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domingo, fevereiro 12, 2023

Há coisas para as quais custa encontrar explicação


Não estava em nossa casa. Estávamos a jantar com uns dos meninos e, por isso, não consegui ouvir bem as notícias. Os pais, antes de irem para o concerto, tinham encomendado sushi e pizzas e estávamos os cinco acampados na sala de cima onde antes um dos meninos tinha estado a ver desenhos animados. O irmão tinha estado a jogar futebol online com um dos primos e a irmã tinha chegado havia pouco a casa, trazida pela mãe de uma amiga. Em vez de irmos jantar lá em baixo, resolvemos ficar ali, estava mais quentinho.

Na televisão, quase sem som, víamos as ruas com a baderna do costume. Inclino-me para que grande parte daquele ajuntamento não seja constituído por professores. Acredito que sejam sobretudo auxiliares (e não sei se é esta a designação do que antes se designava por 'contínuo'), polícias (pareceu-me ver que os polícias se tinham posto à boleia dos professores), sindicalistas profissionais, órfãos da geringonça que por aí andam a tentar descobrir qual o seu rumo, descontentes da vida em geral, adeptos do Chega (li, sem surpresa, que o Chega se tinha juntado à trupe) e mais uma malta que parece ter vindo do Chapitô, tanta a animação de rua. Olho as imagens e sobretudo vejo gente com tudo menos aquela atitude de respeitabilidade que ainda teimo em querer associar aos professores. Estes mais parecem bandos de malta indiferenciada a antecipar as paradas de Carnaval. 

Do que parece, todos querem 'respeito' e a reparação de todos os males do mundo. Qualquer um@ que seja de tipo maria vai com as outras se sente ali representad@. Calhou o investigador da Amazónia e demais seguidores, com o Nogueira a reboque, dizerem que querem 'respeito'. Mas também poderiam baldar-se a dar aulas e andar no maior forrobodó pelas ruas em nome da 'boa educação' ou da 'verdade'. Quiçá até da 'elegância'. Conceitos que dão para tudo e para mais um par de botas. Qualquer um pode sempre achar que ainda há falta de boa educação ou de verdade ou de elegância e, vai daí, convocar greves e manifestações.

Há-de sempre haver alguém mais frouxo das ideias que ache que qualquer balela é uma bela causa. 

Não sei é porque é que não há professores decentes, respeitáveis, preocupados com o ensino e com os alunos que façam ouvir a sua voz e se demarquem publicamente do vexame a que o Stop e Fenprofs os estão a sujeitar. Deve haver uma explicação mas não sei qual é.

Ontem soube-se de uma outra anedota, ainda que de um outro cariz: uma garota cujo nome não retive -- mas que é mais uma garota a assessorar uma ministra -- sugeriu que se acampasse na Ponte para defender o direito à habitação. Não sei a que é que ela se referia mas só pode ser disparate e disparate do grosso. Seria bom que o Costa desse um murro na mesa e proibisse gaiatagem desta -- impreparada, sem experiência de vida, incapazes de medirem o que dizem --, de fazer parte dos Ministérios, Secretarias de Estado. Miudagem desta deve estar a fazer estágios, a aprender. Caso contrário, o PS está a dar o flanco, estão a ser dados argumentos aos populistas. 

[Sim, António Costa, sim, tem toda a razão, de cada vez que deixa que coloquem gente ainda de fraldas, impreparada, no Executivo está a pôr-se a jeito. Não se admire se ouvir os Pestanas, os Cortezes, os Nogueiras e os Venturas desta vida a dizerem que se há dinheiro para distribuir por aí porque não há-de haver para quem eles querem.]

Não sei como é que, depois dos casos que envergonharam o Governo, Costa ainda não pôs um travão nisto. 

Para tudo é capaz de haver explicação mas, por vezes, custa a descobri-la. 

É como aquele homem que foi visto a conduzir com um sapato na boca. Porquê....? Porquê, senhores...?

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Desejo-vos um bom dia de domingo

Saúde. Paciência. Paz.

quarta-feira, fevereiro 08, 2023

Continua a pouca vergonha dos professores a sacrificarem os alunos e a reivindicarem privilégios absurdos
- e eu não sei de que é que Marcelo Rebelo de Sousa está à espera

 

O tal que era do Bloco de Esquerda e que recebeu uma bolsa para investigar qualquer coisa na Amazónia, agora, entediado com a maçada de dar aulas, anda por aí a dar cabo do ensino dos mais novos (creio que os professores universitários não fazem parte deste esquadrão), a armar um inflamado e insano banzé e a animar as ruas e as televisões. 

Mário Nogueira, o dinossauro -- que, segundo consta, há muitos anos que também não dá aulas --, tenta não ficar atrás dos populistas e, claro, põe mais achas na fogueira. 

Sentido de responsabilidade ou saberem honrar a nobreza da essência da sua profissão está quieto. É coisa que não se vislumbra.

E, portanto, vêem-se os noticiários e lá estão os professores em festa, na rua, em vez de estarem a dar aulas. Tocam tambor, cantam, ecoam uma espécie de cantares revolucionários completamente deslocados. Na prática, tudo se resume a fazerem muito barulho. Mas, quando lhes põem um microfone à frente da boca, a conversa é sempre a mesma: estão fartos de fazer quilómetros para dar aulas. 

Não passa daí. A inteligência ou a imaginação não lhes dá para muito mais. Basicamente a conversa é sempre a mesma: queriam trabalhar perto de casa.

O que eu pasmo (e já antes o referi) é como é que nenhum repórter lhes pergunta:

1 - O que propõem em concreto? Que ponham na rua os outros professores (os que trabalham nas escolas para onde querem ir)? Ou que arranjem lugares fictícios para eles (os revolucionários baderneiros)?

e

2 -- Se não há vagas nas escolas onde gostavam de trabalhar e não querem ir trabalhar mais longe, porque não mudam de entidade patronal ou de profissão, que é o que fazem os outros trabalhadores?

Ninguém lhes pergunta. E, no entanto, são as perguntas que se impõem. Os alunos têm que estar a ser prejudicados porque eles não são capazes de se fazer à vida?

Não há pachorra. 

Há ainda o argumento do tempo de serviço, durante o período em que, creio, o Láparo congelou a contagem. Pelos vistos no ensino, a antiguidade é um posto ou rende dinheiro. Já trabalhei em empresas públicas, em empresas de gestão pública e, sobretudo, em empresas privadas. Tenho ideia que na empresa pública, a primeira em que trabalhei depois de largar a docência, havia diuturnidades mas que depois, com o acordo de empresa, se acabou com isso. Não faz sentido existir acréscimo de ordenado em função dos anos de trabalho.

O outro argumento também muito referido é ainda mais absurdo, diria mesmo patético, a cereja em cima do bolo da parvoíce: querem ser respeitados.

Mas como é que isso se mede? Qual o parâmetro que usam para saberem se o respeito que a população sente por eles está ou não au point ou se ainda têm que armar mais confusão? Ou o respeito não se mede? É subjectivo? Mas não ocorre àquelas inteligências que o que é pouco para uns, é muito para outros ou está na conta para alguns? Fazem greve e dão espectáculo na rua porque querem mais respeito? E acharão que é assim que o conquistam? Não lhes ocorre que a gente ouve isto e não apenas acha que é um argumento que revela indigência intelectual como fica a pensar que coitados dos alunos se tiverem professores destes?

Perante isto, volto a dizer: penso que, face a esta maluquice que aqui está armada e que não se vê jeito de acabar, cabe a Marcelo dar um stop nisto, não apenas:

a) apelar publicamente, com dureza, oficialmente (ie, não en passant, não no meio de outros assuntos), aos professores para que metam a viola no saco e se dêem ao respeito;

b) reunir com António Costa para avançar para medidas musculadas por forma a impedir o sacrifício do ano escolar e de efeitos nefastos nos hábitos de estudo dos alunos; doa a quem doer;

c) reunir não sei com quem (Ministério Público?) para que sejam accionados meios para se averiguar se não haverá por aí forças ocultas a manobrar nos bastidores por forma a ferir a democracia e um dos seus pilares, o ensino público. 

Alguma coisa tem que ser feita. Já. Os alunos (e as famílias dos alunos) não podem continuar a ser sacrificados às mãos destes inconscientes e egoístas professores que tudo fazem para que não os respeitemos.

sexta-feira, fevereiro 03, 2023

Um amendoim verde entalado no cu do padre

 

Remeto-me à dimensão caseira: greve de professores, tamanho dos palcos e da pacóvia mania das grandezas -- tudo na mesma. O tempo passa, o ano lectivo avança e os alunos vão tendo aulas quando têm porque, no resto do tempo, voltam para casa ou andam aos caídos ou no forró durante os furos; e, não tarda, está a chegar o Papa e mais a multidão de pecadores que aí vem danada para se confessar e curtir e a malta ainda por aí anda a cacarejar acerca dos projectos, dos orçamentos, sobre quem é o  coordenador e sobre toda a barafunda que se armou. Até a múmia parece que continua na mesma, a aparecer quando a gente já nem se lembra dela. Deve vir dar mais uma lição daquelas dela, daquelas com que ninguém aprende o que quer que seja e em que toda a gente fica indisposta. Toda a gente menos a sua senhora, dona pespenica excelentíssima, que essa, habituada ao fel que escorre da boca do amado esposo, acha sempre tudo o máximo e, na volta, até parirá inspirado poema. Ámen.

Portanto, não havendo novidades a festejar, depois de atirar papelinhos dourados para cima do fantástico Tom Ball, agora dou a palavra a quem quase morreu duas vezes sem que alguém tivesse dado por isso. Se fosse essa a hora, teria ido mesmo, uma afogado à beira de água entalado entre um caiaque e uma lata de cerveja e outra asfixiado com um amendoim verde entalado no cu do padre*. Entalanços como sina. O tema, tendo o seu quê de religioso, aconselharia a alguma fé mas, ainda assim, acho que é mais de ver e ouvir para crer.

Augusto Madeira quase morreu duas vezes e ninguém viu! 

| Que Historia É Essa, Porchat?

* Melhor escrevendo:  'Cu do Padre' -- e agora não sei se o cu do padre fica melhor com ou sem aspas...

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E queiram, por favor, descer mais um pouco, ok?

quarta-feira, fevereiro 01, 2023

Alô, alô Senhores Professores!
Se não estão contentes porque não se mudam?
E o Presidente Marcelo não é capaz de mostrar um peremptório STOP às brincadeiras do André Pestana & Cia...?

 

Acabei de ouvir uma exaltada professora a queixar-se que vive em Portalegre e trabalha em Elvas (ou vice-versa, não fixei), tendo que fazer diariamente salvo erro uns 100 km. Mas se não tem vaga ao pé de casa e só arranja vaga ali o que é que ela quer que se faça? Que inventem vagas?

Se aquele local de trabalho não é compatível com a vida que quer, porque não tenta arranjar outro trabalho ao pé de casa?

Durante anos fiz cerca de 150 km por dia. A empresa em que eu trabalhava mudou-se para ali --  e o que é que eu podia fazer? Aliás, podia. Podia despedir-me. Mas optei por não fazê-lo. Agora não me ocorreu fazer greve ou vir para a rua maçar os outros.

Na empresa a que tenho estado ligada nos últimos tempos é normal haver necessidades de pessoal que não se conseguem preencher com mão de obra local. Por isso, ou vai para lá alguém já da empresa que vai e vem todos os dias (há casos de quem faça 300 km por dia) ou se contrata alguém que para lá queira ir, mesmo que morando longe. Isto é normal, banal. Claro que volta e meia temos demissões de pessoas que não aguentam trabalhar muito longe de casa e resolvem tentar outro rumo na sua vida. Compreensível. 

Mas qual a alternativa: deixar que as pessoas que vivem mais longe dos lugares mais apetecíveis fiquem sem serviços, ao abandono? No caso dos professores: deixar os alunos que vivem em lugares mais remotos sem escola?

Agora estes professores que aqui vejo na maior baderna parece que vivem noutro planeta, esquecidos que problemas maiores ou iguais aos deles há por todo o lado, em todas as profissões. 

Querem ser professores no ensino público,

(mas, se não estão satisfeitos no público, porque não tentam dar aulas em colégios privados? será porque não há vagas...? Ah pois, acontece...) 

e, ainda por cima, querem todos chegar ao topo da carreira. Querem tudo, o melhor dos mundos. E ainda estamos com sorte por não quererem ser todos presidentes da República com local de trabalho ao fim da rua.

Ouço-os e só penso que ainda os havemos de ver a protestar nas ruas, negando aos alunos o direito a terem aulas, só porque querem que o Ministério da Educação lhes lave o rabo com água de malvas.

Não há ninguém que ponha juízo na cabeça destas pessoas? 

O Presidente Marcelo, que tanto fala a propósito de tudo e de nada, não é capaz de fazer uma intervenção na comunicação social, em prime time, mostrando como estas pessoas estão a degradar o ano escolar e a comprometer os hábitos de estudo dos alunos e, ainda por cima, a degradar -- se calhar irreversivelmente (pelo menos nos próximos anos) -- a imagem dos professores?

Acho que devia.

Vejo isto a progredir, sem ninguém dar um 'basta!', e fico seriamente preocupada. 

Vejo o efeito num dos meus netos. Está sempre na perspectiva de não haver aulas. Greve, greve, greve, escola fechada, falta um professor, falta outro, greve, greve. A sério: que impressão que isto me faz. Não há pachorra! 

Já não bastava o eterno Mário Nogueira, sempre com ameaças na boca, sempre a mostrar que a última prioridade dos professores são os alunos. Agora aparece este André Pestana que é um verdadeiro populista. Li que, há algum tempo, ganhou uma bolsa de doutoramento para ir fazer um trabalho de investigação na Amazónia. Imagine-se. Parece anedota. Não sei como funcionam estas bolsas mas, na volta, parte dela foi paga com trabalho meu cujo remuneração, em vez de ir para mim, foi directamente para impostos, para pagar disparates destes. 

E, já agora, uma pergunta: enquanto viveu à conta a investigar na Amazónia, o líder do STOP veio para a rua agradecer a rica vida que o Ministério da Educação lhe proporcionou? Ou esqueceu-se disso? 

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Um dia bom

Saúde. Juízo. Paz.

domingo, janeiro 15, 2023

O questionário UJM sobre esta greve dos professores
-- mais 13 das 36 perguntas e respectivas respostas

 

1 - Agora que és idosa e já trabalhaste décadas, quantas horas trabalhas tu por semana?

No mínimo 37,5h

2 - Mas nos empregos em geral, isto é, nos empregos que não o da docência, as pessoas não têm bonificação horária?

Era bom, era. Mas não.

3 - Os que têm categorias profissionais mais elevadas não trabalham menos que os outros?!

Pelo contrário. Não apenas pela responsabilidade mas também pelo exemplo, são geralmente os que mais horas trabalham.

4 - Quantos dias de férias tens tu por ano?

22 dias

5 - Mas espera lá aí. Os 22 dias são ao todo ou só no verão?

Ao todo. Ao todinho.

6 - E gozas sempre os 22 dias?

Não. Há anos em que não consigo. Devia. Mas nem sempre se consegue o que se quer e o que deve ser.

7 - Nas empresas em que tens trabalhado, toda a gente chega ao topo da carreira?

Não, nem pensar. Apenas uma minoria atinge o topo da carreira. 

(Aliás isso de 'carreira' é um conceito abstracto em que praticamente ninguém fala). 

8 - Tem razão o teu colega cuja mulher é professora ao dizer que não há melhor vida que a dela, grande parte do tempo na esplanada, na conversa com as colegas, a dizerem mal do Ministério da Educação?

Acho que sim. Por aquilo que ele conta, todos os que o ouvem ficam com inveja da rica vida da mulher. 

9 - Tinha razão a tua mãe, professora, ao achar que fizeste mal em deixar a docência por achar que não há melhor vida do que a dos professores?

Nesse sentido, sim. A minha vida teria sido bem mais flauteada se me tivesse mantido professora. 

10 - Voltando ao tema dos dinheiros: nas empresas há progressão automática?

Não, que ideia. 

11 - Os teus netos andam no público ou no privado?

Dois no público, três no privado.

12 - E que tal?

No privado têm sempre aulas e, se algum professor falta, há sempre algum outro que preenche o horário. Tudo a correr bem.

Numa das escolas do ensino público enfrentam sistemáticas faltas dos professores, baixas de professores, greves dos professores. Um desastre. Um problema a todos os níveis, para os miúdos e para os pais dos miúdos. Muito complicado..

Noutra das escolas do público, a coisa tem estado a correr menos mal, dá ideia que há muito pouca adesão a estas greves e que os professores faltam menos.

13 - Numa escala de 1 a 10 que simpatia tu e as pessoas que conheces sentem por esta greve dos professores?

0. Zero simpatia. Bola. É uma greve selvagem. Não faz sentido. O que dizem choca a maior parte dos trabalhadores. 
 
E a atitude e a conversa deles em grande parte envergonha os professores a sério. Nem se lhes ouve uma palavra sobre os alunos nem um pingo de consideração pelos danos que a sua conduta está a causar no aproveitamento escolar dos miúdos. Lamentável.

Pergunta extra: Não tem medo de ser considerada reaccionária o escrever isto, UJM?

Nenhum. Sei que não sou. E penso pela minha cabeça. 

Não que não haja temas relevantes para serem debatidos e melhorados no ensino. Há e certamente muitos. Mas não assim. Ainda por cima, assim é terreno fértil para populistas como os Andrés Venturas ou as Catarinas Martins desta vida.

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A alpinista sem rede

in “Humans Doing Human Things”

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Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Ânimo. Paz.

segunda-feira, agosto 19, 2019

Os considerandos do Pardal.
E as conclusões possíveis dos absurdos considerantos que levaram a que tivessem desconvocado a greve.
[E uns breves apontamentos sobre a posição do PSD e do BE em toda esta 'palhaçada' *]


Vinha no carro quando ouvi as conclusões do plenário do Sindicato do Pardal. Depois de uma série de considerandos, considerando que, considerando que, em que matavam e esfolavam a Antram e mais os malvados dos patrões e quando a conversa só podia ter como conclusão a continuação da greve, eis que num impensável flic-flac, a conclusão foi, justamente o fim da greve.

Ficámos a olhar um para o outro. Só me lembrei da expressão que o mesmo Pardal usou, dias antes, para classificar o que se estava a passar: uma palhaçada (*).

Claro que não foi preciso chegar ao 7º dia para se perceber que os motoristas:
  • já estavam cansados por verem a greve estéril em que se tinham metido, 
  • já não havia dúvida que a baderna que pretendiam armar (vide o mail de Fernando Frazão, referido pelo Expresso, Fernando Frazão que já antes tinha escrito a Marcelo], causando o caos no País, tinha sido neutralizada pela actuação atempada e inteligente do Governo, 
  • já deveriam estar apreensivos vendo os outros sindicatos a chegar a acordo e eles longe disso,
  • já deviam estar baralhados com os argumentos do Pardal já que a Antram se tem mostrado disponível para negociar desde que não com o cutelo da greve sobre as cabeças e com os sucessivos apelos do Governo a que se sentassem para negociar, se necessário com a sua mediação,
  • já deveriam estar a temer terem sido instrumentalizados por uma criatura cujos actos parecem ter contornos algo duvidosos e cuja assessoria começa a parecer-lhes muito cara
e, segundo se foi sabendo, as vozes a pedir o fim da greve aumentavam de dia para dia.

Aliás, há alguns dias, já alguns se manifestavam publicamente, chegando ao extremo de querer que o Governo decretasse a requisição civil total -- o que revela bem o desnorte de grande parte deles.

Portanto, a decisão não poderia ser outra que não esta -- e ainda bem. O ridículo de tudo é a forma como o recuo foi concretizado, o total absurdo das razões invocadas, aquela ridícula sucessão de considerandos.

Portanto, conclui-se que para o Pardal as palavras não valem uma casca de caracol: diz uma coisa como se quisessse dizer o contrário para chegar onde lhe convém mesmo que isso nada tenha a ver com o que acabou de dizer. Penso que pode também concluir-se que têm razão os que dizem que o Pardal é perigoso, manipulador, populista e o instrumento fácil para quem procure um agente de desestabilização (em especial em período eleitoral ou pré-eleitoral).

....    &   ....

Fantástica ilustração de Rui Rio a correr atrás do prejuízo no Expresso
(Não sei quem é o autor do 'boneco' mas é, certamente, alguém talentoso)

Claro que nisto podem também tirar-se outras conclusões. Por exemplo, o PSD voltou a dar mais um tiro no pé: entraram em cena quando o espectáculo estava a acabar, apareceram com falas trocadas, puseram-se a jeito para receber pateadas e olhares de estupefacção. É um partido que se resume hoje a um irrelevante bando de totós, gente que, na primeira oportunidade, mostra ser de má índole (veja-se este triste episódio das férias), com um mau feitio que custa a aturar. Em suma, estão reduzidos a um grupelho de gente inoportuna e desagradável. As hostes laranjas estão ao rubro e compreende-se. Só não o esfolam vivo porque isso era se ele fosse coelho.

Imagem que vem da infinita arca do
We Have Kaos in the Garden
Uma palavra também para o Bloco de Esquerda que tarde demais percebeu o que estava a passar-se.

Agora já se mostram mais reservados e já se limitam a banalidades para tentarem salvar a face. Mas a forma tonta e empolgada como apoiaram o Pardal, vendo nele um arauto da democracia, é muito preocupante.

O que vale é que estamos na silly season e provavelmente ninguém lhes prestou muita atenção. Senão, as consequências poderiam ser devastadoras para um partido que tanto tem feito para ser visto como um partido responsável, bom para estar no Governo. Se alguém lhes prestou atenção, terá visto que ainda estão bem longe disso -- confiáveis, com discernimento e sentido de Estado é coisa de que ainda não são.

E outra coisa que se pode concluir: a presença tutelar do Louçã não ajuda nada. Com aquele sorriso melífluo a temperar a pose catedrática, sempre com assento mediático, continua a pôr e dispôr junto da opinião pública, condicionando a intervenção do BE. A Catarina Martins deveria pensar nisto se quer que os seus meninos cresçam.

domingo, agosto 18, 2019

Nisto da greve do Pardal, Rui Rio e Francisco Louçã e mais uns quantos distraídos mostraram-se unidos na irresponsabilidade e na tremenda falta de sentido de Estado.
O mail de Fernando Frazão, um motorista (que escreve muito bem), explica o que estavam eles a preparar-se para fazer ao País.
Claro que a PGR e as Secretas não andam a dormir e que o Governo, felizmente, também não.
Recomendo ainda a leitura de "A seriedade e o prestígio da greve" de Helena Araújo.


O insuspeito David Dinis escreve no Expresso um artigo onde dá conta de uma coisa que, muito sinceramente, não me espanta mas que deixa a nu a irresponsabilidade dos que criticam a actuação do Governo ao garantir que o País não mergulhasse no caos que os motoristas pretendiam.

Transcrevo alguns pontos:

Motorista que transportou Marcelo avisou para “revolução civil”


Motorista que, em janeiro, transportou Marcelo escreveu um e-mail a ameaçar com uma greve que provocaria uma “revolução civil”. 

Governo mandou para PGR e secretas. email foi enviado há uma semana para uma estrutura do topo do Estado, na sexta-feira, horas antes dos plenários dos sindicatos. E fez soar os sinais de alarme. Não só por confirmar que os motoristas estariam dispostos a seguir uma estratégia de terra queimada, mas...

Em sete parágrafos, que o Expresso pode consultar, o email lembra o exemplo do Chile ou do Brasil 
26 dias foi quanto durou a greve no Chile, o governo caiu.(...)
A população vai revoltar-se e (...) está muito iminente uma revolução civil que pode não ser tão civilizada como o 25 de abril de 1974 (...)
O primeiro dia da greve talvez não tenha grande impacto, mas ao avançar-se para uma paralisação prolongada com a atenção dos media, poderá ser o caos total”, avisava Fernando Frazão, destacando à cabeça que o Algarve seria alvo preferencial “não só pela invasão de turistas, mas pela falta de gásoduto (...)
Nos primeiros dias, o Algarve foi, de facto, a região mais prejudicada pela falta de combustível. Só que o autor não contava com a eficácia da resposta do Governo ao apontar as consequências da paralisação. (...)
No segundo dia as prateleiras dos supermercados irão estar a 20/30% sem produtos de primeira necessidade; os postos de combustível estarão já a acusar rutura de stock, a agricultura começará a abrandar as colheitas para não perder os produtos da época. No terceiro dia as fábricas terão que parar pela falta da matéria-prima como pelo não escoamento do produto acabado; centrais termo-elétricas reduzirão a potncia e dar-se-à uma crise energética instalando-se o caos. (...)
Olhando para nós, uma greve dessas dimensões seria o desastre nacional
(...) A verdade é que a requisição civil travou os efeitos imediatos da greve. Mas durante a semana foram vários os avisos de responsáveis dos vários setores económicos a avisar: se a greve se prolongar por muito mais tempo, será inevitável haver problemas mais sérios.

O Expresso tentou contactar Fernando Frazão, mas sem sucesso.


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Gostei muito de ler o post a seriedade e o prestígio da greve de Helena Araújo no seu blog 2 Dedos de Conversa. A sua escrita é sempre estruturada apesar de espontânea e há uma franqueza inteligente nas suas palavras que dá gosto ler.

Começa assim este post:
in South African History Online
Ultimamente tenho pensado muito numa história que ouvi a um antigo prisioneiro de Robben Island. Fora levado para a ilha já numa fase final do apartheid, e participou nas últimas greves da fome que alguns prisioneiros jovens fizeram nessa época, para exigir a melhoria das condições de vida na prisão. Se bem me lembro, exigiam água quente no duche e outros confortos semelhantes. Os prisioneiros mais antigos discordavam dessas iniciativas, e criticavam-nos imenso por estarem a desprestigiar algo tão sério como uma greve da fome por motivos que lhes pareciam ridículos. Os mais velhos - que tinham lutado para ter água doce em vez de água do mar nos duches, para ter uma cama em vez da esteira de sisal no chão, para acabar com a lista de alimentos e calorias do menu prisional conforme a cor da pele - afirmavam que a greve é a última medida à qual se deve recorrer, e apenas por motivos realmente fortes. Caso contrário, diziam, retira-se seriedade e prestígio a esse instrumento de luta.  (...)
Recomendo a integral leitura pois se há matérias sobre as quais alguma reflexão é necessária.

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(A Helena Araújo está inocente quanto à escolha da imagem da chegada de prisioneiros a Robben Island que, de minha lavra, resolvi colocar junto às suas palavras)

sexta-feira, agosto 16, 2019

Quem é o palhaço na palhaçada do Pardal?
Sei mas não digo.
Por isso, avanço para as deepfake e para o morphing -- mais duas bolas a saírem da caixinha de Pandora


O meu dia feriado foi passado in heaven. A família reunida, as crianças felizes, todos bem dispostos em volta da mesa. Todos na conversa, todos contentes por estarmos juntos. De manhã à noite. Cheguei tarde a casa. E ainda me fui pôr a ver o Alone. Portanto, passa da uma da manhã quando abro o computador. 

Parece que a tal grande cruzada do Pardal que tanto entusiasma os adeptos do Bloco de Esquerda vendo naquela palhaçada (Pardal dixit) uma nova alvorada nestes tenebrosos tempos de ditadura, vai acabar no ridículo. 

Os outros sindicatos estão a percorrer o caminho das pedras, avançando na negociação, estabelecendo acordos enquanto o Sindicato que o Pardal engendrou (para lhes sacar umas massas a redigir estatutos? a assessorá-los? a apresentar queixas e o escambau? para conseguir mediatismo? para lançar a confusão no país? -- you name it) vai sendo exposto ao ridículo, isolado, reduzidos a um grupo de ingénuos manipulados por um artista como há tempo não tínhamos sob os holofotes.

E, no fim, veremos quem sairá chamuscado de toda esta pífia história a que o próprio Pardal chamou palhaçada
E não me refiro ao Pardal que a esse, cá para mim, um dia destes acontecerá algo mais do que um simples chamuscamento -- mas isso o tempo o confirmará. 

Por isso, não é ao Pardal que me refiro. É que, cá para mim, para além do PSD, o BE também não vai ficar nada bem na fotografia. Como se a maturidade que vinham começando a demonstrar fosse fingida, logo a deixaram cair, mostrando que o espírito de grupelho que se péla por encenar o reviralho ainda não saíu de dentro deles. É pena. E revelaram falta de presciência e, também uma forte apetência pelo populismo. Viram o filme desta greve selvagem todo ao contrário, colocando-se ao lado de alguém a quem ninguém de bom senso alguma vez comprará um carro em 2ª mão.

Mas isto foi o que fui ouvindo durante o noticiário da TSF. Tirando isso, nada mais sei e, provavelmente também não perdi grande coisa.

Face-morphing of assorted celebrities

O que sei é que esta outra coisa que dá pelo nome de deepfake tal como essa outra coisa que dá pelo nome do morphing são duas bolas que saíram do saco quando dentro dele deveriam ter ficado para todo o sempre. A caixa de Pandora foi aberta e de lá só saem monstros.

A inteligência artificial ao serviço de tudo o que der na bolha de quem domina a tecnologia é um perigo quando não existem linhas vermelhas de qualquer espécie.

Jornais como The EconomistThe GuardianThe New York Times ou outros vão alertando para os riscos de andarem monstros à solta que jamais poderão voltar para dentro da caixa. Mas quem é que quer saber de temas destes? Está bem, está.

AI brings Mona Lisa to life

Claro que nisto do morphing ou das deepfake pode haver muita utilização inócua: no marketing, na publicidade, em vídeos cómicos, por exemplo. O pior é quando a coisa é usada com maus intuitos, para enganar o maralhal, para que ninguém já saiba o que verdadeiro ou falso, para que os falsários neguem evidências dizendo que é tudo mentira, que não eram eles, que o que se vê é morphing, ou que não foram eles que disseram aquilo, que foi tudo deepfake. Ou, o contrário: imagine-se que começam a aparecer vídeos do nosso ubíquo Marcelo a falar com a voz arrastada, a dizer inconveniências, como se tivesse tido um almoço bem regado e tivesse perdido a noção... e que a coisa vira viral e que, às tantas, toda a gente comenta e... -- e às tantas já ninguém vota nele nas próximas eleições porque ninguém quer um presidente que envergonha a família e o país. E tudo baseado em vídeos forjados com recurso a estas tretas. E por muito que muito boa gente desmentisse, dos desmentidos já ninguém quereria saber porque o que tem graça são vídeos que arrasam 'os poderosos' e 'os políticos' e não desementidos que são uma seca.

E o que me preocupa nisto é que todas estas coisas vão fazendo o seu caminho num mundo apático, em que nada disto é regulamentado. Os humanos são bons a descobrir 'cenas' e a adoptar e adaptar tecnologias que atentam contra a sua boa existência.

Mas não vos maço mais. Peço apenas que vejam os vídeos abaixo e que, por favor, pensem.



Deepfakes: Is This Video Even Real? | NYT Opinion


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E uma boa sexta-feira.

quinta-feira, agosto 08, 2019

Contra os Pardais tóxicos e manhosos desta vida, contra os Bolsonaros, Trumps, Salvinis e outros racistas, xenófobos e estúpidos que tais, contra os Bannons e outras úlceras purulentas, contra os nazis, fascistas e ultra-direitolas que por aí ensaiam perigosos regressos:
que as crianças se levantem e façam ouvir a sua voz.
Podem chamar-se Greta, Malala, Emma, Bana.
Podem até chamar-se apenas Emanne Beasha


Defendo o direito à greve. Quando a um trabalhador nenhuma outra forma de luta resta, que use a da negação ao trabalho é mais do que justo. É direito que deve ser defendido com unhas e dentes.

Contudo, uma greve é uma luta contra um patrão com quem se quer chegar a um acordo. Uma greve não pode ser um acto de chantagem. Quem faz greve não pode (ou, se pode, não deve poder) fazer gente inocente refém das suas lutas. Isso é cobardia que não pode ser perdoada.

Claro que uma greve terá sempre alguns efeitos colaterais mas os efeitos colaterais não podem ser desproporcionais. Por exemplo, a greve às cirurgias dos enfermeiros que, para ganharem mais, colocaram em risco a vida humana foi abjecta.

in TSF
A anunciada greve dos motoristas que, para garantirem aumentos para daqui por dois e três anos -- aumentos que nem vou comentar -- e que assentam toda a sua reivindicação numa manipulação de conceitos e deturpação de números, pretendendo paralisar o país parece-me selvagem (sim, Paulo e JV, selvagem).

Nada naquela greve é razoável, proporcional, admissível. Mais: tenho para mim que há por ali mão de quem quer desestabilizar a democracia. Mão de quem quer que o país se revolte e exija o fim do direito à greve. 

in BBC

E mais: tenho para mim que, perante Pardais e quem, se calhar, está por trás de tudo isto, a malta que ingenuamente se agarra a purismos como a intransigente e cega defesa do direito à greve, defendendo esta seita, não faz outro papel que não o de meninos do coro.

Não digo que todos os motoristas deste sindicato que se construíu em torno do Pardal fazem parte de uma 'seita'. Não, não estou a dizer isso. Haverá ali muito boa gente simplesmente deslumbrada com tanto mediatismo, gente iludida com o poder de parar um país, quiçá até um ou outro simplesmente ingénuo. Mas o Pardal e mais uns quantos é gente que, se fosse eu decidir, a bem da democracia, manteria debaixo de olho.

E digo ainda mais: a bem de preservação do nosso regime democrático, um regime que a tão duras custas foi conquistado, é bom que se pense bem nos limites que devem ser postos ao recurso à greve para se evitarem greves selvagens que são verdadeiros atentados contra a democracia.
Por exemplo: podem os trabalhadores estar em greves de prazo indeterminado financiando-se sabe-se lá como e auferindo, nesse interim, rendimentos fiscalmente isentos? Podem uns quantos trabalhadores causar prejuízos a outras entidades que não os seus patrões e em montantes desproporcionais face ao que esperam atingir? Podem uns quantos trabalhadores pôr em causa a vida humana? Podem uns quantos trabalhadores paralisar um país? Etc.
Penso que, a bem da defesa dos direitos dos trabalhadores, tudo isto deve ser seriamente analisado, sem pruridos, sem tabus. Read my lips: meninos do coro é do melhor que há para os Bannons desta vida paparem ao pequeno-almoço.

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in The Guardian

E quanto às enormidades  potencialmente assassinas e aos incitamentos racistas, homofóbicos, xenófobos, cretinos e populistas dos Bolsonaros, dos Trumps, dos Salvinis e de outros merdosos desta vida -- gente inculta, estúpida, ignorante, mesquinha, gente que o povo elegeu (em alguns casos por aritméticas duvidosas -- mas não interessa, foram eleitos) -- o que tenho a dizer é que, de cada vez que se dá corda a quem faz levantar descontentamentos populares se está a abrir a porta a gentalha dessa, gentalha que há-de devorar aqueles que neles votaram. Não neutralizar gente perigosa é deixar que levem o país à beira de uma crise de nervos, a malta toda pronta para acolher de braços abertos um qualquer herói que se anuncie como o grande salvador da Pátria.

Se depois de um Obama pareceria impensável haver um Trump, ponhamos os olhos nessa improbabilidade e não descuremos a probabilidade de, por manipulação, má informação, revolta ou descontentamento, os portugueses virem um dia também a eleger uma qualquer besta quadrada.

Por isso, não é por alguns ditos 'sindicalistas' usarem a palavrinha sagrada 'greve' que devemos, nem por um segundo, defender gente sinistra como os Pardais desta vida.


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Presumo que, percebendo o isolamento em que se encontram e com uns serviços mínimos que os deixam expostos ao ridículo, estas espécies de agremiações que se auto-intitulam 'sindicatos' venham, por ora, a meter a viola no saco. Mas não subestimemos o poder do Pardal e de quem o apoia ou suporta nem o dos que andam pelo meio das claques, no meio dos motards, em torno de Chegas e Bastas, em manifs de ultra-direitas e tretas dessas. Não subestimemos.


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E, tirando isso -- e mais para desanuviar do que outra coisa -- tenho ainda outra coisa a dizer. Não tenho o mínimo de paciência para crianças armadas em adultas, meninos e meninas todos cheios de nove horas. Zero. Mas tenho a máxima admiração por crianças que nascem corajosas, que enfrentam selvajarias, guerras, perseguições, iliteracias, que sabem impor-se a adultos, lutando por ideais que deveriam ser os de todo o mundo. 


Ouçamos os jovens, apoiemos as crianças, deixemo-los que encabecem lutas a que nós, adultos, miseravelmente fechamos os olhos.

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E para este post não ser não apenas grande demais mas também um bocado sisudo, acabo com uma menina de dez anos que tem um rosto de anjo e uma voz de deusa. Chama-se Emanne Beasha e o Jay Leno festejou-a com um justíssimo Golden Buzzer. É verdadeiramente do além.



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Até já.

quarta-feira, agosto 07, 2019

Marcelo Rebelo de Sousa, os Motoristas e Pedro Pardal Henriques


Naquela sua demanda de estar com todos e em todo o lado, penso que Marcelo só ainda não esteve comigo nem em minha casa. No entanto, não é que eu não queira, seria muito bem vindo, julgo ser apenas porque ainda não calhou.

do Expresso
Pois bem.

Numa dessas suas, meteu-se num camião e foi à boleia para ver como era a vida dos motoristas. Se bem me lembro, começou por uma breve viagem em Dezembro do ano passado e, para cumprir uma promessa de se aperceber melhor das provações por que passam, tenho ideia que se meteu noutra mais longa em Janeiro deste ano.
Pretenderia ele, na dele, evitar cenas de tipo 'colete amarelo' por cá. Esvaziar o descontentamento. Pois, não digo que não. A questão não é essa, a questão é que há mais por aí quem também não ande a dormir, quem fareje qualquer rastilho, por pequeno que seja, para incendiar as sociedades que vivem estavelmente em democracia. 
Marcelo veio da vaigem a reconhecer as dificuldades da profissão e, como é óbvio, isso soou que nem música para os ouvidos dos motoristas. Dos motoristas e... de um certo recém-advogado, formado pela Lusófona do Porto em 2014, com cédula profissional de junho de 2017 e que, justamente em Janeiro deste ano, muito oportunamente, apareceu como vice-presidente de um Sindicato de Motoristas de Mercadorias Perigosas cuja morada curiosamente coincide com a do escritório do dito Pardal. Também curiosamente o escritório ostenta, quase como 'selo de credibilidade' bem visível no vídeo de apresentação, uma moldura em que o dito Pardal aparece não com o Papa em pessoa mas com Marcelo, o próprio.

do Lusojornal
E agora, enquanto ouvia as declarações do mesmo Marcelo a dizer que os meios não justificam os fins e a apelar ao bom senso numa tentativa de que a greve selvagem não vá avante, vi aparecer logo a seguir um dos motoristas-sindicalistas a dizer que, se meses antes Marcelo os tinha apoiado, estava, então, na altura de ser coerente e os apoiar a sério. Nem mais.

E eu, revendo a fotografia do Pardal com o Marcelo a servir de cartão de visita no dito escritório e ouvindo o sindicalista a reivindicar o apoio consequente do Marcelo, interrogo-me: será desta que o nosso Presidente percebe que, sob pena de parecer que está de rabo preso, não pode andar por aí a distribuir simpatias a eito e a fazer fotografia com tudo o que é cão e gato (sem ofensa para os cães e para os gatos)?

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Tirando isso, só espero mesmo é que o nosso Presidente, que é um ilustre Professor de Direito, esteja, discretamente, a mover as suas influências no sentido de ensinar quem de direito a, legalmente, impedir a greve selvagem e chantagista que está na forja. Agradecemos.

sexta-feira, abril 19, 2019

Quem é Pedro Pardal Henriques?


Quando ontem à noite vos disse que me parecia haver muito para investigar nesta greve selvagem dos motoristas de produtos perigosos não esperava que a coisa começasse a saltar tão rapidamente. 

No entanto, em boa verdade vos digo: ou muito me engano ou a procissão ainda vai no adro. 

Uma simples pesquisa no google permite chegar até onde ele paira (BNI - A maior organização profissional de negócios e referenciação do Mundo onde é Secretário e Tesoureiro + International Lawyers Associated, sociedade que se apresenta como se a ele se resumisse: Pedro Pardal Henriques assume-se com referência na advocacia Portuguesa e Internacional como um escritório de advogados especialmente vocacionado para áreas relacionadas com as Sociedades Comerciais, os Investimentos e os Investidores, com todas as áreas do direito que lhe são conexas, tais como o Direito Societário e o Direito do Trabalho, o Direito Fiscal, o Direito Bancário, o Direito dos Seguros, Fundos de Investimento e o Direito Imobiliário)

O Diário de Notícias destapa parte do véu.  Quem é o advogado de Maserati que dirige os camionistas?

O país descobriu-o como vice-presidente do Sindicato dos Motoristas de Matérias Perigosas. Mas Pedro Pardal Henriques é advogado. E dele há más memórias em França e referências pouco claras em Portugal. (...)
E aí pode ler-se sobre as divergências entre datas de licenciatura na Lusófona e o que agora diz, as bastas acusações contra ele (por exemplo, por se apropriar indevidamente de verbas), etc. E pode ler-se o espanto de todos quantos o conhecem por, do nada, agora aparecer à frente de um sindicato de motoristas quando nunca foi motorista.

Pedro Pardal Henriques, in DN

E o artigo expõe ainda como a sede do Sindicato, SNMMP, do qual Pedro Pardal Henriques é vice-presidente, é afinal a mesma da International Lawyers Associated: Avenida Visconde de Valmor, n.º 66, 3.º Piso, 1050-242 Lisboa


Por isso vos digo. Read my lips: parte do véu. 

Recomendo ainda a leitura de Uma greve contra todos de Daniel Oliveira que analisa parte do assunto. Mas em verdade vos digo: cá para mim, o busílis da questão está mais fundo. Mas, como ontem referi, acredito que haja quem se esteja a ocupar do assunto.

Já agora: vejam, pf, o vídeo de apresentação do grande, imenso, escritório de advogados, uma verdadeira multinacional (aparentemente nascida há um ano e subitamente transformada num dos mais relevantes escritórios de advogados de Portugal -- ou do mundo, nem sei), e que tem como cartão de apresentação a fotografia do insigne fundador (que, noutros sítios, é também administrador, tesoureiro, secretário, sindicalista e etc) Pedro Pardal Henriques com o ubíquo Presidente Marcelo (que um dia ainda se há-de arrepender de andar a posar ao lado de tudo o que é cão e gato, sem ofensa para os cães e para os gatos, claro)



Ah, e outra coisa: Pedro Pardal Henriques tem um problema a escrever e, em especial, a colocar vírgulas. E isso, em cima de tudo o resto, só contribui para me arreliar ainda mais.

quinta-feira, abril 18, 2019

Read my lips


À vinda, as estradas estavam vazias e eu, que vinha ao telefone com a minha mãe, estava intrigada com tão poucos carros, se seria que já estava toda a gente de férias ou se teriam ficado com os depósitos vazios. Hoje já ouvi uma que dizia que não podia ir trabalhar porque não tinha como ir sem ser de carro e que o combustível já estava por um fio e, ao comentar isso, disseram-me que estava a acontecer por todo o lado. 

Ontem estive muito tempo em fila porque uma das faixas estava parada para ir para a estação de serviço mas quando, ao fim de quase uma hora, passei por lá reparei que só uma bomba estava a abastecer. Se calhar, gasolina. Hoje, ao passar por lá, estava tudo inactivo.

Como pode tão pouca gente tão facilmente paralisar um país e como pode isto acontecer assim quase de súbito....?

Presumo que a esta hora os Serviços Secretos estejam numa azáfama porque o que se anda a passar de há uns tempos a esta parte tem muito que se lhe diga. Desde enfermeiros desencabrestados que não se importam de provocar mortes ou causar sofrimento e que se financiam de uma forma que tem tanto de eficaz quanto de suspeita até a este sindicato dos motoristas que nem meio ano tem de existência e que já está a causar um abalo que, a não ser a greve interrompida, só tende a piorar -- tudo isto fede. 

Não posso afirmar de atestado passado se há gente da extrema-extrema direita metida nisto, se há financiamento de russos se quê mas ou muito me engano ou alguma coisa há.

Não sou paranóica, detesto teorias de conspiração, não sou de especulações à toa mas uma coisa vos digo: Portugal é um exemplo bom demais, uma democracia bem sucedida demais para não incomodar quem tudo faz para enfraquecer a União Europeia e os regimes verdadeiramente democráticos. Quem anda a fazer isto, fá-lo inteligentemente, usando armas que conotamos com direitos e liberdades e que, por hábito e cultura, não queremos atacar. Mais: estas acções assentam em descontentamentos legítimos (repito: legítimos). E que os sindicados antigos usam metodologias acabadas é também um facto, pelo que fugir deles é também mais do que legítino. O aproveitamento das razões legítimas é  que, na forma, pode ser ilegítimo. Demolidor. Virando a população contra incertos, contra o Governo (mesmo que o Governo não tenha nada a ver com o assunto), contra os 'políticos' em geral.

E são estas as armas que quem quer que anda a conjecturar para minar os pilares da democracia está a usar.

Presumo que os Serviços Secretos portugueses estejam a trabalhar em articulação com os Serviços Secretos de outros países democráticos europeus porque quem assim actua fá-lo de forma planeada, inteligente e global. Coletes amarelos aqui, greves selvagens acolá. A porta cada vez mais aberta ao populismo que destrói a democracia.

E não, não estou a viajar na maionese. Read my lips. 

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Mudando de assunto, aligeirando o tema -- não para nos distrairmos mas para conseguirmos manter a serenidade e o discernimento mesmo no meio da baderna: Charlie Chaplin é perseguido por um polícia.


quinta-feira, fevereiro 21, 2019

Por acaso, até acho que o dito Enfermeiro Carlos Ramalho estava mesmo a precisar de fazer dieta



Pena mesmo é ele não ter pena das pessoas que precisavam de uma cirurgia e que, por causa da greve da mão ensanguentada, ainda estão em sofrimento, à espera de vez. Ou pena das crianças que estavam em jejum e que, por causa da greve, tiveram que esperar muitas horas ou que foram enviadas para casa, sem cirurgia. Pena mesmo é ele não ter pena dos doentes que têm estado a ser sacrificados, que podem morrer ou ter morrido porque não foram operados a tempo.

É que, eu, de todas as vítimas da greve gananciosa e sectária dos enfermeiros tenho pena. Das vítimas. Dos enfermeiros que querem aumentos de 400 euros, que querem ganhar mais no SNS do que ganham no privado, que, estando em greves que podem matar ou fazer sofrer ainda mais os doentes, recebem tanto (ou mais?) do que quando estão a trabalhar, deles eu não tenho pena. Não tenho mesmo. E se tinham razão para protestar (e acredito que tinham - quem não tem?) perderam-na completamente quando assumiram, com a maior displicência, que podia acontecer que, por causa da sua greve, algumas pessoas pudessem morrer. Perderam-na quando se esqueceram da razão da sua profissão (relembro: cuidar dos doentes), sobrepondo o seu interesse egoísta ao zelo pela saúde e pela vida dos doentes a seu cargo.

Portanto, por mim, o dito Carlos Ramalho -- que até tem peso a mais -- bem pode jejuar à vontade.

domingo, junho 16, 2013

Quando eu fui professora; eu e as burocracias; a 'cena' das avaliações - coisas sem interesse de maior -; e a prima da minha prima e a justa luta dos professores [e, para nos acompanhar nesta minha conversa, Kiki de Montparnasse por Man Ray]


Há uns anos, na altura de Maria de Lurdes Rodrigues, não me identifiquei com o alarido que veio do lado dos professores. Pareceu-me uma luta excessiva para o que estava em causa, as avaliações. O método poderia não ser o melhor mas a ideia em si, a de avaliar o desempenho dos professores, parece-me normal, aceitável.




Eu sou ferozmente anti-burocracia. No desempenho das minhas funções raramente tomo apontamentos, eu própria não guardo papéis (as pessoas que trabalham comigo, por força das suas funções, guardam alguns mas isso é lá com eles). 

Ao contrário dos meus colegas que, quando mudam de instalações (e as vezes que eu  e os da minha idade já mudámos nem dá para acreditar), têm caixotes e caixotes, eu tenho para aí uns dois e uma parte é com tralha que não tem a ver com trabalho (uma pedra que apanhei numa praia, uma caixinha de alumínio com a imagem do Fernando Pessoa, uma peça de madeira de que gosto, uns quadros, coisas assim). 

De todas as vezes que mudei, aproveitei para deitar coisas fora de que ainda não tinha tido coragem de me desfazer em vezes anteriores (dossiers relativos a projectos feitos com o acompanhamento do Banco Mundial, reestruturações acompanhadas pela Mckinsey, outras pela Boston Consulting Group, outras feitas internamente, outros trabalhos que me marcaram, etc - tudo para o lixo. Passado. Lugares a que não vou voltar. Tanta e tanta coisa que foi ficando para trás. Para quê guardar provas disso? Lixo.)




Quando vou para reuniões vou eu e nada mas que eu. Não vou com computadores, não vou com dossiers, a maior parte das vezes nem a caneta encontro na carteira. Os meus colegas vão com brutas pastas, carregadas nem sei de quê, outros abrem os portáteis e ali estão e eu chego e até me sinto mal, parece que vou a passeio. Se calha discutir-se algum assunto que me parece relevante, ainda peço uma folha e escrevo meia dúzia de palavras. Quando chego a casa e vejo uma folha na carteira, já nem me lembro do que é e, quando vou ver, já me parece irrelevante - e lixo com ela.

O que é importante fica-me na cabeça: não me esqueço, ponho em marcha, acompanho. O que não retenho é porque não merece ser retido e, portanto, para quê acumular papéis, apontamentos, actas?




Antes de trabalhar no mundo empresarial para onde entrei mal acabei o curso, tinha dado aulas durante dois anos e picos no ensino secundário (entre o na altura chamado bacharelato e a licenciatura que, na altura, era composta de 5 anos lectivos). 

Quando acabei a licenciatura, muito por influência da minha mãe que achava que ser professora era o máximo (ela era professora), concorri para o estágio e fiquei colocada na escola que queria. Mas apenas lá estive até ao final de Outubro, data em que entrei para a empresa. Mas aqueles dois meses de estágio foram um suplício: planos de aulas, planos e fichas de aulas, nem sei. Tudo aquilo me parecia uma chachada, uma aberração contra-producente. Eu, que sou uma intuitiva, de ir para onde a intuição me leva, achava que aquilo violava a minha natureza. Não via a hora de me livrar daquilo. O orientador de estágio era, para mim, uma pessoa limitada. Os meus colegas de estágio ainda mais limitados eram. Todos achavam normalíssimo ter que preencher tanta papelada, e olhavam para a minha repulsa como se eu é que fosse anormal. Não me via metida naquele filme. Foi a minha primeira experiência burocrática.




Depois, na empresa, sempre tive a liberdade de funcionar à minha maneira.

Contudo, há uns anos, depois de ter fugido disso durante muito tempo, não tive como escapar às avaliações.  Aqui que ninguém me ouve, digo-vos que acho isto das avaliações, na forma como as fazemos e na forma com grande parte das organizações as faz, uma treta. 

Mas não posso fazer vingar a minha ideia, tenho que me sujeitar a seguir o método adoptado. Avaliar é importante mas deve ser feito de uma forma quase intuitiva e deve ser monitorizado por quem tenha grande conhecimento de causa - nunca por burocratas, que têm uma visão administrativa da coisa.




Mas este mundo não é perfeito. 

O que faço eu então? Aligeiro, aligeiro, aligeiro até não me dar quase trabalho nenhum. E aproveito a ocasião, isso sim, para falar com cada um dos meus colaboradores e dizer-lhes, francamente o que penso deles: que se deixam entusiasmar por ideias novas e se marimbam para o que tem menos interesse e que isso não pode ser, que gostam de se exibir e que eu, mais do que estrelas, gosto de quem trabalha bem em equipa e puxa pelos outros, que são pouco pró-activos e que eu preciso que me dêem ideias e não de ter que andar a ter ideias pelos outros, etc. Esse é o verdadeiro momento de avaliações para mim, aquele em que discuto, de forma aberta e adulta, o que acho do desempenho de cada um dos meus colaboradores, tentando que melhorem. O resto do acompanhamento é feito no dia a dia. Antes de falar com eles, na altura das avaliações, preencho umas fichas e chego a um valor para cada um, que lhes transmito. Regra geral concordam comigo. Sou capaz de levar um dia nisso. E é tudo.

Eu própria sou avaliada e aí a coisa ainda é mais sui generis. Então como é que se classifica? Então e na visão estratégica acha que merece quanto? Eu digo que, o que ele disser, está bem. Ele diz o mesmo. Depois eu digo que ele me deveria poupar a cenas deprimentes. E ele lembra-me que tem que ser, pelo que o melhor é despacharmos o assunto. Farto-me de rir e ele também. Quando saio, nunca faço ideia de quanto é que tive 'no exame'. É-me indiferente. 




Não me revejo no método. No entanto, uso-o - mas à minha maneira. No entanto, tenho colegas que preenchem écrans, folhas de cálculo, sei lá. Queixam-se, lamuriam-se, mas para ali estão - no fim, sem qualquer valor acrescentado, trabalho para o boneco. Eu não me queixo, aquilo não me dá trabalho que se veja, acaba por ser útil. Não estou para me ralar com o que não tem importância.

Quando foi a guerra das avaliações dos professores, ouvi falar em excesso de burocracia. Seria certamente possível adaptar. Não era caso para uma guerra daquelas.

Caso bem diferente é o que se passa agora. Depois dos cortes de ordenados, da subida de impostos, a forma aviltante como os professores são tratados, esta cena do horário zero, podendo ser atirados para a mobilidade e depois para o desemprego, o aumento da carga horária, a desvalorização de matérias que deveriam ser pilares do conhecimento e do desenvolvimento humano, tudo aquilo me fere - é muita maldade, muita iniquidade, muito maquinação. Tudo junto é insuportável.




De facto, há, na forma como este desGoverno trata os funcionários públicos, qualquer coisa que me agonia. Não sendo eu funcionária pública e trabalhando bem mais de metade do ano para impostos e contribuições, não posso, ainda assim, deixar de achar indispensável que haja uma função pública respeitada, qualificada, dignificada. Ter bons professores, bons médicos, bons agentes de segurança, bons gestores da coisa pública em geral, parece-me indispensável e todos nos deveríamos orgulhar da sua qualidade e motivação.

País que se preze deve zelar por que a sua população tenha acesso livre e gratuito a tudo o que serve para garantir o seu bem estar e desenvolvimento. E todas as pessoas que contribuam para isso devem ser olhadas pelos outros concidadãos com respeito.




Hoje, em casa dos meus pais, estivemos a falar disto. O meu tio falou de uma sua sobrinha (prima da minha prima, mas não minha prima) que, depois de andar de escola em escola, de concelho em concelho, foi colocada numa das nossas ilhas, onde, pensando assentar, comprou casa. No entanto, depois voltou a ser colocada no continente e agora vive numa casa alugada pois teme que, um dia destes, a vida volte a dar uma volta. É professora há mais de vinte anos e ainda é contratada (nem ele nem eu conhecemos bem a designação correcta pelo que não garanto que seja 'contratada' que se diz; ele disse que ela ainda é precária).

Acho isto desumano, ilógico. Acho até brutal. Como se organiza uma vida nestas circunstâncias? Esta 'rapariga', como o meu tio se refere a ela, tem quarenta e muitos anos e é solteira e diz o meu tio que é uma pessoa triste. Pudera. Como se consegue ter uma vida feliz numa situação destas?




Por tudo isto percebo agora muito bem a luta dos professores. E acho que toda a gente intelectualmente honesta deve também perceber.

Depois choca-me o acinte com que o desGoverno e seus avençados tratam a classe docente. Este desGoverno tenta lançar todos contra todos, novos contra velhos, empregados contra desempregados, pais contra professores. Uma indignidade.

Os professores, por lutarem por condições de trabalho dignas, por lutarem pela qualidade do ensino, por lutarem pela estabilidade na sua vida profissional, têm pois o meu apoio. 

Só espero que eles próprios percebam que só a sua união lhes permitirá a sua defesa.

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Convido-vos ainda a irem de passeio até ao meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa, para verem (e ouvirem!) como Davide Martello, tendo levado um piano de cauda para a Praça Taksim, acalmou a multidão que parou para o ouvir. Há coisas fantásticas.


Um bom domingo a todos!