Aliás, tenho a dizer que li a notícia há uns dois ou três dias e nem tugi nem mugi. Para começar nunca tinha ouvido falar de tal pessoa. Quero lá saber do que qualquer um diz. Mas depois fui lendo notícias, o escarcéu que se foi levantando, meio mundo indignado com uma afirmação que a mim me pareceria tão inócua.
E hoje resolvi ir perceber melhor quem é Yann Moix.
Trata-se de escritor, realizador e apresentador de televisão. Parecem-me skills a mais num único corpo mas, pensando bem, o Cláudio Ramos também é escritor e apresentador e ninguém me garante que também não faça vídeos. E se puxar mais pela cabeça sou capaz de encontrar uma palete deles também por cá. Gente polifacetada, quero eu dizer.
O facto de também não o conhecer como escritor não desabona a favor dele mas, provavelmente, de mim. Na volta, salvo um ou outro maluco destrambelhado que ainda vou conhecendo, de resto sou ignorante da nova literatura francesa.
Mas não deixa de me espantar que um sujeito qualquer, seja ou não escritor decente, caia nas bocas do mundo só por dizer que as mulheres com mais de cinquenta não lhe dão pica. E que ele tenha 50 parece-e mero pormenor. Se não dão, não dão. Só gosta de jovens. Está no direito dele. Porquê tanto falatório?
Claro que os jornais e revistas logo se encheram de fotografias mostrando toda a espécie de apetecíveis idosas, com mais de cinquenta. Há montes delas, claro.
Não desfazendo, eu própria me insiro aí (presunção e água benta, ora pois). Mas, claro, gostos não se discutem e o facto de eu me ver dentro do prazo de validade não quer dizer que um Yann qualquer desta vida não me veja senão como uma avozinha daquelas em quem nem o lobo mau pega.
Agora duma coisa eu sei: vendo as fotografias dele ou vídeos em que o vejo a falar, não tenho dúvidas que ele a mim também não me inspira nada, nem sentimentos nem apetites. Não é por ter cinquenta anos porque eu, nisso, sou agnóstica: é porque aquela cara parece que indicia um candidato a tarado ou, se olhar melhor, um tipo com ar de campónio metido a besta. Ná. Nem tem um ar sereno nem civilizado nem parece ter sentido de humor. Pior: tem ar de quem não tem uma 'boa pegada'.
Pode acontecer que uma teenager -- linda, fresca, inexperiente e com pouco mundo -- se deixe deslumbrar por uma vedeta televisiva e vá na conversa de um mal encarado destes. Agora uma mulher feita, que saiba que há mais marés que marinheiros e que são as mulheres que escolhem e não o contrário, olha para uma fraca figura daquelas, disfarça o desinteresse (não vá a florzinha amachucar-se) e segue em frente.
Pode ser que, presentemente, o cargo de Primeiro-Ministro esteja ocupado por uma criatura sem jeito, sem tarimba, sem caco, sem tino, sem calo, sem golpe de rins, sem golpe de asa. Ou seja, uma criatura destituída.
E pode ser que antes disso o que lá esteve também não fosse grande espingarda. E pode ser mil coisas.
Mas, independentemente de tudo isso, acho que aquele parlamento é uma coisa deliciosa de se ver e que aquele Mr Speaker é um bacano -- e isso já todos os que por aqui me acompanham estão fartinhos de saber.
E pode aquele lugar não ter um mínimo de condições -- todos encavalitados em cima uns dos outros, todos perna com perna, todos muito à vista uns dos outros, sem poderem estar a ver a net ou as fofocas no computador, sem sequer poderem pintar unhas -- mas não há lugar melhor para aquelas cenas shakespeareanas, para aquelas rábulas onde a democracia é praticada ou encenada em cada sessão.
Desta vez estavam todos encanitados porque o Speaker, o fantástico John Bercow, não deu uma rabecada num tal por causa daquilo da mouthing stupid woman. Ver as acusações e ver o que ele contrapõe é um prazer.
Não sendo eu dada a metafísicas nem a parábolas do género quem é que apareceu primeiro, o ovo ou a galinha, devo dizer que, apesar disso, gosto da origem do mundo. Não acho que contenha pêlo púbico de escândalo. E acho graça que tenha sido um homem, Jean Désiré Gustave Courbet de seu nome, a olhar para o ventre e o sexo de uma mulher e a lembrar-se de dizer que é ali que o mundo tem origem. Qual big bang, qual obra de um deus hiperactivo: não senhor, é da boca do corpo da mulher que nasce o mundo.
Quem daqui me conhece, sabe que, do meio de todas as minhas contradições, resulta que não sou daquelas feministas que endeusam as mulheres e demonizam os homens. Valorizar as mulheres à custa da desvalorização dos homens não é a minha praia. Muito menos suporto o machismo. Acho que o machismo puro é prova de insegurança masculina, é coisa de homem a caricaturar-se para disfarçar inseguranças ocultas. Gozar com um machista é a melhor forma de o desarmar. Experimente uma mulher virar-se para um homem que promete muito e, olhando-o de alto a baixo, dizer com ar duvidoso: 'Jura...?'. Baqueia no acto.
Gosto de igualdade. Sei que em relações de domínio, pode acontecer que uma mulher não consiga afirmar-se como igual do homem. Mas o mesmo acontece com uma mulher debaixo de outra mulher ou de um homem debaixo de uma mulher. Quem está por baixo, só às vezes é que pode tanto como quem está por cima. Claro que aqui poderia abrir um parêntesis para dissertar. Mas é daquelas coisas: filosofia numa hora destas...? Ná. Filosofia só quando contemplo o sunset, não quando as estrelas tombam do céu.
E gosto do corpo das mulheres que é coisa feita para ser amada com sabedoria e arte tal como gosto do corpo dos homens que é coisa feita para ser devidamente apreciada, quando não degustada.
Por isso, comecei por achar que a doida da Mireille Suzanne Francette Porte, aka Orlan, estava a ser um bocadinho tendenciosa ao achar que a guerra tem origem no sexo masculino. Mas depois, pensando um pouco melhor, ocorreu-me que os senhores da guerra são homens (La Palice não diria melhor), que as guerras têm geralmente origem em burrices, coisa de testosterona a embebedar os neurónios. Pensei em várias guerras e percebi que é coisa de pirraças, de basófias, macacadas de gente metida a besta, ou seja, coisa tipicamente masculina. E os homens que me perdoem pois tenho até carinho pela raça. Mas é um facto: é raça dada a burrices inenarráveis.
Ocorreu-me agora que o PAN ou a PETA não querem que a gente metaforize com animais. Burrice é coisa que, a partir de agora ofende os burros. Portanto, deleto as burrices e, não podendo substituir por cavalices ou macacadas, direi que a raça masculina é dada a palhaçadas. Também sem ofensa para os palhaços.
Mas, pronto, aqui fica a obra: 'A origem da guerra'. Não sei se foi ela que fotografou o guerreiro ou se apenas o pôs entre lençóis para fazer pendant com a senhora lá mais acima. Não interessa, teve a ideia.
Há hábitos que se arreigam de tal forma que os nossos conceitos estéticos se formatam inconscientemente para incorporar aquilo que já nos parece natural.
Os pêlos das mulheres são aquele tabu que, quando é quebrado, nos causam alguma estranheza. E digo estranheza para não dizer relutância, incómodo. Nas axilas, nas pernas. Se calhar, daqui por algum tempo já acontece também isso com os homens. Quando ouço algumas jovens mulheres falarem quase com asco dos pêlos masculinos fico espantada. Dantes essa repugnância era apenas reservada para as mulheres que, ao levantarem o braço, deixavam ver pêlos nunca imaginados.
Lembro-me de quando era jovem adolescente e me apareceram os pêlos. Não era muito peluda e os pelos eram claros mas, para mim, eram um horror. Quando nos juntávamos em grupo para irmos à praia, eu não conseguia admitir a possibilidade de me apresentar com um único pêlo à vista. Se por acaso não conseguia ter tempo de os tirar, em especial os das pernas, quase preferia não ir. Ir com meia dúzia de pêlos claros e ralos à vista, isso é que não. E, se ia, ia incomodada, quase inibida -- apesar de ser mais do que óbvio que ninguém daria por eles. Mas, para mim, era como se toda a gente não pudesse deixar de reparar e, por isso, ficasse forçosamente com má impressão de mim..
Claro que hoje já não sou tão fundamentalista. Também era só o que faltava. Mas não consigo usar cavas se não estiver escrupulosamente depilada nas axilas. Vejo imagens da filha da Madonna e acho feio.
Mas, de facto, pensando bem: que mal pode haver numa mulher apresentar-se no seu estado natural? Nenhum. Mas a formatação cerebral é um espartilho tramado. Não há pior do que isso.
Apesar da mulher se apresentar peluda, o vídeo abaixo é muito bonito.
The Art of Change: Feminism // A Prickly Subject de Helen Plumb
Estive a passar fotografias para o computador e revi, com este meu encantamento que, racionalmente, chego a pensar que é quase pueril, aquelas múltiplas camadas de muitos verdes, aquelas súbitas flores encarnadas, a luz irrompendo por entre a folhagem, as cores que me trazem a memória dos perfumes quentes do campo ao meio dia.
Penso muitas vezes: será que podia mesmo passar in heaven o resto da minha vida, todos os dias, no meio das árvores, como um bicho, progressivamente melhor adaptada às estações, capaz de andar à chuva, ao sol, ao vento, capaz de distinguir os sinais da natureza, de identificar os sons e os calores, de subir descalça as barreiras de pedra, de comer os frutos e as folhas, de ser aceite pelos outros animais?
Não sei. Penso que teria sempre que intercalar com uma ida até ao mar ou até às margens dos rios, até às livrarias, até às ruas cheias de gente. Depois mergulharia de novo nos acolhedores e perfumados verdes, passando as minhas mãos agradecidas pelas flores, pelos troncos das árvores, pela terra.
Tinha pensado escolher algumas para aqui as ter, imagens capturadas momentos antes do céu enegrecer e soltar rasgadas chispas pelos céus. Talvez a das flores que nascem, rosadas, solares e elegantes, por entre as folhas secas. Ou as que, mais à frente, à sombra, nascem subtis e azuladas entre folhas verdes. Ou outras.
Mas a indolência tomou conta de mim. Apeteceu-me sentir uma ventoinha fazendo fresco na minha direcção. Liguei-a. Estou bem assim. Entre o meio sono, a meia consciência e a meia preguiça -- que, bem sei, juntas ultrapassam a unidade e está certo pois é como se um véu de macieza me envolvesse e, de certa forma, me moldasse, já fazendo parte de mim -- pus-me a ler um dos livros que agora aqui me acompanha. O acaso guia as minhas mãos que abrem o livro ao acaso e que, a cada vez, me traz uma mensagem que vejo como dirigida a mim.
Transcrevo um pouco:
Lavorare Stanca é o título de um livro. Significa trabalhar cansa.
Mestre José de Almada Negreiros costumava colocar-se nessa convicção de um modo um pouco mais agressivo. Dizia ele que "quem trabalha como uma besta não passa, evidentemente, de uma besta". (...)
O povo meteu num provérbio esta paz de consciência e de corpo: "Não é por muito madrugar que amanhece mais cedo."
O que a população deveria arrojar, em vez de tantos gestos, de tantas obras (que depois se obriga a desarrojar) seria ficar quieta, olhando à volta, ou em frente, que ainda cansa menos. Veria inumeráveis espectáculos que, com tanto entusiasmo trabalhador, lhe passam fora e longe. Veria as estações do ano, por exemplo.(...)
Pois. Tenho pela frente uma semana durante a qual não vou ver as estações do ano e durante a qual trabalharei como uma besta. Chegarei ao fim dos dias exausta, com a sensação de me ter gasto toda em urgências à toa e de nada restar dentro de mim. Talvez, com sorte, sobrem algumas exangues palavras que jogarei ao vento e que, com sorte, se enlaçarão noutras palavras.
Mas isso é durante a semana. Agora, apesar de já ser segunda-feira, ainda me sinto em fim-de-semana. Por isso, vou, uma vez mais, laurear por aí, procurar pequenos nadas que façam prolongar um pouco mais a sensação de descanso e despreocupação.
De novo, o Youtube tem um teste de personalidade para me entreter. Desta vez vai descobrir se sou mais masculina que feminina, se mais feminina que masclina ou se estou in between.
Penso, antes de o fazer: sou mulher da cabeça aos pés. Mas a verdade é que me sinto muito bem entre homens. Quase prefiro estar entre homens do que entre mulheres. No outro dia fui visitar uma empresa. Só homens na reunião e na visita às instalações. Depois fomos almoçar: só homens e eu. Não me senti nem um pouco deslocada. Outro dia, uma reunião, uma larga maioria de homens. No fim, diz o meu congénere alemão: uma surpresa ter do outro lado uma mulher, nestas empresas e nestas funções é muito raro encontrar-se uma mulher. Bem o sei. Mas, nestas situações, o género não é coisa que me ocorra. Sinto-me em casa. Dirigir reuniões, mesmo que complicadas, mesmo que só com homens, não me deixa desconfortável. Por isso, será que tenho um lado masculino que se traveste de mulher?
Então, vamos lá fazer o teste. Escolher decorações, maneiras de fazer a mala antes de viagens, escolher filmes, escolher reacções, escolher cores. Convém não perder muito tempo, é responder à primeira. Não esquecer que isto não é nem pretende ser rocket science. Quanto muito, caso não se saiba a que eles se referem ou não se conheça o significado de algumas palavras, alguma pesquisa lateral mas, de resto, fazer na boa. Eu fi-lo sempre a abrir, na base do whatever -- que é das melhores bases que há (logo a seguir à decimal).
Depois de terem feito o vosso teste, já vos digo o que me deu.
Atenção: é preciso tomar notas e fazer uma continha no fim. Eu usei o excel mas, para quem não esteja à vontade, um papelinho e um lápis, serve bem.
Pronto. Espero que não tenham tido uma revelação que vos convide a sairem do armário.
Pois bem. No meu caso deu uma coisa que, na volta, se calhar até era expectável. Meio, meio. O que, segundo a explicação, vivo no melhor dos mundos, significando isso que, no trabalho, sou focada e racional como os homens costumam ser e, no resto, apaixono-me e faço coisas espontâneas a toda a hora o que, segundo quem o diz, deve ser coisa de mulher.
E eu o que concluo é que quem elaborou o teste e escreveu as conclusões está mas é cheio de preconceitos e de teias de aranha no sótão. Coisa mais parva e machista, credo.
Ora vejam bem:
If your masculine and feminine halves take turns driving you, you’ve got the best of both worlds. You can keep your head straight and follow strict logic at work, then fall in love and do something spontaneous the next day.
Como já tenho dito, os meus Leitores são de uma simpatia a que lamentavelmente não tenho como corresponder. Não consigo agradecer ou retribuir a gentileza com que me agraciam, diariamente, enviando-me coisas engraçadas ou que dão que pensar ou, de quando em vez, belos e sensuais poemas. Ou é o sono que me faz vergar quando aqui à noite tento seleccionar alguns dos presentes recebidos para lhes dar algum enquadramento ou, outras vezes, venho com algumas em mente para aqui escrever e acaba por não se proporcionar divulgar o muito que recebo. Que me desculpem aqueles a quem não me sobra energia para agradecer directa ou indirectamente.
Mas hoje deu-me para isto. Se no post abaixo já partilhei convosco um dispositivo que é um achado (por permitir encher um copo de vinho com uma rapidez e limpeza que só vistas), agora permitam-me uma incursão por dois lugares comuns: que os homens são uns totós que nem sabem apreciar as beldades que têm em casa ou que as mulheres arranjam todos os pretextos para fugir ao truca-truca. Mitos urbanos. Ortodoxias. Não acredito nem num nem noutro como regra geral, tal como, já agora, não concordo que os dois livros fundamentais sejam a Biblia e o Kamasutra. Ainda não li um nem outro e não sinto que as paredes do meu edifício intelectual estejam mais frágeis por me faltarem tais alicerces. Poderão os eruditas e eremitas desta vida sorrir com desdém e dizer que não admira já que o meu edifício intelectual não passa de uma palhota ou de uma tenda de campismo. Seja. Tá-se bem numa ou noutra e, ademais, não sou esquisita nem exigente. E acredito piamente no oposto do que os dois vídeos insinuam. Claro que isso pode acontecer por eu ser de vistas curtas e não ver o que toda a gente topa à légua. Pois que seja também. Mas, também aqui, tá-se bem vendo o mundo sob a lente impressionista.
Mas, pronto, adiante que se faz tarde e saiam os dois vídeos.
Não sou feminista a ponto de achar que as mulheres são melhores que os homens ou que passam bem sem eles.
Eu acho que não somos melhores. Nem melhores, nem piores.
E não acho que passemos bem sem eles. Quer dizer: se não os houver, paciência, lá terá que ser. Mas, havendo-os, há que não desprezar. Dão sempre jeito.
A mim, pelo menos, dão. Não sei mudar pneu nem ver a pressão, não sei onde se abre o capot do carro e, mesmo que o abrisse, ficaria a olhar como boi para palácio. Também não me dá jeito pôr a lavar o carro na estação de serviço. Nem me dá jeito o berbequim. Pregar prego ainda vá. Mas usar broca, escolher bucha... não tenho sabedoria para tal. E tentei usar a serra eléctrica e aquilo escorregou no tronco e não cortou. Desentupir o sifão também nunca fiz. Quando se monta um candeeiro de tecto, também seria incapaz de juntar os fios e aquela caixinha pequenina (acho que se chama de derivação).
Coisas assim, por exemplo.
E já uma vez o contei e conto de novo para mostrar outro aspecto da valia dos homens.
Um dia, à noite, desci uma rua estreita que tinha carros estacionados dos dois lados. Quando cheguei ao fim, para entrar na avenida, vi que que estava em obras, cortada. Devia ter sinal com aviso no início e, àquela hora, doida para chegar em casa, nem tinha reparado. Fiquei logo atrapalhada. Não tinha espaço para fazer inversão de marcha. Resolvi enveredar pela mais difícil missão: vir de marcha atrás numa rua estreita, a subir, e com uma curva de cotovelo pelo meio. Uma coisa pavorosa. Afastava-me dos carros da esquerda, ficava quase a roçar nos da direita, desviava-me destes e logo fazia tangentes aos outros. E quando estava a ponto de desistir, chamar um táxi e deixar o carro no meio da rua, aconteceu o pior: um carro a vir na minha direcção, também a descer a rua. Fiquei para morrer. O outro carro fez o óbvio: pôs-se também de marcha atrás e ficou à espera no topo da rua, onde a rua alargava. Pior um pouco.
Não pode acontecer nada que me atrofie mais do que estar atrapalhada com alguma coisa a nível de condução e ver que os outros estão à minha espera. Aí a nabice cresce exponencialmente.
Imaginava o pratinho que ele estaria a gozar: uma naba a vir de marcha-atrás, aos zigue-zagues, devagarinho, devagarinho. Pensei: nunca mais vai ser sábado, uma vergonha. Então, tomei uma decisão drástica. Saí do carro, pus-me a pé rua acima e fui ter com o homem que estava no carro. 'Olhe, faça-me um favor. Traga-me o carro até cá acima.' E dei-lhe a chave para a mão. O homem saíu do carro, apalermado. Era um homem que não tinha aspecto de executivo, digamos que proleta do mais proleta que há e em fim de jornada, numa carripana a cair de madura. O homem hesitava. Insisti: 'Não me ajeito. Se ficar à espera que eu chegue cá acima, vai ter que esperar muito. Fico-lhe agradecida'. O homem estava banzado. Eu, de saltinho alto, toda nove horas, num carro todo dez horas, e a passar-lhe a chave para as mãos. Ainda me assaltou a ideia peregrina: 'Se for esperto, pisga-se no carro e diz que fui eu que lhe pedi'. Mas pensei que o risco valia a pena.
Coitado, lá foi. Fiquei cá em cima à espera. Em dois segundos pôs o carro cá em cima, certinho, direitinho. Sem espinhas. Uma coisa humilhante. Fiquei a pensar que só podia ter a ver com o tal cromossoma. Outra explicação não podia haver. Desconcertado, veio entregar-me a chave. Eu só me apetecia rir. Sentia-me absolutamente ridícula.
Também me acontece vir eu a conduzir com o meu marido ao lado e ter que estacionar. Se passo por um lugar paralelo ao passeio em que só cabe um carro, faço de conta que não vejo. Se houver lugar para dois ou três, tudo bem, vai de frente. Mas, à justa e com ele ao lado, é complicado. Ele insiste. 'Estaciona. Faz como eu te digo. Chega-te à frente. Vira o volante. Não. Mais. Não, para o outro lado. Desfaz. Já, todo. Não! Para ao outro lado.' Aí desisto. Nessa altura já a porcaria do carro está quase perpendicular em relação ao passeio ou a galgá-lo. Obviamente, largo o carro. Não lhe resta outro remédio senão sair também ele e ir para o volante. E, então, para minha surpresa, de uma penada, chega o carro à frente, ajeita o volante e, à primeira, põe o carro no sítio. Uma coisa que não se percebe. Só o tal cromossoma pode explicar tal coisa.
Isto para dizer que, de facto, os homens têm alguma serventia.
Veja-se o vídeo abaixo que Leitor, a quem daqui agradeço, me enviou. Confirma a aptidão natural que os homens têm para tarefas elementares. Falham é nas coisas complexas mas, enfim, isso agora não é para aqui chamado.
Mas, no que se refere ao vídeo, vou já avisando os homens: nada de risinhos irónicos ou boquinhas foleiras, ok?
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Mas, recapitulando, tirando coisecas destas, as mulheres têm muito brain e muito power.
Viramos o mundo do avesso, se necessário for. E a cabeça dos homens, então, nem se fala.
O título da crónica chama pela gente. Nem sempre leio o que a Fernanda Câncio escreve mas desta vez li.
O tema não é linear. Já algumas vezes falei sobre ele mas isso não significa que tenha ideias feitas sobre o assunto ou que consiga reduzir a meia dúzia de mandamentos o que há a saber sobre o tema. Longe disso. Há as subtilezas de que Fernanda fala, as do desejo e da sedução, os pudores que nascem das incertezas, do respeito ou do receio, os interditos, os mistérios, o que não se diz mas que se deixa perceber. Felizes são os que sabem descodificar os intangíveis sinais.
Não falo de violações, não falo de sexo forçado, não falo de sexo como abuso de poder. Isso é inequívoco, crime sob qualquer perspectiva. Falo de outra coisa. Falo do que é mesmo assim, avanços, recuos, vontades confessadas ou inconfessáveis, terreno que se pisa sem guião, desacertos, passos em falso, riscos que se correm.
[Ou não. Vidas que nunca chegam a convergir porque alguém não ousou no momento certo.]
Mas passo ao texto de Fernanda Câncio, transcrevendo alguns excertos (a imagem é escolha minha, não dela):
(...) Homens despedidos de séries, ostracizados no métier, retirados de listas de candidatos a prémios. Vou dizer uma coisa que já disse várias vezes sobre isto mas que já fui várias vezes acusada de nunca ter dito (sucede-me muito, e o contrário também): não suporto linchamentos. De nenhum tipo. Não gosto daquilo a que os anglófonos chamam "saltar para as conclusões". Não gosto de ir nas correntes. (...)
Mas há também, claro, casos como o de Aziz Ansari, acusado por uma mulher que mantém o anonimato de ter insistido em ter sexo com ela durante um encontro, apesar de ela lhe ter dado a entender que (já) não estava nessa. Apontado como exemplo da histeria acusatória do #metoo e denunciado como contraproducente numa série de artigos irritados de mulheres feministas que certificam que nada do descrito pela narradora constitui assédio, obrigou-me a pensar.(...)
Ora é precisamente porque nas relações íntimas as coisas se passam com subtileza, sem papéis assinados nem certidões, porque o desejo é algo de fluído, misterioso e inconstante e o que queremos ou julgamos querer num momento pode mudar no seguinte, e também porque vivemos num quadro cultural de ascendente dos homens sobre as mulheres do qual faz parte - não dá para negar isso, certo? -- a ameaça da violência masculina, que o caso Ansari, ao invés de ser uma prova da alegada histeria do #metoo, é um tão excelente ponto de partida para a nossa conversa. Vamos falar, meus senhores?
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Sobre o tema lembro-me muitas vezes de um dos filmes que me marcou. A condenação de Marco Bellocchio. La Condanna. The conviction. Filme inteligente. Filme que sabe como lidar com as subtilezas. Mereceria um debate.
Enquanto o debate não é feito -- o debate sério, verdadeiro, olhos nos olhos, um debate que reproduza a verdade escondida, as mentiras expostas, os subentendidos, o não que quer dizer sim, o sim que quer dizer talvez, o talvez que quer dizer que alguém vai ter que descobrir --
e se calhar esse debate não é feito porque, simplesmente, não pode ser feito pois talvez os segredos da alma ou os avanços titubeantes ou falsamente seguros não possam ser expostos à crua luz da realidade e da intriga
deixem que vá parodiando o exagero e a acefalia que, aqui e ali, me parece ir tomando conta da conversa.
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É que, parece que respondendo ao apelo da Fernanda Câncio, já fomos surpreendidos com os testemunhos de dois briosos e viris cavalheiros
Houve um [homem que me assediou], mas eu não posso dizer, já faleceu. Assediou-me uma vez. Eu estava no meu quarto, tínhamos ido a Inglaterra, num grupo de cantores, fazer uma digressão para a emigração. De repente, há um colega que me bate à porta e eu estava a fazer a barba em tronco nu. Eu era muito atlético e ele diz-me assim: 'Sabes, é de homens como tu, muito musculados e com pelo, que eu gosto! 'E eu disse-lhe: 'Pois, olha, esquece e deixa-me fazer a barba em paz'", conta. "Só posso dizer que era um fadista"
E Bruno Maçães, outro garboso machão, publicou um livro depois de ter andado durante seis meses na passeata. Quando lhe perguntam se conheceu gente importante, respondeu com aquela sua famosa ingenuidade (que alguns mal-intencionados confundem com burrice):
Há um arqueólogo russo que, sem ser um Indiana Jones, tem um certo elemento de mistério e de aventura; há um agente secreto russo, com quem passei um dia inteiro a ser entrevistado. Foi possível aprender mais sobre a Rússia do que a ler 20 livros. Há uma professora de mitologia e agente de moda que talvez me tenha dado as melhores explicações sobre as diferenças entre a Europa e a Ásia, e estão citadas no livro.
E outra. Este anónimo, creio eu. Um adepto do PS, parece que tem pensamentos estranhos depois de ver um outro elemento do meio artístico nacional, o pimbérrimo Bruno de Carvalho que, diga-se em abono da verdade, tira qualquer um/a do sério:
Por breves momentos, e ainda quando decorria o discurso do máximo dirigente leonino, surgiu a seguinte frase no Twitter do PS: "Assustador: Eu não sou daqueles que dorme com um olho aberto. Eu quando durmo tenho os três olhos fechados", lia-se.
O tweet foi de pronto apagado e levou mesmo a um pedido de desculpas por parte do Partido Socialista: "Por lapso, foi publicado nesta conta um twett que se pretendia publicar numa conta pessoal. O PS pede desculpas ao Sporting Clube de Portugal, aos seus adeptos e ao seu presidente", revelaram
Portanto, parece que começamos a assistir ao coming out dos homens. Que venha ele. Contem-nos tudo.
Quem vos assediou? Fadistas? Forcados? A artista Vasconcelos? A Santa Mana?
Quem vos apetece assediar? A falsa taróloga Teodora Cardoso? A sensível Teresa Guilherme? O valentão Super Judge Alex? Os pavilhões auditivos do escritor José Rodrigues dos Santos? O reservado Desembargador Dâmaso?
Contem-nos. Contem tudo. Cá estaremos para vos ouvir. Nada de titubeações. Vá. Sem medo. São capazes. #YouToo
Eu -- mulher livre que não admitiria que um qualquer parvalhão pousasse em si o peso da uma lascívia abusadora e indesejada e que não se sente bem em alinhar-se acefalamente com carneiros de qualquer espécie, nem amorais nem moralistas -- olho de lado para o coro de mulheres que vem, alegremente, liquidando a reputação de homens atrás de homens na praça pública.
Se defendo o direito ao contraditório e à defesa do bom nome, não consigo fazer coro com quem lança ofensivas na praça pública, queimando de imediado o homem a quem apontaram a arma da denúncia.
Só para que se possa ver mais do que um lado da questão, transcrevo o que acabei de ler na Bula da autoria de Edson Aran. As fotografias são de minha escolha e mostram personagens ou momentos de filmes de Woody Allen. A música que escolhi também foi minha opção e talvez apenas porque sim, o que é um motivo tão bom como outro qualquer.
Note-se: não estou, com isto, a dizer que estou a tomar partido por A ou por B, estou simplesmente a dizer que não tenho condições ou conhecimento exacto dos factos e das circunstâncias para crucificar ou defender uns ou outros.
Em dezembro de 2017, a revista americana The Hollywood Reporter publicou um textão da crítica de cinema Miriam Bale no qual ela conta, orgulhosa, que nunca mais verá um filme de Woody Allen na vida. Esse tipo de atitude jamais daria certo em outra área do jornalismo. “Sou torcedor do Corinthians e não assisto mais jogo do Palmeiras, valeu, chefia?!” Demissão, né?
No entanto, no mundo festivo do jornalismo cultural, o mimimi infantiloide da moça foi legitimado pela “The Hollywood Reporter” e diversas outras revistas e jornais que reproduziram o chorume sem qualquer ponderação.
No dia 4 de janeiro foi a vez do Washington Post publicar um ensaio rasteiro de um tal Richard Morgan (who?), que revira arquivos do diretor (projetos não filmados, anotações etc) para formular a tese de que toda obra de Allen gira em torno da “mulher objetificada pelo homem”. A Ilustrada republicou o texto.
“Zelig” não é isso. “A Rosa Púrpura do Cairo” não é isso. “Crimes e Pecados”, “Memórias”, “Celebridades”, “Annie Hall”. Nada disso é isso. Mas certamente Morgan, como Miriam Bale, não se deu ao trabalho de ir ao cinema antes de batucar no teclado.
Woody Allen e Mia Farrow ficaram juntos por 12 anos. O fim do relacionamento foi dramático. Allen se comportou como um dos seus personagens inconsequentes e trocou Mia por Soon Yi-Previn, filha adotiva da atriz com o ex-marido dela, André Previn. Foi só o começo da baixaria.
Moses Farrow, filho adotivo de Allen e Mia, ficou do lado do pai. Ronan Farrow, filho legítimo do casal, ficou do lado da mãe. Ronan, jornalista do “The New York Times”, tornou pública a denúncia de Dylan Farrow, outra filha adotiva do casal, que afirma ter sido molestada por Allen quando tinha 7 anos. O diretor argumenta que Dylan foi manipulada por Mia e Ronan para inventar a história. O filho Moses concorda com ele. Mia Farrow, por sua vez, também sugeriu que Ronan não é filho de Woody Allen, mas sim de Frank Sinatra, com quem ela foi casada nos anos 1960 e sempre manteve relação próxima.
Alguns dos mais brilhantes filmes de Woody Allen e Mia Farrow foram resultado da parceria entre eles. É uma pena que a relação dos dois tenha virado uma novela vagabunda e esteja de novo na mídia, catapultada pelas recentes denúncias de assédio sexual em Hollywood. É preciso lembrar, no entanto, que o “Caso Woody Allen” é completamente diferente da historia de Harvey Weinstein, por exemplo. O produtor usava o poder para constranger atrizes a fazer sexo com ele. Isso é criminoso. Já Allen, até onde se sabe, nunca fez nada parecido. O repúdio a ele nasce das alegações de Mia Farrow por conta da separação.
A atriz Mira Sorvino escreveu carta lamentando ter trabalhado com o diretor em “Poderosa Afrodite”, que deu a ela o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante. Greta Gerwig (“Para Roma com amor”) fez o mesmo e Rebecca Hall (“Vicky Cristina Barcelona”, indicada ao Globo de Ouro de Melhor Atriz Coadjuvante pelo filme) seguiu o exemplo. Muitas outras foram atrás.
Em 26 de janeiro, o musical “Tiros na Broadway” foi cancelado em Nova York. Em 28 de janeiro, o New York Times fez artigo declarando que a carreira de Woody Allen está acabada. A Ilustrada reproduziu o texto. Já não se trata mais de denúncia, isso já ficou para trás. O que existe agora é uma campanha organizada para que o diretor nunca mais consiga filmar.
A crítica de cinema Miriam Bale, assim o ensaísta Richard Morgan, têm todo o direito de se comportarem como noveleiros e torcer pelo personagem favorito deles na trama. O que não podem, penso, é destruir a obra do diretor e serem aplaudidos por uma mídia que deveria ser mais responsável.
Mas a verdade é o que “The Hollywood Reporter” nunca foi responsável. A publicação praticamente iniciou o “macarthismo” em 1946, quando listou 11 comunistas que deveriam ser expulsos de Hollywood. Entre os denunciados estava o celebrado roteirista Dalton Trumbo. Foi essa lista que incentivou o senador republicano Joseph McCarthy a iniciar uma “cruzada” para banir os socialistas da indústria do cinema.
O movimento feminista #MeToo, que começou com os mais nobres objetivos, evoluiu rapidamente para algo muito semelhante ao macarthismo. E não sou eu quem está dizendo isso. Alec Baldwin e Liam Neeson já falaram a mesma coisa. Catherine Deneuve e Brigite Bardot também.
Multidões de linchadores nunca estão com a razão. Jamais. Em hipótese alguma. Isso é básico numa sociedade civilizada. Mas a mídia, que deveria interditar a barbárie, é a primeira a fazer festinha pra ela. E depois ninguém sabe porque revistas e jornais agonizam.
Eu, de minha parte, vou continuar vendo tudo o que Woody Allen dirigir e escrever. Um dos maiores cineastas da história tem muito mais a me dizer que a revista “The Hollywood Reporter”.
Na verdade, ele tem muito mais a dizer do que a maioria do jornalismo cultural produzido no mundo (o mundo inclui o Brasil).
Da mesma forma como -- e já aqui falei disso -- mais facilmente me punha ao lado das prostitutas do que das 'mães de Bragança', também agora, intuitivamente, me sinto mais próxima da Catherine Deneuve e outras do que das Oprahs Winfreys desta vida.
E, no entanto, não apenas não li qualquer dos manifestos como nem reflecti muito sobre o tema. É mesmo uma questão de intuição (ou genética, coisa cá da minha maneira de ser). Aliás, acho que nem é bem uma coisa nem outra, nem intuição nem genética, mas está a faltar-me a palavra certa. Mas é qualquer coisa nesta base.
Sobre este tema, várias vezes tenho pensado: trabalhando desde menina e moça em empresas maioritariamente masculinas, alguma vez fui assediada? Que me lembre não. E na rua? Que me lembre também não.
No outro dia, o meu marido, a propósito de uma que na televisão se insurgia sobre o facto de em Portugal nenhuma mulher se ter chegado à frente a acusar alguém, dizia, na brincadeira: 'A ela, de certeza, nenhum homem assediava, até para não ficar mal visto perante os outros homens'. Afirmação politicamente incorrecta, nos tempos que correm. E, no entanto, eu ri-me.
Penso nos piropos e graças que ouvi ao longo da minha vida e não tenho dúvida de que alegraram e apimentaram os meus dias. Desde os mais inteligentes e sofisticados até aos mais brejeiros, não me lembro de alguma vez me ter sentido verdadeiramente incomodada. Lembro-me, sim, de, em tempos idos, em autocarros apinhados, ter sentido homens parvos encostarem-se ou apalparem-me e eu me virar para eles e dizer: 'Agradeço que se afaste porque me está a incomodar', deixando-os aparvalhados, envergonhados. Lembro-me que um, uma vez, se armou em ordinário e desatou a ripostar, tendo-lhe eu dito que se calasse e tivesse vergonha. Portanto, quando saía do autocarro vinha até satisfeita com a sensação de ter posto na ordem um parvalhão.
Lembro-me também de, ao passar na rua, ouvir indecências e de fazer de conta que não ouvia ou, pelo contrário, olhar com ar interrogador, deixando os cobardolas atrapalhados.
Mas assédio, por exemplo, no trabalho, nunca. Nem nunca nada de parecido se proporcionou. Desde sempre a única mulher a chegar a um cargo de direcção, e tinha apenas trinta e um anos quando isso aconteceu, sempre me senti respeitada e nunca a nenhum passou pela cabeça ousar pisar o risco.
Lembro-me de uma colega que, insegura e psicologicamente algo frágil (embora aparentando o contrário), confidenciava que um qualquer lhe fazia convites ousados, dizendo ela que cedia pois percebia que, se não aceitasse, ficaria prejudicada. Sempre achei isso uma ficção da parte dela pois assistia à atitude a priori permissiva da parte dela e à forma até cautelosa como ele se aventurava.
E já aqui contei algumas vezes. Tempos houve, trabalhando eu uma grande empresa, em que havia em permanência casos e mais casos. Uma festa. A minha secretária tinha um caso com o meu melhor amigo, outro meu amigo tinha um caso com uma estagiária, um colaborador meu tinha um caso com a secretária do presidente, outro colega tinha casos com umas atrás de outras (e, como contei há pouco tempo, foi apanhado em pleno acto em cima da mesa de reuniões do gabinete um dia em que ficou até mais tarde), o vice-presidente tinha um caso com a contabilista. Etc., etc. Tantos casos que nem dá para acreditar. Alguns destes casos acabaram, outros deram em casório ou união de facto. Antes de serem casos, havia a fase da sedução. Assédio? Não direi. Melhor: nunca vi vestígios disso. Sedução, isso sim. Assisti de perto a muitos destes casos. A minha secretária, por exemplo, que andava de brincadeirinha com o meu colega (casadíssimo) e ele com ela, queixava-se-me uma vez: 'Muita conversa, muita conversa... mas passar à acção está quieto...'. Até que um dia, na sequência de um jantar de despedida de outro colega, a coisa se deu. No dia seguinte, descreveu-me ela como finalmente lá o tinha conseguido levar para casa. E eu parva com aquilo, ele tão apenas brincalhão e tão amigo da mulher, e ela, contrarando-me: 'Sim, sim... Pois olhe que não... Muito bem, lhe digo eu'. E um ar aprovador sobre a performance dele.
Ou seja, no meio daquele forrobodó (e estou a falar de uma grande empresa, moderna, produtiva, rentável), nunca vi nada que se parecesse com assédio ou sexo forçado ou moléstia de algum tipo.
E falo no passado mas poderia falar no presente. Mas menos, muito menos. Não sei porquê mas parece que há menos hormonas em circulação. Casos assim, às claras, no puro descaramento, já vejo muito menos. Piropos malandros ou divertidos também muito menos. Os homens parece que estão a desabituar-se da arte do galanteio. A malandrice com graça pode não ser minimamente ofensiva e trazer divertimento aos dias. Mas parece que é coisa que está a sair de circulação.
Já aqui contei uma que a mim me divertiu imenso e que ainda me faz rir. Por isso, desculpme se me repito. Tinha um colega, muito engraçado e onde a malícia, ainda que inocente, era permanente. Uma vez a minha filha foi visitar-me e levou o que na altura era o seu único filho. Então, uma colega minha foi lá vê-los e, para minha surpresa, disse-me: 'Já ali estive com o avô'. E eu, admiradíssima: 'Com o avô? Mas ela veio sozinha..'. Esclarece, então, ela: 'Estou a falar do Dr. M'. Ri-me mas quase me ofendi: 'Ah, olha o disparate...'. Ao fim do dia, aparece-me ele no gabinete, todo lampeiro. Digo-lhe, toda cheia de repreensão: 'Olha lá... mas estás parvo ou quê...? Então andas a dizer que és o avô da criança...?'. E ele, ar de santinho: 'Mas não disse de quem é que sou pai...'. O que eu me ri a imaginá-lo pai do meu genro... ou seja, a ter um caso com a sogra da minha filha...
Enfim.
Claro que há casos e casos e o que não faltarão serão sabujos e badalhocos que se aproveitam da fragilidade de algumas mulheres vulneráveis. Sei que sim. Por exemplo, estou a lembrar-me que tive um colega, mais velho que eu, que foi criado na Casa Pia pois a mãe, trabalhando como empregada doméstica e tendo engravidado do patrão, não pode ficar com ele nem o pai o perfilhou. Só muito mais tarde, já ele a trabalhar, pode libertar a mãe da sua condição de quase escrava da casa onde trabalhava como interna. Quantos casos destes. Casos e casos. Casos tantas vezes vividos em silêncio, acobertados pelos mais pios usos e costumes, tantas vezes sob o beneplácito da igreja.
Mas aí, mais do que assédio, o que há é abuso sexual ou franco abuso de posição dominante (digamos assim) -- o que nada tem a ver com situações em que, por vezes, as mulheres falam como se fossem umas virgens ofendidas, umas tadinhas que fazem sexo oral contrariadas, umas beatas que ficam melindradas porque ouviram brejeirices e que agora, ao fim de vinte anos, vêm falar disso como se tivessem andado todo esse tempo com o piropo atravessado ou como se nunca tivessem contribuído para a situação em que se envolveram. Menorizam-se as mulheres que se fazem de indefesas e frágeis quando, tantas vezes, aceitaram, interesseiramente, favorecer esse tipo de situações.
Saibam as mulheres, antes, ver-se como iguais em direitos e poderes em relação aos homens, saibam afirmar as suas vontades sem se inferiorizarem, saibam as mulheres gostar de ser mulheres, nomeadamente prezando a sua natural feminilidade, saibam as mulheres apreciar a virilidade masculina e dar valor aos naturais jogos de sedução, saibamos todos apreciar a vida em tudo o que ela tem de bom. E não tentemos moralizar e beatificar tudo, incluindo os sentidos, o humor, a alegria, a malícia, a sedução.
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E eu por mim fico de bom gosto a apanhar a almofada que o malandro do David Gandy está a atirar. Mas, para os meus Leitores mais moralistas que não gostam de ver homens mal comportados, então recomendo que desçam até ao post seguinte para lerem sobre a orelha encarnada do Santana Lopes.
É um facto. Nisto da igualdade dos géneros convém não generalizar. Uma coisa é o direito à igualdade de oportunidades e outra, muito diferente, é fazer tábua rasa das diferenças evidentes entre homem e mulher. E nem estou a referir-me ao óbvio. Isso cada um sabe de si. As mulheres têm maminhas e os homens não? Bem. Não é sempre verdade. Há mulheres que não las têm e há homens que deviam usar under bra. Assim como pode haver homens que têm pirilau mas não o usam e mulheres que não o têm e munem-se de um. Portanto, adiante que nisto de minudências há excepções para todos os gostos e não pretendo aventurar-me por aí.
Refiro-me aqui apenas a coisas muito mais simples: à maneira de ser tipicamente feminina e à maneira de ser muito macho man.
Claro que também aqui poderia embrenhar-me pelas variantes e excepções: homens sensíveis e fofos e mulheres todas duronas e marialvas -- que pode não ser politicamente correcto falar assim deles e delas pero que los hay, los hay.
Exemplifico. Ontem estava atolada no meio do trânsito. Não mexia. E eu sossegadinha a ouvir música. Nisto, o carro da frente andou dois palmos e eu, em piloto automático, avancei o mesmo. E, nessa altura, ouvi ao meu lado uma barulheira de música aos berros e uma flausona, cara de rapper, cabelo curto platinado, toda machona, a gritar na minha direcção: 'Ó madama, és muita mázona. Atão não me queres deixar meter, ó madama? Já tou cheia de medo de ti!'. Eu atónita, tentando perceber a razão de tal desconchavo. Percebi que a dita vinha de lado e que estava a querer meter-se à minha frente. Tinha um carro pequeno, janela aberta e o braço de fora, a gesticular, e a boca escancarada a berrar sobre uma música igualmente escancarada. Ri-me e fiz-lhe sinal para se meter à vontade. Continuou: 'Tens a mania que és boa, ó madama!'. Quando o carro da frente andou mais meio metro, voltei a fazer-lhe sinal, convidando-a a enfiar-se à má fila à minha frente. Com cara de vingadora, não quis. Passado um bocado, ouvi-a a pôr o motor a fazer aceleradelas e a tentar fazer outra chicuelina a outro pacífico condutor. Aquela, notoriamente tinha a testosterona a fervilhar.
Mas eu estava era a referir-me à maneira que as mulheres (as mulheres em geral, dentro da média) têm de gostar dos homens. É uma maneira cheia de subtilezas. As mulheres gostam de ser adivinhadas, convencidas, surpreendidas. Não gostam de ter que ser explícitas. Quando uma mulher tem que ser explícita para o homem a perceber, aí desinteressa-se dele. É um totó, um destituído. No entanto, também não se aguenta um homem melga ou armado em engraçadinho, sempre a querer fazer surpresas bobinhas ou a dizer piadas secas.
Mais: o homem tem que ser uma boa ajuda em casa, claro que sim!, mas também não pode ser mais arrumadinho que a madrinha rezingona que não suporta um grão de pó no móvel ou que vai aos arames com uma toalha torta no toalheiro. E não deve ser um copinho de leite, que essas mariazinhas são de se fugir delas a sete pés, tal como não deve ser um copofónico que isso, credo, é de terror. Deve, sim, saber apreciar um bom vinho, tal como deve saber pegar no copo e deve saber ser didáctico a propósito do tema mas só até ao ponto em que não pareça ser um deslumbrado ou um petulante a precisar de uma belinha.
E tem que gostar de ler mas não ser um maçador cheio de citações. Homem que só fala de livros ou que só sabe falar de música, tal como se só souber falar de futebol, é para esquecer. Pode suportar-se durante um hiato mas ponham hiato nisso. Logo, logo receberá ordem de marcha. Homens mono-interesses são uma seca de primeira. Interessezinhos diversificados, tudo bem temperado de erudição, humor e desconstrução, isso sim.
E quem diz isto, diz muito mais que isto.
Por exemplo. Só se for perfeito sem parecer perfeito, ou elegante sem ser uma maria dondoca, e empático sem ser uma amélia lamechas é que a mulher poderá dar-lhe a hipótese de ser escolhido.
E etc, etc, etc.
E ponham mesmo muitos etcs nisso que a lista de to dos e not to dos é extensa. Eu é não pretendo ser exaustiva.
Mas uma coisa tem que ficar clara: quem escolhe é a mulher mesmo que possa parecer que não. E deve ser como e quando ela quiser (mesmo que faça de conta que não quer ou que tanto lhe dá). E o homem deve ter plena consciência disso embora deva disfarçar, tentando conquistá-la como se acreditasse que tem um poder que obviamente não tem.
Eu sei que muitos leitores (homens, sobretudo) não acham graça nenhuma a poesia. Acharão que poesia é coisa para almas sensíveis e eles, qual quê, são empedernidos, mas empedernidos encartados, de papel passado, com um calhau no meio do peito - um calhau palpitante, é certo, mas isso é só porque tem que bombar o sangue -- e nada de palavrinhas nheco-nheco, só palavras que sirvam para andar à traulitada.
Por isso, esta agora é para eles: um vídeo que devem ouvir com atenção. Ok?
Poema para pessoas compreensivelmente demasiado ocupadas para lerem poesia
Nos Estados Unidos, como tema recorrente dos dias que correm -- para além dos que decorrem da estupidez e do narcisismo permanentemente exibidos por Trump -- há o escândalo que resulta das denúncias em catadupa de mulheres do mundo do cinema sobre o assédio sexual de que foram alvo por parte de um dos maiores produtores de Hollywood.
Harvey Weinstein era o magnata da Academia que financiava generosamente as campanhas eleitorais dos democratas e que era sempre visto na companhia de belas actrizes, uma das quais a sua jovem mulher. Dir-se-ia que era tudo dele.
E, de repente, o céu do seu mundo veio abaixo e não há uma voz que se levante para o defender.
Os casos sucedem-se e o comportamento apresentava um bizarro padrão: parece que convidava as jovens aspirantes às luzes da ribalta a irem até ao seu quarto de hotel, para discutirem aspectos contratuais ou para as aconselhar. Depois aparecia-lhes nu, pedia uma massagem, persuasivo, como se fosse normal. E muitas vezes, com receio de que, se se negassem, o seu sonho de carreira acabasse ali, elas acediam. Falam também de violações. Outras vezes fugiam. Fugiam até de Hollywood. E não o denunciavam pois sentiam vergonha. De alguma forma, sentiam-se envergonhadas, talvez envergonhadas por terem acedido a ir até ao quarto de hotel.
Até que o dique da auto-censura se rompeu e, de repente, todas falam nem que seja para dizerem que se envergonham por não ter falado. O irmão, seu sócio, abandonou-o, a mulher divorciou-se, foi saneado da sua empresa, França vai retirar-lhe a condecoração, os testemunhos sucedem-se, os cartoons gozam-no, a opinião pública despreza-o. O predador Weinstein é agora um bicho acossado. Ser um touro desembolado, um marialva desencabrestado, um fornicador incontinente já não é medalha que se exiba. A sociedade já não gosta de acolher no seu seio homens descompensados que tratam as mulheres como gado pronto para ser coberto.
E eu, vendo este homem, lembrei-me da única vez em que me senti francamente incomodada com a manifestação de interesse por parte de um homem. Penso que já o contei. Das altas instâncias veio a recomendação, oriunda do Ângelo Correia, para que recebêssemos um argelino, importante homem de negócios. Calhou-me a mim fazer as honras da casa.
Na altura, os gabinetes eram muito amplos. O meu tinha bem para cima de trinta metros quadrados, sofás de pele, bons quadros, um belo tapete turco de lã, uma mesa redonda pequena junto à janela, e uma sumptuosa vista sobre o rio.
A minha secretária trouxe-mo: era gigante, forte como um urso. Não gordo mas, todo ele, corpulento. Moreno, cabelos curtos encaracolados. Um homem de aspecto possante. Nitidamente não estava à espera de ser recebido por uma mulher e não escondeu a surpresa. O normal neste mundo é que, quem ocupa lugares destes, seja homem. E, desde o início, não despegou os olhos de mim. De forma insistente, fixava-me. Eu tentava levar a conversa para o que o trazia ali mas dir-se-ia que ele se tinha esquecido disso. Estava-se nas tintas para os seus negócios. Pediu para tirar o casaco. Transpirava. Tinha uma camisa branca sem gravata, aberta em cima. E transpirava como um touro. Limpava a testa impudicamente com um lenço que, por fim, deixava pousado sobre a mesa, quase como se fosse normal fixar uma mulher daquela forma e, enquanto isso, transpirar em bica. Uma coisa desconfortável. Não tirava os olhos de mim mas de uma forma mais do que insistente. E dizia: 'Vous êtes une femme très interessante'. Comecei a querer ver-me livre dele, a dar a conversa por acabada. Mas ele parecia hipnotizado. Levantei-me, liguei para a minha secretária e pedi que me mandasse uma outra colaboradora para me interromper, para inventar uma desculpa qualquer. Passado um bocado ela entrou, chamou-me, disse que estavam á minha espera. Em francês, expliquei-lhe que tinha que dar a nossa reunião por terminada. Ele nem se mexeu. Corpulento, o corpo inclinado na minha direcção. Ela disse-me: 'Credo, parece prestes a saltar-lhe para cima'.
Não me lembro de tudo o mais tive que fazer para correr com o bicho. Fingi sempre que não percebia e tentei falar da empresa, dos produtos e serviços que poderíamos exportar para a Argélia. Pediu-me então que lhe arranjasse amostras. Obviamente não as tinha ali comigo mas disse que lhas arranjava, que esperasse noutra sala que alguém lhas levaria. Que não. E, então, descarado, escreveu o nome do hotel e o número do quarto, queria que eu fosse ter com ele. Respondi taxativamente que não e pu-lo fora do gabinete. Fui até ao elevador, seca, incomodada. Cruzei-me com um colega que ainda o viu com pouca vontade de se enfiar no elevador, especado a olhar para mim e a repetir que eu era uma mulher muito interessante. Mal me vi livre dele, disse a esse meu colega: 'Nunca mais me meto numa destas. Sempre que me apareça mais algum animal destes, ou alguém com origem num país destes, chamo-o para fazer de meu bodyguard'. E assim foi, com marroquinos, sírios e até, uma vez, com um chinês com ar suspeito, eu cravava sempre algum colega para ali estar a fazer figura de corpo presente. E simpáticos, eles acediam sempre a fazer esse papel.
E se isto me aconteceu uma única vez e já foi tão mau, uma sensação tão incómoda, imagino o que é passar por isto numa situação mais confinada, com menos escapatórias.
Por isso, acho muito bem a repercussão que este caso está a ter. Penso que pode ser que tenha um efeito pedagógico não negligenciável na sociedade ainda tão machista. Pode ser que os homenzinhos que se acham muito homens ao assediarem sexualmente as mulheres aprendam que isso já era.