Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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domingo, maio 28, 2017

Penso coisas tão profundas e sinto-me tão mal
que penso que sou um Intelectual.
E penso coisas tão mal e sinto-me tão profundo
que devo ser o Maior Intelectual do Mundo!





.  1  .

A leitura é uma espécie de celebração mágica. É a maneira de paradoxalmente descobrirmos que a realidade é aquilo que sonhamos e não aquilo que temos entre as mãos. É essa espécie de travessia de continentes. Que não existem. E nos quais reconhecemos aquilo que é mais profundo em nós e que não pode ser dito.


.  2  .

O problema é que os poderes do entretenimentos, sedutores e a exigirem uma entrega cega e sem reservas, são destrutivos. É uma das modalidades da irracionalidade do nosso mundo que não convivem bem com o pensamento, com uma certa distância, uma certa afirmação da autonomia individual, que são aspectos críticos para a literatura. Quando se liga a televisão, um dos emblemas maiores do entretenimento, há três coisas maravilhosas que acabam: o escuro, o silêncio e a solidão. Decisivas substâncias de que se faz a literatura, de que se faz a poesia. Onde está a música do pensamento no meio desse som e fúria sem contemplações a que se chama entretenimento?


.  3  .

A poesia e o romance não exprimem factos ou verdades, mas a possibilidade da verdade. Poesia e romance são o tempo interrogativo, o céu da possibilidade.


Senhor, permite que algo permaneça, 
alguma palavra ou alguma lembrança, 
que alguma coisa possa ter sido 
de outra maneira, 
não digo a morte, nem a vida, 
mas alguma coisa mais insubstancial. 
Se não para que me deste os substantivos e os verbos, 
o medo e a esperança, 
a urze e o salgueiro, 
os meus heróis e os meus livros? 

_______________________________________________

Autores das palavras

1. Eduardo Lourenço

2. Luís Quintais

3. Paulo José Miranda

Título e poema no final - Manuel António Pina

[Tudo lido no livro 'Vale a pena?' - conversas com escritores de Inês Fonseca Santos]

Autor da música e das imagens do vídeo

Ketil Bjørnstad – Prelude 13
Fotógrafo – ©Hal Eastman

Fotografias

Minhas, in heaven

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quinta-feira, dezembro 05, 2013

Cinza depois da música na gaveta do fundo. A dama e o unicórnio. Amigo, queredes vos ir?





Porque é que algumas pessoas não gostam de poesia? 


Tão estranho isso me parece que frequentemente me interrogo bem como costumo interrogar as pessoas que gostam de ler em geral, exigentes na qualidade da prosa mas que não lêem poesia. Dizem-me que a poesia não lhes diz nada e ponto final.

O que há, pois, na poesia que convoca uns e deixa outros indiferentes?

Já aqui contei: um grande amigo meu, leitor exigentíssimo, para me provar que a poesia é pouco mais que nada, pegava num poema e lia-o de seguida. Uma coisa assim: "Alguma coisa desassossegou o espírito do lugar e propagou sementes de solidão e derramou ventos que mordem o vazio dos campos. É tempo de dizer adeus às almas".

E, meia dúzia de segundos depois de ter começado, tinha lido de carreirinha o poema e virava-se para mim, 'Pronto, está lido. Diga-me lá qual a graça disto?'

Eu dizia-lhe que ele é que estava a matar o poema, lendo-o assim, de supetão, e ele retorquia que os poetas é que, como são gente sem assunto, para fazerem render o peixe, de três em três palavras mudam de linha para ver se enganam os incautos. Eu ainda tentava argumentar com a respiração, com a pausa necessária para apreciar as palavras, coisas assim, mas ele atalhava, "ó menina, tretas!". Acabei por desistir.

E, no entanto, eu leio um poema, aquele mesmo que acima foi transformado em duas frases espalmadas e, lendo-o com vagar, parece que estou a degustar um néctar muito puro, a essência da essência.

Alguma coisa desassossegou
o espírito do lugar e propagou
sementes de solidão e derramou
ventos que mordem o vazio dos campos. 
É tempo de dizer adeus às almas.


Leio este pequeno poema de A. M. Pires Cabral e parece que é como se a sombra se tivesse imobilizado sobre um lugar desabitado, um lugar onde o vento esvaziou as almas. (Não é o caso das fotografias que aqui coloco e que mostram a vista que tenho in heaven, um lugar muito docemente habitado).

Rubras como poentes
estas vinhas. Rubras como 
o consolo que se ocultava nos bagos 
e, uma vez ocorrida no lagar 
a química benévola, 
deles se destila - e nos escalda.


E quase paro de respirar para sentir o rubro quente das videiras, os bagos de sangue, o calor que nos consola o corpo. E, no entanto, são apenas palavras.


*

Estou com isto porque hoje comprei o último livro da colecção da editora Tinta da China coordenada por Pedro Mexia, o 'Gaveta do Fundo' de A. M. Pires Cabral. Tal como os anteriores é um livro especial. Pedro Mexia é um bom olheiro, disso não haja dúvidas. A poesia que escolhe não é óbvia, não é daquela poesia que de tão fácil ou banal se torna descartável. Não: a que ele escolhe fica inscrita em nós.


Os livros, em si, têm cuidada edição - e se eu sou sensível a isso. A paginação é agradável, o papel é bom, o papel da capa parece uma seda rugosa muito agradável ao toque, o design das capas e as cores são elegantes.

Para vos mostrar, fiz uma das minhas instalações. E, como de costume, um dos livros tresmalhou-se, desta vez foi o do João Vário. Se fosse uma ovelha, eu assobiava por ele e ele acabaria por se chegar; mas, assim, como chamá-lo? Desisti e fotografei os que encontrei, este novo e mais o do Luís Quintais e o da Rosa Oliveira.

Depois, quando os vi juntos, as capas fizeram-me lembrar as capas dos livros de poesia da Brasília Editora ou da Portugália Editora feitas por João da Câmara Leme há milhares de anos atrás. Coloquei dois desses para vos mostrar as parecenças, um do José Régio e outro de José Gomes Ferreira.

Sobre écharpes em tons rubros conformes à saison:

Depois da música, Luís Quintais
Cinza, Rosa Oliveira
Gaveta de Fundo, A.M. Pires Cabral

e
Poemas de Deus e do Diabo, José Régio
Poesia III, José Gomes Ferreira

e

A Dama e o Unicórnio, Maria Teresa Horta


Quanto a este último, já aqui o referi por mais do que uma vez (ou aqui ou no Ginjal, não me lembro bem).

A Dama e o Unicórnio é um livro muito belo. É daqueles livros objecto que me apetece emoldurar, guardar numa vitrine, talvez colocá-lo junto ao meu leque de ripinhas de madeira de mil oitocentos e tal. Mas não é só livro: é livro e CD, voz de Ana Brandão dizendo os poemas e música de António Sousa Dias.


A produção executiva, a capa e paginação estiveram a cabo do Atelier 004 de Patrícia Reis - um grafismo invulgar, um bom gosto sedutor. Ou seja, uma obra especial, uma preciosidade (um presente de Natal ímpar, digo-vos eu). 


Se eu um dia fizer um livro acho que vou pedir à Patrícia Reis que o torne tão bonito assim (presunção e água benta, qualquer qual toma a que quer, ora essa)

Tenho estado a falar da forma mas, claro, o conteúdo é qualquer coisa... Poemas muito belos, um roteiro poético em torno da série de 6 tapeçarias La Dame à la Licorne descobertas em em 1841 e que podem ser vistas no Musée de Cluny.

Transcrevo, ao acaso, um poema e mostro-vos a fotografia de um outro:


A lenda    A história
o tormento    o afago
confissão de desejo

onde o poema fia
(...)
À mon seul désir
desafiando o amado
dedos esvoaçados

onde a pele adivinha

Ardilosa seduzindo
entre o jogo e o jogado
tomando o que pode

de si mesma rainha
SIGILO
         Seduziste-me
         Senhora
         e eu deixei-me seduzir

         de bom grado

         No sigilo de vosso
         colo
         na devassa de vosso espelho


O meu amigo diria que a Maria Teresa Horta não tinha muito que dizer sobre o sigilo e que, com menos de vinte palavras, despachou o assunto.

Eu, pelo contrário, pasmo com o murmúrio, o secretismo da sedução assim descrita - e para os quais bastaram menos de 20 palavras.

*

Por tudo isto, pergunto: o que é preciso para se gostar de poesia?

Saber respirar, saber adivinhar a música que se esconde no lado silencioso das palavras, saber dar o tempo necessário para que a luz ou a sombra escolham onde pousar?

Não sei.

Apenas sei que, para mim, a poesia é imprescindível.


***

A música lá em cima é Amigo, queredes vos ir? de Dom Dinis, cantada por Paulina Ceremuzynska


***

[Não me apetece muito agora dizer-vos isto porque é matéria muito pouco poética mas, assim como assim, deixem que vos informe: sobre o novo movimento de gente de bem do PSD que está capaz de esganar a ala passista e os cães com pulgas que tomaram de assalto o partido laranja, é descerem, por favor, até ao post já aqui abaixo]

***

«««« Não devo conseguir responder aos vossos comentários pois quero escrever sobre a Leonor e perdi um tempo danado com isto que acabaram de ler. Ponho-me a fazer formatações maricas e isto desalinha-se tudo e eu para aqui ando de volta, a pôr espaço de um lado, a tirar de outro... e o tempo vai sendo consumido com isto. E tanto que eu gostava de ir dar uns dedos de conversa, ando com saudades de conversar convosco »»»»

quarta-feira, novembro 20, 2013

Mário Soares na TVI 24 com um Paulo Magalhães (perfeito) diz que Cavaco Silva deveria demitir-se dado que não defende a Constituição e que já nem pode ir à rua sem ser vaiado de tal forma está isolado no País. E que o Governo de Passos Coelho é uma desgraça completa para o País. E que amanhã na Aula Magna reunir-se-ão pessoas que, tal como ele, defendem o País antes que este caia no abismo. À beira dos 89 anos, o velho leão ruge como nenhum outro. Salve o velho guerreiro Mário Soares.


Controverso, sempre cheio de vida, determinado, intuitivo, patriota, polémico, conhecedor da vida e do prazer de a viver, irremediavelmente humano com os seus defeitos e qualidades, corajoso, um ser solar, uma árvore de grande porte, um leão cheio de nobreza, um guerreiro, um grande Homem - assim vejo eu Mário Soares.


Mário Soares vem de um tempo em que há a coragem de caminhar pela fé na força do caminhar, em que há confiança nos próprios passos, em que não há tíbios calculismos, gestos ponderados, jogadas de sacristia, paninhos quentes. Mário Soares vai à luta sem medir os riscos, confiante na sua força e na força dos amigos que com ele caminham.

Seria bom que os tozés* desta vida e todos os bem comportadinhos que gravitam em volta de timoratos sem carisma pusessem os olhos em Mário Soares. É de gente como Mário Soares que reza a história.

E não me venham falar na descolonização mal feita e em mil outros episódios. Mário Soares não é perfeito, é aliás completamente humano, e muitas vezes vi com alguma reticência alguns dos seus actos - contudo, está por demonstrar que, se ele não tivesse feito o que fez, as coisas seriam melhores. Seja como for, foi sempre o patriotismo, o supremo amor a Portugal, à liberdade, à democracia e ao desenvolvimento que o moveu. Portugal deve-lhe muito.


A caminho dos 89 anos, na situação de calamidade social, económica e financeira em que Portugal se encontra, Mário Soares não cala a sua voz e continua a lutar por Portugal com a força e a imponência característica do grande rei da selva. Só espero que o seu grito de revolta troe de lés a lés. Bem haja, grande Mário Soares. 



Agita-se e grita e canta
para lá da fronteira que desenhámos.
É apenas uma árvore,

extensão vegetal de luz,
celebrada dor, celebrada tinta
espalhando-se na página.

Partilhamos a sua agitação,
o seu grito, o seu canto, o seu transpirar,
como quem partilha um saber ocultado
.


|||

O poema é de Luís Quintais e, muito justamente, tem como título 'Fantasma'. De facto, não tenho dúvida de que estes rugidos de Mário Soares soarão como uma assombração à Bela Adormecida que repousa em Belém.

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(*) Para que conste: falei dos tozés, reportando-me a este PS abúlico que me enche de irritação. No entanto, há que não esquecer, bem pior que os meninos do coro do PS (que esses são sobretudo uma seca, que não são capazes de entrar de pé em riste em lado nenhum mesmo quando é caso é para os Bruno Alves desta vida entrarem ao estalo e à cabeçada a torto e a direito) são os perigosos ignorantes e perigosos vendidos que nos desgovernam e todos os que se acoitam à pala de tamanha incompetência, disso tirando partido. 


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NB: Escrevi 'salvé o velho guerreiro' e fui verificar se é 'salvé' ou 'salve' sem acento. A verdade é que não cheguei a nenhuma conclusão e, sobretudo, receei que, escrevendo 'salve', o que escrevi tivesse difícil leitura.

Ai a falta que me faz saber mais de língua portuguesa... Se o que escrevi não está correcto, por favor alguém me corrija, está bem?


sábado, novembro 16, 2013

Luís Quintais, o Poeta que não gostou da crítica de José Mário Silva no Expresso a propósito do seu livro 'Depois da Música' e que, furioso, disse (e vocês perdoem o meu francês mas vou limitar-me a transcrever): "Dá-me quatro estrelas. Melhor seria que não desse nenhuma. Que as metesse pelo cú acima! Que merda de país é este?"


No post abaixo interrogo-me sobre o Bruno Vieira Amaral: será um galã? Um actor porno? Um simples malandreco? 

Mas isso é a seguir.

Aqui, a conversa é outra. Dado que esta semana andei com a cabeça noutro lado, só hoje afloro um assunto sobre o qual já poderia ter falado antes.






Tenho o livro de Luís Quintais da Tinta da China, o 'depois da música', e dele já aqui no Um Jeito Manso e no Ginjal divulguei alguns dos poemas. Apenas o conheço deste livro e, como já o referi, gosto: acho que, uma vez mais, o Pedro Mexia está a revelar 'olho' para escolher bons poetas. Esta colecção da Tinta da China coordenada por ele está a revelar grande qualidade.


Luís Quintais parece-me um poeta com uma visão especial das coisas, alguém que vê o mundo com uns olhos livres, que sente e pensa de uma maneira muito própria, dá ideia de ser alguém incomum.

Já aqui o disse algumas vezes: a mim não me faz sentido que se faça crítica literária à poesia. Quanto muito admito que se diga que se gosta, que é especial ou incomum, que é melódica ou inspirada ou que é vulgar, preguiçosa, armada a besta, ou banalidades deste género. Uma pessoa pôr-se a dissecar um poema, a interpretá-lo ou a dizer o que quer que seja sobre um poema é sujá-lo, é ofuscá-lo, é retirar-lhe a música e a beleza intrínseca. E, quanto a significados, pretender atribuir-lhe um sentido ou um propósito parece-me uma coisa contrária à própria essência da poesia. Para mim, um poema é uma coisa aberta, cada um que o leia como entender. Acredito que, ao escrevê-lo, um poeta possa, até, nem lhe atribuir nenhum sentido.

Por isso, nunca leio crítica literária sobre poesia como leio sobre outro género: limito-me a ler os poemas que o crítico transcreve.

Neste caso, conhecendo já o livro e andando com ele aqui ao meu lado para o ir espreitando de vez em quando, ao ver a crítica no Expresso da semana passada, tive curiosidade. E constatei que a crítica feita pelo José Mário Silva não apenas não era apelativa, como o que dizia era redutor, afunilava o sentido dos poemas, fechava-os num espaço fechado.


Achei que não fazia justiça ao livro e que mais valia que a não tivesse escrito.

Mas, neste caso em concreto, embora não tenha grande opinião dele enquanto crítico, dei-lhe um desconto; pensei que quem faz crítica literária a obras poéticas geralmente se espalha e que era o que lhe estava a acontecer: tinha-se espalhado.

Por isso, compreendi a reacção de Luís Quintais. O que me surpreendeu foi que o tivesse publicado e a frontalidade do que disse. Mas admito que, se eu estivesse no lugar dele, tivesse pensado o mesmo ao ler a dita crítica.

Escreveu ele:

Chamaram-me a atenção, e fui ler. Uma recensão crítica de José Mário Silva sobre Depois na música no Actual do Expresso. Uma coisa verdadeiramente incrível de mediocridade, preguiça e desonestidade intelectual. Não tem nada para dizer, e num texto de muito poucas palavras, rouba tudo o que pode do meu livro para preencher a inenarrável coluna. No fundo, domesticam-nos assim. Domesticam-nos através de uma presunção de vaidade. Isto vem de alguém que ainda há semanas dizia que o Fernando Pessoa ortónimo era um poeta «sobrevalorizado». Dá-me quatro estrelas. Melhor seria que não desse nenhuma. Que as metesse pelo cú acima! Que merda de país é este?


Ou, dispondo a última parte do trecho de uma forma mais poética, para termos uma verdadeira exaltação ao lirismo dos tempos modernos:

Dá-me quatro estrelas.
Melhor seria que não desse nenhuma.
Que as metesse pelo cú acima!
                  Que merda de país é este?

Não tem papas na língua. Ou melhor: tem língua afiada este Poeta que, entre outros, gosta de Monteverdi e de Chaplin e que diz de si próprio:

Algum do meu trabalho ensaístico actual sobre arte (e esse é um dos meus territórios de eleição) gravita à volta de figuras como Gordon Matta-Clark e Rui Chafes. Através de Matta-Clark e Chafes, pretendo explorar algumas das propostas de Alfred Gell e Tim Ingold. Proponho-me, assim, e com alguma urgência, pensar o mundo da arte, erguer a minha pessoal codificação ou interpretação antropológica da arte. Uma antropologia da arte? Sem dúvida. Mas uma que seja suficientemente interdisciplinar ou transdisciplinar para interessar não apenas os antropólogos, mas também investigadores de outras áreas.

E ainda:   Sou um homem de esquerda, mas sem ênfase. Estruturalmente agnóstico, acredito mais na redenção do que na revolução. E a redenção será poética ou não será!




Um simbolista vencido


Dor em que crescerás - 
a queda das folhas
a que sem limite cederás.





*

Todas as imagens mostram obras de Javier Pérez, excepto a fotografia em versão Warhol do Poeta rebelde. 

A música lá em cima é de Claudio Monteverdi - L'Orfeo, com direcção musical de René Jacobs, Simon Keenlyside como Orfeo e coreografia de Trisha Brown. 

O poema é de Luís Quintais, claro. Para conhecerem outros, poderão procurar lá mais para baixo, do lado direito, a etiqueta 'Luís Quintais'


*

E, depois da poesia, a prosa. Se quiserem ver um galã daqueles com olhar de verdadeiro malandro, desçam, por favor, um pouco mais.

*

PS: Tinha intenção de escrever hoje também sobre a Ascensão e Queda de Passos Coelho segundo Fernando Moreira de Sá nos conta na entrevista na Visão. Aí ele descreve como este, aquele e o outro (alguns cuja escrita acompanho - ou acompanhava), todos esses que, unidos, ajudaram a difamar e denegrir a imagem de José Sócrates para, depois de forjarem a figura de Passos Coelho e de o ajudarem a aboletar-se no governo, irem eles próprios aboletar-se em assessorias e outras mordomias no mesmo governo, o governo mais indigente, mais incapaz, mais perigoso de que há memória na democracia portuguesa. Foram essencialmente pela mão de Miguel Relvas, esse grande estadista. Quero falar sobre isso mas talvez só amanhã, hoje já não dá.


*

E, por hoje, nada mais. Apenas desejar-vos, meus Caros Leitores, uma belo fim de semana.

quinta-feira, novembro 07, 2013

O que é a melancolia? Veja, meu Caro/a Leitor(a), se é um melancólico/a ...... [Claudio Magris ajuda a perceber no seu livro 'Alfabetos]



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Ron Mueck (genro de Paula Rego) - Big Man, 2000

Para o melancólico, as coisas são enigmáticas, desvinculadas, cada uma isolada em si mesma, privadas de autêntico significado porque ele não as vê com aquela afectividade, aquele desejo e aquela confiança que lhes conferem calor, tornando-as familiares, amigas das mãos que as tocam e as trabalham, enquanto elementos da vida - como as estações do ano, em cuja cíclica repetição podemos inserir-nos com harmonia. Para o melancólico, pelo contrário, tudo isso se resume num inútil florescer e desvanecer.

A melancolia - observava Goethe - é a incapacidade de amar a repetição que pauta a nossa existência (as estações, o dia e a noite, os afazeres e hábitos quotidianos, o suceder das gerações) e de usufruir das inumeráveis e surpreendentes variações que cada aparente repetição diária  - na realidade sempre nova e aventurosa - contém. 

A melancolia percepciona pelo contrário o fluir e o repetir-se como uma infinita monotonia, o destilar de segundos e minutos sempre iguais no vazio. 


Jean-Louis-François Lagrenée, dit l'Ainé (1725-1805)
-'la melancolie'-huile sur toile-1785
Paris-Musée du Louvre
A melancolia é uma tristeza que não sabe precisar o seu objecto e a sua causa; acusa intensamente a perda de algo, sem poder dizer o quê.

A melancolia não só não pode definir a falta de que se sofre, como nem quer fazê-lo, porque se compraz e se nutre dessa perda indefinível e da sua indefinição, acrisola-se no seu próprio voluptuoso tormento; o tormento não quer fazer o luto, mas postergá-lo sem limite.

Ainda que tenha raízes antigas e implicações religiosas, além de uma inseparável dimensão clínica, a melancolia é sobretudo uma categoria, um modo de ser (...)


*


                                                         
                                                                  Escutamos aluimentos de felicidade.
                                                                  A arte de quem perde
                                                                  faz um eco impossível de esconjurar.

                                                                  Dentro de quatro linhas,
                                                                  alguém espera, o tempo dilata-se,
                                                                  uma dose de melancolia impõe-se.


*

O texto em itálico é parte da crónica 'Melancolia e modernidade' integrada no livro 'Alfabetos' de Claudio Magris. A música é 'Cantus In Memoriam Benjamin Britten' de Arvo Pärt sobre imagem de Tilda Swinton em 'War Requiem' de Derek Jarman.

O poema é 'Portugal, durante a derrota' de Luís Quintais in 'depois da música' e a mulher de aparência melancólica é Cléo de Mérode que afinal não levou uma vida nada melancólica.


*

sexta-feira, novembro 01, 2013

Álvaro Santos Pereira (o ex-Álvaro, o vira-casacas, o tira pastéis-da-cartola, o faz o que eu digo, não faças o que eu faço), agora defende que a dívida deve ser reescalonada para 40 ou 50 anos, que a prioridade deve ser baixar a carga fiscal, que a austeridade cega, ano após ano, pode levar a ditaduras na Europa e sei lá que mais. Ou seja, passou-se outra vez para a oposição. [E eu, para que a vossa visita valha a pena, tenho aqui para vos oferecer a Kate Winslet pela Bettina Rheims, o 'depois da música' pelo Luís Quintais e o 'Hey Laura' do Gregory Porter. E pudesse eu oferecer-vos um bocadinho da marmelada que a minha mãe fez, acompanhada por um bocadinho do queijo que o meu filho me trouxe de Milão, fá-lo-ia de bom gosto. A sério.]


Que nem de propósito. Se descerem um pouco mais, a seguir às palavras de António Lobo Antunes e André Macedo, palavras imperdíveis, tenho um post com dois filmes muito esclarecedores sobre as razões da dívida pública: como lá se chegou, os mitos e os truques. Aconselho-os. São claros e sugestivos. 

Mas isso é mais lá para baixo.

Pois bem, a propósito da dívida, o nosso pequeno Álvaro por aí anda, franga à solta, a causar baderna e a pregar contra a dívida: que a dívida asfixia a economia e que é preciso baixar impostos às empresas e às famílias e etc e tal, e tal e coisa - e que agora é que bom, que agora pode dizer o que pensa. Na conferência 'Portugal em Exame' foi o que se quis. Nem o Louçã nos seus belos tempos na Assembleia da República, nem a Heloísa Apolónia, essa intrépida subversiva, foram alguma vez tão longe no ataque cerrado à governação do Coelho Passado. Pelos vistos, enquanto esteve no Governo, o ex-nosso Alvarito andou a ser mentiroso todos os dias, sempre a dizer o contrário do que pensava. 


Ai estes pequenos patetas que nos andam a governar, medrosos, cobardolas, pequenos mentirosos...

E eu, que se apanho destes pela frente, lhes perco o respeito, pergunto-me se é agora que está a ser sincero ou se já lhe cheira a fim de ciclo e quer já perfilar-se para o day after.

É como o Pires de Lima, esse outro artista. Enquanto estava cá fora, que o que era preciso era fazer isto, aquilo e o outro e pintava a manta por tudo o que era televisão. Pois bem, agora que já está em posição de fazer alguma coisa, eis que não faz coisa alguma e, em contrapartida, inventa que vê milagres, macaquinhos no sótão, passarinhos na outra banda, etc - só coisas bizarras; coisas concretas e úteis: zero. Em suma, aproximou-se do Coelho e desvirtuou-se instantaneamente. Uma coisa estranha, isto. Se calhar também foi isso que aconteceu ao Alvarito. Tudo culpa das más influências do Coelho.


Ou será que é o Coelho ou o Poiares Maduro ou o Colares Rosé que se enfrascam e enfrascam os outros todos, tudo o que é ministro, como António Lobo Antunes antecipa? Andarão todos sempre com os copos? Bolas, isso também não acredito, isso já seria demais. Mas parece. Lá isso parece. Mas acho que devem padecer de alguma enfermidade cujos sintomas são os mesmos que na embriaguez. Cá para mim é capaz de ser isso. Não sei.

= = = = = =

O que sei é que tudo isto me dá uma fadiga que não vos digo nada.  Por isso, fico-me por aqui e vou-me deitar. Mas, antes, um momento fotográfico, poético e musical que eu, bem vistas as coisas, não quero que vos falte nada. 



Os poetas vão ficar no desemprego, em breve, muito em breve.

Os algoritmos sem erro, perfeitos de pesadelo, escreverão melhor. 

*



*

  • A Kate Winslet, completamente fadigada como eu estou agora,  foi fotografada por Bettina Rheims
  • O pequeno poema é de Luís Quintais e pertence a 'depois da música', o novo livro da bela colecção da Tinta da China coordenada por Pedro Mexia.
  • O 'Hey Laura' é interpretado por Gregory Porter.


*

E eu fico-me por aqui não sem antes vos recordar que há mais posts por aí abaixo, material de qualidade (e estou à vontade para o dizer porque não é meu).

Com tanto assunto que este malfadado desgoverno suscita, nem tenho tido disponibilidade mental para vos mostrar mais o Porto e Guimarães. Parecia eu que estava a adivinhar. Mas guardado está o bocado para quem o há-de comer. Por isso, um dia destes será.

*

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela sexta feira!