpo sedoso e azul.

Resolvi transcrever aqui a frase.

Só que agora, ao transcrever, reparei que não era bem aquilo. A frase, afinal, é assim:
A tarde cresce com o seu passo de tigre sobre as horas. 
Reli, espantada. Horas? Afinal não é hortas? Bolas. Não pode ser. Logo agora que começava a habituar-me à ideia de que andava um tigre na minha horta.


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E, já agora, por falar em tigres azuis: Jorge Luis Borges


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As fotografias foram feitas este sábado.

Lá em cima Cohen canta Take this Waltz por sugestão contida no apontamento 119 do livro Dano e Virtude de Ivone Mendes da Silva

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