Também gosto do Chance. Ou do Nº 19. Nos perfumes, já aqui o confessei diversas vezes: sou Chanel. Mas nada chega aos calcanhares do Nº 5.
Dizem que é quente. Não é. Nada. Subtil, misterioso, único. Metamorfoseia-se. Pelo menos em mim, na minha pele, isso acontece,
Um toquezinho e chega. O que é bom pouco basta.
Chamo a atenção para o vestuário da Margot Robbie, um maravilhoso tecido, um maravilhoso corte, uma maravilhosa cor.
In the new N°5 film, See You at 5, Luca Guadagnino's lens follows Margot Robbie along the roads of California. The story of two lovers' missed connections, where the road to get there is just as important as the rendez-vous itself. Will there be a rendez-vous waiting at the end of the journey? Or is the rendez-vous itself the journey?
Há um perfume de homem que sempre me levará nas asas da memória até um longínquo verão em Angola.
À medida que o tempo mais passa mais eu vou percebendo como foi de charneira na minha vida a minha viagem a Angola, um mês de total liberdade, quase vinte e quatro horas por dia junto de jovens da minha idade, grande parte deles até então meus desconhecidos.
Não havia telemóveis e, porque andávamos de um lado para outro, praticamente nem telefones dos outros. Não Tínhamos, portante, que telefonar nem esperar por telefonemas. Andávamos à solta, num outro continente. Portanto, foi quase como se tivéssemos cortado o cordão umbilical à família, ao mundo onde antes vivíamos.
A magnífica largueza de horizontes daquelas paisagens, o clima que convidava ao quase desnudamento, os dias longos, quentes, os maravilhosos pores de sol, aquelas praias em que apetecia estar até ser bem tarde, a descontração de toda a gente, a boa comida, a boa companhia, tudo, tudo eram mil maravilhas que eu avistava e desfrutava através daquela porta aberta que eu podia transpor sem ter que pedir autorização, sem ter que me justificar.
As amizades que nasceram, o afecto que se ia fortalecendo dia após dia, a alegria que uma certa pessoa que aparecia de manhã, cabelos molhados, sorridente, brincalhão, desafiador, e perfumado com Eau Sauvage, me trazia (e, creio, trazia a todos) não se esquecem.
O tempo passa, passa muito rapidamente, mas há coisas que a erosão não leva.
A Dior escolheu, e bem, Johnny Depp para dar corpo ao espírito da Eau Sauvage. Leio que:
Sauvage Eau de Parfum smells citrusy, musky, and spicy giving the wearer a feeling of being fresh after the shower. The main notes are ambroxan, bergamot, and Sichuan Pepper with a lasting power of 8 – 10 hours with a very good projection.
Já não quero ter pois tenho de sobra para o que preciso. Mas ainda move a minha atenção. Spell on you. A sedução começa no nome. What's in a name.
O nome é a chave de tudo. A minha filha não poderia ter outro nome senão o que tem. Cai-lhe bem seja qual for a declinação que se use. O meu filho não poderia ter outro nome senão o que tem. Aliás, se, no caso da minha filha, o nome estava definido desde sempre, o do meu filho começou por ser negado. Eu dizia: qualquer nome menos esse. Era o nome do meu marido, o do primo mais chegado, o do filho do primo, o do tio, o que tinha sido do avô. Tentámos todos os nomes e mais alguns e, em todos, achávamos defeitos. No último dia, rendemo-nos: não podia ser outro senão aquele nome e foi assim que foi registado. É agora também o nome do filho mais velho da minha filha e o do filho mais velho do meu filho. Nas nossas casas, chama-se por esse nome e há vários a responderem. Mas cai-lhes bem esse nome. Não poderia ser outro senão esse.
Quando me apaixonei pelo meu marido sem o conhecer foi sem surpresa que a amiga especial dele da altura me disse como é que ele se chamava. Foi como se obviamente tivesse que ser esse o nome. Como se isso comprovasse a razão de ser da minha paixão. Nunca tinha falado com ele nem nunca o tinha ouvido falar. E, no entanto, estava apaixonada por ele e, no meu íntimo, sabia que o seu nome não poderia ser outro senão esse. Quando ela me falou dele e me disse qual o seu nome, eu tive a certeza que ela estava a falar do desconhecido por quem me tinha apaixonado.
Já o meu primeiro namorado se chamava assim. Estávamos a entrar na adolescência, eu nada sabia da vida, e, no entanto, ele tinha tudo o que eu gostava ou haveria de gostar num homem. Não sabia, então, mas sei agora: tudo o que há a saber sobre uma pessoa está contido no seu nome.
O meu nome. Eu não seria eu se não me chamasse como me chamo. Sou chamada pelo menos em quatro declinações e em qualquer delas me revejo. A minha mãe tinha dúvidas, pôs a hipótese de me chamar Helena. Mas eu não teria tido a vida que tive, seguido as opções que segui, não seria a que sou hoje, não escreveria aqui o que escrevo se me chamasse Helena. Gosto muito do nome mas a mim não me assentaria tão naturalmente quanto o meu me assenta. Eu sou o que sou porque este é o meu nome e porque as pessoas com o meu nome são assim.
Nem todas as pessoas com o mesmo nome serão exactamente iguais. Claro que não. Aí entra a questão do signo. O nome mais o signo definem e calibram com precisão tudo o que há a saber sobre uma pessoa.
Aqui chegados, imagino que muitos dos que me lêem acham que nada disto faz sentido. Mas ainda estamos no início dos tempos. Tudo o que se sabe não é nada comparado com o que há para saber. Se não nos apressarmos a chegar ao fim dos tempos talvez, até lá, consigamos descobrir alguns dos mistérios que hoje nos parecem insondáveis.
Mas, dizia eu, que é o nome. Spell on you. Isso e a descrição, o nome das flores, os sentidos despertos para receberem odores de terras longínquas, as palavras que hipnotizam e seduzem. Transcrevo:
An ode to the iris pallida from Florence, its composition exalts the duality of a precious flower that symbolizes feminine seduction. The iris insinuates its violet notes into a radiant bouquet of rose and Sambac jasmine, then unfurls the force of its powdery notes within the honeyed accents of acacia flower. Evolving from carnal seduction and an intimate impression, Spell on You has a hypnotic, heady aura, like an unforgettable refrain...
Ou, numa perspectiva mais técnica, as notas
Top notes are Green Notes, Violet and Tuscan Iris; middle notes are Rose, Chinese Jasmine and Tuscan Iris; base notes are Peach, Acácia and White Musk.
E depois há a embalagem, a elegância do exterior. As proporções. Os pormenores.
E há a forma como se apresenta. Se há sensualidade, intimidade, sedução, malícia, segredo, mistério, se há qualquer coisa de inexplícito, se há a possibilidade de ser outra coisa e não aquilo que parece... então eu identifico-me. E tenho vontade de me aproximar, de experimentar.
Por isso, logo que possa, fá-lo-ei. É inevitável. What's in a name...? E, de resto, para quê mudar...?
Spell On You with Léa Seydoux ||| Louis Vuitton
[ao som de Nina Simone: « I put a spell on you »]
_______________________________________________
Fotografias de David Sims na companhia de Fiona Apple que interpreta Why Try To Change Me Now
Os muito feios que me perdoem mas beleza é fundamental. Sou muito fã de homens bonitos. Contudo não deve ser uma beleza muito certinha, tem que ter ali qualquer coisa. Sobretudo, tem que vir a par de algumas so called soft skills. Já aqui falei muitas vezes nelas. Acho que nenhuma mulher (ou homem que goste de homens) aprecia um homem que seja uma amélia, uma mariazinha-cueca, uma abécula encrencada, um chato auto-centrado. Pelo contrário, acho que toda a gente aprecia um homem inteligente, com sentido de humor (o sentido de humor é fundamental; homem que não tenha sentido de humor e que não me faça rir é automaticamente banido). Claro que tem que ter um bom carácter, tem que ser generoso, compreensivo e carinhoso. Mas carinhoso sem lamechices, sem nha-nha-nha. E malícia -- malícia também é fundamental. Homem que é homem de verdade sabe-a toda. Tem que ter muita malícia. Mas daquela malícia que só é boa se vier condimentada com inteligência e sentido de humor.
Enfim, essas coisas que são essenciais num homem.
Mas tem que ser bonito. Não uma boniteza de boneca, não uma boniteza de menina. Pode ter feições atípicas, pode não ter aquela simetria perfeita que caracteriza a beleza convencional. Mas tem que ter um olhar que desça fundo, tem que ter uma boca que mostre que sabe ter bom uso. O corpo a mesma coisa. Tem que ter um bom corpo. Também não precisa de ser um hércules ou ter um model body. Tem é que mostrar que tem uma boa pegada. Que sabe agarrar com convicção e, na dose certa, doçura. Tem que mostrar que é homem.
O Adam Driver é um daqueles casos: olha-se e há ali muito de inconvencional. Há ali coisas naquelas feições que parece que não batem completamente certas. E... no entanto... que homem.
O vídeo que abaixo partilho, realizado por Jonathan Glazer para divulgar o perfume Hero da Burberry, mostra-o em toda a extensão e o que posso dizer é que não há defeito que lhe possa pôr. Aprovadíssimo.
Quando acabei de ver, voltei a ver. E só me ocorreu dizer: se isto não é um homem... E ia dar este título ao post. Mas poderia parecer uma alusão a 'se isto é um homem' e achei que não deveria arriscar. Ficou 'se isto não é um centauro...'. Fabuloso, meio homem, meio cavalo. Atravessando os mares, correndo, veloz, livre. Um centauro correndo na praia, nadando ao lado de um cavalo. Muita beleza.
Claro que não faço ideia se o perfume está à altura mas, para o efeito, isso é secundário. Acho que ele é bom de qualquer maneira, mesmo sem perfume.
Há uma coisa que sempre se ouve dizer: que o odor de um perfume depende da pele que o acolhe. Eu, por exemplo, não gosto de perfumes doces, parece que, em mim, o sinto enjoativo. Aliás, em mim e em toda a gente. Mas, lá esta, provavelmente o meu olfacto também difere do das outras pessoas pois não acredito que tanta gente use cheiros enjoativos sem que tal lhes agrade.
Gosto de florais e cítricos. Sinto-os leves, frescos e agradáveis ao longo de todo o dia. Sou também muito sensível ao nome dos ingredientes e à poética da sua promoção. Por exemplo, se leio que contém tangerina de Marraquexe. lírios do deserto, bergamota colhida ao romper da aurora ou outras coisas assim (e estive a inventar porque não me apeteceu ir ler o descritivo dos perfumes de minha eleição) é certo que me deixaria tentar. Escrevo isto a pensar num tempo passado. Tenho perfumes que provavelmente durarão até ao fim dos meus dias (até porque em casa ou em ambiente informal não costumo perfumar-me), a menos que tenham prazo de validade inferior a cem anos.
A elegância dos frascos também não me deixa indiferente. Mas nâo é determinante: atrai-me mas é como os livros em que sentia, na outra vida, a necessidade de folhear antes de me decidir. Nos perfumes é idêntico, tenho que experimentar.
Gosto de muitos perfumes e tenho uma certa hierarquia. Se, por exemplo, vou para reuniões no 'terreno', ambiente que me parece poder derrapar para a 'pesada', aí escolho um Lowe ou um Marc Jacobs, por exemplo. Parece uma coisa mais informal, menos comprometedora.
E isto em mim é recente. Recente de alguns anos. Até lá era sempre Chance para o dia a dia e Nº 5 para os momentos com o seu quê. Depois inverteu-se: Nº 5 para quase sempre e o Nº 19 ou o Cristalle ou o Chance para intercalar. Parece que, em mim, apenas os perfumes Chanel respeitavam a minha idiossincrasia. Até que comecei a experimentar e gostei. Tornei-me desleal na maior ligeireza. Talvez isto resulte de estar muito claro para mim que, por muitos que experimente, sempre voltarei ao Nº 5. Esse está num outro patamar. Intemporal, eterno.
E não é por mais nada: é que, em mim, ao longo do dia, o perfume se modifica e, na minha imodesta opinião, para melhor. Vai ficando subtil, íntimo, um cheirinho único que não identifico em mais ninguém mesmo se também o usam.
Dizem que a principal característica do Nº 5 é que não se parece com nenhum outro nem fica parecido entre as mulheres que o usam.
Muitas vezes, quando o uso, chega-me um aroma tão especial, tão pessoal que me intriga como se transforma desde que o ponho até se tornar um perfume tão meu. Por vezes diziam-me que sabiam por onde eu andava porque ficava um suave perfume a flores no ar. Mas o Nº 5, ao longo do dia, não tem nada a ver com flores. Eu achava que tinha a ver comigo. Uma vez mais falo no passado pois, no último ano, nunca me pareceu que houvesse ocasião que o requeresse ou merecesse. Tenho destas coisas.
Um que trabalha na empresa de onde saí há cerca de um ano também usa um perfume característico, um Dior. Conheço-o há uns vinte anos e sempre o usou. Por vezes, eu chegava ao meu gabinete e parecia sentir o seu odor no átrio junto à entrada. Perguntava se ele lá tinha estado e diziam-me que sim, que tinha lá estado à minha procura.
O meu marido também usa o mesmo perfume desde que me lembro. Não quer outro. Põe muito pouco mas o seu cheiro é também inconfundível e muito bom.
Pessoas que usam um mau perfume estão para mim ao mesmo nível das que dão pontapés na gramática ou das que não sabem estar à mesa. Sei que os bons perfumes são muito caros e ao alcance de não muitas bolsas. Mas um bom creme corporal ou um bom sabonete são preferíveis a perfumes vulgares que transmitem a sua vulgaridade a quem os usa.
Mantendo o glamour sofisticado da publicidade de sempre, em que se mistura romance, independência e um visão poética do mundo, a casa Chanel vem divulgando testemunhos pessoais, em que se sente aquela serenidade e respeito pela beleza, aquela quietude sofisticada, aquela simplicidade elegante que se tenta que seja também a imagem da marca, a imagem da obra de arte que veste uma mulher, revelando-a em todo o seu mistério.
Marion Cottillard é o rosto do Nº 5 para os atípicos dias de hoje. E eu gosto bastante de a ver nesse papel.
Tenho um puzzle de muitas peças para montar. Quero que fique perfeito, harmonioso. Contudo, muitas peças são imperfeitas e nem todas parecem encaixar na perfeição. Sei que há quatro peças a mais, desajustadas, desagradáveis, boas para serem descartadas. Contudo, vejo-me forçada a inseri-las no puzzle, tentando o prodígio de que, em cima de todos os demais condicionalismos, ainda consiga que o resultado se pareça com um puzzle perfeito... Um quebra cabeças. Nem as minhas artes para resolver impossibilidades estão a conseguir salvar-me deste complexo enigma que me calhou em sorte.
Durante o dia, por duas vezes, saí para o jardim para fotografar as flores a ver se descia em mim alguma inspiração. Fotografei, maravilhada, os meus brincos de princesa, a floreira que estava partida e que colei, a casinha dos passarinhos e tudo em que o meu olhar pousa. E as ideias até que desceram mas, passado um bocado de descer uma, logo descia outra que me fazia parecer absurda a anterior.
Depois, ao fim do dia, recebi um telefonema: alguém, que está nesta tanto ou mais do que eu, queria saber do puzzle. Ainda se riu com algumas das minhas ideias peregrinas. No outro dia desatámos os dois a rir, eu quase sem conseguir falar, uma risota pegada. Mas, até ver, as minhas ideias luminosas não lhe pareceram grande coisa. Quer um puzzle onde ninguém possa botar defeito. Também eu. Mas como? Ele diz: sei que não tenho soluções mas para isso conto consigo. Digo-lhe: ou a gente aceita que o puzzle fique com quatro peças meio de fora ou deitamos as peças fora. Mas isto sou eu a querer forçar a solução imperfeita porque, na verdade, não sou de deitar peças fora. Quando me sinto a ponto de deitar a toalha ao chão penso: 'isto é capaz de ser bom para evitar a demência'. E penso naqueles sudokus ou jogos de terceira idade em que se quer exercitar a memória ou o raciocínio para ver se os neurónios não se deitam a dormir. Penso que este meu pincel é tipo vacina em dose dupla. E rio-me. Tudo para ver se não desisto.
Hoje deu-me para metáforas, que maçada, como se isto fosse horas para estar com isto. Só pode ser porque ainda não consegui desligar...
Mas, pronto, vou ver se mudo o chip. Perfumes. A minha mãe estava a pensar oferecer-me um Nº5 pelo Natal. Tive que lhe dizer que não, praticamente já não uso perfume, não me dá jeito perfumar-me para estar em casa ou fazer caminhadas ou ir à praia. Embora, reconheço, seria chique a valer um Chanel e uma esvoaçante echarpe de seda para ir caminhar à beira mar. Um sucesso junto das gaivotas. Um sucesso e uma vingança junto dessas flausinas que me fazem sentir inveja delas.
Tenho no quarto, no closet, duas prateleiras com os meus perfumes. Frascos lindos, perfumes maravilhosos. Encanto-me a contemplá-los. De vez em quando destapo alguns para relembrar o odor. Sinto saudades. Cheirinhos mais bons...
A minha vida mudou. Desde meados de Março que não ponho o meu relógio. É um relógio solto, pesado, lindo. O ponteiro das horas tinha voltado a adiantar-se estupidamente, os menos próximos a alertaram-me que o relógio não estava certo. Mas, tirando o tempo em que esteve a ver se conseguia ser arranjado (duzentos euros para nada), nunca o tirei. Não era para ver as horas, era mesmo só pela sua elegância e beleza e pela companhia. Se o não pusesse, sentiria a falta daquele peso no pulso. Só não o usava ao fim de semana. A aliança também nunca mais usei. Mãos sem nada. Brincos só para as reuniões. Saltos altos também nunca mais.
No outro dia, fui ao dentista. Andava há séculos a adiar, não era nada de urgente, mas, quando vi que isto da covid estava para dar e durar, acabei por achar que o melhor era deixar-me de coisas e ir. O dentista (que agora já não dá pelo nome de dentista, cada um tem sua especialidade) que é homem novo, enquanto punha a cadeira para baixo, olhou-me para os pés e exclamou: ah, que ténis tão giros... e são confortáveis, não são...? Desatei a rir. 'São velhos... e confortáveis, sim'. E ele, olhando-os, 'são muita giros'. Depois olhou para mim e disse: 'Acho muito melhor assim... Há quem ande em cima de saltos altos e nunca experimente o conforto de andar com sapatos assim'. Voltei a rir-me e expliquei-lhe que até Março eu andava todos os dias da semana, de manhã à noite, montada em sapatos bem altos. E ele, que é novo ali e não me conhece de outros carnavais, olhou para os meus jeans, os meus ténis, o meu rabo-de-cavalo e espantou-se: 'A sério...?!'. Ah pois é, bebé. Aqui a je já foi madame empinocada, perfumada, emperiquitada de alto a baixo. Agora é tudo na base do casualware e já vai com sorte. Quando vou entrar numa meeting, uns minutos antes, ponho uns brincos, penteio-me, visto uma blusinha de seda, agora que está mais fresco ponho uma echarpe, passo um brilhozinho nos lábios e está feito. Mantenho as leggings, as meias fofas e quentinhas porque isso ninguém vê. O meu marido goza que se farta. Se me vê andar à pressa a ir à procura de uma echarpe ou de uns brincos, goza logo: 'temos reunião... certo?'. Ele não é como eu: veste-se como se veste e não se altera para as reuniões.
E pode não parecer mas a minha ideia quando peguei no computador era escrever sobre perfumes. Se eu ainda estivesse numa de usar perfumes, gostava de receber um presente assim: uma cestinha com um vasinho com uma orquídea -- ando com esta coisa de querer ter uma orquídea -- e, ao lado do vasinho, dentro da cestinha, um frasquinho com um perfume raro. E uma caixinha com uns brincos lindos, talvez uma filigrana pequenina, moderna. E uma caixinha com pedrinhas às cores e conchinhas. E ainda um voucher para ir fazer um curso de perfumista. Gostava de saber fazer perfume. Tinha era que ser um curso remoto. Penso que seria um presente que iria deixar-me encantada. Mas como já não uso perfume, e brincos só os remotos, nada de grandes necessidades, acho que vou ficar à espera apenas da orquídea. De resto já o fiz saber aqui em casa. Sempre tive vontade mas sempre achei que era bicho tricky, como os gatos. Não sei se saberei tratar animal tão senhor de si. Mas deve vir com manual de instruções. No outro dia até pensei comprar uma orquídea artificial. Mas as coisas artificiais não dão luta e eu, como é bom de ver, a sério, a sério, só gosto mesmo é do que dá luta.
Mas, pronto, como me distraí com a conversa e daqui a nada tenho que estar a pé, passo já ao vídeo que aqui me trazia. Um vídeo Vogue, uma casa fantástica, um jardim de sonho, uma colecção de vidrinhos e cheirinhos boa para a gente sonhar com ela. A Paola Locatelli não faço ideia de quem seja mas, a julgar pelo que aqui vejo, deve ser simpática.
Agora, aqui, não vou falar do Trump. Já o fiz no post abaixo e, ao ver o pequeno vídeo que ali partilho tal como de cada vez que observo aquele psicopata, fico irritada. Portanto, por hoje já chega. Quanto muito vou acender uma velinha a ver se todos os santinhos intercedem junto da Suprema Autoridade Divina no sentido de os americanos darem uma valente corrida em osso ao palhaço Donald.
Também não vou falar do modo de actuar do BE nesta coisa da votação do OE2021. Não me apetece. É mais do mesmo. São, uma vez mais, iguais a elas próprias. Por petulância, vendem a alma ao diabo se necessário for. Não digo que por vezes não tenham razão. Mal fora se nunca a tivessem. Digo é que não olham a meios para atingir os fins e, nessa demanda, esquecem-se dos interesses do País para defenderem os interesses do partido. Como meninas birrentas, metem uma na cabeça e ficam a fazer finca-pé enquanto não lhes fazem a vontade. Agarram-se com unhas e dentes a uma árvore sem quererem saber se o resto da floresta está a arder. Querendo fazer-nos crer que têm uma visão moralmente superior aos comuns mortais, a verdade é que passam a vida a mostrar à saciedade que têm uma visão pequenina e medíocre do que é a política.
O que elas defendem parece simpático? Claro que parece. Céu azul todos os dias? Claro que quero, é bom, levanta a moral, toda a gente deve ter direito a isso. Ir à praia todos os dias? Claro que é bom, claro que todos devem ter direito a isso. Pôr o carteiro a deixar um envelope com mil euros todas as semanas na caixa do correio de toda a gente? Claro que é bom, claro que toda a gente deveria ser contemplada. Mas, se não conseguirem isso, faz sentido fazerem birra? Ah... não me parece. Mas sei lá. E do que não sei não falo. Nem me apetece falar das manas Mortágua, em especial da arrogante Mariana, nem da artista encartada Catarina. São apenas, em permanência, um desnecessário e desagradável déjà-vu.
E muito menos vou falar dos merdinhas dos totós cor-de-rosa que por aí andam em vara, destravados, escoiceando, empinados, indomáveis. Apesar de invisíveis, conseguem fazer ajoelhar o mundo. Pelo andar da carruagem, talvez o verão do ano que vem não traga o pesadelo que este trouxe. Pode ser que, até ao próximo outono, haja vacina para todos (mas quem vai pagá-la? a segurança social, cada vez mais a tender para a descapitalização...? -- melhor nem pensar nisso), quiçá tratamento. Isto se passado algum tempo não aparecer outro corona e a história voltar a repetir-se. O futuro não será radioso. Se não forem os coronas, será a falta de insectos, a falta de polinização. Se não for isso, será o degelo. Se não for o degelo serão os microplásticos. Se não for...
Portanto, afigura-se-me que é muito bem capaz que o melhor que temos a fazer seja manter esses pensamentos racionais bem sossegados atrás de uma cortina que, de vez em quando, corremos. Olhos que não vêem, coração que não sente. Portanto, com os assuntos reais e concretos bem escondidos, a gente pode divagar e alienar-se à vontade como se o mundo fosse perfeito, céu azul todos os dias, praia ao dispor para todos, gaivotas dançando e inspirando lindas canções, velhinhos saudáveis e eternos, crianças felizes e sempre com boas notas, casais sempre amantíssimos até ao fim dos tempos. E perfumes maravilhosos. E, de entre eles, o meu preferido: o Nº5, claro. Está a fazer 100 anos e é como se ainda fosse um jovem.
O Natal -- que provavelmente este ano também vai ser o novo Natal (para rimar com o novo-normal) -- está a aproximar-se e, com ele, os bons sentimentos transformados em cadeaux. E, portanto, já aí está na calha a publicidade de qualidade. Perfumes, claro. Chanel, obviamente.
Marion Cotillard é a diva que dá corpo ao que se idealiza como sendo o espírito Nº 5. Vejamos. E deixai-nos sonhar, Senhor.
___________________________________________
As fotografias são da autoria de Annie Leibovitz e a fotografada é Cate Blanchett
Já toda a gente que por aqui me acompanha deve estar careca de saber: para perfumes não encontro nada que se compare aos Chanel. Não que não use outros. Uso. Não gosto de fundamentalismos e, se antes era fidelíssima, agora sou uma mente aberta e, se me agrada, pulo a cerca por dá cá uma. Por exemplo, um Marc Jacobs com cheirinho a violeta ou um Lowe rico em bergamota são dois que me agradam e que me levam na calminha. Mas não os coloco no mesmo altar que aos Chanel. E, se posso usar o Chance, o Cristalle ou o 19, de longe a minha preferência vai para o Nº 5.
Ao contrário do que algumas pessoas referem -- que é intenso, quente, pesado -- em mim sinto-o suave, íntimo, subtil. E vai variando ao longo do dia. E eu vou gostando ainda mais dele à medida que as horas passam. Pode parecer que é parvoíce minha mas não é.
A nossa pele tem características (temperatura, hidratação, oleosidade, etc) que faz com que as diferentes fragâncias interajam de maneiras diferentes de pessoa para pessoa. Quiçá terá a ver com as hormonas. A minha pele tem tendência a tornar adocicados alguns perfumes e disso eu não gosto. Para doce basto eu, não preciso de me caramelizar por fora. Têm os perfumes que ser leves, florais, cítricos. Claro que o Nº 5 tem aquela tal substância de que nem é bom falar não vá ainda alguém se lembrar de proibir.
Transcrevo a descrição da fragância:
Notas de Cabeça: Aldeídos, bergamota, limão, neroli e ylang-ylang.
Notas de Coração: Jasmim, rosa, lírio do vale e íris.
Notas de Fundo: Vetiver, sândalo, baunilha, musgo de carvalho, âmbar e patchouli.
Transcrevo o que li algures: dizem que a inspiração para a criação desta fragrância veio de uma visita ao Círculo Polar Ártico e do cheiro da água à meia-noite. Este aroma único, vindo dos lagos e rios congelados, fascinava tanto que foi decidido replicá-lo.
E vem isto a propósito do último post de Bois de Jasmim:
“I know what we need. We need a bed, and we need white silk sheets – they must be silk. Frank Sinatra records, and Dom Pérignon champagne.”
When the young photographer Douglas Kirkland arrived to photograph Marilyn Monroe for Look Magazine, he had no idea what to expect when meeting a mega star. Least of all did he expect silk sheets and champagne. In his book, With Marilyn: An Evening/1961, he described the photo shoot and shares the images he took. I can’t think of another photographer who captured better Monroe’s vulnerability and sensuality. It’s almost paradoxical. Even in the moments when she looks surrendered, she’s in control.
Monroe was known to say that she wore to bed nothing but a few drops of Chanel No 5. Although I’ve known this for a long time, I always found it hard to associate No 5 and Monroe. No 5, though elegant and beautiful, struck me as uptight and austere. Monroe, with her voluptuous beauty, fragility and intensity, somehow seemed to belong to another universe. (...)
PS: Por acaso nunca dormi em lençóis de seda, não faço ideia da sensação. Mas não a desejo. Imagino-os frios, escorregadios, com vida própria. Prefiro-os de algodão encorpado, macio, segunda pele. Mas, enfim, isso não vem ao caso.
No outro dia uma menina do escritório cruzou-se comigo, apressada, e eu também apressada, de entrada para uma reunião, e disse-me: a Cláudia tem uma pergunta para lhe fazer. De passagem pela secretária da Cláudia, abrandei o passo e perguntei-lhe o que era. Estava sentada mas rodou na minha direcção, chegando-se à frente para me segurar nos braços e perguntar: 'Cheira sempre tão bem... Mas ontem, então, deixou um cheirinho tão bom... Mesmo. Quando entrei na sala onde tinha estado, senti aquele cheirinho que pensei logo que tinha que ganhar coragem para lhe perguntar qual era o perfume'. Pensei um bocado e disse-lhe. Pela expressão, vi que nunca de tal tinha ouvido falar. De facto, é pouco divulgado.
Sou incapaz de sair de casa para o trabalho sem me perfumar. Que me lembre, nunca me esqueço. Dos brincos já me esqueci. Ainda no outro dia. Estava carregada de coisas e, ainda por cima, com sombrinha. Tinha umas calças pretas e uma camisa também preta com flores azuis. Levava uma écharpe também preta e também com flores azuis mas num azul mais forte que o da camisa. Olhei para mim no elevador e reparei que me tinha esquecido dos brincos. Olhei para o relógio. Ficaria apertado se voltasse a casa. Consolei-me: não tenho brincos mas tenho o piercing, sempre dá um ar de sua graça, e, além disso, o contraste das flores azuis sobre fundo preto talvez seja motivo suficiente para disfarçar. Quando cheguei à rua, ao fazer o movimento de passar o casaco de um braço para o outro, on the fly (como soi dizer-se), reparei que o colar que tinha posto puxava para o turquesa e não para o alfazema como o azul das flores da camisa. Foi um sobressalto. Impossível ir assim. Se há coisa a que sou excessivamente sensível é à harmonia cromática. Furiosa, dei meia volta e voltei a casa. A luz artificial é traiçoeira para estas nuances. A correr, mudei de colar e, claro está, aproveitei para resolver a outra lacuna: coloquei uns brinquinhos mínimos, duas bolinhas de azulinho transparente.
Coisas que acontecem. Pode parecer que são coisas que não interessam para nada mas é ilusão: interessam e muito. Se vou com alguma coisa que não me parece bem, é razão suficiente para ficar a tender para o indisposto e, com isso, o dia pode ficar irreversivelmente toldado e, lá está, pode até haver o risco de, com a minha indisposição, toldar o dia a quem não tem nada a ver com o assunto. É, em ponto pequeno, aquilo da borboleta que espirra na China e o gato no Chile, sem saber por quê, ficar com o pelo eriçado.
E também escolho o perfume em função do dia, de como vai ser o programa de festas, da roupa que visto, da disposição que antecipo: o perfume é uma peça relevante do cenário que monto em mim.
Aos poucos, tenho-me vindo a transformar. Depois da extrema lealdade, agora vario completamente. O Nº 5 continua o ser o special one até porque, em mim, se transforma de uma maneira que me agrada muito. Não é pesado, não é quente, não é cansativo. Pelo contrário, é leve, subtil, íntimo. Tenho lido muito sobre perfumes e sei que os perfumes são diferentes, ou melhor, evoluem diferentemente ao longo do dia, consoante a pele em que pousam. Mas a partir do momento em que comecei a ousar, primeiro dentro dos Chanel, depois com um que consumi com o maior prazer e que infelizmente deixou de ser comercializado (pelo menos nas perfumarias que costumo frequentar), o She Wood da DSquared2, fui-me libertando.
for Bulgari
Creio que já contei: no outro dia, deixei-me tentar por um da Elizabeth Arden: figo e chá verde. Uma coisa... Invulgar e, no entanto, de tal maneira cativante...
Reza assim a sua descrição:
Inspired by the lusciously sweet fruit, Elizabeth Arden Green Tea Fig takes you to a rustic countryside full of sparkle, warmth and laughter. A burst of Clementine, Green Tea Accord, Kadota Fig, Violet Leaf and Musk wrap you in the refreshing simplicity of this musky fruity floral. Green Tea Fig. Delight your senses.
E só estas palavras já contêm, em si, o perfume de todo um bouquet de emoções. Isto dos perfumes é uma arte. Cada vez mais acho isso.
Penso que é por descender dos bichos do interior da terra que tenho os sentidos todos muito activos.
Nunca me deu para me doutorar e acho que nunca dará. Não teria paciência para perseguir um tema, um único tema, e aprofundá-lo, dissecá-lo, mumificá-lo, transpô-lo para um texto encavalitado por números e deitado sobre um rodapé sempre pejado de anotações que não são senão a ferramentaria transformada em bibelot. Coisa boa para gente paciente e muito dada ao intelecto, coisa que duplamente não sou. Eu é mais sentidos. Os seis.
Há bocado vi um artigo que pensei que me ia interessar: Il rapporto fra profumi, libri e letteratura. Mas não, nada do que eu pensaria. Estabelecer uma relação entre literatura e perfumes parece-me uma boa ideia mas uma coisa mais na base de um quizz. A gente dizia os livros de que gosta e um algoritmo adivinhava qual a fragrância que melhor nos assenta. Fiz agora uma pesquisa e há vários quizz para identificar a fragrância que melhor nos assenta mas tudo na base da banalidade, nada na base das preferências literárias. Portanto, o artigo desiludiu-me: é chato e não me traz dicas interessantes.
Um blog que gosto de espreitar é o Bois de Jasmin. Tudo ali é de bom gosto. E depois há muita gente a comentar, com conversas curiosas, todo um mundo.
Há muitos mundos paralelos. A todo o momento me apercebo disto. Habitamos o mesmo planeta, um planeta em exaustão, mas, sabe-se lá como, ainda assim conseguimos habitar mundos diferentes, mundos que se ignoram e que, na maior parte das vezes, se excluem mutuamente. Eu não sei bem qual o meu mundo. Talvez um limbo resultante da intersecção de vários outros mundos.
----------------------------------
Hoje estou assim, sem energia. Durante estes dias, muita gente enervada à minha volta, embora alguns negando-o, dizendo que estão tranquilos, um ou outro provavelmente naquilo que dantes se dizia que era esgotamento -- e que agora se internacionalizou para burnout -- a chorar compulsivamente à minha frente, e, em cima disso, muita decisão para tomar, muitas vezes ter que fechar os olhos para não arranjar chatice e bola para a frente, e, ao mesmo tempo, em alguns aspectos, muita indefinição, muita procrastinação -- ou seja, alguma canseira.
by Tim Wlaker
E, para ajudar à festa, um mau jeito que me traz dores. Ontem à noite, ao preparar-me para sair do carro, já a segurar na tralha que ia transportar, toca-me o telefone. E que é dele? Estiquei-me para o lado, para baixo e para o lado, para trás, em diagonal, toda esticada a apalpar até onde o braço atingia. Até que o telefone se calou. Felizmente, a seguir veio nova chamada e baixando-me mais, para perceber de onde vinha o toque, lá o descobri. A seguir a esses alongamentos forçados, foi vir carregada para casa. Conclusão: algum dos músculos que se esticou não gostou da ginástica.
Vou tomar um ben-u-ron e vou dormir a ver se, durante o sono, os músculos de desensarilham. Hoje não estou nos meus dias. Que me desculpem os autores dos comentários mas hoje não vai dar. Logo hoje que são tantos e tão bons, tão sumarentos. Mas, para mal dos meus pecados, hoje não dá mesmo.
Mas, para que não sintam que aqui vieram para nada, permitam que partilhe convosco dois vídeos de Jonna Jinton, aquela jovem que vive uma vida que deve ser uma maravilha, num lugar fantástico. Este de colocar as pedras (que me faz lembrar aquele senhor que está ali no Terreiro do Paço, à beira de água) dá-me vontade de, lá in heaven, ir experimentar. Parece-me uma coisa muito interessante.
E este do banho no gelo também me parece uma boa coisa, bonito, embora não me imagine a ter tal coragem. Fogo...
Desde que me conheço que sou muito sensível a perfumes. Sempre os usei. Os cheiros produzem em mim um efeito que não sei descrever. Efeito abrangente, talvez. Uns trazem-me memórias, outros transportam-me para outros mundos. Não sou capaz de sair de casa sem me perfumar. Aliás, até sou. Mas só em férias ou ao fim de semana, e isto se não tenho nenhum programa social. Mas, nesses casos, compenso com cremes corporais com bom cheirinho.
Durante muito tempo fui experimentando. Uma vez, conheci uma amiga da minha filha, uma miúda gira, moderna, muito alegre. Cheirava mesmo bem e tinha um toque de irreverência. Não descansei enquanto a minha filha não lhe perguntou o que era. Era o Light Blue que ainda mal se conhecia. Usei-o durante algum tempo. Outra vez conheci o One do Calvin Klein. Gostei. Era bom, leve, quase neutro, coisa para o dia a dia.
Até que descobri o Chance da Chanel. Usei-o quase em exclusivo durante anos. Pareceia-me indissociável da minha existência. Mas não sou dada a fidelidades gratuitas, especialmente quando a diversidade é tanta, tão boa, tão apelativa. Ia sarabandeando com outros, mas, obviamente, mantendo a base Chance.
Até que ousei o Nº 5. E aí foi o coup de foudre. Não há outro como o Nº 5. É verdadeiramente intemporal. E o aroma não se adultera ao longo do dia. Há muitos perfumes que, ao fim do dia, já viraram adocicados, outros vulgarizam-se com o contacto com a pele, com a transpiração natural. O Nº 5 não. Altera-se, sim, mas levemente e para melhor, torna-se mais íntimo, mais feminino, diria que mais sensual. Haverá peles onde o Nº 5 se adultere mas na minha não. Do que sei de perfumes, cada pele absorve e transforma o perfume de uma maneira muito própria. Em mim, o Nº 5 é assimilado de forma muito pessoal, muito minha, muito boa. Pelo menos, é assim que o sinto e, naturalmente, falando de sensações, tenho que falar das minhas que são as únicas que conheço na primeira pessoa.
Nos últimos anos, contudo, tenho-me aberto totalmente a novas experiências: há Hermès maravilhosos, há outros Chanel também bons (Nº 19, Allure, Cristalle, CoCo, por exemplo), há um de que gosto muito, Loewe, o que é bergamota, um aroma cítrico que se mantém perfeito ao longo do dia, fresco, elegante. Gosto. Ou o Daisy de Marc Jacobs que tem um toque a violeta. E outros. Experimento. Têm que ser florais, frescos, nada adocicados, nada quentes. Por exemplo, os Armani acabam sempre por se tornar um bocado intensos, intrusivos. Talvez a Acqua di Gioia seja a excepção, porque é, de facto, agradável.
Enquanto escrevo, seguindo o oportuno conselho do Paulo, estou a ver o documentário sobre o Nº 5. ouço que é abstracto. E é isso mesmo. Acho que nenhuma outra característica se lhe aplica tão bem: é abstracto. Aldeído, jasmim. Seja. Mil outras faíscas, também. Mas é a combinação elegante que faz a diferença.
Sou também muito sensível ao lado estético. Os frascos dos perfumes são fundamentais. É como a encadernação, a gramagem do papel, a paginação num livro. Uma coisa deve vestir bem a outra. O corpo certo para encadernar a alma. O frasco do Nº 5 é o certo. É lindo. Sóbrio, elegante, equilibrado.
Quando saíu o Gabrielle fui logo ver, cheia de curiosidade. A Casa Chanel é cheia de novidades, gente arejada das ideias, gente com bom gosto. Mas não me atraíu. É bom, claro. Todos os perfumes Chanel são bons. Mas parece-me um bocado incaracterístico, nada que me apeteça muito ter a cobrir as zonas do corpo onde gosto que me beijem (o que, caso não saibam, é o conselho de aplicação para o Nº 5). Falta-lhe carisma, falta-lhe lampejo, falta-lhe corpo, falta-lhe a inspiração que, quando envolvendo a transpiração, vira arte.
Saíu agora o novo vídeo publicitário e como todos os vídeos Chanel é um encanto. Refere-se ao lançamento do novo Gabrielle: Essence. Realização de Nick Knight, 'uma ode à luz e à liberdade', com a graciosa Margot Robbie a encarnar a mulher Chanel, uma mulher que, segundo dizem, se caracteriza pela sua graça e carisma. Leio que o filme pretende corresponder à la fragrance aux notes de jasmin, de tubéreuse de Grasse, d’ylang-ylang des Comores et de fleur d’oranger de Tunisie. Um filme muito bonito.
------------------
E aproveito o post para aqui deixar uma fotografia de Diane Kruger feita pelo talentoso Peter Lindberg (falecido ontem) para a Chanel
Sou perfumeira, isso já toda a gente que por aqui me acompanha está fartíssima de saber.
Tenho, como creio que toda a gente, rituais. Nem será bem rituais. Talvez mais hábitos. Arranjo-me sempre pela mesma sequência. Xixi, copo de água morna com sumo de um limão, banho, pequeno almoço, lavar os dentes, maquilhagem, perfume, vestir, brincos, relógio, anel, colar, pulseira (sendo que, se uma das peças é mais chamativa, as demais são muito discretas), despentear, calçar, agarrar no telemóvel, na carteira, nas chaves, nos óculos escuros, fechar a porta. E ala moça que se faz tarde.
Se, porque estou ultra apressada, sem querer salto alguma das etapas, logo que dou pelo lapso, por muito atrasada que esteja, volto atrás e corrijo. Ou seja, sair sem me perfumar é coisa que não existe. Tal como sair sem brincos. Tal como sair sem sapatos.
O perfume varia consoante a agenda do dia ou a toilette. Como é sabido, gira muito em torno de Chanel. Mas tem dias em que a lealdade abre brechas. Por exemplo, porque hoje fui com uma blusa escura que acho um espectáculo, toda ela um jogo de rendas e transparências, achei que deveria caprichar nos acessórios, embora no género discreto, ouro branco para disfarçar o escândalo da blusinha. E achei que o conjunto pedia um Hermès, a saber o Eau de Néroli Doré. Não me perguntem qual o racional. Não saberia responder. Sou uma intuitiva. Em assuntos destes, a lógica não consegue acompanhar ou explicar a vontade.
No outro dia, quando fui fazer os exames que a ginecologista prescreveu, fui muito à fresca, calças brancas, blusinha florida. E lembro-me disto pelo que a técnica que estava a espalmar-me os seios entre as placas me disse: 'Ah, que perfume tão bom o seu... ah que agradável... posso perguntar-lhe qual é...'?. Naquela posição desconfortável, de calças e saltos altos mas em tronco nu, com os seios comprimidos e doridos -- e sempre com algum receio --a minha cabeça não estava nem aí, tive que pensar. Estava para dizer 'Nada de especial, por acaso, CK One Summer' mas, felizmente, tive o discernimento de dizer apenas CK One Summer. A que propósito ia eu desvalorizar uma coisa pela qual a jovem estava a mostrar tanto apreço.
Mas a forma como me perfume também é sempre a mesma. Um esguichinho atrás da orelha esquerda, depois da direita. Outro no pulso esquerdo, outro no direito. Um entre os seios, outro na dobra do braço esquerdo, outro na do direito. Por vezes, também consoante as circunstâncias, dou um soprinho geral, de longe, frasco afastado, a rasar a blusa, por fora. Outras vezes, não é por fora, é por dentro. Afasto-a do corpo e, ao de leve, uma suave aragem pelo lado de dentro.
Quando saio de casa, pode estar marcante mas qualquer sombra de excesso dilui-se durante o percurso e, quando chego, já o perfume está cosido ao corpo, subtil. Pelo menos, assim o penso.
Lembro-me do meu filho, quando era pequeno, não querer que eu o abraçasse de manhã, quando me despedia dele na escola. Por um lado, achava que isso o diminuía perante os amigos, dizia que as outras mães não davam tantos beijinhos aos filhos mas, por outro, temia que eu o contagiasse com o cheiro do perfume. Tinha pavor de que isso acontecesse.
Bem, mas isto tudo para dizer que hoje, finalmente, vi a forma correcta de uma mulher se perfumar. E parece-me que deve ser eficaz. Aliás, parece-me mesmo uma grande, grande ideia. Estou capaz de amanhã ir comprar este perfume da Jean Paul Gaultier a ver se traz este aplicador.
(Não esquecer de activar o som)
Uma nota apenas: acho os brincos dela grandes demais, especialmente quando conjugados com o aparato do colar. Tirando isso parece-me tudo bastante bem, especialmente no que se refere à forma de espalhar o perfume. Só lamento é que a lição seja tão curtinha.
Fiz uma pergunta que parece arraçada de pergunta retórica. Mas não é. É um pergunta que tem resposta. Sei bem o que fazer. Jogar no euromilhões.
Gosto de tudo. Toilettes, perfumes, jóias, relógios, óculos, maquilhagens, publicidade. Há em tudo aquele toque de bom gosto que me parece a um tempo requintado, moderno, simples, feminino, romântico. Tem aquele pequeno problema do valor. Uma pessoa andar de Chanel de alto a baixo requer muito investimento. Mas é um investimento que, cá para mim, vale cada cêntimo. Falo por mim que, mal ponho umas gotinhas de Nº 19, de Coco, de Allure, de Chance e, sobretudo, do Nº 5 não me lembro do custo mas sinto-me, automaticamente, diferente (para melhor, claro).
Claro que, nisto, a gente pode sempre dizer: gaba-te cesto. Mas quero lá saber.
Pena é que me fique pelos perfumes. Bem gostaria de andar, de alto a baixo, de Chanel.
Mas mais. Se eu vivesse em França há muito que teria tentado tudo por tudo para lá trabalhar. Deve ser maravilhoso. Claro que, nos pisos em que se trata da gestão, os números perdem o perfume e tornam-se tão empestados de ebitdas como todos os outros. Mas como sempre gostei de andar junto às bases, haveria de arranjar maneira de poder cirandar pelos ateliers, pelos jardins, haveria de poder assistir às provas, aos estudos.
Mas não. Por mil motivos, qualquer possibilidade disto se poder concretizar já era. Portanto, para além de usar os perfumes Chanel, fico-me pelos vídeos que são sempre de um charme e bom gosto que me encantam (e pardon pelo pleonasmo).
--------------------
Deauville é uma cidade da Normandia e, mais do que falar da sua história, quero apenas dizer que é muito bonita e que comi lá umas belas ostras. Já aqui referi algumas vezes a minha vontade de lá voltar. Foi dos passeios mais bonitos que fiz e se bem que, em regra, não sinta a nostalgia do regresso aos lugares onde já fui feliz, à Normandia tenho sempre vontade de voltar.
Não conheço o Bleu de Chanel. O meu marido é Acqua de Gio desde que ela existe e, ao contrário de mim, neste tipo de coisas, quando gosta, não sente vontade de andar a arriscar. Um dia destes, vou ver se gosto e ainda ouso oferecer-lhe. Mas, seja como for, os vídeos são sempre uma maravilha.
............................
E, já agora, os Mandamentos Chanel. Aprender não custa.
Amén.
Uma vez perguntaram a Marilyn Monroe o que ela usava para dormir e ela respondeu que usava Chanel Nº 5. Não se sabe, com exactidão, quando foi essa primeira vez mas o picante da coisa despertou tanta atenção que a pergunta se tornou recorrente e, claro, a Chanel aproveitou, e bem, a preferência.
Eu costumo dizer que uso menos do que ela pois tenho por hábito usar Chanel Nº 5 apenas de manhã.
Apenas se está muito frio uso uma tshirt. De resto, não gosto de dormir vestida. Também gosto de dormir com a janela aberta. E gosto de sentir pouca roupa em cima de mim. Sentir o lençol fresco sobre o corpo é, para mim, uma sensação muito agradável. Como o meu marido é mais friorento que eu, e como também dorme sem roupa, põe uma manta dobrada do lado dele e, como geralmente vai mais cedo que eu para a cama, adormece com o vidro fechado. E eu, como vou sempre a dormir para a cama, nem dou por isso. Mas se calha acordar a meio da noite, vou logo abrir a janela. Gosto de sentir o ar fresco directamente sobre a pele.
Já antes aqui tinha escrito isto e a minha filha não achou bem, como se eu estivesse a revelar um segredo que deveria ser mantido como tal. Mas não acho que isto tenha alguma coisa de especial. Há quem goste de dormir de pijama e há quem não consiga dormir de pijama. Eu pertenço a este segundo grupo.
No entanto, tenho-os. Pijamas ou camisas de dormir. Só que não uso. Uma vez, há milhares de anos, tive uma amigdalite mesmo a sério e um febrão de tal ordem que, coisa rara e nunca vista, fiquei de cama. O meu marido resolveu que o melhor seria chamar um médico. Achei bem pois estava incapaz de me levantar mas o pior foi arranjar com que me vestir. Na altura, tenho ideia que vesti uma camisa de dormir curta, branca, de alças, com bordados, que a minha mãe me tinha comprado para a noite núpcias. Por isso, depois dessa situação, passei sempre a ter uma farpela adequada a uma qualquer circunstância de crise.
Mas isto para enquadrar o vídeo que aqui agora partilho.
Depois das minhas lidas domésticas e dos meus telefonemas do dia, vim aqui para o sofá pintar as unhas e ler enquanto o meu marido sofria no outro sofá. Sofreu até ao fim e partilhou a tristeza dos adeptos que estavam no Jamor, dos jogadores e do Jesus (e até eu me emocionei com as lágrimas do Rui Patrício). Agora está aqui a ver o rescaldo, completamente desconsolado e, de vez em quanto, insulta o Bruno de Carvalho.
E eu, entretanto, fui ver as novidades que o YouTube tinha hoje para mim. Muita coisa interessante. E uma delas é este vídeo no qual se explanam os prós e os contras de se dormir nu. Não está traduzido mas a dicção é boa e tem legendas de acompanhamento. Espero que todos os que aqui me acompanham consigam perceber. Como não sofro de alergias, não tenho tendência para me constipar nem sofro de ansiedade (especialmente porque não corro riscos de me entrar alguém inesperado pela cama adentro), fico-me pelas vantagens que são muitas e boas.