Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, julho 30, 2019

Avistamentos no metro, conversas sobre automóveis e, com vossa licença, algumas ignoranças neste mundo pequeno


Que não se pense que me armo. Nada. Não é isso.

A questão é que, por ter que me movimentar bastante entre distâncias que são razoáveis, não apenas a nível pessoal mas, sobretudo, a nível profissional, me vejo forçada a deslocar-me de carro. E, por isso, não sei há quantos anos não ando de transportes públicos. A última vez foi há uns bons anos e foi uma pequena deslocação de autocarro (de que aqui dei conta pela diversão que foi).

De metro, então, nem faço ideia. Resmas, paletes. Muitos anos.

Ainda ontem conversávamos sobre isto: o mundo desorganizou-se de uma forma irracional. 

O número de carros que invadiu as cidades é um absurdo. Há gente demais a trabalhar longe das suas casas, tendo que se deslocar bastante. Como frequentemente não há transportes directos acabam por usar o carro, em especial se tiverem que incluir no trajecto a escola dos filhos. Tenho alguns colegas que usam os transportes públicos mas apanham quatro transportes para chegar ao emprego, consumindo nisso quase duas horas (duas para cá mais duas para lá). Esses são os que não têm dinheiro para irem de carro. 

Uma coisa horrível, horas de vida desperdiçadas.

E sei do que falo pois, apesar do cu tremido, não são negligenciáveis as horas que também estupidamente desperdiço.

As ruas estão pejadas de carros. Nas ruas, em pára-arranca, nos passeios, em cima dos passeios. Carros, carros e mais carros. Já nem falo na poluição, problema maior. Falo agora na invasão territorial, retirando a possibilidade às pessoas de andarem nos passeios, desfrutarem a cidade. 

No dia em que os aspectos da sustentabilidade do planeta e da qualidade de vida das pessoas forem levados a sério, uma quantidade de políticas integradas e disruptivas terá que ser posta em marcha.

[Pena que, em vez de se limitarem andarem de roda de temas do tamanho de golas, os políticos não se ocupem de coisas verdadeiramente relevantes)

Este punk alternativo,
leva uma tira de entrecosto na cabeça

Não sei se as medidas passam por fazer pesar crescentemente a fiscalidade sobre cidadão em cujas habitações exista mais do que um carro, se simplesmente por aumentar os transportes públicos de qualidade. Ia escrever de qualidade e rápidos mas não é preciso pois, mal se consiga reduzir o número de carros em circulação, o trânsito fluirá melhor. E outra coisa que, de resto, já se vê bastante em Lisboa: ter cada vez mais vias bus. Se se facilitar a vida aos transportes e complicar aos carros individuais os hábitos começarão a mudar. 

Mas, enfim, quando a questão é sistémica, para actuar sobre ela é preciso actuar em todas as suas variáveis. E são tantas. Portanto, nem vou aqui dar palpite porque o assunto é sério, é para urbanistas, para gente que estudou e sabe do assunto, não para amadores especialistas em palpites.

Agora uma coisa é certa: um dia que me veja livre desta coisa de trabalhar parte do tempo numa cidade diferente daquela em que vivo e no resto do tempo numa terceira cidade, é muito provável que compre um passe social (e baratos como estão ainda melhor) e me desloque quase exclusivamente  em transportes. Nem sei até se, sendo velhinha, não terei ainda rebuçadinho exta. Claro que, para ir a casa dos meus pais ou para o campo, irei de carro mas, tirando isso, vai ser uma liberdade fantástica. Só o facto de não ter que andar às voltas para ver se descubro um lugar para deixar o carro me parece um alívio extraordinário.

Reparem na bolsa que o senhor leva na mão
(mais do que uma bolsa,
uma escultura em madeira)

E depois há outra: tenho ouvido dizer que as estações de metro estão uma graça, com obras de arte, coisa de dar gosto. Quando confesso a minha pecha, não acreditam e vão desfiando: 'Mas quê?! Nem a do Chiado?!' e vão dizendo uma atrás de outra. Galeria de arte que um dia terei mesmo que frequentar.

Quando andava a estudar, deslocava-me de metro que me fartava. E gostava. Arranjando-se lugar sentada, então, até dava para ler. Bem bom. 

Como sempre gostámos de fotografia, durante alguns anos assinávamos a Photo. E lembro-me bem de algumas reportagens feitas no metro de Nova Iorque, Coisas do além, as que se viam. Por cá tudo muito neutro, muito mediano e, por lá, de vez em quando, cada excêntrico, cada exótico mais engraçado... 

O Bored Panda tem uma série também cheia de imagens insólitas. 45 Funny And Strange Things Spotted On the Subway 

Estive a ver de gosto (e aconselho a que vão até lá para ver se também não ficam a ver de gosto como eu). Da minha parte, ainda maior teria sido o gosto se pudesse tê-las visto ao vivo e, oba!, fotografá-las.

Acho mil vezes mais piada a coisas assim do que ver gente muito emproadinha.

No outro dia tive um almoço de trabalho num dos restaurantes icónicos da cidade. É grande, muito bem decorado, muito caro, cheio de empregados que se sentem gente muito importante, nobres de gema. Enquanto lá estive, vi chegar, em separado e para mesas distintas, um reputadí$$imo e pentadí$$imo advogado da nossa praça, pouco depois um conhecido especialista numa dada matéria e, por isso, presença assídua nos comentaderos da TV e, pouco depois, o empertigadote líder parlamentar de um partido da oposição acompanhado por um trio que cá para mim eram de um jornal (e a ver vamos se, um dia destes, não vai sair uma cena daquelas 'à mesa com'). Tudo gente apertadinha, daquela que não parte um pratinho, gente dentríssimo da caixinha, sem um fio de cabelo descomandado-zinho. E eu, igualmente rodeada por ilustres cavalheiros bem comportados, só pensava que haveria de ter graça se, numa mesa qualquer, alguns dos comensais, indo ao engano, se apresentassem em contramão, ruidosos, uns declamando poesias do Bocage, outros cantando canções de escárnio e maldizer. Isso, sim, é que era. Mas não. Tudo bem comportado do princípio ao fim. Além disso, o arroz estava mal cozido, encruado. Não paguei a conta mas é daqueles almoços que grátis mais grátis não pode haver. Além disso, puxa, a pagar é que lá não punha os més. Mesmo.

Cenas.

Cá por mim, mal por mal, mil vezes preferia ir passear com um cacho de bananas pela trela.

Cá está:
um cacho de bananas com uma trela, como se fosse um animal de estimação
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E, a despropósito, dois vídeos muito bons com o doçura e o afecto que o sotaque brasileiro confere à língua portuguesa


David Sacks, que gravou com Tom Jobim, e Nelson Faria tocam e conversam sobre a Bossa Nova



E uma vez mais, aqui, um vídeo precioso pela voz e pelas coisas extraordinárias que a voz diz:

Manoel de Barros - O Livro das Ignoranças, Mundo Pequeno e Autorretrato


E agora vou dormir uma little sesta que o meu corpo continua a exigir que eu reponha as horas que não usei na noite de sábado para domingo. Se acordar pode ser que ainda cá volte porque hoje é daqueles dias em que assunto tenho bué

sexta-feira, junho 08, 2018

Palavras desconfessadas





Não sou de dar lição. Dou palpite. Coisa fraca, bagatela. Opinião, quando muito. Mas lição não dou. Não sei o suficiente. Não me peçam conselho. Quando muito direi: eu, se fosse eu, faria assim. Mas pode acontecer que eu, noutra altura, já fizesse de outra maneira.
Já contei: amei a relatividade. Parecia coisa poética e eu, já na altura, era dada à poesia. Também já contei: estava no Portinho a ler o ABC da Relatividade e o homem mais lindo do mundo e com um corpo demasiado belo para ser de verdade aproximou-se de mim quando eu estava a nadar, e vinha de debaixo de água, e isto para me dizer que me tinha visto a ler sobre a relatividade. E falou em francês para ser tudo ainda mais improvável. E desde aí nunca mais larguei isto da relatividade. Coisa do domínio do improvável, de uma elegância que mais se diria ser coisa quitada. Aprendi: tudo muito relativo, tudo, o tempo, o espaço, o que a velocidade faz à massa dos corpos, a luz. E aquilo das ondas curvas e melódicas que atravessam o universo ainda mais ajuda à festa. Uma beleza absoluta, isto da relatividade.
Quero eu dizer: não sei nada. Eu própria posso ser nada. Quem sabe, nada mais senão uma partícula anónima circulando no imenso espaço.

Até porque é mesmo isso: estou de passagem. Meio mundo está para ficar. Lutam para aprisionar o tempo entre as mãos.
Mas nada se segura entre as mãos. Só o afecto, coisa fugaz, mas isso também não conta para aqui.
Sabem tudo, querem tudo, nada arriscam para não perturbar a monotonia que os encanta. Eternos. Para todo o sempre por cá, agarrados aos seus privilégios, garantias adquiridas que perdurarão até ao infinito. Gente feliz.

Eu não, eu sou efémera, perecível. Desligada de certezas. Despreocupada e desavergonhada como um bicho inocente.


Também não sei interpretar, muito menos decompor a semântica, enunciar signos ou desfiar semióticas. Mesmo que quisesse fingir que sim, a verdade é que não. E o pior é que não quero. Só quero ser capaz de gostar ou não gostar, sem explicações, sem convenções.

Atraem-me as topologias abastractas, as bolas ditas abertas, os espaços sem fronteiras, as geometrias variáveis, as palavras que rasgam o véu que normaliza a realidade. Coisas assim que, como se vê, não alimentam grande conversa.

Ah. O texto parece meio solto. Está meio solto. Mas não podia ser de outra maneira porque as ideias soltas estão. Não quero aprisioná-las.

As escolas deviam ensinar a subverter, a manter os pensamentos em liberdade, a inventar caminhos. Mas isto sou eu, desconstruída mental, a falar.

Não sou de seccionar frases. Sou mais de limpar polinómios. Cansa-me o ruído. Atrai-me o silêncio.

E comecei a escrever este texto para falar do que acho que deveria ser a escola hoje mas, porque não sei do assunto nem sei dizer bem o que penso, deixei que aquela velha driving force que constantemente me leva para sítios imponderáveis, me fosse desconduzindo para lugar nenhum.

Por isso, esqueçam.


Vou mas é limitar-me a ficar aqui, sossegada, a apanhar luz do candeeiro para me preparar para o ar condicionado que amanhã vou respirar


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E, então hoje, Lady Kina, o que tem a dizer-me?

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domingo, agosto 07, 2016

O que Manoel de Barros me ensinou sobre o nada
[Que coisa mais estranha: não fui eu que escrevi isto...]






Conheço pessoas que sabem tanto, tantas coisas. Lembram-se, instantaneamente, de nomes de autores, de nomes de livros, de excertos desses mesmos livros. Não é por acaso nem por magia. É porque se dedicam de corpo e alma à tarefa da leitura: lêem com todo o cuidado, não descuram as anotações em letra pequenina, aprofundam conhecimentos até ao ponto em que sentem que já sabem tudo o que há para saber. Conhecem várias traduções do mesmo livro, lêem a obra na língua original. e memorizam tudo. E acham que a vida não é a mesma sem passar pela experiência de saber tudo sobre tudo. Se um autor lhes agrada superlativamente e se não sabem a língua para o poderem ler na versão nativa, então aprendem a língua e, quando dão por ela, conhecem para cima de uma dúzia de línguas. 

Admiro genuinamente pessoas assim. Tendo a admirar pessoas capazes de proezas que eu sei que jamais alcançarei. E sei de certeza absoluta porque não sinto essa vontade, nem essa necessidade.


Não é que, se tivesse a certeza que viveria para todo o sempre, também não quisesse saber tudo. Mas não tenho. Intuo que a minha vida é finita. Por isso, reservo sempre espaço para o tempo do nada, seja escrevendo aqui sobre coisa nenhuma, seja vendo vídeos ao acaso ou lendo bobeiras, seja contemplando o rio ou o mar, seja estando de olhos fechados recordando aqueles de quem gosto e que não posso ter perto de mim, seja ouvindo música, lendo ou fotografando ou brincando com as fotografias que tirei. E reservo também sempre tempo para o amor. A minha vida perderia qualquer sentido se eu não tivesse contacto aqueles que o meu coração ama ou se não tivesse a quem dirigir o meu afecto.

Por isso, se às curtas horas do dia eu retirar aquelas em que trabalho, aquelas em que estou no trânsito, aquelas em que me perco com pequenos nadas, aquelas, poucas, em que durmo, sobra-me uma exiguidade que eu faço por dilatar, enchendo-as com o pouco de que muito gosto. Não sobra tempo para frescura, para anotação, para aprofundamento. Fica apenas tempo para ligeireza, para flanação por sobre as montanhas de informação e conhecimento, baixando a minha atenção sobre um ou outro ponto de luz que chama por mim.


Nestas minhas novas andanças, porque acho que o primeiro passo é conhecer as pessoas, falei com cada uma. Para meu espanto, depois da conversa mais profissional, quando eu perguntava o que mais gostavam de fazer e, talvez porque a pergunta inesperadamente fazia romper um dique, frequentes foram as vezes que ouvi falar de desilusões, de um certo cansaço e descrença e várias vezes ouvi justificar a desmotivação com o facto de já terem vivido mais de metade da vida, querendo agora reservar o curto tempo que falta com o que realmente interessa. Às tantas pedi que não dissessem mais isso, senão ainda iria sair dali a sentir-me velha já que sou mais velha do que várias pessoas que disseram isso. 
Ao dizer isto, lembro-me do que voz entendida me disse: uma coisa são os anos vividos e outra é a velhice. A pessoa pode ser velha, as células envelhecidas, a mente esvaída, apesar de ter poucos anos de idade ou, pelo contrário, pode ter vivido muitos anos e ter umas células jovens e uma mente de criança. Eu acho que me encaixo neste último grupo (acho, disse eu - não sei se medicamente será mesmo assim).
A verdade é que não penso nisso, de já ter vivido mais de metade da minha vida. Sei lá se não vivo até aos 200. Mas penso sempre que a vida é curta e que pode ser tão boa. Para quê desperdiçá-la aprofundando à exaustão algumas coisas e deixando mil coisas boas por viver? Ou para quê desperdiçar tempo de afectos e doçura a aprofundar conhecimentos sobre o Ulisses? E quem diz o Ulisses diz outra coisa qualquer. Posso ser muito primária mas, na verdade, é mesmo assim que sou. Para mim, cada dia tem que valer a pena. Se o dia é longo e cansativo, então que cada minuto sobrante seja bom, solto, leve. E se o dia é longo e descansado, então para quê cansar a mente?

Bom, bom mesmo, é estar sempre disponível para a surpresa, para o maravilhamento, para a descoberta de um mundo sempre novo.

Como disse Manoel de Barros, quem acumula muito informação perde o condão de adivinhar. E eu gosto mesmo é de adivinhar. Acho que ser sabichão não tem graça nenhuma. Por isso, não quero memorizar para não formatar a minha mente. Quero que ela conserve a plasticidade infantil de perante tudo se encantar.
[E isto é o que eu penso, já aqui o confessei mil vezes. Ora estava eu aqui, preguiçosa, estendida no sofá, a televisão a mostrar-me um programa alemão em que andam todos nus, Adão e Eva em várias versões, na praia, todos apaixonados, e eu também à fresca, a passear pela net -- quando dou com um texto que diz, quase pelas mesmas palavras, o que eu penso. 
O texto tem o título que coloquei em epígrafe e foi escrito por Flávia Bechtinger para a Obvious. Transcrevi uns excertos que podem ser lidos a seguir, em itálico]


Bom mesmo é desaprender. Bom mesmo é se colocar como espectador de um mundo que você ainda não conhece e está deslumbrado olhando. Bom mesmo é olhar um rio e imaginar que é uma cobra de vidro mole. Bom mesmo é inventar cores, nomes, paisagens. Bom mesmo é entender que as respostas podem existir, podem não existir, podem qualquer coisa. E que tudo depende de como você quer escolher naquele momento.

Somos o que estamos. Isso foi outra coisa que aprendi. E se quero brincar de encontrar imagens nas nuvens ao invés de reclamar das contas que não param de chegar na minha casa, eu posso fazer isso. E posso ser chamado de uma pessoa insensata, mas com certeza, estarei mais feliz do que quem passa o dia reclamando, pelo menos no meu entendimento do que é ser feliz.

Manoel de Barros fala de despropósitos, do que talvez não faça muito sentido para muita gente. A mensagem parece ser sempre que não existe resposta certa, que o certo é buscar o que te faz bem. A mensagem parece ser sempre a mesma: olhar para a vida com olhos de quem está descobrindo. Olhar a vida como se a gente não soubesse de nada ainda.


Uma parte de mim ainda se assusta com essa forma leve e colorida de ver o mundo, mas a outra se perde entre tantas cores, brilhos e fantasia. E essa parte hoje comemora a vida todos os dias. E ri, brinca, pula, canta, dança e está feliz a maior parte do tempo, até quando está triste.

Manoel de Barros fala sobre o nada quando fala de despalavra, despropósito, desaprender, desfazer, desatar. É tudo sobre levar uma vida com mais leveza, com menos cobrança, com menos palavras, com menos promessas ou expectativas. Com menos.

E agora eu acredito que só existe uma forma de ter todas as respostas: esquecer todas as respostas. A melhor forma de aprender mesmo é desaprender e olhar o mundo com olhos de quem nunca viu. Todos os dias.

(Texto completo aqui)

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Uma vez mais aqui, o meu Mestre:

Manoel de Barros - O Livro das Ignoranças, Mundo Pequeno e Autorretrato



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Lá em cima era Aurora interpretando Through The Eyes Of A Child. 
Fiz as fotografias no Ginjal e há bocado estive entretida a saturar-lhes as cores.

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Por aí abaixo há mais dois posts: um a propósito dos Jogos Olímpicos e outra a propósito do 50ª aniversário da ponte 25 de Abril

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quarta-feira, maio 25, 2016

Apenas uma abstração




Há Leitores que dizem que ler o Um Jeito Manso é a primeira coisa que fazem pela manhã. Outros dizem que esperam que eu escreva para me lerem antes de se irem deitar. E eu aqui, na minha sala, eu que posso muito bem não ser senão uma abstracção.

Sei que há um site de escrita automática em que se escolhem uns quantos tópicos e o número de palavras e aquilo escreve um texto que, do que vi, até é razoavelmente escorreito. Se calhar até há mais do que um site a oferecer este serviço mas eu só vi este. Fiquei impressionada. 

Por isso, quem vos garante, meus Caros Leitores, quem vos garante que eu sou uma mulher de verdade e não um software?


Agrada-me essa ideia, confesso. Eu própria me espanto como, depois de dias complicados -- assuntos profissionais que se acotovelam, sucessivos telefonemas de 'temos mais um problema' e gente a entrar-me no gabinete a desabafar problemas pessoais, alguns bem graves e, pelo meio, assuntos meus, familiares, maleitas e arrufos, filhos e cadilhos e, no carro, de boa cara para saber como está a mãe e o pai, ouvir as queixas, mostrar, pela voz, que estou bem, ouvir recomendações e isto enquanto ouço, trim trim, mais mails de trabalho -- consigo, diariamente, manter este meu gosto de escrever. É que depois, logo a seguir às tormentas, à noite, aqui, já tudo desapareceu e nem um desses problemas deixou um grão de pó em cima de mim. E, enquanto escrevo isto que estão a ler, recebo e mando mensagens pelo telemóvel, combinações já para quinta-feira, e logo retomo, continuo a prosa como se não estivessem a acontecer interrupções ou como se eu não fosse senão um programa informático, sem sentimentos, emoções ou cansaços.

Penso muitas vezes: não sou normal. Às tantas, se alguém me fizesse um exame à cabeça, ainda descobria que me falta um bocado, talvez o bocado que processa e reprocessa as ralações (coisa que, de facto, nunca o faço) ou que tenho a zona da divagação maior e mais invasiva do que o normal. Ou que me falta o bocado das choradeiras, ciumeiras e invejices e que, no lugar disso, há para lá uns chips ligados às mãos e que as põem a escrever sozinhas.


Por isso, digo a quem espera por mim: não estejam certos de que, por detrás do Um Jeito Manso, está uma executiva, uma avozinha, uma esquerdista ou uma lírica sem freio. O mais provável é que não esteja ninguém. No entanto, podem continuar a esperar pelas minhas palavras. Aliás, podem não apenas ler as minhas palavras mas também imaginar-me a vosso gosto: cabelo de um louro veneziano de largo ondulado ou ruiva escarlate fortemente encaracolado ou longos cabelos lisos e negros; perigosos olhos quase verdes ou azuis de boneca cintilante ou negros profundos; e pele clara e lisa ou rosada e sardenta ou morena e macia; e de estatura média ou baixinha ou alta ou assim-assim, ou magrinha ou poderosa; ou sorridente ou triste ou galhofeira. Como quiserem. O meu nome até pode ser o nome do software: Laura, Isabel, Helena. Como queiram.


E lembro-me outra vez de Lili Marlene, aquela por quem esperavam os soldados, como se esperassem a visita de uma namorada, de uma amiga, aquela que os enchia de ternura, lhes aquietava as saudades, lhes trazia a suavidade da mão amiga, a quentura boa do ombro desejado, o amor de quem sentiam tanta, tanta falta. Lili Marlene não existia mas a sua presença imaginada era marcante como a de uma mulher de verdade.

Fecho os olhos e penso que gostava de ser como ela. Gostava de estar alojada dentro dos vossos corações e vocês à espera que as minhas palavras cheguem como se fossem a materialização de um sonho, a tangibilidade pela qual aguardam quando abrem o UJM. Mas sei bem que isso seria querer de mais, querer ser imaterial, apenas uma abstracção.


Não me iludo, pois. Não trarei a todos as palavras doces pelas quais gostariam de se sentir tocados, nem serei o bálsamo pelo qual alguns aguardam. Tantas vezes trago zangas ou revoltas (ainda ontem), outras devaneios que vocês mal entenderão (se nem eu me entendo, como poderia alguém entender?), outras trago o meu olhar encandeado depois de ler ou ouvir textos ou músicas de rara beleza ou descobertas que me trazem fascínios, outras ainda trarei água fresca nas mãos, ou brumas ou cheiros ou palavras recortadas em encantamento que vou colhendo noutras escritas. Por isso, não sabendo o que de mim esperam, é às cegas que escrevo, as mãos livres por entre jardins e bosques que desconheço.

É como quando caminho rente ao rio, as mãos segurando a câmara que vê o que eu não vejo,
      captando instantes -- o abraço que se adivinha, os beijos que estão para acontecer, a contemplação do horizonte pelos apaixonados,
             desenhando nuvens nos céus, retendo cheiros -- ah tão bom, tão fresco, o perfume da maresia,
                        guardando silêncios, segredos, sonhos,
                            gravando o barco que atravessa o rio -- enquanto a minha mente atravessa as distâncias, as lonjuras, as serranias, as neblinas
                                         e, contemplando o sol que se esconde nas varandas para dar lugar à noite que aí vem, eu espero a noite que se abeira e, no seio da qual, aqui sentada, esperando a vossa visita, farei nascer palavras envoltas em sono, sonho e agradecimento.
Serei eu mesmo que o faço? Duvido. 
E sou eu que agora aqui escolho as memórias que a máquina guardou ou é essa outra, a UJM, por quem alguns de vocês, Leitores muito queridos, esperam? Não sei. Mas também não interessa, pois não? Não interessa. Eu também não vos conheço e não é por isso que deixo de escrever, para vos oferecer, estas palavras. 
O que nos une? O gosto pela escrita? A procura do indefinível? Não sei. Mas não faz mal não saber, assim ainda é melhor. Não é?
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E, já agora, a propósito do indefinível prazer de fotografar,

O fotógrafo de Manoel de Barros lido por Eduardo Tornaghi

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As minhas fotografias foram feitas ao fim do dia bem rente ao Tejo.

Uma vez mais, ao querer ter aqui a Lili Marlene, escolho a interpretação de June Tabor. 

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma quarta-feira boa, cheia de luz e alegria.

Ah, e para os que gostam de andar de bicicleta mas a quem faltam pernas ou tempo, sugiro que tentem a mais recente invenção da Google, justamente lançada no dia 1 de Abril deste ano.


Enjoy!

segunda-feira, fevereiro 08, 2016

Eu e a fotografia (tal como tanta coisa nesta vida)
- Meu fado é o de não saber quase tudo. Sobre o nada eu tenho profundidades


No post a seguir eu mostro as fotografias que trouxe dos lagos de Alqueva para oferecer à Leitora Rosa Pinto. Mas, ao colocá-las aqui, pensei que ela, que conhece a vastidão e beleza do lugar, é capaz de ver o passo lento dos animais, a dança leve da folhagem das árvores, e recordar o cheiro e ouvir os sons que eu não soube guardar dentro das fotografias. Mas, quem não conheça, vai ficar a pensar que o Alentejo é um postal ilustrado e que não há flores cheirosas, ou que os pássaros escondidos não cantam ou que, estando a gente a espreitar os horizontes, o vento não vai pegar no nosso cabelo.

E fiquei a pensar que não sou uma boa fotógrafa. Voltei a ir espreitar as minhas fotografias. Fui à procura do que não se vê. 

E encontrei o pequeno cogumelo, quase invisível, que o meu marido me mostrou: fotografei-o, frágil, elegante, entre ervas rasas e coloridas. Mas o que eu quis fotografar foi que não tinha visto uma coisa tão bela. E que isto acontece a toda a hora: coisas tão sublimes e perfeitas e a gente não as vê. Andamos à procura não se sabe de quê e não reparamos no que está junto aos nossos pés, pronto para encher o nosso coração de alegria e cor.


E depois fui buscar as pedras que estão à beira de água e que eu, de longe, não percebia bem o que era porque, ao lado, estava a ver outras pequenas manchas sobre o verde e não sabia se era a mesma coisa. Foquei, aproximei-me, e vi: eram mesmo pequenas rochas brancas pastando junto à água.


E as ovelhas gordas e as cabritas também pastando, as rochas e as ovelhas pacificamente pontuando a branco a paisagem, e eu pensei que devia levar as ovelhas a pastar para o pé das pedras, para as pedras ensinarem às ovelhas que é bom passear à beira de água ou, então, dizer às ovelhas que chamassem as pedras para se aconchegarem umas junto às outras nos dias de frio ou se abrigarem nas tardes de inclemente soalheira. E foi isso que eu quis fotografar. Mas não foi só isso. É que pensei que a gente dá mais valor aos animais que às pedras mas os animais são perecíveis, dependentes da vontade de outros e as pedras não, aprenderam a ser intemporais, seres independentes e imperecíveis. E foi também esse pensamento que eu quis fotografar.


E depois baixei-me para sentir as flores amarelas, perfumadas, frescas, e vi uma torre entre a folhagem platinada da azinheira e o céu por trás, posto ali para que o fundo fosse azul e a harmonia mais perfeita. E os pássaros cantavam e eu não os vi porque eles sabem que não precisam de se mostrar, estão bem assim, cantando felizes no seu anonimato. E então eu fotografei o canto de pássaros que não via, e o perfume das flores que douravam o chão, e a terra macia debaixo dos meus pés. E pensei que há recantos onde a paz é absoluta e foi esse absolutismo que eu quis fotografar.


E no meio do campo vi uma rocha quase igual a uma que havia junto à casa da minha avó e onde eu me montava atrás do Tó, um menino um ano mais velho que eu e que me levava a andar de mota como eu gostava que os meus tios me levassem, o vento a dar nos meus cabelos, as curvas quase a fazerem-me voar, e eu abraçada às costas dele para não me perder na viagem. E então fotografei a rocha mas não foi a rocha que eu fotografei, foi a memória da minha infância e os sonhos que eu partilhava com o meu pequeno amigo que se fez grande e que um dia, bem mais tarde, no enterro da minha avó, confundi com o pai dele.


E vi uma árvore que deitava água e que parecia uma fonte e as gotas caíam leves sobre a água do pequeno lago e eu fiquei ali a olhar e a perceber como é que uma árvore era uma fonte e espreitei e fiquei a ouvir a subtil música das gotas de água e foi isso que eu fotografei, o som das gotas que caíam da árvore que parece uma fonte encostada a um muro, ao pé de um castelo de onde se via um vasto horizonte a toda a volta. E as gotas quase não se ouviam e eu quis guardá-las dentro da fotografia, como se a fotografia pudesse ser quase uma caixinha de música e eu a menina que depois se ia sentar a olhar a árvore de onde se soltam notas de música, líquidas e cantantes como gotas de transparência e luz.


E fiquei a pensar que é o que incompreendo que mais me seduz e que sou assim em tudo. Até com as pessoas, e mesmo com as que me incompreendem a mim e me censuram porque não sou igual a elas, mesmo a essas eu quero compreender. 

E o que eu fico feliz, como se andasse montada na garupa de uma mota inventada, com o calor que vem do corpo de quem me traz palavras ao espelho e que me sorri de longe e que eu sei que sorri porque as palavras me chegam envoltas em sorrisos transparentes como asas...

E penso que um dia hei-de aprender a fotografar as asas e os sorrisos das palavras. E depois, nesse dia, hei-de vir aqui, a promessa está feita, e ofereço-vos as minhas fotografias de verdade, com voos e afectos lá dentro.

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E fui à procura de um poema de Manoel de Barros cujas palavras eu bebo e encontrei este, que diz aquilo que eu queria ter dito: 


O fotógrafo dito por Eduardo Tornaghi



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E apeteceu-me ouvir outra vez:

Manoel de Barros - O Livro das Ignoranças, Mundo Pequeno e Autorretrato



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E muito gostaria que descessem um pouco mais para verem como eu vi os lagos do Alqueva.

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sexta-feira, janeiro 08, 2016

O cérebro das pessoas criativas é diferente do das outras? Ah, pois é.






Como tenho referido, e ainda ontem aflorei o assunto, desperta-me imenso interesse o conhecimento dos mecanismos mentais que levam à criatividade. Se alguém escreve principescamente, logo eu sinto curiosidade em perceber: A ideia nasce-lhe antes de escrever? Forma-se enquanto escreve? Sai logo assim ou é trabalhada a posteriori?


Com os pintores, então, é um verdadeiro fascínio que tenho: podem dizer as maiores maluqueiras que eu fico presa como se ouvisse a explicação da criação do universo.


Ou com os arquitectos: o que eu gosto de ler livros em que os arquitectos falam das suas obras ou entrevistas em que descrevem as suas ideias...?


Aqueles que mais gosto de ouvir ou ler são os verdadeiramente desordeiros, aqueles a quem as coisas aparecem sabe-se lá de onde, sem intenção, sem explicação, em que há prazer no acto de fazer e desapego depois da coisa feita. Gosto de os ouvir falar dos acasos, da ideia que surge da forma como a luz pousou numa pedra, ou do desenho que a tinta induziu ao espalhar-se na tela, ou do estado de espírito desse dia ou de uma música que se ouviu, ou de uma frase, ou de um sorriso. Ou da curva do corpo de uma mulher que os inspirou a fazer uma ondulação fantástica num edifício do além.


Quando leio ou ouço António Lobo Antunes dizer que sofre muito, que escreve, reescreve, que aquilo é um suplício, fico a achar que, se calhar, é por isso que as coisas nunca lhe saem de jeito.

Percebo que, por vezes ou em algumas áreas, é natural que se faça um plano ou que haja alguma disciplina e que a persistência na eliminação do supérfluo seja fundamental. Mas ou bem que a coisa corre com fluidez, com a alegria de quem é quase só um veículo para que o que nasce do ar se deponha na matéria ou, se é para sofrer, então, digo eu, talvez não valha a pena.


Nos testes que tenho feito ou a que me tenho sujeitado no decurso da minha vida profissional, apareço como um misto de racionalidade assertiva e de criatividade apaixonada. Sou também classificada como uma early adopter, ou seja, uma daquelas pessoas que é escolhida para fazer parte dos grupos que testam as provas de conceito, que aderem quase instantaneamente a projectos que contenham mudança ou que são bons catequisadores relativamente a coisas novas, mesmo sem as terem experimentado exaustivamente.

Gosto de pintar, gosto de fotografar, gosto de escrever. Por preguiça ou ideologia não gosto de aprender técnicas em relação a nada disto pois quero estar livre para descobrir, experimentar, fazer mal, fazer o que me apetece. Não será muito católico da minha parte assumir isto mas é a verdade. A liberdade é-me fundamental e, neste tipo de coisas, a liberdade de poder nascer todos os dias e fazer as coisas pela primeira vez parece-me indispensável.


Na cozinha é a mesma coisa. Ontem fiz um prato diferente, aproveitando uma massa quebrada pré-feita (que comprei para o Ano Novo e não cheguei a usar), lombo de salmão, etc. Fechei-a como uma trouxa. Ficou boa, comemos apenas com acompanhamento de salada. E, enquanto a comíamos, já eu estava a imaginar como faria da próxima vez: pincelaria a base de massa com azeite, cobriria com queijo de barrar, colocaria maçã aos cubinhos pequenos, faria à parte uma pasta de queijo, ovos, lombo de salmão cortado aos bocados, talvez até gambas descascadas, cortadas também aos bocados; depois espalharia sobre o queijo com os pedacinhos da maçã. Fecharia a trouxa e levaria ao forno. No fim, o usual: mel e sementes.

O meu marido disse: os cozinheiros pensam, ensaiam e só depois é que fazem para servir, enquanto tu, se fizesses para ensaiar, quando fosses fazer a sério já não eras capaz de fazer igual. Reconheço que é verdade. Se fiz e saíu bem, já me apetece é passar para a próxima invenção. Se tenho que fazer um prato clássico, logo os meus filhos me estão a implorar que veja a receita e a siga à risca, com receio que as minhas invenções adulterem a 'mística' da receita original. Percebo-os e sei que eles têm razão: eu sou mesmo assim. Não apenas não tenho medo de arriscar (sinto-me especialmente motivada para inventar receitas quando é para servir a muita gente) como o que me dá prazer é fazer diferente.

Mas, como é bom de ver, não sou artista de nenhuma especialidade, sou apenas uma curiosa. Curiosa e descarada.


Vem esta conversa toda a propósito de um artigo muito interessante (que, daqui para a frente, vou usar como base, traduzindo livremente e tentando transmitir a ideia num mínimo de parágrafos).

Aí diz-se que o cérebro das pessoas criativas é diferente do das não-criativas -- nem é uma questão de QI elevado, é outra coisa: é a sua capacidade em gerar emoções contraditórias.


As pessoas criativas preferem a complexidade e a ambiguidade à simplicidade. A sua tolerância à desordem é elevada assim como a sua capacidade de extrair ordem do caos. Têm um espírito independente e inconformista e a sua vontade de correr riscos é mais elevada do que da média das pessoas.


Barron (o psicólogo e investigador que, nos anos 60, fez uma experiência reunindo alguns dos cérebros mais brilhantes da altura para perceber o que tinham em comum, Truman Capote incluído) resume: Os génios criativos são mais instintivos e mais cultos, mais destruidores e mais construtores, por vezes mais loucos mas também declaradamente mais sãos que as outras pessoas. Isto pode parecer paradoxal. Mas o que se depreende das observações de Barron é que os criativos são agitados por forças contraditórias que coabitam, seja alternada seja simultaneamente.

As pessoas que inventam coisas também são dadas à introspecção, o que as leva a conhecerem-se melhor a elas próprias. Estão, portanto, também à vontade com as suas zonas de sombra. "Dialogam com o espectro inteiro da vida - tão bem com as zonas de sombra como com as luminosas.", "São uma síntese de comportamentos sãos e patológicos". Estas contradições dão a estas personalidades atípicas uma pulsão criadora.


O psicólogo Mihaly Csikszentmihalyi, que passou 30 anos a estudar personalidades criativas, diz que 'se fosse preciso exprimir uma palavra o que torna estes indivíduos únicos, diria que é a sua complexidade. Em vez de serem um indivíduo, são uma multidão'.

Do ponto de vista neurológico o que se pode dizer é que também há diferenças.

Contrary to the “right-brain” myth, creativity doesn’t just involve a single brain region or even a single side of the brain. Instead, the creative process draws on the whole brain. It’s a dynamic interplay of many different brain regions, emotions, and our unconscious and conscious processing systems. 
The brain’s default mode network, or as we like to call it, the “imagination network,” is particularly important for creativity. The default mode network, first identified by neurologist Marcus Raichle in 2001, engages many regions on the medial (inside) surface of the brain in the frontal, parietal and temporal lobes. 
We spend as much as half our mental lives using this network. It appears to be most active when we’re engaged in what researchers call “self-generated cognition”: daydreaming, ruminating, or otherwise letting our minds wander. 
Creative people are able to juggle contradictory modes of thought — cognitive and emotional, deliberate and spontaneous.


Os cérebros criativos são verdadeiros interruptores. Eles ligam ou desligam um ou outro dos circuitos com maior facilidade. Mudando de modo, as pessoas criativas fazem malabarismos com as contradições, entre o emocional e o racional, entre o reflectido e o espontâneo. Têm acesso a uma palete de nuances que não está, de todo, disponível para a maioria das pessoas.

Isto dizem os estudiosos. E eu acredito. E dizem muito mais mas, da minha parte, por aqui me fico.

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A sério que gostava de continuar a falar do estudo ou de continuar para aqui a divagar e a intercalar vídeos e imagens (da autoria de Sandrine Estrade Boulet) mas é tarde, tenho-me deitado tarde, ando com sono. Contudo, para quem, como eu, é maluquinho por estas coisas do cérebro humano fica a sugestão de que siga os links que deixei ao longo do texto.

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E agora, se me permitem, desçam para saber como, no debate desta quinta-feira, ao comentador Marcelo saltou o verniz com o nervoso de ter adversário (Sampaio da Nóvoa), onde ele queria ter era um caminho limpinho só para ele -- e com passadeira vermelha e câmaras à sua espera.

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domingo, setembro 06, 2015

O importante não é ser perfeito, o importante é ser inteiro


Desintoxiquei-me do meu vício do Expresso mas este sábado tive uma recaída. Quis ler o artigo sobre a situação na Ucrânia, que a agenda mediática já deixou cair e que, por motivos vários, é tema que me interessa.

E foi com uma certa saudade, tenho que confessar, que antes de me debruçar sobre esse artigo, me atirei aos cronistas que, antes, faziam com que eu, semanalmente, não prescindisse o Expresso. Destes, foi como que a medo que logo procurei José Tolentino Mendonça: ia com receio que, desta vez, não tivesse saído nada de marcante e fosse uma oportunidade desperdiçada já que nem tão cedo conto voltar a compre o jornal. Mas, thanks God, não me desiludiu - muito pelo contrário.






E se o tema da crónica me é particularmente querido, a mim que luto contra o determinismo absoluto que parece alastrar por todo o lado, como se a vida tivesse que ser uma sucessão de factos (ie, de feitos) para atingir objectivos previamente determinados...!
Como me custa que pareça encarar-se o imprevisto como um corpo maligno que deva ser extirpado ou como se o ideal fosse previamente ocupar todo o tempo e todo o espaço para que não haja lugar a acomodar situações inesperadas. 
Ou como me parece fútil que algumas pessoas se apresentem permanentemente como vítimas, como se fossem predestinadas à desventura apenas porque lhes sucedem alguns infortúnios. 
Ou como me custa ver como outras quase desprezam os que valorizam os pequenos nadas como se estes fossem mentalmente desvalidos por não se deixarem abater perante as desgraças do dia a dia.
Ou como há intolerância perante pequenas fraquezas, quase querendo condenar à fogueira do opróbrio público quem não foi capaz de se eximir a insignificantes pecadilhos, como se apenas fossem dignos de respeito os que, de tão perfeitos, se apresentem como anódinos e amorfos seres. 
Tolerância, generosidade, inclusão, disponibilidade para a surpresa dos instantes, maravilhamento: tudo isso para mim são vectores que tento que norteiem a minha vida. Talvez nem sempre o consiga mas tento-o. Humildemente, tento-o.

Durante anos e anos sentia-me estranhamente abençoada: sem doenças, oriunda de uma família saudável, de gente que vivia até tarde, eu era, até não há muito tempo uma pessoa que tinha ainda vivos não apenas os pais mas também os avós (excepto o que morreu de acidente quando eu era pequena), e todos os tios - tudo gente a respirar saúde. Depois, um a um, os avós foram indo e, surpreendentemente, até uns tios saudáveis foram desta para melhor em três tempos. Depois o cerco apertou-se e vi o meu núcleo mais estreito também ferozmente atacado. Do lado do meu marido também tem sido um vê se te avias.

No outro dia, por causa de uma outra situação triste, fui ver as fotografias do casamento da minha filha e reparei como, de lá para cá, já desapareceu tanta gente de um lado e de outro.

Fez-me impressão, por pouco não me punha a contar os que, naquele dia, riam felizes e que, agora, poucos anos decorridos, já não pertencem ao nosso mundo. Mas não contei porque pensei que, nisto, não faz sentido fazer contabilidades até porque, para ser correcta, deveria também fazer a contabilidade dos que nasceram de lá para cá.

É que, ao mesmo tempo, tanta gente que, então, não existia, hoje por aí anda saltando e rindo. Ainda há cerca de um mês nasceu mais um, desta vez mais um filho de um primo meu que já tinha idade para ter juízo - se a memória me não atraiçoa já tem uns 54 anos.

Assim é a vida.

Imprevistos, insucessos, tropeços, sustos, desgostos, ausências que nos esquartejam, mas, pelo meio, alegrias, orgulhos, ternuras, surpresas, momentos de amor e felicidade.

De cada vez que passamos por agonias, mais valor damos aos bons momentos, de cada vez que passamos por sofrimentos e que constatamos quanto é efémera a vida, mais nos apegamos à brevidade imaculada dos instantes.

E eu, de cada vez que levo um abanão, mais sinto necessidade de me encontrar disponível para me maravilhar com as pequenas coisas pois sei que pode vir o dia em que as queira ver e não consiga, em que queira andar e não possa, em que queira abraçar a vida e a sinta fugir-me entre os dedos.

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E, agora que já divaguei, transcrevo, então, uns excertos da crónica de José Tolentino Mendonça na revista E do Expresso deste sábado - e espero que tenham tanto prazer em lê-los quanto eu.




A vida sem mais


Vivemos numa sociedade dominada pelo mito do controlo. E o seu postulado dogmático é este: a receita para uma vida realizada é a capacidade que tivermos de controlá-la a 360º. Ora, não percebemos até que ponto uma mentalidade assim representa a negação do princípio de realidade.

De repente, uma ideia de vida substitui-se à própria vida. A nossa viagem passa para as mãos de um piloto, que só tem de aplicar, do modo mais maquinal que for capaz, as regras previamente estabelecidas. Os nossos sentidos adormecem. Deixa de haver lugar para a surpresa. As nossas expectativas desenham uma determinada arrumação, construímos previsões e esquemas. Mesmo insconscientemente vamos perseguindo essa espécie de guião. Uma coisa, porém tenho aprendido: é importante não condicionar o fluxo espantoso da vida e a capacidade que ela tem de nos surpreender. A nossa vida é um instante em aberto. Somos chamados a cultivá-la, sim, com a paciente humildade que um jardineiro reserva ao seu jardim. Ele trabalha de sol a sol, com todo o afinco, mas sabe que a rosa floresce sem saber como. Felizes aqueles que, em relação à vida, se alimentam do espanto interminável: esses, e só esses, sentirão a sinfonia inacabada do tempo como uma promessa. (...)


Teremos, em algum momento do caminho, de recuperar a sensibilidade à vida, à sua desconcertante simplicidade, ao seu canto frágil, às suas travessias. Por vezes, gostaríamos que a vida fosse mais redonda, mais linear, não tivesse aquele solavanco, aquela ferida, não tivesse passado por aquele estremecimento, não incluísse este contraste. Mas em nós coexiste o próprio contraste e a atitude não é mudar aquilo que não podemos mudar, mas sim compreender que isso também é um dom que somos chamados a acolher. Como ensina Jung, 'o importante não é ser perfeito, o importante é ser inteiro'.

Os pequenos triunfos dão-nos fortaleza para olhar as grandes humilhações, e as dificuldades vividas dão-nos humildade para viver os triunfos. As experiências de liberdade dão-nos a capacidade e a esperança para suportar os momentos de penumbra; e os momentos em que nos sentimos aprisionados dão-nos a resistência, a força e até o sentido de humor para vivermos os tempos de liberdade. (...)

Recorda Rainer Maria Rilke em 'Cartas a Um Jovem Poeta': 'O tempo não é uma medida, um ano não conta, dez anos não representam nada, ser pessoa não significa contar, não se trata de contar o tempo, é crescer como a árvore que não apressa a sua seiva e resiste serena aos grandes ventos da primavera sem temer que o verão possa não vir. O verão há-de vir, mas só vem para aqueles que sabem esperar tão sossegados como se tivessem diante de si a eternidade.'



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E, a propósito da simplicidade que permite amar a vida como as árvores ou os pássaros a amam, deixem que aqui coloque um vídeo muito bonito.

Manoel de Barros :: Auto-retrato falado




Vídeo do CINE POVERO

  • Manoel de Barros (1916-2014) - “Autorretrato falado” in «O Livro das Ignorãças», 1993
Voz de Manoel de Barros em «Manoel de Barros», Audio-Livro, Ed. Cidade da Luz (Coleção Poesia Falada), São Paulo, 2001
  • Música: Ryuichi Sakamoto, “António” in Rodrigo Leão, «Cinema»
  • Mistura de clips filmados pelo Cine Povero no Parque Nacional Plitvice Jezera (Croácia) com outros retirados da internet.
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A música lá em cima é Elegie in C minor, Op. 24 é de Fauré, interpretada por Jacqueline du Pré no violoncelo e por Gerald Moore no, piano

As imagens que escolhi e que mostram o mar, foram pintadas por Ivan Konstantinovich Aivazovsky (1817 – 1900) que pintou mais de 6.000 quadros, metade dos quais relativos ao mar ou a navios.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

E viva a vida.
(Sem mais)

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sexta-feira, junho 05, 2015

Para encontrar o azul eu uso pássaros. Uso a palavra para compor meus silêncios.


No post abaixo já facultei instruções para quem queira fazer um bebé e, não contente com isso, também mostrei o que pode acontecer a quem queira encontrar amigos fora do Facebook. Ou seja, já fiz a minha boa acção do dia com ensinamentos relativos a temas de primeiríssima necessidade.

E pouco mais aqui vou acrescentar. Por mil razões estou cansada, perdida de sono. Tenho chegado tarde a casa, nem tempo tenho tido para as minhas retemperadoras caminhadas à beira rio e chego a esta hora e os olhos fecham-se-me e o corpo pede descanso. 


Flaming June - Sir Frederic Leighton, 1895

Um girassol se apropriou de Deus: foi em
Van Gogh.

(Did I ever love you)



Tenho vontade de apanhar o fresco da noite, sentir o ar lavado que se desprende das águas do rio, tenho vontade de ir à noite para a Feira do Livro, tenho vontade de ir ao cinema -- mas chego ao fim do dia e -- tivesse eu juízo -- iria logo para a cama em vez de estar aqui a cansar a vossa beleza; (quanto mais ir veranear).

Tenho aqui ao meu lado, quase ao meu colo, livros tão bons, e tenho tantos mails para responder, e certamente por aí pela blogosfera e jornais online haverá temas interessantemente explanados -- mas dou por mim desinteressada, cansada, com vontade que dormir ou ir de férias e desligar-me de tudo.

Por isso, tenho aqui estado sem fazer nada, a ver vídeos que me mostram Manoel de Barros a falar do valor e ingenuidade das palavras, da descoberta do seu sentido, ou vídeos de Leonard Cohen que também manobra as palavras com perícia e subtileza, a ver imagens de pinturas que me agradam. Descanso, portanto.

E dou por mim a pensar: as palavras têm um valor absoluto?

Se eu disser beleza, o significado é sempre o mesmo? Não é.
Se for pronunciada de frente, de olhos nos olhos, com uma carícia implícita na voz ou na mão que a escreve, aí a palavra beleza será um elogio franco, uma vontade de ficar perto: 'Que beleza'. Mas, se for dita com um tom fugidio ou seco, pode significar desprezo, uma ironia afiada, o contrário do que a palavra significa no dicionário 'Ah, que beleza...'. Mas também pode querer dizer intimidade, vontade de viver por dentro dela, da beleza. Nuances que mudam o sentido da palavra, da frase, do momento - talvez da vida.
A mesma palavra pode, pois, ser guião para histórias diferentes - assim quem a receba saiba interpretá-la e fazer bom uso dela.
É assim que, por exemplo, uma palavra banal, pronunciada sem intenção ou gravidade, se mal ouvida ou interpretada por outra pessoa, pode provocar um afastamento destemperado, uma amputação sem retorno. Nesse caso, a má interpretação que a mente fez sobrepor-se-á ao coração, ao corpo, ao destino.

The Painter's Honeymoon - Lord Frederic Leighton, 1864


Desinventar objetos. O pente, por exemplo.
Dar ao pente funções de não pentear. Até que
ele fique à disposição de ser uma begônia. Ou
uma gravanha.
Usar algumas palavras que ainda não tenham
idioma.



É, pois, imenso o poder das palavras. Uma vez comecei a namorar porque um pretendente, muito apaixonado, percebeu que eu tinha dito que sim ao seu pedido de namoro. O que eu sei é que, não querendo namorar com ele mas sim, apenas, fazer uma afirmação de independência face aos ciúmes dele que o meu namorado da altura tinha, fiquei atrapalhada com a confissão de amor tão sentida desse outro, uma entrega tão total nas palavras, que me senti inibida, incapaz de lhe dizer que não era correspondido na mesma medida. Não sei o que lhe disse mas sei que pretendi dosear o seu entusiasmo. Contudo, não foi isso que ele percebeu porque logo me abraçou e beijou e, mal se afastou, desatou a fazer poemas de felicidade. No dia seguinte, os meus amigos vieram dizer-me que ele estava radiante, feliz, feliz como nunca. Quando me vi sozinha, fartei-me de chorar. Não me sentia capaz de lhe causar um desgosto, não era justo nem honesto, mas não queria alimentar o equívoco. Não sabia o que fazer.

Eu gostava muito dele, admirava-o, mas não era amor de verdade o que eu sentia. Mas, mal ele chegava ao pé de mim, sorridente, cheio de abraços e beijos, não havia espaço para lhe dizer que não, não sentia coragem para lhe dizer que ele não tinha percebido bem.

O outro de quem eu gostava mesmo, não aceitou que eu o trocasse dessa forma tão imediata, não me perdoou, afastou-se, deixou de estudar, entrou por um caminho muito complicado.

Eu perguntava-lhe o que andava ele a fazer e ele respondia-me que eu sabia muito bem, e eu, de coração partido, queria dizer-lhe que me ajudasse a sair daquela situação, que era tudo um equívoco, que era dele que eu gostava. Mas não fui capaz, orgulhosa demais, e também não queria cometer uma deslealdade e uma maldade para com aquele que, involuntariamente, começara a namorar. O clima entre nós, verdadeiramente apaixonados um pelo outro, tornou-se tão tenso, ele zangado por eu ter começado a namorar aquele de quem ele tantos ciúmes tinha tido e eu zangada por ele, com os seus ciúmes absurdos, por ter criado aquela situação e se manter naquela trajectória de ruptura, sem perceber que bastaria uma palavra para tudo mudar.

Mas ele não disse essa palavra e eu também não. E mantive-me como a musa do outro, a namorada tão amada, tão adorada. Mas, para desgosto dele, inacessível no que ele tanto queria para si. De facto, vejo agora, não fui para ele, senão uma allumeuse.

Mais tarde deixei-o e causei-lhe um desgosto que muito, muito o marcou.


Idyll - Lord Frederic Leighton, 1880


Há muitas maneiras sérias de não dizer nada, mas só a poesia é verdadeira.
Tem mais presença em mim o que me falta.
Melhor jeito que achei pra me conhecer foi fazendo o contrário.
Sou muito preparado de conflitos.
Não pode haver ausência de boca nas palavras: nenhuma fique desamparada do ser que a revelou.
O meu amanhecer vai ser de noite.
Melhor que nomear é aludir. Verso não precisa dar noção.


Palavras. Palavras. Com palavras se ama, se afaga, com palavras se brinca, com palavras se odeia, se fere, se destrói. Não deveríamos, então, desvalorizar o significado das palavras e deixarmo-nos guiar antes pelo nosso coração?

Mas, dito isto, sinto também que parece que há uma força secreta que nos impede de dizer a palavra certa ou que nos leva a dar-lhes uma importância grande demais noutras alturas. Na altura não o percebemos mas, à distância, percebemos que o caminho percorrido parece ter um propósito.

No meu caso, depois desse tempo conturbado, de paixões interrompidas, de paixões não correspondidas, de paixões destrutivas, de tudo, conheci aquele por quem o meu coração, às cegas, caíu rendido, num irrefreável coup de foudre. E isso aconteceu porque, de facto, naquela altura o meu coração tinha espaço para esse amor louco que me avassalou de forma tão absoluta - e para o qual não foram precisas palavras, apenas o olhar e uma intensa atracção física.


Cymon and Iphigenia - Frederic Leighton, 1884


As palavras me escondem sem cuidado.
Aonde eu não estou as palavras me acham.
Há histórias tão verdadeiras que às vezes parece que são inventadas.
Uma palavra abriu o roupão pra mim. Ela deseja que eu a seja.
A terapia literária consiste em desarrumar a linguagem a ponto que ela expresse nossos mais fundos desejos.
Quero a palavra que sirva na boca dos passarinhos.

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Só dez por cento é mentira


(sobre e com Manoel de Barros)


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A itálico poemas ou excertos de poemas de Manoel de Barros. O título deste post provém identicamente de poemas do Poeta. Leonard Cohen lá em cima interpreta Did I Ever Love You.


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Permitam que vos recorde que abaixo há ensinamentos úteis em tempos de redes sociais: fazer bebés ou fazer amigos.

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E agora deixo-vos e vou pregar em silêncio para outro lado. 

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta-feira. 
Felicidades para todos.

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