Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sábado, novembro 16, 2019

Nós, pessoas -- neste planeta



Estou de volta a casa. Neste momento passa bem da uma da manhã. Já mudei de roupa, estou confortável e, tivesse eu algum tino, estaria a descansar e não aqui a tentar vencer o sono. Mas ter tino é coisa que notoriamente não me assiste. 

Quando digo que nem que me pagassem várias barras de outro todos os meses a troco de ter que sair para fora, em serviço, vários dias todas as semanas eu não aceitaria, é mesmo. Não é forma de dizer ou de fazer género, é mesmo verdade. Uma vida como, por exemplo, a da Elisa Ferreira ou a do Centeno, para mim, seria um tormento. Admiro-os e penso sempre que somos devedores de gratidão pela abnegação que revelam. Mesmo que a eles não lhes custe tanto como a mim me custaria. E não é só pela chatice das reuniões consecutivas ou por ter que almoçar e jantar sempre acompanhada ou fora de horas ou à pressa ou pelo incómodo de andar a fazer e desfazer malas, ou de ter que andar sempre a prestar atenção a qualquer coisa ou a ter que chegar ao quarto e ainda ter relatórios para ler ou apontamentos para tomar -- é por tudo isto junto. 

A minha vida não é nada que se compare, nada, mas, o pouco que tem disto, já me causa desconforto. Penso que é esta sensação que se associa à saída da chamada zona de conforto. Daqui até final do ano vou ter várias saídas e cenas e isto já para não falar nos jantares de natal que, para mim, começam dentro de umas três semanas e temo bem que a uns três não consiga mesmo escapar-me. Já estou a ver alguns Leitores a protestarem ou a encolherem os ombros, a dizerem que nada disto é sacrifício e que tem certas profissões já sabe ao que vai e que ganha o suficiente para comer e calar. Pois, não digo que não. Cada coisa pode ser vista sob múltiplas perspectivas e cada um pode escolher aquela com que melhor se identifica. 


Enquanto estou com o computador ao colo, cheia de preguiça e toda contente por estar aqui sossegada no meu canto, espreito a polémica da retenção ou não de alunos em função do seu mau aproveitamento escolar. E penso que a sociedade continua a derrapar e, em vez de saber repensar-se para ser mais justa e inclusiva, para saber como atrair e reter os miúdos na escola, continua a pensar com os pés presos enfiados no lodo dos tempos antigos. Como se o planeta não estivesse com espasmos e em sofrimento, as pessoas continuam a agir como se ele estivesse ainda azulinho, calminho, sem nuvens negras a pairar sobre as suas cabeças, como se todos, por todo o lado, vivessem na maior prosperidade, como se os mais pobres dos pobres não estivessem a morrer nas suas terras ou a caminho das nossas cidades. E nós, aqui no nosso cantinho à beira-mar plantado, continuamos com discussões estéreis que poderiam ter feito sentido há quarenta anos. Não agora.

Presumo que não seja preciso reinventar a roda: será apenas uma questão de colher boas experiências. Haverá crianças com problemas cognitivos, problemas comportamentais, problemas familiares. Requererão atenção especial. E, claro, há tudo o que anda em volta da pobreza que é doença que puxa a gente para baixo e para a qual há-de haver maneira de encontrar o caminho certo para preservar as crianças o suficiente para, apesar da pobreza, conseguirem ter cabeça para aprender e ir em frente. 


Língua portuguesa, bem entendido, matemática, ciências e artes, história e geografia, e tudo isso que é obrigatório, matricial -- mas também ética, sustentabilidade, responsabilidade social, defesa do planeta.

Essas coisas. Desde crianças todos deveriam estar bem conscientes da sua responsabilidade neste mundo. Se as crianças estiverem envolvidas e motivadas, gostarão de fazer parte de uma solução para se salvarem enquanto espécie num habitat cada vez mais instável, num planeta que dá mostras de não nos conseguir acolher por muito mais tempo. Se envolvidas, as crianças e os jovens gostarão de aprender. Gostarão de trabalhar em equipa. Saberão estar neste mundo.
Há temas que são complexos demais para serem falados assim. Este não é lugar para expor causas, para desenvolver teorias. E sei bem que falando apenas ao de leve sobre assuntos sérios mais parece que estou a lambuzar-me com guloseimas, a sujar o bibe com canetinhas de bico de feltro, a brincar aos 'crescidos'. Portanto, não digo nada. 
Partilho apenas alguns vídeos que, assim de repente, encontrei sobre o que aqui me estava a ocorrer. 








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Pinturas de Juan Yoc

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E um bom sábado: saúde, alegria, afecto e tudo o mais que vos saiba bem

domingo, novembro 03, 2019

Retrato de dois apetitosos antes de serem papados


Aliás, o retrato mostra três e se calhar o terceiro também será apetitoso. Mas ainda está verdinho demais para o meu gosto. Gosto deles bem maduros, plenos de doçura, sem oferecerem resistência. Gosto de lhes chegar a mão e que eles logo se entreguem, prontos para serem sacrificados, logo meus, prontos para entrarem em mim. E na minha boca que se desfaçam em suco doce, prontos para percorrerem o meu corpo por dentro, seiva e sangue, toda eu doce também.

Por isso, destes três apetitosos que retratei, apenas dois já ali não constam porque, logo após o retrato, resolveram alegrar a minha existência. Para felicidade deles e minha foram delicadamente papados.


Era bom era que o terceiro amanhã também já estivesse enrubescido para que eu pudesse tomá-lo para mim e, maliciosamente, chamar-lhe um figo.

Senão será um dos muitos que tentarão a passarada ou que tombará sobre a caruma fazendo a delícia da bicharada que, na minha ausência, por aqui se banqueteia à vontade.


E que tenha início o momento musical.


Até já. 

Tenho para vos mostrar uma multiplicativa e excepcional aparição.