Mostrar mensagens com a etiqueta Tom Waits. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Tom Waits. Mostrar todas as mensagens

quarta-feira, janeiro 19, 2022

Quando a vida fica para trás
ou
quando o centro não consegue suster-se

 


No dia em que o pai teve o AVC eu estava fora de Lisboa, num evento que tinha sido eu a impulsionar e organizar. A minha mãe, ao início da manhã, ligou-me e contou-me que o meu pai se tinha sentido mal de madrugada, estava no hospital, em observação. Mas tranquilizou-me, disse-me que ele estava estável e que não valia a pena eu ir para lá pois ele não recebia visitas. Fiquei inquieta. Custava-me abandonar aquele evento, logo no início, mas estava preocupada, não sossegava. Passado um bocado, vim cá fora e voltei a ligar. A minha mãe disse-me que já estava ao pé dele e que ele estava bem, lúcido, e que já mexia um pouco o braço. Fiquei ainda mais preocupada pois antes ela não me tinha dito que o braço tinha estado paralisado. Embora insistisse que não valia a pena eu ir, fui mesmo. 

Ao chegar ao pé dele, apercebi-me que não me via. Explicaram-me depois que tinha perdido metade do campo visual. Percebi que mal mexia um dos lados e constatei que tinha dificuldade em falar. Ficou emocionado ao ver-me e penso que, sobretudo, ficou triste por perceber que uma parte da sua vida anterior tinha sido interrompida. E senti a sua tristeza também pela sua fragilidade perante mim. Até ali ele tinha sido o meu pai, um homem forte. Mas, naquele momento, o meu pai sentia que isso tinha acabado, que, naquela altura, ele era o elo mais fraco.

A médica falou connosco e falou na recuperação que poderia ser muito boa, com excepção do campo visual. Nesse dia eu estava incapaz de processar o que estava a passar-se, dividida entre o que me diziam, entre aquilo em que queria acreditar, entre o que observava.

Mas uma das coisas que mais me impressionou foi quando, nesse dia, ao chegar a casa com a minha mãe, ela me disse: 'Acabou'. Não percebi. Além disso, nestas situações, a minha mãe é muito fatalista, tem medo de tudo, antecipa sempre o pior. Perguntei-lhe o que é que tinha acabado. Disse: 'A vida que tínhamos'. Achei que, de facto, estava a ser pessimista. Eu estava, nessa altura, a acreditar que o meu pai ia recuperar-se e que aquilo do campo visual era de somenos e custava-me que a minha mãe não acreditasse nisso. A minha mãe não foi em conversas: 'Acabou. A vida que tínhamos acabou'.

E estava certa. Na realidade, nesse dia o meu pai iniciou o seu longo, doloroso e lento caminho para a morte. Nem ele nem a minha mãe voltaram a ter uma vida normal. 

Assisti de perto, por dentro, o que foi esse percurso. Mas, apesar de tudo, eu não estava lá a viver o dia a dia, as noites, os sustos, as perplexidades, os cansaços, os desalentos.

Nem fui eu que deixei de ir de férias, de ir ao cinema, de fazer o que antes fazia e de que tanto gostava.  Durante todos os muitos anos em que o meu pai esteve em casa, dependente, a minha mãe não quis fazer o que ele não fazia. Apenas saiu de perto dele quando foi operada. De resto, éramos nós que íamos lá, tentando que se sentissem sempre acompanhados. Mas sei que a minha mãe, para além do desgosto por ver o lento declínio do meu pai, sentia também desgosto por ter perdido a vida que antes tinha.

Quando o meu pai morreu, a minha mãe sentiu desgosto, claro, um grande desgosto, mas não foi um choque. Era uma morte anunciada e, na verdade, todos sentimos que era um descanso merecido para o meu pai.

Em contrapartida, foi um choque muito grande para uma grande amiga que um dia, do nada, perdeu o marido. Eram apaixonados, inseparáveis, e muito amigos um do outro. Eram ambos alegres, muito educados, pessoas de quem toda a gente gostava. Todos os dias, sem excepção, ele ia levá-la e buscá-la ao emprego, eles iam passar o fim de semana para a casa que tinham na costa vicentina e que tinham reconstruído e decorado, iam a concertos, eles ajudavam-se e apoiavam-se. Todos nós o conhecíamos não só de o vermos todos os dias no carro mas também do que ela, com tanto amor, falava dela. De vez em quando, se ela se atrasava, ele subia e ficava por ali a fazer tempo, paciente, compreensivo, bem disposto. Sempre o vi sorridente e encantado com ela. 

Até que, inesperadamente, uma vez à tarde, ela me disse que tinha ficado preocupada com um telefonema que tinha recebido dele: tinha-lhe dito que não se tinha sentido bem e tinha ido para casa. Ela dizia, o coração inquieto, que isso nunca tinha acontecido, que, para ele, o trabalho era sagrado. Sair a meio da tarde era coisa que nunca tinha acontecido. Tentei descansá-la. Passado um bocado, veio dizer-me que estava intrigada, preocupada, e que também se ia embora para ver o que se passava. Fui com ela até ao elevador. Ela estava numa ansiedade: 'Estou preocupada. Passa-se alguma coisa. Estou com medo'. Era uma sexta-feira. Eu disse-lhe que podia ser stress, qualquer coisa, mas que vinha aí o fim de semana, era bom, ele ia descansar e ficar bem. Mas ela sentia que alguma coisa se passava, estava inquieta.

No dia seguinte, sábado, tínhamos ido passear com os miúdos e com os meus pais ao campo. E então recebi uma chamada de um amigo comum. Disse-me: 'Tenho uma notícia triste. Morreu o Rui.'. Como sempre me acontece nestas circunstâncias, nunca sei de quem se trata. Instintivamente, tento lembrar-me de alguém que eu conheça com aquele nome e que pudesse ter morrido. O meu amigo ajudou-me e disse que se tratava do marido da nossa amiga. Fiquei sem acção. Como era possível tal coisa? Não estava doente. Tinha cinquenta e poucos anos. Ele esclareceu-me: tinha tido um ataque cardíaco. 

Dias depois, foi ela que me contou. Ao fim da tarde, o filho, adolescente, tinha percebido que algo estava a acontecer, quis perceber o que o pai sentia, parecia que estava engasgado, com dificuldade de respirar. O pai, sempre tão delicado, tinha soltado um grito rouco: 'Chamem uma ambulância! Estou a morrer, porra!'. A minha amiga diz que tinha sido a primeira vez que ele tinha falado assim com o filho. Quando os do inem chegaram, já ele estava inanimado e ela aflita, a chorar. Foi na ambulância com ele. No percurso, ele acordou, olhou para ela, suspirou e fechou os olhos. Ela disse-me que achava que ele tinha morrido naquele instante. No hospital tentaram reanimá-lo mas já não foi possível. No enterro, ela estava absolutamente debilitada, num estado de grande fragilidade, quase irreconhecível de tão transtornada que estava. Tinha que estar amparada e, quando o caixão desceu à terra, desmaiou. Saiu de lá ao colo de um dos sobrinhos. 

Não se recompôs do desgosto. Ficou sempre triste. Perdeu a juventude, perdeu o sorriso. Deixou de trabalhar ao fim de não muito tempo pois não conseguia seguir uma rotina da qual o marido já não fazia parte. Nem queria ir para a casa tão bonita na costa vicentina nem queria saber que o filho, de quem era tão chegada, fosse para fora. Desinteressou-se. Aos poucos, depois, foi retomando alguma actividade mas nunca mais foi a que era. Uma parte dela morreu quando o marido a olhou para nunca mais.

__________________________

E se me ocorreu evocar estas memórias foi porque comecei a ver o documentário sobre Joan Didion (Joan Didion: o centro não consegue suster-se) na Netflix. Ainda não vi muito mas estou a gostar bastante. Como geralmente faço, para ver se me agrada, fui saltitando a espaços. É o que faço com os livros. Folheio ao acaso. Se gosto, volto então ao início e vejo direitinho. 

E agora, ao escrever este post, lembrei-me de ir ao Youtube ver o que encontrava sobre ela. Partilho convosco os excertos que aqui partilho (texto de um dos livros de Joan Didion, justamente aquele em que ela descreve como, num dia, sem aviso prévio, o marido morreu deixando-a em estado de total desamparo). As desgraças na vida dela não se ficariam por aí mas foram tão mais difíceis de suportar quanto ela não o tinha a seu lado para a amparar.

"The Year of Magical Thinking" by Joan Didion

Vanessa Redgrave


Seana McKenna

________________________

Joan Didion: The Center Will Not Hold 


________________________________________

O texto é ilustrado com retratos de Joan Didion

_________________________________________

Desejo-vos um dia feliz
Boa sorte. Boas notícias. Boas decisões. Boas ideias. Bons sonhos.

quinta-feira, junho 03, 2021

Só espero não me apaixonar por ti

 


Não se nasce ensinado mas pode aprender-se. Tanto faz ser gramática, ortografia, aritmética, asseio, boas maneiras à mesa ou etiqueta em reuniões por videochamada. Não é preciso ter nascido em berço de ouro para, tendo chegado à idade adulta, saber que não é de bom tom meter os dedos no nariz, enfiar a faca na boca ou aparecer de câmara desligada numa reunião em que todos os outros estão à vista.

As funcionalidades para as as reuniões pelas vias que hoje são tão banais já existiam antes do corona dar as caras mas, quando não há a necessidade, é difícil romper velhos hábitos. Mas o merdinhas apareceu e, de um dia para o outro, milhões de pessoas desataram a fazer reuniões por Zoom, Meet ou Teams. Hoje já é normal o que há um ano era ainda uma proeza para muita gente.

Não sei quantificar o número de reuniões que já tive por estas vias nos últimos catorze meses mas não errarei se disser muitas, largas centenas.

E ao longo destas muitas ocasiões tenho constatado como há pessoas que, ao fim de tanto tempo, parece que ainda não atinaram.

Por exemplo, no outro dia estive para aí uma hora com um cavalheiro do qual só via a testa e o cabelo. Ao princípio, ainda lhe disse: estou a vê-lo mal. E dava-lhe pistas. Mexia-se e, durante uns segundos, conseguia ver-lhe a cara mas, instantes depois, estava na mesma. Não sei para onde estava a olhar pois não lhe via os olhos mas para o ecrã não era, senão ele próprio perceberia que era como se, ao vivo, estivesse debaixo da mesa, a gente só a ver-lhe a tampa craniana. 

Outra que me chateia é a gente perceber que a outra pessoa está o tempo todo a ler ou a escrever mails em vez de estar a participar na reunião. Acho de uma tremenda falta de respeito. Não que ao vivo isso não aconteça. Uma vez estava numa reunião com o que na altura era o presidente da empresa. Estávamos várias pessoas em volta daquela grande e bela mesa e reparei que ele estava a olhar atentamente para o tablet. Tentei abstrair-me para continuar a falar com propósito quando sabia que era dele a palavra final. Até que não aguentei, parei e disse: 'Não sei que quer que eu pare...'. Ele reagiu com surpresa: 'Porquê?'. E eu: 'Se calhar tem que estar aí concentrado e eu estou para aqui a falar...'. Atrapalhado, disse: 'Não, não, continue, peço desculpa. Estava aqui a ver uma coisa que chegou... ' 

Mas agora já não estou para isso. No outro dia, a pessoa que convocou a reunião esteve notoriamente distraída a ver outras coisas no seu computador enquanto um seu colaborador partilhava uma apresentação. Noutros tempos, ter-lhe-ia dito: 'peço desculpa mas estou aqui por seu convite. O mínimo que se espera é que preste atenção àquilo que quis que eu visse'. Mas não disse nada. Limitei-me a pôr-lhe uma cruz em cima, metaforicamente falando. Em casa do meu filho pratica-se a modalidade da bolinha preta. Quem se porta mal recebe uma bolinha preta e, por consequência, um castigo. Mentalmente faço cada vez mais isso. Faz porcaria -> bola preta. 

Também aconteceu uma coisa desagradável uns dias antes. Uma pessoa convidou várias outras. Quando lá chegámos (virtualmente falando, claro), ele não estava, tinha-se feito representar por um colaborador.  E foi esse colaborador que nos comunicou que o chefe tinha tido outro compromisso. Os demais olharam uns para os outro certamente todos pensando que deveriam acabar com a reunião logo ali. Mas a deferência de uns para com os outros impediu que o gesto mais óbvio fosse praticado.

E outra coisa que volta e meia acontece. A reunião está marcada com um certa duração, por exemplo uma hora, e um dos participantes, gostando de se ouvir, fala, fala, fala, e a gente vê o tempo a passar e constata que a coisa promete pois ainda mais ninguém falou. São reuniões que se atrasam, se sobrepõem às seguintes, impedem que uma pessoa sequer tenha tempo de intervalo e consiga levantar-se, ir à casa de banho, ir encher o copo de água, às tantas já uma pessoa enervada, atrasada e em falta para com as pessoas que estão noutra reunião à nossa espera. Chateia-me imenso isso, tenho que fazer um ginástica para parecer que estou totalmente focada quando, ao mesmo tempo, estou a enviar uma mensagem aos seguintes a desculpar-me e a apontar para nova hora.

Aqui. como em tudo, há aspectos que são de aprendizagem intuitiva, não é preciso ter nascido em berço de ouro ou ter tido aulas de etiqueta. Basta perceber a natureza das coisas e ter cuidado em respeitar os outros.

O meu amigo algoritmo, vendo que, no outro dia, achei graça à elegância e serenidade de Jamila Musayeva e talvez adivinhando a minha agarração à cegadas das reuniões a toda a hora, resolveu sugerir-me outro vídeo, agora sobre etiqueta zoom. Se eu estivesse no meu estado normal, ao ver como Jamila se apresenta (Hello there! I am Jamila Musayeva, a certified international etiquette consultant, an author, a teacher, an entrepreneur and a mom of two), faria um flic flac à rectaguarda e fugiria aos pinotes para bem longe. Agora não. Agora deixo-me estar meio a dormir a ouvir o que ela tem para dizer. Ainda por cima, não diz disparates. Pode dizer coisas óbvias mas, lá está, não devem ser tão óbvias assim pois todos os dias constato que grande parte das pessoas as não cumprem. E não cumprem porque não lhes ocorre ou porque se estão nas tintas.

Portanto, que entre a Sra Dona Jamila: Zoom Etiquette: How To Prepare For a Zoom Meeting.


_________________________________________________

E claro que não era sobre isto que eu vinha falar. Como creio que alguns saberão, gosto muito de arquitectura e, portanto, enquanto dormia, estive a ver alguns vídeos com espaços que são muito a minha presente onda: peace and love, natureza, quietude

Gostei muito deste. 

Serene Architectural Masterpiece in Carmel, California | Sotheby's International Realty


_______________________________________________

As composições são obra de Ertan Atay e são o que são, falam por si.

Tom Waits, que é sempre aqui muito bem vindo, interpreta I Hope That I Don't Fall In Love With You e eu, como ando sem inspiração, peguei outra vez no nome da canção e fiz dele o título desta coisa a que se convencionou chamar post. Outra vez um título que não tem nada a ver com nada?, perguntarão. É verdade. Assim anda também, em parte, a minha vida, cheia de imprevistos e inexplicações.. 

Nota: Não tenho conseguido responder a comentários pois, para o fazer, deverei estar acordada e, por estes dias, a esta hora, tenho andado basicamente a dormir. Se o texto for sem qualquer etiqueta, despenteado, desvirgulado, queiram por favor relevar ou avisar-me, ok? 
_____________________________________

Desejo-vos um santo feriado.
(Santo=podre de bom)

terça-feira, maio 11, 2021

Quando a invasão de privacidade nos surge pelas nossas próprias mãos

 


O meu telemóvel novo agora sugere-me que passe  colocar despertador para não me esquecer da hora de ir para a cama. Sugere-me, até, qual a melhor hora para me deitar e levantar. Vejo isto e sinto-me invadida. A moral e os bons costumes agora aparecem pela 'boca' de um aparelho que, em tempos, apenas servia para fazer telefonemas.

Acho isto de um quase ridículo. Mas o quase aqui faz toda a diferença. É que é um quase em evolução. E, pior, não é apenas quase ridículo: é quase absurdo, é quase assustador. Talvez dentro de algum tempo tenhamos que deixar cair os quases. O quase está a tender para totalmente.

A minha conta de mail recebe um mail da aplicação a sugerir-me formas de ser mais eficiente. Diz-me o tempo que passei a ler e a escrever mails, contabiliza o tempo de reuniões, faz-me sugestões. Claro que já nem abro esses mails. Dentro de algum tempo, talvez me impeça de fazer o que quero.

Vou marcar uma reunião, pergunta-me se não quero acabar quinze minutos antes para não ter reuniões contíguas. Estou na reunião, aparece-me uma mensagem a avisar-me que faltam cinco minutos para acabar. Estou cada vez mais controlada. É para me ajudar. Dir-me-ão que é para isso, para me alertar. 

Mas eu pedi alguma ajuda? 

Recebo uma chamada e, ao atender, recebo um aviso de que, se não der acesso às minhas fotografias e mais não sei o quê, não poderei atendê-la. Não dou. Portanto, não posso atender. Perco a chamada. Tenho eu que fazê-la por outra via. Como se meteu outra coisa, não a fiz. À noite recebi uma chamada: eu não tinha ajudado quem precisava de ajuda. E tudo porque não quis que a aplicação tivesse acesso às minhas fotografias e mais não sei o quê.

E já não recebo mensagens da aplicação dos passos, quando estou a dormir, a dizer que está na hora de começar a andar porque lhe bloqueei as notificações. 

Mas há pouco, ao ir ver quantos passos tinha feito, apareceu-me um anúncio a ver se queria instalar outra app. Não quis. Mas não consegui sair dali. Desliguei tudo. Que se marimbem. Estou farta destes abusos.

Tenho andado a ver cómodas claras. Comecei por ver como se pintam e depois andei à procura delas à venda. Para conseguir ver, ou aceitava os cookies ou tinha que ler trapalhadas para as quais não tive pachorra. Aceitei tudo. Mea culpa. Agora, esteja a ler o que for, seja onde for, a que hora for, aparecem-me cómodas de todas as cores. Sou bombardeada com cómodas. 

Tem graça? 

Por acaso, acho que não. Pode parecer inócuo. E, se calhar, é. Ainda é.

Até ao dia em que nos sentirmos severamente manipulados, invadidos, incapazes de resistir. Até ao dia em que, se não capitularmos, nos veremos impedidos de comunicar, definitivamente reféns.

E assim, aos poucos, os algoritmos e a inteligência artificial e todos essas cenas de machine learning vão tomando conta de nós.

Bem sei que fazem muita coisa boa mas a forma desregulada como tudo vai avançando só pode significar que há riscos enormes que estão a ser subestimados.

É o modelo de negócio destas plataformas, destas apps, destas coisas todas. Bem sei que sim. Mas sei também que é a invasão consentida.

Não nos podemos queixar: somos nós que aceitamos tudo. É bem verdade: o nosso mundo é cada vez mais o nosso telemóvel ou o nosso tablet ou pc. O nosso pequeno mundo. Um pequeno mundo que, aos poucos, vai cerceando cada vez mais a nossa pequena liberdade.


____________________________________

Pinturas de Wiliam Blake ao som de Tom Waits em "Strange Weather"

_____________________________________

Uma boa terça-feira

domingo, março 03, 2019

Mas essa já é outra história




Passou por aqui, devorou o leite das minhas terras e deixou-me a celebrar as nuvens que passam. E deixou recados, 'sou  um bocadinho do vento que te amacia', e de facto bebeu-me as arestas, 'as tuas mãos sobrevoam o meu corpo como plumas', e de facto senti-me pássaro mais de gruta íntima que de céus altos, 'noites de eterno luxo', e cada instante foi de facto uma imersão na abundância que deve ser o eterno, 'mais leve do que uma pena apesar do peso', que não senti, o amor bem temperado é assim, um animal imenso que se pode transformar numa flor carnívora, e tu és uma fera, uma boca terrível que não perde nada e se encontrou no outro, que felizmente fui eu, 'uma das que sou', bruxa, luxuosa e mais ainda porque bebeste no meu luxo mas depois disse-te que não, que não nos amaremos outra vez porque me estou a deixar prender nas tuas mãos, que são asas e nuvens e garras, e eu não quero, quero ficar livre e pairar e sofrer outros pesos, se os houver, e 'ó meu amor que pena não te deixares prender'. Amar é também renunciar. Mas essa já é outra história, que depois viverei, e direi.


Palavras de Casimiro de Brito in 'Uma lágrima que cega' ao som de I want you na voz de Tom Waits com fotografias de  Clara Melchiorre


domingo, novembro 19, 2017

Tom Waits assedia uma idosa
mas eu sei de algumas atenuantes


Gosto do Tom Waits e não é por vê-lo a assediar uma velhinha que vou passar a gostar menos. De resto, a velhinha não se ralou nada. E ele tem um sentido de humor que me diverte imenso. Não sei se a conversa é dele, se é um qualquer script. Não interessa. Gosto.

Dantes dizia-se 'galar'. Acho que é o caso:

Tom Waits apanhado a galar não uma frangota mas uma galinha-feita (digamos assim) numa festa.


Mas conheço-lhe outros registos

Tom Waits - Watch her disappear

Last night I dreamed that I was dreaming of you


Para que se faça uma trilogia, encerro com Tom Waits numa canção de amor

Well I hope that I don't fall in love with you
'Cause falling in love just makes me blue
Well the music plays and you display


.......................

sexta-feira, novembro 03, 2017

Tópicos de um dia com coisas boas no meio de complexidades
(que se calhar são da treta)





Dias complexos cheios de assuntos complexos, estes meus.
Claro está que isto é tudo relativo. A minha complexidade vale menos que uma casca de caracol para si, meu Caro Leitor, e vale seguramente também menos que zero para quem esteja doente, desempregado ou se sinta irremediavelmente abandonado. Mas, dentro desta relatividade, a complexidade que teima em querer tomar conta dos meus dias é complexa demais para o meu gosto.
No entanto, quando me vejo imersa à força num caldo de complexidade, o meu ser profundo chega a um ponto em que, sem stress e grandes anúncios, diz devagarinho e acho que só eu é que o ouço: que se lixe a complexidade. E, lixando-me eu para a complexidade, arranjo maneira de, por um bocado, geralmente à hora de almoço, saltar fora.
Sabendo disto, e por outras ponderosas razões, só aceito almoços de trabalho se não tiver como me escapar. Caso contrário, é um bocadinho de tempo meu, só meu, e azarinho para o resto.
Pronto. Quero eu com isto dizer que, à horinha em que já estava pelos cabelos e com vontade de mandar bugiar quem se aproximasse com mais gaitas (e digo gaitas para não dizer tretas ou, mesmo, merdas), peguei na carteira e nas chaves do carro e ala moça que se faz tarde.


A hora de almoço foi curta e, para ajudar à festa, foi um filme para conseguir descobrir lugar para deixar o carro. Portanto, o almoço foi naquela base, não mau de todo mas rápido; e ainda a última garfada ia a caminho do esófago, já eu ia a caminho de uma livraria.

Minutos sagrados que me salvaram o dia. No entanto, a realidade teima em querer estragar-me a flanação:eu a entrar e mais um telefonema e mais conversa e mais conversa e logo uma em que não pude furtar-me a dar uma desanda em quem me ligou. Mas mal a desanda estava despachada, já eu circulava entre as novidades e já eu salivava perante os pitéus que ali se me ofereciam. Em momentos assim desaparecem complexidades, maçadorias, ralações. Tudo. Disso não resta nada. Se alguém me abordasse naquele momento e me perguntasse se eu tinha coisas que me preocupassem, espontaneamente diria que não. Durante aqueles breves minutos sou livre, despreocupada e feliz.

Trouxe:

Nova Antologia Pessoal de Jorge Luis Borges, edição Quetzal  

Entrevistas da Paris Review, 3, edição Tinta da China

Que alegria. É como ir a um mercado e descobrir um peixe fresco, fantástico, raro, e umas hortaliças tenras e perfumadas como poucas vezes aparecem e umas frutas maduras, sumarentas, gostosas, a saberem mesmo a fruta, e vir para casa toda feliz da vida, sentindo que o dinheiro gasto foi uma pechincha face à qualidade das iguarias descobertas.


Mas logo tive que ir à pressa para o carro e, mal comecei a conduzir, já estava a fazer outro telefonema e logo, de novo, enfiada até à ponta dos cabelos na complexidade. E depois mais uma tarde daquelas.

Há bocado, já na minha rica casinha, estava a despir-me no quarto e a falar com o meu marido, toca o telemóvel. Pensei que era a minha filha que não me tinha atendido quando eu lhe tinha ligado, ao ir no carro. Quando cheguei ao pé do telemóvel, calou-se. Afinal não era ele. Era aquele com quem tinha falado no carro depois de almoço, que anda enterrado em complexidades ainda piores do que as minhas e com quem estarei numa reunião em que amanhã vamos estar e que, pelo tema e pelos intervenientes, se adivinha extraordinária (para não dizer tendencialmente tenebrosa).

Depois, então, ligou a minha filha. Depois o meu filho. E aí a mãe-galinha que eu, acima de tudo, sou, ficou mais tranquila sabendo-os bons, os meninos também bons, tudo bom (desde ontem...), e já me parecia que, estando o dia a acabar em paz, nem uma só guerra tivesse havido durante o dia.
Ser primária tem coisas boas. Aliás, acho que só tem coisas boas.
Entretanto, já jantei e já escolhi a roupa para amanhã, que me levanto cedo, não tenho tempo para grandes experimentações e, nisto, não pode haver lugar a riscos.

Com isto tudo, só há bocado é que consegui sentar-me no sofá e, obviamente, passados uns minutos, estava a adormecer. Talvez cinco minutos mas o suficiente para agora me sentir acordada.

Tenho aqui os dois livros que serão certamente altamente estimulantes. Mas, se agora me ponho a lê-los, sou capaz de adormecer de novo.


Portanto, tenho aqui o Borges ao meu lado e só não me sinto envergonhada por não estar a dedicar-lhe a merecida atenção porque sei que ele, por três razões que me abstenho de explicitar, não me vê. Quanto aos escritores entrevistados, limito-me a passar-lhes a mão pelo lombo. Melhor, pela lombada. Melhor, pela capa. Tem uma textura que me agrada. Tomara que chegue o fim de semana para me atirar a eles.

Tirando isto, o que tenho a dizer é que, enquanto jantava, vi um pouco de uma reportagem sobre os tarefeiros na Saúde e o que tenho a dizer é que nunca percebi estas opções e que, em geral e em abstracto, é tema que me enoja. O mundo derrapou para uma encosta de acentuado declive onde as decisões assentam numa absoluta subversão de valores que nunca podem levar senão ao buraco. Não é só na Saúde: é em todo o lado, não apenas do Estado como em muitas empresas. Recorre-se a empresas de negreiros que exploram mão de obra barata e a vendem como 'serviços'. Não quero falar mais disto aqui porque senão não me calo e o post já vai longo demais. 


Também vi um bocado de uma reportagem que me deu alguma satisfação: tinha a ver com o BES e com a possibilidade (presumo que remota) de anular a resolução do BES. Era bonito. Juro que gostava. Sempre achei que a resolução do BES foi uma aberração, uma leviandade, um nonsense pegado, um monumental erro. E gostava, mas gostava mesmo, se as sardinhas voltassem ao prato. Julgo que tal seria já materialmente impossível mas juro que gostava que fosse não apenas possível como mandatório.


__________________

Parece que esta sexta-feira, finalmente, vai haver chuva que se veja. Tomara, que já não se aguenta este tempo mais estranho.

__________________________

As fotografias são da autoria de Alex Robciuc

Tom Waits interpreta Strange Weather

________________________________________________


E agora vou ver se acordo a sério para ver se me inspiro para continuar com a historinha que comecei ontem.

............................

sexta-feira, setembro 01, 2017

Notícias do paraíso


Afinal a mamã gata branca não tem apenas o bebé gatinho branco. Já antes tinha visto dois gatinhos cinzentos mas deixei de ver, pensei que não tivessem resistido. Só via o branquinho que anda perto de nós, mia baixinho a chamar-nos. 




Nunca tive um gato. Não sei interagir. Não sei se é suposto chegar-me mesmo ao pé, pegar-lhe ao colo, enchê-lo de beijinhos como fazia com a minha cãzinha. Com o bebé gatinho falo, vou perto, fotografo, mas não sinto intimidade para lhe chegar a mão. Apesar de bebé, tenho medo que se assanhe ou que apareça a mamã gata e me salte para cima. Quando o meu filho namorava, volta e meia estava sentado na sala com a namorada e saltava-lhe o gato dela em cima, um gato endemoninhado que parecia querer dar cabo dele. Só de imaginar isso, ficava aterrada, nem queria que ele me contasse.

Agora sempre que sobra peixe ou batatas ou coisa assim vou pôr lá numa curva do caminho. Os meus filhos acham isso uma coisa infra-urbana, a bem dizer, uma porcaria. Não quero saber. O meu filho diz que tenha eu cuidado não vá tornar-me como uma velha lá da rua dele que anda a dar de comer aos gatos. E eu lembro-me daquela castiça que anda pelo Ginjal a atafulhá-los de esparguete e comida enlatada, quase se zangando com os pobres bichos quando não acorrem à chamada dela. Não quero esse futuro para mim mas a verdade é que fico a pensar no que terão aqueles pobres bichinhos para comer nestes dias de calor e secura. Se comessem figos secos estavam garantidos, que, por baixo das figueiras, está tudo cheio de figos secos. Mas duvido que os gatos comam figos. E não faço ideia de onde arranjam água. No outro dia, quando cá estiveram todos, comprei duas embalagens de ovos de codorniz para servir cozidos, temperados, e agora uso as embalagens para pôr água mas com o vento aquilo nunca se aguenta direito. Não quero pôr um recipiente mais alto não vá o gatinho desequilibrar-se e ainda dar um mergulho. Tenho que ver se arranjo outra coisa. A ver se descubro para aí o prato de um vaso.


Mas, então, dizia eu que afinal há outro bebé. É branco com manchas pretas, parece uma vaquinha. Só o vi uma vez e pareceu-me mais forte que o branquinho. Não tinha a máquina, não pude fotografá-lo. Não sei onde se mete para nunca o ver. Nem a ele nem à mãe gata. O meu marido diz que hoje, muito cedo, viu a gata com o gatinho branco. 

Mas o que se passa aqui na quinta é um mistério. E digo isto porque o vizinho lá da ponta da rua, aquele que tem cavalos, agora tem também um burro adulto e um burro bebé. E lá para baixo tem o que ele chama a fazenda, onde tem vacas e um rebanho. E ele contou ao meu marido que a burra (afinal é uma burra, não um burro) lhe é muito útil a ajudar a guardar as ovelhas pois afasta os outros bichos, que, por exemplo, não deixa as raposas chegar perto. E eu pasmei. Raposas? Mas há raposas por aqui? Nunca tal me passaria pela cabeça.

Só surpresas. Na volta, um dia vou a fazer a minha caminhada e salta-me um javali ao caminho. 

A verdade é que a maior parte do tempo não vejo nem a gata nem os gatinhos; dir-se-ia que, por aqui, não há gatos. Portanto, se há gatos e coelhos e eu quase não os vejo, porque não raposas, javalis, homens-aranhas, fadas do bosque...?

Mais prosaicamente. Tenho sempre a ideia de ter aqui cabrinhas. Gosto das cabrinhas selvagens. Se calhar davam-nos conta do mato. Mas o meu marido diz que se calhar comiam o mato e tudo o resto. E tenho medo que adoeçam ou que fiquem idosas. Que faríamos nós com cabrinhas débeis ou infelizes? Mas de cabrinhas eu gostava. Mas também não sei se deixariam que eu lhes fizesse festinhas. Mas, claro, mesmo que não pudesse fazer-lhes festinhas talvez pudesse falar com elas. Acho as cabras bichos inteligentes, com verdadeira filosofia de vida.


Outra coisa. Não sei se já contei que há aqui uma gruta pequena e que acho que é aí que vivem os gatos. Há uma outra que acho que é a casa principal dos coelhos. Mas há também uma gruta grande. Mesmo grande. Não sei quão grande. Nunca a explorámos. Nunca deixei que os meus filhos lá se enfiassem. E felizmente cresceu-lhe vegetação à frente pelo que os pimentinhas nem dão por ela. E já lhes meti medo, digo que aquilo ali é uma coisa escura e cheia de bichos. Que nunca lhes passe sequer pela cabeça espreitar. tenho medo de derrocadas. Ou de monstros. Sei lá. Não faço ideia onde irá dar. Em tempos um senhor da terra disse que era comprida, que passava por baixo da estrada. Uma vez contei a um colega que tinha uma gruta. Ele disse-me que me deixasse ficar mas é calada não fosse ainda alguém descobrir para lá algumas gravuras rupestres ou tesouros e ficarmos tramados, expropriarem-nos isto, uma coisa na base da expulsão do paraíso. Portanto, estou caladinha com a gruta. Não sei se aquilo está vazio, se cheio de bicharada, se vai dar ao lado de lá do mundo, se quê. Na volta ainda por lá vivem dinossauros. Ou imagine-se que, toda afoita, me aventuro e, no meio da escuridão, aponto a lanterna e dou com um coelho com cara de pedro passos. Horror...

Tirando isso, o que tenho a reportar é que o algoritmo do youtube continua a surpreender-me. Hoje trazia-me vários vídeos de coming out. Raparigas, rapazes, gémeos. De tudo. Alguns são verdadeiros tutoriais. Na volta o Youtube acha que está na hora de eu sair do armário. Já viram isto? Ou, então, quer que eu divulgue esses vídeos pois podem ser úteis a alguém. Mas não vou divulgar. Não é por nada mas é que acho que são chatos. Quem quiser que pesquise. Basta escrever 'coming out'.

Depois uns quantos da série primeiro beijo. A estes acho sempre graça. Parece uma coisa despropositada esta de uma pessoa se pôr em frente a um desconhecido com a incumbência de o beijar. Mas a verdade é que, do que se vê, parece que corre sempre bem. Mas eu sou niquenta. Se me aparecesse uma mulher não dava. Só se fosse mesmo na base do selinho. Beijo de língua nem pensar. Mas se me aparecesse um sujeito com ar de vampiro...? Ui. Medo. Ou um mal cheiroso. Ou um sujeito com ar de picuinhas, esquisitinho, apertadinho. Ná... Mas isto não é só coisa de um, para beijar, tal como no tango, tem que haver dois. Eu também não dava grande coisa por este aqui abaixo e afinal parece que até leva um certo jeito. São napolitanos, é certo, e isso é relevante. Mas a verdade, por isto ou por aquilo, é que não se armaram em esquisitos e dar uma hipótese, muitas vezes, é meio caminho andado.. 


Também me aparecem vídeos que não acaba de Arvo Pärt. Entrevistas, músicas, ele a tocar. Maravilhoso. Mas não vou pôr agora aqui. Este post está muito ruidoso e Arvo Pärt requer silêncio.

E Tom Waits mas, para isso, não é preciso grande inteligência. Gosto confessamente dele. Gosto sempre. Está lá em cima a acompanhar-me com a sua voz de bad boy.

E bailado. Muitos vídeos de ópera ou bailado. Hoje trazia-me várias Carmens. Um vídeo tinha um best of para poder comparar diversas interpretações.

Mas, no meio, apareceu-me um que me pareceu uma bizarria. Céline Dion. Pensei. Pleeease... completamente ao lado... daahhhh.... Mas, por via das dúvidas, espreitei para perceber qual era a do algoritmo para, no meio daqueles vídeos operáticos ou de bailado, me pespegar ali a Céline Dion. Pensei: no melhor pano cai a nódoa. Uma gaffe. Paciência. Mas deixa cá ver. 

E, depois de ver, percebi: é inesperado. Esta não é a Céline Dion que eu tinha em mente. Tem graça, sim senhor. Por isso, aqui está.


________________

E ao anoitecer tirei umas fotografias malucas à lua (que já está para além de meia-lua). Mas agora estou com preguiça de as ir buscar e, por isso, despeço-me com a lua de há dois dias.


Um dia muito bom a si que aí está a aturar a minha pancada.

....................................

domingo, julho 23, 2017

Eu, em palavras e imagens






É verdade: ali acima sou eu. Estava deitada no meu quarto in heaven quando fui fotografada. Há pouco, descobri com a Gina uma aplicação que permite aplicar efeitos às fotografias. Claro que me pus logo a fazer experiências. Peguei numa fotografia minha e escolhi o efeito Gauguin porque gosto de Gauguin e porque não distorceu ou desconfigurou a imagem original. De resto, está até bastante parecida porque as cores da túnica que tinha vestida e da colcha e das almofadas não andam muito longe destas. Mas, claro, na verdade não tenho um braço cor de salmão e outro amarelo.

Na fotografia abaixo, sou eu outra vez mas, agora, com o efeito 'abstracto'. Estava ainda deitada de barriga para baixo e a fotografia quase só apanha o meu cabelo e um pouco do rosto de lado bem como um pouco de uma echarpe que tinha posto pelas costas para me aquecer (quando, antes, tinha estado a dormir).

É a segunda vez que me mostro e, tal como na vez anterior, acho que fica claro que não quero mostrar-me. Aqui, no blog, não tenho nome nem rosto. Aqui sou apenas as minhas palavras, as músicas que gosto de ouvir, as fotografias que faço ou que escolho de outros. Só assim me faz sentido aqui estar. A exposição com cartão de cidadão na mão ou enquanto perfil no facebook não me interessa. Para isso não tinha um blog, tinha outra coisa qualquer. E, com isto, não critico quem se apresenta com nome e fotografia e descreve à minúcia as suas dores. Estou apenas a dizer que esse não é o meu registo -- e, sendo este um espaço de liberdade, que cada um seja como quer ser que está tudo certo.


Durante o dia não tive muito tempo para ler mas, ainda assim, consegui prosseguir a gostosa leitura de Caminhos e Destinos. A escrita diarística agrada-me. Mesmo que fale não de nós mas do que pensamos, ou de outros, ou de memórias ou de sonhos ou de invenções -- acho que somos nós, no dia a dia, deixando um registo nosso que fica inscrito no tempo que passa.

Gosto de aqui escrever e, se calhar, o Um Jeito Manso é mesmo (quase) um diário.

De tarde, estava a ler o que o autor diz da escrita diarística e a pensar que, se eu tivesse paciência, gostava de reler, ao acaso, apontamentos que por aqui vou escrevendo. Será que conseguiria recordar-me de tudo o que escrevi? De tudo o que vivi? Tenho alguma curiosidade em ver o que escrevi quando estava a passar por situações complicadas e o omiti, escrevendo como se estivesse feliz e descontraída. Em alguns casos apenas o referi mais tarde, noutros nunca falei. Não me lembro do que escrevi mas lembro-me (e lembro-me porque ainda hoje isso acontece) que, nesses dias, antes de escrever, penso sempre que não vou conseguir fazê-lo. E, no entanto, por um qualquer mecanismo que desconheço, ao pousar os dedos no teclado é como se um véu descesse sobre os problemas e uma janela luminosa se abrisse para um mundo em que nada de mal se passa comigo ou com os meus. 

Lembro-me dos dias em que recebi a notícia gloriosa de que mais uma criança estava para chegar e que, por ser isso um assunto tão milagroso e me trazer uma felicidade tão íntima, o guardei para mim. E lembro-me da tristeza indescritível quando, por duas vezes, o milagre foi involuntariamente interrompido. Ou da expectativa boa que sempre antecede a chegada de cada criança. E, no entanto, nada disso transparece do que escrevo.

Ou quando há doenças, medos, ou, pior, quando há partidas. Apenas falo quando o susto passou e é quando falo ou, em casos muito especiais, falo em quem partiu mas só depois, quando arranjo forma de honrar a memória de quem partiu sem que a minha emoção se sobreponha.

Ou outros casos. Não sei como consigo eu isso. É como se pusesse na zona de sombra a parte de mim que não quer ser vista ou que não quer revelar os seus espaços de intimidade. Ou como se, sendo eu uma mulher de corpo inteiro, me cobrisse com o tal véu que me oculta tal o faço como na imagem em abaixo em que cobri o rosto com uma echarpe (neste caso, à fotografa dei o efeito 'beleza').


O tempo passa e eu vou mudando. Não tenho dúvidas disso, desde logo a nível físico. Mas sei que há uma linha que se mantém, íntegra. Vislumbro nas minhas memórias ecos do que sempre fui. No mais essencial de mim sou sempre eu e sempre a mesma. Ainda que não me mostre com nome, com rosto, com descrições exactas de quem sou, do que faço, dos problemas que tenho -- sou sempre eu. Mesmo quando ficciono ou falo como se fosse eu, sendo outra, ou mesmo que nada diga e apenas barafunde ou ria ou desdiga, sou sempre eu.

Reler-me talvez me ajudasse a conhecer melhor a mulher de quem tenho uma imagem cadeidoscópica. Talvez percebesse que, com mais ou menos cores, com mais ou menos efeitos, com ou sem filtros, sou, afinal, sempre igual e sempre completamente transparente. Não sei. Sinceramente não sei. Quem sabe se, para vocês que por aqui me acompanham, a minha imagem até não é um pouco mais definida do que é para mim. Se calhar é. 

__________________

domingo, abril 09, 2017

Um mail muito estranho


O endereço continha nome próprio, apelido e um número que, naquele contexto, deveria ser o ano de nascimento. Nunca tinha recebido nenhum mail daquele endereço, pelo menos que me lembrasse.




Tinha chegado a casa pouco antes, vinda de um dia no campo. Tranquila. Longe de notícias. Mais do que a fotografar, a ser fotografada. Passei as fotografias para o computador. Numa delas vi uma imagem que não percebi, talvez um vulto. Ampliei. Sem definição, o vulto esbateu-se mais. Talvez apenas uma sombra de árvore. Esqueci.

Escolhi uma música, pus-me a ouvir. Fechei os olhos, deixei-me ir por uns momentos. 


Depois, quando a música acabou e fui escolher outra, lembrei-me de ver os mails pois tinha a ideia que um amigo me tinha recomendado de uma forma quase convincente uma cantora cujo nome não fixei. É a que talvez estejam a ouvir agora.

Foi então que vi aquele mail.

Ao ver o endereço, quase uma certidão de nascimento, pensei: só falta pôr a fotografia. Mas não faltava. Quando abri, lá estava, de facto, a fotografia. Antes de ler o que ele tinha escrito, pus-me a observar a imagem daquele homem que assim se me mostrava de nome completo, idade e fotografia. Fiz as contas. Cinquenta e sete anos. O ângulo não deixava ver bem o rosto pois tinha um livro em frente, como se estivesse a lê-lo quase à altura do rosto

O texto, contudo, era misterioso. Li-o, ao princípio, com surpresa, depois com alguma inquietação.
Estimada Amiga,  
Todos os dias me levanto quase a correr para ler o que escreveu durante a noite. As minhas manhãs são sempre felizes porque acordo com as suas palavras. A sua alegria contagia-me, o seu humor diverte-me, a sua energia renova-me. Sabe disso. Se as suas palavras me parecem mais soturnas, logo me preocupo, tenho vontade de a procurar de imediato para saber se está bem. Na segunda-feira ver-nos-emos e teremos que fingir desinteresse. Se soubesse o que me custa. Se soubesse...?, pergunto. Mas sabe, sabe certamente. Assim como sabe que eu mal sobrevivo às suas conversas animadas com outros, em especial com aquele que bem sabe que não tolero. Mas é assim a nossa história, bem sei que pouco ou nada podemos fazer de diferente, e também bem sei que não quer que eu insista. Aos poucos, espero aprender a viver com o que sinto, e manter esse sentimento bem fechado dentro de mim. Talvez nessa altura eu consiga olhá-la sem que se zangue comigo, dizendo-me que olhá-la assim a faz sentir nua. Estimada Amiga. Arranje maneira de pousar em mim o seu doce olhar. Peço-lhe. Arranje maneira de me sorrir. Morro quando vejo que derrama sorrisos sobre os outros e nunca sobre mim. Na segunda-feira passarei perto si, aspirarei o seu perfume, ouvirei as suas palavras e farei de conta que o nosso amor não existe. E sofrerei porque queria cair a seus pés. Receba o meu amor e os meus beijos que serão sempre seus.
E assinava.

A seguir, num post scriptum, escrevia 'Tarde demais' e juntava o link para um vídeo. Este que aqui vos mostro.


Fiquei atónita. Quem era?

Fui ao google. Ainda mais atónita fiquei. Fiquei sem saber o que fazer.

Que sentido o daquelas palavras? Que loucura aquela...?

Como responder? Ou não responder? Mostrar-me indiferente a tão bela declaração de amor? Temer o significado de tudo aquilo?


Abri o mail de resposta vezes sem conta. Escrevia e apagava. Nada me parecia no tom adequado. Por fim, foi isto que seguiu:
Meu Caro Senhor, 
Li com atenção o que escreveu mas lamento informá-lo que, para além de agradáveis de ler, as suas palavras são, para mim, desprovidas de sentido. Por isso, queira considerar a hipótese de não voltar a escrever-me.  
Cumprimentos, UJM
Espero que não me responda. Tenho medo de situações estranhas. Medo e, ao mesmo tempo, uma inconfessável atracção. Contudo, uma atracção mais literária, digamos assim, do que real.

.....

E agora, antes de aqui vos relatar o sucedido, também hesitei, aquele mail parece referir-se a sentimentos tão íntimos... Mas achei isto tão extraordinário que acho que seria uma pena se o asssunto ficasse só comigo. E, de resto, não revelando o nome do meu admirador secreto que, pelos vistos, me conhece na vida real, também não estou a cometer nenhuma inconfidência de maior. 

Além disso, quem vos diz, meus Caros Leitores, de que isto que escrevi é verdade?


___________

[Caso queiram saber como é a primavera in heaven, as glicínias escandalosamente floridas, queiram, por favor descer até ao post que se segue]

_____

quinta-feira, março 09, 2017

Televisões e smartphones usados para efeitos de espionagem.

WikiLeaks publishes 'biggest ever leak of secret CIA documents'
The 8,761 documents published by WikiLeaks focus mainly on techniques for hacking and surveillance

-- De facto, o admirável mundo novo tem qualquer coisa de deveras assustador --




Há coisas que se intuem mas que, em concreto, se desconhecem e que, quando uma pequena ponta é revelada, nos levam a perceber que a tecnologia já avançou para campos nos quais os sistemas políticos ainda não conseguiram penetrar.

Sempre achei que a tecnologia avança mais rapidamente do que a capacidade de as organizações se adaptarem. É frequente, em diversos contextos, eu dizer isto.

Há temas que, por não terem que ver com questiúnculas caseiras ou fofocas internacionais, nos passam ao lado. Mais: se alguém fala delas, tende a passar por alarmista ou por ser fã da teoria da conspiração. Acreditem: não é o meu caso. 

Digo com convicção que acho que não sei como vai ser possível travar o avanço de práticas que são absolutamente contrárias à liberdade, ao respeito pela privacidade e, em última análise, à democracia e que se relacionam com a utilização, em roda livre, da tecnologia.

Afirmações destas não deveriam ser escritas num espaço destes em que tanto falo de assuntos mediamente sérios ou hilariantes, como invento histórias, como me atiro à incompetência de Carlos Costa ou à irresponsabilidade e falta de chá de Passos Coelho. Mas este é o meu espaço e, portanto, é aqui que também falo de assuntos que, francamente, me preocupam.

Enquanto é tempo (e eu, na verdade, não sei se ainda se vai a tempo), as sociedades democráticas deveriam eleger um conjunto de assuntos transversais (isto é, independentes de linhas partidárias) e, num pacto de regime, abordá-los de forma muito responsável. E isto deveria escalar para níveis supra-nacionais pois não são assuntos de um ou outro país em particular. 

Um dos temas que deveria ser encarado com seriedade é este: a tecnologia avança de uma maneira veloz e caótica, pondo em risco os regimes democráticos. A tecnologia é barata, está disponível de forma ubíqua e a sua utilização é a que se quiser. Miúdos em casa, malucos onde calhar, gente mal-intencionada -- todos podem fazer uso desregulado da tecnologia. Computação e comunicações baratas à disposição de todos. Mesmo que se queira, não é possível legislar à velocidade a que a tecnologia avança.

Vault 7: CIA Hacking Tools Revealed


Já no outro dia aqui publiquei um texto que o meu filho escreveu sobre o aproveitamento da vasta e detalhada informação das redes sociais com o objectivo de manipular o sentido de voto (e de que a eleição de Trump é exemplo).

As notícias que agora leio sobre isto da internet das coisas ao serviço da espionagem deixam-me ainda mais preocupada. Não sei se a televisão lhes deu o devido destaque mas sei que fui ao Expresso e não encontrei nada. O critério de selecção e alinhamento das notícias é outro dos preocupantes factores que nos estão a levar à alienação colectiva. Pode o mundo estar a perder o pé que as televisões e muitos jornais preferem dar relevo a tricas domésticas sem qualquer importância.

Transcrevo breves excertos do que acabo de ler (e, para o efeito, nem presto muita atenção ao facto de poderem ou não ser os russos a estarem por detrás desta monumental fuga de informação sensível ou que a actuação da CIA aqui referida tenha acontecido no período Obama -- e não presto muita atenção porque acho que o problema é, na verdade, tão mais grave quanto, neste momento, escapa ao controlo de qualquer organização):


Microsoft, Samsung e Apple investigam revelações da WikiLeaks


A WikiLeaks revelou na passada terça-feira mais de 8000 documentos confidenciais da CIA. Nos mesmos, são explicadas várias táticas de espionagem e hacking (pirataria informática) que a agência de segurança norte-americana utiliza. Entre as alegações, foi destacada por todo o mundo a possível capacidade de a CIA conseguir iludir a segurança de smartphones e televisões para efeitos de espionagem.

A Samsung também reagiu, mas com declarações mais curtas. De acordo com a WikiLeaks, nos mais de 8000 documentos divulgados, a marca poderia ter as suas televisões, mais concretamente a série F8000, de acordo com a BBC, a serem usadas para espionagem através dos microfones do aparelho.



FBI's James Comey: 'There is no such thing as absolute privacy in America'


FBI director’s assessment deepened privacy concerns raised by the details of CIA tools to hack consumer electronics for espionage published by WikiLeaks

“All of us have a reasonable expectation of privacy in our homes, in our cars, and in our devices. But it also means with good reason, in court, government through law enforcement can invade our private spaces,” Comey said at the conference on Wednesday. “Even our memories aren’t private. Any of us can be compelled to say what we saw … In appropriate circumstances, a judge can compel any of us to testify in court on those private communications.”

  • CIA hackers targeted smartphones and computers.
  • The Center for Cyber Intelligence, based at the CIA headquarters in Langley, Virginia, has a second covert base in the US consulate in Frankfurt which covers Europe, the Middle East and Africa.
  • A programme called Weeping Angel describes how to attack a Samsung F8000 TV set so that it appears to be off but can still be used for monitoring.


A CIA attack system called Fine Dining provides 24 decoy applications for CIA spies to use. To witnesses, the spy appears to be running a programme showing videos, presenting slides, playing a computer game, or even running a fake virus scanner. But while the decoy application is on the screen, the system is automatically infected and ransacked


WikiLeaks publishes massive trove of CIA spying files in 'Vault 7' release



"'Year Zero' introduces the scope and direction of the CIA's global covert hacking program, its malware arsenal and dozens of "zero day" weaponized exploits against a wide range of U.S. and European company products, include Apple's iPhone, Google's Android and Microsoft's Windows and even Samsung TVs, which are turned into covert microphones," the organisation said in a release.


...................

ALERT! 

Wikileaks claims CIA HACKS TVs & Phones WORLDWIDE



Este é o pouco recomendável mundo novo que habitamos.

.............

Há um lado intrinsecamente transgressor em tudo isto, uma voragem fora de controlo, uma coisa que junta a criatividade com o abuso, a genialidade com a loucura e o aventureirismo com o disparate puro e duro.

E eu, face a tudo isso, se não me levam a mal, prefiro ver coisas como esta aqui abaixo.
Belas, divertidas e inócuas.


___________

Um dia feliz para todos. 
Apesar de tudo.

....................................