Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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sexta-feira, março 31, 2017

As belas esculturas que Cristiano Ronaldo,
o reluzente filho da Srª Dona Dolores, descobridor da Madeira e dono do aeroporto,
inspirou





Não contem comigo para peditórios velhos e relhos. Não estou nem aí. Quaresma & Raminhos e a escaldante guerra nas redes sociais, Abraham Poincheval armado em galinha poedeira, Ronaldo e Georgina Rodríguez, a actual namorada, Ronaldo e mamãe, Ronaldo e os gémeos que aí vêm -- não quero saber disso para nada. 


Bem tento descobrir temas nobres mas o esforço é inglório. Espreito as notícias e confirmo: ainda anda tudo às voltas com a futebolização do país (Pacheco Pereira dixit). 

Quando, no outro dia, ouvi que iam dar o nome Cristiano Ronaldo ao aeroporto da Madeira achei que era uma piada. Não liguei. A minha elevada craveira intelectual não morde qualquer isco. Reservo-me para altas discussões, coisas de lesa-majestade, questões fracturantes. Portanto, passo ao lado do milho que gentinha à toa atira aos pardais. A mim não, bebé. 


Portanto, arredada que ando das minudências político/sociais e sem que a piolheira exale qualquer bafo que me faça levantar a atenção do Brandão, por aqui me tenho entretido. A Marilú na última fila a ver se não a maçam e se pode trabalhar à vontade para a Arrows, o Láparo a atravessar o deserto a ver se desencanta ou o diabo ou algum dos reis magos, qualquer coisa he serve, o Portas a facturar, retirado da equação pafiana, a Cristas a tentar perceber como posicionar a coxa grossa, a candidata leal ao láparo a tentar pereber como apagar as faltas da pauta -- uma pasmaceira que apenas faz alastrar o spleen que teima em querer cobrir-me.


As notícias são belas, a Caixa recapitalizada, o Novo Banco parece que finalmente minimamente encaminhado, o Montepio a ser tratado, e até o Economist esbugalha os olhos sem perceber como é que o motorista da geringonça consegue subir as pensões ao mesmo tempo que desce o défice -- mas até isso já parece normal. Quem ouça o lúmpen que invadiu os balcões televisivos ou leia as croniquetas avençadas que poluem os sites de jornais até parece que toda a vida viveram com um déficezinho na ordem dos 2%, como Centeno conseguiu. Coitados, que memória curta têm estes doentes mentais. Há uns meses juravam a pés juntos que isto era uma miragem, não largavam a labita do Costa e do Centeno a pedirem o plano B. E, recuando ainda mais, aí andavam estas galinhas descerebradas a garantir que não havia alternativa à austeridade e que quem não estivesse bem que se mudasse. E agora, despudorados, fazem de conta que nasceram ontem, desvalorizando as melhorias conseguidas por este Governo.]



Encolho os ombros. Vou dizer o quê sobre estas indigências que pululam por aí, incapazes de reconhecerem o valor a quem o tem? Não consigo dançar tão pífias danças. Guardo-me para quando começar a campanha para as autárquicas, que aí devo ter anedotas com que me rebolar a rir a toda a hora.


Portanto, enquanto isso, ponho algumas leituras em dia.
[E ó pr'a mim metida a besta, a fazer de conta que leio coisa de jeito, eu que nem li os Ulisses que por aí circulam, nem a Bíblia do Fred, nem tão pouco o Proust de fio a pavio (e acho que nem devidamente salteado -- não me lembro, se li alguma coisa varreu-se-me, só me ficou o título mais mediatizado). Ignorante de dar dó. Mas não faz mal. Até porque, talvez vocês não acreditem, isto de uma pessoa se manter ignorante dá um trabalho do catano (já lá dizia o outro, não sei se o tio do Bruno, se um brasileiro ou brasileira qualquer que parece que fez para aí uns versos obscenos ou lá o que era).]

Mas onde é que eu ia?

Ah, sim. Tirando isto, apenas uma surprise. O aeroporto ficou mesmo a chamar-se 'Aeroporto do filho da D. Dolores' e a dita foi lá -- toda produzida e franjuda, de mão dada com a suposta namorada do Cristiano -- receber o Professor Marcelo enquanto este e mais o Costa inauguravam também um busto muito lindo do poeta, navegante e estadista CR7. 


A afamada obra escultórica (tão afamada que chegou à 1ª página da não menos afamada Vanity Fair) é da autoria de Emanuel Santos que às críticas responde: É impossível agradar a gregos e troianos. Nem Jesus agradou a todos. Isso é questão de gosto, não é tão simples como parece. Já vi obras de grandes artistas que seguem esse parâmetro. O que interessa é o impacto que essa obra gerou". Nem mais.


Cristiano Ronaldo  avoa-avoa


Leio e ouço altas discussões, que não faz sentido, que um futebolista não tem dimensão, antes o Alberto João, antes o Herberto Helder, antes o Max. Não me empolgo. Era o que me faltava ralar-me com tais frioleiras. Eu é mais bolos.

Só acho que aquela estátua é muito convencional. Se me têm pedido a mim, fazia uma estátua animada, o Cristiano a dançar, todo hot e depilado. Isto, sim, seria uma recepção condigna aos turistas que visitam a Madeira, ex-pérola do Atlântico e agora baptizada como Ilha Aveiro Family.



Tirando isso, meus lindos, nada mais tenho a dizer.

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As derivações do busto do Cristiano foram obtidas aqui.

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E queiram, por favor, descer para verem arte pura, coisa a sério.


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segunda-feira, março 11, 2013

BANIF - Onde é que já vimos isto? (os vídeos que os Leitores do UJM, a quem muito agradeço, me enviam)


Publicado pela EsquerdaNET em 18/01/2013:

Banqueiros e Governo dizem que o Banif não é o novo BPN. Mas as semelhanças estão à vista: o banco foi sempre um instrumento para financiar o PSD/Madeira, enquanto acolhia ex-governantes do PSD, mas também do PS. Veja aqui as ligações entre políticos e o banco que acaba de ser salvo com o dinheiro dos contribuintes.




segunda-feira, outubro 10, 2011

Madeira: a vitória de Pirro de Alberto João Jardim, a derrota do PS, do PCP e do BE e a vitória justa do CDS, nomedamente do charmoso José Manuel Rodrigues. Mas, já agora, Caríssimo Paulo Portas, ouça lá uma coisinha acerca da 'sua' Assunção Cristas'


Com esta vitória do PSD madeirense, como fez questão de acentuar, o Alberto João, conforme expectável, assitirá impotente à derrocada do seu estilo de governar. Fez e desfez, distribuíu, ameaçou, manipulou, subverteu, omitiu e, apesar de tudo, voltou a ganhar as eleições. Mas sabe o que o espera.

Venceu, pois - e sair-lhe-á cara esta vitória - e fez um patético discurso, sem direito a perguntas. Não tinha os óculos, leu titubeantemente o texto no qual atacou o capitalismo selvagem, o liberalismo radical, atacou o ministro das Finanças e a da Justiça. É a raiva contra incertos que mal disfarça o desespero face ao que se aproxima.

Alberto João no discurso da sua vitória de Pirro: o estertor do jardinismo, um fim triste

Sabe bem que o seu tom terá que baixar quando vier, de rabinho entre as pernas, negociar o apoio de que precisa como de pão para a boca. E assistirá ao fim do jardinismo, cancelando contratos, despedindo pessoas, contando os tostões. Será olhado de lado, será desprezado, porque a memória é curta e os eleitores que o trouxeram até aqui, cobrar-lhe-ão agora aquilo que ele não mais poderá pagar.

Os madeirenses são tão culpados disto, como os portugueses em geral não são culpados da situação a que o país chegou, como os gregos, como povo, não são culpados dos excessos de uns quantos, nem da cegueira confortável de todos quantos deixaram que a situação atingisse o descalabro em que se encontra, como todos os que em toda esta europa desgovernada se vêem atirados para o desemprego, na maior insegurança - no fundo, somos todos vítimas de um regime que ganhou vida própria, desregulado, descomandado, hidra voraz sem religião, moral ou pátria.

Por isso, os madeirenses vão sofrer e muito o lamento, tal como lamento o mau bocado que todos estamos a passar por todo o lado, aflitos, desalentados, sem esperança.

Mas, voltando às eleições - perdeu o PS e muito e imperdoavelmente. Maximiano Martins deve ser um homem esforçado, sério, muito honesto, um homem como deve ser. Mas nisto da política há perversidades. Não basta ser. Numa altura destas, em que os Madeirenses estão assustados, querem ter do lado deles alguém que os defenda, que lute por eles, alguém que tenha uma aparência forte, lutadora.

Maximiano Martins - não basta ser um bom homem

Ora a Maximiano falta-lhe aquele punch, aquele ar de quem disparará sem hesitação, de alguém que levantará a voz de forma a fazer-se ouvir. Perdeu por isso.

Claro que o apoio do Tozé Seguro também não ajudou muito. O Tozé tem ar de ser daqueles senhoritos que, se a coisa dá para o torto, desata a fugir. Pode não ser - mas parece. Ora, para que querem os madeirenses, nesta hora de aperto, um Tozé com ar de choramingas?

O PCP também levou uma tareia e é compreensível. Nem se percebeu o que achavam da trapalhada das contas. Quando falam é para dizer coisas deslocadas, palavras gastas.

O BE desapareceu e lá apareceu o Louçã, um esgar em forma de gente, gasto. Gastou-se com as situações dúbias em que se meteu no fim da era socrática. Devia sair e dar o lugar a outro.

Vitória, vitória a sério, teve-a o CDS. Vitória justíssima.

Paulo Portas: mais sóbrio, mais frontal, mais franco,
usando a inteligência ao serviço de um correcto exercício da Política

Paulo Portas vem sedimentando a sua inteligência, vem ganhando maturidade, vem ganhando segurança e tranquilidade. Aquela sua impetuosidade que o levava tantas vezes à demagogia, aquele seu conservadorismo já tão fora de moda., aquele ar de estadista precoce, vêm dando lugar a uma compreensão e tolerância que, tantas vezes, vem com a exepriência de vida o que, aliado à sua cultura e inteligência, fazem dele um provável primeiro-ministro deste país. Como se recordarão os meus Caros Leitores tenho sido crítica dele e não poucas vezes, mas, na altura, reconheci que fez a melhor campanha para estas legislativas e, agora, parece estar a ter ter um bom desempenho no Governo (acredito que terá o discernimento - que Passos Coelho não tem - de tentar atrair investimento a sério para o País, investimento que crie emprego e não de andar a ver se passa a patacos as jóias da coroa que são as nossas mais nevrálgicas e rentáveis empresas) e, sobretudo, nesta campanha da Madeira foi exemplar.

A sua atitude na condenação aos desmandos do Alberto João foi muito corajosa, franca, directa, inequívoca  A situação política de coligação governamental poderia tê-lo deixado numa apertada saia justa, como costumam dizer os brasileiros. Mas, apesar da delicadeza da situação, soube marcar a fronteira entre a coligação no País e a liberdade de acção na Madeira. Foi lá. Expôs-se. Falou loud and clear.

João Almeida
O menino que, a olhos vistos, se está a fazer homem

E, tal como ele, falaram outras vozes do CDS, de entre as quais destaco um jovem com ar de criança mas que se tem estado a portar como um homem crescido, o João Almeida. Firme e com voz grossa, tem denunciado os excessos e os dislates  Alberto João.

Mas não poderia deixar de referir-me a um outro factor certamente determinante no sentido do voto - o factor José Manuel Rodrigues.

CDS: grisalhos, bonitos, inteligentes, simpáticos - e vencedores, claro está

Ouvi José Manuel Rodrigues uma vez no Expresso da Meia-Noite e fiquei muito bem impressionada. Inteligente, claro, rápido na argumentação, firme e... factor não irrelevante: giraço. É um grisalho com muita pinta (mais um... que o Nuno Melo é outro), quase um George Clooney, bonito, um sorriso cativante. De certeza que as mulheres da Madeira não iam deixar de se manifestar favoravelmente. Um homem assim e todo vivaço, todo lutador, determinado, é uma mais valia em qualquer partido e, por isso, ele foi o justíssimo grande vitorioso da noite.

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Mas, já agora, uma chamada de atenção a Paulo Portas. Vi no sábado o programa do Herman na RTP1 e, por isso, assisti à intervenção da Ministra da Agricultura, Mar, Ambiente, Ordenamento do Território, Assunção Cristas. Tem frescura, é simpática, alegre, vê-se que é voluntariosa, vê-se que está cheia de boas intenções. Deve ser uma pessoa leal, determinada, trabalhadora.

Segundo li no Expresso da semana passada, Paulo Portas refere-se a ela como 'a minha Assunção'. Gosta dela, aposta nela, trouxe-a até aqui.

Mas, por favor... Conta ela que ligou ao marido dizendo que tinha sido convidada para ministra e logo de quatro coisas e que ele disse logo, 'Não hesites. É giro'. E quando Herman lhe pergunta como é ser ministra ela sorri, orgulhosa, e diz 'É giro'. E como é ser ministra da Agricultura, coisa com a qual não tinha antes qualquer ligação? Assunção responde, risonha, 'É giro. Chego às reuniões e digo logo que não sei nada daquilo, que estou ali para aprender com eles. É uma área gira, vê-se as coisas a crescerem'.

E que lá no Ministério são muitos, dado que tem muitas áreas e que 'é muito giro, juntamo-nos pessoas de muitas áreas diferentes, e é muito giro'.

E que, quando vai às reuniões, para pouparem na gasolina, vão todos no mesmo carro, até esgotarem a lotação do carro e quando chegam aos locais, as pessoas estão à espera de ver um carro batedor e afinal chega ela ao lado do motorista, os outros no banco de trás, ficam todos muito admirados e é giro'.

Assunção Cristas no Herman 2011:
Uma jovem contente por estar a fazer uma coisa muito gira

E eu até acho que, para uma jovem vinda da faculdade, da área do direito, e estando na política há tão pouco tempo, tudo isto seja uma aventura gira, uma experiência gira.

Mas, pergunto eu, ó meu caro Paulo Portas, será que numa altura destas, de descalabro e indefinição, com a crise tão brava que aí está, com tanto que é preciso fazer, decidir com ponderação e conhecimento de causa, será que é boa ideia pegar numa jovem inexperiente, que não sabe nada de nada das áreas pelas quais é responsável, e pô-la à frente de tão vasta e nevrálgica área?

Não creio. Eu, pelo menos, fico de pé (muiiiiito) atrás, com esta sua escolha. É que o que é preciso nesta altura não tem nada de giro e não sei se a 'sua' Assunção já o percebeu.

Por isso, agora que a escolha está feita e que há que seguir em frente e fazer com que dê certo, aconselho-o, meu Caro, a fazer algum coaching junto dela. Ao menos que, quando estiver em público, ela tente mostrar que não está nisto sobretudo por ser giro.

quinta-feira, setembro 29, 2011

O dia em Cavaco falou e não disse muito, em que Passos Coelho confessou que antes falou de mais, em que Durão Barroso, o cherne, subiu das profundezas e discursou apoteótico, em que um corretor disse que quem governa o mundo é a Goldman Sachs, em que os professores desfilaram nus, e ainda o meu ex-hamster Sebastião e outras coisas no dia de todos os prodígios


Pois é o que vos digo, meus amigos.

1. Chego a casa e só vejo resumos da entrevista de Cavaco Silva à Judite de Sousa (a quem a idade está a fazer francamente bem). Confesso-vos que não percebi onde é que ele quis chegar. Ora me pareceu um comentador como agora há aos milhares por todo o lado, ora me pareceu que estava a enviar mensagens para a troika, ora me pareceu que estava a tirar o tapete post mortem a Sócrates, coisa que não se faz.

Depois ouvi o comentador de Miguel Sousa Tavares e José Miguel Júdice e confirmaram que, tirando os capítulos em que falou como um professor de economia, o resto foi uma coisa não concretizada, uma coisa do tipo discurso contra os Açores que ninguém percebeu bem o que era aquilo.


2. A seguir vejo, na Assembleia da República, o nosso Pedrito Passos Coelho, que diz o que lhe vem à boca, a dar o dito por não dito sobre a Madeira, confessando que na vez anterior tinha falado de mais. Isto é apenas uma santa ingenuidade ou uma tontice inadequada a um primeiro ministro?


3. Agora estou a ver Alberto João a gabar-se da dívida, a dizer que se orgulha e que abençoada seja a dita.


Mas o dia hoje foi todo assim, cheio de coisas estranhas.


4. À hora de almoço, ia no carro, ligo a rádio e eis que ouço o impensável: um discurso inflamado, apaixonado, grandiloquente, palavras de vibrante tensão, um amor orgulhoso e declarado à Europa, e tudo num francês revolucionário, peito ao vento, mãos mobilizadoras, cabeça erguida. Distraio-me do trânsito, mais à frente abençoo um semáforo vermelho, ouço melhor, mas o que é isto?, parece-me a voz de Durão Barroso… mas os chernes não vibram assim. Levanto o som, apuro ou ouvido. Não precisa de lições, sabemos o que fazer, amamos a Europa, orgulhamo-nos de ser europeus (em francês inflamado). E eu de boca aberta.


É mesmo ele. Durão Barroso, o novo Pavarotti da política, o inflamado bardo, o novo GDECO, o revolucionário, é o sangue a saltar-lhe na veia tal como quando era da velha linha negra do MRPP.


Ele está de volta! O Obama que esconda a mobília que, quando o Durão está possuído assim desta inapelável maneira, é isso que ele costuma fazer: roubar a mobília de quem o aborrece. O camarada Arnaldo de Matos e a Ana Gomes bem nos contaram.

Mas os prodígios de hoje estavam longe de se ficaram por aqui. Passo os olhos pelas notícias e confirmo o meu receio do outro dia.


5. Esta coisa de as morgues não estarem equipadas com aqueles dispositivos que equipam agora uma up-to-date morgue na Turquia é coisa que nos deve preocupar. Vocês acham que estou com humor negro, ou que estou a ficar deprimida, a pensar em mortos e coisa assim. Nada, nada disso.

A questão é que li que, no Brasil, uma mulher de cerca de 60 anos estava morta, na morgue, dentro dum saco e que, sorte a dela, a filha teve que ir lá fazer o reconhecimento. E não é que - surprise! suprise! - a mãe ainda respirava. Lucky, lucky lady.


Não sei se se levantou e se foi pelo seu próprio pé. Sei é que foi para o hospital tratar-se, vivinha da costa.

Mas, quase aterrada, pergunto eu: e os outros? Aqueles que não estão ainda bem mortos e que, precipitadamente, alguém lhes atestou o óbito? E os que ressuscitam? Bolas, bolas, bolas, é que não quero nem imaginar. Acordam, friozinhos, se calhar sem muita força, e ninguém lhes acode, os vizinhos estão ainda piores, não ouvem nada, não dão alerta. E acabam por morrer mesmo, contrariados.

Em contrapartida, com os ditos sensores, alguém dava por isso e ia lá buscá-los. Além disso, se o morto ainda consegue andar, com aquele sistema de portas de abertura fácil, sai pelo seu próprio pé. É uma segurança.

Por acaso, no outro dia, à hora de almoço, vi um homem já com alguma idade, bem vestido mas com ar amarrotado, bengala, andar um pouco dificultado, cabelo branco e meio despenteado pelos ombros, barba branca um bocado comprida, hirsuta, tez ligeiramente amarela, e não tive dúvidas, até comentei, ‘olha, este teve sorte, conseguiu sair’.

«««»»»»  É que há enganos. Conto-vos um que aconteceu na minha casa.

Quando a minha filha era pequena, uns amigos nossos ofereceram-lhe um hamster dentro da respectiva gaiola, com a roda, tudo. Uma festa lá em casa. Os miúdos todos contentes. O hamster era uma alegria. Deram-lhe o nome de Sebastião. Davam-lhe de comer, ele afoitamente, ela mais a medo porque uma vez o Sebastião lhe deu uma dentada, faziam com que ele brincasse alegremente na roda, davam-lhe sementes, raçãozinha. Contudo, para limpar a gaiola tinha que ser o meu marido, que nós ficámos com medo de dentadas. E tinha que ser limpa todos os dias, porque o cheiro da urina era insuportável. O meu marido, aborrecido, ‘Sebastião para aqui, Sebastião para ali, tudo muito engraçado, mas quando toca a fazer o que ninguém gosta, sobra sempre para mim’.


Mas que podíamos nós fazer senão reconhecer o esforço e agradecer?

Até que um dia, tragédia. ‘Mãe, pai! O Sebastião morreu…!’ Lágrimas. Ela aflita, ele curioso. ‘E agora…?’. Lágrimas, ela. ‘Mãe, eu mexi-lhe e vi o Sebastião a esticar as pernas’. E eu, didáctica, ‘Chama-se esticar o pernil’. E lá estava o Sebastião, de olhos fechados, deitado de barriga para cima, perna aberta. O impudor da morte. Constatada a infeliz ocorrência, eu, maricas - ver animais mortos faz-me impressão - fui para longe. Pragmático, o meu marido ‘Agora o quê? Agora deita-se fora.‘. Isto um dia de semana à noite. Lágrimas, ‘Não, não se deita fora, coitadinho do Sebastião.’. Sugeriram um enterro, um momento de recolhimento, dignidade. Mas o meu marido, ‘Claro que se deita. Havíamos de ir agora de noite não sei para onde, às escuras? Num jardim público, íamos escavar num canteiro? estão malucos? Ou quê, ir para um pinhal às escuras, no meio da noite? Nem pensar’. E resoluto. ‘Não se preocupem, que eu trato do assunto’.

O prédio tinha conduta para o lixo e de noite o lixo era recolhido. E assim, enroladinho e fechadinho num saco, o Sebastião lá foi conduta abaixo. Lágrimas. Lágrimas.

Nesse fim de semana participámos o óbito aos padrinhos, isto é, aos amigos que tinham oferecido o Sebastião. Gritos, ‘Totós! Não está nada morto, está a hibernar, os hamsteres hibernam assim.’ E nós, cabisbaixos, ‘Não me digas! Credo… Coitado do Séba’ e as crianças petrificadas, ‘E agora…?’. Consternação. Pois, ‘Agora já não há nada a fazer…’.

Até hoje, ela não se conforma e a mim ainda me custa pensar no que fizemos. Precipitações nestas coisas dão disto.


Mas nestes dias de prodígios, não temos notícia só de um ou dois. Não senhor, Saltam, é às catadupas.

6. Na BBC, para perplexidade da entrevistadora e de quantos estavam no estúdio, um corretor, Alessio Rastani, declarou que crise é do melhor que há para eles, os corretores, os especuladores. Mais: que sonha todos os dias com a crise, que bom que é, tanto dinheirinho fácil que se ganha. Os da BBC de boca aberta, nem queriam acreditar, ‘querem lá ver que isto é para os apanhados…’. E o Alessio rematou, ‘Quem é que pensam que governa o mundo? É a Goldman Sachs!’.

Ou seja, uma má notícia para o Miguel Relvas e respectivos subordinados do governo que, coitados, pensavam que aquilo que andam a fazer há 100 dias é governar.


Muitos se têm interrogado: será que Alessio é mesmo corretor? Será algum cómico de serviço (Yes-Man)? Até ver, parece que é mesmo a sério, que é isto em que genuinamente acredita e até tem um blogue em que opina sobre estes e outros assuntos.


Pronto, já chega, dirão vocês.


7. Não, senhor: ainda há mais. Mas agora é um apelo ao Mário Nogueira, essa grande figura do professorado nacional. Na próxima vez que forem para a rua manifestar-se, como prova de solidariedade para com os colegas franceses, ‘professores de todo o mundo: uni-vos!’, acho que o dress code deve ser: 'underware, sff' ou 'lingerie, sff ' ou 'full naked, if you please'.

Professores manifestando-se contra as políticas francesas
Dizem que as austeridades estão a deixá-los assim, sem dinheirinho nem para a roupinha

Nunca fui a nenhuma manifestação mas a essa juro que vou assistir. É que tenho curiosidade em ver se o Mário Nogueira os tem no sítio. (Pardon my french)


Ainda tinha mais para desabafar mas, pronto, não vos maço mais. Tenham um bom dia, meus Amigos.

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Mas, meus Amigos, para que o dia seja ainda melhor, venham comigo até ao post abaixo para dali seguirmos até à
MÚSICA NO GINJAL
Hoje a convidada é Natalia Osipova, uma flying lady on fire.

segunda-feira, setembro 26, 2011

Onde Manuel António Pina, Prémio Camões, fala acerca da Madeira e do bicho esquisito e lampo que a governa para cima de 30 anos, o jardinesco Alberto João


Hoje tirei da estante, ao acaso, um livro. ' Por outras palavras & mais crónicas de jornal' de Manuel António Pina. Abri ao acaso e, por estas curiosas coincidências que às vezes acontecem, a crónica da página em que calhou tinha por título 'Uma aventura à Madeira', escrita em 2006.

Não vou trancrever tudo mas apenas alguns parágrafos e não apenas desta mas das 4 seguintes, cujos títulos são, 'A Madeira outra vez', 2006, 'Bananas & Neologismos', 2006, 'Refundação da Gramática', 2009, e 'Tolerantes, 'mas'' de 2009.


"A Weltanschauung de Jardim divide o Universo entre quem não lhe dá dinheiro para carnavais e futebóis (os 'mafiosos', os 'fariseus' e as 'mulas da cooperativa', como era Guterres em 1997) e os 'homens intelectualmente honestos' (como passou a ser o mesmo Guterres depois de, em 1999, ter pago 610 milhões de euros de dívidas da Região).

Sócrates e o ministro das Finanças pertencem à primeira categoria, por pretenderem pôr cobro ao forrobodó orçamental da Madeira (1.522 milhões sem tecto!), assim revelando 'falta de patriotismo'.

Por isso Jardim já requereu ao ainda há pouco 'Sr. Silva' que os demita e forme um 'Governo de unidade nacional'.

Além disso, apanhando a boleia do Hezbollah, declarou, dizem os jornais, 'guerra aberta' ao Orçamento de Estado.

Todos para os abrigos, e cuidado com a carteira!"



"A Madeira sob governo do PSD é um caso típico de 'síndroma do Casal Ventoso': só se fala dela pelas piores e mais grunhas razões.

Agora foi um tal Coito Pita, anunciando que o partido de Jardim não permite que ali se comemore o 25 de Abril. Segundo o PSD isso seria 'inoportuno'.

É uma boa razão. Já há 30 anos, a saída de Salgueiro Maia e companheiros dos quartéis para restaurarem a democracia foi 'inoportuna'. Infelizmente, o PSD então ainda não existia, se não Coito Pita logo teria denunciado a falta de sentido de oportunidade dos capitães."


"Mais tarde ou mais cedo a palavra 'jardinesco' entrará nos dicionários (como entrou, por exemplo, o substantivo 'burgesso', do nome do nadador inglês T.W. Burgess, que atravessou a nado a Mancha em 5 e 6 de Setembro de 1911 e não seria, pelos vistos, homem particularmente notável pela finura de espírito).

'Jardinesco', adj, Grosseiro; grotesco; ignorante; lampo; diz-se de pessoa que se comporta de forma arrogante e espalhafatosa.

Do nome de um político madeirense do séc. XX e princípios do séc. XXI, será, ao lado de expressões como 'bastardos' e 'filhos da puta', a mais estimável contribuição de Alberto João Jardim para o enriquecimento da língua pátria."


"Parece que Alberto João Jardim esteve no Clube dos Pensadores em Gaia, a pensar em voz alta perante uma selecta e pensativa assistência sobre a 'Refundação da República'.

Sou dos que sempre pensaram, ao arrepio de muitos, que Jardim pensa, e o acontecimento veio confirmar as minhas suspeitas.

Infelizmente não pude testemunhar o fenómeno, mas a coisa prometia: 'o tema Refundação da República é algo interessante e tem haver, [vírgula] que é preciso dar a volta a este país' e Jardim 'vai referir-se a temáticas nacionais', pois 'a Madeira é um exemplo paradigmático de que é possível fazer coisas e, [vírgula] interessantes' "


"Às vezes pergunto-me se não gastarei cera de mais com Alberto João Jardim. Tento justificar-me com o facto de o meu interesse por ele ser meramente científico. Com efeito, observando Jardim sinto-me um como um biólogo debruçado sobre uma lamela de bicheza esquisita, possuído por uma curiosidade levemente divertida e não isenta de ternura."


Observação minha: Duvido que hoje, nas actuais circunstâncias, Manuel António Pina ainda usasse a expressão 'levemente divertida e não isenta de ternura' para se referir à forma como olha o Chefe do Governo Regional da Madeira. Eu, se me pudesse apropriar da frase, substituiria a parte final por 'possuida por uma imapciência já mal contida e não isenta de alguma fúria'




Manuel António Pina tem quase 68 anos , nasceu no Sabugal , formou-se em Direito e é escritor e jonalista. Em 2011 foi-lhe atribuído o Prémio Camões.

E, para terminar este post, e para manifestar o cansaço que todo este tema já nos causa a mim e a todos (como é possível que um sujeito como o Alberto João que desafia a lei, que desafia o decoro, se mantenha há tantos anos no poder?), permitam-me que aqui vos deixe o final do poema Farewell happy fields:

          É tarde. Ainda há um momento
          me apetecia conversar, agora estou outra vez tão cansado!
          Reparaste como o Outono este ano veio por outro lado,
          como se fosse pelo lado de dentro?


(de Manuel António Pina in 'Poesia, saudade da Prosa - uma antologia pessoal')

«»


PS: E agora, meus Caros, desçam um pouco mais que tenho um anúncio e um convite para vos fazer. Vamos?

quarta-feira, setembro 21, 2011

O buraco da Madeira, a entrevista de Passos Coelho a Vítor Gonçalves da RTP1 na qual tirou, e bem, o tapete ao Alberto João, rocks in heaven e o dia em que eu ia deitando a minha casa abaixo


Como é que se esconde um buraco negro do tamanhão do que se tem vindo a descobrir na Madeira? Inquietante. Quanto ao que se passa no Instituto do Desporto ainda não percebi. Falam sem conseguir usar uma linguagem precisa. Se se trata de facturas ainda não pagas, isso é o banal, não tem qualquer mal. Raras são as facturas que são pagas de imediato. Mas, do que percebi estão contabilizadas. Se for outra omissão, facturas escondidas na gaveta, será grave (embora coisa de ínfima dimensão).

Porque grave é a omissão, dado que provoca distorção de números, porque parece que isto é terra sem rei nem roque, uns mediterrânicos trafulhas, uma chafarica que nem contabilidade organizada tem - e é a vergonha em que isso nos deixa.

Quanto à entrevista de Passos Coelho, devo dizer que acho que esteve melhor do que eu estava à espera.

Claro e firme ao demarcar-se de Alberto João Jardim (que já reagiu, azedo), claro a responder às perguntas. Pena que o entrevistador fosse fracote. Mas enfim, lá foi perguntando e Passos Coelho, afável e directo, lá foi respondendo.

Por exemplo, gostei de ver a prudência pragmática com que abordou o assunto TSU.

A ver vamos.

Mas acho que esteve fraco quando assumiu que as despesas a cortar são as que Sócrates já tinha inscrito no orçamento de 2011 e que já vinha cumprindo. Não foi apenas para fazer o que Sócrates estava a fazer que ele foi eleito.

Também que esteve bastante fraco, débil mesmo, quando parece que não tem vontade própria e que se está a limitar a executar ou a divergir pontualmente da troika, não revelando quaisquer medidas integradas e concretas para relançar a economia que deveria ser, no momento, a grande preocupação (com a economia a definhar, a execução fiscal tenderá a enfraquecer e, de novo, mais uma dose de impostos - e o ciclo acelerará a caminho do zero, como já aqui o referi).

Teve também o que terá sido um deslize, ao deixar transparecer que estão em marcha negociações para renegociar a dívida, provavelmente pedindo um novo empréstimo. Não foi boa ideia dizer já isso. Os ditos mercados devem estar já com as orelhas a arder e vamos lá a ver se não vem aí mais um sobressalto.

Mas estamos a 3 meses do início e, abstraindo-me do que referi, surpreendeu-me pela positiva.

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De resto, estamos a viver uma situação deveras preocupante em que todos os dias caminhamos um pouco mais no sentido do empobrecimento, quando, pelo contrário, os povos deveriam caminhar sempre no sentido do desenvolvimento.

A situação mais que eminente de bancarrota da Grécia, provavelmente escamoteada através de um 'incumprimento controlado', a instabilidade financeira em toda a Europa, a fragilidade do euro, as condições impostas pelos chineses para 'ajudar', os avanços imparáveis dos angolanos e brasileiros, qualquer dia a tomarem conta disto tudo – tudo coisas que me incomodam e contra as quais me sinto espectadora impotente.

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Por isso, hoje não vou falar nisso para não me ia deitar aborrecida. Hoje vou falar de outra coisa. Vou falar-vos da minha casa, de que tanto gosto, o sítio do mundo onde melhor me sinto.

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No outro dia, ao ler a Marguerite Yourcenar referir que se podia sentir amizade por pedras, falei das muitas pedras que, in heaven, habitam o local e por quem sinto verdadeiro amor.

Já uma vez aqui o referi: o terreno foi, em tempos, uma pequena pedreira de onde era enviada pedra para as calçadas de Lisboa.


Por isso, nalguns locais a pedra está descarnada, à vista, noutros está coberta por uma fina camada de terra onde dificilmente medra qualquer coisa. Que, após anos de persistência, algumas árvores tenham vingado (depois de muitas, muitas, terem perecido) é quase milagre. Um senhor lá da aldeia uma vez, referindo-se àquela terra, dizia ‘Ah terra ingrata’. Eu sou incapaz de lhe chamar alguma coisa que soe a depreciativo pelo que direi que é, isso sim, uma terra que é preciso amar apesar das suas características. Está, em geral, absolutamente seca pois toda a água que lá cai infiltra-se imediatamente rocha abaixo e, passado pouco tempo, nem vestígio de gota de água.

Quando se quer cavar para plantar qualquer coisa só saem pedras e, frequentemente, são pedras tão grandes que se tem que desistir de ali tentar abrir algum buraco.

Por isso, o que lá nasce espontaneamente é mato bravio e das duas vezes que lá se meteu uma máquina a desbastá-lo e a alisar uma parte do terreno, a máquina, ao meter a pá ao chão para arrancar arbustos maiores, arrancou grandes pedras.

Lembrei-me então de dispor essas pedras de diferentes maneiras: umas como bancos, outras formaram uma mesa,


outras como belas esculturas naturais.  


Em dois locais lembrei-me de as colocar como bancos dispostos em círculo. Nunca nos sentamos lá mas eu tenho o hábito de, de vez em quando, me colocar no centro de um deles (o outro círculo tem uma pequena árvore ao meio) e, dali, olhar o céu.


Curiosamente alguns anos depois de se ter feito esta ‘instalação’, li que o feng shui identifica que isso se torna um local particularmente auspicioso, um local quase mágico onde convergem as forças do universo, um local que transmite força a quem está no seu interior. E eu acho que sim.

Quando, há muitos anos, adquirimos esta casa no meio do mato, a casa já tinha a configuração que tem hoje. Um núcleo constituído por uma pequena construção muito antiga (secular, dizem) e, encostado, um ‘acrescento’. A parede interior desta parte mais recente é a parede exterior da parte antiga. Ora, essa dita parede tem para cima de um metro e meio de largura.

Como eu tinha falta de estantes (problema recorrente na minha vida) e como também tinha falta de espaço para as colocar, tive uma ideia luminosa: no corredor, escavar uma parte da dita parede e embutir umas prateleiras, transformando em estante a cavidade assim aberta. Bastaria cerca de 40 centímetros de profundidade.

O meu marido não achou nada bem não apenas porque era pó, sujidade e maçada de obras dentro de casa mas, sobretudo, porque a construção é antiga, não se sabia se era inócuo escavar. Mas eu, nestas coisas, sou persistente, maçadora mesmo, e tanto insisti que ele acabou por condescender, embora muito contrariado. Chamámos um pedreiro lá da aldeia. Estranhamente o senhor também se mostrou desconfortável dizendo não saber o que se ia encontrar na parede.

Eu não percebia tanta hesitação. A parede tem uma espessura tal que mesmo retirando-lhe, numa pequena extensão, uma dentada de 40 cm, ficaria ainda com mais de 1 metro de fundura. Qual o problema?

Mas o pedreiro coçava a cabeça e o meu marido já queria desistir. Cedi parcialmente, fazer-se-ia então uma coisa pequena, em vez da larga estante que eu tinha imaginado, quase ao longo de todo o corredor, apenas duas aberturas de 80cm de comprimento por cerca de 2 metros de altura e os tais 40 cm de profundidade, separadas também por 80 cm de parede, como se fossem duas estantes ao alto, inseridas na parede.

Deixámos a chave com o senhor e ele faria o trabalho durante a semana. Depois colocar-se-iam lá dentro prateleiras de madeira e umas portas de madeira com vidrinhos para minimizar a entrada de pó.

A semana passou.

Quando lá chegámos na sexta-feira seguinte, à noite, ia-me dando uma coisa.

À porta da casa estavam umas pedras monstruosas que dificilmente adivinhávamos de onde tinham aparecido.

Sem percebermos o que era aquilo, entrámos em casa. Um cheiro a humidade pouco usual. Uns cartões no chão até ao corredor. As ditas cavidades já lá estavam e já estavam cimentadas, embora ainda em tosco. Grandes tábuas escoravam as paredes assim revestidas, apoiando-se nas paredes contrárias do corredor e no chão.

O meu marido, contrariado, já me recriminava, ‘coisas que tu arranjas; mas se não levasses a tua avante, não descansavas’.

No dia seguinte logo de manhãzinha, apareceu o pedreiro. Ainda preocupado, dizia, ‘Sabem lá o que foi isto aqui. As paredes são todas feitas destes grandes pedregulhos, uns por cima dos outros. Não foi possível tirar só os 40 cm que os senhores queriam, para sair tinham que sair as pedras inteiras. Ficou aqui um buraco que nem queiram saber. O que a gente aqui penou. E o pior foi para conseguir tirar as pedras pela porta. Teve que se tirar a porta, teve que se chegar aqui à porta um carro com guincho, teve que se montar aqui umas alavancas para as conseguir pôr a jeito e passar uns cabos e foi mesmo à justa que se conseguiram tirar cá para fora sem ter que partir a parede que dá para fora. Estava a ver que eu e os meus ajudantes não dávamos conta disto. E agora já enchemos o buraco e está todo escorado para suster as pedras que se apoiavam nas que saíram’.

O meu marido olhava-me recriminador e eu assustada. A medo perguntei, ‘mas há risco de a casa se desmanchar toda…?’. O senhor disse-me que o medo deles ao retirar aquelas grandes pedras era que acontecesse uma desgraça dessas e que fizeram com muito cuidado, partindo dos lados para terem pontos de apoio para escorarem antes de as retirar, que fizeram esse trabalho com o credo na boca.

Isto já aconteceu há mais de 10 anos e está tudo bem, nenhuma desgraça aconteceu mas, quando penso nisto, ainda sinto um susto, o medo que a casa se tivesse desmoronado. É que vocês não estão a ver o tamanho das pedras que de lá saíram.

Colocava-se depois a questão: então e agora o que é que se faz a estas pedras?

O meu marido, sentido prático, atalhou logo, ‘é carregá-las daqui para fora, aí para um sítio qualquer, onde não estorvem a passagem’.

Mas eu, claro, que ‘nem pensar’. Pensei logo que era uma pena não lhes dar um aproveitamento condigno e, então, imaginei colocá-las num recanto das traseiras, onde existe um muro e umas azinheiras e fazer uma espécie de jardim zen. Colocava gravilha no chão e poder-se-ia ir para lá meditar.

Nova crise. ‘Jardim zen?! Só parvoíces! Sempre quero ver quantas vezes vais para lá meditar. Levam-se mas é lá para baixo e acabou-se.’

E eu que não, que não, perdíamos o rumo a essas pedras (e o meu marido ‘E então? Qual é o problema? Não são iguais às outras todas? Não inventes mais chatices! E só gastar dinheiro para nada’) e eu na minha, que jardim zen é que era mesmo bom.

Só que o dito local onde eu imaginava o jardim zen é do outro lado da casa, num recanto muito complicado. Ter-se-ia que levar as pedras por fora e entrar por um portão lateral e era difícil chegar com a camioneta onde eu queria.

Os meus filhos nisto eram relativamente neutros, mas pendiam mais para o lado do pai, parecia-lhes mais razoável, e também se assustavam com os sarilhos que estas manobras sempre envolviam. Máquinas para içar as pedras, pedras para cima do estrado de uma camioneta, máquina para desiçar – mas isso tinha que ser feito de qualquer maneira, excepto a última operação, se fosse apenas despejar ‘à balda’ (‘tinha que ser feito de qualquer maneira, dizes tu, porque se não nos tivesses metido nesta complicação toda, só para fazer 2 estantes que eram dispensáveis, a esta hora não andávamos aqui metidos nesta trapalhada de nos vermos livres de pedregulhos do tamanho de uma casa’, remoía o meu marido)

Mas depois de muita luta, lá consegui levar a minha adiante. Pois bem. Na semana seguinte já lá tinha o meu jardim zen e já lá tinha também o senhor a explicar como tinham todos suado as estopinhas para conseguir fazer o pretendido. O meu marido abanava a cabeça, censurava-me, censurava-se por ter alinhado numa aventura daquelas, todos achavam uma excentricidade incompreensível. Os pedreiros então, gente do cammpo, que nunca tinham ouvido falar no tal de jardim zen.

O meu marido voltou à carga: ‘Depois disto tudo eu sempre quero ver quantas vezes te vou lá ver a meditar’.


Passados mais de 10 anos, continua com essa conversa. Ainda não engoliu a ideia. ‘... Jardim zen…!’ ou então, provocador, gozão, 'então, não vais meditar para o jardim zen...?'

Pois... Mas eu não sou data a meditações, o que é que hei-de fazer?

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PS: De qualquer forma, para vos ajudar a vocês a meditar, sugiro que me acompanhem até à sala abaixo, vamos ouvir a loura 'Elina de Riga', vão já fechando os olhos para ouvirem melhor e, descendo um pouco mais, a seguir vamos até onde se fala e vê chocolate. Nham, nham.... Bon apetit.

terça-feira, setembro 20, 2011

Dúvidas sobre o estranho caso do desvio colossal da Madeira. Que descobrirá o PGR? E que terão decidido Cacaco Silva e Passos Coelho?

Nisto da Madeira há coisas para se perceber porque não estão nada claras.


Quando se tenta comparar o que aconteceu na Madeira, e que eu ainda não percebi exactamente o que foi, com o que aconteceu no cont’nente gerido por Sócrates, penso que se está a perceber mal o que se passou (ou então sou eu que não estou a perceber, o que também não admira: vivendo na grande lisboa sou quase cubana, além disso sou rural, gosto de poesia, sou mulher, e só não digo que sou loura para não me acusarem de pleonasmo).

No Expresso de sábado passado, o Martim Avillez, insuspeita criatura, em seu tempo crítico de Sócrates e apoiante da alternativa ganhadora, refere uma interessante história que reflecte o que é a economia a funcionar.

Conta ele que um sujeito foi a um hotel para reservar um quarto, deixou uma nota de 100 euros no balcão (não me recordo bem nem deste nem dos pormenores seguintes - e não estou com tempo para ir à procura do jornal -  mas imaginemos que estes 100 euros seriam tipo caução) e pediu para ir ver o quarto.

O funcionário que estava no balcão, admitindo que ele ficaria mesno com o quarto, pegou na nota e foi a correr pagar ao sapateiro a quem devia dinheiro. Este, face a isso, foi a correr com essa nota, pagar ao alfaiate a quem devia 100 euros, este foi a correr pagar à prostituta a quem devia 100 euros; esta foi a correr pagar ao hotel a quem devia 100 euros e deixou o dinheiro no balcão. Entretanto chegou o potencial cliente, resolve não ficar no quarto, pega na nota e vai-se embora.

Esta história exemplifica bem o que é a economia e qual a importância de a manter a rodar. Os mesmos 100 euros - e que, no fim do ciclo, acabaram por permanecer no local de origem, isto é, com o potencial cliente do hotel - enquanto estiveram a circular, permitiram a uma porção de pessoas pagar as suas dívidas, permitindo com isso que outros fizessem o mesmo. No fim os 100 euros não estavam já lá, mas uma porção de gente honrou compromissos.

Injectar recursos na economia é isto. Não é despejar dinheiro em cima de tudo e todos. É, tão só, criar as condições para que a moeda de troca circule (mesmo quando a moeda de troca não passa de números registados nas contas de uns e outros - quando você recebe um pagamento, o que vê é uma parcela a somar na sua conta. Quando você paga por cartão, o que vê são parcelas a abater. Dinheiro físico nem o cheira. Mas não tem mal. É preciso é que esse ciclo não se interrompa).

Quando Sócrates tentou fazer crer que não se estava tão mal quanto já se estava, o que queria era que os agentes económicos não deixassem de investir, e criou vários programas, como o tão injustamente criticado Parque Escolar, pois era isso mesmo que ele pretendia: manter a economia a funcionar. Um paga a outro, que paga a outro, que paga a outro e por aí fora e tudo registado para que todos pagassem impostos, impostos esses indispensáveis a manter a máquina em funcionamento.

In extremis ele tentou que o ciclo não se interrompesse.

(Para que não me acusem de ser tendenciosa, repito uma vez mais que acho que nem tudo o que ele fez foi bem feito. Por exemplo, aumentar a função pública numa altura de evidente desequilíbrio foi estúpido e incompreensível; tal como o voluntarismo e a firme determinação com que pretendeu manter a máquina a rolar o impediu de ver, a tempo e horas, que a máquina estava a ficar sem óleo, com o motor em sérios riscos de gripar. Mas que lutou como um leão, lá isso lutou.)

Agora o que o Alberto João fez é bem diferente embora, na génese, a ideia possa ter sido basicamente a mesma: manter a economia a rolar. Mas fê-lo em tão grande escala e tão desorçamentadamente, tão grosseiramente, e de forma tão caciquenta, e tão fora de articulação com as finanças do país, que teve que o fazer à sorrelfa, clandestinamente, ilegalmente. E aí entramos num outro domínio. Aí ele está nos antípodas de Sócrates.


Mas temo que a coisa não se fique apenas por aqui; não sei, posso estar a ser pessimista mas há aqui aspectos que me estão a fazer muita espécie. Vou tentar exprimir-me de forma o mais simplista possível, os especialistas que me perdoem.

Se ele incorreu em despesa não ‘escrita’ na ordem de mil e seiscentos milhões de euros (que parece que afinal, com outro buraco escondido de mais de duzentos milhões entretanto descobertos, afinal já vai quase em 1.900.000.000 euros!!!!!), ou seja, se escondeu compras que fez nesta ordem de grandeza, então os fornecedores, ao longo destes anos, aceitaram ficar a 'arder' com tanto dinheiro durante tanto tempo?

(E note-se que isto não é a despesa total – não: isto apenas o desvio encoberto)

Custa a crer que haja fornecedores tão beneméritos que aceitem trabalhar para aquecer e em montantes desta ordem, não é? Com a falta de liquidez a que assistimos por todo o lado, há fornecedores que financiam gratuitamente o governo da Madeira?

Acho estranho.

Além disso, o que parece que levantou as suspeitas e que, do que percebi, já vinha sendo objecto de referências por parte do Tribunal de Contas, é que haveria, da parte do Governo Regional, pedidos de empréstimos aos bancos para despesas maiores que as contabilizadas.

Pergunto eu: em completo desrespeito pelas boas práticas contabilísticas, em vez de contabilizarem as facturas quando as recebiam, guardavam-nas na gaveta para as lançarem só quando fossem ser pagas?

Do que depreendi das palavras do competente e seriíssimo Dr. Oliveira Martins, do Tribunal de Contas, passar-se-ia isso mesmo, ou seja esconderiam as facturas, não as registando, até que tivessem dinheiro para as pagar (ou seja, contabilizá-las-iam no acto do pagamento e não no acto da sua recepção). Foi isto?

(Espero que seja isso, que já é grave em si - e não que fossem feitos ‘pagamentos por fora’. Porque, se fosse isso, seria mesmo o fim da macacada. Mas isso não creio, seria too much.)



Mas, mesmo que isto configure apenas uma ocultação temporal de verbas (ao longo de anos!), será que os fornecedores emitiram as facturas a tempo e horas e pagaram o IVA devido ou também atrasavam todo esse processo?

É que, por lei, os fornecedores devem emitir facturas num determinado prazo após o fornecimento, e nessa altura, apura-se o IVA a pagar.

Ora, temo bem que com todo este jogo, os próprios fornecedores tenham atrasado a emissão das facturas para não pagarem o IVA, uma vez que só iriam receber o dinheiro do fornecimento mais tarde. Ou seja, a ser isto, nem é o caso de o Governo esconder facturas pois elas eventualmente nem existiriam ainda. Ou seja, ter-se-ia um conluio, uma ocultação de compromissos, uma subversão de contas mas também, a ser isso, a não cobrança de IVA relativo a essas facturas.

Mas enfim, isto sou eu a raciocinar, são meras conjecturas. Se calhar estou a ser pessimista e, se assim for, aqui virei pedir desculpa pela má impressão que tenho àcerca desta forma de governação. Mas o PGR vai investigar e logo saberemos se há ou não matéria criminal. E a ver se desta vez chegam a alguma conclusão (esperemos que, à semelhança de vezes anteriores, os procurdaores não se empecilham uns nos outros e em vez de investigarem os potenciais prevaricadores, acabem a investigar-se uns aos outros)

Entretanto, o Alberto João, em estado já de incontinência verbal e de aparente desvario total, depois de ter explicado, preto no branco, porque decidiu enganar o Teixeira dos Santos, veio agora dizer que foi um lapsus linguae no calor do discurso e nem quis ouvir os jornalistas, mandou dizer isto por comunicado.

Uma vergonha tudo isto e que nos faz parecer uma ridícula república das bananas. Só espero que Cavaco Silva e Passos Coelho actuem de forma exemplar. Quem nos anda a emprestar dinheiro espera isso. O País espera isso.