Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, junho 19, 2012

A minha horrível transição do liceu para a faculdade


Hoje uma música diferente do registo habitual
(mas recomendo que baixem o volume...)

Peter Gabriel - Don't give up


Eu vinha de um ambiente de festas, tardes dançantes, namoro no horário das aulas, fora do horário, passeios à beira rio, tardes na esplanada, idas ao cinema, idas em grupo à praia. O meu namorado era todo de esquerda, com intervenções públicas de esquerda, uma pessoa ligada às artes, amigo dos artistas mais conhecidos da arte de esquerda (e, na altura, a arte era quase toda de esquerda). Eu não o acompanhava nessas andanças nem era tão engagée pois, na altura, tinha, sobretudo um sentido lúdico da vida. Mas partilhava a preparação das suas intervenções, e tudo aquilo, e toda a minha vida, na altura, era uma festa, uma fantástica e permanente festa.




Já, em tempos, aqui o referi.

Na altura não havia tanta informação como há hoje, nem sei se havia testes vocacionais, nem eu tinha nenhuma vocação bem definida, nem procurei ajuda para me ajudar a decidir. Lembro-me de ter ido com a minha mãe falar com dois amigos dela, uma que era professora, directora de um estabelecimento de ensino e com outro que, na altura era presidente da Câmara (ou que viria a ser, não me lembro se a conversa foi antes ou depois dele ser Presidente da Câmara). Não adiantaram muito, mas ele disse que eu era boa aluna a matemática, que havia um curso versátil, que talvez fosse bom para mim, que facilmente podia ir trabalhar para um banco, uma seguradora, uma empresa. Achei que talvez, mas sem grande convicção.

Na altura o que eu pensava era que gostaria de ser psiquiatra mas, para isso, tinha que tirar medicina o que estava fora de questão já que as doenças e, sobretudo, a morte me incomodavam, para não dizer que me apavoravam. Depois pensei em psicologia mas o curso não tinha, na altura, grande reconhecimento oficial.

Hoje penso que gostaria de ter feito arquitectura mas, na altura, isso não me ocorreu. 

Os cursos que eu achava que davam, geralmente, apenas para leccionar tais como biologia, química, pareciam-me restritivos pois, tinha a ideia de que, quando acabasse o curso, não me quereria ver limitada. E assim fui excluindo. Até que fiquei naquele que fiz, o que o outro tinha sugerido. 




Quando cheguei à faculdade tive um enorme choque. Choque. Choque a sério. Apenas por ser pessoa de não desistir (e porque, se desistisse, não sabia qual a alternativa) não me vim embora.

Foi horrível. Toda aquela gente estava ali apenas para estudar. Os chamados marrões com quem eu nunca me tinha dado no liceu parece que estavam ali todos. Escreviam apontamentos compulsivamente, ficavam numa excitação a colocar dúvidas e mais dúvidas, no fim da aula corriam para junto do professor, para pedir ajuda para coisas do arco da velha, faziam trabalhos em casa, nos intervalos tiravam dúvidas uns com os outros e, no fim, iam todos para casa. Uma coisa inimaginável.

O meu namorado andava noutra faculdade, noutro extremo da cidade, e tinha as suas actividades culturais, e, algum tempo depois, começou a dar aulas.

E eu via-me, de repente, sem os meus amigos que se tinham dispersado por outras faculdades, sem a presença assídua do meu namorado e no meio de gente baça, sisuda, marrona, chata.




Em relação à matéria, eu achava que não percebia nada daquilo, nunca tive paciência para tirar apontamentos, nem conseguia ter uma única dúvida, achava tudo aquilo uma maçadoria. Claro que estudava mas não muito, tanto mais que me começava a convencer que estava a cometer um erro tremendo. Nem aqueles assuntos, nem aqueles estranhos professores, nem aqueles colegas chatos e limitados me pareciam talhados para mim.

Tentava retomar um pouco do meu estilo de vida anterior, queria arranjar companhia para passear, ir ao cinema, ao teatro, ir até à Linha, à praia mas ninguém, ninguém estava nem aí. 

Eu estava a viver lá durante a semana e ao fim de semana ia para casa. Tanto que eu tinha sonhado com aquela liberdade e afinal não encontrava ninguém que a quisesse partilhar comigo.

Um dia, encontrei-me à tarde com a minha mãe e, pela primeira vez, ela viu-me triste, infeliz, com vontade de desistir. Eu via a minha mãe preocupada por me ver assim e tentei manter-me sem chorar mas, mal ela virou costas para ir para casa, eu desatei a chorar. Nunca antes me tinha acontecido nada assim.

Foram uns meses de desenquadramento e aflição, sem saber como lidar com aquele tão grande desapontamento. À medida que o semestre ia avançando, eu ia confirmando que a matéria parecia ser, toda ela, complexa, hermética, inútil, estupidamente incompreensível.





Nunca fui pessoa de estudar muito; nunca, em toda a minha vida, fiz uma directa para estudar. O que percebia à primeira, entrava, ficava. O que tinha que ser lido, relido, treslido e fixado era uma desgraça, não tinha paciência, sempre odiei gastar muito tempo com a mesma coisa, a menos que o faça por prazer. Por isso nunca fui aluna de jeito a história, a geografia, a botânica, a mineralogia. Em contrapartida, a matemática, física, filosofia, português, era muito boa aluna.

Agora ali era matéria a jorros, a jorros mesmo, matéria que era chinês, rodeada de gente que nem queria saber de nada que não apenas estudar e eu não sabia viver assim.

Eu tinha entrado para a faculdade sem ter feito um único exame, com excepção do exame da 4ª classe e da admissão ao liceu que eram obrigatórios. A partir daí dispensei sempre. Não sabia o que era fazer um exame nem escrito, muito menos oral.





Quando começaram as frequências eu pensei que era o fim. Salas enormes cheias de gente, tudo a fazer aquelas provas horrorosas. Pensei que ia chumbar. Pensei que ia passar das dispensas de exame às reprovações.

No entanto, para minha grande surpresa, grande parte daqueles alunos que andavam sempre de volta dos professores e que não faziam mais nada senão estudar e bajular os professores, chumbou e eu, para minha ainda maior surpresa, embora não muito à larga em duas das disciplinas, lá passei e até dispensando da oral a todas. A todas menos a uma. É que, para enorme meu espanto, numa das pautas que estava cheia de Reprovado escritas a encarnado de alto a baixo, vi, à frente do meu nome, um 19 e uma data para prova oral. Pensei que era engano, que se calhar era 9. Fui à secretaria. Informaram-me que não, que era 19 e que tinha que ir defender a nota. Pensei que o professor me iria fazer umas perguntas, se calhar para perceber se eu tinha copiado. Como praticamente não me dava com ninguém, não me informei.





E assim, uns dias depois, sem saber bem ao que ia, sozinha, entrei numa sala cheia de gente, com um júri numa mesa ao fundo e uma cadeira em frente. Estavam à minha espera. Eu tinha andado perdida lá dentro do edifício, sem dar com aquela sala, era a sala nobre. Quando vi aquela gente toda, senti um calafrio. Eu não tinha estudado, ainda não me tinha habituado a estudar, ainda tinha os meus hábitos de festa e boa vida dos tempos de liceu. Lembro-me que, à medida que atravessava a sala cheia de gente e me ia sentar em frente da mesa com três professores, pensava ' Estou feita... Mas o que é isto, senhores...?!?! E agora, como é que saio desta? Bolas para isto...!'.

A partir daí acho que entrei em piloto automático, não faço ideia do que me perguntaram. Mantive o 19 e sei que recebi palmas. Foi esta a minha primeira prova oral. Sozinha. Saí dali sem perceber bem o que me tinha acontecido e sem que ninguém meu conhecido tivesse assistido para me explicar que experiência extra-sensorial tinha sido aquela. Fui sozinha, rua fora; e nada daquilo me soube a coisa alguma.




Mas, por coincidência, a partir daí a minha vida levou uma grande volta. O curso passou para segundo plano, a vida voltou a estar em primeiríssimo lugar. Voltei a ser eu. Até hoje.


*
As fotografias são de Lois Greenfield.

Já agora, e não querendo monopolizar a vossa atenção, gostaria ainda de vos convidar a visitar-me lá no meu Ginjal e Lisboa. A música hoje é linda, Shostakovich. E as minhas palavras emergem junto a um rochedo ao encontro de um belo poema do novíssimo livro de Armando Silva Carvalho, 'De amore'.


E tenham, meus Caros leitores, uma terça feira muito boa, um dia muito feliz!

segunda-feira, junho 18, 2012

Uma menina bailarina conhece a sua primeira humilhação e aprende o sentido da misericórdia e da generosidade


Música, por favor


Pamela Lucciarini com a Orquestra do Divino Sospiro interpreta Antigono (1755) de Antonio Mazzoni,
ária escrita propositadamente para Caffarelli




Bailarinas de Degas


Todos os anos havia a festa da escola. Era um acontecimento que era precedido por meses de trabalho. Se era só bailado não garanto. Mas era no bailado que eu participava e é só isso que recordo. Tenho ideia que havia figurantes, acontecimentos paralelos em fundo ao longo dos cenários, o que permitia acomodar todos os meninos, mesmo os que não dançavam, mas disso já não estou certa.

Durante meses, os treinos, as aulas de dança, decorriam na escola. Ao fundo da grande sala, todo o espaço  estava liberto para permitir os exercícios e, depois, as mais diversas coreografias. A professora de dança, também tocava piano e muitas vezes era ela que tocava enquanto a ajudante verificava a nossa precisão e elegância de gestos. Mas, a maior parte do tempo, era com música gravada ou com discos que dançávamos. Era ríspida, perfeccionista, zangava-se facilmente essa professora. Para alguns dos meninos, os que não gostavam de dançar, as aulas acabavam por ser um castigo. Mas para mim era um prazer.



Bailarinas de Edgar Degas


Depois, depois de muitas e muitas horas de treinos, quando já estávamos bem encaminhados, começávamos a ir de tarde para a grande sala em que nos iríamos exibir. Íamos em carrinhas, logo a seguir ao almoço. Uma festa. Lembro que no inverno íamos apertados, encasacados e, quando saíamos dos ensaios, já era de noite, talvez porque os dias fossem pequenos.

Ali chegados, subíamos para as salas por trás do palco e era uma tremenda agitação, uma alegria, uma excitação. Queríamos ir logo para o palco e espreitávamos atrás da grande cortina de veludo, ansiosos.

Umas semanas antes acontecia outro momento alto: começavam a chegar os fatos. 



Bailarinas de Edgar Degas


Fatos lindos, tules, sedas, fantasias maravilhosas e coloridas. Não sei de onde vinha tudo aquilo mas era uma emoção extraordinária que me fazia sentir um frio gostoso no estômago, borboletas azuis na alma, um nervosismo que começava a desenhar-se. A professora e a ajudante começavam a atribuir os fatinhos a cada menino e nós experimentávamos e ficava sempre tudo bem. Fatos lindos.

Podíamos levá-los para casa para algum acerto e para irmos ao fotógrafo imortalizar o personagem. Era um orgulho.

No entanto, da primeira festa lembro sobretudo a humilhação, a primeira humilhação. Creio que, felizmente, a única.

Era a festa das estações. Primavera, Verão, Outono, Inverno. Entravam os meninos da primavera, dançavam, iam-se embora, entravam os do verão e assim sucessivamente.



Bailarinas de Edgar Degas


Eu entrava logo na primavera, era uma flor, ia vestida de violeta. Vejo-me ainda na fotografia. Estou sentada num banco comprido, forrado de seda. Tenho os pés cruzados e as mãos apoiadas de lado, numa posição elegante de ballet. A saia, curtinha, tinha por baixo tule lilás, a armar, mas o tule era visível, parecia uma espuma violeta, e, por cima, uns gomos de seda verde musgo e umas pétalas de seda em lilás que arqueavam para fora. A corola da violeta. A parte de cima era cingida ao corpo em veludo no mesmo tom de lilás, debruado a seda, no mesmo verde musgo. Uma pequena florzinha com quatro anos. Os cabelos compridos ao longo dos ombros, levemente ondulados, claros. Por fora compenetrada, por dentro muito feliz.

No dia da festa toda a gente andava num grande nervosismo, nós não parávamos sossegados nem calados e a professora e a ajudante e todas as outras empregadas da escola tentavam garantir que estávamos bem arranjados, prontos, a postos atrás da cortina. A professora, nesse dia, andava ainda mais encarnada, enervada, numa tensão terrível apenas atenuada, junto de nós, pela boa disposição da ajudante.

Depois de muito esperarmos, finalmente, começou a música, ouvimos bater palmas.

Entrámos, éramos as florzinhas da primavera. Dançámos, dançámos e, depois, a coreografia pressupunha que as florzinhas se deitassem no chão e que ali ficássemos enquanto a música mudava e começavam a entrar as florzinhas de verão, os frutos, as abelhas. Nessa altura, levantar-nos-íamos e dançando, retirar-nos-íamos e começaria a coreografia dos meninos do verão.



Bailarina de Edgar Degas


Cada menino ficava deitado numa posição pré determinada e eu ainda me lembro da minha. De barriga para baixo, com um braço dobrado para apoiar a cabeça, uma perna flectida, olhando para a frente. 

E, nessa altura, pela primeira vez, reparo que a sala está cheia, imensa gente. Fico admirada, tanta gente, tanta. Mas a luz incidia nos artistas do palco, não na assistência. Tento descobrir os meus pais. Mas não consigo. Olho, olho e nada. Depois resolvo fazer uma pesquisa sistemática, fila a fila, cadeira a cadeira. Mas com tão pouca luz, mal se vê. Começo a ficar um bocado aflita, não os vejo.



Fotografia de Helmut Newton


Só dou por mim quando toda a gente bate palmas e alguém me vem levantar. Em vez de sair na altura certa, tinha ficado ali deitada, o tempo todo, a olhar para a assistência. Não dei pela passagem do verão, do outono, do inverno. Nada. Sempre ali humilhantemente estendida no meio dos outros que dançavam, sem dar por nada.

Quando saímos para os bastidores, a professora perguntou-me: 'Então, deixaste-te dormir ou o que é que te aconteceu?' e eu nem consegui ânimo para explicar. Senti que não havia desculpa para tamanha falta de profissionalismo. Tantos meses de preparação para chegar ao grande dia e acontecer uma coisa destas. E, no fim da festa, quando finalmente, os meus pais me resgataram, já eu ia cheia de vergonha, também me perguntaram: 'Então mas o que foi que te aconteceu, entravam e saíam os outros e tu ali, deitada no chão...?'. Senti, nessa altura uma culpa horrível, uma vontade de não encarar ninguém.

Lembro-me que na segunda feira seguinte fui cheia de vergonha, com medo que gozassem comigo, tinha vontade de não mais voltar à escola. Era grande demais a humilhação.

Mas não, ninguém me disse nada, nem os meninos, nem a ríspida professora, nem a ajudante brincalhona. Senti que estavam a ser misericordiosos, que me estavam a poupar. E nesse dia, à medida que as horas passavam e que ninguém gozava comigo, a minha alegria ia aumentado. Acho que foi a primeira vez que tive a noção tão explícita da imensa generosidade dos outros. E, se sempre fui uma criança alegre e despreocupada, acho que foi a partir daí que passei a sentir-me sempre agradecida pelo que tenho, pela amizade dos outros, pela vida.

Nos anos seguintes a festa correu sempre bem, pelo menos do que me lembro. 



Fotografia de Helmut Newton


Lembro-me especialmente da última vez que participei. Já andava no liceu, no 1º ano (actual 5º) mas a professora pediu aos meus pais que autorizassem que eu, apesar de já não andar lá, ainda participasse. Foi uma despedida em beleza. Eu era a abelha rainha. Adorei.

Num tom dourado, tule, sobre tule, corpete de seda, eu dançava, dançava. Havia os zangãos, as obreiras e todos construíam um bailado harmonioso, coordenado. Mas eu  era abelha rainha. Tinha o papel mais difícil, a coreografia era complicada e muito longa. Mas a música era linda, o meu fato era lindo e o meu corpo era flexível, ágil, elástico, extensível. As minhas pernas elevavam-se até ao impensável, e eu elevava-me e, ao saltar, sentia que voava, e rodopiava como se não fosse eu, eu fora de mim, dançando, tomada pela magia e encanto da música. Eu, menina, cheia de graça.



Fotografia de Lois Greenfeild


Não sou saudosista, nunca digo 'no meu tempo' porque acho que 'o meu tempo' é aquele em que vivo, o tempo presente, talvez até o tempo futuro. Ao longo de toda a minha vida tenho tido a sorte de ter momentos bons, mas nenhum melhor que os que se seguiram e, certamente, não melhores do que os que estão para vir. Não obstante, é sempre com carinho, que volto aos dias cheios de encanto da minha infância.

*
Espero não vos ter maçado muito (além disso, uma vez mais, escrevi demais; por mais que parta com a intenção de ser sucinta, começo a escrever e distraio-me).

*

Quem aqui costuma visitar-me conhece a minha admiração por Sylvie Guillem. Tivesse eu sido bailarina, era como ela que eu gostaria de ter sido. Aqui vos deixo mais uma interpretação desta bailarina vibrante, bem humorada, de longas pernas e imensa elegância.



Sylvie Guillem interpreta Manon


*
Hoje, no meu Ginjal e Lisboa, a love affair abro a semana dedicada a Dmitri Shostakovich. É a grande música. 
E as minhas palavras olham-se ao espelho em volta de um poema de um Poeta que muito aprecio, Luís Filipe Castro Mendes. 
Gostaria de vos ter por lá.

*
E tenham, meus Caros Leitores, uma semana que valha a pena, a começar já por esta segunda feira.

Apesar de não vos conhecer, acreditem que vos desejo que sejam felizes.

sábado, fevereiro 04, 2012

I'm a bird girl. Recebam estas minhas palavras que voaram até vós.


Música, por favor.

I'm a bird girl - Antony and the Johnsons

Chego com um vestido leve em fúcsia envolta numa longa écharpe preta mas não é para casa que me dirijo. Saturada de festas de sociedade, de palavras fátuas e sorrisos indestrutíveis, penso que só a água me poderá limpar de tanta vacuidade. 

Rente à água, respiro. Fecho os olhos. Respiro, reabro-os, hesito. Aspiro longamente, fecho os olhos, hesito. Pouso a écharpe na beira, descalço-me, uma última hesitação, uma última respiração. 

E então, lentamente, mergulho. Deixo-me deslizar devagar na vertical. Fico submersa. Sinto os cabelos a flutuarem e, depois, a descerem comigo. 

Woman under water by Annie Leibovitz

Deixo-me ficar. Limpa, livre. Abro os olhos. A água é azul e o meu corpo abandona-se. De braços abertos, soltos na água, quase como se estivesse reclinada, descanso, tão bom, que sossego, nem um sorriso forçado, nem um beijo forjado. Apenas eu no silêncio livre da água. 

Depois sinto que o meu corpo quer flutuar. Deixo que a água me traga à superfície, lentamente. Abro os olhos. Um vasto céu azul inunda-me o olhar. Está frio e eu flutuo na água fria, mulher livre, nadando na água azul.

A seguir saio, a água escorre pelo meu corpo. Respiro fundo, olho o céu. Ainda há um resto de sol mas está frio. Avanço devagar. Um pássaro passa riscando o espaço com o seu grito de liberdade. Olho-o. Dispo o vestilho molhado que se cola ao meu corpo, gelando-o. Procuro a écharpe de mousseline preta e, quando a encontro, envolvo-me nela. Continuo levada pela aragem fresca e limpa. Mais à frente está uma rocha grande suspensa sobre a ravina. Vou até lá e ali fico suspensa, respirando o ar puro apenas habitado por velozes pássaros, incertos habitantes. Sinto o ar frio e agora já azul escuro no meu rosto. Olho as copas das árvores, olho a montanha negra ao longe, reparo que ao fundo, algures no vale, um fio de fumo desenha ligeiros traços brancos no ar. A écharpe esvoaça em volta do meu corpo, que sensação tão boa.

Maureen Flemingpor Lois Greenfield

Aspiro o ar frio e silencioso, fecho os olhos devagar, avanço, livre e limpa, solto a vaporosa mousseline e prendo-a com as mãos, abro lentamente os braços e salto no espaço. 

E então começo a voar, o transparente tecido ondulando como um véu, como umas asas leves e belas, e voo, mulher livre atravessando os espaços. Uma grande ave de brilhante plumagem negra que desliza, que se vira, que plana no ar, liberta de peso, liberta de sombras.

Depois deixo que o vento me traga de volta e, satisfeita, saciada, pouso, arfando, sorrindo.

Maureen Fleming por Lois Greenfield

Só então regresso a casa. Visto-me, agasalho-me. Sento-me aqui, feliz, apaziguada. Fecho os olhos, respiro. Sou uma mulher feliz. Começo, então, a escrever-vos. E escrevo palavras que, de imediato, se soltam no ar, pequenas aves de transparentes plumas negras que atravessam a noite, livres, tão livres. Transportam a minha respiração. 

Deixem-nas pousar aí, perto de vocês, estão quase a sair do vidro, estão já aí por trás. Depois, quando aí pousarem, talvez no vosso colo, sorridentes, sintam-nas, ouçam como respiram as minhas palavras caprichosas que atravessam os ares para chegarem até vós. 

E agora fechem vocês os olhos. Estou quase eu aí, também, ao vosso lado. Fechem os olhos. 

Leah Stein por Lois Greenfield

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PS: Só agora me me ocorre que já nem tenho idade, nem está tempo para andar por aí a voar e, ainda por cima, com o cabelo molhado. Tomara não tenha apanhado um resfriado. Já agora, se puderem, vão preparando um chá bem quente para quando eu chegar, está bem? Obrigada. De lúcia-lima, se puder ser.

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Tenham, meus Caros, um belo sábado. E agasalhem-se que está um frio das sibérias.