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sexta-feira, setembro 11, 2026

O que virá depois de nós?

 

Olho para mim. Neste momento cobre-me a pele um vestido fininho, leve, de alças, decotado, cor de rosa vivo. Fotografo-o para vos mostrar. 

E tenho o cabelo apanhado no alto da cabeça, para não me fazer calor no pescoço. Se me olhar ao espelho é o que vejo.

Não vejo o que está sob a minha pele. Mesmo que fizesse um rasgão na pele, não conseguiria ver tudo o que existe dentro de mim. 

Mas vamos supor que me veria por dentro num daqueles exames de imagiologia. Aí veria a perspectiva para a qual o aparelho foi feito. Uma vez fiz um exame para detectar focos de inflamação e recebi uma imagem simplificada do meu corpo com pintinhas verdes, amarelas e, numa determinada zona, encarnadas. Mas também já fiz exames para ver as carótidas. Ou ecografias mamárias ou pélvicas. Ou uma colonoscopia. Sempre visões limitadas do meu corpo.

Mas, apesar de já ser uma visão em profundidade, há a possibilidade de analisar o meu sangue ou a minha urina. Aí, a informação é outra. Também já me foram retirados tecidos de uma formação num seio e, através de uma biópsia, concluiu-se que, felizmente, não era nada de mal. Outra visão do meu corpo.

E seria possível descer ainda mais, ir até ao nível do ADN. 

E, de cada vez, ao ver uma perspectiva de análise, quase nos esquecemos das múltiplas outras. Muita coisa a acontecer dentro do nosso corpo e nós na mais total ignorância. Com sorte, tudo se mexerá e desenvolverá dentro do que é normal e tudo bem. Mas sabemos que pode a coisa estar a dar para o torto e nós sem fazermos a mais pálida ideia. 

Assim a vida que nos é exterior.

Fui à praia. Vi muita gente feliz da vida e eu própria me senti bem, a água boa, o sol bom, a vista boa.

Andei a tratar de coisas, muito trânsito, as lojas a que fui cheias. Numa loja de impressão, pessoas a tratarem de tshirts com imagens impressas, outra a querer fotografias para uma multi-moldura, pessoas muito atentas e dedicadas ao que queriam, outro a plastificar um documento mas com muitos requisitos. 

Fui ao supermercado. Toda a gente a escolher as suas coisas, tal como eu, umas com ar mais apressado, outras a ver e a escolher com tempo.

Naqueles diferentes momentos, nenhuma daquelas pessoas estava minimamente preocupada com os problemas da humanidade.

O que é vital para a nossa boa sobrevivência e que a todos influencia directamente situa-se, na verdade, numa camada que é invisível aos olhos.

Democracia, liberdade, boa gestão dos recursos comuns, controlo e regulação de práticas potencialmente perigosas -- tudo conceitos intangíveis.

Para a grande maioria das pessoas o seu tempo útil é consumido a tratar da sua vida, da sua vidinha, das suas pequenas coisas: trabalho, a lida da casa, tratar dos filhos ou dos pais (quando se está em idade disso), ida às compras, idas à praia, idas de um lado para o outro.

Dizer que o avanço galopante, desenfreado e desregulado da Inteligência Artificial pode colocar a sociedade em perigo ou pode vir a ter consequências diabólicas para a própria humanidade é tema abstracto que não desperta interesse na larga maioria da população. Não têm tempo, cabeça, pachorra ou conhecimentos para abarcar o tema.

Tal como a pessoa desconhece o feitio, a cor, o comportamento das suas próprias células, e nem pensa nisso, também não sabe, nem quer saber, o que se passa nos meandros do desenvolvimento de modelos de IA. São temas que não saltam para as primeiras notícias, para os debates ou para as publicações virais nas redes sociais. Temas herméticos, quase ficção.

Quando me debruço, preocupadamente, sobre o tema e falo e falo nisto, há sempre alguém da minha família que me alerta para que eu não deixe que se torne uma obsessão. Calo-me, portanto. E evito falar tantas vezes no assunto, nomeadamente aqui. Percebo que também vos mace, eu falar tantas vezes nisto. 

Mas preocupo-me. E preocupo-me porque sei, sei muito bem, (e, no entanto, estou a milhas de saber tanto quanto os técnicos da Anthropic ou OpenAI, a milhas), mas sei como é exponencial a capacidade de aquisição de informação e a forma quase ubíqua que estes ultra-hiper-processadores têm de varrer a rede e processar mais e mais e mais conhecimento de uma forma que jamais algum humano conseguirá. E sei como é fácil conceber agentes que fazem, bem feito, instantaneamente, o trabalho de muitas pessoas.

Para quem não sabe: com um Agente de IA (que, no fundo é um modelo com um programa que o coordena + ferramentas + memória/dados) diz-se o que se quer alcançar e ele planeia, pesquisa, toma decisões intermédias e executa tarefas até chegar ao resultado.

Eu poderia dar aqui um conjunto de exemplos muito simples em como instruia um agente para fazer um conjunto de patifarias que causariam instantaneamente o caos no mundo inteiro. Não dou pois não quero que digam que estou a dar ideias. Mas era de caras. Podem crer: de caras. 

Casos recentes, reais, provam isso: de caras. E estando o caos armado, mas um caos a sério, dificilmente haverá quem o consiga reverter. 

Não preciso de falar em exemplos como tenho ouvido: criação de vírus destrutivos, armas biomédicas, etc. Isso também mas, cá para mim, o perigo virá mais de coisas simples do que de situações mais complexas. 

Pedi ao ChatGPT uma imagem que ilustrasse os riscos para a humanidade provenientes da IA.
Fez esta imagem


Quando há uns anos eu falava na necessidade imperiosa de regular o uso da Inteligência Artificia, eu ainda acreditava que alguém, algures, perceberia os riscos e se poria em cima disto. Mas poria à séria. Não com regulaçõezinhas de meia tigela que mal fazem cócegas ao que está a acontecer.

Neste momento sei que é impossível. 

Grande parte do PIB americano assenta nas grandes empresas de IA. Os principais financiadores do partido republicano americano são as empresas de IA. As empresas de IA alimentam fundos, ETFs, tudo o que faz girar a economia e as finanças não apenas nos EUA mas em todo o mundo. Quem investe quer retorno. Para haver retorno tem que haver crescimento. E essas empresas esttão a investir forte e feio em grandes data centers, em tecnologia, e estão fortemente alavancadas. Refrear já não é opção, voltar atrás muito menos.

E com a administração Trump muito, mas muito, menos.

Não sei como vai conseguir travar-se o mar com as mãos, tapar um vulcão em erupção com uma rolha.

No entanto, as televisões falam de tudo menos disto ou, se falam, é en passant, uma curiosidade, uma excentricidade, uma coisa ao nível das previsões do Nostradamus.

Nota: Salve Bernie Sanders que tem demonstrado uma visão certeira sobre o que se passa e, depois de ter ameaçado, se diz pronto para avançar. Temo que nada consiga mas, pelo menos, tem travado firme batalha. Que muitos se lhes juntem, é o que desejo.

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Desejo-vos uma boa sexta-feira