Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, agosto 23, 2019

Vídeo com o Presidente do Parlamento Neo-Zelandês a dar biberão ao bebé de um deputado enquanto preside a uma sessão


Acredito que se percebe que a democracia é verdadeira e madura quando a aceitação das diferenças e de supostas extravagâncias acontece com naturalidade. Acredito também que uma sociedade é mais feliz se, em vez de haver permanentemente uma culpabilidade latente por parte de uns e uma apetência pela censura e pela maledicência por parte de outros, houver, isso sim, uma predisposição geral para a aceitação e para a generosidade.

Tāmati Coffey, Natasha Dalziel (a mãe de 'aluguer') e Tim Smith
com o bebé Tūtānekai.


No vídeo que abaixo partilho, aos meus olhos de democrata ainda primeva, tudo parece relativamente  atípico. Os pais do bebé são dois homens casados que recorreram a uma barriga de aluguer. Um deles é um deputado que, ao regressar da sua baixa de parentalidade, levou o bebé para o parlamento. 

Como se só isso, por si, já não fosse uma maravilha, Trevor Mallard, o Speaker do Parlamento, resolveu levar o bebé para o seu colo e, ali mesmo, alimentá-lo. E isso enquanto continuou a cumprir o seu papel de moderar o debate, presidindo à sessão.
Não nos esqueçamos que já Jacinda Ardern, a primeira-ministra, tinha levado o seu bebé para o Parlamento. Os exemplos têm que vir de cima. Sempre assim foi e é assim que deve ser.

E estou a lembrar-me da deputada australiana que, o ano passado, no parlamento, fez uma intervenção enquanto estava, justamente, a amamentar.

Larissa Waters e o seu bebé

E eu vejo isto e fico contente e a pensar que era tão bom que um dia isto fosse possível em Portugal.

As dificuldades que eu tive quando os meus filhos eram bebés e eu ainda os amamentava, o peito cheio, cheio, muitas vezes os seios a jorrarem leite e eu ainda com Lisboa inteira para atravessar primeiro que chegasse ao pé deles. Como a minha vida teria sido mais fácil se eu pudesse levá-los comigo para o trabalho. Em vez de dois filhos, se calhar tinha tido mais uns quantos. Que bom. Tanto que eu gostava de os ter junto a mim. E tinha que os deixar de manhã e só ir buscá-los ao fim da tarde, sempre em stress.


Ainda a semana passada um 'boss' me dizia que tinha estado a entrevistar um homem jovem para uma função exigente e que lhe tinha perguntado se já tinha filhos. O pobre disse que não e ele perguntou-lhe se estava a pensar ter nos próximos anos. O pobre disse que não. E eu, ao ouvir isto, não consegui esconder o meu incómodo: 'Não acredito que tenha feito isso. A sério? Não acredito! Mas que ideia. Que mal tem se tiver filhos?' e ele, admirado, 'Ah, é que é a licença de paternidade, depois é o menino que está doente ou que é preciso ir buscar o menino à escola. Então eu não sei como é?'. E eu: 'Mas e então? Vamos querer que a espécie se extinga para não beliscar a produtividade? Que coisa. Peço desculpa mas essa mentalidade já não está com nada'. Aí ele mudou um pouco o tom: 'Pois, se calhar tem razão. Mas, olhe, já fui muito pior. Nem queria que se contratassem mulheres que ainda não tivessem os filhos já criados. Aliás, preferia homens porque faltam menos que as mulheres'. Voltei a mostrar o meu desconforto: 'Claro que faltam menos. Pois se são as mães que têm que ficar com as crianças... Se a responsabilidade pelos filhos passar a ser assumida por ambos, a ver se os homens não passam a faltar tanto como as mães...'

E ainda me lembro quando, há uns anos, seleccionei uma jovem para a minha equipa. Não veio de imediato, tinha que dar um tempo à empresa onde ainda estava. Então, decorrido talvez um mês de lhe ter sido comunicada a nossa decisão, liga-me ela para me dizer que tinha descoberto que estava grávida e queria ser franca comigo e que eu estivesse à vontade para lhe dizer que já não iríamos admiti-la. Felicitei-a e sosseguei-a: 'Boas notícias. Vir uma criança a caminho é uma maravilha. Fico contente. E claro que será muito bem-vinda'. Quando transmiti a minha decisão aos meus colegas, ficaram a olhar-me um bocado de lado: 'Então entra para, logo a seguir, entrar em baixa?'. E eu: 'Isso mesmo'.

Teria a criança uns dois anos, voltou a ficar grávida e voltou a aparecer-me como que a medo e, de novo, a felicitei. Contudo, lembro-me de um administrador (um todo moderno, um que parece todo prá-frentex) me ter dito, com ar aborrecido: 'Mas essa veio para cá para ter filhos ou quê?'. E eu, furiosa: 'Mas isso diz-se? Queremos que nasçam muitas crianças no nosso país e é nossa obrigação não dificultar a vida a ninguém. Fazemos é pouco.'

Ele olhou para mim de lado, como sempre fez, quando achava que as minhas atitudes eram feministas. E, se calhar, eram. Se calhar, deveria era manifestar-me mais graficamente.


Como as ideias cavernículas de alguns portugueses (homens e mulheres) -- dos portugueses e de todos os estúpidos de todo o mundo -- devem parecer impensáveis aos felizes neo-zelandezes quando sabem delas...
Um desfasamento desta ordem tem a ver com o quê? Clima? Cultura? Um somatório de circunstâncias que, vulgarmente, dá pelo nome de história? Ou é apenas sorte, sorte dos que nasceram abençoados, sabendo ser boas pessoas?
E, quanto à maneira como ainda há quem olhe de lado para os casais gay ou para os gays em geral, nem é bom falar. Parece coisa antiquada, intolerante, inaceitável. Mas existe a faz sofrer muita gente. 

Mas vejam, por favor, o vídeo que obtive via Guardian, do qual transcrevo
Trevor Mallard, New Zealand's House of Representatives speaker, cradled and bottle fed a lawmaker's baby while he presided over a debate.
Baby Tūtānekai Smith-Coffey, the son of Labour MP Tamati Coffey and his husband Tim Smith, was born in July via a surrogate mother
Encantem-se, please. Isto é real. Aconteceu.


E até já

[E estou aqui a torcer-me para encontrar o registo certo para falar do que está a acontecer à Amazónia e de quão perigoso é estar parte do mundo na mão de imbecis. E é que, de caminho, a seguir ao Bolsonaro teria que falar no Trump, no Salvini, no Bannon, e em todas as bestas quadradas que se puseram a cavalo no mundo. Mas não estou a encontrar a forma moderada para falar disto com calma]

sexta-feira, abril 26, 2019

Sempre tanto por descobrir





Como seria de esperar, dormi, dormi., dormi Dormi até manhã alta, dormi a seguir ao almoço, dormi antes de jantar.

Saí de tarde para estar com eles -- o bebé a dormir no carrinho, a menina a fazer equilibrismo nas cordas do arborismo, as crescidas na conversa e os rapazes, claro, a jogarem à bola (rapazes onde se incluem os crescidos, incluindo até este muito crescido que agora, aqui ao meu lado, canta Zeca Afonso enquanto na televisão passa um concerto que ainda não percebi se é de homenagem ao grande compositor se é de homenagem ao 25 de Abril).

Apesar do vento frio, dois dos meninos, os manos, trajavam a rigor: equipamento do Sporting de alto a baixo. Os outros despiram os casacos e camisolas para, no relvado, fazerem as balizas.


Depois fomos lanchar. Uns devoradores que surpreendem pelo inesgotável apetite. Até o bebé, depois de comer meia bolinha de pão com queijo, devorou, em três tempos, uma empada de galinha. Dos crescidos nem se fala: são poços sem fundo. Um gosto de ver.

Quando cheguei a casa vinha pior, mais congestionada. E, aqui no sofá, voltei a adormecer. Penso que seja o efeito da ceterizina que tomei ontem ao adormecer. Daqui a nada vou tomar outra porque já não estou uma fonte pingante mas estou longe de estar bem. Passei o inverno sem me constipar e agora, nesta mistura de primavera -- primavera que tem sido um misto de verão e invernia --  é que fui apanhar uma destas.

Mas adiante que esta coisa das constipações, apesar do mal-estar que causa, é uma doença de porcaria, não merece tanta prosa.


No outro dia, ou mais propriamente na véspera do 25, ao sair da empresa, despedi-me de uns com que me cruzei dizendo: Um bom 25 de abril! Olharam para mim, admirados, como se não percebessem, e disseram-me apenas, 'Bom feriado'. Fui no elevador um bocado incomodada. Depois pensei que ambos nasceram depois desse dia e que, na volta, é data que já pouco diz a quem não sabe como eram as coisas antes. Tenho pena. Haveríamos de encontrar uma forma criativa de fazer chegar aos mais jovens a mensagem de que a democracia e a liberdade são bens não adquiridos, efémeros, frágeis.

Os tempos de antes, cheios de negrume e atavismo -- tempos antiguinhos, de atraso e pobreza, tempos opressivos e de estúpida repressão, tempos que deveriam ser rejeitados por toda a gente de bem, tempos que não deixaram saudades e de que toda a gente de bem deveria guardar medo e a mais funda rejeição -- são tempos cujo fim deveria ser festejado sempre com alegria e convicção.


De manhã, enquanto eu dormi, o meu marido foi fazer uma caminhada e passou por lugares de homenagem. Quando acordei, disse-me, e percebi que estava com pena: 'Só velhotes'.

Não pode ser.

Os portugueses gostam de carpir, gostam de dizer mal, gostam de desprezar as suas raízes. Parece que o que os motiva são sobretudo as causas pontuais, com algo de onírico e distante, causas em que se envolvem empolgadamente (vestidos de branco, velas na mão, correntes no facebook, ajuntamentos virtuais, coisas assim) para logo a seguir se desinteressarem. Parece que não sabem honrar com renovado orgulho os que um dia se bateram pelo país, os que um dia se levantaram, dando o corpo às balas, para libertar o país seja do domínio estrangeiro, seja do atraso de uma vida em que se asfixiava.


Penso que todos, cada um de nós, deveria ser capaz de manter vivo o interesse e o orgulho colectivo nos melhores de nós, nos mais corajosos. Deveríamos ser capazes de mobilizar o interesse dos mais jovens pela defesa do património de memórias que ajudem a preservar a lembrança dos tempos retrógrados, anquilosados (em que até os jeans ou a coca-cola eram proibidos) como forma de garantirmos que nunca mais voltarão.

E há tanto por descobrir nessas memórias  -- os que um dia também foram jovens, com sonhos e que, por serem rebeldes e intrinsecamente livres, tiveram que viver em cativeiro, foram torturados, viveram na clandestinidade, tiveram que emigrar. São histórias que podem ser contadas com vozes novas, com vozes que emocionem e fiquem gravadas no coração de quem as ouça.


Vou acabar com mais uma música do Zeca. Tal como a primeira, Achégate a Mim Maruxa (que, se em tempos conheci, agora já não recordava), também esta, Galinhas do Mato, me soa a nova, tão nova, tão coisa de amor e ternura, cântico para tempos novos, sem querer saber de raças ou fronteiras. Faz parte do seu último álbum no qual, devido à sua doença, a maioria das canções já não pòde ser interpretada por ele.

Sempre tanto por descobrir.

Tão fértil e rico o património artistíco de José Afonso. Tão fértil e rico o património cultural e histórico do meu país que espero que, para sempre, seja de Abril.

Abril sempre, 25 de Abril sempre.



Sempre.

Para sempre.

terça-feira, maio 01, 2018

Diferentes e sozinhos, sob o chasco e o insulto da canalha
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O discurso do Grande Ditador






Assim, muitas vezes, o que nos parece a loucura dos outros não é mais que a nossa própria incompreensão. 

Como sabem os estudantes, como sabe quem quer que seja, se o orgulho desmedido do dr. Raul Leal não é ilegítimo hoje só para ter sido sempre legítimo amanhã? Acham excessivo, mesmo como doença , o aspecto desse orgulho? Acham sofística a demonstração de que não é louco quem diz que quer fundar uma nova religião, "o terceiro reino divino"?

Por muitos que sejam os sintomas de desequilíbrio que uma psiquiatria justa possa encontrar no dr. Raul Leal, não são tantos quantos os sintomas de loucura, de degeneração, de perversão intelectual e moral que um psiquitra eminente, o dr. Binet-Sanglé, encontrou na pessoa de Jesus Cristo, o qual, contudo, fundou uma religião, como mesmo os estudantes de Lisboa devem saber.

Os três volumes intitulados La folie de Jesus constituem, sem dúvida, um exemplo de probidade clínica e de exposição psiquiátrica. Neles podem os estudantes aprender, lendo, como se demonstra um caso de loucura. Fechados eles, porém, podem aprender, reflectindo, que é a loucura que dirige o mundo. Loucos são os heróis, loucos os santos, loucos os génios, sem os quais a humanidade é uma mera espécie animal, cadáveres adiados que procriam.

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O grande ditador

Não batalheis pela escravidão! Lutai pela liberdade!


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O texto lá em cima bem como a primeira parte do título deste post são excertos de "Sobre um manifesto de estudantes" de Fernando Pessoa

O vídeo acima mostra um excerto do filme 'O grande ditador' de e com Charlie Chaplin

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As anedotas e o apelo a sério vêm já a seguir

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sexta-feira, abril 06, 2018

Quando 1 imagem que vale por 1000 palavras


The demise of the nation state - no The Guardian


De qualquer forma, vale a pena ler:

After decades of globalisation, our political system has become obsolete – and spasms of resurgent nationalism are a sign of its irreversible decline
What is happening to national politics? Every day in the US, events further exceed the imaginations of absurdist novelists and comedians; politics in the UK still shows few signs of recovery after the “national nervous breakdown” of Brexit. France “narrowly escaped a heart attack” in last year’s elections, but the country’s leading daily feels this has done little to alter the “accelerated decomposition” of the political system. In neighbouring Spain, El País goes so far as to say that “the rule of law, the democratic system and even the market economy are in doubt”; in Italy, “the collapse of the establishment” in the March elections has even brought talk of a “barbarian arrival”, as if Rome were falling once again. In Germany, meanwhile, neo-fascists are preparing to take up their role as official opposition, introducing anxious volatility into the bastion of European stability. (...)

sexta-feira, março 23, 2018

As desculpas de Zuckerberg e as promessas de que vai corrigir o que esteve na origem do brutal fuga de informação do Facebook, deixa-te mais descansada, ó Sta UJM, e vais, finalmente, abrir uma conta no Facebook....?


É o vais...!

Explico.

Não é possível garantir que não volta a acontecer porque já aconteceu, certamente, muito mais vezes e porque, de facto, de facto, não é possível garantir que vão corrigir o que quer que seja ou que não se forjarão novos buracos por onde os dados poderão vazar sabe-se lá para onde. E não será apenas com os bandidos do Cambridge Analytica mas com muitas, muitas outras empresas.

Como diz Steve Bannon: “Facebook data is for sale all over the world”.


É da própria natureza do Facebook: é um repositório de informação alimentado por quem lá a põe indiscriminadamente (e, por informação, leia-se: o que se escreve, as fotografias ou filmes que se partilham, os likes, etc) e é um modelo de negócio que consiste em vender publicidade e espaço para as empresas lá colocarem apps, anúncios, etc. E tudo o que lá se põe pode ser visto por gente e gente e mais gente e mais gente. E as próprias apps podem, elas próprias, ser portas de passagem para os dados ou buracos disfarçados ou armadilhas. E a larga escala a que tudo se passa e a forma aberta como tudo funciona torma tudo isto literalmente impossível de agarrar. 

Admito que provavelmente as pessoas mais incautas acham que o que estão a colocar nos seus perfis ou murais de facebook está a salvo -- ou porque dizem que é só para os amigos verem ou porque acham que é qualquer coisa que está apenas nos seus computadores. Não. Na verdade, estão a pôr essa informação em computadores da empresa Facebook, computadores que estão algures, geridos por uma rapaziada aventureira e ondem correm programas (e algoritmos) engendrados também por rapaziada que gosta de experimentar cenas.


Relembro que Mark Zuckerberg é o mesmo menino que, quando estava a começar a sua aventura facebookiana, disse: "I have over 4,000 emails, pictures, addresses, SNS. People just submitted it. They "trust me". Dumb fucks." Dum fucks - ou seja, em linguagem mais de salão, os 'totós' que lhe entregam toda a informação, mesmo a privada, sem ele ter que pedir nada. Assim falava ele dos incautos que abriam conta no Facebok.


E é que é tudo em tão vasta dimensão e cresce tão exponencialmente que o seu controlo é materialmente impossível. Ao estar aberta a milhões e milhões de utilizadores mal informados ou a apps que podem conter código malicioso, o Facebook não pode garantir o que quer que seja.

Sabem os meus Leitores que as minhas reservas e os meus cuidados sobre o Facebook são de sempre. Por isso o que se está a passar não me deixa admirada. O que está a acontecer é apenas o óbvio. 

E o que me preocupa não são os malefícios individuais de quem se vê alvo de intrigas por parte de 'amigos' ou de quem se vê objecto de perfis falsos ou de saber que fotografias suas são usadas por terceiros não autorizados. Isso é aborrecido mas é a pequena história. Também não me preocupa a distorção de comportamentos que leva as pessoas a tornarem-se exibicionistas, expondo ao mundo o que vestem, o que comem, o que vêem, o que dizem a toda a hora, tirando selfies compulsivamente. Isso perturba-me um bocado mas é um mal menor. O que me preocupa é o grande mal.

O conhecimento exaustivo de dados de populações inteiras permite, a quem o queira, fazer o que quiser com essa informação. Para já é sabido que conseguiram manipular a população de um país a votar o Brexit ou, noutros, a votar nos alarves que quiseram.

O que temo são, pois, os atentados descontrolados à democracia -- e digo 'descontrolados' porque são situações obscuras a que as instituições normais (políticas, judiciais) não conseguem aceder ou monitorizar ou evitar ou, sequer, perceber.

E não me refiro (apenas) ao facto de os partidos (e logo os parlamentos) ou as magistraduras e demais instituições dos regimes democráticos estarem infestadas de gente de quinta categoria, gente cada vez mais medíocres, mais impreparada e que, por via da sua deficiente escolaridade e experiência de vida, cai em qualquer esparrela e são pouco mais do que verbos de encher.

Anunciam-se agora inquéritos, possíveis coimas, campanhas para se apagarem as contas. Não chega.

Estamos perante potentes plataformas tecnológicas que são um risco real, especialmente quando o mundo não está preparado para saber regular monstros desta dimensão e natureza.

Estamos agora debaixo de outra polémica com as tarifas decretadas por Trump contra as importações de bens oriundos da China -- e qualquer dia podem ser sanções contra as importações da UE ou pode ele decretar guerra a um país qualquer ou pode fazer mil outras coisas que façam tremer os alicerces dos frágeis equilíbrios internacionais. E, como pano de fundo a tudo isto, teremos sempre as redes sociais, prontas a difundir notícias inventadas ou a alardear factos forjados ou a manipular opiniões públicas. 

E isto não é ficção ou futurismo. Isto é a realidade. Uma realidade perigosa.

Não sei no que vão dar todos os inquéritos e investigações que estão a ser postos em marcha mas eu não tenho dúvidas de qual a medida que a democracia e o direito a uma liberdade esclarecida e responsável deveriam impor: o fim do Facebook.


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As imagens são da autoria de  Gerhard Haderer e estão aqui apenas porque lhes acho imensa piada e colocá-las aqui no meio do que escrevi parece-me tão boa opção como outra qualquer.

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Por mera curiosidade (e não para ilustrar o que acabei de escrever):

os Williams, Lucinda e Marlon, falam do Facebook.


Já agora, para quem não sabe quem é Marlon Williams, para que este post tenha uma coisa boa, aqui fica um vídeo que mostra quem ele é. E aviso desde já: gosto dele que me farto.



Já agora, um vídeo também com a Lucinda Williams.


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terça-feira, março 20, 2018

A face oculta do Facebook.
Cambridge Analytica & Facebook -- dangerous liaisons
Riscos pessoais, riscos públicos. Crimes privados, crimes públicos.



Há cerca de 1 ano publiquei aqui um texto escrito pelo meu filho para o qual me permiti chamar a atenção de todos quantos por aqui me acompanham:


Infelizmente, nos dias que correm, o tema é tristemente ainda mais actual. Cambridge Analytica boasts of dirty tricks to swing elections. Bosses tell undercover reporters how honey traps, spies and fake news can be used to help clients

Por cá, a meu ver, a gravidade do que tem vindo a público não está a ter a repercussão devida. É notícia de primeira página em jornais como o The Guardian mas, por cá, o que vamos sabendo é quase como se fosse tema secundário (por exemplo, veja-se o destaque dado a uma notícia como esta: Parlamento Europeu pede investigação ao Facebook). Do que me tem parecido, as televisões não têm pegado no tema e as redes sociais, sempre tão lestas a papaguearem ém coro a propósito de qualquer irrelevância, parece que, sobre isto, não estão nem aí.

Conhecem os meus Leitores a minha aversão ao Facebook. Não é uma aversão que advenha de conservadorismo ou de alguma outra forma de reaccionarismo. Não. Acreditem que não. A questão é que sei que o conceito subjacente a uma plataforma digital como o Facebook propicia toda a forma de utilizações indevidas por parte de quem o queira e sem que os próprios, os lesados, de tal se apercebam. O que se passa é que o Facebook é um repositório de informação pessoal que as pessoas ingenuamente vão alimentando e que, pela própria natureza e complexidade tecnológica, tornam impossível a um vulgar e incauto utilizador ter sequer a noção da máquina brutal que subjaz a toda aquela montra, na aparência inofensiva.

O Facebook pode ter nascido como uma plataforma de comunicação e partilha mas, pela forma desregulada como cresceu e pela opacidade do seu funcionamento, girando sobre algoritmos que têm tudo para manipular as emoções e as vontades das pessoas, pode ser uma perigosa arma contra a democracia e contra a liberdade.

Há certamente muitas utilizações meritórias (e sei de algumas) mas, mesmo essas, alimentam uma máquina imensa que vive de conhecer os gostos, o que emociona, o que alegra, o que pensam as pessoas (e tudo devidamente estratificado: consoante a idade, o género, a ormação académica, o sector em que trabalham, a região em que vivem, etc). Para matemáticos, o que ali está é um apetite. Toda a espécie de análises, de correlações, de projecções, de simulações, de manipulações... tudo é possível. E tão fácil... Tinha que ser uma empresa na qual todos os seus trabalhadores fossem gente de uma moral, ética e robustez psicológica à prova de bala para que nada daquilo derrapasse para o lado perverso da coisa. E isso não há. O mundo não é perfeito. Não há empresas em que 100% dos colaboradores sejam 100% escrupulosos mesmo quando expostos a toda a espécie de tentações e em que o risco de punição seja, na prática, quase 0%.


O Facebook é uma empresa super-valiosa na qual os os próprios clientes são, ao mesmo tempo, os fornecedores de matéria-prima, de matéria-prima gratuita (a informação que a toda a hora lá colocam; e os likes são também informação, não o esqueçamos). E recebem a publicidade que, de forma inteligentemente selectiva, o Facebook coloca no mural de cada um.

Mas, tão grave como tudo isto, são as cancelas abertas que o Facebook tem, permitindo que empresas como a Cambridge Analytica vão lá abastecer-se de todo o valioso manacial de informação que lhes permita depois conhecer tão bem as pessoas que conseguem manipulá-las a seu bel-prazer.


É sabido como a vitória do Brexit ou a vitória de Trump foram fortemente alavancadas por campanhas políticas customizadas dirigidas aos gostos e receios dos eleitores, quase um a um. 

Se as pessoas não andassem tão anestesiadas, forçariam os seus governos a investigar e/ou multar o Facebook ou, mesmo, a interditá-lo enquanto todas as regras de compliance não estivessem cumpridas. No entanto, há tantos milhões de utilizadores e tão dependentes que dificilmente perceberiam uma medida tão radical.


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Para ajudar na compreensão do tema, dois vídeos, um de 3 minutos e picos e um outro de 16 minutos.
Cambridge Analytica claims to use data 'to change audience behaviour'. But now a whistleblower, Christopher Wylie, has come forward to expose the company's practices. Wylie describes how its CEO, Alexander Nix, attracted support from then-Breitbart editor, Steve Bannon, and investment from billionaire Robert Mercer before obtaining help from Cambridge professor Aleksandr Kogan to harvest tens of millions of Facebook profiles.


The British data firm described as “pivotal” in Donald Trump’s presidential victory was behind a ‘data grab’ of more than 50 million Facebook profiles, a whistleblower has revealed to Channel 4 News.
 
In an exclusive television interview, Chris Wylie, former Research Director at Cambridge Analytica tells all.


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quinta-feira, outubro 12, 2017

Os 31 crimes de Sócrates e a cegueira cúmplice de Brunhilde


No carro, no regresso, ouvimos. Noticiam que a acusação saíu antes de tempo. Ouvimos os jornalistas dizerem que Marcelo diz que fica contente quando a justiça acelera. A acefalia dos jornalistas. Um processo que se arrastou durante anos, furando prazos e desrespeitando a dignidade devida a qualquer pessoa, é agora referido como tendo sido mais lesto que o expectável. Se lhes puserem um papel à frente a dizer que a terra ficou quadrada e que a lua anda aos saltos eles vão lê-lo aos microfones sem pestanejar.

Depois ouvimos desfiar a lista de acusações, os crimes descritos com minúcia. E usam exactamente esta palavra: crimes. Muitos crimes. Dir-se-ia que o processo deu um salto quântico e se passou da fase da investigação para o resultado do julgamento.

Agora, já em casa, ouvindo a televisão, dou conta que o festim está ao rubro. De vez em quando, os crimes, as corrupções, os esquemas de lavagem de dinheiro e de fuga ao fisco são precedidos da palavra 'alegados'. Mas, na maior parte da conversa, para eles, os factos estão provados, dispensa-se o pró-forma do uso das palavras cautelares: alegado, alegada. Para quê esses cuidados se toda a gente já está farta de saber que ele é culpado? Saltem-se pois os passos intermédios e avance-se para o júbilo pela conclusão do processo. Recursos? Ah, sim, sim... Para quê?, alguém ainda tem dúvidas? 

Ouço. Ouvi José Gomes Ferreira, o vingador, feliz por terem sido dado por provados crimes que ele tanto denunciou. Sorri. Ganhou. Sócrates foi condenado, apodrecerá na prisão. 


Ouço Sara Antunes Oliveira, uma menina com ar castigador, que mal disfarça o estar notoriamente radiante por ter feito parte do júri de acusação e estar ali para relatar os factos. Crimes. Lavagens, Esquemas. Tudo provado. Os implicados negam. Não interessa, o que dizem não convence. Culpado. Nunca se viu nada assim. Um antigo Primeiro-Ministro apanhado num gigantesco esquema de corrupção. Sócrates é culpado. Ponto final. 


Mistura-se má gestão, esquemas e facilitismos, interesses cruzados e aparecem os antes elogiados e condecorados Zeinal Bava, Granadeiro, Ricardo Salgado  e, no meio, entre suposições e alegadas convicções, Sócrates. Um longo enredo em que vários anos de sabidos e consabidos compadrios foram apanhados pela rede dos investigadores e misturados com alegadas corrupções activas e passivas -- e agora, ao longo de milhares de páginas, alguém tentará perceber porque é que algumas delas coisas vêm ao caso ou se não vêm de todo, ou se há mosquitos e tubarões tudo misturado no mesmo saco, porque é que vaidosos e ladrões são avaliados pela mesma bitola.


Sei que este não é o tempo para raciocínios com princípio, meio e fim. Sei que devo esquecer-me do que aprendi quando estudei Lógica e esquecer-me tudo o que sei do método científico que exige que qualquer hipótese seja posta à prova antes de, sobre ela, se poder concluir que está certa ou errada. Sei que este é o tempo do facebook, do não querer destoar da manada, dos julgamentos sumários na praça pública. Sei que, se disser que não posso concluir que uma pessoa é culpada antes de os tribunais o terem provado, vai ser lido como uma prova de facciosismo.

Sei que, de repente, meio mundo esquece os mais elementares valores de um estado de direito, decretando a pena mesmo antes dos julgamentos. Sei disso. Sei muito bem.

Mas, ainda assim, digo o que acho.

E volto a dizer: se Sócrates for culpado, pois que seja condenado. Ficarei desiludida, desgostada, entristecida e não por razões pessoais mas apenas porque foi um Primeiro-Ministro que apoiei, em especial no seu primeiro governo. No segundo acho que já não geriu tão bem a situação mas reconheço as árduas condições em que se encontrava, cercado por todo o lado, e com a esquerda unida à direita para o derrubar (abrindo dessa forma a porta a um dos mais sinistros períodos da nossa história -- e disso eu não me esqueço)-

Mas, santa paciência, até ao dia em que se conheça a sentença definitiva sobre o caso, continuo a achar aquilo que acho em relação a qualquer pessoa: que Sócrates é inocente até prova em contrário. Acredito e defendo os valores da democracia e da liberdade e não abdico do respeito pelos pilares mais basilares do Estado de Direito em que quero acreditar que vivo.

Tenho estado a ler um livro de que já aqui falei. Uma vida alemã. É um livro que leio com um peso no peito. Para aliviar, intercalo com O grilo na varanda. Depois volto a Brunhilde Pomsel. Este livro deveria ser de leitura obrigatória. Não é literatura, é apenas um testemunho de quem viveu o nazismo por dentro e dele não se apercebeu. Ou, tendo-se apercebido um pouco, o desvalorizou. Ou, não o tendo desvalorizado completamente, achou que não poderia fazer nada. Até ao fim, acreditou nas histórias que a propaganda divulgava. Os alemães eram corajosos e valentes e os outros eram maus. Os alemães não perdiam, os alemães venceriam. Os judeus iam para o campo, iam viver melhor. Os judeus iam para campos de concentração para fugirem a perseguições, ali estariam protegidos. Mesmo perante o que agora classificaremos como 'evidências', os alemães não viam. Não sabiam. A manipulação colectiva acontece. Brunhilde trabalhava no Ministério da Propaganda. Conhecia Goebbels. 

Gente sorridente,
amigos dos seus amigos,
bons pais de família
(e, no entanto, tão perigosos)
Era um homem reservado, tranquilo. Um dia ela viu-o a discursar e não o reconheceu. Era um homem possuído que levou uma multidão ao enraivecimento colectivo. Brunhilde ficou incomodada. Percebeu que nunca se sabe do que as pessoas são capazes. 

Nada disto tem nada a ver com Sócrates. 

Não somos alemães, não há nazis entre nós. Somos inteligentes, prescientes, não nos deixamos manipular. Pois. 

E, no entanto, não nos importamos nada com o que se passa: a destruição moral de alguém que ainda não foi sequer julgado. E, no entanto, damos como provado tudo o que os jornalistas e comentadores desfiam como crimes. E até já nos esquecemos dos prazos sucessivamente ultrapassados e talvez até aplaudamos por terem condenado Sócrates (note-se: condenado e não acusado) de forma tão rápida.

Somos gente perigosa. 

E, para já, isso é a única que, com os dados de que disponho, posso concluir.

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E queiram descer até ao tempo das gaivotas,
um tempo bem mais aprazível do que este de que acabei de falar.

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segunda-feira, junho 26, 2017

Construir uma ilha, viver em liberdade



Regressada à cidade depois de um bem vivido fim de semana no campo, e passando, no regresso, por mais uma festa de anos na qual estive rodeada por risos, carinho, doçuras e diabruras, tive, à chegada a casa, naturalmente, uma série de deveres a cumprir -- que isto de me entregar à vida como uma boa selvagem, sem horários nem compromissos, é coisa que, apesar de me ser cara, nunca consegue durar mais do que umas escassas vinte e quatro horas e é quando é.

A semana de trabalho está a recomeçar e, nesta altura do ano, o corpo a pedir descanso e a impaciência a dar mostras de estar sempre à espreita, é sempre com algum esforço que deixo para trás os meus horários desordeiros e os meus hábitos desalinhados para entrar num mundo em que os desvios à normalidade não são bem aceites.


Andar descalça em casa e na rua, ler ou escrever pela noite dentro, andar a apanhar orégãos ou alecrim sentindo o sol a pousar suavemente na pele de todo o corpo, andar em silêncio a espiar gatinhos no mato quando a noite cai ou coisas assim, que fazem a minha felicidade, terão que ser substuídas pela vivência asséptica num escritório, e eu terei que me entregar com uma energia na qual agora me custa a acreditar à análise de resultados de empresas, à partilha na tomada de decisões relativas a negócios e a outras ocupações que são também parte da minha vida.

Quem, durante a semana, me vê de saltos bem altos, maquilhada e perfumada, integrada naquele ambiente, não imaginará talvez que sou outra, completamente outra, quando posso estar à solta, em contacto com a natureza, entregue apenas à concretização das minhas vontades. E, no entanto, é também com naturalidade e motivação, que exerço a minha profissão. Portanto, jamais saberei se seria feliz se a minha vida tivesse seguido um rumo completamente diferente. Se vivesse uma vida alternativa -- sem patrões, sem estar integrada numa organização estruturada em hierarquias, sem horários que não os que eu própria me definisse -- sentir-me-ia igualmente realizada? Não sei.


Conheço uma pessoa que é investigadora e que se organizou para trabalhar a maior parte do tempo a partir de casa. Os tradutores podem também fazê-lo. Um colega do meu filho, investigador também, coisa que lhe dá margem de liberdade, dedica-se, em paralelo, à agricultura. Uma amiga da minha filha, designer, lançou uma linha de roupa para criança e agora gere o seu próprio negócio, com costureiras, a partir de casa. Quando penso neles, penso que dispôem de uma liberdade que desconheço. Mas não sei se isso seria, para mim, garantia de plenitude.

Não sei. Apenas poderei dizê-lo quando me reformar. Aí verei se me entrego ao dolce fare niente e a ser uma boa selvagem, se arranjo mil e uma ocupações alternativas (e tenho umas ideias peregrinas em mente), ao voluntariado, à política, se vou viajar pelo mundo. Ou o quê.

Seja como for, sabe-me bem observar formas de vida alternativas, à margem, no limiar da liberdade total.


Esta noite não me apeteceu acabar já o meu folhetim, parece que fico sempre com alguma pena de me despedir dos personagens que me nascem. Era para escrever o último episódio, tinha que ver que nome lhe ia dar -- comecei por pensar num nome que obviamente não podia ser, depois pensei chamá-lo 'Memórias de L.' e agora estou inclinada para lhe chamar 'L., aquela a quem um dia alguém chamou la femme infidèle'. Mas essa da femme infidèle aconteceu comigo, a mim é que uma pessoa, o vice presidente de importante multinacional, um francês enorme e intimidatório apesar de imensamente charmoso, num dia de fúria, chamou isso e assim passou a chamar mesmo quando a fúria lhe passou. As suas chamadas, de Paris, começavam sempre com essa, o meu nome seguido de la femme infidèle. Mas como eu sou uma e a Lu -- tal como antes a Diana ou a Ana ou a Eva ou a Lídia ou todas as mulheres das minhas histórias -- são outras que não eu, talvez seja melhor não fazer misturas.

Mas, portanto, dizia eu, não me apeteceu pôr já hoje um fim à história. E, assim sendo, depois de ter adormecido e acordado, pus-me a ver as fotografias que fiz no fim de semana -- das quais volto, agora, a partilhar algumas -- e, a seguir, entretive-me a ver alguns vídeos que têm a ver com diferentes formas de viver. 


O vídeo que agora partilho convosco, o terceiro de hoje, é outro que acho fantástico. Catherine King e Wayne Adams, um casal de artistas, resolveram, na margem de um rio que fica a cerca de 45 minutos da cidade mais próxima, construir uma ilha. Vivem numa casa feita à mão por eles, sobre uma ilha feita à mão por eles. E há um estrado para dançar, uma galeria de arte, um jardim. E é uma maravilha. Há vinte e quatro anos que ali vivem. E, do que se vê, vivem felizes, em absoluta liberdade. Isto passa-se no Canadá mas podia passar-se em qualquer outro lugar do mundo porque vivem isolados, entregues a si próprios.



Em liberdade numa ilha só deles



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A quem chegou agora aqui, permito-me aconselhar os dois posts que se seguem por conterem dois vídeos que, pelo menos eu acho, são extraordinários. Já aqui abaixo a história de um homem sem braços que, juntamente com um amigo cego, já plantaram mais de 10.000 árvores.

De lá poderão descer para o outro onde mostro o compositor que imaginou uma sinfonia que desafia a eternidade.

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terça-feira, abril 25, 2017

25 de Abril -- ou o fim das memórias





Eu gostava de ser capaz de escrever qualquer coisa nas o sono vence-me. Há umas horas, pus-me a gravar o que os meninos diziam. Pedi ao que até dois meses e picos era o mais novo que fosse falando normalmente. Começou a dizer que estava a contar as notícias e desatou a dizer nomes de jogadores de futebol. No meio, disse que no dia 25 de Abril ia comer um bolo. Perguntei-lhe quem é que ia fazer o bolo. Respondeu-me que era o chinês. Qual chinês? Disse que na pastelaria devia haver um chinês. E prosseguia, dizendo que estava cá em casa e depois acrescentava, referindo-se a mim, que 'ela ainda está viva, nem desmaiou nem nada' e prosseguia a conversa na maior naturalidade. 

Tem esta preocupação com o fim da vida. No outro dia perguntou-me quando é que o avô velhote morre. Outra vez perguntou o que é que tinha acontecido à nossa cadela, que ele não chegou a conhecer, se a tínhamos enterrado. Um dos primos perguntou, noutra vez, se depois das pessoas morrerem, ficam instantaneamente transformadas em esqueleto. Para dizer a verdade, também é tema que me incomoda um bocado e, portanto, não aprofundo, tento que levem na naturalidade mas depois fico a pensar que tenho pena que eles tenham presente isto de a vida ser finita e de que, um dia, nos despedimos daqueles que amamos.

Quando foi o meu 25 de Abril ainda eram vivos os meus avós, com excepção do meu avô materno que morreu num acidente quando eu era pequena. Também viviam dois dos meus tios. Nessa altura eu estava ainda longe de conhecer o meu marido mas estava viva grande parte da família dele pois foram ao nosso casamento, anos mais tarde. Agora também já desapareceram quase todos. 

Perguntei aos meninos se sabiam o que era o 25 de Abril. Disseram que tinha sido uma guerra mas a menina logo acrescentou que não era, não, porque tinham usado cravos e não armas. Ele dizia que os maus se 'renderem' e foram para casa. Eu perguntei-lhes porque é que eles eram maus. Não sabiam. Disse-lhes que eram maus porque não deixavam a pessoas serem livres.

Mas, para quem nunca conheceu a falta de liberdade, não deve ser fácil perceber o que é não ser livre. Muito menos para uma criança toda e só inocência.

Quando daqui por algum tempo poucos restarem dos que viveram antes do 25 de Abril de 74, como manter viva a chama da liberdade? Quando não restarem nem os que fizeram a guerra do 'ultramar' nem os seus filhos se lembrarem do pouco que eles contaram, como explicar a estupidez de tal guerra e a estupidez dos que a impuseram?

Se eu não estivesse tão cheia de sono, talvez conseguisse escrever alguma coisa que fizesse mais sentido do que isto. Gostava de falar de como nunca consegui que colaboradores meus que fizeram a guerra (entretanto já reformados) alguma vez contassem aquilo por que passaram. Apenas um me disse que o outro tinha estado vários dias numa vala só com mortos até que o fossem resgatar. Nunca consegui. Um disse-me, para se justificar, que ninguém se orgulha do que fez na guerra e que não fizesse eu mais perguntas, que preferiam não falar nisso, esquecer. Era e é um homem bom.

Gostava de falar dos que, quando eu era pequena, sabia que chegavam estropiados ou passados. Um dos irmãos de uma das minhas tias voltou assim, não dormia, tinha pesadelos, ficava agressivo. A minha tia dizia 'voltou maluco'.

Também já o contei: um dos desgostos da minha avó materna era que o irmão que tinha vivido toda a vida entre prisões, degredos e clandestinidades não tivesse chegado vivo ao 25 de Abril. Morreu pouco tempo antes. Penso que essa minha avó votava no PCP por causa do irmão. Mas nunca lhe perguntámos. O meu tio é que dizia que achava que a mãe era comunista. Mas ela nunca se pronunciou. Que era de esquerda, isso acho que sim. Nem ela nem o filho cá estão para o dizerem. 

Também já o contei: quando morreu, no meio da papelada descobrimos coisas com piada. Uma é que era mais nova do que dizia. Andámos a vida inteira a festejar o seu aniversário na data errada e o número de anos errados. Não quis que soubéssemos que tinha tido a minha mãe quando ainda era menor. Sabíamos que tinha tido uma paixão pelo que viria a ser o meu avô. Muito bonita, olhos com laivos de verde, cabelo escuro, apaixonou-se perdidamente por aquele rapaz alto, louríssimo e de olhos muito azuis. A minha mãe, quando viu a certidão de nascimento dela, abanou a cabeça e disse: 'Olha... a magana...' e pronto, mais nada, não valia a pena dizer mais nada. A outra coisa engraçada era a correspondência da mãe dela, minha bisavó, com os primos algarvios, entre os quais se contava o primo Teixeira Gomes. A letra perfeita, o humor com que escreviam, a forma versejada com que parodiavam os acontecimentos, era surpreendente. Só descobrimos aquela correspondência quando morreu. Agora não sei se foi a minha mãe que ficou com aquilo ou se foi o meu tio. Se foi ele, como já morreu, temo que tudo se tenha perdido. Os meus primos são completamente desligados dessas coisas. 

As memórias perdem-se. É um dos lados tristes da vida.

Um dos tios do meu marido tinha uma grande biblioteca. Percorria alfarrabistas. Tinha primeiras edições, edições raras. Protegia alguns livros com capas de papel vegetal. Era muito cioso de todos aqueles seus livros. Tudo bem arrumado. Primeiro morreu a mulher dele, depois ele, depois a irmã dela que morava com eles. Havia tantas coisas maravilhosas, acumuladas ao longo da vida por três pessoas com bom gosto, amantes da cultura. Decidiram que as coisas haveriam de ficar para os sobrinhos. O processo de 'desmanchar' aquela casa enorme, repleta de coisas, foi um castigo para todos. Por fim, estavam todos saturados, já aborrecidos uns com os outros porque andavam a ritmos diferentes e tenham interesses diferentes. Os livros foram separados a eito, por sacos, colecções separadas, sacos enormes, livros e mais livros. No meio da confusão final que foi aquilo, fins de semana enfiados naquela casa museu, já ninguém queria saber de mais nada senão livrar-se daquilo tudo. O que me custou ver o triste fim daquilo tudo. O meu marido acabou por nem ficar com livros nenhuns porque já nem conseguia pensar em voltar lá e os ânimos entre eles já estavam em ponto de rebuçado. 

Uma vida inteira que acaba assim, provocando impaciência nos que cá ficam. Pelo 25 de Abril esses tios saíam à rua, eram amantes da liberdade, da liberdade de expressão, falavam dos presos de Caxias, falavam da censura. Tinham livros que, antes, tinham sido proibidos. Não faço ideia do paradeiro desses livros.

Claro que isto não é coisa que se escreva.

Mas passa das duas da manhã e eu não consigo pensar, estou um bocado cansada.

Para além do mais, qualquer dia já nem faz sentido falar disto, parece tudo tão remoto, tão improvável. Torna-se, até, motivo de chacota para alguns, como se fossem episódios datados, vintage, coisa do canal Memória, histórias que já não interessam nem ao menino jesus.

Por isso, não vou escrever mais nada. Cansada como estou, não consigo perceber qual seria o tom certo para aqui escrever aluma coisa sobre o 25 de Abri.


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Mas que viva a liberdade. Sempre. E a democracia.

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sábado, maio 21, 2016

As mulheres devem pôr o seu clitóris em cima da mesa?
Ou devem começar por libertar os mamilos?


Não me sinto uma feminista no sentido em que pense que devem ser desencadeadas medidas de força para a a sociedade começar a encarar as mulheres como iguais, nem acho que a responsabilidade pela subalternização feminina (que ainda existe em muitos meios) seja da exclusiva responsabilidade dos homens. Trabalhando num meio empresarial em que os homens imperam a nível dos cargos de poder, assisto com alguma frequência a que as mulheres gostem de se colocar numa posição que, em meu entender, não as dignifica.

Bella Hadid e o vestido sensação em Cannes
(Tinha ou não cuecas?)
As mulheres não têm que provar que são tão boas profissionais como os homens: têm apenas que ser boas profissionais. Tal como não devem, para agradar, mostrar-se disponíveis para assumir o papel de dona de casa em sessões de trabalho em que alguém deve tratar de alguns aspectos acessórios. Nem, as que ainda não estão em lugares de topo (digamos assim, por simplificação), deverão fazer uso dos seus atributos físicos para tentarem impressionar os homens que já lá estão.

Não sei se há uma escrita feminina, uma gestão feminina ou uma realização feminina. Não sei nem ligo a isso. Interessa-me a qualidade e não o sexo de quem faz o que quer que seja. No momento em que uma mulher centra o seu combate, seja que combate for, no seu sexo, está a aceitar que o seu sexo a diminui.

Nunca fiz nada disso: não me considero inferior em nada (excepto a estacionar e a perceber as regras de futebol; também nunca consegui fazer aquele assobio potente em que se põe na boca o dedo médio unido ao polegar; ou seja, há aspectos em que aceito que, por ser mulher, tenho alguns handicaps mas tudo coisas deste género; e, num ápice, seria capaz de elencar dez vezes mais assuntos em que, por ser mulher, tenho melhores aptidões que os homens - mas não vou por aí porque tenho mais que fazer, nomeadamente ir dormir) e, portanto, também nunca me queixei ou me envolvi em movimentos reivindicativos relacionados com descriminações de género.

Vem isto a propósito de um debate em que, e passo a transcrever:
Brute de décoffrage, Houda Benyamina se lance alors dans une mini-tirade engagée où elle appelle les femmes à « revendiquer [leur] féminité » : « Il faut arrêter d'être polies, il faut ouvrir nos gueules et il faut poser nos clitoris sur la table ! », s'exclame-t-elle devant un public approbateur.
Quem se entenda bem com a língua francesa talvez ache piada ao animado debate em que Alice Winocur e Houde Benyamina defendem calorosamente os seus argumentos. No entanto, não sei se o seu desafio (pôr o clitóris em cima da mesa) será facilmente exequível e, caso se descubra a forma de o fazer, se produzirá o efeito pretendido.

Women in Motion : le talk d'Alice Winocour et Houda Benyamina


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Outra luta que atravessa fronteiras, que passa de ano para ano e que igualmente não sei se merece tanta luta ou se produz reais efeitos é o #Free the Nipple, que é como quem diz, Libertem o mamilo. Trata-se de um movimento contra a proibição de mulheres com os mamilos à mostra estarem em lugares públicos, sejam reais ou virtuais. Nestas coisas, acho que não é preciso pedir autorização, -- quer arejar a poitrine, pois areje  - mas aí entra a componente exibicionismo e, como isso é coisa que me desagrada, eu diria que não me parece que seja preciso provocar ou exibir os mamilos na rua. Nas praias, que eu saiba, o topless é permitido em todo o lado e mal fora que o não fosse. Agora não faço mas já fiz, embora não seja coisa que gostasse de fazer em lugares muito frequentados. Mas, nas praias quase desertas do Algarve, por exemplo, aí claro que me punha completamente à vontade. 


Ou seja, se, por me desagradar o exibicionismo, não me choque que as mulheres não andem de tronco nu na rua, já me parece razoável a utilização de vestuário que deixe entrever os seios, coisa subtil, elegante.

Mas, claro, estou a reportar-me a situações normais. No entanto, não nos podemos esquecer que há as sociedades ou as culturas anquilosadas em que tudo o que se relacione com o corpo da mulher é visto como um pedaço de mau caminho e, por tal, devendo ser coberto. Mas aí as causas são tão profundas que não é com manifestações bobinhas que se vai conseguir o que quer que seja.

O vídeo abaixo mostra o que é o movimento.

Free the nipple?


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E agora, se vos apetecer ver uma cena divertida, um fulano e uma fulana que vão para o metro ler livros com uma capa delirante, é só descer.


terça-feira, abril 26, 2016

Grande reportagem de Andreia Jorge Luís na TVI sobre as Clandestinas e interessante entrevista da Judite Sousa com duas dessas mulheres e com Fernando Medina, filho de dois resistentes que viviam na clandestinidade



Como sempre, apanhei o programa sem querer e a meio mas, do que vi, tenho que dizer que gostei muito, que me emocionei, que pensei que tanto do que hoje vivemos se deve a quem generosa e abnegadamente abdicou da sua vida familiar, se afastou dos filhos, sofreu torturas, viveu em situações indignas -- e sempre com coragem, com força, com esperança num mundo melhor.

A minha família sempre foi de gente defensora da democracia mas não a ponto de sacrificar a vida. Apenas um tio, irmão da minha avó materna, foi deportado, viveu anos creio que em S. Tomé, e, ao regressar, passou à clandestinidade. Aparecia sem aviso, de noite, e, não sei como, a coisa corria e a família arranjava sempre maneira de que ele conseguisse rever os seus.

Era alto, moreno, bonito. Tenho ideia de que se curvava ligeiramente como por vezes fazem os homens muito altos. Mas talvez se curvasse para me prestar atenção, a mim que, então, era muito pequena. E fiquei com a ideia de que era um homem silencioso, que falava como se murmurasse mas, se calhar, isso era também porque teria medo que o ouvissem.

Morreu pouco antes do 25 de Abril, não me lembro como -- até porque ainda seria relativamente novo -- e, quando foi a revolução, toda a gente lamentava que ele não tivesse vivido o suficiente para ver que tinha acontecido aquilo por que ele tanto tinha lutado.

Também antes do 25 de Abril vivia perto da casa dessa minha avó um rapaz que tinha uma vida misteriosa. Ninguém sabia bem que vida era a dele. Mas também ninguém perguntava nada. Provavelmente desconfiavam. Ou então não falavam ao pé de mim. Volta e meia o Palma Inácio ia lá, não sei que relação havia entre ele e esse rapaz. Eu era miúda pequena e ouvia falar estas coisas sem perceber bem. O meu tio, que era todo de esquerda (embora não dado a lutas), conhecia-o e acho que conversava com eles e, em casa, falava deles e da LUAR e a minha avó e a minha mãe mandavam que se calasse ou que, pelo menos, falasse baixo.

Com o tempo todas estas memórias se hão-de perder porque vão morrendo as pessoas que o viveram. Neste caso em concreto, já morreu a minha avó, já morreu a avó desse rapaz, já morreu esse meu tio, já morreu o Palma Inácio e não faço ideia de quem é o rapaz de que falo.
Penso que, em vez de enxamearem as televisões e os rádios com tanto comentador, uma coisa aflitiva
(ia eu no carro perto da hora de almoço e na TSF lá estavam eles a fazer a autópsia aos discursos, em especial ao (muito bom!) discurso de Marcelo, e tudo é revirado do avesso até quase deixar de fazer sentido), 
mais valia que recuperassem testemunhos, experiências de vida de todos quantos sofreram às mãos da PIDE ou de como era cinzento, retrógrado e asfixiante o ambiente durante o negro e longo período antes de Abril de 74.

A todos os palermas que gozam com quem festeja o 25 de Abril como se não houvesse motivos para alegrias, eu acho que faria bem saber como era a vida nesses tempos.

Por isso, eu que tantas vezes sou crítica com a falta de qualidade dos programas de televisão, desta vez tiro o chapéu à TVI. Bela reportagem. Foi bom ver que corajosas foram aquelas mulheres, valentes, verdadeiros exemplos de convicção, força, determinação. E foi boa a ideia de levar duas dessas mulheres e Fernando Medina a falar em directo. Gostei muito.

Agora, ao procurar fotografias para ilustrar este texto, ao fazer uma pesquisa genérica, fui parar à notícia de que Helena Pato criou uma página no Facebook, Antifascistas da Resistência que já conta com 400 biografias. 


Tenho que ver se consigo lá chegar sem ter que me 'filiar' no facebook. Parece-me uma excelente ideia.

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Como referi, as fotografias não têm directamente a ver com o que escrevi. Foram obtidas na net ao procurar 'Mulheres presas pela PIDE'

Lembrei-me de aqui colocar a música lá de cima porque imagino a dor imensa das mulheres que tinham que se separar dos seus filhos para poderem prosseguir a sua luta e para pouparem as crianças. Quantas vezes desejariam ter o seu filho nos braços para o embalar e, em vez disso, estavam nos calabouços ou a viver na penumbra, cheias de medo de serem descobertas. A música é uma canção de embalar e é de Arvo Part, Estonian Lullaby, numa interpretação a cargo da Estonian Philharmonic Chamber Choir, Tallin Chamber Orchestra.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça-feira.