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quinta-feira, junho 25, 2026

Por um lado um tremendo sismo, por outro o Kiko is Hot

 

À minha frente, o caos: prédios em ruína, muita gente na rua, repórteres tentando descrever a confusão a que se assiste, pessoas espreitando os escombros, equipas de resgate.

Na televisão, um comandante diz que é mau haver tanta gente naquele cenário, diz que é indispensável ouvir os sons, interpretá-los, deduzir os riscos, prevenir males maiores. Com tanta gente e tanta confusão, não se consegue prestar atenção aos sons.

Vi o que me parecia ser o aeroporto e muita gente em pânico e nuvens de pó que talvez fossem de paredes a ruir. 

Vejo imagens avulsas, as ruas cheias de gente, edifícios com fissuras, pó, confusão, espaços destruídos e sangue na parede, sangue no chão, e nem compreendo bem o que estou a ver, só percebo que se está na presença de uma force majeure, de um act of god. A natureza, por vezes, dá um coice. E este parece ter sido dos valentes.

Um outro comandante, num outro canal, diz que um dia pode acontecer por cá. Falam nos kits de sobrevivência. Tenho ali na escada uma mochila com o que é suposto, o meu marido nisso não facilita. Mas penso nos meus: será que também têm? Será que, para cada um há uma mochila com os artigos recomendados? É que numa situação como a que estou a ver na televisão, ninguém consegue deslocar-se para ir acudir os que não estão ao nosso lado. Assusta-me isto porque sei que, perante uma calamidade desta dimensão, há muita gente que não tem a sorte de sobreviver e, entre os que sobrevivem, muitos serão os que perderão familiares, a casa ou outros bens. Um drama muito grande.

E só dei por isto certamente já um bom bocado depois de ter começado a ser denunciado pois estava a ver, atentamente, a entrevista da Mafalda Anjos ao Kiko is Hot. O jovem é outro sismo, embora de outra natureza. Sobretudo, não causa danos alheios. Mas ao afirmar-se da forma como se afirma  -- consciente das suas ambiguidades que aceita como parte integrante de si próprio, diferente nos seus contornos exteriores, mas uma pessoa tão pessoa como todas as pessoas e, portanto, com tanto direito a respeito e aceitação como qualquer outra --, acredito que provoque um sismo na consciência débil dos ortodoxos, dos quadrados, dos atrasados mentais, dos trogloditas.

Parece ser uma boa pessoa e ter um agradável sentido de humor. Quando comecei a ter conhecimento de pessoas via Instagram, pessoas que, de outra forma, não chegariam facilmente até mim, já aqui falei dele. Neste mundo das redes sociais -- a que só cheguei o ano passado, pois é uma realidade contagiante que assenta num algoritmo (e num modelo de negócio) que me causa uma certa repulsa -- aparecem-me personalidades curiosas, diferentes das que frequento ou das que normalmente acompanharia no meu dia a dia. E, no entanto, agora que sei da sua existência, gosto de saber delas. E não é só por cá. Por exemplo, gosto imenso de ver as publicações de Coco | Max Norman, acho o máximo.

Contudo, ao ouvir o Kiko is Hot, percebo como atravessou o seu tempo de adolescência e de juventude com agruras que não podem ter sido fáceis de suportar. E se a sociedade em geral rejeitar ou olhar de lado para uma pessoa deve desestabilizar emocionalmente uma vida, imagino o que é quando a incompreensão ou rejeição nasce na própria família. Mentes curtas, apertadas e mal formadas sempre temeram a diferença. É uma pena, mas é verdade. São pessoas limitadas, a sua capacidade de entendimento não dá para mais. E só alguém com um grande cabedal psicológico ultrapassaria isso e chegaria até aqui com um sorriso tão bonito, com um ar tão pachola e querido. 

Só tenho pena é que com a evolução e as descobertas dos novos tempos nem sempre venha, de forma natural, a aceitação pela diferença. Há aspectos em que não evoluímos. O género humano, em parte, está em processo de regressão, como se estivesse a voltar à condição de símio. São os populistas, os racistas, os xenófobos, os misóginos, os homofóbicos, os fascistas, os nazis -- toda essa seita de estupores encartados.

Pela parte que me toca, só tenho a dizer que admiro a Mafalda Anjos por dar voz ao Kiko is Hot e que o admiro a ele por dar voz às pessoas sem voz que, tal como ele, de uma forma ou de outra, são um pouco diferentes do que é habitual.

E só espero que o Kiko seja muito feliz, que vá alcançando tudo o que deseje. Já tem a sua casa, há de ter a sua família, ie, a família que formará, e já tem certamente muitos amigos e muito sucesso profissional. 

E, numa outra escala, numa outra dimensão, espero também que os sismos na Venezuela não sejam tão maus como parecem. Parte-se-me o coração ao ver o que para lá vai.

Kiko is Hot: “Só agora estou a reconhecer que mereço ser feliz” | Inventário Pessoal | RTP Antena 1

Cresceu com insultos, violência psicológica e um pai que foi o seu primeiro bully. Recusou sempre enfiar-se em caixinhas. O comunicador e ativista social trabalha para apanhar os fragmentos do chão e sair da escuridão.


Um dia feliz para todos, pelo menos na medida das possibilidades

quarta-feira, junho 25, 2025

Theodoro, Sincera.mente, Kiko is Hot

 

O Instagram mostra-me coisas e geralmente gosto do que me mostra. Os algoritmos são bem concebidos, lá isso tenho que conceder. Por exemplo, ouço com atenção dicas sobre saúde, sobre alimentação, sobre exercício físico e já partilhei um ou dois vídeos com a família. E gosto muito de ver cortes de cabelo e transformações que quase parecem de personalidade só porque a pessoa mudou completamente de penteado ou de cor de cabelo. Quanto a decoração, jardinagem ou culinária isso nem se fala: vejo de gosto e aprendo sempre. Depois há os DIY (Do It Yourself) que me deixam fascinada mas que são tantos e tão variados que não consigo fixar um décimo do que vejo: truques para melhor dobrar e acondicionar roupa, para pintar, para transformar pequenos espaços em espaços multi-usos, para enfiar linha no buraco da agulha, para regar flores na nossa ausência, etc. E relatos de artistas que mostram como pintam, como incorporam outros materiais nas suas obras ou, simplesmente, que mostram os seus trabalhos. 

Um mundo.

E dá ideia que meio mundo tem coisas a ensinar aos outros: três alimentos maravilhosos, três alimentos péssimos, três cremes fabulosos, três truques fantásticos para disfarçar a barriga, três regras de etiqueta para estar à mesa. 

Vou navegando por ali e, como tenho dito, sem propósito. Não tenho nada para ensinar. Pego no telemóvel e digo a primeira coisa que me vem à cabeça. Digamos que são apontamentos, breves e irrelevantes testemunhos mas testemunhos de pensamentos ou coisas banais. Não sei se faz sentido. Penso nos recursos informáticos necessários para acondicionar, catalogar, tornar disponíveis a todo o mundo que queira ver coisas tão despropositadas. É como isto que aqui escrevo. São registos que ficam armazenados em servidores, que circulam pelas redes. Em qualquer parte do mundo a qualquer hora do dia, qualquer pessoa pode ver o que faço. E, no entanto, o que faço é totalmente irrelevante. Mas, se calhar, a vida é mesmo assim, uma sucessão de eventos, uns dignos de ficarem para a história e outros assim, banais, irrelevantes. 

No meio do que me aparece tenho conhecido personagens cuja existência desconhecia em absoluto e que agora vejo na boa. Destaco três. 

Um, o Theodoro, é um influencier brasileiro com mais de cinco milhões de seguidores, que tem recebido prémios e tem sido capa de revista. Acho-lhe piada. É extrovertido, alegre, bem disposto. Mostra-se com o marido, com os pais, com as tias, pessoas humildes, mostra o cão. Claro que não acrescenta nada de extraordinariamente existencial ao mundo. Mas, sendo um jovem gay e que é tão bem aceite pela família e pela sociedade, julgo que isso é importante, sobretudo para que os mais preconceituosos percebam que a homossexualidade não é uma opção, é uma orientação, e não é uma limitação nem uma menorização. Ninguém tem direito a ser mais ou menos feliz por ser ou deixar de ser hetero ou homossexual.


Outro é o Sincera.mente. Acho-lhe um piadão. É genuíno, é divertido, é boa onda. É drag mas uma drag com muita pinta, com bom gosto, inteligente, rápido na construção de uma boa tirada, com uma intuição e uma imaginação toda ela eivada de bom humor. As suas conversas na rua são um monumento à boa disposição e ao humor a sério.


O terceiro é o Kiko is Hot. Não sei bem definir qual a sua actividade (mas é puro desconhecimento meu). Se calhar é artista de teatro. Ou faz podcasts. Ou será DJ? Não sei. Mas gosto dele. É simpático, é divertido, goza com ele próprio. Também é gay. Vi que diz que, por ele, tanto pode ser do sexo masculino como do feminino. E acho que isso tem que ser respeitado. Acho que deve ser uma boa onda, uma boa companhia, uma graça.


Nestes tempos em que parece que a homofobia está outra vez a caminho de ser legitimada, penso que é importante que figuras públicas que são gays não se escondam, mostrem que são estimadas, amadas pela família, respeitadas. E penso que quem está seguro da sua sexualidade e não tem receio de ser 'contagiado' ou receio de ser olhado de lado deve falar do assunto de forma aberta, simples, sem tabus. Só os cobardes podem achar que quem é homossexual é um ser inferior, que pode ser insultado, humilhado, ameaçado.

Mau é ser mesquinho, hipócrita, manipulador, narcisista, mentiroso, vigarista, burro ignorante e prepotente, agressivo. A homossexualidade não é um traço de caráter pelo que afastar ou repudiar ou pretender isolar socialmente alguém só por isso não faz sequer sentido.

Só por ter conhecido estes três bacanos já acho que o Instagram tem valido a pena. 

E só espero que o Chega, com o PSD a reboque, não apareça por aí um dia destes, qual Trump, a querer proibir espectáculos drag. Desta gente tudo se espera.