Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quinta-feira, janeiro 29, 2015

A curva dos teus olhos, a liberdade, a história e a utopia


No post abaixo falei da humilhante prova para liquidar a dignidade e o amor próprio dos pobres professores que se vêem confrontados com a necessidade de se submeter a uma coisa alarve destas.

Mais abaixo ainda falei da grave doença da Saúde em Portugal às mãos da grande espingarda que nos saíu o Paulo Macedo que ainda se mantém ministro, e, para não correr o risco de falar do que não sabia, dei a palavra a um médico.

Mas isso é a seguir. Agora, aqui, a conversa é outra.




Somos nada na imensidão do espaço, errantes partículas perdidas num infinito incolor e quase silencioso, povoado por infinitos objectos flutuantes.

Num infinitamente pequeno planeta que gira monotonamente em volta de uma das infinitas estrelas desse infinito universo pululam pequenos seres das mais variadas espécies. Nós somos uns desses insignificantes seres, os mais irracionais de todos os seres que habitam o pequeno planeta azul. Enquanto os outros se limitam a sobreviver da melhor forma, nós afadigamo-nos a destruir-nos uns aos outros ou a desperdiçar o curto espaço de vida que nos é dado com teorias absurdas, agonias, angústias inúteis.

Eu sou um desses seres. Invejo a felicidade das árvores, a serenidade das rochas, a liberdade dos pássaros. Quis o acaso que tivesse vindo a este mundo sob a forma de mulher. Tento não me atormentar nem atormentar os outros mas pela força da organização deste mundo humano, não posso usar o meu tempo apenas a fazer aquilo que a cada momento me daria mais prazer. 

Gosto de aprender e, se pudesse, dedicava a minha vida essencialmente a actos que me proporcionassem a aquisição de mais e mais conhecimento – para além, claro está, de assegurar a minha sobrevivência, procriar (enfim, procriar propriamente dito, já cumpri com o que tinha a cumprir), cuidar das minhas crias e das crias das minhas crias, cuidar da minha toca, estar ao sol ou recolhida junto a uma lareira nos dias de frio, passear, nadar, andar junto à beira de água e etc.  

Mas tenho que fazer mais do que isso e, portanto, o tempo para fazer aquilo para que a minha natureza me puxa é escasso.

Mas não me queixo. De vez em quando o acaso coloca no meu caminho outros seres que me trazem mais conhecimentos e, com isso, iluminam ainda mais a minha vida.

À hora de almoço estive por minha conta e, à solta, voltei a prevaricar. Ainda os últimos não arrefeceram e já trouxe mais uns quantos. É aquele medo absurdo de que alguma coisa me possa suceder e me impeça de comprar mais. O meu lado irracional leva-me a ter comportamentos de açambarcadora. E a felicidade que eu sinto quando os escolho e quando os transporto e quando lhes tomo o pulso...!

Mal cheguei a casa, pu-los em cima da cama e fotografei-os, lindos meninos. E que me perdoem os meus Leitores com dificuldades económicas que isto, ao preço a que eles estão, até pode parecer ofensivo para quem mal tem com que comer o mês inteiro quanto mais gastar tanto dinheiro em livros. Mas a verdade é que os comprei e que não é por escondê-lo que as finanças dos meus Leitores mais desfavorecidos ou a atravessar um momento de tristeza e preocupação vão ficar mais folgadas.




Amanhã ou outro dia falarei um pouco deles. Terei forçosamente que vos mostrar o belo livro Cesariny - Em casas como aquela, com texto de José Manuel dos Santos de cuja escrita eu tanto gosto (e relativamente a quem continuo a ter pena que tenha tenha saído do Expresso) e fotografias de Duarte Belo, o talentoso filho de Ruy Belo. 




Mas o que me levou até à livraria tão pouco tempo depois de ter trazido aqueles de que vos falei no outro dia foi a vontade de recordar Éluard e conhecer Cioran. Do primeiro tenho um livro em tradução portuguesa e não o encontro. Do segundo nunca tinha lido nada. Guiada, fui ao encontro de dois livros. Mal tive tempo de os folhear e, no entanto, a felicidade que já se desprendeu deles.




Pudesse eu, ah meu Deus, pudesse eu escolher a sombra mais fresca do regaço de uma árvore ou o encosto mais macio de uma rocha ao sol e deixar-me estar um dia inteiro a lê-los, só a música da aragem nas folhas, o cantar dos pássaros e eu a ler os poemas de Paul Éluard e a lucidez cristalina de E. M. Cioran.




Não fora o sono que tenho e pôr-me-ia aqui, de gosto, a exercer o mister de copista. Mas não consigo, já mal me tenho de olhos abertos e, por isso, passo a palavra.

Cioran na primeira pessoa




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ÉLUARD, Paul - La courbe de tes yeux.

(...)
Parfums éclos d'une couvée d'aurores
Qui gît toujours sur la paille des astres,
Comme le jour dépend de l'innocence
Le monde entier dépend de tes yeux purs
Et tout mon sang coule dans leurs regards.




Paul Eluard : Liberté

(...)
Sur la santé revenue
Sur le risque disparu
Sur l’espoir sans souvenir
J’écris ton nom

Et par le pouvoir d’un mot
Je recommence ma vie
Je suis né pour te connaître
Pour te nommer

Liberté.



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A música lá em cima é de Philippe Gaubert "Soir PaÏen" numa interpretação de MirAnDa Trio (MirAnDa Trio - Mirjam Rietberg (harp), Anna Azernikova (soprano), Dasha Beltiukova (flute), video - Masha van Berkel

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Relembro que no post a seguir falo do estado da desEducação e mais abaixo ainda falo da maceda doença que atacou a Saúde.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa quinta-feira.

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