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sábado, agosto 02, 2014

Perigosa sedução [ - e a história vai ficando cada vez mais estranha; nem sei até se não abra uma nova rubrica: Contos Eróticos]


No post abaixo escrevi sobre a intervenção estatal no BES 
(quando escrevi grande parte do texto ainda não sabia que já era dada como certa e, no fim, estava a escrever e a ouvir a notícia que a confirmava),
intervenção essa que vai salvar o banco e evitar um muito sério colapso generalizado
(porque se já tivemos em Portugal algum verdadeiro risco sistémico este é, sem dúvida e desde o início, um desses casos)
e já lamentei que à frente das instituições relevantes do País estivessse gente tão mentalmente débil que só percebeu isto depois de milhares de milhões de perdas, e já me indispus com o desavergonhado do Gomes Ferreira a falar como se o que agora apareceu a dizer fosse o mesmo que diz desde o início.

E falei de mais não sei o quê.

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra.

Deve ser pela preocupação que este caso de polícia me tem andado a dar, parece que a minha cabeça, quando se quer evadir, só vai para jardins proibidos. Por isso, vocês, meus Caros Leitores, pensem bem antes de vir comigo.


Finisterre




Se eu contasse ninguém me levaria a sério. Por isso escondo e apenas em segredo, aqui à noite, escrevendo quase às escuras num pequeno computador, entre livros, o confesso. Não pretendo que acreditem em mim. Pensem que isto é uma história saída da cabeça de uma louca.

Digo que escondo mas, para ser honesta, não escondo já que não tenho junto de quem esconder. 

Às vezes, para não perder o hábito de falar, leio em voz alta. Outras vezes, converso como se tivesse ao meu lado um interlocutor atento. Por vezes, acabo por me calar pois quase me parece ouvir uma voz respondendo e tenho medo de estar a enlouquecer.

De vez em quando, saio para comprar comida mas cada vez mais me alimento de comida crua, fruta, bagas, coisas assim. A comida cozinhada já me parece um artifício que não se enquadra no meu regime de vida, quase um bicho vivendo em plena natureza. Aproveito também para comprar pão e queijo ou outras pequenas coisas que a senhora do pão traz na carrinha. Por vezes, para não ter que me vestir e pentear e, pior, falar com ela, deixo um saco com um papel e uma nota do lado de fora do portão e ela deixa os produtos e o troco. É uma boa mulher, gorda e asseada, mas muito faladora e a voz humana, de facto, começa a ser-me estranha.

Mas ontem aconteceu algo muito estranho. Estou aqui para o contar e, portanto, estou bem, sobrevivi. De resto, já poucas coisas me afectam.

Depois de almoço, deitei-me numas almofadas que estão no chão, debaixo da figueira. Adormeci. Durmo pouco de noite e, portanto, ao princípio a tarde tenho sempre sono.

Quando acordei, fui dar uma volta pela periferia do terreno da quinta; gosto de ver como as árvores rebentam, as ervas florescem ou secam, descobrir novas tocas, observar ninhos e o voo das borboletas. Por vezes, detenho-me imóvel a olhar a dança das nuvens ou o recorte da copa das árvores e, junto aos meus pés, passam coelhos que já não me estranham.

Ao regressar e estando a passar pelo muro que separa as duas quintas, ouvi estalidos, vozes. Subi de novo à árvore, espreitei. Não vi nada de estranho mas percebi vozes de homem. Tentei ver a mulher de cabelos brancos que talvez fosse a mesma que a mulher vestida de branco que me deu banho no outro dia mas não a vi. Então, sem pensar, passei para o muro e voltei a saltar para o lado de lá. Pensando nisto, percebo que estou a adoptar cada vez mais comportamento de bicho, um dia viverei talvez dentro das árvores ou no desvão de uma rocha.   

Fui andando. A correr vindo não sei de onde, apareceu o gato traiçoeiro. Eu tantas vezes sozinha e ele nem sei onde e, naquela altura que eu queria silêncio, apareceu-me ele. Quis vir roçar-se em mim mas ignorei-o. Tinha todos os meus sentidos apurados para descobrir de onde vinham as vozes, para ver se via sem ser vista. O gato miou num lamúrio. 

Ao de leve subi as escadas gastas, devagar, silenciosa. De dentro vinham risos, homens. Pensei, será que a mulher de branco está no meio deles? Até que percebi que as vozes vinham da grande divisão ao fundo. Esgueirei-me e vi-os. Ouviam música, estendidos, rindo.

Sem pensar, e que bom é não pensar, que bom, que bom, fui até ao quarto da mulher de branco. Pensei, estará lá? Mas não, o quarto estava vazio e desolado como se não fosse habitado há mil anos.

O gato arqueou as costas, roçou-se pela parede.

Abri a arca, escolhi umas peças. Despi o vestido largo que trazia e coloquei uma cabeleira, coloquei colares, enfeitei-me com véus, chapéus. Olhei-me ao espelho. Não era eu de novo. Ou talvez esta, esta que agora se vem fundindo com o céu na terra, seja eu.

Reparei como o meu olhar era desolado.

As vozes dos homens ao fundo não me incomodavam mas sabia que era para eles que me estava a preparar.

Despi-me de novo.

Deixei ficar a cabeleira branca, enfeitei-me de branco, véus, rendas.

Quis-me virgem, puríssima, sôfrega. Olhei-me no espelho.

Os olhos tinham já alguma vida. A pele nua, os risos masculinos, o risco - que melhor alimento para um olhar convidativo? E o meu olhar convidava. Convidava-me a avançar.

Despi-me. Nua, calcei umas botas altas. Gostei de me ver assim.

O gato olhou para mim e começou a lamber-se. Em surdina disse-lhe Não prestas...

Depois, destemida, nua, e como se a minha nudez fosse a coisa mais natural deste mundo, entrei na divisão onde os homens conversavam e riam.

Levantaram-se de um salto. O gato gemeu.

Fiz-lhes um gesto para que se sentassem. Sentei-me também.

Os homens olharam-me em silêncio. Percebi que trocavam olhares intrigados. Um perguntou, De que sonho é que esta mulher saíu? Os outros riram-se, um riso pouco à vontade.

Eu não disse nada, sentia-me como se tivesse vindo, de facto, de um mundo irreal, como se fosse normal não os perceber nem saber falar a língua deles.

Entreolharam-se, um disse, Será que não nos percebe…? E outro acrescentou, Ou não nos ouve…? Continuei a olhá-los como se não os ouvisse ou percebesse. Acercaram-se de mim.

Tapei os seios, cruzei as pernas, um súbito pudor. Um deles deitou-se aos meus pés e eu fiz de conta que isso me deixava indiferente. Mas claro que não deixava. Um outro debruçou-se sobre a mesa onde eu apoiava um dos braços e disse-me Posso ver se o seu corpo é de porcelana ou se é uma mulher de verdade? Continuei a olhar em frente e nada disse.

O homem que se tinha sentado aos meus pés, encostou a cabeça à minha perna nua, desabotoou a camisa. Fiz de conta que o ignorava.

Um outro que bebia sem parar, disse, O que temos que fazer para perceber quem és tu?

Pensei que talvez a voz não me saísse se tentasse falar. Por isso hesitei. O que se tinha debruçado sobre a mesa, disse, Ela não é de cá. O que bebia disse, Talvez seja de um outro mundo mas eu estou com vontade de lhe pôr as mãos em cima.

Então eu disse, Quero armar-vos meus cavaleiros. Vão ao quarto lá ao fundo e vistam-se decentemente. O do vinho soltou uma gargalhada. Os outros levantaram-se, admirados, como se estivessem na presença de uma aparição.

Mantive-me a olhar em frente. Sei que parecia indiferente - mas claro que não estava.

Obedeceram. Os homens obedecem sempre quando pensam que vão receber uma recompensa. Saíram da sala. O gato apareceu, ronceiro, miando baixo, suspirando.

Algum tempo depois apareceram. Vinham com casacos de veludo, alamares dourados, e estavam belos, dóceis, prontos para serem domesticados.

O que tinha estado a beber vinha à frente, descarado, gingão. Castiguei-o, A si não vou armá-lo, não tem perfil para isso. Ele deu outra gargalhada. Perfil? Mas quem é que falou em perfil? Fico mesmo melhor é de frente.

Com o olhar repreendi-o. Volte para trás e vá buscar uma pequena harpa que está junto à porta da entrada.

Ele estacou: Está a gozar comigo! Música? Não. Não sou homem de dar música.

Fui inflexível: Ou isso ou nada. Teria que sair da sala.

Obedeceu mas antes disse: Vai pagá-las.

Secamente respondi-lhe: Vamos ver quem paga a quem.

Algum tempo depois, apareceu com o instrumento musical. Ordenei-lhe: Sente-se atrás de mim e toque qualquer coisa. Desafiador, perguntou: Música celta, pode ser? Disse-lhe que sim, Se é o que sabe tocar. E ele tocou. O meu corpo deixou-se cobrir pela música que vinha dos seus longos dedos.

Os outros aguardavam passivamente. Sempre com um braço a cobrir-me os seios, ordenei-os meus Cavaleiros. Disse-lhes, depois: Sois agora cavaleiros da ordem do Infinito Perfeito. Podem beijar-me os joelhos.

Assim o fizeram. Depois disse-lhes que se sentassem à minha frente, sossegados. O gato gemeu. A seguir disse ao outro que parasse de tocar e viesse também beijar-me os joelhos. Ele disse que sim mas, quando estava à minha frente, pegou no meu braço, o braço com que eu me cobria, e pousou-o no braço do cadeirão. Fiquei assim, olhar indiferente, despida. Quando ia beijar-me os joelhos, repreendi-o de novo, Que falta de educação a sua. Então não sabe que, não sendo Cavaleiro, antes de me beijar os joelhos, deverá beijar-me os mamilos? Notei que enrubesceu. Depois olhou-me nos olhos. Enfrentei o seu olhar. Ele então, com uns lábios delicados e uma língua educada, beijou-me os mamilos. Ao fim de algum tempo, eu disse-lhe, Está bem. Já chega. Pode agora beijar-me os joelhos.

Acabou por lá chegar.

Os outros olhavam-nos sem uma palavra. O gato estava deitado, como se estivesse a dormir mas, conhecendo-o como já o conheço, sei que estava apenas a ser discreto.




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A música é Finisterre por June Tabor.

As fotografias, excepto a do gato, são de Steven Meisel.

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Relembro: sobre a nacionalização do BES (as voltas que a história dá) é descer, por favor, até ao post já a seguir.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo sábado. 
E, se encontrarem por aí algum Cavaleiro da ordem do Infinito Perfeito, digam para vir ter comigo, se faz favor. 


sexta-feira, agosto 01, 2014

Uma mulher solitária em toda a sua nudez (- ou uma história ainda mais estranha)


No post abaixo já me interroguei sobre o que leva gente inteligente que é tida por boa gente a agir como se de bandidagem encartada se tratasse. E já falei da regulação-ceguinha e da comunicação social-papagaia. E do cherne que agora age como um esmoler. E já deixei mais uns quantos desabafos.

Hoje está a dar-me para o sentimento. 

Mas, enfim, isso é a seguir. Aqui, agora, vou partir para outra. Quando isto me acontece, vou à aventura, sem saber para onde vou. Não sei se vos diga que venham comigo porque não garanto que vá por bons caminhos.





Nos dias de muita solidão, a minha alma fica inquieta. Sinto frio, enrolo-me em écharpes que desdobro como se fossem cueiros e eu um bebé que nenhum colo abriga. Dobro-me sobre mim própria, ouço os pássaros e o sopro das árvores, espero que um canto venha de dentro da terra para me embalar.

Mas não há alento que me acuda. A inquietação invade o meu corpo. Tenho medo. Imagino-me velha, sozinha, doente e abandonada. Ninguém chorará a minha ausência. Há quantos dias aqui e nem uma voz, nem um afago. Será assim até ao fim dos meus dias?


A minha solidão alimenta o meu desânimo.

Já não choro. O choro tem que ter um motivo, querer despertar compaixão ou agredir quem nos agride. Quando se está sem ninguém, as lágrimas secam, tal como seca a saliva que elanguesce os lábios. Tudo seca. O corpo seca. Os meus seios que ninguém contempla ou toma nas mãos secam. Os meus cabelos secam, tristes, incertos. O meu ventre, o meu triste ventre, onde ninguém navega, secou, há muito que perdeu as marés, a espuma luminosa que sabia a mar.

Mas outros dias há, raros, raros, em que um sol mais alegre, um sopro de vento nas árvores que levante uma música alada, um salto mais atrevido do gato, me despertam e me levam a querer sentir o prazer de estar viva.

Nesses momentos, desabituada que estou de me controlar, saio pelos caminhos como um loose cannon, e vou à toa, desatinada, imprevisível como uma louca inocente.

Aconteceu no outro dia e vou contar-vos.

Comecei a correr e o gato à minha volta, eu nua, o gato assustado, e eu a rir, livre, pássaro solto, bicho sem dono.

Depois o gato deu um salto, saltou o muro e eu, sem pensar, peguei no largo lenço que ficara caído no chão, enrolei-o à volta do corpo, afoita subi a árvore junto ao muro, e, louca, louca, saltei.

Do lado de lá, o gato olhava-me, nervoso, pêlo eriçado. Estranha eu nos seus territórios, estranha eu mulher doida, umas vezes toda silêncio e sombras e agora tão infantil e sorridente. E estava sem medo, a vida a correr-me louca nas veias, o cabelo a voar à minha volta como uma alegria sem razão.

Da casa vinha uma música. Lá de dentro. Uma música estranha. Crianças cantando? Anjos brincando? Ou a alucinação de uma louca desbragada que saltava muros, voava como os pássaros, dançava com gatos?

Sem cuidados, quase nua, entrei na casa. É uma casa abandonada, bela e decadente. Fui avançando devagar. Fui vendo as paredes sem tinta, o soalho desgastado, as portas altas com a bandeira oca. Ah que beleza uma casa abandonada. Espreitei por uma das janelas. O mato lá fora mal se via pelo vidro quase fosco de tão sujo. A voz soava, eram anjos, eram, e eu, sem medo, andando pela casa assombrada.

O gato caminhava a meu lado, silencioso, inquieto. 

Então, vi um vulto. Não parecia ser deste mundo. Seria a mulher que vira na varanda? Não sabia. Um vulto branco olhando-me com um olhar branco.

O gato deu um salto e depois atirou-se para o chão, como que querendo deixar de ver.

Fiquei parada. Esperei. Noutros dias teria ficado gelada, morta de medo. Naquele dia não. Ousada, louca, inocente.

Era uma mulher muito jovem, rosto quase de criança. Não disse nada. Segurava um brinquedo e eu aproximei-me para o ver melhor. Sem deixar de me fitar, ela estendeu-me o brinquedo, os lábios entreabertos. O corpo coberto de branco, virginal e impudica, a oferecer-me o seu brinquedo.

Fiz-lhe uma festa na mão como se faz um afago a uma criança ou a um animal desconhecido. 

Depois ela deu-me a mão, levou-me até a uma casa de banho de azulejos verdes e reparei como esta divisão da casa estava tão estranhamente limpa.

Encheu a banheira e esperei. Num canto da banheira estava outro brinquedo. Pegou nele e, sem uma palavra, deu-me.

Enquanto a banheira se enchia, fui brincando com a figurinha colorida. Depois puxou o pano que me cobria e eu fiquei nua, sem vergonha.

Então, levou-me para dentro da banheira, entrou também na água, vestida, colocou o brinquedo aos meus pés e começou a lavar-me. Deixei.
O meu corpo há muito tempo que estava carente, ansiando por um toque humano, por um gesto de atenção, que alguém me lavasse com desvelos mil.
De olhos fechados, cabeça inclinada para trás, senti a água morna a envolver-me o corpo, as suas mãos gentis a lavar-me o pescoço, os braços, o peito, as pernas.

A seguir, saíu da banheira, ajudou-me a sair, secou-me, depois mudou de roupa, voltando a vestir uns estranhos vestidos e aventais brancos e, levando-me pela mão, sentou-me, nua, e começou a secar-me o cabelo. Gosto que me mexam na cabeça. Tão bom.

Reparei que o gato espreitava atrás da porta. Descarado, a cauda empertigada,  todo ele exibia a sua vadiagem. Tive vontade de sair a correr para o apanhar, insultá-lo, gato descarado, sem vergonha, seu bandido que me espreitas e desafias!, mas deixei-me estar entregue às mãos da ninfa bondosa, etérea e branca.

Quando acabou de me pentear, voltou a conduzir-me. Era o seu quarto. Procurou uma roupa igual à sua, vestiu-me, e eu, submissamente deixei-me vestir. Abotoou com cuidado cada botão, ajeitou as fitas, e eu sentia os mamilos arrepiados debaixo do algodão branco, e então vestiu-me uma saia franzida e ajeitou o franzido e eu pensei, estou sem cuecas, mas não achei mal, depois colocou-me uma touca também branca, e ajeitou os bicos da touca, e depois olhou-me com aquele seu olhar abandonado.

Pensei, eu devia agradecer os cuidados que ela está a ter comigo e, então, aproximei-me e beijei os seus lábios. Estavam mornos e sabiam a amoras. Ela deixou que eu a beijasse mas era como se o seu corpo estivesse muito longe dali.

Quando acabei de a beijar, o gato olhou para mim e soltou um miado como se gritasse de horror. Depois saíu a correr e foi pôr-se a gemer na varanda. Quando ia aproximar-me da janela para o ver, a mulher de lábios com sabor a amoras puxou-me pela mão e pôs-se a meu lado em frente a um espelho. O meu rosto tinha-se transformado. Não me reconheci. Tinha perdido muitos anos, toda eu era inocência e espanto. Mas o mais estranho é que estávamos quase iguais e, de facto, não consegui perceber qual das duas era eu.


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A música é Gallows pelas CocoRosie

As fotografias são da autoria de Steven Meisel

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Relembro: a seguir a este post, há desabafos e interrogações sobre a natureza humana, sobre a impunidade, sobre a cegueira, sobre a inércia. É o BES, os homens do Espírito Santo, o Durão, o Carlos Costa, os deputados, os pseudo-jornalistas e toda esta triste sina portuguesa. E o novo comissário europeu, a tal mulher que Juncker tinha pedido para a sua corte.

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E, por agora, por aqui me fico. 
Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa sexta-feira.
Se puderem, divirtam-se. 
Ah, é verdade: cuidado com os gatos..

terça-feira, julho 29, 2014

Uma história muito estranha


No post abaixo já mostrei uma produção caseira de moda a la Chanel com os meus achats nos saldos (pode ler-se achados que também se lerá bem).

Penso, sinceramente, que não preciso de mais roupa. Mas isto, senhores, não é uma questão de precisão, isto é mesmo uma questão de vaidade feminina. E é um outro disparate ainda mais grave: é aquela sensação absurda de que estou a fazer um grande negócio, a poupar imenso dinheiro (please, poupem-me... sei bem que não estou a poupar coisa nenhuma, que estou é a gastar... mas, volta e meia, não quero disfarçar que não sou uma loura burra, e esta, quando vou ver o que há nos saldos a fazer de conta que vou poupar dinheiro, é uma delas). Note-se que, estando perfeitamente ciente que devia era não comprar qualquer peça de roupa nos próximos 10 anos, apenas frequento lojas onde sei que posso comprar pechinchas. Já ninguém me apanha em lojas caras. E só não vou à Primark porque fui lá um dia espreitar e até me assustei. Uma coisa claustrofóbica: gente e roupa por todo o lado, uma pessoa mal consegue respirar, quanto mas escolher como deve ser.

Bem.

E, por contraponto, também lá mostrei Chanel à séria

Mas isso é a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. Ainda não sei qual é mas no fim logo se vê.


Música, se faz favor: Für Alina.





Por vezes, quando lá estou, ouço um vago ruído, como se alguém falasse em surdina. Espreito pela abertura do velho muro que há ao fim do pátio. Vou até lá, pé ante pé, cheia de medo. Receio sempre que, ao encostar a meu rosto, encontre do lado de lá um olho assustador, alguém a espreitar também para o lado de cá. Ou uma boca aberta, terrível.

Mas esses receios revelam-se sempre pueris. Geralmente não há nada. Um terreno baldio, o que em tempos terá sido um jardim, agora um matagal. Mal se vê a porta da casa. Chega-se a essa porta alta e com a tinta caída por uns degraus cheios de folhas secas, vasos partidos, ramos secos. Em tempos terá sido uma varanda, agora não se sabe o que há ali. Se calha ouvir-se algum som, o meu coração dispara, descompassado, mas logo se percebe que será um qualquer bicho perdido.

Não sei a quem pertence aquela casa que mal consigo perceber como é. Da rua não se vê, está mais para dentro e deve estar rodeada pelo arvoredo denso que se vê de longe. Pergunto, por vezes, a quem por lá passa, o carteiro, a mulher da carrinha do pão. Não sabem. Nunca lá viram ninguém. Ouviram dizer que os donos a abandonaram mas, ao certo, ninguém sabe.

No outro dia, fui até ao portão, vi se estava aberto. Não estava. Espreitei. Nada. Mato e desolação. Afastei-me com um certo receio. Mas, enquanto me afastava em silêncio, ia pensando que não fazia sentido ter medo. Não passa ninguém por ali, a estrada está sempre deserta excepto quando passa a carrinha do pão, de manhã, a apitar, ou o carteiro duas vezes por semana. De resto, nunca há ninguém.

Quando me sento à sombra a ler um livro, sento-me de costas para o buraco do muro que separa a minha quinta da quinta abandonada. Tenho medo que alguém me vigie do outro lado.

Desde há algum tempo e de vez em quando, geralmente quando a penumbra do fim do dia começa a encher de sombras o espaço que me rodeia, há um gato que salta do muro e vem ter comigo.

Ao princípio vinha a medo, espreitava-me, estudava-me. Eu ficava transida de medo como se o gato não fosse um gato mas um qualquer bicho disfarçado de gato. Ou gente.

Mas o gato foi-se aproximando, meigo, e eu fui-me deixando cativar. Agora, muitas vezes, quando vou para debaixo da grande figueira, levo um prato de leite e fico à espera. Mas estou ansiosa enquanto ele não chega. Depois, se sinto um roçar vadio, um deslizar descarado, sinto-me arrepiar. Tenho medo de me virar, que não seja ele. Ou que ele venha transformado, me ataque.

Depois ele chega, olha para mim com aquele seu olhar profundo que parece o fundo do mar, eu sorrio nervosa e digo-lhe 'demoraste'. Ele limita-se a beber o leite. Depois lambe-se, espreguiça-se, e deita-se perto de mim.

Se, do lado de lá, vem um ruído, reparo que o seu pêlo se eriça. Levanta-se inquieto. E eu fico ainda mais inquieta.

Quando anoitece, eu cheia de medo, medo que ele se transfigure, vou sorrateiramente para dentro de casa. Por vezes, ouço-o a miar, parece um choro. Fico arrepiada, parece um gemer de gente.

Um dia ele não apareceu. Esperei. Fiz bchchh, bchchh, mas fiz baixinho com medo que alguém me ouvisse. Parecia-me ouvir ruídos do lado de lá. Como uma gata cheia de medo, fui até ao buraco do muro, quase a tremer, silenciosa, a respiração quase suspensa e, a medo, espreitei.

Então fui surpreendida por uma visão irreal. O meu coração disparou, o meu coração sempre tão ansioso.

Na varanda, uma mulher muito velha, com longos e fracos cabelos grisalhos, estava sentada com uma toalha pelos ombros. Uma mulher mais nova, cujo rosto não consegui ver, parecia estar a cortar o cabelo à idosa. Mas depois, quando se desviou do meu ângulo de visão, vi que não era a cortar, era a pentear, tinha-lhe feito uma trança e enrolara-a atrás. Depois colocou a mão no ombro da outra e afastou-se e, de dentro da casa, começou a sair uma música solta, ao de leve, piano. O cenário perturbava, era inquietante, como se estivesse para acontecer uma qualquer tragédia.

Então, a mulher velha levantou-se a custo, abriu os braços e a custo fez como se dançasse, mas muito lentamente, ao som da lenta música. Depois sentou-se de novo e ficou de frente para mim. Assustei-me. Tive vontade de fugir. Mas não consegui, estava paralisada. A mulher parecia fitar-me. Vi então que talvez não fosse velha, que talvez o cabelo não fosse branco. Era uma mulher estranha.

A música continuava a sair de dentro da casa, uma nota, outra, notas soltas como gotas de chuva, como breves e silenciosos soluços.

Reparei que o gato andava sobre o muro da varanda, como se conhecesse a mulher. Depois, inquieta, reparei que o rosto e pescoço da mulher pareciam cobertos por bichos, mas bichos que não a incomodavam.

A mulher não pestanejava, apenas olhava o muro. Afastei-me ligeiramente para a poder ver sem que ela me visse. Reparei, então, que com uma das mãos tocava o rosto. Pensei que estava a afastar os diabólicos insectos mas depois vi que não, parecia afagar o próprio rosto, como se, com compaixão, limpasse lágrimas escorrendo.

O meu coração estava assustado, mal respirava com medo que, de alguma forma, a minha presença fosse pressentida, estava com medo do que se passaria naquela casa tão estranha, com muito medo, com um medo irracional. Tanta inquietação naquela casa que me já me parecia assombrada.

Então, ouvi uns passos, um salto. Quase perdi os sentidos, tal o medo. Poderia ter corrido para casa mas não fui capaz, estava incapaz de me mover. Fechei os olhos, aterrorizada.

Algum tempo depois, a medo, a tremer, abri os olhos.




Do outro lado, ameaçador, o gato espreitava. 


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Querem crer que estou mesmo arrepiada...? Bolas para o gato, que me assustou mesmo.

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A música é de Arvo Pärt - Für Alina.

A fotografia de Kate Moss é da autoria de Steven Meisel. A dos gatos não sei.

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Adiante. Relembro: se descerem até ao post já a seguir, poderão ver o belo negócio que fiz com as minhas compras nos saldos deste ano e poderão ver o que é moda a sério.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela terça feira. 
Sem medos, mas com subtis mistérios, doces fantasias. E saúde. E alegria.


segunda-feira, abril 15, 2013

Guerra Conjugal - Dalton Trevisan desfia um compêndio de traições, violências, ciúmes, equívocos, abandonos e Pedro Mexia aplaude. Eu também. E, (a propósito de Pedro Mexia no Actual do Expresso), de raspão, Bucéfalo, o cavalo advogado


No post a seguir a este falo das fundamentas razões para que Portas se tenha baldado à tomada de posse do Maduro, da forma como os irlandeses gozam com o Gaspar chamando-lhe Ministro das Finanças da Troika e do look de pintas do Relvas, agora com cabelinho puxado para trás à força de gel.

Mas agora, aqui, a conversa é outra. Com vossa licença, vamos lá.




- Só peço da vida ficar junto de você. Contemplando esse queixinho mais... Como pode se dominar? Eu, assim bonitinha, ficava me admirando no espelho. Nua eu me beijava por todo o corpo.

- O senhor parece louco - e uma risadinha de sapeca.

 Enterrou o nariz no cabelo dourado, mordiscou a pontinha da orelha. (...)

- Perna comprida. É isso que está reparando?

- Sabe que esse joelho tem uma covinha?

- Cuidado, doutor. Não elogie tanto. Se eu gostar do senhor, como é que vai ser?

- Você é virgem, anjo?

- Certo que sou. Nem o doutor tinha o direito de perguntar. O senhor é pai, não é? Basta pensar nas suas filhas.




- Só perguntei porque sabia da resposta.

- Minha experiência começou tarde. O primeiro beijo eu dei com vinte anos. Assistia a cenas de amor no cinema e não me emocionava. Daí namorei um viúvo quinze anos mais velho. O primeiro beijo foi esse viúvo que deu. No começo não senti nada.Com a repetição fui vendo como é bom.

- Ah, é bom. Um beijinho só, anjo. Gostou do viúvo?




- Um pouco. Até hoje é louco por mim. Só eu querer, casa comigo.

- Gosta de homem mais velho?

- Prefiro um senhor maduro com experiência de vida.

- Basta ver o seu narizinho.

- Que é que tem?

- Ele fica maior quando você me olha. Os lábios são dois ninhos de beijos.




Bem quieta, deslumbrada, o dente branquinho; e repente, agarrou-lhe três dedos com a mãozinha suada:

- O doutor é mesmo um amor!

Ele arremeteu aos beijos no rosto afogueado, babujando o lóbulo da orelha. Apertava-lhe as bochechas em delírio:

- Que boquinha, anjo. Ó rostinho mais adorado.

Sopesou de leve o seio maduro, polpudo, com biquinho.




- Vim aqui de louca. Não fica bem. O pior é que gosto do sargento.

- Aposto que é um bruto, mau carácter, monstro moral.

- Sou moça direita. Preciso tirar o doutor da minha cabeça.


E o conto continua e neste e nos outros aparecem pequenas traições, pequenas fantasias, equívocos, desencontros, desentendimentos, amores falhados, desejos por satisfazer, amores proibidos, imaginados, perdidos. 

Aqui há dias estava com vontade de falar neste livro, Guerra Conjugal, de Dalton Trevisan mas depois tive dificuldade em escolher um trecho, é tudo gostoso, uma linguagem suculenta, pitoresca, picaresca. Nesse dia acabei por optar por falar no amor de António José Saraiva e Teresa Rita Lopes (amor não isento de 'casos' intermédios e que, apesar de lindo, carinhoso e terminado, foi forte enquanto durou. E, Teresa Rita Lopes, mesmo depois de findo o amor enquanto base de uma relação conjugal, ficou, para sempre, ligada a ele através de um afecto absoluto).

Como quase todas as pessoas a quem a vida ainda não proporcionou um amor para a vida, Pedro Mexia gosta de falar da sua condição de solteiro e gosta de dissertar sobre a fragilidade do amor, sobre a precariedade dos laços, sobre as muitas possibilidades de que a coisa corra mal. Várias crónicas suas já versaram sobre este tema. 

Não é o caso da crónica desta semana na revista Actual do Expresso, uma inteligente e muito interessante crónica sobre Bucéfalo, o cavalo que resolveu ser advogado 'num tempo em que, na ausência de grandes homens, temos que nos contentar com os seus cavalos'. Uma crónica brilhante, esta, escrita da forma escorreita e quase erudita a que já nos habituou (continuo a relutar em falar de erudição em relação a Pedro Mexia, não apenas porque ainda não tem idade para ser erudito mas porque enveredou por um caminho tão mediático que temo que se perca algures pelo caminho; os eruditos não costumam gostar tanto de aparecer, percebem os riscos que a exposição excessiva comporta).



Pedro Mexia
(aqui muito bem acompanhado:  com um ex e com um actual do Governo Passos Coelho...)
(claro que esta fotografia aqui é meio disparatada mas encontrei-a e achei-lhe uma certa graça)


Mas, se não falou de acidentes e desgostos conjugais na crónica de 'Fraco Consolo', foi ao livro de Trevisan que se referiu na sua crítica literária desta semana, atribuindo quatro estrelas a este livro. Pontuação justa.

Foi com um sorriso que li a forma como Pedro Mexia foi varrendo as páginas desta Guerra Conjugal.  

(...) Daí que estes casais de Trevisan vivam uniões frágeis ou fictícias: sentem-se viúvos, comunicam através de bilhetes acerbos, ela é com frequência esquiva, ele é corno manso, sofrem de varizes, derrames, frustrações. Um ou outro protagonista ainda se deslumbra poeticamente com a beleza física, narizinhos, maminhas, dedinhos dos pés, 'a bundinha era banda de música com bumbos e bandeiras'; mas o encantamento é fugaz, e dali a pouco eles xingam as mulheres de 'fêmeas' ou 'flores podres'. Elas são lixo. Eles também. 

Escreveu Pedro Mexia e escreveu bem.

(Cá para mim, quando acabou de escrever, deve ter pensado: por estas e por outras é que não me caso.)

De qualquer forma, não interessa o que ele pensou lá da vida dele: o que interessa é que tem razão quando pontua bem este livro. A Guerra Conjugal é um livro mesmo bom. Dalton Trevisan é um mestre dos contos e da escrita em língua portuguesa


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  • As fotografias que ilustram este post são da autoria do fotógrafo Steven Meisel.
  • Já sabem que para saberem sobre algumas das últimas a nível da nossa pobre política, é no post abaixo.
  • Mas, se me permitem a falta de vergonha, muito gostaria de vos ter também lá pelo meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa. Hoje, depois de ter lido um poema de Tatiana Faia, escrevo sobre um homem perdido nos seus labirintos, ocultando os seus pequenos medos. A seguir, na música, por recomendação de um Leitor a quem muito agradeço, tenho uma nova grande intérprete, Yuja Wang, que toca, ao piano, Chopin, Gluck e Strauss. Uma maravilha, é o que vos digo.

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E, por hoje, já chega. 
Tenham, meus Caros Leitores, uma bela semana a começar já por esta semana. 
Saúde e alegria!


sexta-feira, agosto 10, 2012

Andam faunos pelos bosques


My skin, if you please

Natalie Merchant



Não podendo ser piscina, estando muito calor e muita gente na praia, então que seja jardim. Em casa é que custa estar. Não sou pessoa para passar os dias fechada em casa.

Receber amigos em casa, na cidade, nesta altura do ano, ainda é menos suportável. Os sofás são quentes, estar de janela fechada é claustrofóbico, abrir a janela um disparate tal a onda de ar quente que entra.

Então combinámos uma tarde no jardim. Se há coisa de que gosto é de jardins. São as flores, são as árvores, são os lagos, são os bancos, são os recantos de sombra, é quem está, é quem passa, é tudo.

Só mulheres, amigas, muita conversa para pôr em dia. Queriam combinar umas partidas de ténis mas eu, neste estado, já ando, já subo e desço escadas (mas ainda com cautela)... agora correr, saltar... é que ainda nem pensar. Por isso, duas delas lá foram para o court e eu e as outras ficámos a ver.



by Patrick Demarchelier


Elegantes, com firmeza de músculos, precisão nas batidas, foi um gosto vê-las. Para atenuar as saudades, limitei-me, com outras, mais sedentárias, a passear por ali (por onde não devíamos...), fotografando-as (contra a vontade explícita delas; mas com o seu beneplácito implícito porque, conheço-as bem, são umas marotas, umas coquettes vaidosas...!). 

Escusaria de vos avisar que, com a temperatura tão elevada, tivemos que dispensar algumas peças de roupa. Mas, enfim, esse é um pormenor que agora não vem ao caso; contudo, como isso é visível nas fotografias, achei que aqui devia deixar a explicação.

Chamem-nos campónias, rústicas, o que quiserem mas vou confessar-vos: levámos farnel para o lanche. O difícil foi, depois, encontrar um recanto abrigado. Na maior risota, por ali andámos, pelo meio dos arbustos, tentando desencantar o lugar ideal.



Modelos Dior, fotógrafo não identificado


Que bem me soube andar à sombra fresca, entre arbustos floridos. As mais novas descalçaram-se,  ninfas ingénuas de peles lisas, sorrisos saudáveis, cabelos brilhantes. As gargalhadas delas divertiam-nos. Nada como o ar do campo para soltarmos a nossa natureza. Ia dizer a nossa natureza selvagem mas não estaria a ser rigorosa. Ali, selvagem acho que apenas eu. As minhas amigas são por vezes algo desenfreadas, brincalhonas, mas, selvagens, não. Quase todas são, até, na verdade, bastante bem comportadas.

Finalmente, lá descobrimos a clareira ideal, chão de relva, árvores em volta. Uma levou uma grande toalha com motivos florais e, imagine-se a simpatia, uma almofada para a pós-operada (eu), e todas levámos pão, bolos, bolachas, panquecas, sumos, frutas e delicatessen. A minha amiga que é química e se dedica à culinária molecular levou um refresco de champanhe, espuma de queijo e, até, imaginem, shots de um líquido transparente e incolor, fresco, que exigiu que bebêssemos antes do resto: é que uns sabiam a gaspacho e outros a sopa de melão, deliciosos, o sabor era tal e qual, uma coisa extraordinária. Não é à toa que é consultora de grande parte dos chefs mais conhecidos da nossa praça.

Depois, prosseguimos na conversa, tudo na maior alegria. Anedotas de morrer a rir. Uma contou que o Cavaco anda a desafiar o Draghi mas, pasme-se, o faz no Facebook, outra contava que a Júlia Pinheiro, no programa da manhã, com o Cláudio Ramos, tinha estado na maior paródia a comentar fotografias do Passos Coelho, na Manta Rota, meio careca, a sair da água com a sua Laurinha, passando por entre veraneantes estendidos na areia. A falta de noção do que é a dignidade inerente aos postos que ocupam torna-se hilariante.

Mas o tempo tinha passado e as mais novas não sabem nem querem saber quem é esta gente da Praia da Coelha e da Manta Rota e, tendo mais que fazer, passado um bocado, dispersaram. E outras tinham que ir tratar do jantarinho e de pôr a mesa e alindar-se para o maridinho pelo que, no fim, ficámos apenas duas.

Resolvemos, então, partir à descoberta. Logo a seguir ao jardim há um parque que tem zonas de autêntico bosque.

Nunca para ali tínhamos ido e, digo-vos, foi uma descoberta encantadora. No meio da cidade um verdadeiro bosque.



by Steven Meisel


Claro que levava a minha máquina fotográfica e acabei por fazer uma sessão fotográfica com a minha amiga que, ali no meio do arvoredo, parecia uma bela rosa, coberta de mil macias pétalas. Tem jeito para modelo, ela, e eu, um dia que deixe de ser executiva, ainda me dedico à fotografia de moda ou de charme.

A seguir, quis ela fotografar-me. Não queria, não ia tão bem vestida como ela; aliás, nunca gosto de alinhar com a maioria e, por isso, não fui vestida segundo o dress code que tínhamos combinado. Além disso, as minhas pernas ainda me traem. Mas ela insistiu. Escolhi então um campo de flores como décor. Como estava vestida de preto (e, claro, com a minha capeline, que isto de não apanhar sol, leva-me a estes cuidados), quis que as flores compensassem a noiresse da toilette.



by Greg Kadel


Estou a ver a fotografia e não gosto extraordinariamente. Paciência. Parece que fiquei com as pernas tortas e, podem ainda não estar muito firmes, mas, credo, não estão tão tortas assim. Isto é ilusão de óptica ou falta de habilidade da fotógrafa... (desculpa a maldade, Z.). 

Depois entretivémo-nos a fazer uns belos colares de flores enquanto fazíamos confidências uma à outra, conversa de mulheres, daquela que flui sem propósito ou fio condutor.

Mas, logo a seguir, foi a vez dela ter que se ir embora, não queria chegar a casa depois do marido. Tudo gente ajuizada, comme il fault.

Eu, encantada que estava com a natureza, fiz outra coisa. Liguei ao meu amor, Olha, estou a adorar isto, quero fazer aqui mais umas fotografias. Mas tu vem cá ter. Vais gostar. E, se quiseres, a seguir, podes fotografar-me, isto é calmíssimo e eu estou com aquele corpete de que gostas tanto.

Alinhou, que ainda demorava um bom bocado mas que sim, que iria. E então, enquanto ele não chegava, andei por ali, no meio daquela natureza quase encantada. Poderia aparecer uma fada, podiam aparecer duendes, que eu não me admiraria nada, aquele parecia o espaço natural para criaturas fantásticas. Silêncio, apenas se ouviam os pássaros pensando que estavam sozinhos, uma frescura muito agradável, uma sombra quase mágica. E eu, por ali, como uma gata sorrateira, olhando, fotografando.

Até que, para meu susto, me pareceu ouvir passos. Uma coisa quase inaudível, como se fossem uns passos longínquos, passos sobre um chão macio de folhas. Assustei-me. Tinha estado a pensar em fadas mas a perspectiva de me aparecer ali algum tarado assustava-me, estava sozinha, longe de tudo, o sol já se tinha posto. 

Parei. O som desapareceu. Depois recomecei e, de novo, me pareceu ouvir alguém a andar, a andar ao de leve. Entretanto, já tinha parado de fotografar. 

Depois pareceu-me ouvir o som de uma respiração. Olhei à volta. Nada. Mas era o som de uma respiração. A minha suspendeu-se. Medo. O medo do desconhecido, um medo animal, primordial, profundo.

Podia ter fugido, podia ter gritado, podia ter telefonado. Mas não fiz nada. Estava completamente tolhida. É este medo imobilizante que torna as vítimas indefesas.

Quando, finalmente, consegui recuperar o controlo sobre o ar que respirava, pensei o que sempre penso quando receio estar em apuros: o que é o pior que me pode acontecer? Mas a resposta a esta pergunta não me encorajou. Ainda por cima, com o meu fraquíssimo sentido de orientação, comecei a pensar que, se calhar, estava perdida. 

Sentei-me e, quase simulando uma coragem que estava longe de sentir, pensei Quem por aí anda, que se aproxime que já se vê o que quer. Mas nada. Ninguém se aproximou. Nem passos, nem respiração. Eu em silêncio, rodeada de silêncio.

E então, passado um bocado, enervada com a espera, enchi-me de coragem e, irreflectidamente, fui ao encontro do que quer que fosse, bicho, homem, lobo mau, lobisomem. Dirigi-me, silenciosa, quase felina, para o local de onde tinha vindo o som dos passos e da respiração. Pé ante pé, sustendo a respiração, quase suspensa para ver se me tornava invisível, fui-me aproximando. O meu coração batia descompassado. 

E, então, o inesperado aconteceu.



by Dinah Hayt


Sobre uma rocha, como se me esperasse, um inusitado ser. Um corpo fantástico, um corpo elástico, jovem, ágil. Um belo minotauro. Quando me viu, em vez de parecer querer atacar-me, percebi-lhe uma atitude defensiva. Um bichinho assustado. Não um lobisomem mas um duende, um duende viril mas um duende. Ou um fauno. Senti que, por dentro da máscara, me espiava e o seu peito arfava. As mãos era finas e longas, adivinhavam-se macias. O peito liso, o ventre musculado, as pernas fortes, esguias. A cada momento parecia que podia fugir. Eu tinha-o descoberto nesta sua ousada incursão pelo bosque.

Senti curiosidade, pena, o meu lado de boa samaritana manifestou-se. Claro que não havia razão para estar tão assustado. Que mal lhe poderia eu fazer? Que mal poderia eu fazer a um fauno tão querido, tão bonitinho? Que mal...? Que mal...?

Então, tive uma ideia. Não me perguntem porquê nem me questionem acerca do que quer que seja. Sou assim, apenas isso. Faço coisas inesperadas, injustificadas. Felizmente, logo a seguir esqueço-me. Não tenho problemas de consciência porque não volto a pensar no assunto. Aliás, disse que tive uma ideia mas não é bem isso porque ter uma ideia pressupõe pensar no assunto e eu nem pensei, comecei logo a fazer, sem pensar.

Enquanto o belo minotauro me olhava, expectante, eu, sem tirar os meus olhos dele, ia despindo a roupa, peça a peça, devagar, muito devagar.  Apenas deixei os sapatos porque acho que uns sapatos bem altos, sejam quais forem as circunstâncias, servem para mostrar a elegância natural da mulher.

Acho que, se calhar, queria que ele percebesse que nada havia a temer da minha parte. Mas não sei se foi por isso ou porque, simplesmente, me apeteceu estabelecer alguma forma de empatia com aquele ser meio despido que o acaso me tinha posto à frente.

Depois, toda nua, cobri-me com os colares de flores que, momentos antes tinha feito, e coloquei flores nos sapatos, devagar, tudo muito devagar e, também devagar, baixei-me, baixei-me como ele - bem na sua frente, dois animais do bosque, olhando-se, cheirando-se. As flores acariciavam a minha pele, macia a minha pele, macias as flores. E ele espiando-me, atento.



by Patrick Demarchelier


Pela respiração que via no seu peito nu, percebi que o medo dele ia desaparecendo. Mantive-me assim a olhar, tranquila, até que ele, já tranquilo também, se aproximou, se aproximou muito e eu, intranquila, deixei que ele se aproximasse.

Algum tempo depois, já a noite quase caía, pedi-lhe que me indicasse o caminho de saída pois, como acima referi, tinha um encontro marcado e já estava atrasada.



pintura de Fabian Perez


Quando cheguei e contei ao meu amor o que se tinha passado ele não acreditou, diz que são coisas que me passam pela cabeça, que ninguém de bom senso acredita que andem faunos pelos bosque.


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[Penso que era escusado mas, de qualquer forma, aqui fica o esclarecimento: a expressão andam faunos pelos bosques é o título de um livro de Aquilino Ribeiro]

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Saíu outra vez extensíssimo este texto. Por isso, quase tenho vergonha de ainda vos convidar a continuar comigo. Mas, enfim, também não sou especialmente envergonhada, não é? Portanto, aqui fica o convite. Hoje no meu Ginjal e Lisboa a poesia é de João Paulo Cotrim e, em volta das palavras dele, andam as minhas palavras. O som que, aí, vos poderá acompanhar é a música do compositor espanhol, Joaquin Rodrigo.

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E, por hoje, nada mais. 
Excepto que, muito sinceramente, vos desejo, meus Caros Leitores, muita saúde e muita alegria e, claro, uma boa sexta feira. 
E que, a alguns, saia o Euromilhões - mas não a todos para ver se ainda fica uma verba razoável para mim, está bem?