Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, setembro 14, 2018

Não faz mal, eu também nunca tinha ouvido falar no Rei Vamba




O castelo supostamente amaldiçoado e de que ontem falei é o chamado Castelo do Rei Vamba que também é conhecido por Castelo de Ródão e Castelo da Vila Ruivas.


Transcrevo da Sapo Viagens
Na verdade não é um castelo mas sim uma torre de vigia que desempenhou um papel importante devido à sua localização. D. Sancho I doou a torre aos Templários no séc. XII e nesta fase funcionava para vigilância dos mouros.
Séculos depois, nas invasões francesas, serviu como posto de artilharia.
Eleição de Vamba como rei - Francisco de Paula Van Halen, 1843.

Sobre Vamba, supostamente nascido em Penamacor em 643, transcrevo da Wikipedia:
Após Recesvinto, Vamba foi eleito rei. Teve que lidar com revoltas em Tarraconense, e devido a isto, sentiu a necessidade de reformar o exército. Aprovou uma lei declarando que todos os duques, condes e outros líderes militares, bem como bispos, tinham que vir em auxílio do reino uma vez que a ameaça fosse conhecida, com perigo de severa punição. Vamba foi finalmente deposto num golpe.
Mas onde podemos conhecer os fantásticos amores e desamores do rei é em Contos Populares e Lendas dos Cortelhões e dos Plingacheiros de Francisco Henriques, Vila Velha de Ródão, Associação de Estudos do Alto Tejo, 2001
Vamba, rei suevo ou visigótico, fundou o castelo de Ródão, onde vivia com sua mulher, filhos e restante corte. Por força das andanças de caça e guerra ficava a rainha encarregue do governo, o que a levou em determinada altura a falar com o rei mouro que governava na outra margem. Namoravam sentados em cadeiras de pedra situadas numa e noutra margem das Portas. O namoro foi prolongado, como prolongada seria a ausência do rei, até que a rainha, de amores perdida, resolveu abandonar o seu rei e castelo e acolher-se à capital do rei mouro. O rei Vamba conhecedor destes amores, que uniam as margens do grande rio, mas furioso pelo desconchavo, muito prudentemente urdiu o estratagema necessário ao resgate da sua rainha. De combinação com os seus guerreiros e filhos, por caminhos ínvios, de forma a não ser detectado pelos espias do rei mouro, dirigiu-se para a sua capital, em cujas proximidades se esconderam com a prévia combinação que ao seu toque de trombeta lhe acudissem.  


Disfarçado de peregrino, entrou no castelo do rei mouro, pedindo esmola, chegando a falar com a rainha sua mulher. Esta, ao reconhece-lo, fingiu ser prisioneira e escondeu-o no próprio quarto, avisando o rei mouro do mesmo. O rei Vamba, feito prisioneiro, pediu à generosidade do seu inimigo que lhe concedesse tocar pela última vez a sua corna. Tocou, tanto tocou, que os seus companheiros, já de atalaia, lhe acudiram, derrotaram o exército, mataram o rei mouro e trouxeram a rainha para o castelo de Ródão.  

Julgada pelo conselho e por sugestão do filho mais novo, foi a rainha condenada a ser atada a uma mó de moinho e despenhada pela íngreme encosta para o Tejo, dizendo-se, ainda hoje, que por onde o corpo rolou nunca mais cresceu mato.  

A rainha, ao saber de tão cruel castigo, teria proferido: 

Adeus Ródão, adeus Ródão, 

Cercada de muita murta 

E terra de muita puta. 
Não terás mulheres honradas 
Nem cavalos regalados 
Nem padres coroados

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E uma coisa tenho eu a dizer: Vila Velha de Ródão vale bem uma visita, é linda

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quinta-feira, setembro 13, 2018

Era uma vez um castelo que dizem amaldiçoado


A rainha, ao ser atirada escarpa abaixo, rogou a a maldição eterna que dizem que dura até aos dias de hoje:

Cercada de muita murta,
E terra de muita puta,
Não terás mulheres honradas,
nem cavalos regalados,
nem padres coroados

Já lá vão mais de mil e trezentos anos. À sua volta a paisagem é desoladora, tudo ardido. 


Ergue-se no topo e de lá a paisagem é estonteante. Mas, quando os amores são fortes, não há arvoredos, rios serpenteando por entre rochedos, não há azul das águas ou dos céus ou gritos dos grifos que aquietem os apelos do coração. 

Um rei mouro de pele tisnada e sangue quente desafiou o domínio de outro rei, escavou a rocha, abriu túneis sob o leito do rio, construíu labirintos onde dar largas à sua paixão. A rainha não conseguiu resistir a tanta bravura e tentação.

Ora os ciúmes nunca foram bons conselheiros. O rei despeitado rapidamente pôs fim a tanto amor. 

A tragédia acabou com a paixão proibida.


E a maldição ficou inscrita no lugar. O ano passado o fogo voltou a destruir o arvoredo e, se bem que já teime em despontar de novo, é ainda um castelo triste e solitário que se eleva acima das cinzas. Reza a lenda que, por onde o corpo rolou, nunca mais cresceu mato.


Lá em baixo o rio corre -- tranquilo e indiferente como são sempre as coisas e as pessoas muito belas.


segunda-feira, novembro 13, 2017

Sobre o drama do jantar do Web Summit no Panteão...?
Falo nisso, sim senhores, mas falo também de uma política feita por betos e timoratos e de um jornalismo de meia tigela feito por papagaios e santinhos





Começo por dizer que nunca fui ao Panteão. Não é por nada, é só porque, se calhar, ainda não calhou. Ou melhor, não. Acho que deve ser porque sinto uma certa falta de chamamento por parte de lugares assim. Não curto. Há quem goste de cemitérios, castelos assombrados, e se pele por andar a ver jazigos e tal e coisa. Eu não. Tenho ideia que o único em que não me senti um bocado a atirar para o incomodado foi naquele tão bonito e arejado na Normandia, o cemitério dos aliados, um relvado imenso com cruzes brancas e o mar ali tão perto. Mas, tirando isso, passo bem sem andar por lugares assim, onde há por lá gente que já foi um ar que se lhe deu. 


Sei que quem está no nosso Panteão é gente a quem o país deve bastante -- embora antes fosse uma coisa mais reverencial e agora, tendo sido aberto a futebolistas e fadistas, a coisa tenha dado uma guinada para o lado mais popular da reverência. Mas sem drama, a mim tanto me dá tanto já que quem lá está não protesta e, como também não vou lá, acaba por me dar igual.


Dito isto: não me choca que os monumentos sejam usados para eventos desde que, os que os usam paguem bem, não estraguem nada, deixem tudo limpinho, não prejudiquem a normal utilização dos espaços e não pratiquem, lá, actos que atentem contra a dignidade do lugar. Por exemplo, fazer no Panteão um festa do Halloween, andando por lá aos gritinhos, a pregar sustos e partidas, vestidos de bruxas e fantasmas, parecer-me-ia coisa um bocadinho atrevida. Mas isso sou eu. Na volta, os mortos também não se ralavam nada com isso.


Mais. Como disclaimer devo dizer que já participei numa cena no Palácio de Queluz, noutra no Museu do Azulejo e provavelmente noutros lugares do género -- e gostei. E acho muito bem que o Estado obtenha receitas fáceis para melhor conservar o seu património. Mil vezes isso do que os monumentos não poderem ser restaurados ou, então, por falta de pessoal, fechem aos dias feriados ou que, no verão, não fiquem abertos até às dez da noite. Por exemplo.


Deverei, contudo, dizer que, se me convidassem para um jantar no Panteão, acharia uma coisa de um certo mau gosto mas, do que ouvi, não foi no meio dos túmulos e, às tantas, quem lá esteve, nem se apercebeu de simbolismo do lugar. 

Resumindo: quem escolheu o lugar revela, cá para mim, alguma falta de bom gosto (o que não me espanta já que acho que aquela fauna que circula em torno do Web Summit me parece meio deslumbrada e a kind of desligada de cenas históricas e filosóficas) mas, de facto, não vejo drama de maior. Melhor: nenhum drama.


Onde vejo mal, mas mesmo mal a sério, é que a malta, como sempre, mal acontece alguma coisa mais fora da caixa, se transforme, de imediato, num grupo coral de beatas e virgens ofendidas. E depois é ver quem se mostra mais indignado, quem fala mais alto, quem põe o ar mais censor. Enjoa-me isso. Mas enjoa-me completamente. Como se não houvesse mais assunto nem maior mal à superfície da terra aí anda meio mundo a pregar contra o sucedido. Uma náusea.

Enjoa-me. Enjoa-me que, sobre uma coisa acertada (foi o Governo do Láparo, sim, mas, no meio da imensa porcaria que fizeram, uma ou outra coisa haveria de se aproveitar), agora andem todos a apontar o dedo uns aos outros. 

E depois os jornalistas, comentadores e demais papagaios...? Tudo, de imediato, quais abutres sobre a carniça, tudo a debicar no tema. Os mortos lá tão sossegados e sem protestar e estes urubus todos a piarem como viúvas negras. Um enjoo. Ainda há pouco. Fiz logo zapping. Um jornalista travestido de comentador com ar de diácono remédios a zurzir na ideia de alugar espaços em monumentos para eventos de natureza não cultural. O que é que aquele badameco sabe de alguma coisa para poder avaliar o que quer que seja? Imaginará ele o orçamento que seria necessário para manter e restaurar todo o nosso património? Saberá ele quanta coisa importante tem que ser deixada de lado por falta de verba? Passar-lhe-á pela cabeça o jeitão que os milhares de euros que se podem averbar numa única noite pode dar para fazer as obras ou pagar ao pessoal para que melhor se possa dignificar o nosso património?



Em vez de fazerem trabalho sério, irem ver como é nos outros países ou de puxarem pela cabeça e verem as vantagens e desvantagens das medidas, não senhor, é tudo a saltar a pés juntos sobre a coisa. Um enjoo de pseudo-jornalismo.

Com políticos e jornalistas destes nunca mais o país sai da parvónia. Tudo preso ao politicamente correcto, tudo uns atadinhos da cabeça aos pés. Um bafio, credo.

E digo políticos porque, regra geral (ou seja, salvo raras excepções), na craveira e no comportamento,  andam a par dos jornalistas. Aliás, parece que vivem a medir palavras para ver se não caem no goto de algum avençado feito jornalista ou comentador. Ou meio tolos ou meio cobardolas. Uma saturação, isto. É que, que eu tenha visto, não apareceu um político que os tenha no sítio e tenha ousado ir contra a corrente. Tudo a pregar contra, tudo indignado face ao dramalhão.

Gaita. Isso, sim, chateia-me.

Agora que os geeks, os late yuppies e alguns putativos empresários tenham ido papar um jantareco no meio do Panteão isso não me chateia nada. Nada mesmo.


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Imagens de: 

Panteão Nacional, Palácio de Queluz, Mosteiro dos Jerónimos, Museu do Azulejo, Palácio da Ajuda


Propositadamente, o Space Oddity, não tem lá muito a ver com a grandiosidade e simbolismo dos monumentos que aqui se mostram -- mas também não lhes faz dói-dói.

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domingo, setembro 11, 2016

Atenção, hoje não é terça-feira...
[Apontamentos diarísticos e evocação do primeiro blogueiro de viagens, Pêro Vaz de Caminha]



Tive que ver aqui no computador o calendário para saber o dia da semana. Tinha ideia que era fim de semana mas não estava segura de ser sábado. A boa vida dá nisto.


De manhã, andei de passeio e a fotografar pela beira do mar. Depois, numa esplanada, vagaroso almoço mediterrânico na base do manuri, figos, alface, feta, mel, pêra, beterraba, iogurte, azeitonas, vinho doce a servir de tempero, orégãos -- coisas assim.

De volta a casa, seguiu-se o sagrado descanso pós-prandial e, depois de despertar do reparador sono de beleza, acabei o post sobre as peças de mobiliário e os apetrechos que me poderão proporcionar um suave reingresso no horário laboral e no ambiente de escritório e que, bem vistas as coisas, são sugestões da maior utilidade para toda a gente, mesmo para quem já não trabalha ou trabalha num outro qualquer ambiente profissional que não, estritamente, o de escritório.


Ao fim do dia, de novo para o laré: reunião plenária num café do mais castiço que há em torno de caracós, caracoletas grelhadas, moelas estufadas, pregos e bitoques para os mais pequenos.

Regresso a casa já de noite. Ligeiras arrumações, depois uma peça de fruta, uma gelatina sem açúcar, um saracoteio aqui e ali... e sala. Claro que, com este dolce fare niente, ando desfasada da realidade. E é que já nem tenho grande curiosidade em ir espreitar as notícias. Parece que o mundo, no dia a dia, se organiza para valorizar o lado negativo, azarado ou mesquinho da vida. Quase em vão, ponho-me à procura de descobertas científicas, obras de arte, visões espantosas da natureza; mas os media insistem em fustigar-nos com acidentes, desgraças, notícias que tendem a deprimir quem as lê. Não é que queira alienar-me mas há um desequilíbrio tremendo entre as notícias, reportagens ou crónicas sobre acontecimentos ou coisas agradáveis e as que escorrem sangue, ameaças, medos -- estas em catadupa.


Pensei: vou agarrar-me à Odisseia. Mas não sei se, de facto, é da tradução (do Frederico Lourenço) ou se é mesmo do Homero, passo a vida a dar com passagens que me incomodam, trechos que me soam a historieta do mais vulgar que há, uma coisa que parece que perdeu a alma poética pelo caminho. Portanto, como tantas vezes acontece, pus o livro de lado, e, na maior indolência, pus-me a passar fotografias para o computador e talvez daqui a nada componha um post com uma breve reportagem relativa ao passeio matinal.
Mas, ao escrever isto, hesito, temo que vocês se cansem com esta profusão de posts e todos sempre tão grandes. E as minhas fotografias interessarão a alguém? Gostava, a sério que gostava mesmo, de conseguir ser contida, três ou quatro linhas por dia, e tudo dito. Mas comigo é isto que se vê, uma infindável torrente.
Bem, já sei. Para não vos maçar com um post só com fotografias, escolho umas quantas e intercalo-as aqui. Um belo pot-pourri este post -- aliás, como é costume.

Será que em França estas quase burkas para homens seriam permitidas?

A seguir, enquanto vejo um programa interessante na RTP 2 sobre Ópera (ou bailado? não estou lá muito atenta, mas agora está num bailado bem bonito), pus-me a espreitar as sugestões do YouTube.

E, como sempre, é um mundo que se abre. Poderia ter optado pela cantoria ou pela dança ou pela arte mas comecei pela Porta dos Fundos. E, por enquanto, por aqui me fico para partilhar convosco este momento da história do nosso País.


Pero Vaz pela Porta dos Fundos



Pero Vaz de Caminha foi um vanguardista. O autor do primeiro registro escrito da história do Brasil trabalhava explorando o mundo de graça em troca de produzir relatos. Pode-se dizer que ele é o primeiro blogueiro de viagens que se tem notícia, uma espécie de Bruno de Luca da corte portuguesa, conhecido até os dias de hoje por seu estilo único de contar os fatos.




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E, se ainda não viram e se ainda não estão fartos da minha prolixidade, continuem descendo que há para todos os gostos: peças de decoração extremamente úteis, uma troika customizável e uns bolos que parecem elegantes peças de design, etc.

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E ainda tinha para aqui em mente mais uma mas não sei se me deixe estar quieta ou se a faça.

Portanto, não sei se é até amanhã se é até já.

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quinta-feira, janeiro 21, 2016

Lembrando os Descobrimentos - Pedrão e o Índio


Depois da abundância de posts de ontem à noite sobre a campanha eleitoral (para quem ainda não viu, é fazer o favor de descer) e tendo já dito de minha justiça sobre o cabeludo, o artolas, o zelig, a pimpolha e outros, hoje apetece-me fazer a agulha, partir para outra.

Portanto, com vossa licença, vamos lá.
Em 22 de Abril de 1500, Pedro Álvares Cabral desembarcava na Bahia para descobrir o Brasil. Se bem que não foi bem isso já que os nativos já estavam por aqui. No primeiro momento é aquela coisa, tudo é novidade, engraçado e bacana. Mas com o tempo essa graça vai se perdendo. É que existe um limite tênue entre visita, inconveniência e colonização.

Descobrimento segundo a Porta dos Fundos




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domingo, maio 24, 2015

À noite há figuras de luz a vestirem o Terreiro do Paço


Na sexta à noite fomos - com os meninos, pois claro - curtir a night de Lisboa. Do Mercado da Ribeira fomos até ao Terreiro de Paço onde ia haver festa. Depois contámos em voz alta os segundos a decrescerem até que o espectáculo começou. Se inicialmente os meninos se tinham sentado no chão, logo se ergueram para verem melhor as metamorfoses que o belo edifício que tem ao meio o arco da Rua Augusta ia sofrendo. Uma maravilha de luz e som. E todos (ou melhor, quase todos) nos balouçámos ao som da música, e todos vibrámos com os edifícios que pareciam desmoronar-se ou com o polvo gigante que parecia querer devorar o mundo para logo nos sossegarmos e alegrarmos com o ressurgimento da vida, da história.

Muito bom. As fotografias não fazem jus à qualidade do espectáculo mas a questão é que não fui prevenida com a minha machine e, portanto, tive que me socorrer do telelé.









Encontrei no Publituris a seguinte informação:

É já esta sexta-feira que estreia o espectáculo multimédia “Lisboa, Cidade do Mar”, pelas às 21h30, no Terreiro do Paço.


Dos Descobrimentos às provas náuticas, dos pregões das varinas às embarcações de pesca, do património às actividades de lazer, o ritmo da cidade confunde-se com o das próprias ondas no espectáculo multimédia “Lisboa, Cidade do Mar”, que será projectado na fachada do Arco da Rua Augusta, até ao dia 31 de maio, no Terreiro do Paço.


Com sessões diárias, de entrada livre, às 21h30, 22h30 e 23h30, o espetáculo faz uso de imagens realistas alternadas e misturadas com animações 2D e 3D, numa viagem sensorial. Da autoria Oskar & Gaspar, o espetáculo multimédia “Lisboa, Cidade do Mar” é uma iniciativa da Associação Turismo de Lisboa, em parceria com a EGEAC e a Câmara Municipal de Lisboa.



Não encontrei no youtube o espectáculo deste ano mas não faz mal, coloco aqui o de há dois anos que também foi fantástico.




Depois fomos até ao Cais das Colunas mesmo junto à água, e depois fomos andando pelo passeio ribeirinho e o avô, que adora história e sabe tudo o que há para saber sobre qualquer assunto e que tem uma memória prodigiosa para essas coisas, começou a contar coisas dos Descobrimentos e os meninos ficaram encantados e fizeram mil perguntas, e fomos ver os carros da marinha e andámos pelo relvado inclinado e vinha um fresco tão bom do rio e eles 'e conta outra descoberta, avô' e mil perguntas sobre cada coisa e o avô, que não é de muita conversa, estava todo contente pelo interesse que os meninos mostravam pela história de Portugal e falou-lhes dos espiões do rei, da vela latina e do sextante e da escola de Sagres e do mostrengo que afinal não existia e de quão corajosos foram, então, os portugueses. Mas disse também que infelizmente o País nunca soube aproveitar capazmente o fruto de tão grandes feitos - mas disse-o en passant e os meninos, felizmente, nem deram por isso senão seria difícil entrar em pormenores.

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sexta-feira, maio 01, 2015

Festival dos Descobrimentos em Lagos


O património cultural de um país como Portugal, para além do óbvio interesse em termos de identidade nacional e de ser uma base sólida para o desenvolvimento, é também uma fonte de rendimento interessante e um atractivo para o turismo.

Felizmente as cidades estão hoje atentas a essa realidade e os resultados são visíveis.  As cidades ganham vida, alegria, as ruas têm uma vida que chama mais gente.

A feira que decorre em Lagos, dedicada ao período dos descobrimentos, é disso exemplo. Uma animação não apenas no largo onde está instalada mas um pouco por toda a cidade, especialmente porque, por todo o lado, se vê gente vestida segundo a moda medieval despertando natural interesse.


















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A música é do tempo dos Descobrimentos* - "Si tantos monteros" (vilancete) - Anónimo.
Segréis de Lisboa - direcção de Manuel Morais. Coro da Câmara de Lisboa-direcção coral de Teresita Gutierrez Marques.


[Nota: Se alguma das pessoas que aparece nas fotografias não pretender que a fotografia aqui figure, peço que me escreva a pedir isso que, logo que possível, a retirarei]

quarta-feira, abril 15, 2015

"Em memória de uns Pais" - a palavra ao Leitor Vítor Manuel


No post já abaixo tenho um vídeo que mostra o que terá sido a tragédia brutal de 1 de Novembro de 1755 em Lisboa. Interessante.

Mas isso é a seguir. Agora a conversa é outra.


Aqui há tempos divulguei (depois de devidamente autorizada, claro) o conteúdo de um mail que recebi de um Leitor que muito estimo no qual ele me contava memórias do tempo da guerra colonial.

Nessa altura, o Vítor Manuel falou-me também nos seus tempos de menino e moço até à ida para a guerra. Fiquei curiosa e, por isso, quando recebi agora o mail relatando esses tempos, pedi autorização para também aqui o divulgar. Cá está, então. A escolha das fotografias é de minha lavra pelo que espero que as tenha escolhido bem. E daqui envio o meu sentido agradecimento ao Vítor por partilhar comigo as suas memórias e me autorizar a divulgá-las.


Meu amigo está longe




Recordações, tristes, do tempo do Estado Novo

Ano de 1944:

Um jovem de 21 anos, oriundo de Lisboa, chega à antiga aldeia de Venda Nova, mais de 500 Kms a Norte - actualmente submersa e reconstruída em cota superior - deixando noiva na Capital.

Tinha concluído o Curso da antiga Escola Industrial de Afonso Domingues  a que se seguiu uma Especialidade em "Betões para Grandes Infra-Estruturas" e o cumprimento do Serviço Militar Obrigatório em Artilharia Pesada em Sacavém e Vendas Novas .

Consciente de que a carreira profissional, estável e de acordo com os conhecimentos adquiridos, exigiria sacrifícios e “mobilidade" (como agora soi dizer-se) concorreu a um lugar no Estado.

Logrou obter a colocação de "Encarregado de Laboratório" no então "Gabinete de Fiscalização dos Grandes Aproveitamentos Hidro-Eléctricos do Sistema Cávado-Rabagão".


Ano de 1945:

Casamento, em Lisboa, a 15 de Julho e, uma semana após, regresso - já com a jovem esposa - à Barragem de Venda Nova. Não foi fácil a adaptação da nubente!


Ano de 1946:

A 15 de Julho, em Lisboa e em casa (junto à Praça do Chile) e após muitas horas para parto, nasceu o filho varão. (A "régua de cálculo" que sempre acompanhou o Progenitor terá ajudado nas contas e desejo de um filho o mais rápido possível… ).

A jovem Mãe, 21 anos completados dez dias antes (com aperto mitral desde muito jovem) ficou bastante debilitada mas, naturalmente, imensamente feliz.

Passado um mês, os Pais colocaram a alcofa no banco traseiro de um Ford Anglia de muitos poucos cavalos e três velocidades e rumaram à Barragem de Venda Nova.

A viagem constituía uma verdadeira aventura e suplício: partida pelas 7 horas e chegada para cima das 22 com o itinerário pela antiga Estrada Nacional 1. Paragem para almoço em Coimbra e para jantar em Braga.

A partir de Braga, 16 Kms de estrada em paralelepípedo até ao cruzamento para Vieira do Minho após o que vinha o inferno final… em terra batida e dezenas e dezenas de curvas e contra-curvas. Não era nada fácil!

A recuperação da jovem Mãe prolongou-se por duas semanas (a fadiga e os efeitos da diferença de altitudes assim o exigiam). Depois, o muito pequeno "pimentinha " (permita-me usar o seu delicioso termo) foi crescendo e desenvolvendo-se.

Uma vez por Ano, na quadra natalícia, vinha-se até Lisboa para passar a Consoada e Fim de Ano com os Avós e Tios.

Por vezes, ficava vazio o lugar do Avô paterno, nas suas andanças pelos mares a que o obrigavam as suas funções de Oficial da Marinha Mercante.

O tempo ia correndo e a angústia dos jovens Pais ia aumentando também. É que subsistia um "pormaior" terrível: naqueles tempos, cinzentos e pobres, não havia Escola em redor!

Assim, chegados os quatro anos e meio do seu "pimentinha", os Pais viram chegada a hora da terrível e angustiante decisão: colégio interno, em Chaves, ou ficar em Lisboa entregue aos cuidados e educação da Avó e Tio paternos?

Com enorme tristeza e dor (apesar de ficar com quem ficava) foi tomada a opção por Lisboa.

A primeira dor, maior, de minha falecida Mãe foi o não me ter criado.

A segunda, foi a minha mobilização para a guerra colonial (nunca esquecerei vê-la ser transportada, em braços, por meus Falecidos Pai e Tio, para o automóvel enquanto o "Vera Cruz" se afastava, lentamente do Cais (foi uma "guerreira" e só colapsou quando as amarras foram retiradas).

Vinte e sete meses depois, reencontrei-a completamente branca!

Pois, fiquei em Lisboa; minha falecida Avó (ex-professora), mesmo antes de entrar para a Escola, foi-me ensinando a ler e escrever as primeiras letras secundada por meu falecido Tio que passou a ser o meu Encarregado de Educação até ao fim dos meus estudos, e meu "explicador" de sempre (fez o Curso de Económicas e Financeiras, no Quelhas, terminado em 1948 e de onde saíram alguns nomes conhecidos na sua área; ele, próprio, concorrendo ao Grupo Cuf e subindo a pulso, sem "cunhas", contribuíu para a remodelação da Contabilidade Industrial do Grupo passando de Chefe de Secção a Director Financeiro e, finalmente, a Administrador da então UFA - União Fabril do Azoto com sede na Avª da Liberdade - com a responsabilidade dos "Locais", Barreiro (hoje, "Quimigal") e Alferrarede. Terminou a sua carreira muito junto a Jorge de Mello, como Administrador da EGF.

Ambos inculcaram-me o gosto pela Leitura e pela História, aproveitando a minha predisposição natural.

Verdadeiros "segundos" Pai e Mãe, a eles muito, mas muito, devo o que sou e tenho sido na Vida e perante as suas Memórias me curvo, sempre! 

Seis anos e a entrada para a 1ª Classe, no " Externato Lys " (mesmo em frente ao Café Império, próximo de casa. Depois… exame da 4ª classe e exame ao Liceu… conseguida a entrada no Liceu Camões…. e concluído o 7º Ano (sempre com grandes dificuldades a Matemática - não saí ao Avô, Pai e Tio; tinha mais "disposição" para Línguas, Histórico-Filosóficas, Geografia)

Entretanto, e a partir dos treze anos (idade em que comecei a raspar as "penugens" da face) passei a deslocar-me, sozinho, para férias de Páscoa e Férias Grandes na companhia dos Pais.

Saída de Santa Apolónia... transbordo em Campanhã... novo transbordo em Nine... e chegada a Braga por volta das 17H00 com o Pai aguardando (vá que ia devidamente precavido com umas belas sandes de bife carinhosamente preparadas pela Avó).

Uma aventura mesmo, e ainda se tinha de cumprir a étape Braga-Barragem dos Pisões.

Cumprir-se-ia o "religioso" horário das 20H00, para jantar e o primeiro abraço e beijo a minha Mãe.

Fiquei a conhecer, no terreno, (e em profundidade), todas as fases de construção de uma Barragem, acompanhando meu Pai nas suas funções de Supervisão da qualidade dos Betões feitos e aplicados pelo Empreiteiro, na rigorosa aplicação das Normas de Segurança do Pessoal e ajudando na elaboração de Mapas de Qualidade, no Laboratório do Estado.

Lá ia eu, felicíssimo, no velho Anglia (de que meu Pai não se separou até 1965 e no qual aprendi a conduzi).


Agosto de 1965 (Dia 2)

Por circunstâncias da vida e de saúde, agravada, de minha Mãe (tinha eu 10 anos foi operada ao aperto mitral" pela equipa do Sr. Prof. Pádua) meu Pai decidiu, com enorme pena, abandonar a sua vida de "barragista ". Foi muito duro para ele.

E, por coincidências da vida, também, Pai e Filho, juntos, tomaram o metro; Pai, para o seu novo emprego e filho para o seu Primeiro.

Conhecendo-me o Tio, muito bem, sabia de há muito (com muita pena dele e não só) que eu queria iniciar a minha vida de homem, ganhar o meu dinheiro e não sobrecarregar, mais, os meus Pais.

Assim, fui "inaugurar" a "Secção de Controlo Orçamental e de Gestão na UFA.

(O tio, lá dentro, era o Sr. Dr. e a partir da saída passava, de novo, ao meu “segundo" Pai e Grande Companheiro, ele que também não teve filhos. Fui o filho que não teve!)

Depois... veio o Serviço Militar e Comissão em Angola, de que já falámos.


Autor: Vítor Manuel
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Lá em cima Gisela João interpreta Meu amigo esta longe

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Permitam que relembre o vídeo do post abaixo. 

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira, cheia de sorrisos e esperança. 

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quinta-feira, fevereiro 20, 2014

"UJM, o problema não é a raça, não senhor! Os portugueses têm uma coisa que uma vez quando era ainda muito nova ouvi um senhor dizer: passam a vida a "medir piças" - Palavra de JV. Um grande texto. É polémico? É sim senhor. Mas textos assim são os melhores.


No post abaixo já mostrei o tipo de reuniões em que o Moreira Rato e outros aprendizes de feiticeiros devem participar quando se preparam para ser comidos pelos mercados. O Lacerda da Porta dos Fundos mostra como é. Uma fantástica rábula (que as meninas, especialmente as de ouvidos sensíveis, devem ouvir mas com algodões nos ouvidos).

Mas isso é a seguir.

Aqui, agora, a conversa é outra. Aqui dou a palavra, a eloquente palavra, à Leitora JV. Um texto que merece uma leitura em espaço desafogado pelo que repesco as suas palavras dos comentários e dou-lhes aqui espaço em página autónoma.


Mas primeiro música, por favor: 
Sangue Oculto, GNR





UJM, o problema não é a raça, não senhor! Os portugueses têm uma coisa que uma vez quando era ainda muito nova ouvi um senhor dizer: passam a vida a "medir piças" (não me censure, por favor, a expressão não é minha :)). 

Isto é, quando em negociação, cada um não quer apenas fazer o melhor negócio possível para si à custa do outro, à inglesa. Não! Os ingleses sabem que se abusarem podem ficar sem negócio, que é pior do que fazer algumas cedências, por isso há um " self-restraint". O objetivo é sempre económico, uma questão de custo de oportunidade: enquanto o negócio vale a pena, fazem-se cedências.

Ora bem, o português é diferente: muitas vezes sacrifica o objetivo económico para ganhar o jogo das "piças". 

Umas vezes, faz uma proposta que nunca ninguém aceitaria e que se lhe fizessem a ele, tomando-o como parvo, se sentiria insultado (isto é quase sempre obra de advogados, que na ganância de defender o seu cliente a todo o custo, estragam negocio atrás de negócio, prejudicando-os sistematicamente). Outras vezes, têm uma boa proposta em mãos, mas em vez de aceitarem, porque não conseguem melhor, armam-se em picuinhas, apontam defeitos ao que o outro está a oferecer, querem sempre poder dizer que deram mais do que o que receberam. Às tantas o outro ofende-se, e lá se foi o negócio. 

Lembra-se da tal proposta que nunca ninguém aceitaria: pois bem, às vezes, o português está tão desesperado que aceita, e depois, mesmo antes da finalização do contrato, diz que há uns problemazinhos (os tais que levavam ninguém a aceitar a proposta). Ele nunca quis aquele negócio, mas disse que aceitava tudo, que estava tudo bem, para não afugentar o cliente, na esperança de que ao falar nos problemas depois, ainda se faria o negócio. Pois bem: nunca se faz.

Sempre a adiar o problema, sempre a adiar dar a má notícia, mesmo que se saiba que se vai ter de dá-la, andando entretanto a perder tempo com um negócio que está condenado ao insucesso. Ora aqui está o problema da produtividade!

A causa dessa indignidade e falta de civismo no comportamento perante o outro, a falta de boa fé na negociação, não é a raça, porque basta um português passar uns anos em Inglaterra, na Alemanha, na Suiça, ou nos EUA, para os negócios que celebra serem lineares, agir com correção do inicío ao fim e sem dissimulações. Não digo que no estrangeiro não haja dolo e fingimento, tentar lucrar à custa do outro. 

Na Common Law anglo-saxonica nem existe essa coisa da exigência da boa fé nas negociações. Mas todos sabem ao que vão e a melhor maneira de sair a ganhar e dar aos outros a ganhar. Aqui, finge-se que se está de boa fé, dá-se muitos elogios, mas não se abre o jogo: não se diz claramente as condições do negócio. 

Porquê esta mentalidade? É o clima? É a geografia? 

Sabia que vencemos aos espanhóis cerca de 40 batalhas pela independência, desde a formação da nacionalidade até meados do séc. XV, portanto excluindo as pós-1640? Um pequeno país que podia ser uma Catalunha ou um País Basco, reinado a partir de Castela, que existe porque houve um tipo que não queria mais ser vassalo do primo e faltou à palavra que o aio (quiçá pai) deu em seu nome para poder ser rei, jugando sujo, venceu tantas batalhas. Dá que pensar, havemos de estar aqui por algum motivo. E depois os descobrimentos, a expansão marítima, é uma história linda, épica, como não há outra. Como não há outra! 

E então vêm os Padres Antónios Vieiras, os Fernandos Pessoas, os Almeidas Garretts, etc. com a história do 5º império, do sebastianismo, etc., etc. Que raiva me dá essa treta toda! Essas manias de grandeza! 


Todos dizem que somos provincianos, mas vêm com essas teorias, esses mitos e exoterismos (o Pessoa - um tosco, um bêbedo, desculpem-me os admiradores, mas admitindo que nalguns poemas se possa admirar a beleza estética e até uma ou outra ideia interessante que contenham, é um bebedolas xenofóbico, que escreve uma prosa horrível, um doido, no fundo - o Pessoa diz que até o Eça de Queirós era um provinciano, precisamente um dos poucos que portugueses que não o era).


Conhece o movimento da Filosofia Portuguesa do século passado? Que coisa abjeta! Herdeiros da Escola do Porto do Agostinho da Silva e Santana Dionísio dizem que há uma filosofia especificamente portuguesa. 

Não se trata de todos os filósofos portugueses, não, é um modo de filosofar português. Um país que não tem, nunca teve, filósofos, tem um movimento único no mundo que diz que temos uma filosofia só nossa. 

Uma mediocridade tremenda, um provincianismo, que é o que eles próprios dizem que nos caracteriza.

Somos um país periférico e sempre tivemos esse complexo, sempre fomos atrás da Europa, da Moda francesa, das ideologias inglesas, etc., já o João da Ega dizia que importamos tudo e que depois nada nos serve, ficamos com as mangas demasiado curtas ou compridas.

Mas este não é um problema só nosso, também os russo sempre se consideraram periféricos. E outros países que, mesmo no centro da Europa, por serem pequenos e quase sempre ocupados por outros, centram muito as atenções na sua condição específica, por exemplo, a Bélgica. 

Mas mesmo um Dostoievsky muito centrado no específico problema russo (da igreja ortodoxa que destronaria a de Roma, etc.) tem muito de universalidade nos livros que escreve. As suas personagens, muito russas, são também muito humanas. Os problemas por que elas passam, sendo muito russos, são também muito humanos e portanto muito universais. Agora olhemos para o Eça. Acho mesmo que é um dos maiores escritores de todos os tempos, escreve mesmo muito bem, como muito poucos. 

Mas analisando esta questão da especifidade nacional, vemos que as personagens são menos universais, são mesmo só portuguesas. As suas obras são como grandes paradas, grandes cenários, as personagens são secundárias, o ambiente é o principal, aí está a universalidade do Eça, por isso não é tão problemático que os protagonistas sejam tão pouco universais. Não se trata de provincianismo, de maneira nehuma, mas o Eça que era, no fundo, um estrangeirado, olha para Portugal de fora para dentro. 

Sendo o país dos descobrimentos olhamos sempre para Portugal de fora para dentro, e vemos um país de gente inculta, desonesta, feia. É muito difícil um estrangeiro ter paciência para os Maias (sei que para muitos portugueses também, mas digo um estrangeiro culto que goste de boa literatura), mesmo admitindo que o Eça é um grande escritor. 

Porque quase nem há história, ninguém quer saber do amor dos dois irmãos, o que importa ali é ver como é o português e isso não interessa nada ao estrangeiro. Qualquer um lê Dostoievsky dez vezes seguidas. É a alma humana que está ali. E repare que o Eça é universal. Há nos Maias aquela personagem inglesa, o Craft, que é um tipo espetacular, mas passa a vida a dizer "curioso" sempre que acontece alguma coisa às outras personagens, as portuguesas, seja trágica ou divertida. O Eça topou muito bem o tipo inglês: que vê todos os outros como ratos de laboratório ou animais do circo, observando-os para ver como reagem, para se divertir, lá do alto na sua superioridade inglesa. Mas é um universalismo muito pouco humano, não sei se é esta a melhor expressão, mas é a que me ocorre.

Se nos deixássemos de 5ºs impérios e sebastianismos, se admitíssemos que temos uma história engraçada, que desempenhámos um papel de relevo na história da Humanidade com os descobrimentos, se pensássemos mais de dentro para fora, como até a nossa geografia propicia - caramba!, estamos virados para o mundo, de frente para o Oceano - podíamos preocupar-nos menos em ser Grandes como os Pessoas dizem que devemos ser, mas sim em portarmo-nos bem uns com os outros, tentar desenvolver este país que tem um sol maravilhoso, ser menos tristes e lamurientos. 

Porque não faz sentido passarmos a vida a dizer que somos provincianos e que temos uma Missão tipo 5º Império do Espírito e da Filosofia a desempenhar. 


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As imagens são pinturas de Júlio Pomar.

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Relembro que no post abaixo poderão entrar na Porta dos Fundos, uma verdadeira escola de sacanagem, perdição e má vida.

quarta-feira, março 20, 2013

Por terras de Belmonte. A Judiaria, a Igreja Matriz, o Castelo, a loja A Prensa e a Pia... Pia...? Pietá...?... (... apenas um pequeno episódio)


Não resisti a escrever sobre a palhaçada do resgate do Chipre e sobre a muito apropriada resposta dos deputados cipriotas e não resisti, também, a escrever sobre estes primeiros dias de Bergoglio enquanto Francisco. Se estiverem para aí virados, é a seguir a este texto. Tinha que escrever. Afastada mas não completamente alienada. 

Ou seja, começo este post já mais tarde do que devia e, portanto, vou ter que acelerar.

Férias curtinhas... nem férias eu lhes devia chamar. Mas, como sou uma simples de espírito que faz uma festa de qualquer pouca coisa, aproveito o tempo ao máximo e dou-me por feliz.

Dia muito frio, muito chuvoso. Não faz mal. A única maçada é que é mais difícil tirar fotografias com a chuva  sempre a cair, é necessário estar a sempre a limpar a objectiva.

De resto, é muito bonito ver a paisagem envolvida por nuvens.

E, portanto, o passeio continuou.

Sendo tão curto o tempo, não deu para voltar aos lugares já antes, por mais que uma vez, visitados. Mas Belmonte era ainda desconhecido. Fica a meio caminho entre a Guarda e a Covilhã, passa-se sem entrar.

Mas hoje não. Fomos de propósito.

Uma vez mais, tudo muito bem arranjado.

O castelo bonito, cuidado. (A loja muito bem guarnecida e a senhora que lá está muito simpática, muito bonita).



Os campos de Belmonte vistos de uma janela do castelo


À volta toda a paisagem é verde mas envolta em neblina, em nuvens. A serra mal se vê. Ando pelos muros, subo e desço as escadas, espreito.



As casas de Belmonte vistas através da abertura da cruz


Está-se na zona da Judiaria. Transcrevo da wikipedia: 

A comunidade de Belmonte abriga um importante facto da história judaica sefardita, relacionado com a resistência dos judeus à intolerância religiosa na Península Ibérica.

No século XVI, aquando da expulsão dos mouros da Península Ibérica, e da reconquista das terras espanholas e portuguesas pelos Reis católicos e por D. Manuel, foi instaurada uma lei que obrigava os judeus portugueses converterem-se ou a deixarem o país.

Muitos deles acabaram abandonando Portugal, por medo de represálias da Inquisição. Outros converteram-se ao cristianismo em termos oficiais, mantendo o seu culto e tradições culturais no âmbito familiar.

Um terceiro grupo de judeus, porém, tomou uma medida mais extrema. Vários decidiram isolar-se do mundo exterior, cortando o contacto com o resto do país e seguindo suas tradições à risca. Tais pessoas foram chamadas de "marranos", numa alusão à proibição ritual de comer carne de porco. Durante séculos os marranos de Belmonte mantiveram as suas tradições judaicas quase intactas, tornando-se um caso excepcional de comunidade criptojudaica. Somente nos anos 70 a comunidade estabeleceu contacto com os judeus de Israel e oficializou o judaísmo como sua religião.



O motivo cruciforme


As casas estão todas muito arranjadas, floridas, muito bonitas. Todas. Dá vontade pedir para entrar, pedir para nos mostrarem como são as casas por dentro, tão bonitas são por fora.



Uma das várias casas da Judiaria de Belmonte - um prazer para a vista


As ruas estreitas, íngremes, empedradas, as casas pequenas, muito juntas, vasos à porta, vasos à janela. Sinto-me indiscreta aproximando-me tanto, mas é tão bonito, penso que gostaria de partilhar com os meus Leitores.



A casa da Família Silveira.
Uma gaiola, flores, cabacinhas, candeias, uns sapatinhos, chaves, sinos, tanto carinho em tudo.


Depois fui ainda ver a Igreja Matriz. 

Já vos contei. Tenho dificuldade em explicar mas não resisto a entrar nas igrejas. São lugares especiais. Ali se juntam as pessoas com fé, em comunhão. Muito do seu sentimento está ali no ar, quase palpável. E há as imagens perante as quais as pessoas agradecem, pedem. Imagens amadas, respeitadas. São, em muitas terras, o lugar mais importante.

Esta é muito simples. Mas muito bonita. Imagens muito próximas das pessoas terrenas, imagens com expressões carinhosas.



Na Igreja Matriz de Belmonte, Nossa Senhora, S. José, e o Filho - um casal levando o filho pela mão 


Mas, quando chegámos a Belmonte, o que eu queria era ir ver a Pietá, era sobretudo por ela que ali estava. 

Procurei a Capela de Nossa Senhora da Piedade na Igreja de S. Tiago mas, porque não estávamos bem a ver onde seria e como chovia, para abreviar, resolvi indagar, entrando numa loja. 

Perguntei. Mas, para minha surpresa, não perceberam o que eu dizia, 'Pietá??!'. Fez-me lembrar a história que contei no post mais abaixo em que uma aluna nunca tinha ouvido a palavra bondade. Assim eram as pessoas daquela loja. 'Pietá?! Pia? Uma pia com água benta? É isso?'. Deu-me vontade de rir e a senhora riu-se também, 'Não é nada disso, não?'. Ri-me, que não, que não era uma pia. Elas olhavam umas para as outras, 'Pietá?... Não...'. Expliquei o que era, na igreja de S. Tiago. Com pouca convicção lá disseram que se calhar era lá para cima, ao pé do castelo. 

No entanto, quando chegámos eram 12:35 e, azar dos cabrais, a igreja fecha às 12:30. E é isto. Nestas coisas é que se vê bem como somos um país que não está virado para o turismo, muito menos para o turismo cultural. 

Felizmente ainda apanhámos o castelo aberto mas, quando saímos, estava a senhora simpática a fechar o castelo. Logo a seguir chegou um grupo numeroso que, tal como nós, estava a dar com o nariz na igreja de S. Tiago e, pior, também no castelo. Ficaram incomodados, claro. Muito mau, isto. Falta de gente, provavelmente mas, nestas coisas, há que dar voltas à cabeça, arranjar maneira de manter os monumentos abertos o maior número de horas que for possível.

Mas, enfim, não sou pessoa de me dar por vencida e, por isso, se não a pude ver em tamanho normal, paciência, fica para a próxima.

E, entretanto, já a tenho aqui na minha mão em tamanho mais manuseável (passe o pleonasmo).



A Pietá de Belmonte aqui numa pequeno quadrado de louça artesanal, um íman


Na Praça da República uma loja muito agradável, A Prensa, com objectos regionais e artesanais, consolou-me. A dona, uma mulher jovem muito bonita e muito simpática, a braços com os dois filhos, irrequietos, de férias, tem muito bom gosto, tem ali peças de qualidade, coisas de decoração, vestuário, doces.

Ali adquiri brinquedos para os meus meninos, daqueles de madeira pintada, uma roda que se empurra fazendo barulho, um trapezista, um puzzle à antiga, daqueles de cubos e um ursinho de peluche. E trouxe ainda doce artesanal e mel e um bolo de ovos. E, claro, a pequena peça com a Pietá que coloquei sobre uma almofada para vos mostrar.

Depois, como gosto muito de pequenos presépios, trouxe também um que achei muito bonito. Tem na base, escavado no barro, o nome de quem o fez: Dias (pelo menos é o que parece).



O meu pequeno presépio adquirido n'A Prensa, feito por um artista, Dias
(Como as imagens são em branco, reflectem a luz e, na fotografia, aparecem pouco nítidas)


Depois saímos de Belmonte que o programa de festas assim o exigia. 

Amanhã a ver se continuo a mostrar este bocadinho do nosso belo País. Espero não estar a ser muito maçadora mas gosto tanto da minha terra que gostaria que todos gostassem também, que os portugueses amassem o seu país, passeassem por ele, o divulgassem, visitassem o património cultural e conhecessem as suas belezas naturais.


PS: E, claro, o meu Muito Obrigada à  Leitora Antonieta que me sugeriu este belo passeio. 

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Tarde, tarde. Como vos tinha dito, por estes dias não consigo fazer esticar muito o tempo. Não apenas não consigo responder aos vossos comentários como nem consigo, sequer, hoje colocar nada no meu Ginjal.

E não vou conseguir reler o que escrevi. Relevem as gralhas, sim? Mas, por favor, se forem escabrosas, avisem-me, está bem?

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Relembro que, abaixo, poderão ver mais dois posts que escrevi agora, antes deste (por isso é que fiquei sem tempo para o resto...).


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E, portanto, por aqui me fico. Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quarta feira muito boa. Saúde, alegria e afecto é o que hoje vos desejo.


segunda-feira, setembro 19, 2011

História e Memória em felizes momentos do Presente com olhos postos no Futuro


<> Pormenor da Igreja da Memória <>

Situada entre Belém e a Ajuda, numa zona residencial, a Igreja da Memória é uma pequena Igreja, muito bonita. Foi mandada construir em 1760 como agradecimento de D. José por, naquele local, dois anos antes, ter sobrevivido a uma tentativa de assassinato num certo dia em que regressava de um encontro furtivo com uma Távora.

Sebastião José, rapaz que não era de modas, aproveitou o pretexto para se livrar da família toda, acusando-os de conspiração e tentativa de regicídio. Perseguiu-os, torturou-os, acabou com a espécie.

Mas ele, homem poderoso, prepotente, homem de larga visão e absolutista, um líder forte e um empreendedor que deixou obra e a quem Portugal muito deve, viria a cair em desgraça junto da filha de D. José e foi afastado de todos os cargos públicos. Mais: foi afastado de cargos públicos e dela própria, pois dele ela só quis distância, obrigando-o a manter-se a não menos de 20 milhas dela. Diz-se que D. Maria rangia os dentes de raiva só de ouvir o nome do Sebastião José. Ele tinha o seu feitio, ela tinha o seu feitiozinho e os santos de ambos não cruzavam. A história ensina-nos que os grandes líderes também congregam, em torno de si, grandes ódios. C'est la vie.

O Marquês de Pombal viveu até 1782, retirado na sua propriedade em Pombal. Os seus restos mortais repousam agora na tranquila Igreja da Memória.

Igreja da Memória

Nesta Igreja, com memória e história, onde temos estado noutros momentos floridos e radiosos, voltei a estar hoje com descendentes, ascendentes, restante família e colaterais. Momentos felizes.

Pormenor de bolo