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quarta-feira, janeiro 01, 2020

2020
Um ano que tem tudo para vir a ser um ano extraordinário




Este ano tem boa pinta, é estiloso. Vinte-vinte. Soa bem. Vinte vinte. Não é para qualquer um.

E nós já cá cá temos um pé. Ou melhor, os dois. Temos sorte.

Acho-o ainda mais cabalístico do que o 2000. Quando foi o 2000, achei que cá em casa é que era, e que havia de ser de arromba. Reuni cá em casa tanta gente que nem sei como é que cá couberam todos. No meio da festança, toca-me o telemóvel e aparece-me um colega a perguntar-me se estava tudo bem. Como havia música, risos, conversas e muita confusão, pensei que tinha percebido mal. Mas não, queria mesmo saber se estava tudo bem. Tive que lhe pedir que especificasse a razão da sua preocupação. Falou-me então do so called bug do ano 2000. Percebi então. Era o coordenador do grupo de acompanhamento que tinha sido criado para garantir que todas as empresas continuavam a funcionar. Juro: nem de tal me tinha lembrado, convencida que estava que bug do 2000 uma ova, tudo treta. Penso que não houve um único problema em todo o mundo. Disse-lhe que não fazia ideia, que estava em casa a festejá-lo e que no dia seguinte logo se veria se estava tudo bem. Lembro-me de ter achado que ele tinha ficado desconcertado com a minha resposta. Muito negócio com muitos zeros se fez à conta dos zeros do 2000.


Mas, dizia eu, nem o 2000 me pareceu tão cabalístico. Aqueles zeros todos tornavam-no demasiado gaiteiro. Mas este 2020 é outra coisa: tem balanço, tem charme, tem swing. 

Temos, pois, a obrigação de fazer jus à boa pinta que o invólucro apresenta. 2020 deve ser um ano especial. E escrevo 'deve' no sentido de 'ter o dever'. É bom que apareçam grandes avanços científicos, que nos surpreendamos com grandes e muito relevantes saltos tecnológicos, é bom que se conquistem importantes acordos no sentido do desenvolvimento humano e da defesa do planeta. É bom que, nos próximos anos, mesmo que longínquos, se fale de 2020 como o glorioso 2020, o fantástico ano 2020. 

Apesar de tudo o que se avizinha e que forçosamente não é bom (o desastre do brexit e os riscos de ainda maiores desagregações, tudo o que se relaciona com o Trump, os populismos que alastram, os desastres climáticos à vista com as consequências que já se constatam, por exemplo na Austrália, etc, etc), espero que os povos saibam encontrar boas soluções, é bom que saibam levantar-se, unir-se e fazer inflectir o descaminho que as coisas levam. Que coisas extraordinárias aconteçam.

É bom também que 2020 nos traga, em especial a nós que só agora começamos a descobrir o prazer do ar livre e do contacto com a natureza, cada vez mais oportunidade para convivermos, para festejarmos e para desfrutarmos o prazer de existir, de estar bem, de estar com quem gostamos.

Não será apenas por formularmos votos que o destino se encarreirará nesse sentido. Mas, se os votos não forem conversa fiada, lacinhos em efémeros embrulhos, mas sim firmes determinações, talvez as coisas corram como as desejamos. Não somos donos e senhores do nosso destino mas a forma como nos aguentamos e como persistimos contra ventos e marés ajuda muito a conseguimos chegar perto dos nossos sonhos.

E mais: 2020 tem todos os contornos dos verdadeiros elegantes. Que seja, pois, o terreno fértil para todas as boas criatividades. Que floresça a literatura, a arte, que os artistas sintam que ao longo do ano corre a seiva que alimenta e desperta os espíritos. Que seja um ano fértil para a música, para a pintura, para as letras, para a arquitectura, cinema, teatro. Dança. Para que o povo venha para a rua celebrar a arte.

Tirando isso, 2020 tem tudo para lhe piscarmos o olho. Aliás, o safado do 2020 nasceu a piscar-me o olho. Saibamos, pois, não decepcionar. Sedução, malícia, graça, humor. Tudo em boa dose. A vida sabe melhor se vier com o devido tempero. Pela parte que me toca, não viro a cara a nada disso e só espero ter quem me acompanhe. A cor é fundamental e não há melhor cor do que o rubor que acompanha os momentos importantes da vida ou não há luz que se perca quando a cor está disponível para a receber. Tempero colorido, especiarias secretas, bailados descarados mesmo que apenas imaginados: que 2020 venha com tudo e nós cá para lhe darmos o devido troco. 

Não preciso falar da saúde. O ano só será bom se vier com saúde. Mas tenhamos força para vergar o que de menos bom apareça de modo a robustecer o nosso corpo, valorizêmo-lo, forneçamos-lhe a comida certa, façamos o exercício adequado, olhemos por ele.

E sejamos bons, generosos, amigos. É bem verdade: o amor é a resposta. É a resposta mas é também a pergunta. E é o enigma. E é o mistério. E é a insolúvel equação, a eterna dúvida, o sobressaltado motor, o sereno amparo, o secreto refúgio, o insondável esconderijo, o indizível atraente abismo, a semente de tudo.


Que o 2020 seja um ano bom demais para se acreditar.

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E, se me permitem, comecemos bem.

Não sei quem ela é, não percebo o que diz. Mas soa-me bem e isso, para já, parece-me um bom começo de conversa.



A querida Luísa, sabendo-me fascinada pela dança, enviou-me um vídeo com Joel Kioko. Não conhecia. Que belo presente foi conhecer este jovem. Não consigo partilhar o vídeo que recebi mas partilho este aqui abaixo:
Joel Kioko grew up in a poor area of Kenya’s capital, Nairobi, and is now seen as the country’s most promising ballet dancer. He has been training in the US but wants to teach young Kenyans about the beauty of ballet.


Voemos também.

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Felicidades.

segunda-feira, janeiro 01, 2018

2 0 1 8





E já cá estamos. Eu aqui e você, Caro Leitor ou Cara Leitora, aí desse lado. Juntos. Em 2018, um ano que começa e que eu desejo que comece e continue e termine em beleza. 

O tempo vai, o tempo vem. 

No outro dia escrevi isso num comentário a um texto que muito me impressionou e o João L. lembrou-me que, para alguns, por vezes é tarde demais para recomeçar. Talvez. Aliás, sei que sim. Mas neste infinito devir, a vida acontece mesmo quando alguns não conseguem acompanhar o tempo que passa. Outros o farão. Alguém agarrará o testemunho e seguirá em frente. E isso é bom na mesma. 

Já o contei. Há aquilo de que verdadeira sabedoria é plantar uma árvore sabendo que jamais nos sentaremos à sua sombra. Todas as árvores que plantei, plantei supondo isso. Hoje estão frondosas, imensas, cheias de pássaros, plenas de vida. 

Deixar o legado. Pode ser uma árvore, pode ser apenas a sua sombra. Ou apenas a sua memória.

E continuarmos, seguirmos em frente, sempre. E haja alegria na jogada. E haja esperança. E despojamento: se não for para nós, que outros o aproveitem. Generosidade. 


Recebi o Ano Novo em festa. Música, brindes, beijos, fogo de artifício. Estas fotografias foram feitas há pouco. Quero sempre recebê-lo assim para que ele se dê bem comigo e com os que me são queridos.
Desta vez tomei uma resolução: até este ano, quando soavam as 12 badaladas que precediam a meia-noite, todos nos atirávamos aos bagos de uva. E era sempre um problema: sendo enormes os bagos, não conseguíamos degluti-los ao ritmo de 1 bago por segundo. Chegava a meia-noite e estava tudo de boca cheia num esforço para não nos babarmos. Este ano foi diferente: em vez de bagos frescos, usámos passas. Uvas velhas para nos despedirmos do ano velho. Foi limpinho. Doze passas, depois o brinde à meia-noite, desejos, beijinhos, etc. A seguir, para brindar ao ano novo, comemos então tranquilamente os doze bagos de uva fresca. Assim sim. 
Penso que o ano tem tudo para ser um bom ano. Estejamos nós disponíveis para detectar oportunidades, para acolhermos os imprevistos que tantas vezes encobrem boas surpresas, saibamos dar sempre o melhor de nós, saibamos aceitar as diferenças, saibamos descobrir o que de melhor nós e os outros temos para dar. Saibamos ouvir e respeitar o nosso corpo. Tratemo-lo bem. E tratemos bem quem nos quer bem.


E tudo, tudo de bom. Que 2018 seja para vocês, queridos Leitores, queridas Leitoras, um ano muito bom. E para mim e para os meus também. Saúde e felicidade para todos.

Enquanto eu puder estarei aqui. E muito feliz me sentiria se pudesse contar convosco também aí desse lado. Juntos. Por todos os motivos, seria um bom sinal. Juntos. Inteiros. Felizes da vida.

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E agora deixem que comece o ano com poesia portuguesa dita por quem a sabe dizer com a sobriedade que é devida às belas palavras

Luís Miguel Cintra diz poesia portuguesa


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Um bom 2018 para todos!

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domingo, janeiro 01, 2017

2017


E já está... Já cá estamos.

Chegámos juntos a 2017. 



Uma noite linda, uma temperatura quase amena, um fogo de artifício a florescer dos dois lados do rio, barcos a apitarem, e as doze passas e os brindes, os beijos, abraços e os votos a quem se ama. Para mim foi assim.

Outros estarão em hotéis ou em concertos de rua, em casinos ou clubes, em festas particulares. Outros em casa como se fosse uma noite igual a tantas outras.  Outros em hospitais, em cenários de guerra. Outros na maior solidão, sem razões para festejar. Outros a trabalharem. Outros a...

Seja como for, 2016 trouxe-nos até aqui.

Se parte do mundo está a ferro e fogo e se grande parte dos países está entregue a doidos varridos, malucos, megalómanos, corruptos, burocratas ou nódoas, a verdade é que em Portugal se dão passos que, por estranho que isso possa parecer aos olhos dos que não conseguem para lá das pálas que trazem agarradas aos olhos e aos neurónios, vão num caminho que não assusta as pessoas nem não rejeita os seus melhores, e parece apontar no sentido de um futuro mais auspicioso. Voltaram a nascer mais crianças e isso é um indicador poderoso do restabelecimento da confiança e, sobretudo, deve ser para nós um motivo de festa. Um país definha se a demografia se afundar -- e era isso que estava a acontecer até há algum tempo atrás. 


Para o Ano Novo, não consigo fazer previsões nem vou pôr-me com grandes dissertações pois o momento não o pede nem eu estou com cabeça para isso. Mas quero crer que aos poucos iremos percebendo que há coisas que devem ser repensadas no modelo de sociedade que temos vindo a construir. 

Seja como for, e profundidades à parte, que tenhamos saúde, que os que amamos se conservem perto de nós, que nos sintamos motivados a enfrentar cada dia que começa, que nos sintamos realizados com o que vamos fazendo dia após dia, que consigamos satisfazer os nossos desejos e concretizar o que nos faz felizes. E que consigamos preservar a capacidade de sonhar. E que acreditemos em rosas eternas a exalar um perfume azul na noite mais escura e em tigres que não vemos mas cujo latejar quente intuimos na nossa pele sempre que sentimos um suave roçar de unhas no nosso coração. E que sintamos o sangue a correr mais veloz sempre que adivinhemos uma palavra mais quente no olhar de quem nos deseja e a pele arrepiada sempre que as nossas mãos sintam o apelo de uma carícia treslida no silêncio de quem nos escuta ao longe.


E uma vez mais saúde -- que sem saúde tudo se torna tão mais difícil -- e saúde também para os que nos são próximos porque ver padecer quem amamos é um sofrimento. E trabalho, e trabalho de qualidade, para quem estiver em idade disso. E inspiração para quem viva dela. E capacidade de criar laços. E capacidade de perdoar. E capacidade de pedir perdão. E força. Força para lutar contra ventos e marés. E muita sorte e muito afecto nas nossas vidas.


E que a beleza não nos passe despercebida e que o sentido de elegância nunca nos abandone. Nem o sentido de decência e de honradez.


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FELIZ    2017

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Lá em cima, a Maria João Pires interpreta o Concerto No. 3 para piano de Beethoven

As fotografias do fogo-de-artifício foram feitas à meia-noite, debaixo de um festivo ribombar e em que o cheiro a pólvora, felizmente, era sinónimo de paz e de comemoração.

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[NB: Se calhar não se vai conseguir ler bem com tanto fogo-de-artíficio por trás das palavras. Eu amanhã logo arranjo um fundo mais normal mas hoje apetece-me estar no meio desta animação. Está bem?]


segunda-feira, abril 25, 2016

25 de Abril 2016
Festa na rua, um mar de gente a cantar, a festejar a Liberdade
E um grande concerto dos UHF


Viver em liberdade é também isto: podermos encher as praças, ouvirmos música, cantarmos, dançarmos na rua. Nesta noite de primavera, há música na rua, há gente, muita gente, um mar de gente. As ruas estão cheias e convergem, como braços de rios, para a grande praça que se enche -- toda a praça e largos e escadarias em volta.

Estava quase a ser 25 de Abril e toda a gente vinha feliz para o receber. Há razões para festejar. Há um certo sentimento de esperança no ar. O País tem esta coisa de, volta e meia, patinar em seco, deixar-se ficar na cauda, tem esta fraqueza de, volta e meia, eleger umas fracas figuras que fazem fracas e fortes gentes. Mas agora que saímos de um período negro de quatro anos, queremos acreditar que estes quatro que aí vêm serão melhores e os que se lhe seguirem também. Queremos sentir confiança, e de confiança se faz a construção do futuro.

E o País tem, sobretudo, a felicidade de viver em liberdade
-- e pode até ser que a liberdade, volta e meia, seja a modos que condicionada, pode até ser que a comunicação social, a soldo de quem lhe paga, manipule a opinião pública, mas também é verdade que toda a gente pode opinar (como eu estou aqui a fazê-lo, e não tenho medo que me venham prender, nem, quando estou na rua a festejar, tenho medo que haja agentes no meio da multidão prontos a denunciar-me ou a quem se manifeste contra isto ou aquilo) -- 
e a conquista da liberdade é das mais valiosas conquistas que um povo, antes espezinhado e maltratado, pode ter alcançado. E isso devemo-lo ao 25 de Abril de 1974 e só isso é razão mais que suficiente para o festejar.

E, então, com a praça cheia de gente. 
a música rebentou no palco 
e a energia foi imensa, 
contagiante.

UHF - 25 de Abril de 2016 - Almada


Como me limitei a fazer fotografias, socorro-me de vídeos disponíveis no youtube colocando aqui os que se referem a músicas que os UHF interpretaram.

Vejam bem 

- UHF a cantarem Zeca Afonso

E se houver 
uma praça de gente madura 
e uma estátua 
e uma estátua de de febre a arder



Reparem nos pequenos rectângulos de luz:
em tempos as pessoas acendiam isqueiros para ondular ao som da música -- agora filmam com os telemóveis.
De forma instantânea, certamente muitos vídeos do concerto foram parar às redes sociais


Se há coisa de que gosto é de concertos de rua em datas especiais em que se juntam novos e velhos, ricos e pobres, gente de todas as raças e cores, em que a despreocupação é total e a espontaneidade impera, onde meio mundo canta e dança, de forma genuína, onde se junta a alegria do momento com a energia da música. 

Os UHF estavam em casa e o António Ribeiro não disfarçou a emoção por estar a festejar o 25 de Abril numa praça repleta com a gente da sua terra, milhares de pessoas. 


Pela minha parte, para além de festejar, dançar e tirar fotografias, tive uma missão que me auto-atribuí: não perder nenhuma criança. Tenho um certo pavor em meter-me com a criançada no meio de tanta gente mas é bom que eles sintam esta intensa vibração e saibam como é bom festejar colectivamente a alegria da liberdade. Portanto, para além dos demais adultos estarem, obviamente, também in control, eu não desgrudei deles nem parei de os contar de segundo a segundo. 

Para além disso, já antes de irem, estavam a falar nos churros e waffles e, portanto, a meio do concerto, lá fomos em cortejo, agarrados uns aos outros, pelo meio da multidão, milhares e milhares de pessoas, uma coisa impressionante, até a uma das caravana dos comes e bebes e, depois, em sentido inverso, para nos posicionarmos de novo de onde conseguíssemos ver o palco. Uma aventura.

UHF - Nesta imagem, pai e filho, em noite de festa em Almada


Estávamos nós estrategicamente posicionados quando ouvi alguém a pedir licença. Olhei e era um homem jovem numa cadeira de rodas eléctricas, um jovem que me pareceu não ter pernas. Logo a seguir uma outra cadeira de rodas: uma jovem também com o que me pareceu acentuada deficiência. Toda a gente abriu alas para que eles tivessem bom ângulo de visão para o palco. Eles sorriam, encostavam os rostos, beijavam-se, felizes. Os miúdos olhavam muito admirados. Eu não queria que eles se pusessem a olhar insistentemente mas depois pensei que é bom que vejam que todas as pessoas têm os mesmos direitos, que ninguém é menos que ninguém lá porque nasceu sem pernas ou se teve algum acidente e perdeu a mobilidade ou se teve paralisia cerebral ou qualquer outro problema e não consegue quase movimentar-se.

Depois de satisfazerem a sua curiosidade, não ligaram mais e voltaram a estar com atenção à música, a cantar e a dançar. E, claro, foram ao rubro com os Cavalos de Corrida, música que adoram e cuja letra sabem de cor.


A seguir, à meia-noite, como não podia deixar de ser, cantou-se o Grândola Vila Morena e só quem não ame a liberdade é que pode desvalorizar a importância desta data; só quem não ame a liberdade é que pode desprezar os que se juntam para, colectivamente, na rua, a festejarem. 

Em cada esquina, um amigo
Em cada rosto, igualdade
Grândola, vila morena
Terra da fraternidade


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E depois, já dentro do dia 25 de Abril, rebentou o fogo de artifício. Espectacular, os meninos em delírio, uma emoção, o ribombar que se desfaz em luz, as cores que explodem em mil estrelas voadoras, o cheiro forte, a fantasia feita realidade, os riscos que se imaginam, a coragem que se sente, a sorte que se teve por escapar a tantos riscos, a felicidade, e todos juntos, em liberdade.


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Que a Liberdade e a Democracia nunca nos faltem.
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Um bom 25 de Abril para todos vós, meus Caros Leitores.
Que seja um dia muito feliz, este e todos os que se lhe seguirem.
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sexta-feira, janeiro 01, 2016

2016






Começa o ano e eu sei que vai ser um ano muito bom. Trará novas vidas. Trará esperança, alegrias, luz. E a luz só é preciosa se puder haver o contraste da sombra mas a sombra será aconchego, silêncio e serenidade. E trará afectos, trará a construção de novos caminhos, trará abraços e afectos, a quentura de sorrisos bons, trará vagares para desfrutar a beleza dos instantes, trará palavras com significados novos, trará novas maneiras de ver, pensar e sentir.


Agora que já entramos em 2016, renovo os meus votos de há pouco e peço-vos também que se divirtam como se fossem crianças inocentes, que se deslumbrem com cada pequena coisa como se não houvesse magia maior, que agarrem cada instante como se milagre maior não pudesse estar a acontecer, que vivam apaixonadamente, que amem como se não houvesse amanhã, que sorriam com a alegria de quem descobre um mundo novo, que sejam felizes como se acreditassem que isso é possível - porque é.


Um belo Ano Novo para todos!
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As fotografias foram feitas há bocadinho de propósito para partilhar com os meus Leitores que não puderam ver o Ano Novo a romper no meio de alegria, de cor e de luz.

O Hino à Alegria (9ª Sinfona de Beethoven) aparece aqui num flashmob com a participação do Coro Hans-Sachs e da Philharmonie Nürnberg.
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FELIZ 2016 !

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sábado, abril 25, 2015

E onde é que a autora de Um Jeito Manso estava no 25 de Abril...?







Em 74, quando foi o 25 de Abril, já o devo ter contado, estava numa residência universitária. Não nos deixaram sair e a rua estava cheia de tropas. Ao lado havia um quartel e ao fundo o Rádio Clube. Tropas e creio que chaimites por todo o lado. A guerra na rua e para nós, de janela, numa excitação, aquilo era uma festa. Ouvíamos a rádio e tínhamos vontade de sair mas tanta tropa na rua iniba-nos um bocado. Eu era uma miúda mas toda eu estava orientada para o reviralho. O meu namorado da altura era todo de esquerda, os meus amigos também, os meus pais moderados mas a favor da democracia, um dos meus tios o mais possível, uma das minhas avós tinha um verdadeiro espírito de comuna, um irmão dela avó esteve deportado e depois vivia na clandestinidade e, portanto, embora fosse tenra a idade, toda eu ansiava que viesse o perfume da liberdade.




E estávamos naquilo, de janela, todas a combinar sairmos de qualquer maneira, mesmo contra as ordens, quando, às tantas, toca a campainha da residência, um susto, o que seria? - isto deviam ser umas dez da manhã. A directora, a medo, foi ver e nós todas a ver se eram os militares que nos vinham prender, quase todas ainda de pijamas ou de calçõezitos de dormir. E nisto abre-se a porta da sala onde estávamos e vejo a minha mãe. Tinha vindo a Lisboa nesse dia, quando saíu de casa não sabia que havia revolução, tinha vindo de autocarro e, quando chegou, viu que havia sururu, a custo lá arranjou um taxi e a custo lá o convenceu a ir para aquela rua pois o taxista dizia que estava cercada. Mas ela, talvez temendo que a filha se visse no meio da guerra, tanto pediu que ele lá a levou para me ir resgatar. Eu, quando a vi, parecia que estava a ver uma aparição, ali, no meio da guerra, a minha mãe!

Anda, vai-te vestir, vamos ver se conseguimos ir para casa!, disse-me ela. Nem pensar, devo eu ter respondido. Todas de roda dela, ela a contar a sua aventura, a dizer que não queria aparecer em casa, ao meu pai, e sem mim e eu que era o que faltava eu ir-me embora a meio da revolução e as outras que ela me deixasse ficar. Não sei como, lá se convenceu a ir-se embora e a deixar-me para trás, provavelmente sob promessa de eu não sair de casa.

Está bem, está. Podia lá perder-se uma festa daquelas. Foram dias de alegria e liberdade. Havia uma efervescência no ar como não há explicação. Na faculdade desataram a fazer saneamentos, coisas às quais não achei muita piada. Uma vez quiseram expulsar uma rapariga, que eu não conhecia, apenas porque namorava um rapaz que diziam que era de direita ou colaboracionista ou sei lá o quê. Ela manteve-se digna e corajosa e eu votei contra a expulsão dela. Depois acho que a coisa amainou.

Na residência, a directora foi à vida e acho que devemos ter arranjado uma comissão. Ou nem isso. Aquilo passou a ser uma casa franca, só quem não tinha namorado é que não o levou para lá. Não é que aquilo se tornasse um antro de vício e perdição mas era normal haver rapazes na sala, na biblioteca, na cozinha. Uma vez, meses depois, houve lá um barulho anormal qualquer a meio da tarde, e eu saí do quarto e quase todas as portas se abriram e de quase todos espreitaram cabeças de raparigas e rapazes.




Por essa altura havia muitas RGAs, nem sei bem o que lá se discutia, eu pasmava como aparecia aquela gente toda que fazia moções a propósito de tudo. Uma dessas vezes, RGA ou Plenário, nem sei, numa sala de um pavilhão, uma sala apinhada de gente, eu estava sentada num parapeito de uma janela, que no chão mal havia lugar, quando vi entrar um revolucionário, barbudo, guedelhudo, misto de ar de desportista e de guerrilheiro, talvez de cristo, lindo de morrer. E ele parou junto à porta, girou o olhar pela sala e o seu olhar deteve-se no meu. Foi tiro e queda - embora só um ano e tal depois a coisa se tenha concretizado pois eu nada sabia dele nem ele de mim e apenas raramente nos cruzávamos. Soube depois que tinha vindo de Coimbra e tinha pousado ali antes de transitar para outra escola.

No meio dos meses conturbados que se viveram na faculdade, numa cadeira em que meio mundo tinha chumbado, votaram para que houvesse passagem administrativa. Foi a única passagem administrativa do curso. Eu tinha tido 18 nessa cadeira e fiquei com 10, é minha nota mais baixa, e logo uma cadeira a que eu tinha achado tanta piada, toda ela bolas fechadas e bolas abertas. Não me importei embora tenha ficado com uma certa pena porque, em vez de ter beneficiado com isso, levei foi uma tareia. Mas nunca daí veio mal ao mundo. De qualquer forma, sendo um curso de gente marrona, acho que mal se deu pela revolução (tirando essa excentricidade da passagem administrativa), toda a gente continuou aplicada, a fazer trabalhos, a pôr o dedo no ar e a ficar no fim para tirar dúvidas com os professores. Eu não, nunca me encaixei naquele espírito, tinha muita revolução para curtir, teatro que não acabava, filmes uns atrás de outros, uma agitação boa, uma festa constante e muito amor no ar.




E depois veio a Alameda, o 25 de Novembro (outro dia animado na minha vida), e, aos poucos, a festa foi perdendo o perfume da revolução, as coisas aquietaram-se, perderam alguma graça, e, aos poucos, os burocratas começaram a instalar-se, e mais tarde veio o cavaco e foram vindo uns e outros e agora ainda estamos longe de ser uma democracia desenvolvida, somos ainda um país com os pés presos ao antigamente, muita gente pequenina, invejosa, mázinha, muita falta de golpe de asa, muito servilismo, muita gente a viver mal, na pobreza, na ignorância mas, ainda assim, a gostar de quem a maltrata e impede de voar.

Talvez ainda tenham que passar mais uns quantos anos para que aquele espírito de liberdade se volte a sentir de novo trazendo promessas de futuro no ar e que venha para ficar. Mas não sei. Cada vez parece que sei menos disto tudo. Mas sei que burocrata, apática, inerte, indiferente e egoísta isso não serei - nunca.

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As fotografias foram feitas há pouco. Os Ganhões de Castro Verde cantam "Grândola, Vila Morena"

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Permitam que vos diga que o relato do meu 24 de Abril deste ano está já aqui abaixo.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia 25 de Abril. 
E viva a liberdade!

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quinta-feira, janeiro 01, 2015

Feliz 2015. Alegrai-vos, alegrai-vos! E façamos com que o Novo Ano seja o ano de todas as boas mudanças! --- Comecemos com afecto e com poesia com asas: Escreve sempre que precisares.




Já cá tivemos em casa o réveillon, jantar à luz das velas, petiscos, animação, já fomos para a rua ouvir e ver de perto o concerto e os meninos andaram a desejar Feliz Ano Novo a toda a gente com quem se cruzavam, já vimos o fogo de artifício (de que aqui vos mostro algumas das fotografias que fiz apesar de não terem ficado famosas), e, de volta a casa, brindámos ao ano novo e comemos as uvas e as passas e batemos tampas de panelas às janelas e segurámos moedas e até nos pusemos em cima de cadeiras. 
Estou a falar no plural mas, bem entendido, houve quem não alinhasse nessa palhaçada e se mantivesse de pés em terra, sobriamente com o copo na mão. Mas eu não quero saber. Se me dizem que dá sorte e se não me parece coisa demasiado parva, eu faço. Este ano ouvi dizer que é bom começar o ano ao pé coxinho em cima da perna direita. Isso já me parece demais e claro que não o fiz. Agora o resto parece-me plausível e não estupidamente ridículo (enfim, só um bocadinho... mas desde que não me fotografem a fazer figuras, tudo bem).

E agora, duas e tal da manhã, todos os rituais cumpridos e depois do bailarico - porque também houve dança! - e com o pessoal que acampa cá em casa já devidamente adormecido ou em vias disso, venho aqui para vos desejar a vós um belo ano. 

Só pode ser melhor do que o malfadado 2014, e tem todas as condições para o ser - assim não vacilemos na hora de tomarmos decisões.

Claro que há coisas que não dependem da nossa vontade como é o caso da saúde ou poucas sortes do caraças como aquele trambolhão que dei no outro dia e do qual ainda não estou completamente refeita mas, enfim, para isso é que eu desejo sorte. Sorte para que a saúde não nos falte a todos, sorte para que não soframos acidentes, percalços, maçadas. 

E, quanto ao resto, haja alegria, crença, esperança, energia e determinação que haveremos de nos safar. (Andei às voltas com a palavra safar que me parece prosaica demais mas não me ocorre outra - deve ser do avançado da hora pois não pode deixar de haver um sinónimo decente para esta palavra)

Gostava de ser capaz de dizer coisas mais profundas ou de ser capaz de me lembrar de algum livro de onde tirar palavras inspiradas que fizessem mais sentido neste momento mas a verdade é que estou com muito sono (para variar...) e daqui a nada já sei como é, começa o pessoal a levantar-se e a cirandar pela casa e, para além do mais, tenho o almoço de Ano Novo para fazer e este pessoal é gente de muito alimento, não posso vacilar nem atrasar-me.

Por isso, meus Caros Amigos, desculpando-me por não ter tempo de responder individualmente aos mails e comentários, alguns com simpatiquíssimos presentes, e, por isso, agradecendo assim, de forma colectiva, fico-me por aqui, retribuindo os votos de bom ano.

Feliz Ano Novo!
Tudo de bom para vocês,  Caros Leitores de Um Jeito Manso, neste 2015 que promete ser um belo ano!


E alegrai-vos, alegrai-vos!


"Exsultate, jubilate" de Mozart interpretado por Julia Lezhneva 



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E, acabadinha de receber da Margarida - e da autoria de uma outra Margarida, a Margarida Ferra, via Expresso - e ainda quentinha de afecto, poesia com asas : Escreve sempre que precisares. Escreve sempre que precisares de me dizer que há gelo nas tuas mãos




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Que as palavras nunca nos faltem nem a coragem de as usar.

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quinta-feira, janeiro 02, 2014

O meu réveillon e o meu 1º de Janeiro de 2014


Bom, para coisas maçadoras, pífias ou fatelas, é favor descerem até aos dois posts seguintes. Não se zanguem porque não tenho culpa, quase me obrigaram a escrever o que escrevi.

Mas reconheço: não é maneira de começar um ano e, portanto, volto aos primeiros minutos e horas do primeiro dia de 2014, ano do Cavalo, animal que simboliza a liberdade, a paixão e a liderança.

*

Give peace a chance 

(todos os dias - porque Dia da Paz devem ser todos os dias e não apenas o 1º dia do ano)



*

Fico sempre hesitante entre começar o ano com passas ou com uvas frescas. Tenho ideia que a tradição fala em passas mas, tenho cá para mim que, mais auspicioso do que começar o ano a comer coisas secas é, começar a comê-las frescas. 

Por isso, por via das dúvidas, arranjei para cada um uma tacinha com doze bagos de uvas frescas e um embrulhinho de prata com passas. Quando estava a escolher os bagos de uva, pela mesma lógica, achei que o que deve dar mesmo sorte é serem uns big bagos. 

Não ligo patavina a superstições, a sério, mas acho graça a algumas parvoíces; e estas coisas da passagem de ano são dessas. Não é por achar que, por si, isso dê sorte: acho que é mais a intenção, a vontade de que dê certo, o começar o ano a fazer tudo o que for preciso (mesmo que sejam coisas parvas) para que tudo dê certo.

Ora, com a cena de bater as tampas dos tachos à janela para mandar à vida o ano velho (cá em casa fui só eu, mas, ao mesmo tempo, a rua era percorrida por exércitos de gente animada, ruidosa, todos armados de tampas, tudo a afugentar o malfadado 2013), com o ter a máquina fotográfica a postos para o fogo de artifício, com o estar em cima de uma cadeira (esta não sei explicar a lógica mas sigo-a na mesma) e mais ter dinheiro na mão, e mais a agarrar no copo para brindar - e porque não fui a única distraída - só começámos a comer as uvas já só faltavam uns 8 ou 9 segundos para a meia noite.

Vai daí, estão a ver: teve que ser à pressa para ver se recuperava o atraso. Ora, a correr, conseguem comer-se 12 passas. Mas 12 bagos quase do tamanho de ameixas...? Senhores...! Já me escorria o sumo por todo o lado. Quem é atinado e leva as coisas a sério, concentra-se na tarefa e leva-a facilmente a bom porto. Agora gente estabanada como eu...? Só me dava vontade de rir. A boca a transbordar de uvas, o sumo a escorrer... Se abria a boca para rir à gargalhada, saíam-me as uvas disparadas. Tive que tentar mantê-las dentro da boca com a ajuda da mão, e chorava, chorava a rir. De pé em cima da cadeira, quase me dobrava de tanto rir, tão ridícula percebia que era a minha figura. Aliás, todos nos ríamos, uns mais exuberantemente, outros mais reservadamente.

Mas pronto. E fazer o brinde assim perdida de riso e de boca cheia...? Não vos digo nada.

Devia esperar mas, se o fizesse, perdia o momento. O brinde deve ser feito no raiar do ano novo, não é? Por isso, a fazer um esforço danado para, com o riso, não espirrar a bebida por todo o lado, com as lágrimas da risota a escorrer, lá consegui, a custo, fazer o brinde. E lá o fiz e lá desejei para mim, para os meus e para todos que 2014 seja um belo ano. E será.



A room with a view - ou o céu da minha janela aos primeiros instantes de 2014


O fogo de artifício foi lindo como sempre. As duas margens do Tejo, Lisboa e Almada, unidas e em festa. Os céus apoteóticos. Adoro ver o fogo de artifício de perto (mas nunca fui capaz de me pôr mesmo por baixo, tenho medo, receio sempre que uma cana a arder me caísse em cima, sei lá, não deve cair mas sou um bocado medrosa para estas coisas).

Depois o dia foi outra festa. 

A casa cheia de brincadeiras, alegrias -  virada do avesso, mas fazer o quê? 

O meu marido quer que se imponha alguma disciplina para não mexerem em tudo. Mas, quando é desafiado a intervir, nunca é bem sucedido.

Como é tal possível quando uma tem 3 anos, outro 2 e outro 1? O mais crescidinho (5) ainda se entretém de vez em quando com coisas mais compenetradas mas a verdade é que, entre os quatro, se gera uma tal dinâmica que, a menos que se prendam, não se consegue muito mais do que tentar que não se magoem.

Hoje uma das brincadeiras foi com livros. 

Trepavam por um sofá para irem para cima de uma estante baixa. E um dizia que era o rei, ela a rainha, o outro o príncipe e o mais pequeno recebeu o título de pajem. E cada um ia buscar um livro para a coisa ficar mais credível. Na cabeça deles, os reis e rainhas são gente de muita leitura. 

Tirei-lhes umas fotografias engraçadíssimas, haviam de ver. Mas estão de frente e, claro, não os quero mostrar aqui. 

Mas mostro alguns momentos para vocês perceberem o ambiente de brincadeira.

O bebé é que ainda não capta bem as subtilezas das brincadeiras dos outros e alinha só pela paródia de os imitar. 

Mas, nos intervalos, desenfia-se e brinca com o que apanha, fazendo a festa a solo. 

Na véspera, desencantou um chapéu meu e andava a pô-lo pela cabeça abaixo e a tirá-lo, rindo à gargalhada que dava gosto ouvi-lo.

E, portanto, foram dias felizes. 

E comidinhas boas - e o que eu gosto de cozinhar para ter uma mesa cheia de coisas que os outros apreciem. 

Desta vez a ementa foi na base do brunch. 

Salmão fumado, tostas, salada de tomate com mozzarella, patés, gambas cozidas, salada de ovas de bacalhau, tortilha à minha moda (ovos mexidos misturados com esmagada de batata e salsa, sobre cama de cebola estrugida), terrina de enchidos (cama de pão tostado, camada de maçã às rodelas e, por cima, farinheira de porco preto e alheira de caça, tudo levado ao forno para os enchidos ficarem estaladiços e pingarem sobre a cama) e, como quente, arroz rico de carnes e legumes levado ao forno. Doces variados e vinho branco bem fresco.

E, portanto, com um começo de ano tão feliz, acho que tenho mesmo razão para estar optimista. Mesmo que seja contra ventos e marés, acho que me aguentarei esperançada no futuro dos meus amores e dos meus amorzinhos, e, portanto, também no futuro do meu País. As coisas irão ficar melhores, todos juntos conseguiremos fazer um futuro melhor. Tem que ser.


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Relembro que abaixo há mais. Num dos posts falo de como um Leitor acha o Um Jeito Manso um blogue assim-assim, com o título mais pífio e com o sub-título mais fatela (e está no direito de achar isso, ora essa) e, depois, falo no discurso de Cavaco Silva dirigido a um certo coelho que, cá para mim e do que vi, estava escondido atrás da cortina.

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Entretanto, permitam ainda que vos convide a visitarem o Ginjal e Lisboa onde hoje há teatro, mais concretamente Gil Vicente. E só vos posso dizer que isto anda tudo ligado.

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E, assim sendo, por agora por aqui me fico. Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta e feira e, uma vez mais, porque nunca é demais, um maravilhoso 2014.


quinta-feira, abril 25, 2013

Neste 25 de Abril, pergunto: Valeu a pena? - E respondo: Valeu. (Mas quem disse que deveríamos deitar-nos e permitir que os velhos tempos avançassem de novo sobre nós? Ninguém disse, pois não? Então, porque o permitimos? Está em nós levantarmo-nos e lutar pelo nosso futuro). Nossos são todos os caminhos.


Virei-me para eles, então, e não sei qual foi a expressão estampada no meu rosto - raiva, dor, medo - mas levantaram ambos os olhos para mim, alarmados, e um deles começou a avançar na minha direcção como que para me impedir de dizer o que eu queria dizer a seguir. Recuei para longe deles, devagar, e pus-me a um canto. No início, sussurrei e depois falei mais alto e, quando ele se afastou de mim e quase se acobardou a um canto, sussurrei novamente, devagar, com cuidado, usando todo o meu fôlego, toda a minha vida, o pouco que me resta dela.

- Eu estive lá - disse. - Fugi antes do fim, mas se querem testemunhas, eu sou uma delas e posso dizer-vos que, enquanto vocês afirmam que ele redimiu o mundo, eu direi que não valeu a pena. Não valeu a pena.



Fogo de artifício sobre mim, há pouco


Direi eu também, acerca do 25 de Abril, que não valeu a pena? Não, não direi.

Valeu a pena. O obscurantismo, a censura, a falta de liberdade, a consciência vigiada - isso acabou. O analfabetismo, a mortalidade infantil - indicadores humilhantes que ultrapassámos.

Mas os tempos hoje são de retrocesso. Aliás cedo se começou a retroceder. A ilusão inocente dos primeiros tempos não resistiu à mediania que cedo se começou a instalar. Nada avança mais rapidamente que uma mancha de fraqueza, que uma nódoa de ignorância, que um lodo malsão de mesquinhez e ganância. 

Contudo, apesar dos passos há muito vacilantes, nunca se retrocedeu tanto como nos últimos tempos. A democracia vai definhando às mãos de gente que não sabe o seu significado, a liberdade é um bem ameaçado às mãos de quem retira a autonomia económica a tanta gente.

Deixámos com ingénua benevolência que a mediocridade alastrasse na sociedade e agora somos vítimas dos actos vis e ignorantes daqueles que deixámos que medrassem.



Pontos de luz rasgando os céus neste 25 de Abril de 2013


Mas que não nos resignemos, que não nos acobardemos. Somos muitos. Temos força. Temos a força da razão. Saibamos unir-nos e valorizar o que temos de melhor: uma história, uma cultura, uma valentia, uma geografia variada e bela, um humanismo afável. 

Quando nos disserem que não há alternativa e quiserem passar sobre os nossos corpos vergados, saibamos levantar-nos e responder que sobre nós não passarão. E que há sempre alternativas porque nossos serão sempre todos os caminhos.

O 25 de Abril bate no meu peito e, por isso, enquanto eu viver, nunca o deixarei morrer. As minhas armas não são muitas e têm todas cravos no local por onde deveriam sair as balas mas usá-las-ei todos os dias para que o futuro esteja de novo ao alcance das nossas mãos.



25 de Abril de 2013


Até lá, quando acordo à noite, quero mais. Quero que o que aconteceu não tivesse acontecido, tivesse tomado outro rumo. Quão facilmente poderia não ter acontecido! Quão facilmente poderíamos ter sido poupados! Não teria sido preciso muito. 

A ideia da existência dessa possibilidade invade o meu corpo agora como uma nova liberdade. Dispersa a escuridão e afasta o sofrimento. 

É como se um viajante, cansado de dias e dias a caminhar num deserto seco, um lugar destituído de sombra, chegasse ao cume de um monte e visse lá em baixo uma cidade, uma opala incrustada em esmeralda, cheia de abundância, uma cidade cheia de poços e árvores, com um mercado pejado de peixe e caça, os frutos da terra, laranjas, figos, limas, azeitonas, um lugar repleto de cheiros a cozinhados e especiarias.

Começo a descer em direcção a ela ao longo de um carreiro suave. (...) A toda a volta, silêncio e uma luz balsâmica e esmorecente. É como se o mundo se tivesse soltado, como uma mulher que, preparando-se para se deitar, desprende os cabelos. E eu sussurro as palavras, sabendo que as palavras são importantes, e sorrio enquanto as digo às sombras dos deuses deste lugar, que se atardam no ar para me ver e escutar.



Luzes e cores como cravos de Abril subindo nos céus

*

Os textos a itálico são pequenos excertos do livro O Testamento de Maria de Colm Tóibín (de que já tinha falado no post que escrevi a propósito do Dia do Livro)

As fotografias foram feitas por mim pouco depois da meia noite, quando o fogo de artifício iluminou o céu sob o qual eu estava.

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Se quiserem mais um cheirinho a Abril, convido-vos a virem até ao meu Ginjal e Lisboa, a love affair onde falo da pobreza em Portugal e na Grécia e da força que deveremos deixar crescer dentro de nós, marchando ao lado de Hélia Correia. Na música, Sérgio Godinho lembra-nos que hoje é o primeiro dia do resto da nossa vida.

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E, por agora, nada mais. Desejo-vos, meus Caros leitores, um belo 25 de Abril. Sempre.

domingo, janeiro 02, 2011

Tempus Fugit - por isso, façamos la Fête

As primeiras medidas de contenção vão começar a sentir-se em 2011. Em 2010 falou-se muito de crise mas, com excepção das pessoas que tiveram o infortúnio de cair no desemprego, pouca austeridade se sentiu em 2010.

Contudo, 2010 foi um ano de susto, de decepção, e de prenúncio do que aí vem. Andamos desconfiados, descrentes, preocupados.

Por isso, há razão, sim, para quem se despede festivamente de 2010: não se querem cá mais desilusões, demonstrações de como o futuro de todos está tão dependente de quem não sabe cuidar dele, não gostamos de quem nos acorda do sonho que era a vida fácil, não gostamos de mensageiros assim e por isso ficamos aliviados por 2010  ter chegado ao fim.

Mas não é só 2010 que chega ao fim. É mais um ano que passa.

É o tempo a passar; e como passa depressa.

Por isso, saibamos vivê-lo mesmo na adversidade.

Não o deixemos fugir.

2010 quase a ir-se embora. Tempus fugit.

Le roi est mort, vive le roi.

Num ano que se antevê difícil, com menos poder de compra, com o dinheiro a escassear (os bancos estão a querer reaver o dinheiro emprestado às empresas, estão a aumentar o seu custo, e não é fácil arranjar novos empréstimos), com as empresas a vacilar, com o Estado na penúria, há que repensar a nossa forma de viver e de pensar.

Sejamos lúcidos, sejamos exigentes, sejamos criativos, sejamos optimistas e sejamos lutadores.

(Fogo de artifício sobre o Tejo, unindo Almada e Lisboa)

Milhares de pessoas em festa aplaudiram e festejaram o fim de 2010 e o início de 2011


Podia ter colocado um video do Baile Popular ou dos Xutos mas foi La Fête de Rodrigo Leão que aqui me apeteceu colocar - Séche tes larmes, Viens chanter l'amour, Prends la vie, Fais la fête.

Vivamos a vida, vivamos 2011, e, apesar de tudo, saibamos fazer a festa.



La Fête de Rodrigo Leão com a voz de Ana Vieira


Viens, fais la fête
Viens dancer toujour 
Célébrer l'amour

Séche tes larmes
Regarde autour de toi
Souris a n'importe quois

Il faut toucher les choses
Bois ton vin
Sens tes roses

Suis les mots, du poète
Prends la vie
Fais la fête

Viens, vis la valse
Vis l'éclat des jours
Viens chanter l'amour

Ouvre tes portes
Reçois la vie chez toi
Gonfle ton coeur de joie

Il faut toucher les choses
Bois ton vin
Sens tes roses

Suis les mots, du poète
Prends la vie
Fais la fête

(Letra de La Fête de Rodrigo Leão, segundo transcrição da net)


De novo, a todos, feliz 2011.