Em tempos vi um filme chamado Mourir d'aimer. Na altura, pensava que não seria possível morrer de amor. E, com o meu lado racional, ainda penso que o amor será o bode expiatório, não a causa directa. Uma depressão não tratada, talvez. Ou um acidente, alguém que, num acto desesperado, quis chamar a atenção mas a quem a coisa correu mal. Acresce que, com o meu lado racional, tendo sempre a pensar que é absurdo alguém subalternizar-se a ponto de que, se a pessoa amada não retribui o seu amor, achar que não vale a pena viver.
Mas, lá está, já a minha mãe, muito dada a ser levada pelas emoções, por vezes me dizia: "Não sei, parece que és demasiado racional...". Ela tirava conclusões a partir de impressões e eu tentava colocá-la no trilho da razão.
Contudo, se há coisa que tenho vindo a aprender é que as algumas das nossas certezas se vão metamorfoseando. Por isso, não posso dizer de certeza absoluta que Sylvia Plath morreu de baixa auto-estima, ciúme exacerbado, depressão profunda ou apenas por sentir que viver sem o seu bem-amado Ted Hughes não fazia sentido. Tinha dois filhos, uma menina de 3 anos e um menino de 1, mas eles não foram suficientes para a prender à vida. Uma história tristíssima.
Tenho também a ideia de que quem vive muito próximo das palavras mais facilmente encontra narrativas em que a dor de perder um amor é de tal forma romantizada que pode justificar toda a espécie de actos extremos. A poesia gosta de mágoas, de desespero, de paixões fatais.
Mas quem sou eu, o que sei eu para opinar sobre um tema tão complexo?
A filha de Sylvia e de Ted entretanto cresceu. E é ela que aqui está, conversando sobre os seus pais, mostrando as suas cartas e objetos que em tempo foram tão íntimos.
O Amor Extraordinário de Sylvia Plath e Ted Hughes
Neste episódio de Uma Vida Menos Ordinária, Frieda Hughes convida-nos a ir a sua casa para conversarmos sobre as cartas, o amor e o legado duradouro dos seus pais – os gigantes da literatura Sylvia Plath e Ted Hughes. Frieda oferece-nos um olhar íntimo sobre as cartas que Plath escreveu a Hughes logo após o casamento, enquanto estudava em Cambridge, bem como uma incursão no álbum de fotografias da família. Entre estes itens de grande importância histórica, vislumbramos também as alianças de casamento de Ted e Sylvia, receitas de família e o adorado baralho de tarot de Sylvia. Estes artigos e muitos outros foram oferecidos num leilão da Sotheby's de há uns anos, "A sua própria Sylvia: Cartas de Sylvia Plath para Ted Hughes e outros artigos, propriedade de Frieda Hughes"
Leio que as últimas cartas de Sylvia Plath à sua terapeuta, escritas na última semana de vida, revelam violência doméstica por parte de Ted Hughes.
Leio o artigo tal como li um outro ou, como antes, alguns estudos biográficos: com aquela sensação de que há pessoas que transportam dentro de si a atracção pelo abismo.
The emergence of some of her final letters will cast new light on her violent marriage to Ted Hughes and how it inspired her poetry
Sylvia sofria de depressões, já tinha tentado antes o suicídio e automutilava-se. O seu relacionamento com Ted estava tingido, desde o início, por episódios de violência. Não seria violência agressiva mas sim uma forma excessiva e desestruturada de manifestar afecto ou paixão. Ela mordia-o, ele afastava-a, ela atirava-se-lhe nos braços, ele amava-a, ela amava-o.
Bonita, ar dócil, Sylvia sofria sem motivo ou arranjava motivos para sofrer. Tiveram dois filhos mas ela sofreu também um aborto. Acusava-o por isso. Aparentemente ele terá sido violento, ela diz que ele não queria mais filhos. Pode também ter acontecido que ele, vendo a instabilidade dela, tenha achado que ela não tinha condições para ter mais.
Não consigo, a partir do que leio, achar que ele foi um bandido tal como não consigo concluir que ela foi uma vítima -- ou o contrário. Parece-me, sim, uma relação complexa que encerrava, no mais íntimo do amor que os unia, um prenúncio de tragédia.
A poesia, sempre presente naquele amor, não foi a tradução de um estado romântico mas, antes, a procura das vísceras onde se albergava o fogo que os consumia.
Até que, um dia, ela descobriu que ele lhe era infiel e não conseguiu suportar a dor que isso lhe causava. A sua natureza frágil levou-a para o fim que, desde o início, a atraía.
Lendo sobre a sua vida em conjunto, não consigo deixar de pensar num casal de amigos de que aqui já falei. Éramos três casais muito amigos. Eles colegas de curso do primeiro ao último ano e depois inseparáveis. Enquanto estudávamos e namorávamos, já ela se destacava. Qualquer dos restantes apreciava a boa vida, conversar, rir, flanar, sair à noite. Ela acompanhava-nos mas, geralmente, punha-se ao largo pois tinha sempre que estudar. Exigentíssima para consigo própria. Das três raparigas, eu achava que ela era a mais bonita. Vistosa. E com uma voz com um timbre enganadoramente sensual. Ele, pelo contrário, era o mais feio dos três rapazes. Uma simpatia, um bem disposto mas, fisicamente, nada de fantástico. Pois os ciúmes que ela tinha dele não dá para explicar. Achava que todas as mulheres do mundo o queriam roubar. Por mais que lhe demonstrássemos a irracionalidade daquela paranóia, nada a convencia. Nem o espelho. Era possessiva, quase neurótica, quase obsessiva. E aqui o 'quase' talvez seja bondade minha.
Num ambiente perfeitamente descontraído em que havia sempre algum a dizer alguma maluquice que deixava todos a rir, ela raramente ria e acho que nunca estava verdadeiramente tranquila. Todos se metiam com ela mas ela, verdade seja dita, também não se importava com isso e dizia francamente o que achava de cada um, não raramente opiniões pouco abonatórias.
Casaram. A paixão dela por ele e, estou em crer, a dele por ela eram uma fogueira que os queimava. Aos fins de semana circulávamas de casa em casa. Contudo, nunca tínhamos vontade de ir a casa deles. Era normal chegarmos lá e o almoço não estar feito e muitas vezes tive que ir eu para a cozinha ver o que se conseguia arranjar. Nesses dias ela estava com os olhos inchados, ele triste e apagado. O mais desconcertante é que ele mostrava pudor enquanto ela falava abertamente do que se passava, descrevendo crises perfeitamente excessivas, sempre por razões absurdas.
Sendo médica, mostrava o desconhecimento mais incrível que se possa imaginar a nível sexual. E, uma vez mais, não se coibia de colocar abertamente as mais desconcertantes dúvidas. Felizmente algumas que se referiam às preferências sexuais dele foram-me colocadas só a mim, sem que o pobre assistisse às minhas lições. Ela tomava por taras inaceitáveis as práticas mais banais. E não intuía nada nem sentia vontade de se aventurar. Perguntava-me, ao pormenor, como fazer e eu, entre estupefacta e divertida, lá lhe explicava tintim por tintim.
O curioso nisto é que, apesar de tudo, ele tinha uma paciência infinita para com a sua bela e bizarra mulher.
Viviam num casarão: pé direito muito alto, chão de soalho corrido, grandes portas com janela, janelas com varandins. A decoração era também atípica, muito clássica, grandes tapeçarias, grandes castiçais. Tinha um piano no qual a mãe, uma senhora com um porte distinto que, por vezes passava por lá, tocava como se estivesse a actuar perante grande plateia. A filha ignorava a mãe. Aliás, não escondia o desprezo que sentia por aquelas manifestações artísticas mas meio despropositadas. Nós nem sabíamos bem como lidar com a senhora mas ela quase punha a mãe porta fora.
Mais tarde tiveram uma filha, ao fim de um processo que quase o deixou a ele à beira da loucura. Os instintos maternais dela eram nulos. Gostava da filha mas quase como se gosta de um doente de quem se trata por dever médico.
Tinha a menina um mês, ao irmos passar o domingo a casa deles, à chegada, outra vez uma crise. Contou-me que tinha tentado suicidar-se. A razão, outra vez, uma ninharia absurda. Tudo ela transformava numa tempestade. Mas quase me comunicava a tentativa de suicídio como se de uma fatalidade inevitável se tratasse. Ele destroçado.
Um dia, os três casais juntos e ela, como sempre, a embirrar com ele, doida de ciúmes, sempre à beira de atear um incêndio. Às tantas, o outro nosso amigo, farto de a aturar disse: ' Eh pá, grande pancada...' E virando-se para o marido dela, perguntou 'Éh pá, tu nunca pensaste em dar-lhe um sopapo..?.'. Brincava. Mas ela, muito séria, disse: 'Já deu. Volta e meia bate-me'. Ele quase se enfiou pelo chão abaixo. Mas ela continuou, como se dissesse a coisa mais normal do mundo: 'Mas eu não me fico e dou-lhe também'.
Ficámos perplexos, incomodados.
Os anos iam passando e sempre isto. Já os nossos filhos crescidinhos, tinha eu uma senhora que ia buscá-los à escola e, enquanto nós não chegávamos, limpava a casa. Por essa altura, andava ela à procura de uma empregada a tempo inteiro. A filha da que cá trabalhava, com o ensino secundário completo, andava à procura de emprego. Falei-lhes na possibilidade. Gostaram-se e para lá foi a rapariga trabalhar.
Ganhava bem e o trabalho não era puxado até porque a minha amiga, médica bastante ocupada e zero de apetênia pelas coisas da casa, também não exigia o que quer que fosse. E gostava imenso da ama que tinha arranjado para a filha. Delegava nela toda a responsabilidade -- da casa, da filha, das compras, das decisões domésticas de qualquer tipo -- e confiava na sua competência a 100%.
A questão era aquilo a que a rapariga assistia. Dizia que cenas de violência insuportáveis, que a senhora tinha tamanha paixão pelo marido e tantos ciúmes que o levava à loucura, que temia pelo que poderia acontecer. A mãe contava-me assustada: 'Aquilo ainda acaba mal. Pancadaria de morte, tanto da parte dela como da dele. A minha filha tem medo. Diz que não aguenta'.
Demitiu-se.
Algum tempo depois, separaram-se. Arrasados.
Continuámos a dar-nos com ele.
Ela afastou-se. Entrou numa vida que soubémos envolver alguns excessos. Aparentemente queria fazer ciúmes ao ex-marido. Manteve-se uma médica exemplar e a mesma bela mulher.
Ele andou de namorada em namorada. Cheguei a um ponto que nunca sabia se era nova ou se já me tinha sido apresentada.
A filha tornou-se punk. A última vez que a vi tinha cabelo encarnado, uma trança fininha descendo dos lados da cabeça, saia comprida, aspecto estranho. Não nos reconheceu.
Mas isto tudo para chegar ao ponto de partida: em casos assim, podemos acusar o homem de violência? Ou melhor: podemos acusá-lo só a ele? Ou, antes, é toda a relação que é doentia, tresloucada?
A vida das pessoas por vezes encerra sementes de destruição e a leitura que se faz dos acontecimentos deve ter isso em consideração.
E, claro está -- e como penso que dá para perceber -- este é um tema que me incomoda bastante pois se há situação em que é impossível encontrar o lado dos bons e dos maus ou encontrar culpados, esta é, seguramente, uma delas. É, à partida, uma equação impossível.
Transcrevo de um dos artigos aquilo que me parece descrever bem a situação vivida pelo casal:
The writing of both poets overflows with violent images, of which letter-burning is probably the most innocuous example. Both she and Hughes were scenery-chewers, people who saw themselves as larger than life.
Plath mythologised marriage and procreation as the source of her inspiration; Hughes concurred, and claimed the primal urges of hunting and art were at one. The legend, in other words, was produced by Plath and Hughes themselves, and violence was at its heart, a violence that was never merely symbolic. Her death made that all too clear.
Everything ended in a rage, and in the determination of tragedy. Anger – as it tends to – left everyone polarised. Love was thwarted, and perverted; sorrow was appropriated and refashioned; their story was used to act out a cultural drama which was only partly about the battle of the sexes. It was also about our desire to know, a desire that writers always invoke and then frustrate. In Burning the Letters Plath warned: “Only they have nothing to say to anybody. I have seen to that.” How symbolic can we get.
No post a seguir a este enviei à Margarida palavras escritas para um poeta, jardins, bichos, flores à beira rio. Tudo para ver se consigo mostrar como gostei do chapéu de rosas que no outro dia me enviou.
Mais abaixo ainda tenho uma história sobre juízes num motel, uma cena no futebol que mete um tal de Macedo e, ainda, uma colagem da Lovely Lídia sobre os banqueiros portugueses.
Mas tudo isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.
O que é este PSD, o de Passos Coelho? Não é o teu.
Não! Não é o PSD, mas talvez possa voltar a ser o que foi, se mudarem os órgãos dirigentes. É difícil, porque os que lá estão agarram-se com unhas e dentes. Fizeram daquilo a sua vida. Ou melhor, a sua vidinha. É um mundo que me é completamente estranho e, pior do que isso, e não me quero enfeitar, que me repugna.
Entristece-te ver o partido refém de interesses que rejeitas e sem inteligência programática?
Entristece-me e revolta-me. Revolta-me. Andámos nós a dar o coiro ao manifesto para chegarmos a este estado de coisas.
Donde vem esta nova geração? Há quem diga que é um partido de retornados nos lugares dirigentes. Gente que quando chegou de África se sentiu rejeitada por Portugal, estrangeira. Há quem diga que são os apparatchiks que nunca passariam de ínfimos actores no velho PSD. Concordas?
É verdade tudo isso. É a gestão e aproveitamento dos interesses.
Se Sá Carneiro não tivesse morrido o partido teria tido outro rumo?
Tinha, Indiscutivelmente. O Barroso já é um produto híbrido. E no mau sentido da palavra. É o que os franceses chamam "un profiteur". Um aproveitador.
E a figura de Cavaco? Às vezes penso o que teria sido um encontro dele com Sá Carneiro. Uma coisa cómico. O cavaquismo tornou-se o PSD e o país tornou-se o cavaquismo.
Cómica ou trágica. Tens toda a razão. Por incrível que pareça, o PSD tornou-se o cavaquismo. E de que maneira. Cavaco é um elemento espúrio.
Fundaste o PPD. Não me digas que ser expulso de algo que se fundou não traz violência emocional. Amargura?
Claro que traz, mas esta gente que domina o PPD é tão baixa que não me afecta. É gente sem história, sem princípios. Tudo é possível. Se me expulsassem não me fazia mossa. Amargura não, desilusão sim.
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O que acima se escreveu são excertos da entrevista concedida por Miguel Veiga a Clara Ferreira Alves para a Revista do Expresso deste sábado. Miguel Veiga, nascido em 1936 no Porto, é advogado, portuense, fundador do PSD, de que foi vice-presidente, membro de comissões políticas e conselhos nacionais (e recentemente ameaçado de expulsão por ter apoiado Rui Moreira para a Câmara do Porto). Vive na Foz. Gosta de livros, pintura e escultura.
(E, como acima se mostrou, é pessoa de duras verdades. Mas também de grandes amizades. Sobre a sua amizade com Mário Soares diz: Uma indestrutível amizade. Sempre apoiei as candidaturas presidenciais do Mário soares. Sou um amigo e admirador indefectível. É o grande político do século XX. Um internacionalista.]
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O vídeo lá em cima mostra The Night Dances e transcrevo parte do texto que acompanha o vídeo:
Explore the subtleties of Benjamin Britten's composition for cello through the lens of the American Poet, Sylvia Plath, considered one of the leading cultivators of confessional poetry. Actress Charlotte Rampling reads in French and English, and Sonia Wieder-Atherton performs cello suites of Britten, in a moving performance, the only UK & Ireland date before a 2015 tour.
As imagens que usei ao longo do texto são fotografias que fiz este domingo no Centro de Arte Moderna da Gulbenkian e mostram respectivamente obras de Paula Rego, Graça Morais, Júlio Pomar e Mário Eloy. Aliás a Gulbenkian fervilha de exposições imperdíveis. A quem possa, recomendo vivamente uma deslocação até lá.
Depois há o maravilhoso jardim. A zona do grande relvado este domingo estava cheia de gente, uma alegria, Claro que há depois os mil recantos para alguma privacidade, leitura sossegada, namoro recatado. Mas na zona mais ampla, o chilreo dos pássaros misturava-se com o riso das crianças. Muito bom.
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Relembro: seguindo por aí abaixo, encontrarão, meus Caros, mais dois posts que têm de tudo um pouco (Rilke, Pixinguinha, gatos e gaivotas, juízes num motel, o Macedo, etc).
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda-feira.