Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, julho 14, 2019

Mulheres nuas a ler.
Ou em topless.
E em grupo.





Há coisas que não percebo. Não estou com isto a dizer que não concordo, digo apenas que não percebo. Talvez porque tantos anos de falta de democracia e fechamento deixam marcas na sociedade, talvez ainda não tenha conseguido libertar-me de ideias que, na volta, só demonstram que sou antiguinha: é que associo o corpo não apenas a um invóluco assexuado dentro do qual se arrumam os órgãos e se esconde a alma mas a isso tudo e mais a um objecto de sedução e desejo, ou seja, tudo menos um objecto assexuado. E isto seja o corpo de uma mulher ou de um homem. Sendo hetero, se estiver ao pé de um belo corpo de homem, não posso deixar de olhar de gosto. E se, por acaso, calhasse estar sentada numa praia ou num parque e, junto a mim, estivesse um grupo de homens nus a ler, eu haveria de me ver grega para não me pôr a olhar à descarada. E mais: haveria de ter que me esforçar muito para não tirar todas as medidas, para não apreciar as posições, os gestos, a graça, a capacidade de malandrice.

Da mesma forma, se, numa tarde, no relvado de um parque ou à beira de um lago, visse um grupo de mulheres nuas, muito me espantaria que nenhum homem prestasse atenção, como se elas não passassem de um normal um bando de patos. 


Mas, lá está, na volta sou eu que sou antiquada. Se calhar por essas e por outras é que não consigo identificar-me com os movimentos feministas. Eu defendo a igualdade de oportunidades, a igualdade de direitos e deveres, entendo que uma mulher não é menos nem mais que um homem. Mas não consigo defender que o corpo de uma mulher seja um objecto assexuado tal como não acho que se um homem olhar com interesse para o corpo de mulher isso é sinónimo de machismo. Não aceitarei se for incorrecto, invasivo, estúpido, abusador. Mas olhar, mostrar interesse, ser simpático e não o esconder caso sinta que há reciprocidade, isso parece-me até saudável da parte de um homem.

E agora poderia dizer que há uma outra coisa que não percebo mas aí já hesito. Creio que já ouviram falar de clubes de leitura exclusivos para mulheres, sendo que elas se põem nuas ou em tronco nu para ler. E hesito porque percebo que se associe a nudez à leitura: um bom livro, quando verdadeiramente nos toca, é como se quisesse fundir-se connosco, como se a nossa disponibilidade para o receber fosse total. Mas isso é a única coisa que consigo perceber porque, de resto, também não percebo nada. Não percebo qual a graça de clubes só para mulheres ou só para homens. Nem percebo a lógica de um grupo de mulheres se juntar, em tronco nu ou todas nuas, para ler. 


Mas também admito que talvez pense isto porque nunca experimentei.
Quem sabe um dia não resolvo fundar o Clube das Leitoras Jeitosas? Traço um roteiro: Parque Eduardo VII, Jardins da Gulbenkian, Jardim Botânico, Jardim da Estrela, Jardim do Palácio de S. Bento, Jardim do Palácio de Belém, etc. Quiçá depois para outras cidades. Castelo Branco. Lousã. Faro. Vila Viçosa. Vila do Conde. Mértola. Sines. Coimbra. Porto. Etc. 
Uma vez por semana num dos Jardins, as Jeitosas todas nuas a lerem. Querendo poderiam ficar apenas em topless e querendo, para além dos livros, poderiam levar também farnel para um lanchinho. 
Mas adiante.

Como nunca me integrei em nenhum clube de leitura, não sei como se processa a escolha dos livros. Sei que há o livro sugerido mas não sei se o processo é rotativo, se uma semana escolhe uma, noutra semana escolhe outra.

E também não sei como se faz se o livro da semana for uma pepineira. Podem os membros exercer a objecção de consciência? Não ficará um clima de má onda entre os membros do clube se alguém, esforçadamente, seleccionar um livro e umas quantas flausinas se puserem a olhar de lado, a torcer o nariz?
[E imagine-se a cena com as flausinas de nariz torcido e com os mamilos em riste. Lindo. Ai, eu, o Valter Hugo Mãe não, pleeeaase, não é a minha praia, amigas -- e os mamilos espevitados, sem conseguirem disfarçar a irritação]
Bem.

Mas há outros tipos de clube: coisa mais discreta, menos (des)sexualizada, tudo mais na base da voz, gente que contribui com a sua leitura. E, de novo, não sei que diga pois estou habituada a ler em silêncio e não sei se esse prazer é substituível pelo da audição. Apenas de vez em quando, geralmente quando vamos de viagem, leio em voz alta para o meu marido. Não é frequente mas já aconteceu. Ele gosta. Fazemos quilómetros naquilo, eu a ler e ele atento a ouvir. Mas gravar? Cada uma ler um capítulo? Depois haverá pachorra para ouvir ler os capítulos que as outras leram? E se umas se armam em declamadoras do D. Maria? E outras, a despropósito, em hot women, dando cabo do lirismo que o autor queria imprimir ao texto?

Ou seja, não percebo.

[No entanto, agora que escrevo isto, há uma situação que percebo: para quem tem dificuldade de visão, ouvir ler é a alternativa possível e aí até será uma iniciativa generosa, a de ler para os outros]

© Mikael Jansson pour Vogue Paris

Mas isto a propósito do artigo Pourquoi les clubs de lecture sont-ils à la mode ? na Vogue francesa.
Portés par des célébrités influentes, des podcasts littéraires et une philosophie militante, ces groupes de discussion vieux du 19ème siècle connaissent une nouvelle vague de popularité. Bienvenue dans les clubs de lecture 2.0. [...]

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Com excepção da última fotografia que é da Vogue, acho que todas as outras se referem a um clube que aparece referido no dito artigo, The Outdoor Co-ed Topless Pulp Fiction Appreciation Society clube que, segundo percebo, defende o direito das mulheres a usar o seu corpo onde quiserem, mesmo que nu e mesmo que em público, como um corpo assexuado -- e isto para lerem onde muito bem lhes apetecer.

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Já agora:
Shakespeare a nu num dia de Tempestade

Members of Outdoor Co-ed Topless Pulp Fiction Appreciation Society put on a production of Shakespeare’s “The Tempest” — and the actors were all female and all nude


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E, já agora, reconheço: há alturas em que sabe mesmo bem ouvir ler.
E eu sinto-me agradecida pela amabilidade de quem me traz belas palavras lidas:

"No sorriso louco das mães" de e por Herberto Helder sobre música de Rodrigo Leão



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E a todos desejo um belo dia de domingo

domingo, outubro 28, 2018

Dia de frio in heaven, com um cogumelo e um faisão mesmo aqui à porta.
E mais uma fantástica reportagem vídeo da Sta UJM passeando por entre poesias e coisas assim.



Muito frio. Ao sol ainda vá mas, ainda assim, se se levanta o vento, logo se infiltra por entre as malhas do meu casaco. Trouxe um de lã macia, grossa e aveludada. Mas foi feito com agulhas ainda mais grossas pelo que ficou solto, leve e, portanto, o ar entra por ele com a maior facilidade. 

Quando chegámos a casa, estava mesmo fria. Como gosto sempre de abrir as janelas para arejar, o meu marido veio logo dizer que nem pensar. E à noite já tivemos que dar uso à salamandra. Muito bom, o calorzinho ameno aqui junto a nós. 

Ontem estive a ler o livro que tinha começado a ler no carro e do qual estou a gostar muito: Os testamentos traídos de Milan Kundera. É daqueles que estou a ler e a lamentar não ter a capacidade de memorização daquele meu amigo que até desconfio que seja pouco normal (e digo assim para não dizer anormal de todo): memoriza tudo. Tudo. Estamos a conversar e ele lembra-se de passagens de livros e depois di-las. Por vezes são livros que já li e ele diz: 'Lembra-se daquela parte em que ele se insurge e, com uma ironia fantástica, diz que...' (whatever) e eu não me lembro de nada. Até me faz sentir como se estivesse a querer enganá-lo. Este do Kundera dá vontade de memorizar e de transcrever para vos mostrar. Mas, como é bom em contínuo, desisto.


Agora a seguir vou voltar a ele. Já não vou poder deitar-me lá fora, ao sol, a respirar o perfume da figueira. Ou fico aqui ou vou ali para o lado, deitar-me no sofá, talvez com uma mantinha. E talvez deixe que o sono pouse sobre mim. 

De manhã andei a caminhar, a fotografar, a fazer os meus vídeozinhos bucólicos, a limpar a casa, a fazer o almoço. 

Agora, enquanto estava a escrever, reparei num pequeno vulto ali entre as folhas. Fui ver. Era um cogumelo. O primeiro cogumelo de outono. Fui fotografar.

E só surpresas. Estava também agorinha mesmo a colocar aqui a fotografia, diz o meu marido: 'Olha, um faisão'. Ao princípio nem percebi. Ele disse: 'Aqui à porta'. Nem queria acreditar. Era mesmo. Esta sala tem portas de vidro que dão para a rua. Um faisão lindíssimo passeava-se mesmo junto à porta. Rapidamente peguei na máquina mas ele já tinha ido para o pé da fonte. O meu marido disse: 'Se abres a porta, voa'. Mas, para o fotografar, para ter ângulo, tinha mesmo que abrir. Em silêncio. Mas ele ouviu, sobressaltou-se e voou. Grande, pesado, levantou voo e num ápice deixei de vê-lo. Ainda não estou em mim. Um faisão belíssimo aqui. Este meu heaven é habitado por seres muitos misteriosos.

Bem. Vou ler.

Deixo-vos com um dos vídeos de ontem. O meu marido já aqui esteve a gozar por eu, por muito que queira, não conseguir ter uma voz encorpada e lisa. Sai-me sempre esta voz sumida, com graozinho. Uma irritação. Ele diz: 'Mas se é a tua voz, como querias que parecesse outra?'. Olha, desisto. Paciência. Terão é que pôr o som bem alto para perceberem alguma coisa.



segunda-feira, agosto 20, 2018

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.



Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face.





Uma mulher desliza entre o verde que a rodeia. Respira com vagar, aspira os odores, sente os cheiros que a terra exala. Queria ser bicho e esconder-se ali, entre a folhagem, sob a caruma, entre os troncos das árvores. Está calor e sente saudade da frescura e do sereno afago da sombra. Desloca-se sob as árvores, procura abrigos onde o silêncio e o sossego sejam uma boa companhia.


Mesmo que não caminhe, os seus pensamentos vagueiam. Percorre memórias, relembra palavras lidas, imagina rostos, inventa biografias, constrói histórias. Por vezes abre os olhos mas não os foca na proximidade. Procura a lonjura onde se escondem aqueles em quem pensa.

As cigarras subiram para a copa das árvores e não dão tréguas. Inflamadas, agitadas, electrificam o ar quando a mulher o quereria pacificado. Queria o elegante esvoaçar das rolas, o canto alegre dos pássaros. Mas refugiaram-se do calor, procuraram outras paragens. Ou, então, estão apenas indolentes, silenciosos.

Depois volta a fechar os olhos. Os seus pensamentos continuam envoltos em verde, entrelaçados nos arabescos que os jogos de luz desenham. Solitariamente continua a entretecer lembranças, fiapos de conversas, poemas soltos, ecos de acordes longínquos.


Nos muros há poemas. Foi a mulher que os escolheu e ali os quis ter. E há pinturas. E há árvores e flores. E caruma. E a pesada ausência do canto dos pássaros. A mulher caminha e diz, num murmúrio só seu, os poemas que vai lendo.

Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher. 
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.


Não quer muita coisa da vida, esta mulher. Quer apenas a inteireza das frontes inocentes e corajosas, a doçura espontânea dos corações amáveis, o abraço tão longamente esperado, adivinhado, tão desejado. Quer também a verdade das palavras. A verdade sem espelhos enganadores, sem perigosos labirintos. Só a verdade limpa e boa. Não é muito. Mas, se calhar, é.

A mulher caminha. Caminha com os seus passos solitários e silenciosos e com os seus pensamentos secretos. Vai nua, descalça. Assim gosta de andar, o sol e o calor na pele, a transpiração na nuca, no ventre.

- Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei. 

E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.

Depois ouve uma agitação entre as folhas, o som vivo de um outro ser. Detem-se. Espera. Espera que o silêncio pouse, de novo, sobre os seus passos.

E olha.


O outro ser está também em suspenso, em silêncio. Aguarda. Olha. Uma mulher que quer ser um bicho respira devagar, toda ela imóvel. E junto a si, igualmente imóvel, o outro ser, entre o verde e as folhas enrubescidas, aguarda. Tudo se conjuga nesse instante: a tranquilidade, a perfeição dos momentos únicos e inesperados, a vontade de que nada perturbe o sonho feliz, o silêncio e a paz das nossas existências.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.

Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.


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Excerto de O amor em visita de Herberto Helder
Embers de Max Richter
Fotografias feitas este domingo in heaven

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sexta-feira, agosto 03, 2018

Bibliotecas onde se sente a pátria portuguesa





Por algum motivo de que agora não me lembro bem -- mas que tenho ideia que tem a ver com a longa noite fascista -- a palavra pátria não tem conotações lá muito boas. Ou, então, isso é fruto da minha imaginação. Pode ser.

Mas eu gosto do conceito pátria. Gosta da minha pátria. Em especial, identifico-me com aquela coisa de a minha pátria ser a língua portuguesa. Essa ideia é daquelas bem paridas: ouvindo isso a gente quase sente vontade de jurar a pés juntos que, pela língua portuguesa, morrerria.

E depois há aqueloutro território: o dos livros. Podia fazer uma casa só com livros: as paredes feitas de livros, uma cama, um banco, uma mesa. Livros. Um caminho feito de livros. Podia viver no meio de livros.

Não sei se uma pessoa se revela através dos livros que possui. Admito que sim.


Já vos contei que, de vez em quando, não tendo especial má impressão de uma pessoa, quase fico a desprezá-la quando me conta, deliciada, a porcaria de livro que anda a ler? A sério. Disfarço, claro. Mas vem uma tal onda de rejeição cá de dentro...

Ou música. Por exemplo, não tinha muito má ideia de uma certa criatura. No outro dia fiz uma viagem com ele. Às tantas, resolve pôr a sua play list. Fogo... Lá uma ou outra que se aproveitava mas, a maioria, uma basbaquice, uma pimbice... E o tipo todo contente. E eu, por dentro, 'és cá um belo basbaque...'

Bem. Falava eu de livros.

A ver se nas férias de verão convenço o meu marido a ir ao Ikea comprar uma estante alta e a levar a estante pequena para o hall dos quartos. Ando nesta luta há séculos... e ele recusa-se. Quer o hall desatranvacado e não quer ir ao Ikea. Mas já não tenho onde pôr os livros. Por exemplo, agora tive cá, até há pouco, três meninos. Os pais foram comprar bicicletas e deixaram-nos cá. As crianças queriam sentar-se no cadeiraozinho pequeno e tiveram que estar a tirar-lhe os livros de cima. Felizmente não quiseram ir para um sofá para onde gostavam de ir e que agora está soterrado por livros. Acho que tantos os livros que nem perceberam que, por debaixo, estava o sofá que era de estimação.


Claro que, se vier a conquistar a estante nova, já sei que vou ter a mesma tentação de sempre: repovoar de novo toda a biblioteca. Enfim, repovoar mais ou menos. Tirar tudo, tudo, para fora e voltar a reordenar, redefinir critérios, arrumar direitinho, à larga, deixar ficar espaço livre para acomodar novos.

Uma coisa que, um dia que tenha tempo para mim, hei-de fazer é andar a conhecer bibliotecas, ver qual a organização, espiar os critérios, deleitar-me com obrasfantásticas, respirar o cheiro bom dos livros.

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Estas três que aqui partilho convosco são três das mais belas bibliotecas do mundo. Conheço as duas situadas em Portugal e confirmo que são especiais, belíssimas. Poderão ver outras em The world's most beautiful libraries – in pictures, artigo do The Guardian -- baseado em In a new Taschen book, the Italian photographer Massimo Listri travels around the world to some of the oldest libraries, revealing a treasure trove of unique and imaginative architecture

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E porque de palavras se fazem os livros e de livros as bibliotecas, aqui vos deixo algumas belas palavras ditas por quem as tão bem sabe dizer e escritas por quem as sabia arrancar da terra e de dentro do corpo


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A 1ª fotografia é da Biblioteca do Covento de Mafra

A 2ª fotografia é o Real Gabinete Português de Leitura no Rio de Janeiro

A 3ª é a Biblioteca Joanina de Coimbra

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Desejo-vos um belo dia

quarta-feira, julho 04, 2018

Svetlana foi ao Porto e é tudo demasiado bonito para ser verdade.
Mas fazer o quê? Um quarto dos poemas também não é imitação literária...?
Portanto, nada como uma bela ménage a trois



Na pintura eu prefiro o que não se sabe o que é, o que não pretende ser bem feitinho. Na fotografia eu prefiro o pormenor indefinível ou o plano quase abstracto ou o prédio que tem uma árvore à frente. Na moda eu prefiro as assimetrias, as peças que se levantam ao passar da aragem, os decotes que quase poderiam ser precipícios. Nos textos eu prefiro os que têm as costuras à vista, os que provocam ou enternecem por razão nenhuma, os que me dão vontade de lhes passar uma rasteira. Nas pessoas eu prefiro as mal comportadas, as imperfeitas, as que procuram os sobressaltos.

E podia continuar.

Por isso, se vejo um poema muito arrumadinho, de uma lisura métrica e uma gramática simétrica, se numa música eu ouço uma melodia muito quadradinha, sem um sopro fora do sítio, se numa pessoa eu sinto pruridos, cuidados e temores e se numa fotografia eu vejo a pretensão da perfeição -- eu viro as costas e sigo noutra direcção. Tudo o que é muito composto, muito bem comportado ou muito perfeito a mim parece-me apenas foleiro. 

Não suporto a mediocridade ou a foleirice, em especial quando aparecem mascaradas de grande coisa.

Nomeadamente.

Estava aqui a ver umas fotografias e os meus olhos bocejavam de tanta perfeição. Até que numa achei o lugar familiarmente bonito. Detive-me. Li: Porto. Portugal.

A opinião manteve-se mas o meu olhar sentiu aquela tolerância generosa que a gente guarda para as pessoas da família por quem não sente empatia mas a quem dedica atenção porque, enfim, família é família -- Portugal é Portugal e eu tenho-o sempre no coração mesmo quando me aparece enroupado in lovely tiles.

Não sei se a Svetlana levou um banho de photoshop ou de outra coisa qualquer nem isso me interessa. O que sei é que há na autora vontade de beleza e isso merece ser louvado. A beleza é fundamental, é vitamina para a alma. Кристина Макеева tem várias fotografias deste género e, reconheço, algumas bonitas.

Mas, pronto, não faz bem o meu género -- e apenas a trago aqui porque se esmerou colocando a Svetlana envolta num padrão de azulejos e mostrando um luso-espaço que é mesmo bonito e, portanto, ok, por esta passa. E, porque hoje estou com o meu coração pacificado (confirmo: já fiz a minha má acção do dia), coloco até uma segunda fotografia da dita Кристина (desta vez a Svetlana estava em Valensole, Provence, França, toda ela cheirando a lavanda)

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Agora gostava mesmo, mesmo, é que ouvissem este belíssimo poema de Herberto Helder lido por Fernando Alves num vídeo do distinto Cine Povero, sobre pintura de Escher

Um quarto dos poemas é imitação literária
(...)
e o último é ele que olha da montanha onde abriu na 
pedra o seu nome inabalável,
e voltava ao primeiro como se fosse orvalho,
(...)

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E termino com um poema que acabei de receber. O L. envia-mo, desejando-me o melhor e eu, agradecida, partilho-o com todos os meus outros Leitores. Há pessoas simpáticas. É como a Gina que me deixou um comentário tão querido. Muito obrigada.


Inesperada chegas e te anuncias,
Rompes no subterrâneo das madrugadas
Os pedregosos trilhos dos meus dias
Nas rotas sempre inacabadas.
Entreabertas gelosias
Na esperança das luzes coadas,
Que sempre irrradias,
Nessas sonolentas e místicas chegadas
Envoltas nas tuas coqueterias.
Sol nascente,
Anúncio de um maio transbordante
No riso incendiado e quente.
Eterno e incansável navegante
Rasgando nas águas da nascente
O destino de um futuro distante.
No precipício do coração... latente
O redimir de um respirar ofegante,
Submerso no delírio que se pressente,
Exaurido, mas ainda ofertante
Ao prenúncio do astro incandescente.






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Afinal agora é que é, agora é que termino. E termino da melhor maneira. Com uma discreta ménage a trois. Que é como quem diz: com um pas de trois.

Os primeiro-bailarinos do Royal Ballet Edward Watson, Marianela Nuñez and Nehemiah Kish interpretam uma coreografia de Frederick Ashton: Monotones II. Música de Erik Satie. Coisa em bom.


quarta-feira, maio 23, 2018

A atenção comovida, o espaço cuidadoso, o alarme fascinado





Por vezes sinto uma compulsiva necessidade de tomar decisões erradas. Propositadamente. Como se precisasse de seguir um caminho já prevendo que não leva a lado algum. Contudo um péssimo rumo pode dar ir dar a um excelente resultado. A vida a tremer, a hesitar entre as mãos nervosas. Perder-me para me poder encontrar perdido. É lindo. É raro, mas acontece. A dor ainda é um sinal seguro de que estamos vivos, o resto menos.


Gosto de ti assim, quando não projectas as tuas ansiedades como dardos lançados para o coração e para os rins de gente que passa por ti e não imagina quem és. Guardei algumas dessas setas, que fui arrancando do meu corpo, dentro de uma caixa que nunca abri nem voltei a fechar. Como fiz então para guardar a seguinte? Não será hoje que te vou revelar os segredos das caixas que têm as mulheres onde guardam aquilo de que tu, e os outros, desconhecem o valor. Faço-te apenas notar que a relação de uma mulher com uma caixa é essencialmente diversa da relação que um homem pode ter com uma caixa.


De fotografia nada sei, a não ser a inquietante proposta dessa coisa mítica: parar o tempo num pequeno espaço e garantir-lhe uma ambição de eternidade. Mas quem pode garantir não ser ficção o cinetismo da realidade? É dentro de nós que as imagens correm. Mas o caçador chega ao mundo de fora e diz: Pára! -- e tudo pára. Temos um movimento visual escolhido pela atenção comovida, o espaço cuidadoso, o alarme fascinado. Na película impressionada fica a conjunção do sujeito com o objecto, síntese de um lapso da 'história', acabado de nascer e já votado às várias mortes das coisas todas.


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Quem canta I'm a a fool to want you é a extraordinária Angelina Jordan (que, não me canso de dizer, tem agora 12 anos)

Quem aparece nas fotografias é a não menos fantástica Gisele Bündchen. 

Os dois primeiros excertos pertencem ao mesmo livro do qual ontem transcrevi um little bocadinho.

O último é de Herberto Helder e pertence a 'em minúsculas'

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segunda-feira, maio 21, 2018

Porque lavorare stanca, abrandemos.
Fiquemo-nos pelas ligeirezas e pelas pseudo-profundidades.

Faça o teste:
É masculino/a? É feminino/a? Ou... está a meio caminho...?





Estive a passar fotografias para o computador e revi, com este meu encantamento que, racionalmente, chego a pensar que é quase pueril, aquelas múltiplas camadas de muitos verdes, aquelas súbitas flores encarnadas, a luz irrompendo por entre a folhagem, as cores que me trazem a memória dos perfumes quentes do campo ao meio dia.


Penso muitas vezes: será que podia mesmo passar in heaven o resto da minha vida, todos os dias, no meio das árvores, como um bicho, progressivamente melhor adaptada às estações, capaz de andar à chuva, ao sol, ao vento, capaz de distinguir os sinais da natureza, de identificar os sons e os calores, de subir descalça as barreiras de pedra, de comer os frutos e as folhas, de ser aceite pelos outros animais?

Não sei. Penso que teria sempre que intercalar com uma ida até ao mar ou até às margens dos rios, até às livrarias, até às ruas cheias de gente. Depois mergulharia de novo nos acolhedores e perfumados verdes, passando as minhas mãos agradecidas pelas flores, pelos troncos das árvores, pela terra.


Tinha pensado escolher algumas para aqui as ter, imagens capturadas momentos antes do céu enegrecer e soltar rasgadas chispas pelos céus. Talvez a das flores que nascem, rosadas, solares e elegantes, por entre as folhas secas. Ou as que, mais à frente, à sombra, nascem subtis e azuladas entre folhas verdes. Ou outras.


Mas a indolência tomou conta de mim. Apeteceu-me sentir uma ventoinha fazendo fresco na minha direcção. Liguei-a. Estou bem assim. Entre o meio sono, a meia consciência e a meia preguiça -- que, bem sei, juntas ultrapassam a unidade e está certo pois é como se um véu de macieza me envolvesse e, de certa forma, me moldasse, já fazendo parte de mim -- pus-me a ler um dos livros que agora aqui me acompanha. O acaso guia as minhas mãos que abrem o livro ao acaso e que, a cada vez, me traz uma mensagem que vejo como dirigida a mim.

Transcrevo um pouco:
Lavorare Stanca é o título de um livro. Significa trabalhar cansa.
Mestre José de Almada Negreiros costumava colocar-se nessa convicção de um modo um pouco mais agressivo. Dizia ele que "quem trabalha como uma besta não passa, evidentemente, de uma besta". (...)
O povo meteu num provérbio esta paz de consciência e de corpo: "Não é por muito madrugar que amanhece mais cedo."
O que a população deveria arrojar, em vez de tantos gestos, de tantas obras (que depois se obriga a desarrojar) seria ficar quieta, olhando à volta, ou em frente, que ainda cansa menos. Veria inumeráveis espectáculos que, com tanto entusiasmo trabalhador, lhe passam fora e longe. Veria as estações do ano, por exemplo.(...)

Pois. Tenho pela frente uma semana durante a qual não vou ver as estações do ano e durante a qual trabalharei como uma besta. Chegarei ao fim dos dias exausta, com a sensação de me ter gasto toda em urgências à toa e de nada restar dentro de mim. Talvez, com sorte, sobrem algumas exangues palavras que jogarei ao vento e que, com sorte, se enlaçarão noutras palavras.

Mas isso é durante a semana. Agora, apesar de já ser segunda-feira, ainda me sinto em fim-de-semana. Por isso, vou, uma vez mais, laurear por aí, procurar pequenos nadas que façam prolongar um pouco mais a sensação de descanso e despreocupação.


De novo, o Youtube tem um teste de personalidade para me entreter. Desta vez vai descobrir se sou mais masculina que feminina, se mais feminina que masclina ou se estou in between.

Penso, antes de o fazer: sou mulher da cabeça aos pés. Mas a verdade é que me sinto muito bem entre homens. Quase prefiro estar entre homens do que entre mulheres. No outro dia fui visitar uma empresa. Só homens na reunião e na visita às instalações. Depois fomos almoçar: só homens e eu. Não me senti nem um pouco deslocada. Outro dia, uma reunião, uma larga maioria de homens. No fim, diz o meu congénere alemão: uma surpresa ter do outro lado uma mulher, nestas empresas e nestas funções é muito raro encontrar-se uma mulher. Bem o sei. Mas, nestas situações, o género não é coisa que me ocorra. Sinto-me em casa. Dirigir reuniões, mesmo que complicadas, mesmo que só com homens, não me deixa desconfortável. Por isso, será que tenho um lado masculino que se traveste de mulher?



Então, vamos lá fazer o teste. Escolher decorações, maneiras de fazer a mala antes de viagens, escolher filmes, escolher reacções, escolher cores.  Convém não perder muito tempo, é responder à primeira. Não esquecer que isto não é nem pretende ser rocket science. Quanto muito, caso não se saiba a que eles se referem ou não se conheça o significado de algumas palavras, alguma pesquisa lateral mas, de resto, fazer na boa. Eu fi-lo sempre a abrir, na base do whatever -- que é das melhores bases que há (logo a seguir à decimal).

Depois de terem feito o vosso teste, já vos digo o que me deu.

Atenção: é preciso tomar notas e fazer uma continha no fim. Eu usei o excel mas, para quem não esteja à vontade, um papelinho e um lápis, serve bem.



Pronto. Espero que não tenham tido uma revelação que vos convide a sairem do armário.

Pois bem. No meu caso deu uma coisa que, na volta, se calhar até era expectável. Meio, meio. O que, segundo a explicação, vivo no melhor dos mundos, significando isso que, no trabalho, sou focada e racional como os homens costumam ser e, no resto, apaixono-me e faço coisas espontâneas a toda a hora o que, segundo quem o diz, deve ser coisa de mulher.


E eu o que concluo é que quem elaborou o teste e escreveu as conclusões está mas é cheio de preconceitos e de teias de aranha no sótão. Coisa mais parva e machista, credo. 
Ora vejam bem:
If your masculine and feminine halves take turns driving you, you’ve got the best of both worlds. You can keep your head straight and follow strict logic at work, then fall in love and do something spontaneous the next day.
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O excerto lá em cima é do livro 'em minúsculas' de Herberto Helder.

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E queiram continuar a descer caso queiram saber as vantagens e desvantagens de se dormir nu 

segunda-feira, março 26, 2018

Valtinho, melga confesso, enerva-se com o Herberto Helder



Teve um poema em que dialogava com Herberto Helder. É um deus?
É verdade... O Herberto Helder foi para mim das figuras mais iluminantes do mundo e vivi com a ansiedade de o poder conhecer. Mas o Herberto não era acolhedor. Cheguei a falar com ele por telefone umas duas vezes e até lhe bati à porta - teria uns 26 anos -, e falámos pelo interfone. Não abriu a porta nem me quis receber. Disse que só queria apertar-lhe a mão e ter o privilégio de olhar a cara dele uma única vez; recusou e disse que não desceria nem abriria a porta. Depois disso, disseram-me que estava sempre num café, mas achei que não me competia aproximar mais dele. Foi o que fiz, deixei-me estar. Magoou-me e vai magoar-me a vida toda o facto de ele não ter tido normalidade suficiente para me cumprimentar, mesmo que continue a ser uma personagem divina no meu universo.
O poema não está nesta antologia!
Não está e nem desgosto dele, mas o Herberto Helder enerva-me e por isso não está no livro.

[excerto do artigo: "Herberto Helder enerva-me, por isso não está neste livro", com uma entrevista feita por João Céu e Silva a Valter Hugo Mãe]

segunda-feira, março 05, 2018

E como pão e bebo água de olhos fechados como se fosse para sempre






quem fabrica um poema curto morrerá muito mais tarde
só depois de estar maduro



Num único dia saio de casa, percorro a beira do rio, a cidade, outra cidade, volto a minha casa. Num lugar chove copiosamente, noutro há ventania, a seguir aflora o sol. Em casa há o conforto da família. Fecha-se o ciclo.

E observo como o tempo actua no corpo dos homens. 

Os meus pais. 

Ao lado do meu pai, o avô de um ex-aluno da minha mãe. A filha desse avô que a minha mãe reconheceu apesar de terem passado mais de trinta anos. O seu ex-aluno, agora jornalista com programa na televisão, fala com adoração dessa sua professora, conta a mãe. A minha mãe recorda-o. Sempre gostou de escrever, diz.  Depois a mulher fala do pai: 'Alzheimer. Rápido. Intenso. Tudo a falhar.'. Depois acrescenta: 'E a minha mãe também. Mais progressivo. Tem momentos em que ainda me conhece'. Está cansada. Quase sufocada. A minha mãe diz que a percebe. Eu não digo nada.

Ao fundo, um homem está sentado num cadeirão e tem tubos de oxigénio. Em frente, o que deve ser a filha, mulher talvez um pouco mais nova que eu. Nenhum dos dois fala. Comento com a minha mãe: 'Destes três já nenhum sabe conversar'. Quando a mulher sai, o homem espreita para confirmar que ela saíu, depois, lesto, levanta-se e, com segurança, começa a separar os tubos, tira-os do nariz, e enrola-os cuidadosamente. A seguir coloca-os no bolso. Chamamos a enfermeira. Ela zanga-se. Ele calmamente diz que aquilo é dele, que faz o que quer. A conversa é divertida, parece uma rábula cómica. Ela diz que é dela, que lhe dê os tubos. Ele duvida: 'É...?'. Ela confirma. 'Claro que é'. Ele pergunta: 'Sim...? Pagou...?'. Ela ri-se. Diz que sim. A custo arranca-lhos. Volta a colocá-los. Mal ela vira costas, ele faz o mesmo e, rapidamente, avança para a porta, diz que se vai embora. 

Pergunto à enfermeira se precisa de ajuda. Diz-me ela, sorrindo: 'Deixe... Não é fácil... Demência'

Penso que ali é o fim da linha. Penso mas não digo. Se há coisa que tenho aprendido nestes últimos anos é que não se sabe nada. 

Dali sigo para casa. Estou com os mais pequenos, com os pais dos mais pequenos. Os meus amores. Na minha sala brincam as cinco crianças. Jogam à bola, praticam judo, fazem ginástica, riem. O mais crescido segura o mais pequeno. Riem um para o outro.


Os mais crescidos observam, riem, conversam. O bebé ciranda, anda à descoberta, começa a impor a sua vontade. Depois, à volta da grande mesa, come-se, conversa-se, partilha-se. 

Quando saem, dedico-me às tarefas domésticas. Depois venho ver as fotografias feitas no dia. O Ginjal, o rio, a chuva, os meninos, as brincadeiras, os sorrisos. Sorrio vendo-os.

Na televisão há o festival da canção, os óscares, os futebóis, as eleições em Itália, o mau tempo. Distraí-me a escrever. Quando volto à 1, já começou um filme. Fui agora ver ao DN quem foi que ganhou. E agora fui ao YouTube para ouvir. A miúda, Cláudia Pascoal, tem carisma. Mas canta a canção com ar de sofrimento. Não sei se a letra o justifica mas não me apetece prestar atenção.

Está a começar uma nova semana. Tomara que seja boa. Não precisa de vir com sol. A chuva não faz mal, também é boa. Na sua diversidade e apesar de tudo, a vida é uma coisa boa.


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Três fotografias foram feitas no Ginjal. A outra, na sala.

Fernando Alves diz Quem fabrica um peixe fabrica duas ondas de Herberto Helder num vídeo do Cine Povero

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E queiram continuar de passeio pelo Ginjal, um dos lugares mágicos da minha vida
Aí poderão ver a gaivota que levou a melhor em relação ao pescador.

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quinta-feira, dezembro 07, 2017

É o Steve Cutts e sou eu:
este é o nosso mundo



Teimo em não ter facebook nem twitter nem tretas dessas que causam dependência e nada acrescentam ao nosso conhecimento ou felicidade.

Comecei a fazer fisioterapia e, desde as fisioterapeutas aos clientes, aquilo lá parece tudo gente de sangue azul. Finos, finos, finérrimos. Quando me perguntaram como tinha eu dado cabo do ombro, disse que achava que tinha sido a podar árvores. Pois bem. Parecia eu que estava a dizer que tinha sido a andar de braço esticado a apanhar borboletas em Marte. Não percebiam. Mas... árvores? Árvores... de quê? De fruto? Mas como? E eu: pinheiros, azinheiras, aroeiras. De podão ou serrote. E elas estupefactas. Mas também bastaria olhar para as minhas mãos. Nada de nails artísticas, nada de gel, gelinho ou corte em bailarinas. Com as minhas mãos, ou campónia ou sopeira. Por mim, qualquer das duas. Com muito orgulho.


Mas mil vezes isso do que ser daquelas malucas que estejam onde estiverem tiram selfies, tiram fotografias à comida ou às paredes e logo as postam, passando depois o resto do tempo a rir, supostamente em estado de derretimento a ver os comentários dos 'amigos'. Não há pachorra.

Pior ainda é estar-se numa reunião em que cada um dos presentes (excepto eu!) está de tablet, entretido a ver as notícias, a mandar mails ou o escambau. Onde eles se acham uns moderninhos, eu acho-os uns palermas encartados. Uma vez calei-me e disse que me fazia impressão falar para quem não estava a prestar qualquer atenção. Ficaram todos ofendidos. Que estavam a prestar ultra atenção, ora essa, apenas tinham que ver algum mail em particular ou alguma cotação, coisa muito útil e muito breve. Sim, sim. Mostrei que não acreditava patavina e volta e meia repito a graça: perante uma pausa silenciosa, levantam logo todos os olhos dos computadores não vá eu fazer mais algum remoque.

O mundo tem coisas de gente burra. A espécie, quando vista em geral, parece tender para a anulação. O que se lê é maioritariamente lixo -- e é quem lê alguma coisa para além dos faces desta vida. O pessoal vai desertificando das ideias e baixando o nível de exigência. Aceita-se tudo, convive-se bem com o lixo. Não sei onde é que isto vai parar mas a sítio bom não é, de certeza. Nos Estados Unidos, já os levou ao Trump.

Mas pronto, acho que pouco há a fazer. Massificámos a estupidez e agora chapéu.


Cá para mim, a menos que haja algum dia uma barraca dos diabos e a malta ganhe verdadeira aversão à coisa, este é o inexorável caminho que estamos a trilhar.

Mas ainda há quem do disparate consiga fazer uma coisa boa. Neste caso, um alerta bem parido:

De Steve Cutts (de quem também são as imagens dos gifs): This is our world



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E para aqui estou a tentar acertar o raio de acção dos olhos com o ponto dos óculos em que a coisa se dá. Idem com a posição da cabeça a tentar alinhá-la com a das coisas que quero divisar. Não está fácil. Turvo, desfocado, esbadanado. 
Nem sei se existe esta palavra (esbadanado) mas, olhem, se não existe, passa a existir. 
Recebi mails simpatiquíssimos com palavras de incentivo e/ou conselhos práticos sobre como fazer uma pobre coitada para se adaptar a esta tecnologia avançada dos óculos progressivos. Por isso, embora contrariada, aqui estou a sacrificar-me até que o cérebro se habitue a tanta sevícia. Claro que só os uso à noite, aqui no computador. Para mais do que isso já seria preciso virar-me do avesso e para isso ainda não vejo necessidade.


Mas talvez por causa disso, de estar para aqui, azamboada, às voltas com as focagens, ainda estou com mais sono do que nos outros dias.

Dado o dia de cão que tive, estive a mandar mails de trabalho até há pouco. E era ver-me: toda esperta. Mal acabei a faena, pimba, a cabeça a pendular, os olhos a fecharem-se e eu toda off. Vá lá a gente perceber esta lógica. A pancada devia era ter-me dado quando me ocorreu estar a trabalhar até tão tarde. Santa paciência que até para mim já me falta, caraças. O que vale é que esta quinta vai saber-me a ginjas, pelo menos assim o espero, uma quinta toda prosa, toda sexta.

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E estou tão leve
porque não tenho nenhum segredo
e tão oculto
porque daqui a nada 
já posso dizer tudo.

in Levanto à vista -- Herberto Helder dito por Fernando Alves




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Inté. 
Agora tenho que vos deixar e ir pregar para outra freguesia, ok?

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segunda-feira, outubro 30, 2017

É verdade, L., in heaven os poetas acompanham os meus passos




Nem sempre possa dar largas à minha imaginação ou à minha vontade. Nem eu nem ninguém, acho eu. A vida vai criando mecanismos para nos cercear, sejam eles económicos, sociológicos, de índole interior ou outros. Acontece-me tantas vezes ter vontade de fazer coisas e ter que me auto-moderar. Contudo, verdade seja dita, sempre que posso dar largas à minha vontade, não alimento receios ou restrições.


In heaven estou, a todos os níveis, em minha casa. Esta é a minha terra, o meu pedaço de chão, o lugar do mundo onde posso ser quase tudo. Aqui inventei caminhos, escadas de pedra, plantei árvores e bancos à sua sombra (que, na altura, era apenas uma ilusão já que as árvores pouco mais tinham que um palmo), sonhei muros onde o vento se detivesse e pudesse ter espaços de conforto e puro desfrute, desenhei uma lareira que seria feita com pedra da montanha, enfiei estantes dentro das paredes e criei um risco de que hoje ainda não me restabeleci, inventei um jardin zen, criei uma capela, enchi telas de pinturas, fiz tapetes de arraiolos, decorei uma casa de banho com parede azul escura, louças pintadas à mão e espelhos dourados... e nem sei que mais. E desenhei paredes onde pudesse ter pinturas e poemas.


Já muitas vezes aqui os mostrei mas o número de leitores vai aumentando e, não me conhecendo de outros posts, acontece que alguns estranhem algumas coisas que digo. Por exemplo, no outro dia contei que um rapaz que lá tinha estado a fazer uns arranjos nos disse que tinha levado a mulher para ela ver e que ela tinha gostado muito dos poemas.


Recebi então mail de uma leitora que me perguntava se eu tinha escrito poemas nas paredes. Respondo aqui: por acaso, sim, L.. Em algumas pintei à mão poemas de Nuno Júdice, Maria Teresa Horta, Herberto Helder. Mas o tempo tem desbotado as cores e as fotografias já não os mostram bem. Um dia vou ter que repintar essas paredes e reescrever alguns poemas, provavelmente outros.


Mas a maior parte da poesia está em painéis de azulejos. Numa oficina de azulejaria mandei fazer painéis uns com poemas manuscritos e outros com reproduções de pinturas. O que mostro é uma parte. O prazer em conceber cada espaço, em escolher os poemas, em dispô-los... isso é das boas, maravilhosas memórias que vivem em mim.


E agora que o tempo já deixou impressas as suas marcas, é com deleite que ando por estes caminhos -- aspirando o perfume das árvores e dos arbustos que rebentam desta terra tão pedregosa e, afinal, tão fértil -- e vou lendo os poemas. É como se os poetas de quem eles nasceram também vivessem aqui e por aqui andem acompanhando os meus passos, guiando-me nas descobertas que sempre faço -- os pássaros, as flores, o desenho que a luz desenha, as sombras nas pedras, o musgo, a caruma, os cheiros, as nuvens, a lua branca, a dourada folhagem, um sino tocando ao longe.


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segunda-feira, setembro 18, 2017

Outros luxos



Há alturas em que vagueio por entre leituras, sentido-me bem, apreciando o sabor das palavras, a elegância da escrita, contente por ter a sorte de gostar de livros.

Mas há outras em que, talvez porque mais predisposta, talvez por afortunadas coincidências, a experiência de ler é mais do que isso: é sinónimo de pura felicidade. Leio e sinto um envolvimento profundo que me transporta para aquele espaço indefinível em que a nossa matéria se dilui na felicidade de viver o momento.

De vez em quando, se o meu destino inclui a Gulbenkian no percurso, arranjo maneira de fazer coincidir um almoço rápido com uma ida à livraria. Mil vezes que pelo parque ou pela livraria eu ande, mil vezes me encanto como se fosse prazer inaugural. Desta vez o que trouxe de lá, para além da serenidade que o passeio por aqueles recantos frondosos sempre me proporciona, foi o Colóquio de Letras, Setembro/Dezembro 2017. 

Esta do Colóquio de Letras foi tema durante anos. Eu vinha de um namoro erudito. O meu namorado era todo artes e letras e eu, sendo naturalmente interessada por estes domínios, vivia imersa em informação, em revistas, livros, discos. Sendo ele pessoa muito dada à literatura, o Colóquio de Letras era uma lufada de arte, saber e ar fresco que consumia com avidez e do qual também me tornei devota. Ao começar a namorar o que viria a ser meu marido, todo ele de áreas mais exactas e concretas, falei-lhe uma vez no Colóquio e, para meu espanto, descobri que era coisa que ele desconhecia. Fiquei escandalizada. E ele deve ter achado o meu escândalo uma coisa disparatada pois, quando queria ridicularizar algum intelectual de pacotilha, acrescentava logo, 'ah... e não deve perder um Colóquio de Letras...'. Não me deixei abalar. Troquei de namorado, nada de mais, mas ao Colóquio de Letras mantive-me fiel.
No Colóquio gosto de tudo. A começar é o objecto em si. Agrada-me o design, a paginação, a qualidade do papel, o peso (é pesado, um compacto de luxo), o cheiro a tintas quando é novo. E gosto da selecção de temas, gosto do que lá se escreve, gosto do cuidado da feitura, gosto das imagens.

Mas este número é, de facto, especial: é um luxo. 


António Ramos Rosa e Herberto Helder. A poesia de ambos, a amizade que os unia, a correspondência trocada. A imagem das cartas, a letra deles, a insegurança de HH, o conforto que procurava junto do amigo, a palavra certa de ARR -- tão bom ler, ver, ter a poesia deles assim materializada.


E os poemas de ambos, poemas maiores, vozes a um tempo vindas das entranhas da terra, das entranhas da alma, da seiva das árvores, dos cavalos quando correm na noite, da seda das pétalas das rosas, do sangue das mulheres, da luz, das trevas, da imaterialidade do amor... O prazer de ter uma edição destas nas mãos, folheá-la, palpá-la, fechar os olhos e, ao voltar a abri-los, aquelas palavras ainda ali estarem, disponíveis, belíssimas.

Para acescentar ainda mais espessura à 'alquimia verbal da escrita de Herberto e à voz inicial de Ramos Rosa', as imagens de 'algumas peças da obra ao negro de Rui Chafes -- tal como Nuno Júdice o refere no Editorial.


Entretanto, este domingo, dia muito tranquilo: caminhada à beira rio, fotografias, almoço no cantonês, a aragem que faz dançar suavemente o arvoredo, as gaivotas, os veleiros, as cores doces deste fim de verão que já sabe a outono.


E, de tarde, um outro livro. Estou no princípio. Mesmo no princípio. E, no entanto, já lá estou dentro. Daqueles livros, pura literatura, em que as palavras nos levam pela mão. Bem sei, como no outro dia li a Javier Marias, que uma tradução é uma reescrita, a toada é outra porque a língua é outra, as subtilezas das palavras são, certamente, outras. Uma reinterpretação do original. Mas é uma tradução o que estou a ler (a cargo de Rui Lagartinho e Sofia Castro Rodrigues). Se calhar, se estivesse a ler o original, o meu maravilhamento seria ainda maior. Mas é em português que leio e é em português que falo do prazer que o livro, desde já, está a trazer-me. Chama-se Pedro Páramo e é de Juan Rulfo que o publicou em 1955.


Ler sentindo o toque das palavras

E estou aqui a escrever e com vontade de parar já para ir ler o livro. E há livros em que retomo no exacto ponto em que os deixei porque cada palavra conta -- e não são muitos autores com quem isso acontece. Neste sim. Neste livro não poderei perder palavra. Se calhar, quando a ele voltar, vou até reler a última página para ter a certeza que a cerzidura na leitura fica perfeita porque este livro não é um livro qualquer. Vou no princípio mas já sinto que é raro. Um luxo.

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Excertos de Pedro Páramo lidos por Juan Rulfo



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E, porque este post é também deles, poemas de António Ramos Rosa e de Herberto Helder 
(lidos por José-António Moreira)

O teu rosto



O amor em visita


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Fotografias feitas este domingo


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Abaixo fala-se de uma pessoa pouco recomendável pelo que deverão avaliar bem se é de vossa conveniência perturbar a alegria que as gaivotas vos estão a enviar

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