Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, outubro 06, 2016

Marcelo e a nossa República


Agora que já ultrapassei o capítulo gastronómico, volto-me então para o rescaldo republicano do dia.

Se me permitem, vamos na companhia de rochas, árvores e sonhos. Acho que há alturas em que não nos devemos agarrar a ideias preconcebidas ou sectárias. As rochas ou as árvores têm a nobreza da quase intemporalidade. E os sonhos também são independentes de nós.



Começo por lembrar (ou esclarecer, no caso de isto estar a ser lido por quem não me lia na altura) que não votei em Marcelo Rebelo de Sousa. Parecia-me daquelas pessoas que se viciam em ser simpáticas e que, fruto de uma vida em contacto directo com os media, sabia exactamente o que dizer no momento certo para aumentar as audiências. Parecia-me também volúvel ou calculista ou qualquer coisa que não tinha muito a ver com Estado. Reconhecendo-o incomparavelmente melhor do que Cavaco (coisa que não é difícil) dizia que, se ele ganhasse as eleições, não ficaria arreliada pois, apesar de tudo, admitia que sendo ele uma pessoa civilizada, culta, inteligente e simpática não seria por ser Presidente da República que daí viria mal ao mundo.


E Marcelo ganhou as eleições. E a sua hiperactividade e o seu genuíno à-vontade de imediato foram postos ao serviço da função que começou a desempenhar. As visitas, as presenças, os comentários, os apoios -- tudo começou a girar à vista dos nossos olhos a um ritmo frenético. Alguém ganha um prémio e aí está o Marcelo a dar-lhe os parabéns, há uma feira a ser inaugurada e aí está ele, um novo museu, e lá está ele, as pessoas estão na fila e lá lhes aparece ele, há um fogo e lá está ele, há feridos e aí está ele no hospital, ganham medalhas e lá está ele a condecorar, cai lá um decreto e é atar e pôr ao fumeiro, despachado, há discurso para fazer, num foguete já está lido, a ronda feita, a bandeira içada e, antes da hora, tudo pronto para outra. Está junto a uns semáforos nos Estados Unidos, depois a discursar, aparece-nos a ser entrevistado na rua por um puto para uma estação francesa, a rir com Barack e Michelle Obama, e, para espanto geral, passado um bocado, já está outra vez por cá, a dar beijinhos a cidadãs extasiadas, abraços a velhinhos, sorrisos a criancinhas. Imparável. 


Volta e meia a traquinice é mais forte que ele e deixa sair alguma que sabe de antemão que vai deixar os jornalistas e comentadeiros num frenesim, tentando adivinhar o significado, querendo antecipar fricções com o governo. Mas ainda a coisa anda a rolar e já aí está ele a baralhar e dar de novo, tirando o tapete a muito argumentadeiro, deixando-os a opinar no ar.

Este é o Marcelo. O Presidente da República que os portugueses elegeram para suceder ao empata, sorumbático, antipático, sonso, falso, desleal Cavaco.

E, aqui chegados, o que se me oferece dizer é que, em minha opinião e até ver, Marcelo está a ser um bom Presidente da República. Desconcertante, imprevisível, criativo -- mas com atitudes positivas, acertadas.

Marcelo descongestionou o País que andava atordoado e amedrontado depois de quatro anos de um governo insultuoso, incompetente, um governo capitaneado por uma criatura mentirosa, má, ressabiada, um governo que empobreceu as famílias e as empresas, que atacou os seus concidadãos, que empurrou para fora do país parte de uma geração, que tentou colocar novos contra velhos.

Na sequência das Legislativas, Marcelo soube estar acima de partidos e soube interpretar a vontade de quem votou. E tem-se mantido como um esteio. Defende o que acha que são os interesses do País e, desse forma, dentro e fora de fronteiras, tem sabido mostrar que defende os portugueses acima de tudo. 


Pode ser que um dia venha a agir de outra forma. Pode ser que, um dia, eu ache que ele se precipitou, que foi leviano, que cedeu ao gosto pela intriga política, que prejudicou o país  -- e aí talvez diga dele uma coisa diferente do que digo agora.

Mas hoje o que digo é isto (e repito-me): estou contente que Marcelo esteja à frente da República Portuguesa. Posso, aqui e ali, torcer o nariz. Mas ninguém é perfeito. Os que acham que podem ser perfeitos acabam por se portar como múmias fora de prazo.

O discurso que, neste 5 de Outubro, Marcelo fez na Praça do Município, as palavras que proferiu nas condecorações da tarde, a dignidade e o orgulho com que parece querer contagiar os portuguses que tão insultados e feridos foram até há menos de um ano, as pessoas que tem condecorado, os gestos amigos que tem para com Jorge Sampaio, o abraço sentido (e a festa na cabeça) a Mário Soares na homenagem a Maria Barroso, a solidariedade quase fraternal e militante a favor da escolha de Guterres para a ONU, a atenção que tem para com quem dele se abeira, o ter recebido pessoalmente no Palácio de Belém, logo que tomou posse, os anónimos cidadãos que o visitaram, o tirar fotografias com qualquer pessoa, a lealdade para com o Governo, o suporte que tem dado na inversão da paranóia catastrofista do discurso pafiano e mediático, etc, etc, etc -- tudo isso são exemplos, escritos por uma ordem quase aleatória, do que considero uma actuação feliz de Marcelo enquanto Presidente.


E mais: Marcelo tem sabido aproximar a Presidência dos portugueses e acho que, dessa forma, está a saber pôr ao serviço do povo os ideais republicanos.

Que tenha saúde, sorte e que mantenha a cabeça no lugar e a alegria no exercício da função é o que lhe desejo.

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Outros apontamentos sobre o 5 de Outubro visto através da televisão


Quanto ao Láparo e demais trastes que continuam a achar que somos parvos nada vou dizer. Ainda por aí andam, arrastando a sombra do que fizeram. Deveriam ter-se afastado da política porque o nefasto tempo deles já passou. Por cada dia a mais em que por aí andam mais toda a gente constata as nódoas que foram e são.

Sobre o Fernando Medina direi que é um político sereno, moderno, com um raciocínio muito bem estruturado e com uma visão estratégica -- pelo que é óbvio que tem um futuro promissor pela frente.

Quanto à provável eleição de Guterres para a ONU (falo assim porque sou muito cautelosa: só gosto de deitar foguetes na hora certa): alegra-me. Tendo pela frente desafios avassaladores para os quais vai precisar de toda a sua inteligência, experiência e vocação para o diálogo, acredito que vai enfrentá-los com habilidade e coragem. E, num registo mais pessoal, acho que já era tempo de termos um português de bem à frente de uma instituição internacional já que o último, um cherne de pacotilha com vocação para concièrge, só nos envergonhou.


E mais?

Ah sim: aquela toilette de António Costa à tarde esteve à altura dos seus bons momentos estilosos: já nem falo no casaco que parece que tem sempre uns centímetros a menos na cintura; mas aquela camisa azul oxford com uma gravata verdinha em cima estava mesmo qualquer coisa...

Quase tão bem estava o Ferro Rodrigues: sempre com aquele seu ar desmanchado, pendurado, um cabelo que parece estar a pedir tesoura há meses.... e uma gravata em verde quase alface. Mesmo a condizer com a ocasião.

Mas, enfim, coisas sem qualquer importância que apenas humanizam as instituições. Quer Ferro Rodrigues quer António Costa são pessoas capazes, que têm mostado amar e defender o seu País e são figuras afáveis que fazem uma boa equipa com Marcelo -- e isso é bom de ver. Gosto que à frente dos destinos do meu país estejam pessoas de bem, capazes de se entenderem uns com os outros e de estabelecerem pontes com outros, mesmo que de diferentes quadrantes políticos.



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Fotografei as rochas na praia do Carvalhal e as árvores in heaven. 
Manuel Freire canta a Pedra Filosofal, poema de António Gedeão

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Quanto ao meu dia e ao menu do meu almoço, caso tenham curiosidade nisso, é só descer. 
É à discrição.

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quinta-feira, novembro 27, 2014

Comunicado de José Sócrates a partir da prisão de Évora, "há cinco dias fora do mundo". O animal feroz que enjaularam e que dá pelo nome de Preso 44 está a acordar e, pronto para a luta, diz que "este processo só agora começou."


No post abaixo já falei das notícias que dão conta da fortuna que a família de José Sócrates tinha numa conta numa offshore e, supostamente, à pala da qual estão sob investigação no âmbito do Processo Monte Branco. Fiz as contas e retirei as minhas conclusões. (Os vasos comunicantes entre a investigação e o jornalismo linha branca continuam em grande estilo mas, enfim, nem foi sobre isso que falei).

Mais abaixo ainda, apresentei as minhas explicações aos Leitores que têm deixado comentários e que eu, mal agradecida, tenho deitado fora. E, em contrapartida, deixo-lhes um desafio.

Mas tudo isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.


Desde que cheguei ao computador que estou com vontade de espairecer e tinha aqui uma na manga que era uma gracinha. 

Mas pus-me a ver os comentários, a varrer alguns, a proceder à devida desinfestação e o tempo foi passando.


Quando agora, finalmente, vinha fazer o gosto ao dedo, dou uma espreitadela pelas notícias e toda eu sorri. Ah menino lindo!


Mas, porque não há machado que corte a raiz ao pensamento, vamos com música, por favor.




E que vi eu?

Pois bem: um comunicado de José Sócrates ditado ao bacano do seu advogado, o Dr. João Araújo enviado à TSF e ao Público.




Li as palavras e o que me ocorreu foi que um lobo saído da noite uivou e uivou bem alto.

O que eu gostei de ler o que ele escreveu... E, também, o que eu gostei que ele o tivesse escrito!

Há quem os prefira mansarrões, cabeça baixa, sempre batendo com a mão no peito, sempre dizendo ámen, nunca levantando cabelo, sempre nas tábuas. Eu não. Eu gosto de gente que não se acobarda, que vai à luta, que se levanta, ergue a cabeça, olha sem medo, marra de frente. Assim, acho eu, são os líderes, os que têm carisma, os que sabem o que querem e não se deixam ficar pelo caminho.

Transcrevo pois, embora as suas inesperadas palavras estejam por todo o lado, não quero deixar de as ter aqui no Um Jeito Manso - embora preferisse que estivessem escritas sem respeitar o malfadado Acordo Ortográfico (mas, enfim, isso agora não interessa).



«Há cinco dias "fora do mundo", tomo agora consciência de que, como é habitual, as imputações e as "circunstâncias" devidamente selecionadas contra mim pela acusação ocupam os jornais e as televisões. Essas "fugas" de informação são crime. Contra a Justiça, é certo; mas também contra mim.

Não espero que os jornais, a quem elas aproveitam e ocupam, denunciem o crime e o quanto ele põe em causa os ditames da lealdade processual e os princípios do processo justo.

Por isso, será em legítima defesa que irei, conforme for entendendo, desmentir as falsidades lançadas sobre mim e responsabilizar os que as engendraram.


A minha detenção para interrogatório foi um abuso e o espetáculo montado em torno dela uma infâmia; as imputações que me são dirigidas são absurdas, injustas e infundamentadas; a decisão de me colocar em prisão preventiva é injustificada e constitui uma humilhação gratuita.



Aqui está toda uma lição de vida: aqui está o verdadeiro poder - de prender e de libertar. Mas, em contrapartida, não raro a prepotência atraiçoa o prepotente.


Defender-me-ei com as armas do Estado de Direito - são as únicas em que acredito. Este é um caso da Justiça e é com a Justiça Democrática que será resolvido.

Não tenho dúvidas que este caso tem também contornos políticos e sensibilizam-me as manifestações de solidariedade de tantos camaradas e amigos. Mas quero o que for político à margem deste debate. Este processo é comigo e só comigo. Qualquer envolvimento do Partido Socialista só me prejudicaria, prejudicaria o Partido e prejudicaria a Democracia.

Este processo só agora começou.

Évora, 26 de Novembro de 2014

José Sócrates»

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Poderia eu agora pôr-me a tecer comentários às palavras de José Sócrates mas, dado que já passa e bem das 2 e meia da manhã, limito-me a partilhar convosco as palavras de Proença de Carvalho no programa Pares da República na TSF sobre a Detenção de José Sócrates. 


Peço que ouçam. Peço que ouçam a comparação que ele faz com a Justiça antes do 25 de Abril, achando que regredimos. Proença de Carvalho não é socialista, não é soarista, não é um perigoso esquerdista, não é uma carpideira ou uma viúva de Sócrates. Muitas vezes me tenho referido a ele como uma eminência parda do regime mas, senhores, como gostei de o ouvir. Maria de Lurdes Rodrigues também fala, e fala muito bem mas, enfim, para os meus leitores mais cépticos pode não ser tão interessante, podem achar que não é isenta, que fala assim porque também passou por uma do além e porque foi ministra dele. Mas, então, ouçam, por favor, as palavras de Proença de Carvalho. Quem não tiver muito tempo, depois das suas palavras que vão mais ou menos até ao minuto 10 e picos (que são imperdíveis!), salte, por favor, ali para o minuto 18 e picos e deixe-se ficar a ouvir.

Carreguem aqui por favor e ouçam com atenção. As nossas opiniões são formadas com melhor conhecimento de causa quando ouvimos a opinião de quem sabe do que fala.


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A música lá em cima é Manuel Freire interpretando a Livre com letra de Carlos de Oliveira e música dele próprio. É acompanhado pelo mestre Fernando Alvim.

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Relembro: descendo há mais dois posts e eu tenho agora tanto sono que nem vos vou maçar a dizer sobre o que são.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta-feira.



quinta-feira, abril 26, 2012

Onde é que eu estava no dia 25 de Abril...? Em relação a 1974, logo conto. Em relação a 2012, conto-vos aqui.


Música, por favor


Pedra filosofal (letra de António Gedeão), interpretação de Manuel Freire

*

Comecei o dia com uma caminhada matinal. Frio, com um vento inóspito, a acinzentar-se este dia de 25 de Abril.

No local onde poucas horas antes estava um palco iluminado, de onde saíam os sons que animavam uma Praça cheia de gente a cantar e dançar, estava agora apenas uma grande estrutura metálica nua onde quatro homens pareciam pequenas figuras animadas que se aproximavam perigosamente do céu.




Mais abaixo, os festejos municipais: freguesias em luta contra a extinção, gente com cravos, balões, bombeiros, marchas pela banda filarmónica, gente com cravos. Muitos cravos. Cravos nas mãos, cravos nas lapelas, cravos a enfeitar carrinhos de bebés, cravos nas coleiras dos cães.




Depois o caminho levou-me inevitavelmente até à beira do rio. Aqui de novo gente a trabalhar. Agora aparentemente tapando fendas nos edifícios em risco de derrocada (pensos rápidos em corpos fracturados...?),  e eu só pensei que tomara que não vão descaracterizar o meu belo palácio a céu aberto.




Numa precária ponte de ferro, estreita e enferrujada, um pescador, indiferente aos festejos ou às efervescências partidárias, esperava tranquilamente o peixe, suspenso num ambiente hoje de beleza discreta e suave.




Um pouco mais à frente, um homem solitário, com um ar de serena sabedoria, enfrentava o horizonte meditando longamente, indiferente à fria ventania que fazia voar o seu sobretudo.




Mas o 25 de Abril é dia de alegria e convívio e eis que, para escapar à chuva, ao frio, ao vento, nos deslocámos em bando até ao CAM, um lugar muito nosso, repleto de memórias e vivências. 

Curiosamente, hoje o CAM (Centro de Arte Moderna da Gulbenkian) estava quase deserto. Um privilégio quase privado, uma maravilha. Um imenso espaço para as crianças poderem brincar, correr à vontade.

E se você, Leitor, foi um dos poucos que hoje, por acaso, almoçou no restaurante do CAM e viu umas mesas juntas, perto da grande parede de vidro encostada ao frondoso jardim, com um grupo muito divertido, com crianças irrequietas, brincalhonas, então saiba que eu estava lá.

Há tão poucos dias tinha lá estado (quando fui à exposição de Fernando Pessoa) e tinha visitado uma das temporárias, uma de nome A kills B. Nesse dia, entrei, espreitei e saí sem perceber qual a ideia. Pareceu-me uma bizarria sem história. E nem mais me lembrei daquilo.




Pois hoje, meus Amigos, pude constatar, uma vez mais, que as coisas são aquilo que a gente faz com elas. 

O que ali se passou hoje não poderei dar-vos conta por exceder o que se pode transmitir com palavras rápidas. Mostrar-vos-ei, contudo, algumas imagens para que fiquem com uma ideia da brincadeira que ali se passou, com o que as crianças deliraram, descobrindo cada recanto, subindo, descendo, olhando, perguntando, rindo, brincando. Uma festa, meus Amigos, uma festa!

A exposição em si é o que poderão ver - mas a festa que as crianças fizeram a partir dela ou dentro dela fizeram-me pensar que o autor gostaria, certamente, de saber a felicidade extraordinária que proporcionou a quem lá brincou e a quem os viu assim, livres, inocentes, descobridores.




Uma coisa que não identifico mas que parece um motor fez as delícias do mais crescidinho que, felizmente, contou com as explicações sempre pacientes do tio que ele adora.

Mal chegou depois a casa, tentou simular com os carros e com outros brinquedos o dito motor que o tinha deixado maravilhado e, falando sozinho, explicava ele o que era, repetindo as explicações técnicas que tinha ouvido ao tio.




A princezinha, de início reticente, depois intrigada, por fim, toda decidida, subia e descia os degraus, andava de compartimento em compartimento, abrindo e fechando as portas, risonha, radiante. Não parava.



E eu, que queria tirar uma fotografia de grupo tive que esperar, esperar, porque segurá-los era tarefa impossível. Tiveram que ser agarrados e levados ao colo. Aqui a princesinha, bem encostadinha ao irmãozinho que, não tarda, está aí para ajudar à festa.

(Quando suo as estopinhas para tirar uma fotografia em que estejam todos e é uma eternidade até que se juntem e não comecem a desistir os que, em primeiro lugar, alinharam - e, em que depois de tanto esforço, lá se juntam, mas fica sempre um a fugir, outro a olhar para trás, outro a esgueirar-se colo abaixo e os mais velhos todos torcidos a ver se evitam a fuga dos pequenos - interrogo-me sobre qual o estratagema que as famílias reais e as famílias surreais (do jetset, por exemplo) usam para conseguir  aquelas fotografias em que aparecem todos muito arranjadinhos, muito sossegados, todos a olharem para a câmara. Será que as crianças estão sedadas?)




Se o Leitor vir a primeira fotografia desta série relativa à exposição, verificará que existe um guarda-fatos à esquerda. Esse roupeiro tem uma abertura nas costas e esse buraco dá para o estrado que pode ser visto nas restantes fotografias.

Pois até o bebé, que só há pouco começou a andar, andava doido com aquilo, era vê-lo a enfiar-se por ali adentro, sempre em riscos de cair do buraco abaixo. Não parou, irrequieto e feliz, e a pobre da mãe (ainda com as calças molhadas depois de um passeio no parque, junto de pombos e patos, que acabou mais cedo dada a intensidade da chuva que, entretanto, tinha começado a cair) não sossegou um minuto.

Moral da história?

Bem, já a formulei: qualquer coisa, por estranha que pareça, por desnecessária que pareça, pode tornar-se uma festa. Bastará que a imaginação, o sincero desejo de fruição, a disponibilidade para a alegria, sejam postas em acção.

*

Ao cair da noite, já em casa, preenchemos a declaração do IRS e isso só não me estragou o dia, que tinha sido tão bom, dada a minha resiliência. Roubo, roubo, roubo. Mas é feio falar de dinheiro pelo que vou passar à frente. E passo à frente para me despedir.

*

Terei muito gosto em receber-vos lá na minha outra casa, junto ao rio. No Ginjal e Lisboa, hoje as minhas palavras são quase uma prece em torno de um poema de José Tolentino Mendonça. A música, belíssima, é Bellini.

*

E, meus Caros, espero que o vosso 25 de Abril também tenha sido bom e recordo-vos que amanhã não é segunda feira. Parece mas não é: amanhã, meus Caros, já é quinta feira - e que seja uma bela quinta feira é o que vos desejo.