Fui a uma pequena livraria de bairro. Há muito tempo que andava a ser catequizada para lá ir e, na verdade, de bom gosto lá iria se me ficasse em caminho, se fosse fácil estacionar lá perto ou se estivesse aberta fora de horas. Nunca era o caso. Mas desta vez, por outros motivos, tive que ir a um sítio nas redondezas e aproveitei.
Gosto de comprar livros em livrarias a que já conheça os cantos. Ali não. E, como é pequenina, tem tudo muito concentrado, cada milímetro ocupado. E não estão apenas ao alto, em estante. Não, há pilhas, tem que se ir levantando um e outro e outro para descobrir o que está por baixo. E há estantes até ao tecto e eu, míope, não consigo ver nada do que para ali vai.
Mas uma livraria é uma livraria é uma livraria e, passados os primeiros minutos de desorientação, já eu estava a separar um e outro, a fazer montinhos. E pus-me na conversa com a simpática Livreira que me contou que há quase trinta anos luta para manter a livraria aberta e que, apesar da luta, é para ela um prazer ali estar. Que conversa boa, que ambiente acolhedor.
Comprei a pensar que dali extrairia presentes de Natal para todos e, pelo meio, acredito que sobrarão um ou dois para mim.
E, às tantas, na exploração, dei com um do Mãe, essa coisa mais fofa (refiro-me ao Mãe, não ao livro, que não li). Tenho ideia que saiu livro dele há pouco tempo pois tenho-o apanhado por aí, sempre a dizer coisas fofinhas, sempre a lamentar não ter filhos, sempre a ser o amiguinho fofo que as meninas tristes e as senhoras solitárias gostariam de ter. Nunca percebi porque é que, com tanta senhora a babar com suas as fofices, nunca nenhuma se ofereceu para ser mãe de um filho que teria duas mães, sendo que uma do sexo masculino (ups, que trocadilhinho mais coisinho). Folheei o book e pareceu-me o do costume, mais do mesmo. E digo-o isto com à-vontade e isenção até porque nunca consegui ler nenhum livro do peludo escritor. Não sei se o que vi é o último mas lá estava ele na capa, desenhado como gosta de se mostrar, nu, peludão, quase machão. Mas estava com o bracinho em frente das partes pudibundas pelo que, ó que pena, não se lhe vê o passarinho. Aliás, cá para mim já nem o tem no sítio pois, fofura das fofuras, está com ele na mão.
Mais à frente, um do ilustre escritor Gonçalo M. Tavares. Outro que tal. Só não se queixa de não conseguir fazer filho. E, que eu saiba, também nunca se apresentou em pelota. E acho que não dá entrevistas fofas. Mas tem ar de também ser peludo e, sobretudo, também nunca conseguiu escrever coisa que se aproveite. E, igualmente, estou à vontade para o dizer: nunca li nada do ilustre escritor. Nunca consegui vencer a barreira que se ergue entre mim e a sua prosa.
Sou como os enólogos: cheiro, espreito, vejo-lhes a cor. Folheio, folheio. E só compro aquilo que me parece ter substância. E, caso me pareça que tem substância, que me pareça ter elegância. Mas, até hoje, nunca vi nenhum livro do Gonçalo M. Tavares que cumpra os mínimos.
Sou leiga? Claro. Leiguíssima. Básica? Ui, ponham básica nisso. Portanto, é do alto da minha ignorância que o digo: de cada vez que, nas livrarias, folheio algum livro do Gonçalo M. Tavares penso sempre: este fulano não dá uma para a caixa. Nada do que escreve faz sentido, tem graça ou, sequer, tem utilidade. Penso eu. De que.
Por isso, nunca percebi como é que continua a publicar livro após livro, uma publicação numerosa e incompreensível, direi mesmo torrencial -- por acaso até acho que alguém deveria fazer-lhe o que se faz aos cães: esterilizá-lo, literariamente falando, claro --, a receber prémios, a andar por aí, até literalmente falando (passava a vida a vê-lo, na minha encarnação pré-pandémica).
E ainda menos percebo que uma pessoa como o digníssimo alf se dê ao trabalho de escrever um longo, elaborado e erudito texto sobre a obra do dito GMT. Será que o alf conseguiu submeter-se ao castigo de tragar tanta página de tão desconchavada prosa? Ou é que nem eu (mas em bom) e consegue fazer tal dissertação só a partir do que intui da extensa e desiluminada obra? Mistérioooo....
Seja como for, é digno de se ver. Se puderem apreciem a arte de bem esquartejar a todo o post: Gonçalo M. Tavares: investigação de um sucesso inevitável (com um bocadinho de inveja à mistura, texto galhardamente ilustrado com imagens de Irina, ex-Miss Aveiro, que nada tem a ver com o contexto tal como David Gandy que aqui nos visita e que, qual J. Pinto Fernandes, igualmente nada tem a ver com a história.
Tão lindo que ele é apesar de não ser um escritor de alto gabarito como o nosso fofo Valtinho ou o nosso prolixo Gonçalito.
_______________________________________