Mostrar mensagens com a etiqueta Vida. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Vida. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, julho 23, 2026

Da próxima vez

 

No acelerar dos dias, entre toda a espuma da infinita torrente informativa que nos submerge, grande parte do que é importante passa desapercebido. Por experiência própria, agora que tenho conta de instagram, sei que se queremos acompanhar tudo o que o algoritmo tem para nos mostrar, não paramos de escorregar o dedo pelo ecran para ver a notícia seguinte e a outra e a outra e a outra. E tantas vezes, aquilo que não compreendemos bem acaba por se esvair entre tudo o que é sugado pela máquina trituradora do que já foi visto.

No outro dia li uma notícia. E como me tem acontecido com alguma frequência, sempre que é uma aberração, a minha reacção é a de pensar que talvez não seja credível. Faço mal. O inteligente seria ir investigar. Mas continuo a deslizar, penso que depois logo vejo se é mesmo verdade, e o que acontece é que nunca mais me lembro.

E, tal como tem acontecido com todas as aberrações, venho a verificar, depois, que, afinal, era mesmo verdade.

Quando um assunto é nebuloso, fora do nosso controlo, coisa complexa, há quem tenda a não querer saber. Uma reacção do tipo 'entrega para deus'. Só que, neste caso, não é bem a deus que se entrega. É à Open Ai, à Anthropic, à Gemini, sabe-se lá a quem.

Transcrevo: "Modelo de IA da OpenAI age por conta própria e lança ciberataque durante testes de segurança"

"(...) A OpenAI afirmou que o que aconteceu foi um incidente "sem precedentes" e está a conduzir uma investigação em conjunto com a Hugging Face, cujo diretor, Clement Delangue, afirmou numa publicação no X que é "impressionante que tudo isto aconteceu de forma autónoma".

Só que não é apenas impressionante: é a prova provada dos reais riscos que todos corremos com a corrida desenfreada nos domínios da Inteligência Artificial. O mercado bolsista pressiona mais e mais ganhos e as empresas são pressionadas a entregar mais e mais, a chegar mais e mais longe. 

Enquanto houver quem descubra o que vai acontecendo ou enquanto houver quem vá denunciado as linhas vermelhas que, aos poucos, vão sendo pisadas, talvez os riscos vão sendo amortecidos. Mas pode acontecer que um dia algo de muito mau aconteça sem que ninguém vá a tempo de travar.

Não é alarmismo. É a realidade. Os riscos começam a apertar o cerco. Como será da próxima vez?

_____________________________________

Ao acordar e ao dar uma vista de olhos pelas notícias vi o que também não queria ver: Luís Represas saiu de cena. Não devia. A sua voz parecia eterna. A sua voz mobilizava e emocionava multidões. Ficam os vídeos, os discos. É certo. E é também certo que ninguém cá fica. Mas ele foi cedo demais.

Como sempre acontece, quando sei destas notícias, tento compreender. Tento ver nas imagens que agora nos vão aparecendo se já havia indícios. Em Março esteve no concerto e, que se tivesse percebido, parecia bem, não parecia debilitado, cantava, não arfava nem tossia. 

Dois familiares muito próximos morreram com cancro no pulmão. Foram anos de sofrimento com tratamentos horríveis. E tinham tosse, falta de ar, custava-lhes a respirar, tudo lhes doía. Um calvário. Mas, no caso da minha mãe, não foi assim. Não soubémos de nada até que já estava às portas da morte. Será que com o Luís Represas foi também assim? Saberia ele, no concerto de Março, que estava a escassos três ou quatro meses de se despedir deste mundo? Faz-me isso muita impressão. Ao ver agora as suas imagens, penso que estava mal encarado. Aliás, já o tinha achado envelhecido, enrugado. Na altura pensava apenas que a idade não perdoa, que era normal que, quase aos 70, não tivesse a mesma carinha de menino que sempre teve. Mas, agora que sei, penso que, se calhar, era já a morte, inclemente, a galope dentro dele. Se calhar é mórbido eu querer perceber o que talvez não tenha nada que perceber. Mas faz-me isto muita impressão. Ele e o João Gil e os outros ali em palco, todos reunidos. Saberiam que o fim dele estava para breve? Fico triste. Nem todas as perdas são assim, mas esta é. A morte não deveria ter levado já o Luís Represas. 

Não haverá próxima vez.


Desejo-vos um dia feliz

terça-feira, junho 23, 2026

Susie e Bella, duas amigas

 

Um dia atarefado com coisas cá minhas, mas incomodada com o calorão abafado que a mim me pesa e tira o fôlego. Em dias assim, as coisas custam-me. No domingo, ao fim do dia, reguei alguns vasos e tinha pensado deixar para esta segunda-feira os vasos dos terraços e as buganvílias; mas não consegui. Não sei se a pressão atmosférica faz baixar a minha tensão arterial ou se é outra coisa, o que sei é que a minha energia parece ficar tolhida.

Ainda assim, fui ao ginásio. Muita gente que nunca vi antes. Algumas pessoas vão com personal trainers e sujeitam-se a verdadeiras torturas. Outros sujeitam-se às torturas por si mesmos. Hoje um homem, com uns gémeos de uma grossura irreal, dobrava-se ao meio, as pernas presas, e elevava e baixava o tronco pegando numa grande bola que parecia pesar uma tonelada. Ao vê-lo naquele esforço insano, dei por mim a pensar: 'Só espero que nunca morra nenhum enquanto eu aqui estou'. Um outro, bem mais velho, com idade para ser pai do outro, estava deitado, um altere em cada mão, abria os braços e depois fechava-os sobre o peito. E eu pensei: 'Se lhe falha a força e uma daquelas coisas lhe cai em cima, esborracha-o'. E não sei se já falei de uma a quem eu e o meu marido nos referimos por cavalona: deve medir um metro e oitenta ou mais, é escultural, usa uns trajes que lhe salientam os glúeos, um top curto, soutien na realidade, e atira-se às máquinas com um afinco que me deixa de boca aberta. Usa um rabo de cavalo ao alto e desloca-se entre as máquinas com passada larga e uma pressa carregada de violência que parece ser apenas vontade de que ninguém lhe ocupe o lugar. Há também rapazes e raparigas, praticamente das mesmas idades, que, em vez de olharem uns para os outros, de flirtarem ou, pelo menos, tentarem perceber se há ali alguma potencial afinidade, não senhor, no intervalo de cada exercício enfiam os rostos nos telemóveis, por vezes sorriem com o que veem, escrevem mensagens mas, sobretudo, deslizam o dedo nos ecrãs. 

Se eu tivesse lata, pedia licença para fotografar ou filmar todos esses meus parceiros, e gostava de lhes fazer perguntas. Mas não tenho. Fico calada, a olhar de soslaio.

Faços os meus exercícios modestos e lembro-me de uma coisa que li no livro da Siri Hustvedt: não é possível escrever sobre o que vai passar-se a seguir. Por isso, eu sei o que fazia e como era quando tinha a idade deles. Eles não sabem como serão e o que farão quando tiverem a minha idade.

Bem. Filosofia à parte.

O que sei é que, com este calor e a preguiça que desce em mim, agora à noite apeteceu-me uma coisa soft, light, tranquila. E nada como as conversas simpáticas, afáveis, com tempo, de Bella Freud com os seus convidados. Desta vez, a conversa é com uma amiga de longa data, a serena Susie Cave que eu apenas conhecia de ser mulher de Nick Cave. 

Aqui, Susie, impecavelmente vestida, calçada e penteada, conversa sobre o amor que bateu forte logo que os olhares dela e de Nick se cruzaram, fala de como começou a sua carreira de modelo, fala sobre o desgosto que quase a devorou quando um dos filhos morreu, fala do seu trabalho como designer de moda e como isso foi a mão que a salvou do abismo. É uma conversa pausada que condiz com o belo rosto de Susie e com o olhar carinhoso de Bella. Sabe bem ouvi-las.

Susie Cave fala sobre Steven Meisel e o seu encontro com Nick Cave | Fashion Neurosis com Bella Freud

Susie Cave é uma modelo e estilista britânica. A sua carreira começou quando foi descoberta durante umas férias em Nova Iorque pela famosa agente de modelos Bethann Hardison, que a encaminhou imediatamente para Steven Meisel, aconselhando-a a regressar à escola, uma vez que tinha apenas 14 anos. A sua beleza marcante e presença etérea rapidamente lhe valeram um lugar em campanhas de alta costura e capas de revistas, incluindo, mais recentemente, uma campanha de perfumes da Gucci e a capa da revista Another Magazine em 2020. Em 2015, Susie lançou a sua marca de moda, The Vampire's Wife, que ficou conhecida pela sua mistura de estética gótica e romântica. A Vogue descreveu o seu inconfundível vestido como o "vestido do momento", e a The Vampire's Wife rapidamente conquistou um público fiel, atraindo celebridades como Florence Welch, Cate Blanchett e Kate, Princesa de Gales, entre as suas clientes. Os designs de Susie são um reflexo do seu estilo pessoal — romântico, misterioso e profundamente artístico — consolidando-a como uma voz singular na indústria da moda. É casada com Nick Cave, vocalista da banda The Bad Seeds. Neste episódio de Fashion Neurosis, Susie Cave e Bella Freud conversam sobre como foi descoberta pela lendária Bethann Hardison e o seu encontro com Steven Meisel aos 14 anos; a primeira vez que viu o seu futuro marido, Nick Cave, num dos desfiles de Bella; e como o luto pode ser canalizado através da criatividade.


Desejo-vos um belo dia

segunda-feira, junho 15, 2026

Depois de um valente susto, um milagre. Talvez, até, dois milagres.
Talvez até por isso, faça coro com as pessoas do vídeo: há que dar valor às coisas boas da vida

 

Este domingo, um dia tão lindo, apanhei um susto enorme: o meu cãobeludo estava com uma bola enorme, no mínimo do tamanho de um ovo, na 'barbela' ou lá como se chama aquela parte da pele do pescoço, ali naquela zona abaixo do queixo, uma bola grande ali pendurada. Sempre fui maricas com os meus e, desde que tivemos a nossa cãzinha, ela, de certa forma, passou a fazer parte dos meus. E este cão, que nos tem dado tantos trabalhos, também o é. À sua maneira, mas é. Claro que fui logo para a IA e recebi possibilidades, umas assim-assim, outras talvez e outras mais perturbadoras. Uma bola tão grande não era forçosamente muito tranquilizante. É que foi tosquiado no fim da semana (para evitar mais sarilhos com a porcaria das praganas, que ainda há três ou quatro dias saiu de uma infecção numa pata por causa de uma) e, portanto, poderia já a ter e não termos visto, debaixo de todo aquele pelo. Nestas alturas a minha energia esvai-se. Não são só as piores perspectivas que me assustam, é todo o processo, o levá-lo ao veterinário que ele odeia, o ter que fazer tratamentos que ele odeia e não permite, transformando tudo numa complicação, e é, sobretudo o receio do que pode seguir-se. Felizmente, lembrei-me de perguntar ao grupo da família, e no sábado tinham cá estado todos, incluindo a fazer-lhe festas, se tinham reparado. A minha filha respondeu logo que não, e mandou fotografias que lhe tinha tirado: zero bola.

Já tinha marcado consulta, mas a certeza de que todo aquele volume se tinha formado em menos de 24 horas assustou-me. Liguei à veterinária que me disse que provavelmente era uma reacção às vacinas que levou no mesmo dia. Que lhe fizesse massagem circular ao de leve. A verdade é que, depois de ter estado o dia todo sem se mexer, sem comer ou beber água -- o que nos deixou ainda mais apreensivos --, de repente, parece que despertou, bebeu, bebeu, bebeu água como se não houvesse amanhã, comeu, correu, correu e saltou e, aos poucos, com o exercício e as massagens, a bolazona foi ficando mais reduzida.

Portanto, ao fim do dia, comecei a respirar de alívio.

Fui, então, para o jardim, respirei, fotografei, agradeci aos deuses, às flores, às árvores, aos pássaros, aos céus e, no meio do encantamento, descobri um botão de magnólia. Um único. Outro fenómeno.

Quando está com os ramos nus, a magnólia rebenta em mil flores. Depois caem as flores e nascem as folhas. Está agora assim, verde, frondosa. E já não nascem mais flores. Portanto, que milagre é este agora eu não sei. Mas adorei. Fotografei-a de vários ângulos. Há que documentar os milagres.

E o passeio que demos ao fim do dia soube-me que nem ginjas. Antes, quando tínhamos ido andar com o pobrezito, arrastava-se, incomodado, aquela bolazona ali a balouçar, pendurada, e, se calhar, todo ele sob efeito de alguma reacção, sei lá, bem não estava. 

Enfim, parece que o susto já passou. Mas amanhã lá vamos outra vez para a clínica veterinária. Ainda há bocado o meu marido dizia que não sabia como fazem as pessoas de menos posses. No espaço de cerca de uma semana, entre tratamento da infecção da pragana, tosquia, vacinas e a ração que encomendei ontem já lá vão para cima de trezentos e tal euros. E, que eu saiba, não há nenhuma versão económica para tratamentos veterinários no caso de donos de menores recursos. 

Mas adiante. 

Agora, ao sentar-me aqui, vi o vídeo que partilho de um rapaz que faz entrevistas interessantes. Aqui entrevista pessoas de maior idade, ao acaso, e, no fundo, leva-as a reflectir sobre o que fizeram de bem ou de mal na sua vida. Gosto de ouvir. Revejo-me em muito do que ouço, revejo-me no gosto de viver a vida com leveza, no bom que é a gente maravilhar-se com as coisas simples da vida.

Perguntar a pessoas de 70 anos sobre os seus maiores arrependimentos na vida

Neste vídeo, perguntamos a pessoas desconhecidas na casa dos 60, 70 e 80 anos, algumas das pessoas mais velhas e experientes do planeta, sobre os seus maiores erros e arrependimentos na vida, conselhos que dariam a si próprias mais jovens e outros conselhos valiosos que gostariam de ter aprendido mais cedo. Vídeo gravado em Montreal, Canadá.


Desejo-vos uma boa semana a começar por esta segunta-feira

quinta-feira, junho 04, 2026

NotebookLM

 

Estava a falar com o meu filho sobre as minhas experimentações em volta das diferentes ferramentas de Inteligência Artificial e ele falou-me no Notebook LM, uma ferramenta google que cria bases de conhecimentos privadas, analisando a informação que lá metemos, permitindo associar-lhe notas ou o que quisermos.

Fiquei logo altamente curiosa. No outro dia tinha feito uma experiência com o Claude, enfiando-lhe uma série de exames médicos relacionados com um episódio cardíaco e fiquei espantada com os resultados.

Hoje, mal me apanhei aqui no sofá, fui experimentar este NotebookLM. 

O meu ponto fraco, a nível físico, são as articulações, em especial os joelhos. Penso que seja um misto de genética, de anos de vida sedentária, intercalados por grandes esforços físicos. In heaven acartei com toneladas de pedras. A minha mãe ficava aterrada quando me via, dizia que o meu corpo iria dar de si. E, uma vez, falaram-me que não havia nada melhor para o chão de madeira do que a vaselina líquida. Claro que fui experimentar. Estava a aplicá-la, quando desataram a tocar à campainha. Aquilo era para dar e depois secar, pois, quando se dava ficava manteiga, deslizava como sei lá o quê. Mas, para ir ver quem era, levantei-me à pressa e, esquecida de ter cuidado, levantei voo, e de que maneira, e aterrei aparatosamente de joelhos. Tive uma dor monumental e pensei que tinha esfanicado os joelhos, partido todas as pecinhas que os compõem. Mas não, ficaram só muito doridos. Durante bastante tempo, andei aflita. Mas nem me ocorreu ir ao médico, limitei-me a esperar que passasse. E passou. Mas, seja porque é de família (o lado paterno padeceu de dores), ou dos maus tratos, a verdade é que volta e meia tenho alguma inflamação articular ou alguma dor muscular. Como durante anos frequentei o mesmo local de saúde, tenho praticamente todo o meu historial médico lá guardado. Então, agora estive a dar-me ao trabalho de entrar no portal, ver exame a exame, e, se tivesse a ver com o tema ou com análises feitas numa dessas alturas, descarreguei. 

Com tudo descarregadinho, abri o dito NotebookLM e criei o meu primeiro notebook privado. Meti lá para dentro 20 relatórios médicos (incluindo algumas imagens). E pedi uma cronologia e uma análise.

E a vantagem é que agora fica ali tudo guardadinho naquele notebook, não apenas os exames, como as análises 'dele' e, ainda, toda a conversa subsequente -- porque, claro está, desatei a fazer perguntas. E aquilo vai mais longe: sugere perguntas, e algumas pertinentes e de que eu nem me lembraria. Tudo guardado.

E o que 'ele' concluiu, mais uma vez, deixa-me a modos que siderada. E deixa-me assim porque constato que só uma máquina, uma máquina super aditivada, consegue, num abrir e piscar de olhos, ler todos os relatórios, analisar evoluções ao longo de anos, cruzar informação. Claro que ninguém vai para o médico de família carregado de relatórios desde antes de cristo até agora. Não há tempo ou capacidade de análise imediata de tanta informação. Impossível. Só tirando apontamentos e mais apontamentos -- mas quem é que teria tempo para fazer isso?

Perante o que vi, não tenho dúvidas que, para cada utente do SNS, deveria haver uma base de dados que juntasse todo o seu historial clínico, proveniente de onde fosse, incluindo de hospitais privados. E, de cada vez que qualquer médico, estivesse onde estivesse, deveria aceder a esse historial, tendo-lhe a Inteligência Artificial preparado um relatório de síntese, alertando para os pontos críticos, sugerindo questões ou novos exames.

No meu caso concreto, não vou estar agora aqui a entrar em detalhes que só me interessam a mim mas, por exemplo, 'ele' (ele, o notebookLM), assinalou como causa provável para as minhas crises algo de que nunca nenhum médico me falou, provavelmente porque não repararam e porque isso ficou perdido num relatório que nunca mais ninguém viu:  Constatou, num rx de 2016, o seguinte ->  Desequilíbrio Mecânico da Bacia, concretamente um supradesnivelamento de 8 mm à direita. E sugere que este desnivelamento pode ser a causa de grande parte dos problemas. Se for, resolve-se com palmilha. Imagine-se. Se ele, ele com aspas, tiver razão, os problemas que eu poderia ter evitado... Mas é a primeira vez que estou a saber disto.

Depois detectou, ao longo dos anos, uma tendência relativa ao funcionamento da tiroide. Nas últimas análises em que isso aparecia, e já lá vão uns 4 anos, ainda não era crítico mas a tender para o sub-clínico. No entanto, nunca mais ninguém pediu essa análise. Se já estiver mais elevado, também explicaria muita coisa.

A Inteligência Artificial é uma coisa tão extraordinária que, nas mãos erradas, representa riscos existenciais. E disso eu não tenho dúvidas. Mas, bem usada, traz vantagens se calhar também existenciais. Quando se diz que dentro de pouco tempo terá sido descoberta a cura para todas as doenças, isso tem tanto de magnífico como se terrífico. 

Agora, pensando apenas em usos benéficos, há que considerar o tempo de aprendizagem, a adaptação de todos, da sociedade no seu conjunto. Em vez de se andar a querer impingir leis laborais ou a discutir tretas, não seria mais ajuizado se a sociedade se mobilizasse para ver como lidar com a Inteligência Artificial? Como assegurar o seu bom uso? Como potenciar os seus benefícios? E, ao mesmo tempo, como impor linhas vermelhas?

Por exemplo: tendo eu esta informação clínica a meu respeito, compilada, analisada, interpretada, posso eu fazer alguma coisa com isso? Duvido. Para começar tenho que pensar como é que, com muito jeitinho, posso transmitir alguma coisa ao meu médico de família sem que ele fique furioso, a achar que quero saber mais que ele.

É um tema, este. E coloca-se em todas as profissões, ou quase todas.

Neste caso da saúde, se eu estivesse no Ministério da Saúde, encomendava já o projecto de que acima falei: criar um modelo de IA para concentrar toda a informação clínica de todos os utentes num único sistema, criando 'notebooks' para cada um, e gerando os relatórios, alertas e sugestões para que cada médico, ao receber cada doente, tivesse essa informação. 

Enfim. Não tenhamos dúvidas: estamos a entrar num mundo novo que era bom que fosse admirável (no bom sentido).

_______________________________

Desejo-vos um bom feriado

domingo, maio 24, 2026

Ainda não faço ideia

 

Sábado animado, a começar com uma ida ao mercado comprar peixe de mar. O meu filho gosta de fazer grelhados, ofereceu-se para tratar do assunto. Com o calor que está, se eu pedisse isso ao meu marido, mandava-me passear ou dizia que fosse eu destilar. Mas o meu filho gosta, e domina a arte do fogo. Sabe atear as brasas, sabe colocar o peixe no momento certo, sabe o momento de retirar. 

E o peixe, que era gigante, estava fresquíssimo, ainda com aquela goma de quem foi apanhado há pouco, cheio de sangue, todo ele feito de mar. Fez-me lembrar quando amanhava o peixe das pescarias do meu avô ou do meu pai, durante o período em que ele resolveu ser pescador (amador, à linha).

Mas, claro, o menino mais novo protestou, quase amuou. E o seguinte também torceu a cara. Preferem carne. Além do mais, lá na praça, pedi para não escamarem para que a pele não se pegasse à grelha, e um deles gosta de comer a pele do peixe. Um outro diz que gostou mas não sei se não estava apenas a querer simpático pois não o vi a repetir e a comer com o mesmo entusiasmo de quando é entrecosto, bolonhesa ou cozido à portuguesa. A menina gostou. E o mais velho não compareceu, foi passar o fim de semana com amigos para festejar um aniversário.

De resto, o tempo anda estranho. Depois da subida a pique das temperaturas, à tarde o céu toldou, estava até húmido. Quente mas húmido.

De manhã o meu marido viu um pássaro quase sem conseguir andar. Conseguiu que ele fosse para o lado da horta, estaria mais a salvo. Mas, quando me contou, pensei que, se calhar, deveria ter dado água ao bichinho. Com estes calores, se calhar desidratam-se. Mas ainda bem que o cão não estava por perto, senão ia haver confusão. Nem quero pensar.

Estas flutuações de tempo parece que não estão a fazer-me muito bem. A noite passada tive uma insónia. Não sei porquê. De vez em quando, talvez uma noite de quinze em quinze dias, não sei, quase não durmo. E, quando quase não durmo, levanto-me com dores musculares. 

Poderia pensar: é a idade, a p... da idade. Mas gosto de ir ao fundo do problema: o que se passa no meu organismo para, de vez em quando, o sono se desregular? E o que se passa no meu corpo para, quase sempre que mal durmo, me levantar com dores no corpo? Já fui à consulta da IA e o ChatGPT e o Gemini são unânimes pelo que já sei que devo tentar que me prescrevam algumas análises para ver se não estou para aqui com magnésio a menos ou ferro a mais. O corpo humano é uma fábrica que requer condução cuidada, cautelosa afinação de parâmetros.

Quero ver se não me deito muito tarde pois a privação de sono notoriamente destrambelha-me para aqui qualquer coisa. Depois de passar uma vida inteira a dormir pouco e a andar sempre nas horas, fresca como uma alface, agora, de vez em quando é isto, um vidrinho.

E estava há pouco a espreitar o youtube quando me apareceu o vídeo abaixo. Parecia-me a Maria João Pires e fui logo ver, com curiosidade. Afinal não é. Mas é uma mulher com piada. Quatro casamentos e nenhum deu certo. E a graça e a objectividade com que fala disso... E fala de outra coisa, essa em que me revejo. Diz que ao fim de muitos anos, organizaram um fim de semana de reencontro de colegas de escola. E que a atenção que agora dedicam umas às outras é muito diferente de quando eram miúdas em que sabiam lá se alguma passava fome ou se tinha problemas em casa. Também comigo acontece não ter a mínima ideia de quem eram aquelas pessoas, quando andávamos na escola. Talvez por ser míope, habituei-me a não me pôr a olhar para as pessoas pois parece até coisa de mau gosto. Portanto, não vejo, passo ao lado. Depois, sou despassarada, distraída, interesso-me por algumas coisas, ignoro as demais. Acresce que, nessa altura, andava sempre apaixonada ou a gerir diferentes paixões. Pouco tempo me sobrava. Tinha o meu grupo de amigas e amigos com quem andava sempre no laré e em festas e idas ao cinema e à praia, e o resto era um vasto grupo de pessoas que por ali andava. Agora tenho curiosidade, sinto simpatia.

Partilho, pois, o vídeo. Dá para escolher legendas em português. (E vejam lá se, assim de repente, não parece a Maria João Pires)

Ainda não faço ideia

Reflections of Life

Passamos grande parte da nossa vida na esperança de que um dia saberemos finalmente exatamente o que estamos a fazer. Que chegaremos a alguma resposta clara e definitiva. Mas talvez parte de ser humano seja aprender a viver com serenidade dentro da incerteza.

Há momentos em que a vida nos pede para olharmos honestamente para nós próprios, para os padrões que repetimos, as histórias que carregamos e os momentos em que nos perdemos demasiado no nosso próprio mundo. Pode ser um trabalho desconfortável, mas também pode abrir as portas a novas perspetivas, em qualquer idade.

Talvez a sabedoria não esteja em ter todas as respostas. Talvez esteja simplesmente em mantermo-nos abertos, prestar atenção e questionar qual a melhor forma de utilizar o tempo que temos. Para nós próprios, uns para os outros e para a pequena parte que cada um desempenha no todo maior.

Com Célia Beaumont. Filmado em Mossel Bay, África do Sul.


Desejo-vos um belo dia de domingo

terça-feira, abril 07, 2026

Instintos

 

Se cada um de nós é uma improbabilidade, um milagre, o que acontece à nossa volta não o é menos. Como as células se dividem, multiplicam, agregam, ajeitam, e, no fim, surpresa, surpresa, sai um patinho, um peixinho, uma baleiazinha -- milagres. E como, uma vez nascidos, logo começam a respirar, a alimentar-se, a movimentar-se. E como se fazem à vida e, logo depois, se reproduzem e continuam o ciclo vital. Milagres.

E o mesmo, mais coisa menos coisa, com flores, árvores. Tudo se reproduz, tudo se alimenta, tudo sabe como sobreviver.

O vídeo que abaixo partilho é daqueles que, de tão simples, poderia servir para contar uma história infantil. Os patinhos-bebés que falam entre si mesmo antes de nascerem, a mamã pata que sabe que tem que arriscar e levar os seus filhos a aprender, a procurar comida, os filhotes que se inquietam quando a mamã-pata os deixa, e como, percebendo que têm que se afoitar, se atiram do precipício para a procurar. Tudo muito belo, muito comovente. O instinto da maternidade e da sobrevivência aqui, de forma cristalina -- instintos vitais.

A vida começa depressa para estes nove patinhos

segunda-feira, abril 06, 2026

Somos o acontecimento mais raro do universo e somos, ao mesmo tempo, o universo a observar-se a si próprio

 

Não vou falar de política, Isabel. Nem vou falar dos dementes que, com as mãos sujas de sangue, tentando iludir os ignorantes, invocam o nome de Deus para justificar os crimes que cometem. Não vou falar deste mundo que, em parte, parece estar esquecido das conquistas da humanidade, ameaçando a paz e a sustentabilidade do planeta e de tantas vidas, humanas e não só.

Hoje vou apenas falar da bênção de existirmos, nós, ocorrências improváveis.


Vivemos num universo de dimensões quase incompreensíveis. As estimativas actuais apontam para cerca de 2 biliões de galáxias, cada uma com centenas de milhares de milhões de estrelas. No total, isso significa algo entre 10²² e 10²⁴ estrelas no universo observável. Uma dimensão que vai para além de qualquer entendimento humano.

Foi neste cenário vastíssimo que tudo começou, há cerca de 13,8 mil milhões de anos, com o Big Bang.

Mas há um facto ainda mais surpreendente: somos feitos de matéria estelar. Os elementos químicos que compõem o nosso corpo — carbono, oxigénio, ferro — foram forjados no interior de estrelas e espalhados pelo espaço quando essas estrelas morreram em explosões como supernovas. Como disse o astrofísico Neil deGrasse Tyson, baseado na ideia inicial de Carl Sagan, somos poeira de estrelas que ganhou consciência.

Agora, consideremos a (im)probabilidade de estarmos aqui. Cada um de nós resulta de uma cadeia contínua de eventos:

  • Milhares de milhões de anos de evolução da vida na Terra
  • A sobrevivência através de extinções em massa
  • A formação da Terra a partir da matéria que orbitava o Sol, a uma distância adequada para a existência de água líquida
  • E, mais recentemente, a sucessão contínua de gerações que tornou possível a nossa existência

Centrando-me especificamente no nível humano, a improbabilidade cresce rapidamente. Cada pessoa nasce de uma combinação genética única entre dois progenitores. Recuando gerações, o número de possíveis combinações de ancestrais cresce exponencialmente, ultrapassando largamente o número de estrelas da Via Láctea.

Do ponto de vista genético, a improbabilidade é ainda mais extrema:

  • O corpo humano tem cerca de 30 a 70 biliões de células
  • Cada célula contém cerca de 3 mil milhões de pares de bases de ADN
  • A combinação específica que resulta em cada um de nós é essencialmente irrepetível

Algumas estimativas populares sugerem que a probabilidade de um indivíduo específico existir pode ser algo como 1 em 10²⁶⁸⁵⁰⁰⁰ — um número tão vasto que ultrapassa o total de átomos no universo observável (cerca de 10⁸⁰). Embora este valor seja ilustrativo e não exacto, ele transmite bem a ideia defendida por Neil deGrasse Tyson: a nossa existência é extraordinariamente improvável.

E ainda assim, aconteceu.

Num universo com um número imenso (possivelmente infinito) de eventos e combinações, até acontecimentos com probabilidades quase nulas podem ocorrer. Não porque sejam prováveis — mas porque há tempo e tentativas suficientes para que aconteçam.

Nós somos um desses acontecimentos.

Somos o resultado de estrelas que viveram e morreram, de átomos que viajaram pelo cosmos, de uma cadeia contínua de vida que nunca foi interrompida durante milhares de milhões de anos. Tudo isto teve de alinhar-se com uma precisão extraordinária para que estivéssemos aqui, neste momento.

Por isso, do ponto de vista científico, há uma ideia difícil de ignorar: temos uma sorte imensa em existir.

Num universo onde a nossa existência é tão improvável, o facto de estarmos conscientes, de podermos pensar, sentir e observar o mundo, torna-se algo profundamente raro.

E talvez por isso não devamos desperdiçar essa oportunidade.

Durante um intervalo extremamente breve — uma fração mínima na escala do cosmos — temos a possibilidade de experimentar a vida tal como a conhecemos: ver, aprender, amar, questionar e compreender, ainda que parcialmente, o universo que nos deu origem.

Tal como Sagan o interpretou e eu acho a ideia belíssima, somos o universo a observar-se a si próprio.

____________________________________________

Para mais informação e considerações sobre o tema recomendo os vídeos em que Neil deGrasse Tyson fala sobre o assunto. Este aqui abaixo é apenas um deles.

Um dos factos mais espantosos  -   Neil deGrasse Tyson

________________________________________________

As fotografias foram feitas in heaven
___________________________________________________

Desejo-vos uma boa semana

quinta-feira, março 26, 2026

Bora lá dar uma curva...?

 

Há pouco tempo fomos desafiados para irmos, em grupo, numa viagem muito bonita, a uma cidade gigante que não conheço e gostava de conhecer. Ficámos balançados. Um bocado longe, uma viagem longa. O meu marido não adora andar de avião mas, dado o lugar que era e que a companhia não podia ser melhor, estava tentado a aderir. Por essas alturas andava o Trump com a conversa das negociações com o Irão e com ameaças pouco veladas. Como sempre, eram os seus pontas de lança para a facturação em terras estrangeiras, o genro, o sinistro Jared Kushner, e o pato bravo Steve Witkoff, que lá andavam a fazer de conta. Por um lado, à luz da lógica e do direito internacional, os Estados Unidos não cairiam na tentação de se meterem numa aventura suicida. Mas, por outro lado, com um doido varrido sentado na Casa Branca nunca se sabia. Ao conversar com a minha filha, lembro-me de comentar: 'vamos lá ver se o maluco do Trump não se mete numa grande confusão e não dá cabo da viagem'. 

Com a hesitação, não demos o passo em frente. E, nos dias seguintes, foi o que se sabe, a deriva, o desvario de Trump. Arrastado por Netanyahu e sem avaliar o que ia fazer ao mundo, o maluco avançou de peito feito, julgando que era a mesma coisa que tirar o Maduro da cama.

Ao contrário de quem nos desafiou, que compraram as viagens todas, para cá e para lá e para os percursos intermédios, não chegámos a avançar e, por isso, não ficámos com os bilhetes na mão. Os aeroportos em causa não estão fechados pelo que não há lugar ao reembolso mas, estando toda a região e redondezas sob uma instabilidade total e perigosa, não é seguro ir para aquelas bandas.

Durante os últimos anos, desde que o meu pai teve o AVC, ou seja, talvez há uns 17 ou 18 anos, deixámos de fazer passeios grandes. Creio que o último foi a Amesterdão e a Paris, em que estando o meu pai já doente, nos pareceu que eram destinos relativamente perto e que, numa emergência, facilmente arranjaríamos voos de volta. Tirando isso, que me lembre, só por Espanha e isso fomos várias vezes, sobretudo adoro San Sebastian, ou, a França, só quase de raspão. Começámos a gostar de descobrir Portugal. Ah, não. Ainda fomos até ao sul de França e até Itália, já nem me lembrava. Mas o facto é que não me sentia bem, indo para longe. Nesse período também os pais do meu marido estiveram mal, internados, em tratamentos complicados, a ter que ir a consultas. E o meu pai tinha o seu estado a deteriorar-se inexoravelmente. Depois foi a minha mãe que foi operada ao cólon, também com um cancro. Tudo me tolhia. De vez em quando, algum ia para as urgências, ficava na corda bamba, e custava-me pensar que não conseguiria andar descansada a passear longe do país, quando a todo o momento a coisa poderia descambar. Quando todos se foram e ficou só a minha mãe, que eu julgava que era saudável, pensei que finalmente poderíamos sentir-nos livres para fazermos o que quiséssemos. Mas aí foi ela que derrapou, todos os dias tinha qualquer coisa, sempre como se estivesse muito mal mas sem dar pistas que dessem para perceber o que tinha. De médico em médico mas, segundo ela, nenhum acertava. E era sempre uma urgência, uma crise grave. Nessa altura obviamente não era possível irmos para longe. Aliás, até irmos para o campo era uma crise. Chegava a não lhe dizer nada pois parecia-me que já era psicológico, se sabia que eu ia, mostrava-se ainda mais ansiosa, temia que eu não chegasse a tempo para a levar para as Urgências. Uma vez tivemos que regressar à pressa, eu num sufoco, pois ela achava que estava muito mal, tinha que ir para o hospital, e, naquelas suas decisões, recusou-se a chamar uma ambulância, quis que eu fosse buscá-la a casa e eu a pensar que poderia não chegar a tempo. 

Agora que já não há ninguém que nos prenda, há outra coisa: mudámos. Já não somos os mesmos. E há o cão. O pobre coitado sofre imenso quando está longe de nós. Custa-nos deixá-lo durante muito tempo. Mas nem é o cão. Somos nós. Talvez nos tivéssemos tornado comodistas. Talvez nos custe afastar-nos muito de casa. E depois também parece que já não há aquele interesse em ir ver o que nunca se viu. Dantes, quando fazíamos uma viagem, tínhamos os guias Michelin, tínhamos os livros de viagens, planeávamos o que iríamos ver recorrendo a isso. Íamos de facto descobrir o que não conhecíamos, Agora é diferente. Se tenho curiosidade em saber como é alguma coisa, pesquiso, está tudo disponível. 

É como quando eu ia a Madrid: adorava. As exposições, as ruas, os parques, as lojas. Tudo me parecia novidade, diferente. Agora já tudo me parece déjà vu. Mesmo aquele estímulo que eu tinha, de andar produzida, de descobrir lojas boas com modelos que não encontrava cá, agora já não tenho. Não só não preciso de mais roupa como já há cá praticamente todas as lojas que há lá.

Contudo, admito que seja uma fase. Talvez esteja a curtir o momento, aquela fase boa em que posso estar em casa, em que posso não ter horários, em que posso existir ouvindo os pássaros, olhando o jardim, lendo um livro, indo passear até à beira-mar, olha as ondas. Talvez que dentro de algum tempo pense: 'pronto, agora também já chega, bora lá passear.'. Pode ser. A vida é feita de mudança.

Mas, até lá, aqui estão quarenta lugares considerados belos de mais para não serem conhecidos. Bora lá vê-los...?

40 Patrimónios Mundiais da UNESCO que tem de visitar antes de morrer 
- Vídeo de Viagem em 4K

Descubra as maravilhas mais deslumbrantes do mundo no nosso vídeo: “40 Patrimónios Mundiais da UNESCO que Precisa de Visitar Antes de Morrer”. Estes marcos icónicos e tesouros escondidos representam a cultura, a história e a natureza na sua melhor forma. De cidades antigas a paisagens naturais de cortar a respiração, esta lista vai inspirar a sua próxima aventura!

Quer seja um viajante, um amante de história ou alguém que procura riscar itens da sua lista de desejos, estes destinos são imperdíveis. 

 

Caso queiram ir direitinho a algum destino, aqui ficam os links para o ponto do vídeo (directamente no youtube):

00:00  – Introdução
01:09 – Calçada dos Gigantes, Irlanda do Norte
02:10 – Alhambra, Espanha
03:27 – Baía de Ha Long, Vietname
04:37 – Capadócia, Turquia
05:48 – Mont-Saint-Michel, França
06:54 – Chichen Itza, México
08:02  – Parque Nacional do Serengeti, Tanzânia
09:13 – Machu Picchu, Peru
10:23 – Grande Muralha da China, China
11:29 – Petra, Jordânia
12:34 – Parque Nacional de Yellowstone, EUA
13:38  – Taj Mahal, Índia
14:40 – Templos de Quioto, Japão
15:48 – Cataratas do Iguaçu, Argentina/Brasil
16:54 – Angkor Wat, Cambodja
18:00  – Terraços de Arroz de Banaue, Filipinas
19:07 – Costa Amalfitana, Itália
20:36 – Ilhas Galápagos, Equador
22:01 – Grande Barreira de Coral, Austrália
23:13 – Veneza, Itália
24:14 – Meteora, Grécia
25:49 – Bagan, Myanmar
27:04 – Lagos de Plitvice, Croácia
28:35 – Ilha da Páscoa, Chile
29:38 – Santorini, Grécia
31:01 – Parque Nacional de Banff, Canadá
32:07  – Cidade Velha de Dubrovnik, Croácia
33:30  – Parque Nacional de Yosemite, EUA
35:02 – Pirâmides de Gizé, Egito
36:03 – Stonehenge, Inglaterra
37:07 – Great Smoky Mountains, EUA
38:14 – Mesquita Azul, Turquia
40:01 – Cataratas Vitória, Zâmbia/Zimbabwe
41:02 – Bora Bora, Polinésia Francesa
44:18 – Louvre e Paris Histórica, França
45:55 – Floresta Amazónica, África do Sul América
47:39 – Alpes Suíços, Suíça
53:34 – Antártida
55:40 – Aurora Boreal (Luzes do Norte)
57:13  – Pamukkale, Turquia
01:00:07 Considerações Finais

__________________________________________________________

Desejo-vos um belo dia

quarta-feira, março 25, 2026

Hábitos simples, vida melhor
[Inclui uma receita de galinha com massa e não só]

 

Durante quase toda a minha vida tive a sensação de que andava sempre de um lado para o outro. Enquanto estudava na universidade, quando, chegado o fim de semana, tantas vezes tinha vontade de ficar na grande cidade, sem nada que fazer, só passear e ir ao cinema, mal chegava a tarde de sexta-feira aí estava eu a ir para casa. E só vinha na segunda de manhã. Levava e trazia roupas, livros. Sempre carregada. Depois comecei a trabalhar e ia para a escola onde dava aulas, ia para a faculdade, ia para a casa onde morava, ia para casa dos meus pais. Depois casei e praticamente mantive a mesma rotina pois, sendo tão novinha, receava que os meus pais sentissem a minha falta e ia lá todos os fins de semana. E depois mudei de emprego e tinha que apanhar vários meios de transporte para lá, para cá. Saía muito cedo, regressava muito tarde. Vieram os filhos e tinha que os levar ou a casa da avó ou à creche e ir trabalhar e o recíproco à tarde, e, ao fim de semana, ir visitar os meus pais. Depois comprámos a casa no campo e, mal chegava a sexta à noite ou o sábado de manhã, lá íamos carregados para lá, regressando no domingo à noite. Pelo meio, durante muitos anos, com frequência passávamos o sábado ou o domingo com amigos e, também durante algum tempo, íamos para a noite, os miúdos ficavam com os meus pais, e só regressávamos de madrugada. E passava o fim de semana e sentia que mal tinha descansado.

Depois, com as doenças de sogros e, depois, dos pais, todos os fins de semana tinham que esticar para haver tempo para lá ir, muitas vezes com compras que tinham que ser feitas previamente. 

E sempre foi isto, de um lado para o outro, sacos e mais sacos, o tempo escasso, mil coisas para fazer.

Pelo meio havia as deslocações em serviço, as saídas e, quando os miúdos cresceram, passámos a ir umas cinco ou seis vezes por ano para fora, muito recorrentemente a Madrid, cidade de que gostamos muito.

Mas, quando vinham as férias 'grandes', tudo o que me apetecia era ficar quieta, em casa. Mas íamos para o Algarve ou sul de Espanha, também, embora menos, para sul de França, e íamos para o campo, íamos todos os dias para a praia, e, sempre, a apetecer-me estar sossegada, a desfrutar a casa. Os caranguejos são bichos caseiros.

Estou agora a desfrutar. Mas sei que tenho que ter cuidado para não ficar eremita militante. Contudo, como várias vezes aqui o confesso, tenho finalmente a vida tranquila que, ao longo dos anos, tanto desejei. 

Acordar e abrir as janelas, ir para o terraço, olhar o céu, fazer festas ao cão, cozinhar*, jardinar, arrumar, caminhar, praticar actividade física, ler, escrever, fotografar, observar a natureza, ouvir os pássaros, respirar ao sol, conversar, saber que os meus estão bem, que têm os seus planos, que fazem o que gostam, que têm a sua vida realizada e motivação para ir atrás das suas vontades - tudo isso me acalma, me faz feliz. Foi por isto que tanto esperei.

Agora à noite, ao ver o youtube, um dos meus prazeres, apareceu-me, mais uma vez, um daqueles vídeos sobre os hábitos japoneses com que tanto me identifico. O vagar, o prazer das coisas simples, os hábitos tranquilos, a compreensão de que apenas o que é natural -- natural no sentido do contacto e respeito pela natureza -- me deixa verdadeiramente feliz.

-------------------------------------------------------

 * 

Gosto de cozinhar, em especial quando tenho a casa cheia. Mas, quando isso acontece, a verdade é que lamento sempre não ter um fogão e um forno maiores, pois cozinhar para muita gente é muito condicionador. Se a tachada é grande demais, por vezes não é fácil apurar, ou, se é no forno, não cabe tudo ao mesmo tempo, tem que ser por etapas, e isso complica a fluência, a sequência, que se quer ágil e ininterrupta.

Cozinhar só para nós dois permite-me fazer cozinhados feitos à nossa medida. Não tenho que pensar em pratos de que todos gostem, incluindo a malta miúda, e isso nem sempre é fácil pois uns não apreciam isto, outros não acham muita graça àquilo. Só para nós dois é simples.

Por exemplo, hoje fiz galinha com massa. E foi assim:

Num tacho, coloquei azeite, duas cebolas grandes. Dourei. Juntei uns quantos dentes de alho, duas folhas de louro fresco. Juntei, então, bocados de galinha. A galinha do campo, que tem carne mais rija, é bem mais saborosa que o frango. Envolvi e selei durante um bocado. Juntei uma cerveja mini e um pouco de sal. Ficou ali a cozinhar um bocado. Depois juntei um alho francês e salsa. Envolvi e deixei cozinhar em lume brando. 

Quando a carne já estava quase macia, juntei três cenouras aos bocadinhos, uma punhado de feijões verdes aos bocados e 2 beringelas (com casca, bem entendido) também aos bocados. Juntei mais um copo de água a ferver. Ficou a cozinhar. Quando a beringela já mal se via, juntei penne integral. Quando estava já cozinhado, juntei um pouco de vinagre de maçã e envolvi. 

Ficou a modos que caldoso, mas um caldo espesso, muito saboroso. Os legumes estavam desfeitos, a carne super macia e tudo envolvido em creme saboroso, quase como se tivesse levado natas. Mas, claro, nada de natas. A textura das beringelas desfeitas agrada-nos muito. O caldo, no fundo, é só legumes e tudo sempre cozinhado em lume branco, slow cooking.

E, ao passo que, quando trabalhávamos, jantávamos sempre às nove e tal quando não às dez, agora jantamos às oito ou mesmo um pouco antes. E é bom. Daqui a nada os dias estarão maiores e jantaremos de dia, e isso é muito agradável.

Mas adiante. Que venham os hábitos japoneses que são simples e, segundo consta, também saudáveis.

10 hábitos japoneses gratuitos para se manter jovem e energético

"Envelhecer é inevitável, mas a ferrugem não." No Japão, a longevidade é tratada como uma arte refinada — um efeito colateral natural do equilíbrio, e não uma batalha contra o tempo. Descubra 10 rituais atemporais, desde o movimento matinal do "Asa Taiso" até o propósito profundo do "Ikigai", que podem adicionar não apenas anos à sua vida, mas vida aos seus anos.

Neste vídeo, exploramos como alinhar seus ritmos diários com a natureza para alcançar clareza, mobilidade e paz. É hora de parar com a correria e começar a cultivar um estilo de vida onde a vitalidade surge da simplicidade.


Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, março 23, 2026

Ouço uma conversa assim, pessoal, íntima, entre um homem e uma mulher, e penso que seria provável que acabassem apaixonados

 

O meu dia foi, tal como o anterior, muito bom e muito tranquilo. Fomos lanchar/jantar a casa do meu filho, e estivemos na casinha de vidro que têm no jardim, que é um lugar muito agradável. Como o dia esteve primaveril, o ambiente fica ainda mais acolhedor. Os lugares em que estou com os meus é sempre um lugar de felicidade. 

Antes de irmos para lá, estive ao sol que não estava muito quente mas que, apesar de tudo, me aqueceu levemente a pele. Ouvia os pássaros e os sinos e pensei o que penso muitas vezes: mesmo que fosse só por um momento assim já valeu a pena. 

Já aqui contei mas, como penso nisso muitas vezes, vou repetir. A primeira vez que me encontrei com um colega depois do confinamento, contei-lhe que tinha mudado de casa. Descrevi-a, disse onde era, e ele ficou pensativo e disse que, quando sabe que algum amigo mora numa casa assim, pensa sempre: 'e quando um dos dois morrer, a casa não fica grande demais só para um?'. Já não me lembro se me ri e lhe disse que estava mórbido demais para o meu gosto ou se fiquei contagiada, melancólica. Só sei que lhe disse que não tínhamos pensado nisso mas que, quando isso acontecer, logo se verá, mas que, até lá, valerá sempre a pena. E tem valido. No verão fará seis anos que aqui vivemos. E cada dia vale a pena. Mas penso no que ele me disse. A lei das probabilidades não esconde que talvez um dia um de nós dois vá antes do outro. Espero que seja daqui por muitos e bons anos. Mas, quando acontecer, será um problema, claro, em especial se, nessa altura, já for, como desejo que seja, bem velhinho. Um velhinho ou velhinha numa casa grande, sozinho/a, longe do centro da cidade, será sempre complicado. Mas os problemas existem para serem resolvidos e, em princípio, a sua resolução requer sempre uma avaliação concreta das circunstâncias. Portanto, como não se sabe quais as circunstâncias desse dia futuro, não vale a pena estar agora a pré-ocupar-me com isso. 

O que vale a pena é pensar: estou aqui, agora, estou bem, gosto de aqui estar, tenho a sorte e a felicidade de aqui viver e de poder sentir o sol, ouvir os pássaros e a música dos sinos, ver as árvores e as flores, andar descalça, pôr as mãos na terra, estender roupa ao sol.

Mas, portanto, ponho-me ali nestas divagações e nem me apetece pegar num livro, estou simplesmente ali, a existir. Também poderia pegar no computador, ver as notícias, circular pelo youtube, não deixar tudo para as tantas da noite. Mas não. Há isto de que já falei um milhão de vezes: tenho que viver o lado funcional durante o dia, cozinhar, jardinar, fazer compras, arrumar coisas, etc, e depois aproveitar um bocado para estar sem fazer nada, a pensar, a dormitar, a olhar em volta. Não quero deixar que esse tempo seja invadido pelo silêncio de que preciso à noite. 

Por isso aqui estou agora. Comecei por me informar sobre esta guerra perigosa -- mas hoje não estou com disposição para me deixar atormentar. Por isso, desviei-me, escolhi outra rota: estive a ouvir a lenta, gostosa, conversa entre a Bella Freud, designer de moda e filha e neta de dois ilustres Freud, Lucian e Sigmund,  e o escritor Karl Ove Knausgaard.

Já no outro dia aqui partilhei um vídeo de uma outra destas conversas. Há vagar, há espaço, não há interrupções nem confrontações. Ouve-se, partilha-se, está-se disponível. É bom de ouvir, são momentos de calma.

Desta vez o convidado é improvável. Mas o engraçado é que a coisa funcionou muito bem. Há uma empatia entre eles, talvez até mais que isso. Gostam de ouvir o que o outro diz, entregam-se à escuta do outro. A conversa vai para áreas sensíveis. Não que ele já não tenha escrito sobre isso: o alcoolismo do pai, o sofrimento que isso lhe causou, o impacto que teve na sua vida. Mas escrever, no silêncio, é uma coisa: não há ninguém a ver, não há ninguém a ouvir, não há ninguém a questionar. Outra, muito diferente, é falar sobre assuntos íntimos e difíceis com alguém. Mas, aqui, a conversa flui.

E sente-se que, um momento assim, tão íntimo, tão exposto, tão sincero, pode dar lugar a um belo romance de amor. Não sei como foi quando ele se levantou do sofá, podem apenas ter-se despedido, gostei muito, thanks e até um dia destes -- mas a mim parecer-me-ia natural que se abraçassem, e, quando falo em abraço, falo em abraço a sério, apertado, demorado. Parecer-me-ia também natural que, depois do abraço, se olhassem nos olhos. E um olhar prolongado nos olhos um do outro, um deep dive, já se sabe ao que leva. Ou seja, parecer-me-ia natural que se beijassem. E, já que o sofá está ali à mão de semear e já que não são umas crianças e que, naturalmente, não têm muito tempo a perder, que testassem logo ali mesmo ver se os corpos também se entendiam entre si.

Mas isto sou eu a ficcionar. Gosto de histórias de amor.

Karl Ove Knausgaard sobre o Poder dos Pais | Podcast Fashion Neurosis com Bella Freud | Vídeo

Karl Ove Knausgaard é um escritor norueguês. O seu romance autobiográfico "A Minha Luta", lançado em seis volumes, foi aclamado como uma obra-prima em todo o mundo. Exerce um grande fascínio tanto sobre os intelectuais como sobre os jovens que refletem sobre o propósito existencial da vida.

O autor Karl Ove Knausgård junta-se a Bella Freud para uma conversa intimista que explora o poder dos pais e as complexidades da identidade. A discussão aprofunda as experiências pessoais com a vergonha e o significado inesperado das escolhas de vestuário. Prepare-se para reflexões perspicazes sobre relacionamentos, arte e a busca universal do eu. 


Desejo-vos um dia feliz

segunda-feira, dezembro 15, 2025

Sylvia e Ted nas palavras de Frieda, a filha

 

Em tempos vi um filme chamado Mourir d'aimer. Na altura, pensava que não seria possível morrer de amor. E, com o meu lado racional, ainda penso que o amor será o bode expiatório, não a causa directa. Uma depressão não tratada, talvez. Ou um acidente, alguém que, num acto desesperado, quis chamar a atenção mas a quem a coisa correu mal. Acresce que, com o meu lado racional, tendo sempre a pensar que é absurdo alguém subalternizar-se a ponto de que, se a pessoa amada não retribui o seu amor, achar que não vale a pena viver.

Mas, lá está, já a minha mãe, muito dada a ser levada pelas emoções, por vezes me dizia: "Não sei, parece que és demasiado racional...". Ela tirava conclusões a partir de impressões e eu tentava colocá-la no trilho da razão.

Contudo, se há coisa que tenho vindo a aprender é que as algumas das nossas certezas se vão metamorfoseando. Por isso, não posso dizer de certeza absoluta que Sylvia Plath morreu de baixa auto-estima, ciúme exacerbado, depressão profunda ou apenas por sentir que viver sem o seu bem-amado Ted Hughes não fazia sentido. Tinha dois filhos, uma menina de 3 anos e um menino de 1, mas eles não foram suficientes para a prender à vida. Uma história tristíssima.

Tenho também a ideia de que quem vive muito próximo das palavras mais facilmente encontra narrativas em que a dor de perder um amor é de tal forma romantizada que pode justificar toda a espécie de actos extremos. A poesia gosta de mágoas, de desespero, de paixões fatais.

Mas quem sou eu, o que sei eu para opinar sobre um tema tão complexo?

A filha de Sylvia e de Ted entretanto cresceu. E é ela que aqui está, conversando sobre os seus pais, mostrando as suas cartas e objetos que em tempo foram tão íntimos. 

O Amor Extraordinário de Sylvia Plath e Ted Hughes

Neste episódio de Uma Vida Menos Ordinária, Frieda Hughes convida-nos a ir a sua casa para conversarmos sobre as cartas, o amor e o legado duradouro dos seus pais – os gigantes da literatura Sylvia Plath e Ted Hughes. Frieda oferece-nos um olhar íntimo sobre as cartas que Plath escreveu a Hughes logo após o casamento, enquanto estudava em Cambridge, bem como uma incursão no álbum de fotografias da família. Entre estes itens de grande importância histórica, vislumbramos também as alianças de casamento de Ted e Sylvia, receitas de família e o adorado baralho de tarot de Sylvia. Estes artigos e muitos outros foram oferecidos num leilão da Sotheby's de há uns anos, "A sua própria Sylvia: Cartas de Sylvia Plath para Ted Hughes e outros artigos, propriedade de Frieda Hughes"

Desejo-vos uma boa semana

sábado, novembro 01, 2025

Em noite de Halloween... que entre Hannibal Lecter... Fssss-fsss-fssssss...

 

Se há actor por quem nutro grande admiração, ele é Anthony Hopkins. Há mais, claro, mas é dele que quero aqui falar. Todos os filmes em que o vi me deixaram uma forte impressão. Parece que há qualquer coisa de muito íntimo entre ele e os personagens que desempenha.

Contudo, se há papel em que se transcendeu de forma absoluta e que para sempre lhe ficará associado é o de Hannibal Lecter, o criminoso em série, canibal, sem remorsos, sem consciência. 

A sua voz que modelava a ameaça velada e ciciada através do silêncio, a sua perspicácia cortante, tudo ali assustava. Estar perante alguém tão demoníaco deve ser aterrador e nós, no conforto da sala de silêncio, sentíamos o medo que aquele coração gelado e aquela mente perversa destilava.

Colbert apresenta uma entrevista que lhe fez, e é um prazer vê-los à conversa. 

Anthony Hopkins revela como a sua intuição, o seu conhecimento intrínseco dos meandros mais primitivos da mente (os mecanismos do medo, por exemplo) e algumas fontes de inspiração serviram para compor o personagem. E é um prazer assistir a isso.

Sir Anthony Hopkins, As Hannibal Lecter, Can Make Any Classic Movie Line Sound Terrifying

O vencedor de um Óscar, Sir Anthony Hopkins, revela que personagens de filmes influenciaram a sua interpretação de Hannibal Lecter em "O Silêncio dos Inocentes" e aceita o desafio de Stephen de ler algumas frases famosas do filme como o célebre assassino em série fictício.

Não vou aqui partilhar todos os vídeos dessa entrevista mas não posso deixar de aqui colocar o seguinte. O tema não é apenas o do 'grande segredo' mas essa parte, o da finitude, é muito interessante. Diz ele que já viveu muito, nunca esperou chegar até aqui, que está tudo bem, já não tem medo. E ninguém escapa. Por isso, quando o momento chegar, que chegue. Tema complexo para toda a gente mas é agradável ver alguém a falar disso a rir, sem drama.

"One Day I Will Learn The Big Secret" - Sir Anthony Hopkins Says He's Too Old To Fear Death

A entrevista de Stephen Colbert à lenda de Hollywood, Sir Anthony Hopkins, dividida em quatro partes, termina com uma conversa sobre ser o ator mais velho a ganhar um Óscar e porque é que, aos 88 anos, superou qualquer medo da morte. As suas memórias, "We Did OK, Kid", estão disponíveis.

---------------------------------------------------------------------------------------------------------

E estamos em Novembro. O tempo corre. Os dias estão mais pequenos. 
E as lojas já mostram os enfeites de Natal. 
Vita Brevis. Tempus fugit.

Dias felizes

quinta-feira, outubro 02, 2025

Oh... Jane...

 

Uma notícia triste. Quando comecei a ver, por todo o lado, a  fotografia com a data de nascimento de Jane Goodall e a data de hoje, entristeci-me. 

Jane Goodall at Budapest Zoo in 2004 with a newly adopted chimpanzee called Pola.
Photograph: Bela Szandelszky/Rex Features

No Guardian (Jane Goodall, world-renowned primatologist, dies aged 91)

É certo que ninguém cá fica e é também certo que, à medida que a vida se prolonga, mais curto fica o pavio. Mas ela era daquelas pessoas que eu admirava verdadeiramente. Gostaria muito de a ter conhecido pessoalmente. Sei que adoraria estar perto dela, ouvi-la, fazer-lhe perguntas, sentir a doçura do seu olhar e do seu sorriso. E não há muitas pessoas de quem eu consiga dizer isto.

Ainda não há muito, eu tinha partilhado, num outro fórum, um vídeo dela louvando a sua permanente abertura de espírito e a sua serenidade. Era daquelas pessoas que a gente se habitua à ideia de que são eternas.

Mas, enfim, tinha 91 anos e um dia haveria de ser.

Eu própria dou por mim a fazer contas de cabeça. Penso em quantos mais anos 'úteis' ainda me restarão, em que estarei independente, motivada, sem maleitas a travar-me a energia e a mobilidade, com vontade de fazer tachadas de comida e desejando ter a mesa cheia de gente. Faço a minha estimativa e, por vezes, penso que estou a ser optimista. É que não vale a pena pensar que só acontece aos outros. Neste caso, ninguém escapa. Ou seja, nem faz sentido desejar que a morte não nos leve. Claro que levará. O mais que faz sentido querer é que seja como a gente deseja que sejam os partos: uma hora pequenina. Que seja rápido e pouco doloroso. E que seja quando a gente pensar que já viveu tudo o que haveria para viver, que já está bem assim, que já chega.

de André Carrilho

Mas, no caso de Jane Goodall, sempre tão bem, sempre tão jovem, cabeça tão arejada, tão escorreita e bem disposta, sempre tão profundamente honesta, tão bondosa, penso que era legítimo pensar que seria daquelas que chegaria a velhinha, aos cem ou mais que isso, a ainda a sorrir e a mostrar ao mundo que a boa onda e o bom humor são verdadeiras pílulas da longevidade. Afinal, partiu antes do que eu imaginaria. Ainda não a via como 'velhinha'. Como pessoa de alguma idade, sim, mas não daquelas velhinhas que já não dão uma para a caixa.

Segundo leio, ainda a semana passada participou no evento Forbes Sustainability Leaders Summit (partilho o vídeo com a sua intervenção) e num podcast creio que do Washington Post, e ia falar em público depois de amanhã e, para a semana, participaria noutro evento. Ou seja, esteve activa até mesmo ao fim. Acho extraordinário. Provavelmente, algo dentro dela estaria já bastante frágil mas, num daqueles mistérios, talvez insondáveis, em que os mecanismos da vida e da morte são férteis, a sua cabeça, a sua vontade, o seu ânimo estavam ainda bem vivos. 

Não vou agora pôr-me para aqui a desejar que repouse em paz ou outras banalidades do género. Desejo, isso sim, que o seu exemplo perdure, que o amor e compreensão pelos animais seja cada vez mais forte, que o respeito e a veneração pela natureza estejam sempre presentes entre nós.

Li que, naquelas medidas estúpidas e cruéis de Trump, tinha sido cordado financiamento a projectos seus. Imagino como se deve ter sentido revoltada e impotente. Mas estou em crer que terá tentado dar a volta, sem derrotismos. E é o que todos temos que fazer quando a vida nos troca as voltas: resistir, encontrar alternativas, acreditar, seguir em frente.

__________________________________________________________

Jane Goodall Has Died At 91—Here Is Her Forbes Interview From Last Week

Legendary zoologist Jane Goodall has died at 91; last week, she spoke to Forbes' Maggie McGrath at the Forbes Sustainability Leaders Summit.

________________________________________

Votos de um dia feliz