Agora que já ultrapassei o capítulo gastronómico, volto-me então para o rescaldo republicano do dia.
Se me permitem, vamos na companhia de rochas, árvores e sonhos. Acho que há alturas em que não nos devemos agarrar a ideias preconcebidas ou sectárias. As rochas ou as árvores têm a nobreza da quase intemporalidade. E os sonhos também são independentes de nós.
Se me permitem, vamos na companhia de rochas, árvores e sonhos. Acho que há alturas em que não nos devemos agarrar a ideias preconcebidas ou sectárias. As rochas ou as árvores têm a nobreza da quase intemporalidade. E os sonhos também são independentes de nós.
Começo por lembrar (ou esclarecer, no caso de isto estar a ser lido por quem não me lia na altura) que não votei em Marcelo Rebelo de Sousa. Parecia-me daquelas pessoas que se viciam em ser simpáticas e que, fruto de uma vida em contacto directo com os media, sabia exactamente o que dizer no momento certo para aumentar as audiências. Parecia-me também volúvel ou calculista ou qualquer coisa que não tinha muito a ver com Estado. Reconhecendo-o incomparavelmente melhor do que Cavaco (coisa que não é difícil) dizia que, se ele ganhasse as eleições, não ficaria arreliada pois, apesar de tudo, admitia que sendo ele uma pessoa civilizada, culta, inteligente e simpática não seria por ser Presidente da República que daí viria mal ao mundo.
E Marcelo ganhou as eleições. E a sua hiperactividade e o seu genuíno à-vontade de imediato foram postos ao serviço da função que começou a desempenhar. As visitas, as presenças, os comentários, os apoios -- tudo começou a girar à vista dos nossos olhos a um ritmo frenético. Alguém ganha um prémio e aí está o Marcelo a dar-lhe os parabéns, há uma feira a ser inaugurada e aí está ele, um novo museu, e lá está ele, as pessoas estão na fila e lá lhes aparece ele, há um fogo e lá está ele, há feridos e aí está ele no hospital, ganham medalhas e lá está ele a condecorar, cai lá um decreto e é atar e pôr ao fumeiro, despachado, há discurso para fazer, num foguete já está lido, a ronda feita, a bandeira içada e, antes da hora, tudo pronto para outra. Está junto a uns semáforos nos Estados Unidos, depois a discursar, aparece-nos a ser entrevistado na rua por um puto para uma estação francesa, a rir com Barack e Michelle Obama, e, para espanto geral, passado um bocado, já está outra vez por cá, a dar beijinhos a cidadãs extasiadas, abraços a velhinhos, sorrisos a criancinhas. Imparável.
Volta e meia a traquinice é mais forte que ele e deixa sair alguma que sabe de antemão que vai deixar os jornalistas e comentadeiros num frenesim, tentando adivinhar o significado, querendo antecipar fricções com o governo. Mas ainda a coisa anda a rolar e já aí está ele a baralhar e dar de novo, tirando o tapete a muito argumentadeiro, deixando-os a opinar no ar.
Este é o Marcelo. O Presidente da República que os portugueses elegeram para suceder ao empata, sorumbático, antipático, sonso, falso, desleal Cavaco.
E, aqui chegados, o que se me oferece dizer é que, em minha opinião e até ver, Marcelo está a ser um bom Presidente da República. Desconcertante, imprevisível, criativo -- mas com atitudes positivas, acertadas.
Marcelo descongestionou o País que andava atordoado e amedrontado depois de quatro anos de um governo insultuoso, incompetente, um governo capitaneado por uma criatura mentirosa, má, ressabiada, um governo que empobreceu as famílias e as empresas, que atacou os seus concidadãos, que empurrou para fora do país parte de uma geração, que tentou colocar novos contra velhos.
Na sequência das Legislativas, Marcelo soube estar acima de partidos e soube interpretar a vontade de quem votou. E tem-se mantido como um esteio. Defende o que acha que são os interesses do País e, desse forma, dentro e fora de fronteiras, tem sabido mostrar que defende os portugueses acima de tudo.
Pode ser que um dia venha a agir de outra forma. Pode ser que, um dia, eu ache que ele se precipitou, que foi leviano, que cedeu ao gosto pela intriga política, que prejudicou o país -- e aí talvez diga dele uma coisa diferente do que digo agora.
Mas hoje o que digo é isto (e repito-me): estou contente que Marcelo esteja à frente da República Portuguesa. Posso, aqui e ali, torcer o nariz. Mas ninguém é perfeito. Os que acham que podem ser perfeitos acabam por se portar como múmias fora de prazo.
O discurso que, neste 5 de Outubro, Marcelo fez na Praça do Município, as palavras que proferiu nas condecorações da tarde, a dignidade e o orgulho com que parece querer contagiar os portuguses que tão insultados e feridos foram até há menos de um ano, as pessoas que tem condecorado, os gestos amigos que tem para com Jorge Sampaio, o abraço sentido (e a festa na cabeça) a Mário Soares na homenagem a Maria Barroso, a solidariedade quase fraternal e militante a favor da escolha de Guterres para a ONU, a atenção que tem para com quem dele se abeira, o ter recebido pessoalmente no Palácio de Belém, logo que tomou posse, os anónimos cidadãos que o visitaram, o tirar fotografias com qualquer pessoa, a lealdade para com o Governo, o suporte que tem dado na inversão da paranóia catastrofista do discurso pafiano e mediático, etc, etc, etc -- tudo isso são exemplos, escritos por uma ordem quase aleatória, do que considero uma actuação feliz de Marcelo enquanto Presidente.
E mais: Marcelo tem sabido aproximar a Presidência dos portugueses e acho que, dessa forma, está a saber pôr ao serviço do povo os ideais republicanos.
Que tenha saúde, sorte e que mantenha a cabeça no lugar e a alegria no exercício da função é o que lhe desejo.
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Outros apontamentos sobre o 5 de Outubro visto através da televisão
Quanto ao Láparo e demais trastes que continuam a achar que somos parvos nada vou dizer. Ainda por aí andam, arrastando a sombra do que fizeram. Deveriam ter-se afastado da política porque o nefasto tempo deles já passou. Por cada dia a mais em que por aí andam mais toda a gente constata as nódoas que foram e são.
Sobre o Fernando Medina direi que é um político sereno, moderno, com um raciocínio muito bem estruturado e com uma visão estratégica -- pelo que é óbvio que tem um futuro promissor pela frente.
Quanto à provável eleição de Guterres para a ONU (falo assim porque sou muito cautelosa: só gosto de deitar foguetes na hora certa): alegra-me. Tendo pela frente desafios avassaladores para os quais vai precisar de toda a sua inteligência, experiência e vocação para o diálogo, acredito que vai enfrentá-los com habilidade e coragem. E, num registo mais pessoal, acho que já era tempo de termos um português de bem à frente de uma instituição internacional já que o último, um cherne de pacotilha com vocação para concièrge, só nos envergonhou.
E mais?
Ah sim: aquela toilette de António Costa à tarde esteve à altura dos seus bons momentos estilosos: já nem falo no casaco que parece que tem sempre uns centímetros a menos na cintura; mas aquela camisa azul oxford com uma gravata verdinha em cima estava mesmo qualquer coisa...
Quase tão bem estava o Ferro Rodrigues: sempre com aquele seu ar desmanchado, pendurado, um cabelo que parece estar a pedir tesoura há meses.... e uma gravata em verde quase alface. Mesmo a condizer com a ocasião.
Mas, enfim, coisas sem qualquer importância que apenas humanizam as instituições. Quer Ferro Rodrigues quer António Costa são pessoas capazes, que têm mostado amar e defender o seu País e são figuras afáveis que fazem uma boa equipa com Marcelo -- e isso é bom de ver. Gosto que à frente dos destinos do meu país estejam pessoas de bem, capazes de se entenderem uns com os outros e de estabelecerem pontes com outros, mesmo que de diferentes quadrantes políticos.
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Fotografei as rochas na praia do Carvalhal e as árvores in heaven.
Manuel Freire canta a Pedra Filosofal, poema de António Gedeão
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Quanto ao meu dia e ao menu do meu almoço, caso tenham curiosidade nisso, é só descer.
É à discrição.
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