Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, outubro 24, 2018

Salve Tim Tim, enfim regressado do Tibete


Que alegria ao ver que, aqui na galeria lateral, me apareceu um blog renascido. Depois de muito aturar e de muito ter que engolir, eis que o nosso Tim Tim está de volta.

E faz-se anunciar assim:

Já ministro não sou : à poesia
fui devolvido, àquela noite escura
de onde o verso nos vem, rompendo o céu,
avesso à ventura ou desventura.

Só temos que lhe agradecer o esforço e o sacrifício e desejar-lhe, daqui em diante, uma vida boa e tranquila -- e que nunca a inspiração lhe falte. 

Felicidades, Mr. Alcipe.

segunda-feira, abril 11, 2016

Elogio da sombra
e
Ao luar
- na companhia de Luís Filipe Castro Mendes, o nosso Tim Tim no Tibete, que agora vai ser o nosso Ministro da Cultura


Protege-te na luz. Tu que te escondes e que, assim, te redesenhas, que te perdes em inúteis labirintos, protege-te da luz. E leva-me também para a sombra, deixa que ela desenhe em mim os degraus que terás que percorrer até me conseguires encontrar.

Schiuuuuuuuuuuu.... Espera que o silêncio percorra devagar os caminhos com que a luz impressionou o meu corpo. Deixa-te estar sentado, aí, aí onde estás, e escuta a minha pele. Escondo-me de ti, não quero que me toques nem que seja apenas com o teu olhar.

Vê como são belos os véus que a luz desenha na minha pele, eu coberta de luz e de sombra, enigmas, mistérios, eu, feita de palavras, o meu corpo oculto, a viver entre luminosas sombras. E tu aí, lendo-me, adivinhando-me, eu muito mulher, coberta de silenciosas sombras, com pouco para oferecer. Só palavras silenciosas, que, aí desse lado, lês, sem que um raio de luz leve até ti o meu olhar, a minha voz.

Mas eu gostava de saber como soa a tua voz. Soará como uma mão doce, terá o mesmo timbre que uns dedos suaves percorrendo os sulcos que a sombra desenha em mim quando te ti me oculto?



Alguns poderão dizer que a beleza enganadora criada pela penumbra não é a beleza autêntica. 

Ramagens
se as juntarem e enlaçarem
uma cabana surge
desenlaçai-as e tereis
como antes a planura

       diz o velho poema, e, afinal de contas, o nosso pensamento actua segundo um raciocínio análogo: creio que o belo não é uma substância em si, mas apenas um desenho de sombras, um jogo de claro-escuro produzido pela justaposição de diversas substâncias. Tal como uma pedra fosforescente que emite brilho quando colocada na escuridão e ao ser exposta à luz do dia perde todo o fascínio de jóia preciosa, também o belo perde a sua existência se lhe suprimirmos os efeitos da sombra.


Enfim, os nossos antepassados consideravam a mulher, à semelhança dos objectos de laca com pó de ouro ou de nácar, um ser inseparável da obscuridade e, tanto quanto podiam, esforçavam-se por a mergulhar completamente na sombra.


De facto, esquecemos o que é invisível. Consideramos inexistente o que não se vê. 

[O trecho em itálico pertence ao 'Elogio da sombra' de Junichiró Tanizaki, livro que, com agrado, tenho estado a ler.]

E, portanto, voltando ao ponto em que estava, dir-te-ei que, se não me vês, não penses que sou inexistente. Sou, para ti, invisível, eu sei, mas deixa que sinta que estás aí, na sombra, perto de mim, as minhas palavras nas tuas mãos -- e não me esqueças.


Movemo-nos entre as noites e as dunas que nos cercam,
espectros de outro tempo e de outra vida;
mas aquelas mulheres juntaram-se a um canto, silenciosas,
pois esperam de nós alguma coisa
que não sabemos o que é:
uma palavra, um grito, um deslizar manso
sobre as águas, ou um mero esplendor do nosso fim
iluminado pelo mais solene dos luares?
As nuvens, sim, as indiferentes nuvens
anunciam um cruel fulgor,
que nós não saberemos ver.

(Manet, Luar sobre o porto de Boulogne)

['Ao luar' de Luís Filipe Castro Mendes, in 'Outro Ulisses regressa a casa']

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Longe das notícias, tinha acabado de escrever o post quando soube da notícia. Juntei então o poema daquele que já tantas vezes visitou o Um Jeito Manso com a sua poesia, como pretexto para daqui lhe enviar os meus votos de boa sorte nas suas novas funções. 
Felicidades, Sr. Embaixador Luís Filipe Castro Mendes, nosso Tim Tim no Tibete
Agora que um outro Ulisses regressa a casa, que consigo nos cheguem novos tempos. A Cultura ficar-lhe-á grata, estou certa. 
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As fotografias usadas ao longo do texto são de Francis Giacobetti.
Lá em cima Natalie Merchant canta 'My skin'

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domingo, abril 03, 2016

Virgens (e Auto-Retrato)


Em dia frio, céu cinzento, chuva miúda, dores no corpo e frio na pele, por puro prazer de andar e olhar, forço-me a sair de casa e passear como se as pernas não estivessem presas e doridas, a cabeça latejante e a humidade fria não me atrasasse os movimentos.

A primeira paragem foi o Cais Sodré. Queria conhecer a Pensão Amor. 

Pelo caminho, fui vendo as novas lojas que vão abrindo na zona. Coloridas, diferentes, invulgares.

E a minha selfie: apenas a minha mão captando a imagem -- mas é o que interessa para este fim.
Com as mãos fotografo, com as mãos escrevo.

O aproveitamento do Mercado da Ribeira para espaço de restauração, com as características que tem, impulsionou muito a nova vivência que se respira por estas bandas.
Pensava que a prostituição já não habitava estas ruas mas ainda lá vi uma ou outra, das que, em seu tempo, teriam sido jovens vistosas e hoje são mulheres já de alguma idade, cabelos muito louros, rostos muito pintados, vestuário exclamativo e uma boa disposição exuberante, trocando conversas divertidas e altissonantes com os conhecidos da rua. Nada de mais. 
Na decoração das lojas há um ar retro, um look vintage, e há gentes de fora, há um ambiente que se adivinha boémio quando anoitecer. Mesmo de dia e com mau tempo, já há gente na rua, de copo na mão, conversando, circulando, gente em esplanadas.

Mas uma coisa me surpreendeu. Tantas vezes que venho para estas bandas e tantas vezes que já fui à Ribeira e dali até ao Chiado via Rua do Alecrim. E, no entanto, nunca tinha reparado: Nossas Senhoras em pequenos nichos.


Numa das ruas, na parede, quase ao nível do chão, este aqui abaixo. E a mistura entre motivos religiosos, bonecos populares, fotografias e objectos de plástico, flores bem coloridas, fica curioso. Nem sei se é suposto inspirar alguma religiosidade ou se é apenas um motivo decorativo kitsch mas gosto, acho inesperado e, até, simpático.


Numa outra loja, um arranjo que muito me agradou. Na fotografia talvez não se perceba, mas são garrafas de vidro transparente, empilhadas, com o gargalo virado para a frente. A meio há a abertura que serve de altar onde brilha, azul e piedosa, a Virgem.

Fotografei neste ângulo pois gostei de ver o reflexo de um dos prédios do largo e das árvores nuas no vidro da montra.


Depois, já dentro da Pensão Amor, ao fundo de um daqueles corredores com ar decadente, entre salas incompreensíveis ou quartos vazios, mais um nicho, mais uma Nossa Senhora


Com umas cortininhas de veludo à frente, quer a Nossa Senhora grande quer as que estão nas campânulas de vidro, devem ter vindo de lojas chinesas. Digo eu. Mas tem graça. Há qualquer coisa de ilógico nisto. Ou, então, de lógico. Talvez se pretenda a protecção ou o perdão da Nossa Senhora num lugar que se associa ao 'pecado'.

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Momentos houve em que os anjos
entreabriram as portas do céu:
mas acredite em mim, o silêncio
é a mais estimável qualidade do divino
e é afinal tudo o que a terra tem para nos dar.

Terminou o concerto. Voltemos para casa.
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O poema é  'À saída do concerto' de Luís Filipe Castro Mendes in 'Outro Ulisses regressa a casa'

Amy Camie e Jessica Goodenough Heuser interpretam"O Viridissima Virga" de Hildegard von Bingen.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo

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domingo, março 06, 2016

Mas acredite em mim, o silêncio é a mais estimável qualidade do divino





Muitas vezes me ocorre que quero deixar assinalada a minha presença neste mundo. Neste mundo ou nesta era -- não sei como dizer porque o meu desconhecimento sobre isto, tal como sobre quase tudo, é total. Admito como possível que parte de mim pode já ter andado por aí noutros tempos. Mas admito isso como admito o contrário ou outra coisa qualquer. O meu entendimento é limitado à escala humana - fará a outras escalas.

Quando capto o que vejo e o retenho em fotografias e copio as fotografias para o computador e depois copio ainda para um disco externo, penso que são registos que ficam. No entanto, ao mesmo tempo que penso isso, ciente da efemeridade de tudo, penso que um dia isto avaria-se e tudo se perderá - e pensar isso não me aflige. Quando, antes, me afadigava, noite fora, a fazer grandes carpetes de Arraiolos, pensava o mesmo: 'os tapetes vão ficar para além de mim. Há-de chegar a um ponto em que ninguém se há-de lembrar de mim mas os meus tapetes continuarão a ser pisados, talvez até apreciados'. Mas também penso que se calhar ninguém os vai querer porque não condizem com a decoração ou porque alguém achará que fazem alergias. Paciência. Também não me aflige. O mesmo quando me punha a pintar.
Tenho muita vontade de me pôr outra vez a pintar, naquela liberdade infantil de fazer com as cores o que me apetece, sem ter que dar explicações. Quando pinto não sei o que vou fazer mas, embora sinta fluir em mim uma grande indiferença pelo que quer que seja, a verdade é que, há uma certa luta, como se me apetecesse espalhar cores à toa e, por algum atavismo, me censurasse por fazer coisas sem propósito e achasse que seria mais fácil para toda a gente se, antes, me desse para fazer coisas em que se reconhecesse um motivo. 
Só não pinto mais porque, às tantas, falta-me sítio para guardar as telas pintadas. Mas olho para o que pintei e penso que não sei se, com as mudanças de casas, a falta de espaço, não acaba tudo encostado a um canto, na cave ou no sótão, ou no lixo. Não me preocupo com isso. Fiz toalhas e colchas de renda pensando também que são coisas que ficam mas eu própria as guardei, às tantas já nem sei onde e, às tantas, nem sei quais as que foram feitas por mim, pela minha mãe ou pela minha avó. E isso também não me aflige.

No entanto, tenho em mim isto, esta ideia de que a vida precisa de se justificar através do que deixarmos para além de nós. Claro que poderia pensar que, mais importante que tudo, mas tão mais importante que nem deveria figurar aqui, porque a escala é outra, são os meus filhos. E os meus filhos têm filhos e os filhos deles terão filhos e assim sucessivamente. Mas, em relação a isso, parece-me mais que sou apenas o elo de uma cadeia de sobrevivência, e eles são mais obra deles próprios do que minha.


Volta e meia também penso que isto que para aqui escrevo é um pouco de mim que está por aí, disponível para quem quiser. Quem me lê, está a aceder a uma parte de mim. E pode ler hoje coisas que escrevi há três ou quatro anos ou ler aqui ou na China ou na Argentina e, penso eu, é como se parte do meu espírito ou do que de mais perene existe dentro de mim voasse pelo mundo, livremente, para todo o sempre.

Mas depois penso que as minhas palavras são nada, insignificâncias anónimas, poeira menos do que atómica espalhada por um espaço pejado de palavras, músicas, fotografias.

E, portanto, esforço-me por não pensar. Simplesmente não pensar. Viver apenas como uma gaivota que levanta voo da margem, como um guincho que contempla as cintilações azuis de um rio muito belo ou, até, como um veleiro que desliza entre iguais, brancos e silenciosos, sem saber o que é pensar.
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Mas, tal como gosto de pegar num tecido grosseiro e em lãs e, do quase nada, produzir um lindo tapete, ou de aqui, no silêncio da minha sala, alinhar palavras que me vão ocorrendo, juntando-lhes fotografias feitas durante os meus passeios, também gosto muito de ver o laborioso e complexo trabalho feito por outros.

Desde logo, gosto de ler outros blogues, é o fluir da vida em tempo real.

Mas também gosto muito de ver vídeos onde outras pessoas constroem coisas: bordados, vestidos, jardins, esculturas. Ou máquinas de música como aquela lá em cima onde Martin Molin mostra o fruto de 14 meses de trabalho, cujo processo de construção se pode ver melhor aqui abaixo.


Ou este vídeo aqui abaixo onde um jovem constrói, inteiramente com as suas mãos, um abrigo. Diz que o fez ao longo de 9 meses mas não de seguida. Em dias completos diz que lhe levou 30 dias. A construção primeva fascina-me, o fazer como se o mundo ainda não tivesse sido inventado, o fazer o que se quer sem influência do conhecimento adquirido. E fascina-me o som das mãos a mexer na terra, na lama, e o som da água, da chuva, da aragem, dos pássaros. E o cheiro da floresta que chega até mim quando vejo um filme assim.


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Momentos houve em que os anjos
entreabriram as portas do céu:
mas acredite em mim, o silêncio
é a mais estimável qualidade do divino
e é finalmente tudo o que a terra tem para nos dar.

Terminou o concerto. Voltemos para casa.


['À saída do concerto' de Luís Filipe Castro Mendes in 'Outro Ulisses regressa a casa']

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

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terça-feira, fevereiro 02, 2016

Pertencemos a uma espécie de vida breve





Julgo que a nossa espécie não durará muito tempo. Não parece ter o estofo das tartarugas, que continuaram a existir semelhantes a si mesmas ao longo de centenas de milhões de anos, centenas de vezes mais do que a nossa existência. Pertencemos a um género de espécie de vida breve. Os nossos primos já se extinguiram todos.  E nós causamos estragos. As alterações climáticas e ambientais que desencadeámos foram brutais e dificilmente nos pouparão. Para a Terra será uma pequena perturbação irrelevante, mas não me parece que escapemos incólumes; tanto mais que a opinião pública e a política preferem ignorar os perigos que estamos a correr e enfiar a cabeça na areia. Somos talvez a única espécie na Terra ciente da inevitabilidade da nossa morte individual: receio que em breve devamos tornar-nos também a espécie que verá conscientemente chegar o seu próprio fim ou, pelo menos, o fim da própria civilização.


Como soubermos enfrentar, melhor ou pior, a nossa morte individual, assim enfrentaremos o colapso da nossa civilização. Não é muito diferente. E não será por certo a primeira civilização a entrar em colapso. Os Maias e os Cretenses já passaram por isso. Nascemos e morremos como nascem e morrem as estrelas, tanto individual como colectivamente. Esta é a nossa realidade. 


A que terra podemos chamar nossa,
sem que um desafio nos tenha feito medir as forças com ela
até lhe pedir perdão?
Não falo de vencedores, dos que não são de nenhuma terra
e de todas se apropriam.
Não falo da luta com o Anjo:
o Anjo vence-nos sempre
e não precisa de qualquer luta para nos esmagar.
Falo da nossa dívida à terra,
desta consciência brusca de amanhecer um dia
ao mesmo tempo que o mundo




by Banksy (algures perto de Calais)

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Migrantes: 10.000 crianças desaparecidas, diz Europol


(Já para não falar nas que morrem pelo caminho ou dão à costa como conchinhas vazias)

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O texto pertence ao capítulo "A fechar: nós" do livro 'Sete breves lições de física', de Carlo Rovelli.
O primeiro vídeo tem, de Ennio Morricone, On Earth As It Is In Heaven do filme The Mission
O poema é A Nossa Terra de Luís Filipe Castro Mendes in Relâmpago, Revista de Poesia 36/37
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Convido-vos a descerem até ao post seguinte onde se fala da nossa natureza humana e do que nos une às borboletas ou aos pinheiros larícios

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segunda-feira, novembro 30, 2015

Eu tenho dois amores


Como uma casa a abrir as suas portas, o calor das ruas abriu o rosto do Lisboa.



Não andam fáceis estes meus dias. Com o tempo contado ao minuto para ver se dá para tudo o que é importante, e com condicionalismos inamovíveis como a hora das visitas no hospital que é estreita e que não dá para ser mais ao fim do dia, com os afazeres domésticos que também não podem ser adiados, com a vontade de estar com os meninos (os grandes e os pequenos) longe de quem fico cheia de saudades, os dias são um autêntico contra-relógio. Pouco consegui ler, pouco consegui descansar como deve ser -- mas vale-me o sono profundo em que caio mal me encosto e que me deixa repousada mesmo que os períodos de sono sejam curtos. Claro que, com isto, muito menos vi televisão ou li notícias. 
Nestas alturas, só me dá para a diversão ou para a parvoíce. Ao sentar-me aqui, ocorreu-me falar do guarda-costas da Adele, aquele gato de olho azul que é de encandear qualquer uma. Poderão ler sobre isso no post abaixo.
E agora, aqui, pensei que deveria falar de qualquer coisa mais 'a preceito'. Mas sobre o quê? Não tenho paciência para falar nem das inventonas que a comunicação social cria para ter sobre o que falar (vide aquela coisa do OE 2016), nem tenho conhecimentos ou cabeça fresca para falar sobre o clima ou sobre a guerra da Síria ou do papel de tampão que a UE quer que a Turquia faça, deixando o cordelinho de fora para que alguém puxe quando a coisa merecer atenção. Ouvi que já lá vivem dois milhões de refugiados. Uma vergonha, este mundo.  
Por isso, estou sem assunto. Tenho andado para falar do Butcher's Crossing que acabei de ler no outro dia e que me fez me lembrar Hemingway. Literatura grande. Mas ainda não encontrei o registo certo: nos grandes a gente não pode pegar de qualquer maneira, tem que ser com cuidado. Transcrever pequenos excertos acho que não dá, o livro é uma sequência perfeita e vale também por isso. Um livro assim eu não leio de trás para a frente, não salto páginas, nem linhas, nem palavras: ali eu vou levada pela mão do autor e faço o que ele quis que eu fizesse, penso o que ele quis que eu pensasse e sinto, ah se sinto, tudo o que ele quis que eu sentisse. Tudo ali é perfeito, essencial. Por isso, agora também não vou falar deste magnífico livro: ainda não sei como fazê-lo.

Portanto, estando neste impasse, vou antes continuar a falar destes meus dias de canseira (e que agora já não são tanto de grande ansiedade porque me parece que as coisas estão controladas mas, ao princípio, há umas duas ou três semanas, já nem sei, foi complicado; e, de resto, também sei que não posso dizer que estão controladas porque um dia estão assim e no outro estão assado, tudo muda de um instante para o outro).

Voltar à poesia, a esta distância sem rumo nem projecto,
voltar à poesia para estar mais longe
do que sou.

Mas, enfim, a verdade é que, pelo meio, entre a vinda do hospital e transportar a casa a outra visita, e a noite, ainda conseguimos, no sábado à tarde, dar uma escapadinha até ao campo; e este domingo ainda conseguimos estar na praia com todos, isto depois de virmos do hospital e de almoçarmos às quatro da tarde. E, em ambos os dias, antes de começarem estas provas esforçadas, ainda deu para a matinal caminhada junto ao rio. E, sempre, para ir fazendo fotografias.

E, no meio disto, por estranho que possa parecer, ainda consigo sentir-me feliz. Claro que, escrevendo isto, muitos de vós me acharão desprovida de sensibilidade, de inteligência ou de preocupação familiar ou social. 

Mas no outro dia li uma coisa que me tranquilizou: não é que eu seja mentecapta por me sentir quase sempre na boa (mesmo nos intervalos de alturas em que estou aflita, cheia de medo ou angustiada): a questão é que devo ter os pré-cúneos muito desenvolvidos. Eu explico:
Neurologistas japoneses dizem ter encontrado a sede deste estado de alma que desafiou filósofos e poetas ao longo da história. 
Íntima e subjetiva, efémera, mas sempre repetível, a felicidade, na definição da sua essência, tem sido um desafio para filósofos e poetas. E também para a psicologia, que na última década conseguiu transformá-la num conceito operacional, de forma a poder ser estudada e medida. Agora, um grupo de neurologistas japoneses da Universidade de Kioto deu um passo mais, foi à procura da felicidade no cérebro e diz ter encontrado a sua sede - ou, pelo menos, uma delas - numa pequena área do córtex, no lobo parietal, chamada pré-cúneos. 
No estudo que acaba de publicar nos Scientific Reports, do grupo da revista Nature, a equipa liderada por Wataru Sato afirma que as pessoas com índices mais altos de felicidade têm também um volume maior de massa cinzenta naquela zona específica do córtex cerebral. E esta observação foi uma constante, independentemente do sexo, da idade ou dos resultados dos testes de inteligência dos sujeitos, reforçam os autores.

E, portanto, caminhando rente ao rio, sentindo o azul das águas e o do céu, vendo as gaivotas, as paredes gastas e belas das ruínas, Lisboa luminosa do outro lado, Lisboa tão suavemente colorida, os veleiros elegantes e silenciosos levados pela mansa aragem, os gatos da margem, os pacientes pescadores - eu encanto-me, sinto-me privilegiada, agradecida, feliz, e vou fixando as imagens que os meus olhos vêem. Este fim de semana o tempo esteve bom, a temperatura amena, o azul muito azul - e eu sinto-me em harmonia com esta tranquilidade. Mas, se o tempo estivesse virado do avesso, ventanias, chuvadas, trovejamentos, mesmo assim eu sentir-me-ia abençoada por poder estar ali, presenciando a beleza da natureza e da obra do homem.

De tarde, como acima já disse, bicho do mar que sou, voltei para junto das águas, das águas do mar. Lindo, lindo o mar. Lindo, lindo o mar ao pôr do sol. Os meninos jogando à bola, felizes, correndo, fazendo ginásticas, torres de areia, os meus amores lindos, cheios de alegria, banhados pelo sol dourado deste outono marinho, o mar folião, espumando, o sol tingindo a praia de luz afogueada.

Nós, os descobridores, assistimos ao caos.
O ocidente calou-se e no horizonte sai
um sol do oriente, um sol de dias maus,
um sol que não aquece quem entende que cai.

Por lá nos deixámos ficar até que o céu mergulhou no horizonte. Os meninos espantavam-se: ainda agora ali estava, depois começou a desaparecer e agora já não se vê. Eu disse que por isso é que se diz que o sol se põe, porque vai pôr-se a dormir, vai deixar que chegue a noite. E, dizendo isto, pensei que estava para ali a enganar as crianças, que devia ter explicado os movimentos da terra e não estar a induzi-los em erro, como se fossemos tão importantes que até o sol se ajeitasse às nossas rotinas. Mas fica para depois, agora deixo-os apreciar a beleza da natureza sem grandes explicações.

Mais tarde, quando eu estava a dizer que ia pendurar uma mega-bota na lareira e que ia enfeitar a lareira com luzinhas para o Pai Natal saber onde devia deixar os presentes, o mais crescido disse-me que já sabia que era a família que oferecia os presentes mas que não ia dizer nada para os mais pequenos continuarem a pensar que era o Pai Natal. Dei-lhe um beijinho na cabeça e disse que ele fazia muito bem. Meus meninos mais lindos.

E, portanto, saímos da praia quando o frio estava a chegar e o sol já tinha mergulhado nas águas. A fotografia abaixo foi tirada uns instantes antes.

Não vivo sem o rio mas também não passo sem o mar. São, verdadeiramente, dois amores, duas presenças que marcam a minha vida, que a enchem de beleza e de paz.

Esperanças de um maior contentamento na areia dos dias que se espraiam.

E depois ainda fomos lanchar. Claro que eu e o meu marido não comemos nada pois o almoço tinha sido tardio. Mas bebi um saboroso chá de erva-príncipe e limão. De regresso a casa, fiz uma sopa. De base levou abóbora, courgette, cebola e três dentes de alho. Depois de cozinhado, juntei azeite e moí muito bem: ficou um puré macio, grossinho. À parte tinha cozido feijão verde cortado miúdo e cebola roxa desbastada que juntei à base da sopa. Mexi para envolver o puré com os legumes. Ficou mesmo boa.

Fiz também lombos de salmão no forno. Assim: aqueço previamente o forno a 250º. Depois, cá fora, ponho num pirex um fio de azeite, depois rodelas de maçã. Em cima das rodelas de maçã ponho os lombos de salmão. Tempero com umas pedrinhas de sal. Por cima, fatiei um resto de cebola roxa fatiada que tinha subtraído à sopa. De lado, pus fatias finas de abóbora (que também subtraí à que tinha posto na sopa). Esfarelei um ramo de alecrim por cima do peixe e da abóbora. Juntei também uns salpicos de orégãos (por isso, basta muito pouco sal). Reguei com um pouco de azeite. Levei ao forno e baixei-o para os 150º. Ficou lá até eu ver que já estava bom - o peixe mediamente passado para ficar macio e não seco, e a abóbora cozinhada, quase sequinha, bem colorida e saborosa. Para acompanhar, fiz arroz basmati, cozido em água com umas pedras de sal e um fio de azeite.

Mas pouco comemos. Por isso, já tenho jantar para esta segunda-feira.

E fiz ainda uma máquina de roupa e paguei o IMI e etc, tarefas com pouco glamour mas que, igualmente, fazem parte da minha vida.

E, para acabar o dia em beleza, aqui estou convosco, na boa, na conversa. Talvez seja a isto que se chama hygge: o prazer das coisas simples. Enfim, para mim é prazer - para vocês não sei.

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Na legenda das fotografias usei excertos de poemas de Luís Filipe Castro Mendes in A Misericórdia dos Mercados.

Lá em cima Melody Gardot interpreta Love me as a river does

As duas primeiras fotografias foram feitas no Ginjal. As duas últimas na Caparica.

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Chego ao fim de tudo o que para aqui estive a escrever a achar que, para vocês não deve ter sido prazer nenhum, deve é ter sido uma seca das valentes, nada que se aproveite. Não é que nos outros dias, por aqui, consigam encontrar pérolas -- mas acho que hoje nem as conchas vazias, quanto mais pérolas. Mas, olhem, não deu para mais. A ver se amanhã estou mais informada ou inspirada.

Permitam que relembre que, no post abaixo, falo do Apolo de olho azul que zela pela boa disposição de Adele e mosto-a cantando com acompanhamento musical de instrumentos infantis. Uma graça.

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domingo, abril 12, 2015

Senhora do impossível, rogai por nós. Deixai o lume, preso na cinza. sonhar o cume desde a ruína.


No post abaixo dou conta de uma maluqueira que por aí anda a circular e que ainda não percebi se tem algum fundamento ou se é delírio de alguma alucinada e dos tablóides que disso se alimentam.

Mas isso é a seguir. Aqui não posso dizer que a conversa seja outra pois são mais imagens e poemas do que conversa. E são imagens que, em meu entender, espelham bem as diferenças culturais, sociais, económicas que se verificam neste nosso pequeno mundo, no qual, tantas vezes, me parece estar a assistir-se a um fim de festa; e são palavras que nos convocam para a consciência de tudo.


Mas, se concordarem, vamos com o Mika e o seu Last Party





Mingey e o seu cão


No Sahara
REGRAS DE PROTOCOLO

Os que não têm lugar à mesa
devem rodar delicadamente para trás
e afastar-se sem barulho e sem notícia.
Os lugares foram reduzidos por forma a
um número crescente de convidados deixar

de ter lugar no banquete, sem qualquer aviso prévio
ou desculpa improvisada. Prontamente.
Conhecer as regras é necessário,
ignorá-las
é soberano.


Família disfarça-se para ficar parecida com os seus dáçmatas


no Bangladesh


SAUDADES DO FUTURO



Não, a solidão há muito
de nos frequentar.
A miséria não é solitária, é buliçosa
como uma colmeia.

Tem muito que aprender, viu?



Ana com Bisou e Cassanova em Queens


em África



A NOITE DO MUNDO



Deixa que a escuridão se instale completamente sobre a terra
e acende só então o pequeno candeeiro
para que a tua sombra encontre a noite do mundo






E felizmente ainda há também o olhar crítico dos artistas de rua. As imagens abaixo nem têm tanto a ver com as disparidades tão visíveis acima como com a forma descuidada, egoísta e estúpida como não respeitamos o planeta em que nos foi dada a sorte de vivermos.


Matando-nos a nós próprios - Silvestre Santiago Pejac, mais conhecido por Pejac


Comendo a Terra - Blu

A Terra está a ser assassinada - Made in Pain

Estamos a comer a Terra - Nemos

DIES IRAE

Esperanças de um maior contentamento?
Não basta o regabofe que tiveste?
Afasta pois daí o pensamento
e volta à pobre vida que mereces.

Ricos e pobres só no Céu se fazem
e o Céu é para os nossos golpes de asa:
as leis são só dos amos que nos trazem
a nós, os servidores, a sua casa.

Nós servimos os amos e luzimos
nosso orgulho de ser gente distinta:
pregamos a moral, a justa cinta
dos desejos que já desiludimos.

Somos os sacerdotes dos mercados,
da pobreza limpamos os pecados.

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Todos os poemas fazem parte do livro 'A Misericórdia dos Mercados' de Luís Filipe Castro Mendes e o título da mensagem também é parte de um.


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Relembro: para a notícia mais aberrante dos últimos tempos, queiram, por favor, descer até ao post já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo. Be happy.

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domingo, dezembro 28, 2014

Grandes Bibliotecas do Mundo, Grandes Escritores do Mundo. Alguns dos meus livros de 2014, algumas das bibliotecas onde gostava de me perder. E dancemos. Fica no singelo.


No post abaixo, partilhei um vídeo em que, em pouco mais de um minuto, se diz tudo o que de importante há a saber sobre o verdadeiro motor da dívida dos países: o lado sinistro da Banca descrito em meia dúzia de palavras.

Mas isso é mais abaixo. Aqui, agora, a conversa é outra.

Bibliotecas, terra de perdição, memórias maravilhosas, sonhos longínquos, labirintos onde ainda quererei perder-me. Apenas algumas das mais belas.

E livros que me acompanham, aqui junto a mim, presenças materiais que toco e leio de quando em vez. Apenas alguns. 

Se estiverem de acordo, vamos com música, uma música muito límpida.


John Taylor - Middle Age Music




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Biblioteca Joanina, Coimbra




Portugal’s João the Magnanimous astonished the rector of the University of Coimbra by telling him that his request for help towards library facilities was too modest; the lavish result was financed with gold reserves that had been recently discovered in Brazil. - THE TELEGRAPH



E quando a professora afirmava, com indiscutível autoridade, "O nosso país tem tudo" ou "Salazar é a Grande Luz", eu e os outros, tenros de idade, facilmente impressionáveis, sentíamos uma satisfação igual à que sentem os ricos e os protegidos.

Por sobre essa grandeza do tamanho havia a da História, Portugal nascera do conselho que Deus, em boa disposição, dera num dia de 1139 a Afonso Henriques, o primeiro rei. E desde então, cada vez que, por descuido ou boa-fé, o país se encontrava à beira do desastre, a intervenção divina nunca se tinha feito esperar, o Senhor aparecendo pessoalmente aos reis ou, como em 1917, delegando Nossa Senhora de Fátima para proteger Portugal, e através dele o Mundo, contra o dragão comunista.


J. Rentes de Carvalho in A Flor e a Foice


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Biblioteca do Palácio de Mafra



Since its opening in 1771, the Mafra Palace Library has been home to a colony of tiny bats; they roost behind the cases in winter, and in the orchard outside in the summer, swooping in during the night to eat insects which would otherwise damage the books. - THE TELEGRAPH



Quando o leitor estiver a ler esta carta as favas já terão sido plantadas numa leira mesmo aqui ao lado. Fizemo-lo precipitadamente no final da semana passada porque a meteorologia anunciava chuvadas torrenciais e, ficando tudo empapado de água, o tractor não poderia arrastar a frese que misturava as favas de semente com a terra. É claro que as favas já deviam ter sido plantadas há um mês. Toda a gente sabe que a fava se planta "entre os Santos", quer dizer, entre o dia de Todos-os-Santos, 1 de Novembro, e o dia de S. Martinho, 11 desse mesmo mês. Toda a gente sabe mas já ninguém o faz. Todos procuram adiar o plantio tanto quanto possível porque "isto agora é assim", como dizem os mais velhos, ou seja, porque agora é frequente haver ainda geada sobre os campos na época tradicional de floração das favas, Abril, e a geada mataria as plantas. Foi a ameaça de chuva a cair durante vários dias que obrigou a plantar imediatamente.


Paulo Varela Gomes in Ouro e Cinza


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Library Parabola, a sala de leitura da British Library



Library Parabola is the reading room of the British Library and is said to be the birthplace of the Communist Manifesto - THE TELEGRAPH



Na biblioteca da universidade vagueava por entre as estantes, por entre os milhares de livros, inspirando o odor bafiento a couro, tecido e papel ressequidos como se fosse um exótico incenso. Por vezes parava, tirava um volume de uma prateleira e segurava-o um instante com as suas mãos grandes, que eram tomadas por um formigueiro perante essa sensação ainda nova da lombada, da capa cartonada e das folhas de papel que se lhe ofereciam sem resistência. Depois, folheava o livro, lendo um parágrafo aqui e ali, os seus dedos hirtos virando as páginas cuidadosamente, com medo de, desajeitados, rasgarem e destruírem aquilo que tinham descoberto com tanto esforço.

Stoner não tinha amigos e, pela primeira vez na vida, tomou consciência da solidão.


John Williams in Stoner


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The Theological Hall, Strahov Abbey, Praga, República Checa




The Rococo ceiling of the Theological Hall at Strahov Abbey was added 40 years after the room was initially completed; the masonry vaulting offered a degree of protection from fire – a huge problem in medieval and Renaissance libraries as coal or wood fires were used for heating.- THE TELEGRAPH



E entregara-se a ele, totalmente.

Dera-lhe tudo, de boa vontade e com pleno consentimento, sentindo a alegria de dar tudo o que se tem a quem se ama... Dar... e nunca mais ver o que tinha visto no primeiro encontro depois de ter voltado dos campos de batalha: um Olivier frágil, trémulo, como um cavalo doente; um Olivier esfomeado e sedento, um homem todo marcado pela morte e pela violência nos campos de batalha.

Madeleine era o pão. E disse para ele: "Come-me!" Entregara-se toda, o seu corpo como pão devorado por um homem esfomeado, sentindo os lábios a arder e o corpo todo aberto. 


Jean Giono in O grande rebanho

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Admont Abbey Library





The books in the abbey's original collection were rebound in white at enormous expense  to match the rest of the decorative scheme. The bronze sculptures are actually made from wood. - THE TELEGRAPH



O segredo tem, aqui, realmente o seu domínio activo. O potentado, que dele se serve, conhece-o exactamente e sabe muito bem avaliá-lo em função da sua importância no momento. Sabe aquilo que está espiando, quando quer obter alguma coisa, e sabe quem, entre os seus auxiliares, emprega para espiar. Tem muitos segredos, pois quer muita coisa, e reúne-os num sistema em que se acautelam uns aos outros. Confia a um isto, a outro, aquilo, e zela para que eles nunca se possam juntar.

Todo aquele que sabe alguma coisa é vigiado por um outro que nunca sabe, porém, aquilo que efectivamente vigia no outro.


Elias Canetti in Massa e Poder


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Rijksmuseum Research Library, Amsterdam





Livro a livro, dia a dia, verso a verso
se teceu de mais noite o que antes fora dia.
Mas antes de morrer olha o que foi disperso
de tudo o que amaste e que a ti te fazia.

Olha os dias de inverno quando eras tão novo
que nem frio nem morte se lembravam de ti.
As montanhas à roda e um grito de novo
a nascer do olhar e do amor que não vi.

O peso da memória? Não, antes leveza
de uma cidade viva só nesta glória
que chamo quem conheça a cantar na certeza
que vivemos os anos por detrás da História.


Luís Filipe Castro Mendes in A Misericórdia dos Mercados


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E a dança, os corpos em festa: Fica no Singelo de Clara Andermatt





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Permitam que relembre: já a seguir há um vídeo curtíssimo mas muito objectivo na descrição de quem está nos bastidores a provocar dívida e a controlar quem cai na armadilha.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo domingo.

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sábado, outubro 11, 2014

Não provoques os deuses. Sempre teríamos de aqui voltar. Quem me dirá o que fui? Uma bella figura?



não provoques os deuses    ouvi
alguém dizer   e por isso
não houve perguntas para
o teu regresso

que também não durou mais 
que um solstício de verão
a cair no rio

um sinal na rua
a passar do vermelho
ao verde






Porque sentimos que chegávamos a um lugar
onde a terra se mede com a vida
e o tempo nos larga de repente da mão,
detivemo-nos um momento na pergunta
e soubemos que sempre teríamos de aqui voltar.











Usei de mim o que não tinha de melhor
e o melhor que havia em mim nunca cheguei a entender.
Hoje apercebo sombras
e a minha memória erra entre imagens difusas
e palavras ríspidas.
Quem me dirá o que fui?












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Será superficialidade, coisa de mulher - aceito. Misturar poesia e dança com moda se calhar não é coisa bonita. Mas então? As mulheres têm destas coisas, uma certa falta de vergonha, uma certa impudica leveza. Desculpo-me e penso que moda é beleza, feminilidade. E intimidade. E talvez isso possa ligar bem com poesia e dança. Sei lá.

Gosto de pedras preciosas ou não preciosas, gosto de cores profundas, de branco com bolas pretas e brincos coloridos ou sapatos encarnados, e casacos bordados, carteiras bordadas, casacos de veludo macio com bordado em pedras.

Calças justas pretas que dão com tudo, blusas macias na cor que for, ou pretas. Não é preciso muito dinheiro, basta sentir alegria na escolha e combinação das roupas. E um perfume subtil, um odor morno que se sinta apenas de perto.

E se o casaco é chique demais, então que se combine com uns jeans. Tudo é possível desde que devidamente conjugado e desde que usado com descontração.

Dolce & Gabanna é uma festa. Podíamos ter filigranas aqui também. E os cabelos tão bem penteados, tudo uma graça. Mulheres cheias de graça - aqui sempre bem vindas. 


Dolce&Gabbana Summer 2015 Womens Fashion Show: the day before






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O primeiro poema é de Alice Vieira in Os armários da noite

O segundo é o nº 3 de Nossa Senhora de Rocamadour de Luís Filipe Castro Mendes in A Misericórdia dos Mercados

O terceiro poema chama-se De Senectude de Luís Filipe Castro Mendes in A Misericórdia dos mercados

O bailado é Bella Figura, uma coreografia de Jiří Kylián, pelo Nederlands Dans Theater.


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segunda-feira, setembro 08, 2014

Que homens eram aqueles que não faziam sombra no mar?







Deixa que a escuridão se instale completamente sobre a terra
e acende só então o pequeno candeeiro
para que a tua sombra encontre a noite do mundo.













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A fotografia foi feita no outro dia na Meia Praia.

O poema chama-se 'A noite do mundo' e faz parte do livro 'A Misericórdia dos Mercados' de Luís Filipe Castro Mendes.

A pintura é de António Palolo e surge aqui na sequência de comentário abaixo que muito agradeço. Ficam muito bem aqui estes homens azuis que parecem também procurar a sua sombra.

O pequeno excerto do bailado pertence a "Fluence" na coreografia de Robyn Mineko Williams e dançado pelo Hubbard Street Dance Chicago.

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segunda-feira, julho 28, 2014

Joana Lopes, J. Rentes de Carvalho, Carlos Azevedo, Luís Filipe Castro Mendes, Angélique Kidjo e Jiří Kylián - para estarmos atentos e para não nos esquecermos de sentir solidariedade e compaixão, para compreendermos melhor o mundo, para não nos esquecermos dos outros que somos nós e para, apesar de tudo, não nos esquecermos de apreciar a beleza que nos rodeia


No post abaixo já falei da saia justa em que estavam os jornalistas e comentadores numa altura em que Ricardo Salgado era o dono disto tudo, mas como alguns, apesar disso, puseram a sua consciência e competência profissional acima dos receios e entraves e cumpriram com o seu dever de informar na altura certa - correndo todos os riscos e abdicando de todas as prebendas. E, a propósito, falei dos homens do Expresso. E falei, ainda, de algumas relações pessoais entre comentadores e Ricardo Salgado. E falei de partidos. E de férias de luxo pagas como forma de manter os opinion makers ou os decision makers à mão de semear.

Assuntos desagradáveis, preocupantes, revoltantes.

Só espero é que, em breve, o BES esteja de novo sólido, com uma gestão profissional e que inspire confiança, e que a economia em geral e as economias em particular não saiam muito penalizadas. Quanto à família, lamento. 

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.


Aqui, agora, vou até a alguns textos que, nos últimos dias, despertaram a minha atenção de forma mais marcante. Vou ilustrá-los com fotografias que fiz este domingo in heaven na tentativa de que a beleza da natureza possa atenuar a aspereza dos tempos que atravessamos e que, de alguma forma, se reflectem nos textos que percorrem a blogosfera.



Redemption Song





Desde já agradeço a quem tão generosamente partilhou com os seus Leitores os textos que vou transcrever e perante quem me penitencio pelo abuso de para aqui os trazer na íntegra. Mas a verdade é que tive vontade de juntar os textos. São palavras oportunas, que de certa forma se tocam, e que convidam à reflexão. Muito obrigada.


No Entre as brumas da memória, Joana Lopes escreveu 'O último dia':



João Paulo Baltazar foi um dos muitos jornalistas atingidos pelos despedimentos da Controlinveste. Ontem foi o último dia em que esteve na rádio que ajudou a criar. Deixou no Facebook um texto que abaixo transcrevo, precedido por um comentário de Carlos Vaz Marques.

Carlos Vaz Marques: 
Hoje é o último dia de trabalho do João Paulo Baltazar na TSF, de que ele foi um dos fundadores. O melhor entre os melhores foi despedido. É o fim de qualquer coisa, com certeza. Ainda não sei exactamente de quê, mas seguramente depois disto nada será como dantes. Quero que saibam que amanhã, sábado, quando me ouvirem a editar os noticiários da manhã, não hei-de estar só triste, estarei envergonhado.
João Paulo Baltazar: 
Para acabar de vez com a nostalgia
O matraquear das máquinas escrevinhava o som de oficina – as nossas mãos nas palavras que, cinzeladas, soltavam faíscas. Tac, tac, tac, plim, zzzzzt ... com a cabeça e o coração em cada frase. O magnético cruzamento dos sons, desenrolados das fitas, era parte de uma coreografia que só os melhores dançavam com uma leveza certeira. A rádio era muito física nesses oitenta, derramados nos noventa. Saíamos a correr para a rua, voltávamos com a urgência da notícia (era preciso contá-la melhor, depois do directo), com o desejo de modelar e polir uma história. Tac, tac, tac, plim... zzzt, zzzt, mais um bailado de sons e palavras, com a cabeça e o coração. Gritávamos em uníssono: abaixo o Portugal sentado!!
Antes e depois de cada turno, discutia-se tudo. Era importante criticar, aperfeiçoar, ir um pouco mais longe, vigiar o rigor, desafiar os golpes de asa – amanhã sai melhor! Dávamos os corpos às balas, sim. Por vezes, queimava; depois, sarava. Tudo era muito físico, vibrante, à flor da pele da rádio. Tantos erros, quanta paixão!
Depois (muito depois), o mundo inteiro na ponta dos dedos (ou uma ilusão desse espanto sem fim). Das cassetes e da fita ao quotidiano património imaterial mas sempre com o mesmo apetite de sons, fome de verdade impossível: há que tirar as medidas ao mundo em cada esquina desta aldeia. “Continuamos a discutir isto?” Sim. Vai e volta. Na rede, sem rede. Ligados, sem fios. Tantas voltas. Analógico, digital, cabeça, coração.

Mas, incerto dia, dás-te conta: um pouco mais de silêncio na oficina – tic, tic, tic... Um pouco menos de calor. Gestos um pouco mais em câmara lenta. Até que um dia, perante uma crítica, atiras: “É a tua opinião... cada um por si, topas?”. A economia (a nossa, mais íntima, nos bastidores das notícias) sempre em plano inclinado. Até que um dia te pedem para seres "brand journalist" ou uma merda do género, “ganhas uns trocos extra, não é bom?” E seres... pouco mais, afinal. Até que um dia te dizem que não há outra saída: é preciso organizar mais um "evento" e outro ainda, “fazes nas folgas, ok?”. Até que um dia, o estatuto editorial acorda encolhido numa quase-palavra: EBITDA. Até que um dia nada te dizem, durante semanas, meses, anos a fio. Até que um dia te dizem (ou tu percebes): acabou.
Esta sexta-feira, cumpro o meu último turno na TSF, depois de 26 anos, quatro meses e 25 dias de trabalho nesta rádio.




No Tempo Contado, J. Rentes de Carvalho escreveu "The human touch":


De uma entrevista com o sociólogo Carl Rhode (1953), publicada no semanário neerlandês Elsevier no passado dia 12, traduzo o final: 

"Num mundo em que se torna vaga a fronteira entre o verdadeiro e o falso, o real e o virtual, sentimos cada vez mais a precisão de 'a little bit of human touch'. 
Mais do que nunca iremos ansiar por um muito pessoal e sincero apreço, reconhecimento, atenções, serviço, tudo, enfim, o que reconhece e acentua o nosso valor como indivíduo e como ser humano. 
Essa necessidade é intensificada pelo facto de que, neste momento, vivemos numa cultura mundial de desconfiança e desespero, causada pela profunda crise económica. 
Não acreditamos na integridade nem nas boas intenções dos políticos, dos banqueiros, dos administradores, dos empresários. Temos nojo de toda essa gente que, sem escrúpulos, destrói a nossa prosperidade e o nosso bem estar. Sentimo-nos inseguros, remetidos a nós próprios. 
O que nos leva a ansiar por atenções e sinais que, sinceramente genuínos, nos falem à alma e ao coração. 

- É isso válido para todos? 
– É um sentimento generalizado. Nas longas pesquisas que temos feito sobre o ADN social das diversas gerações, constatamos que essa necessidade de 'human touch' se repete com notável frequência, revelando um importante 'soft spot'. Esse anseio de um trato humano que se constata em todos as camadas da sociedade, é algo que seriamente deve ser levado em conta."




No The Cat Scats, Carlos Azevedo escreveu An empire of ugliness:


Num dos ensaios que integram The Hall of Uselessness: Collected Essays (New York
Review Books, New York, 2013, p. 42), Simon Leys conta um episódio que presenciou há uns anos. Leys encontrava-se num bar onde um aparelho de rádio tocava música banal que não merecia a atenção de ninguém. A dada altura, começou a passar o Concerto para Clarinete de Mozart e todos os clientes ficaram em silêncio. Subitamente, um deles levantou-se e sintonizou noutra estação de rádio. De seguida, começaram todos a falar novamente, sem prestar atenção à música. A palavra ao escritor: 

"At that moment the realization hit me – and as never left me since: true Philistines are not people who are incapable of recognizing beauty; they recognize it to well; they detect its presence anywhere, immediately, and with a flair as infallible as that of the most sensitive aesthete – but for them it is in order to be able better to pounce upon it at once and to destroy it before it can gain a foothold in their universal empire of ugliness. Ignorance is not simply the absence of knowledge, obscurantism does not result from a dearth of light, bad taste is not merely a lack of good taste, stupidity is not a simple want of intelligence: all the are fiercely active forces, that angrily assert themselves on every occasion; they tolerate no challenge to their omnipresent rule. In every department of human endeavour, inspired talent is an intolerable insult to mediocrity. If this is true in the realm of aesthetics, it is even more true in the world of ethics. More than artistic beauty, moral beauty seems to exasperate our sorry species. The need to bring down to our own wretched level, to deface, to deride and debunk any splendour that is towering above us, is probably the saddest urge of human nature."

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E a poesia. No Tim Tim no Tibete, Luís Filipe Castro Mendes - desculpe, Alcipe - escreveu Insónia de um velho:



Tinha acabado de ler um mau romance. Francamente mau.
A difusa irritação que me impedia de dormir
levou-me a sair da cama e a ir reler velhos papéis,
memórias de alegria, passados textos,
fotografias de pompa e circunstância
e algumas recensões antigas, em fotocópias baças.

Nenhuma vida é feita só de passado:
vejamos, eu estou ainda aqui!
O novo mundo desperta-me tanto nojo quanto perplexidade,
mas os meus filhos espalhados por dois continentes e quatro países
e a minha persistente curiosidade
pelo acontecimento que forçosamente há-de vir,
do meio de todo este horror e de toda esta mesquinhez
(que não são, oh não, de modo algum, um exclusivo deste tempo..)
levaram-me enfim a fechar a luz sobre tantos papéis velhos
e a vir dirigir-me aqui aos meus quinze leitores, meus irmãos,
meus hipócritas como eu.



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E, para ver se trago para aqui um pouco mais de luz, termino com dança, com Petite Mort (que não deve ter tradução literal) numa coreografia Jiří Kylián, pelo Nederlands Dans Theater.





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A música lá em cima, no início, era Angélique Kidjo interpretando o clássico Redemption Song de Bob Marley com o Kuumba Choir Singers.

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Relembro: sobre os Homens do Expresso a propósito de Ricardo Salgado, sobre os presentes e deferências com que este tratava jornalistas, empresários (e partidos?), e sobre mais umas quantas coisas, desçam, por favor, até ao post já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda feira.

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