Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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quarta-feira, junho 26, 2019

Apesar das tormentas,
para sempre voamos
século após século no ressalto dos ventos





Há um aspecto nas cidades portuguesas que é muito diferente do que se pode encontrar noutras cidades europeias. Não precisamos de ir muito longe, basta ir aqui ao lado, a Espanha. Se estivermos depois das cinco da tarde na Plaza Colón ouviremos como que um muito sonoro chilreio: são crianças. Montes de crianças. Correm, brincam, chamam umas pelas outras, riem. Grande parte está com as empregadas, grande parte delas da América do Sul. Mas o que verdadeiramente impressiona é a quantidade de crianças. Numa outra cidade espanhola, aquela que prefiro, em minha opinião uma das mais belas cidades euopeias, San Sebastian, a Donostia do País Basco, também, a partir de meio da tarde, as ruas e os jardins estão cheios de crianças, aqui já muitas com os pais e não tanto com as babás como no centro do Madrid. Em Amesterdão, tenho ideia que é ao longo de todo o dia que se vêem jovens mães ou pais com crianças nas bicicletas. Tantas crianças.

Por cá, durante a semana, pouco se vêem. Não apenas não há muitas crianças como as poucas que há têm que ficar nas escolas até tarde já que os pobres pais têm que trabalhar até tarde e, depois, enfrentar longos e demorados percursos, presos no trânsito.


Se há aspecto francamente descurado por todos os governos, incluindo pelo da geringonça, é o demografia. É certo que tem havido uma ou outra medida mas, reconheçamos, nada que seja efectivo, tudo muito em ponto pequeno, medidas desgarradas, timoratas. E, por isso, não espanta que os resultados sejam tão desoladoramente incipientes.

Uma das filhas da senhora que vai ajudar a minha mãe a tratar do meu pai vive na Alemanha e tem duas filhas pequenas. As licenças de maternidade são extensas, os horários são reduzidos enquanto as crianças são pequenas, o ensino é completamente gratuito, incluindo todo o material escolar, e nem sei que outros apoios tem, pois, volta e meia, quando me contam, fico tão admirada que acabo por não fixar, quase como se fosse uma quimera em que nem vale a pena pensar. Apesar de não ter um emprego por aí além e de ser emigrante, ela não teve qualquer problema em ter uma criança e, pouco tempo depois, uma outra. E quando fala com a mãe, via Skype, está fresca e bem disposta, nunca se queixando de nada.


Um país com muitas crianças é um país com futuro, em que a população pode viver tranquilamente, encarando o futuro com tranquilidade, sem o peso do receio de uma possível falência de sistemas de segurança social. Em países como Portugal, em que há cada vez menos pessoas a entrar como novos contribuintes para um sistema repleto de idosos que vivem cada vez até mais tarde, paira sempre sobre o pescoço, em especial dos que caminham para a madura idade, o receio de que o cutelo do corte das pensões empobreça a sua velhice.

Por isso, é vital que se reforcem todos os apoios ao incremento da natalidade, e que se seja criativo, arrojado, que se tenha uma visão abrangente -- que haja subsídios de apoio ou redução fiscal (o que for mais eficaz) para famílias com crianças, que haja infantários e escolas públicas, obviamente gratuitas, com actividades e horários alargados e funcionando todos os meses do ano, que haja amplo apoio pediátrico, que se reduzam os horários para pais com filhos até aos doze anos, que se fomente o teletrabalho, que haja uns quantos dias para ausências para que os pais possam acompanhar os filhos, que haja também alguns dias para avós que tenham que prestar apoio aos netos.

E estou a escrever ao correr da pena. Mas que se abra um debate público, que se faça um inquérito junto de jovens pais para saber quais as suas dificuldades e outro junto dos que não têm filhos para saber o que receiam.

Dir-me-ão que receiam os ordenados baixos o desemprego. Claro. Mas isso combate-se com uma economia pujante -- e é outro lado da equação. 

E não é apenas para a sustentabilidade dos sistemas contributivos que é indispensável ter um equilíbrio demográfico: é também porque cidades sem crianças pequenas e sem jovens irreverentes são cidades soturnas, tristes. E, quem diz cidades, diz vilas ou aldeias.

E, enquanto não estejam no terreno todas essas medidas e que comecem a produzir efeito, pois que se incentive a imigração.

E aceitem-se miúdos de países em risco, famílias de refugiados com filhos pequenos. E 'importem-se', por exemplo, médicos e enfermeiros.
Não os há que cheguem nos hospitais porque cada vez há mais clínicas e hospitais mas as Faculdades de Medicina são basicamente as mesmas. Como é que os médicos e enfermeiros hão-de ser suficientes? Não são, claro. Mas não é drama: incentive-se a vinda de médicos de outros países. 
Ou engenheiros informáticos, que estão também em falta. Ou engenheiros de ambiente, engenheiros sanitários, engenheiros de materiais, ou físicos ou bioquímicos, ou gente que venha investigar seja o que for. Muita falta nos fazem.  Todos os que cá tivermos serão sempre poucos.

E, já agora: uma vez que começam a rarear muitas profissões, criem-se muito mais escolas técnico-profissionais onde se ensine a ser electricista, canalizador, mecânico, instrumentista, torneiro, etc, para ter oferta diversificada a nível de ensino, incluindo para jovens que não querem fazer cursos superiores.

E outra coisa. Uma muito importante.

Estou a falar de algo que, em meu entender, é vital nas cidades para lhes dar vida, uma vida jubilosa, uma vida com irrequietude de espírito, alegria e criatividade: a arte.

Uma vez escrevi uma carta ao presidente da autarquia com um conjunto de sugestões: que enchesse as ruas de arte, que oferecesse prémios e bolsas para artistas que fizessem trabalhos para a cidade, que tivesse residências e ateliers para artistas vindos de onde quisessem vir, que tivesse galerias públicas.

A arte atrai bons espíritos, atrai mais gente, e mais gente atrai mais trabalho e prosperidade, maior qualidade de vida e maior qualidade de vida é segurança, e segurança e qualidade de vida dá mais vontade de criar família, de ter crianças, de renovar o mundo.

Terras sem artistas, sem arte pública, sem comunidades de artistas vibrantes, criativos, diferentes, são terras tristes, ensimesmadas, com tendência ao esvaziamento, terras com triste futuro.

É outro aspecto fundamental nas políticas públicas: muita arte, arte ao dispor de todos, arte a inspirar todos.

Forte apoio à natalidade, forte apoio à imigração, forte apoio às artes -- são três medidas que espero que estejam bem presentes no programa do próximo governo. Isso a par da defesa do planeta que, espero bem, há-de ser uma das principais causas dos anos que aí vêm.

Claro que muito mais que isto. Bibliotecas públicas abertas de manhã à noite e ao fim de semana, também, por exemplo. E mais, claro. Mas a estas políticas a que aqui dei destaque eu dou total importância. E defendê-las enche-me de entusiasmo, como se tivesse uma suave brisa a tocar-me o rosto, como se tivesse os braços cheios de braçadas de flores, como se tivesse outra vez dez anos e largasse a correr por um sinuoso caminho descendente, a saia voando, os cabelos compridos pelos ares, eu com a vida pela frente, eu ainda nunca desiludida, eu ainda inocente e crente na força da minha vontade.


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E, já agora, queiram dar uma espreitadela a este lugar onde fervilha a arte: Dubai



E outro: Leipzig


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E para o Leitor que hoje chegou aqui depois de ter escrito num motor de busca 'o que é a beleza de uma mulher', aqui deixo uma possível receita:


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Usei pinturas de Georgia O'Keeffe e o Smile pela Madeleine Peyroux para dar alguma graça a este post. O título é um excerto do poema Eternidade de Maria Teresa Horta

E desejo-vos uma feliz quarta-feira

quinta-feira, outubro 11, 2018

Uma cena muito misteriosa, uma vontade muito estranha
-- e muita divagação




Tive hoje uma reunião tão do outro mundo que saí de lá azamboada. Por todos os motivos e, na verdade, por mais um, não posso aqui falar dela. Mas hei-de assimilar bem o que ali se passou, hei-de processar e, daqui por algum tempo, num qualquer contexto em que não se perceba que tem a ver com o que tem a ver, pode ser que conte uma ou outra pequena coisa. Tudo interessante demais. E, para mim que volta e meia sinto que já vivi muito, que já passei por muito, que já sei muita coisa, foi um daqueles banhos (ou melhor: banhada) em que uma pessoa percebe que passa por esta vida conhecendo apenas uma ínfima partícula da infinita imensidão que há para conhecer. De facto, fui confrontada com um mundo novo que, em absoluto, desconhecia. E, ao ter tido esse vislumbre, parece que passei a ver todo o mundo de uma outra maneira.


Ao almoço, tinha a ideia de ir comprar um cartão para a máquina fotográfica. Mas tão baratinada estava das ideias que não me restou outra solução senão ir à Zara. Ando há uns tempos a pensar que tenho roupa que me chega até ao fim dos meus dias (isto se não desatar a crescer ou a engordar, claro). Mas hoje despensei. Para grandes males, grandes remédios. Mas entrei a querer acreditar que era só para matar saudades, só para ver em que param as modas. Dei uma volta com passada larga, 
a olhar ao largo, intimamente a fingir que desdenhava. Mas depois vi um casaco lindo. Espreitei o preço: Não..!, pensei, incrédula. Barato de dar raiva. Determinada, segui. Depois vi blusa-camisa num tecido e numas cores que não dava para acreditar. Espreitei o preço: Não...! Um preço diabólico de tão tentador.

Segui. Mas depois assomou uma dúvida: caneco, mas será que não mereço ser uma consumista parva? E logo concluí que mereço, sim senhora. Voltei atrás, peguei no casaco e na blusa e fui provar. Oh coisa boa, um provador da Zara... Ficava tudo às mil maravilhas. E que não ficasse. Trouxe.


Quando saí da Zara com o saco de papel preto, ocorreu-me uma coisa que me pareceu ser a solução para o novelo sombrio que me tem cercado. Vinha outra. Capaz de levar o mundo à minha frente, a pontapé. 

Durante a tarde tive tantas mil porcarias e outras tantas coisas faz de conta que muito importantes que não tive tempo para voltar a pensar no assunto. Quando me meti no carro para voltar a casa já a ideia me parecia trabalhosa demais quando quero é abrandar. 

Agora não me apetece pensar no assunto. Não gosto de pensar em cenários. Prefiro esperar que as ideias se formem sozinhas e venham ter comigo.


Então, quando há bocado me sentei aqui, cheia, cheia de sono, em vez de pensar nestas confusões e propostas e pressões que parecem não querer sair de cima de mim, fui pôr-me a ver estantes do Ikea, a fazer contas aos metros lineares de prateleiras, a estudar onde pôr o quê. Devia ter começado a escrever isto mais cedo, deveria pensar na minha vida, deveria aprender a deixar mais espaço para dormir. Mas não. É isto. 

E depois, em vez de pensar no que ia escrever ou se amanhã devo dar algum passo, pus-me a olhar para as pilhas de livros que estão em cima da mesa redonda, em cima das estantes baixas, em cima do cadeirão, ao lado do sofá, e a pensar se caberiam nas estantes novas. E como reorganizar a lógica da biblioteca? E já só me apetece tirar tudo, começar a fazer montes no chão, faltar ao trabalho e ir encomendar estantes, depois faltar para ficar em casa a rearrumar numa nova sequência.


Tirando também a vontade de me virar para uma vida nova. Começar uma vida nova. Tudo novo. Já algumas vezes na minha vida começo de novo: tudo novo. Lugares novos. Gente nova. Projectos novos. Um salto no desconhecido. A atracção que tenho por isto ninguém imagina.

E, em simultâneo, uma ideia: arranjar um agente literário. Ainda os livros não estão escritos e já esta estranha vontade de ter um agente. E umas ideias meio tresloucadas associadas a isso. Mesmo sabendo que só daqui por algum tempo e que, se calhar, pelo meio, ainda atravessarei o desconhecido e correrei riscos. 

E assim vai passando a noite. E eu nesta improdutividade. E, tendo já escrito tanta palavra, espremendo tudo, nada.


Talvez só isto. Estava a almoçar, vi dois rapazes altos e bonitos. Um deles era um conhecido actor. Podia não ter reparado porque nada neles era incomum ou chamativo. Facilmente passavam despercebidos. 

Quando ia a sair, passei pelas salas de cinema. Na entrada, um cartaz enorme com esse actor em ponto grande. Ali, em papel, dava nas vistas. Poderia ele, em carne e osso, passar ali à frente que toda a gente repararia no cartaz e não nele. E apeteceu-me inventar uma história.

Mas, preguiçosa e deambulante à toa como sou, em vez de aqui me pôr a ficcionar, pus-me nisto. Vocês desculpem lá, está bem?


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sábado, fevereiro 10, 2018

Smile





Tenho que confessar: algumas pessoas tiram-me do sério.

Gosto de fazer coisas, não perco tempo com mas-mas, se há o que fazer eu penso durante dez segundos, vejo em volta quem posso arregimentar para me ajudar na faina, desafio as pessoas a fazerem o que nunca fizeram, puxo por elas -- e não perco mais tempo, arregaço as mangas e meto pernas a caminho. E alegro-me no mais fundo do coração quando as vejo motivadas, a descobrirem o mundo, a sentirem que acreditam nelas. E depois passo-me quando vejo que há quem fica a patinar em seco, não querendo arriscar, quem se atemorize e não faça a sua parte.

Por mim, em querendo, arrastava o mundo para outra galáxia. Não me falta energia, capacidade para empolgar os outros nas jornadas que empreendo. Mas falta-me a paciência para esperar pelos que parece que têm medo de se mexer (medo de poder não estar a fazer bem, medo de poder vir a sofrer críticas por não fazer como deveria ser feito). Ficam, então, à espera do último input, da última confirmação -- e o que acontece é que as oportunidades vão passando. E os que estão mais do que disponíveis para avançar ficam eternamente à espera de que soe o tiro de partida. Desmotivam-se, desacreditam, abandonam. 

Por isso, arreliei-me a sério. Quando me arrelio já não tenho vontade (ou capacidade) de disfarçar. Não disfarço. Vai à bruta. Se calhar mais à bruta do que deveria. Se calhar, chega aos outros quase como uma agressão. Mas não pretendo agredir, pretendo apenas que se mexam.


Mas logo a seguir me enterneci ao ver a minha menina, há pouco tão hesitante e frágil e agora já toda confiante, afirmativa, destemida. E o outro que tem andado meio perdido e agora a vir contar-me as suas ideias, todo ele projectos e vontade de voar. Ou o outro, todo bem disposto, a rir e a fazer-me rir, todo irreverente e teatreiro e a mostrar que conta comigo para virar o mundo do avesso.

E, de repente, aquele com quem me passei por não lhe ver a acção que me parece urgente, começou a dar sinais de que finalmente se moveu e eu enchi-me de esperança: o mundo é mesmo capaz de se ter começado a mexer e isso é o que eu quero.

E consegui ir à fisioterapia e o fisioterapeuta novo, um homem, está a pegar os cornos do bicho-ombro de outra maneira e ao fim de duas sessões parece que já sinto a diferença. Explicou-me o que tenho em cada sítio onde me dói, dizendo o nome da coisa e agarrando-a para eu perceber. E fez-me sentido. Percebi qual o tendão que teve a rotura, como a inflamação se formou, dando origem a uma bursite. Com energia, muito focado, desfaz contracturas, alisa músculos, puxa o braço. Tamanha a tareia, custa-me. Mas, enquanto me dói, penso que aquilo é para ficar boa e fico a suportar melhor a dor.


Cheguei tarde, tarde. Foi, pois, bem noite que fomos jantar à praia. Frio e tarde -- demais para passear à beira mar. Paciência, fica para outro dia.

Agora já passa bem da meia noite, estou a dormir aqui no sofá da sala, tentando (em vão) acordar. Está um calorzinho bom e eu estou em paz. Não guardo nunca nada por dizer. Digo tudo de caras e na hora. Digo, fica dito, sigo em frente. Não faço planos, não me inquieto. Mas, se vejo um caminho e me parece que leva a bom porto, então, eu vou por ele e arranjo quem venha comigo. Gosto de tentar descobrir onde levam os caminhos que nunca antes percorri. Gosto de me aventurar. Gosto de sentir o medo miúdo de não saber como chegar ao fim. Gosto de partilhar o medo para sentir nos outros a força que me leva mais longe.

E não há muito mais a dizer. Aliás, haver até havia, eu é que tenho que acordar para ver se consigo chegar ao quarto.

Talvez só mais isto: está-se bem. 

Trabalhos efémeros na natureza by James Brunt

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Antes de tentar chegar à cama, só mais um pouco na companhia da beleza. Palavras, bailados, jardins.

Ou seja, as palavras interditas nos jardins selvagens, com bailado pelo meio.









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E um bom fim-de-semana a todos.

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segunda-feira, maio 02, 2016

Flores em Maio -- this is heaven to me
[E a natureza fractal da pintura de Pollock]


O perfume é intenso. A natureza impõe a sua tremenda energia. Tudo rebenta: os botões de flor, as folhas, as ervas, o mato, as árvores. Onde havia caminhos, há agora uma camada de pequenas hastes que ondulam, apenas aparentemente frágeis, douradas pela luz do sol. E eu baixo-me, encosto-me ao chão, quero vê-las como elas são, orgulhosas e belas.



Por todo o lado há arbustos, cores, os amarelos são intensos e a delicadeza das pequenas flores oculta a aspereza dos espinhos. Os pássaros estão doidos de alegria, cantam à desgarrada, todo o espaço está ocupado com a vibração dos odores e dos cantos. 


Por vezes, nos lugares de mais sombra, a terra rescende a uma humidade íntima, um cheiro morno e doce, perigosamente feminino.

E as flores neste sítio são virginais e, dengosas, colam-se à nossa pele, devem ter muito açúcar a circular na sua seiva.

A minha mãe sempre disse que a vegetação aqui é idêntica à da Arrábida. Por isso, quando no outro dia vi o livro 'Flores da Arrábida', Guia de campo, de José Gomes Pedro e Isabel Silva Santos, agarrei logo nele. Agora, consigo dar nome à flores com que por aqui vou enchendo a minha alma (seja lá o que for isso da alma).

Estas aqui abaixo são as Cistaceae. Passo as mãos por elas, tento soletrar o seu nome, quero que me reconheçam como igual.


Depois, por onde passo vou vendo composições cromáticas que me lembram pinturas. Frequentemente vejo Pollocks onde outros verão mato para limpar. A sobreposição amigável de gerações de pequenas plantas, umas maduras, outras que despontam, outras já secas, cada uma de sua cor, um emaranhado cromático que me dá vontade de me deter, decompor o que vejo em camadas, acrescentar dimensões de visão, certa de que, à medida que for aprofundando o que vejo, mais dimensões se hão-de revelar.

Pollock, com a sua abstracção resultante de gestos quase incompreensíveis é, para mim, um fiel retratista da realidade que os meus olhos vêem.


Sei que os campos têm que ser limpos mas esta é, para mim, uma altura de luta. Dever-se-ia meter uma máquina pelos campos adentro ou avançar com uma roçadora e isso é o certo, e eu tenho que aceitar que deveria render-me aos argumentos racionais, mas tudo isto por aqui, para mim, é sagrado: os pés de alecrim, as hastes de rosmaninho, as bocas-de-lobo, as marioilas, as roselhas, as mais humildes ervinhas. Tudo, para mim, deveria ser preservado, respeitado -- sinto-me sem direito a destruir tamanha beleza.


Quando vejo os lírios-roxos, Iridaceae, baixo-me para os fotografar. Por vezes, deixo-me tentar a procurar o melhor ângulo, tenho vontade de abrir as suas frágeis e belas pétalas para desvendar a sua intimidade. Mas é tão fino e macio o seu tecido que logo receio molestar, penso que são obras de arte que não devem ser tocadas. As cores são tão belas, o desenho das pétalas tão elegante, tudo tão delicado e superlativo que eu penso, muito sinceramente, que aquela flor atingiu, na sua evolução, um grau de sofisticação de que eu ainda me sinto muito longe.


Mas estar a eleger uma flor como a mais perfeita e sofisticada é um exercício absurdo. Na natureza há lugar para muita beleza, é tolice estar a eleger um ou outro dos seres que a habita.

Como poderia eu colocar num patamar menos honroso a madressilva, Caprifoliaceae, o arbusto do qual nascem caprichosas e perfumadas flores que nunca me canso de fotografar? Passar ao fim do dia junto a um destes arbustos é colher uma sensação inebriante.


E há a macieira. Por esta altura nascem flores de uma delicadeza e beleza que me encantam. Deve ser tanta cor e perfume que atrai a passarada. Como os compreendo. Pudesse eu e por aqui andaria também de manhã à noite vendo a natureza a existir em plena liberdade.

Daqui por algum tempo, haverá maçãs que ficam sempre pequeninas. Doces, doces. Mas os pássaros não as deixam crescer. Mal se adoçam logo eles as debicam. Para eu lhes levar a melhor tenho que as comer ainda pequenas e pouco doces -- senão nem chego a prová-las. Mas os frutos são mais dos pássaros do que meus. Gosto que eles tenham que comer por aqui para que por aqui fiquem, que gosto tanto de os ouvir, de os sentir a levantar voo das árvores baixas quando eu passo ao pé deles.

Poderia continuar por aqui a mostrar-vos as flores que me acompanham quando estou in heaven mas sei bem que uma coisa é estarmos nós emocionalmente próximos de uma coisa ou de uma pessoa: para nós tudo nos maravilha, não nos cansamos de olhar ou de louvar mas, para quem a eles é alheio, não tem graça nenhuma, é uma maçada.
Por isso, termino já. Mas termino com os cachos de uma das robínias. São tão lindos. Olho-os recortados em branco contra o azul do céu e fico assim, a olhar, tão feliz: parece que a perfeição que observo atesta a maravilha que é este nosso mundo. Que sorte a nossa podermos testemunhar tanta beleza.

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Já agora deixem que partilhe convosco:

Marcus du Sautoy explica a natureza fractal da pintura de Pollock




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Lá em cima Madeleine Peyroux interpreta This is Heaven to Me

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma belíssima semana, a começar já esta segunda-feira.


quarta-feira, março 18, 2015

O perigo das Quimeras e das Emboscadas. Ou não. Talvez seja apenas um caso em que 'Les beaux esprits se rencontrent'


Depois da entrevista de Obama (que pode servir de bitola para se comparar com as entrevistas caseiras aos nossos políticos), mudemos de assunto que a noite ainda é uma criança.

Uma combinação improvável: Mia Couto, Kate Mosse (por Paolo Roversi), Albert Delègue (por Mario Testino) e Madeleine Peyroux.







Já me cansa
ter esperança.

De tanta quimera desfeita
aprendi a existir de sobras,
neste tempo de quases e nuncas.

Morro
de tanto vida por viver.

Calo-me 
de quanta palavra esbanjada.

Desvaneço
de tanto beijo adiado.

O meu quarto
é o mundo inteiro sem mundo.

Quem me dera ser anjo
e sentir leve a terra
sob os meus pés alados.

Quem me dera
uma casa de nascença,
quem me dera um lume de crença,
um incêndio de todos os recomeços.

Quem dera
o quarto fosse de barro tenro,
um lugar de príncipe e princípios.

No sono
em que finjo adormecer
perco a noite
e o seu balouço de sonhos.

Sob o umbral da insónia
dou de beber a anjos
que se extinguem
na poeira dos desertos.





Sou dente para o teu beijo,
garra para a tua beleza.

Abro a casa
para o teu silêncio.

Mas não tenho leito
para o teu cansaço.

O que nosso amor acende,
luz cega,
não nos deixa ver,
distintos, um e outro.

Embriagada visão
do que é metade,
só vejo o que é tudo.

Eis o meu vício:
o que bebo não tem medida.

O que a minha sede busca
não é a bebida,
mas a sombra da água
onde eu,
numa outra vida,
morei sem voz nem mágoa.



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  • O primeiro poema chama-se Quimeras e o segundo Emboscada e são ambos de Mia Couto do livro Vagas e Lumes da ed. Caminho
  • A canção interpretada por Madeleine Peyroux é Don't wait too long. 
  • Kate Moss é 'Painted Lady', veste criações de grandes casas de alta costura e foi fotografada por Paolo Roversi para a W Magazine April 2015. 
  • Albert Delègue é um homens dos retratados por Mario Testino que pode ser visto no livro Sir onde Mario Testino, por esta vez, fotografa homens.


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O homem que se segue também tem muito que se lhe diga: Obama no seu melhor já aqui abaixo.

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segunda-feira, dezembro 08, 2014

Métiers d'Art - ou a arte ao serviço do charme discreto da burguesia. E eu e as minhas coisas.


No post abaixo já mostrei algumas obras de arte que adoraria ter e usar na minha cabeça. O artista é Philip Treacy and I love, love as suas peças.


Mas agora, aqui, se concordarem, vamos com La Javanaise



Lá está, em complemento do que no outro dia disse (que, se me quiserem subornar, poderiam tentá-lo oferecendo-me fantasy bras de todas as cores possíveis e imaginárias bordados com peças preciosas ), junto agora as peças que mostro no post já a seguir a este. E, se não for abusar da paciência dos que me quiserem corromper, gostava também de algumas peças das que se podem ver no vídeo seguinte.

Confesso: quando vejo coisas assim, dá-me vontade de me dedicar à concepção de modelos, à costura, à confecção de chapéus, aos bordados. Gosto do vagar e da entrega que acontecem quando uma pessoa está  afazer trabalhos manuais, em especial trabalhos que envolvem alguma criatividade ou em que dá para uma pessoa estabelecer objectivos (exemplo: hoje ainda quero fazer isto)

Houve uma altura em que me dediquei a fazer carpetes de Arraiolos. Escolhia tapetes que estivessem em museus para garantir que iria fazer uma réplica de um modelo original, falava com a D. Marcelina, grande especialista, que tem desenhos de tudo, ela adaptava o desenho à dimensão que eu pretendia, arranjava-me as cores originais das lãs e, durante meses a fio, à noite, eu, guiando-me pelo desenho em papel, bordava e bordava e bordava. Ficava até às quinhentas, o resto da casa adormecida tal como agora e eu, um candeeiro iluminando o meu espaço de trabalho, absorta, alheada do mundo. Já falei disso muitas vezes aqui e já mostrei as minhas obras.

Duas dessas carpetes estavam in heaven, na zona da casa em que ficam os hóspedes. Ora, por causa de alergias (ou potenciais alergias, especialmente por parte dos pequeninos), pediam sempre para eu as tirar quando lá dormiam. Estavam, portanto, mal aproveitadas. Com a falta de tapetes que o meu filho tem na sua casa nova que agora está em processo de arrumação e distribuição de mobília própria e 'herdada' (e com eles já lá instalados), essas duas carpetes foram para lá. Hoje, olhando-as, perguntou-me se eu não queria fazer mais duas. Pois, até me doeu. De gosto me atiraria ao trabalho.

Tanto que eu gosto de fazer tapete de Arraiolos e, olhando os três compartimentos em sequência da sala de estar, vê-se que vinham mesmo a calhar já que apenas um dos compartimentos o tem (a outra minha carpete está na sala de jantar).

Mas não dá.

A contragosto, disse-lhe que tirasse daí o sentido. Ou era isso ou é isto. Só tenho a noite para aqui estar e ambas as actividades são muito absorventes - e agora tenho pena de largar isto dos blogues.

Às vezes penso que, quando me reformar, talvez consiga disciplinar-me para ter tempo para ler, para escrever, para caminhar e fotografar, para voltar aos Arraiolos, para fazer peças de costura especiais, xailes bordados com pedras, coisas assim, e, claro, ocupar-me da casa. Mas ainda falta tanto tempo que sei lá eu. 

Hoje, ao almoço, dizia que, quando me reformasse, talvez me dedicasse à intervenção política. O meu marido riu-se, acha que, nessa altura já terei ultrapassado o prazo de validade para me meter numa coisa dessas. Também não tencionava inscrever-me nas Jotas, caraças.

Adiante.

Não sou só eu que ando empanada, a máquina fotográfica também não está melhor. 

Tiro uma ou duas fotografias e descarrega a bateria, um sufoco. Já não é a primeira vez que isto acontece mas tem-lhe passado. Agora está numa dessas alturas em que, a torto e a direito, lhe dá uma coisinha má.

No sábado, quando fomos ao campo buscar  as carpetes, eu quase deitada no carro, ainda tentei fazer umas fotografias enquanto dei uma circulada em passo de caracol mas se tirei uma meia dúzia foi muito. Sempre a descarregar-se o diabo da máquina, uma seca.

Eu que me desabituei de ver a vida sem a ajuda da lente, fico meio desasada.

Olho para as coisas e parece que estou a cometer uma infidelidade, passar por elas e não as amar a preceito, fotografando-as, não me deixa nada bem.




Estava tudo com umas cores tão ao rubro, tudo tão lindo e eu gostava tanto de vos mostrar. 

A terra está muito húmida e o perfume das folhas caídas a transformarem-se em húmus, o cheiro da terra fértil, o musgo muito verde e macio, tudo tão íntimo e acolhedor.




Mas, enfim, a ver se a máquina fica boa por obra e graça que é para eu não ter que me meter em trabalhos a pedir orçamentos para a reparar e as lojas já todas cheias e eu sem tempo para me meter no meio de barafundas.




Voltando a casa do meu filho: gostava de vos mostrar alguns pequenos espaços para que vejam como, depois de tanto trabalho (que ainda não acabou, ainda este domingo ele se levantou quase de madrugada para fazer lá mais uns trabalhos), a casa está mesmo bonita, nem parece possível. Estava a cair de podre, esventrada, esburacada e agora está arranjada, luminosa. A ver se a safada da máquina atina que eu fotografo alguns recantos, até vos poderia mostrar as ditas carpetes.

Este domingo o meu marido e o meu filho estiveram a montar candeeiros e estantes, e eu, a minha filha e a minha nora estivemos essencialmente a arrumar livros que parecia que não acabavam, A minha filha de cada vez que lhe aparecia mais um Le Carré até se passava, lá tinha que arranjar espaço na estante, tirando outro para outra prateleira. Mas eu, tanto que gosto de arrumar livros, mal me podia dobrar e levantar com pesos pelo que não fui de grande ajuda.

Entretanto, os pimentinhas, nas sete quintas, brincavam e corriam, felizes da vida. A minha nora tinha feito um bolo pelo que já havia no ar aquele perfume a casa de família, bolos mornos a sair do forno.

Não sou dada a grandes elucubrações sobre qual o sentido da vida ou sobre a definição de felicidade. Há coisas em que as teorias não ajudam nada. Também não ajuda a gente imaginar grandes filmes, grandes epifanias emocionais e intelectuais, como se a vida, para ser boa, tivesse que nos fazer sentir sempre nos píncaros e, ao mesmo tempo, nos proporcionasse a capacidade de teorizar sobre o assunto. Eu disso não sei nada.

Eu sou mais de coisas simples: arrumar estantes em conjunto, o cheiro a bolo acabado de fazer, um abraço bom de criança, a união entre os nossos filhos, a vontade de fazer coisas agora e daqui por mais alguns anos, o ler um livro que me dá a ver mundos novos, o gostar de estar aqui a conversar convosco. Fico feliz com coisas assim. Chega-me.




[Claro que há mil coisas que me tiram do sério e me revoltam mas isso não me faz esquecer a capacidade de me sentir bem com coisas simples como as que referi.]

Bem. Já me distraí na conversa.

Estava era para falar do evento em Salzburg organizado pela Chanel. Métiers d'Art. Uma sumptuosidade, uma fonte de inspiração, uma graciosidade nos gestos, uma beleza de cores e movimentos, uma vontade de ir a correr arranjar trapinhos, pedrinhas, agulhas, pegar no meu dedal que é de prata e que tem sobrevivido sabe-se lá como, pôr-me a fazer coisas assim, bordados, enfeites, peças de cor e luz. 








O espaço, a talha dourada, os tapetes, os espelhos, a luz das velas, tudo tão perfeito. Um mundo de fantasia. O charme discreto da burguesia.

E, para melhor se ver o ambiente, o requinte, a sofisticação, eis algumas entrevistas com celebridades que assistiram ao evento - que, como todos os eventos Chanel, foi luxuosamente encenado.





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E já falei demais, credo, as minhas desculpas. Nem vou reler pois estou cheia de sono pelo que peço que relevem as gralhas.

Rapidamente a ficha técnica:

A música lá em cima é Madeleine Peyroux interpretando La Javanaise.

As quatro últimas fotografias fi-las no sábado in heaven. As primeiras referem-se ao desfile Chanel Métiers d'Art Paris-Salzburg 2014/2015.


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Relembro: no post abaixo há mais obras de arte. Imperdíveis de lindas que são. Só tenho pena de não lhes poder deitar a mão. Pior que isso, se as tivesse, teria que as ter dentro de uma vitrina ou, se calhar, de um cofre. Onde é que iria usá-las? Raio de país que nem isto nos permite.

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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um bom feriado. 
Saúde e boa disposição é o que vos desejo. E harmonia na vossa vida, que também ajuda.

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sexta-feira, setembro 05, 2014

François Hollande e as suas belas três mulheres - daqui lanço outra vez o mesmo apelo: alguém me explica qual o segredo do homem? E não me refiro apenas agora à Valérie Rottweiler que, roída de ciúmes, não descansa enquanto não fizer sangue. Não, refiro-me mesmo a elas todas.








Ora bem. Queria falar ontem, não falei, falo hoje. Valérie, 49 anos, mais conhecida por a Rottweiler, fez aquilo que se temia: começou a vingar-se. 

Não sou muito de dar conselhos mas se há um que sempre dou é que há que ter cuidado de uma mulher que seja possessiva e ciumenta. Mulheres assim são um perigo.


Conheço de perto vários casos em que mulheres normais viraram temíveis feras quando se viram trocadas por outra. Temíveis!

Admito que um homem experiente ou com algum savoir faire saiba lidar com a tormenta que pode vir dos lados da mulher enganada mas, mesmo assim, acho melhor não arriscar. Uma mulher que seja focada, que seja de criar dependências emocionais em relação a um homem, torna-se destemidamente perigosa quando se vê abandonada e trocada por outra. Só não fará a vida do homem e da nova mulher num calvário se, pelo meio, se for abaixo.

Valerie Trierweiler é um desses casos. 

Vivia o maravilhoso e irresistível Hollande (agora com 60 anos), ainda com a mãe dos seus quatros filhos, Ségolène Royale (agora também com 60 anos), quando Valérie, jornalista, fazia um trabalho sobre Ségolène. No decurso do seu trabalho conheceu a fera e não resistiu: tamanho era o encanto que ele emanava que a bela Valérie lhe caiu nas malhas. 


França acordou incrédula quando soube que François, o totó Hollande, andava a enganar a bela Ségolène com uma flamboyante femme

Perante a espada ao peito de Valérie e perante a opinião pública, François não teve como não assumir o romance. Ségolène passou à historia (com grande dignidade, diga-se) e a nova Primeira Dama francesa, a que viria a ocupar o Eliseu, foi a sexy Valérie.

Controladora, possessiva, apaixonada pela beldade Hollande, Valérie parecia viver em permanente estado de alerta. As mulheres ciumentas são assim, nunca baixam a guarda e, portanto, nunca estão em paz. A opinião pública nunca foi muito à bola com ela. Mas progressivamente a opinião pública já estava era também enjoada de François Hollande. Um banana, um zé ninguém nas mãos de Merkel, uma desilusão para a esquerda, um pequeno e inútil badameco.

Eis então que a França volta a acordar estremunhada, quase em estado de estupor catatónico: Hollande andava de novo a aprontar. Desta vez com uma artista de cinema, Julie Gayet, agora com 42 anos, gira todos os dias, bem mais nova e, qual adolescente disparatado, aparecem fotografias com ele de capacete, a andar de lambreta, e que o segurança ia levar croissants quentinhos aos pombinhos que, pela manhã, ainda estavam no quentinho do seu ninho de amor.

Tal como toda a França, Valérie soube nesse dia, pelas notícias, que o seu Romeu andava a mijar fora do penico. Com os nervos, tenta enfrascar-se em drunfos, o namoradinho impede-a, ela cai de madura, um piripaque, é internada. E, quando sai do hospício, sai também do palácio presidencial. Disse depois que parecia que um comboio lhe tinha passado em cima. Hollande, a fera, tinha voltado a atacar.

Despeitada e amargurada, Valérie foi curar-se para outro lado.

Curar-se...?

Qual quê? Mulheres possuídas pelo ciúme e pela raiva não fazem por curar-se: tentam por todos os meios, isso sim, fazer a vida negra a quem as faz sofrer.

Trezentas e tal páginas de vingança aí estão, Merci por ce moment: que ele a assediava a torto e a direito, entre uma conversa com Obama e outra com Putin enviava-lhe sms de forma desvairada, queria tê-la de volta, só falava em reconquista, enviava-lhe flores. Chegaram a ser 29 sms por dia, um perfeito assédio. 


Andaria, então, com a sua nova namoradinha e a enviar sms apaixonados à ex. E, em suma, que é um parvo, que é uma criatura que não sabe o que quer. Duplamente parvo: não apenas a ser parvo como a ser parvo por escrito, deixando provas. E que, segundo ela conta, trata os pobres por desdentados. E que mais não sei o quê.

Esta quinta feira as imagens mostravam na cimeira um Hollande acabrunhado, enfiado, pequenino, ao telefone. Imagino, nem devia saber onde se meter. Se fosse outro, ainda alguém poderia achá-lo o galã da UE, agora, com ele, só o podemos achar o totó da UE.

De uma só cajadada, Valérie, a Rottweiler, deixa-o mal perante a Julie, que agora não mais poderá confiar no seu belo Apolo, perante os pares dele que, de cada vez que o virem ao telefone, vão pensar que não é nada a ver com assuntos de Estado, que deve ser assunto é de braguilha, e deixa-o mal perante todos os franceses que ficam a saber, preto no branco, que têm à frente do seu País uma anedota.

E tudo isto poderia ser romanesco, ter um toque de trovadoresco, haver nisto qualquer coisa de glamouroso. 

Mas eu olho para isto e só vejo uma série cómica. Um fenómeno, um coiseco perante quem mulheres fascinantes tombam apaixonadas.


E olho para três mulheres belas, de personalidades fortes, e interrogo-me: caraças, mas o que é que o Hollande tem?

É que o pior é que quem convive com ele diz que o tipo não tem préstimo, que não resolve nada, quer agradar mas que nem se percebe o que diz ou pensa porque se especializou em dizer coisas que não o comprometem.

O ministro da Economia que recentemente se demitiu e ia provocando uma crise, Arnaud Montebourg, disse dele as piores coisas. Nada que causasse espanto.

Ora, mesmo que, por absurdo, o segredo da coisa estivesse num inesperado tesouro guardado por trás da braguilha, mulheres inteligentes costumam apreciar homens inteligentes, com carisma, ideias fortes, capacidade de decisão, não apanhados em verde como o Hollande..

Não é estranho? Se fisicamente é o que se vê, se em termos de carácter é o palerma que toda a gente descreve, então, caraças, o que é que estas três mulheres vêem nele? 

A Ségolène continua a defendê-lo, a Valérie por aí anda possuída e a Julie parece que continua apaixonada e namoradinha.


Alguém me explica este fenómeno?


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Hollande, le ridicule



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A música lá em cima é J'ai deux amours numa interpretação de Madeleine Peyroux porque, enfim, assim como assim, admito que, apesar da robustez, Hollande não costume ter mais do que dois amores de cada vez. mas já não digo nada.


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Por vezes sou traída por mim própria: tinha fotografias de casais e de barcos e de uma marinheira de se lhe tirar o chapéu, já para não falar da vida de Sebastião Salgado que anda pendente há dias, mas chegámos tarde do centro, os restaurantes cheios, cheios, com fila para entrar, não dá para acreditar, e depois pus-me a ver a Quadratura do Círculo e atrasei-me, comecei isto muito tarde e, depois, escolher fotografias e vídeos e mais não sei quê para isto que acabaram de ver e agora dou por mim e já passa bem da uma e meia. Ora como a alvorada aqui no quarto é cedo e, logo depois do pequeno almoço, há caminhada a fazer (esta quinta-feira foram 6 km de manhã e depois mais 3 à tarde), não posso apresentar-me na formatura a dormir em pé. Por isso, com vossa licença, hoje fico-me por aqui mesmo.


Claro que fico com pena de também não comentar as boas notícias que nos chegam dos lado do Super-Mario Draghi. Parece ser o único homem que não tem medo de Merkel. No meio de uma Europa conduzida por um cherne sem neurónios nem coluna vertebral, no meio da maior burocratização, no meio de gente com interesses contrários e sem liderança, ele lá vai tentando fazer qualquer coisa. As medidas anunciadas são boas, visam o estímulo económico e tomara que os anormais todos que por aí andam a destruir a Europa e, em particular, alguns países, não venham arranjar maneira de tentar neutralizar o que ele está a tentar fazer. Mas, enfim, isso levar-me-ia para outras profundidades e eu, por estes dias, estou mais dada à superficialidade.

Helder Rosalino, o grande Banqueiro Central


(conforme notícia do Expresso)


Ah é verdade, e queria ainda dizer que agora é que vou, finalmente, ficar mais descansada em relação ao Banco de Portugal. Sabido que é que o Charles da Costa Butterfly não dá uma para a caixa, conforme o seu amigo Aníbal fez questão de reforçar publicamente, e sabido que o Pedro Passos Láparo anda a fazer de conta que a embrulhada da Nova Butterfly é coisa só do pai, o dito Charles, era notória a necessidade de reforçar competências, especialmente alguém muito experiente e com tarimba à altura de Teodora Cardoso que está de saída. Ora bem: problema resolvido. O meu grande amigo três cabelos, o Helder Rosalino, vai agora ser a Rosa Linda que lá faltava. Agora a Butterfly já tem onde pousar. Daqui, pois, me manifesto toda cheiinha de júbilo: viva o Rosalino, banqueiro central, viva!


Mas hoje já não dá. Logo organizo uma partyzinha à altura dele um dia destes.


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Desejo-vos, meus Caros Leitores uma bela sexta-feira. 
E, por favor, que ninguém me recorde que já é sexta-feira. Não quero...


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sábado, maio 17, 2014

Kate Moss e a moda feita por quem a sabe ditar. ["KATE MOSS IS MAKING THE BLANKET AS COAT HAPPEN" - Once again learning from the master...]


No post abaixo já mostrei três mulheres que se destacaram em Cannes 2014. Chiques, elegantes, modernas ou artificiais, mostro-as a elas e às respectivas toilettes e, armada em pipoca mais doce, digo de minha justiça. 


Mas isso é mais abaixo. Aqui, agora, a conversa é outra, embora verse ainda sobre esse magno assunto que é a moda (com esta do 'magno assunto' pode parecer que estou a ser irónica mas, de facto, é um assunto que nada tem de fútil já que se trata de uma indústria poderosa que movimenta milhões).


The Summer Wind




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Uma vez mais falo de Kate Moss, essa mulher que não apenas fascina os fotógrafos como os criadores de moda. Mas, mais do que tudo, ela é uma precursora já que ela própria estabelece tendências no mundo da moda. Vendo-a nesta fotografia, a Harper's Bazaar, uma revista icónica, antecipa que Kate Moss está a indiciar uma tendência na moda outono/inverno 2014. 


E mostro esta fotografia com entusiasmo porque eu há muito que alinho neste comprimento de onda - e, vendo-a assim, sinto-me legitimada. O meu marido, volta e meia, quando me vê nestes preparos, pergunta-me se eu não tenho casacos, se tenho que andar enrolada em mantas. Não é que que não goste de me ver, acho eu, é mais por achar que não faz grande sentido. Mas eu acho que faz todo o sentido e sinto-me bem assim. Amantíssima de écharpes, até que chegue o frio a sério avanço pelo outono e mesmo pelo inverno quase sem casacos ou apenas com casaquinhos leves, desdobrando as écharpes,  escolhendo-as quentes para as usar como capas, exactamente como Kate Moss aqui usa a dela (e que gira que é, que cores tão quentes e bonitas).

E nestes dias de primavera que prenuncia o verão, é também isto que faço quando o tempo está incerto. Se for preciso, a écharpe - que nesses dias será das largas - abre-se e é usada como um agasalho.

Como geralmente apenas contacto com o ar da rua quando de manhã saio de casa e quando ao fim do dia estou de regresso, durante o dia não preciso de andar encasacada. Vivo dentro de espaços condicionados. Por isso, prefiro a versatilidade das écharpes, mesmo quando as écharpes são quase pequenas mantas.

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A música lá em cima, The Summer Wind, é interpretada por Madeleine Peyroux.

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Relembro: querendo continuar com a elegância feminina e tendo vontade de avançar pela passadeira vermelha, sigam, por favor, até Cannes, ou seja, até o post seguinte.

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quarta-feira, agosto 08, 2012

Onde está o amor


Um amor, se faz favor


Bob Marley (o amor com alegria) - One love



Hoje, na rua, deparei com uma imagem numa parede que despertou a minha atenção. Felizmente estava com a máquina fotográfica e registei. Colado na parede, um papel com duas criaturas com o ar mais desolado do mundo, braços pendurados, todos eles um luto, com um coração rasgado entre  os dois e as palavras ONDE ESTÁ O AMOR. Penso que faltará o ponto de interrogação mas, no meio da desolação que a imagem representa, talvez isso seja pormenor.



.                        Onde está o amor                               .


Mais à frente, no vidro de uma loja, outra surpreendente inscrição, agora uma citação de Eleanor Roosevelt. A loja devia estar em redecoração pois a montra estava coberta por um papel cinzento. E então a inscrição, a branco, projectava-se, a cinza mais escuro, sobre o papel por baixo. Fiquei encantada. Tenho ideia que aquela loja vende bugigangas, bijuterias, vestidos de algodão indiano, sandálias, sacos de pano, coisas assim. E os donos lembraram-se de serigrafar aquela frase no vidro...? Tem graça, não tem?



'O Futuro pertence àqueles que acreditam na beleza de seus sonhos', Eleanor Roosevelt


Como, por estes dias, não consigo interessar-me por nada de desagradável ou de profundo, ocupei a minha mente com um pensamento estival (ou superficial?): poder-se-á estabelecer alguma relação entre aquelas duas inscrições? O amor ou o desaparecimento do amor terá que ver com cada um  querer continuar a acreditar na beleza dos seus sonhos?

Não sou, em geral, dada a dissertações académicas nem a raciocínios muito aprofundados e, agora, nesta altura do ano, ainda menos. Por isso, não vou tentar rebater ou confirmar, muito menos elaborar cientificamente sobre o tema.

Direi apenas que penso que o amor é algo de fundamental na vida; e, quando me refiro ao amor, penso no amor entre duas pessoas, sejam ou não de sexos diferentes. Claro que há amores ainda mais fortes e incondicionais como o amor a filhos, netos, pais, mas não é a essas formas de amor consanguíneo que me refiro. 

Claro que há pessoas que vivem muito bem sozinhas, sem amores, ou que encontram formas de amor que as realizam e que são igualmente compensadoras: o amor a um deus, o amor a causas humanitárias, o amor por animais, etc. 

Mas eu disso não tenho uma experiência muito forte pelo que não vou aventurar-me por aí. 

Contudo tenho uma experiência razoável no que se refere a sentir amor por uma pessoa de outro sexo.

Desde que me lembro sempre me senti atraída por pessoas do sexo masculino. As minhas primeiras memórias estão ligadas ao meu primeiro amor. Eu abraçava-me a ele e dava-lhe beijinhos e dizia que estava 'rapaixonada', o que divertia quem assistia àqueles arroubos. Diziam-me que era apaixonada que se dizia mas eu não acreditava, não me soava bem, a palavra parece que ficava mais fraca sem aquele motor de arranque do 'r' no início da palavra. Isso foi muito antes dos 4 anos, antes de entrar para a escola infantil.

Grande parte das minhas memórias estão muito ligadas aos meninos de quem eu gostava ou que gostavam de mim. Acho que até hoje não houve um dia em que o meu coração não estivesse ocupado, por vezes apenas por um amor, algumas vezes por mais do que um.

Amores a sério tive talvez esse primeiro menino e esse amor infantil durou até ao final da primária (embora, pelo meio, eu tivesse acumulado com vários amores passageiros), depois um outro que era filho de colegas da minha mãe, um muito doido, que fazia maluqueiras para mostrar que gostava de mim e que fazia rir os nossos pais por tamanhas demonstrações de amor (esse, infelizmente, muitos anos mais tarde e já casado, pôr termo à vida, o que muito me impressionou pois não consegui reconhecer nessa pessoa que deixou de amar a vida o meu apaixonado e acalorado namorado dos primeiros anos de liceu).

A seguir veio o meu primeiro grande amor.

Esse meu grande amor aconteceu aos 12 anos e veio avassalador. Tudo o que se prenunciava nos meus infantis amores anteriores, aqui revelou-se em toda a sua força. Era uma paixão tremenda e era mútua. O meu coração disparava quando ele se aproximava. Aos 13 anos o meu corpo revelou-me que, nisto do amor, o corpo é parte interessada. As festas de ano em que podíamos dançar agarradinhos eram uma festa.

Era um rebelde. Já aqui falei dele algumas vezes. Era inteligentíssimo mas era um rebelde, desafiava pelo gosto de desafiar, metia-se em trabalhos, jogava muito bem futebol mas volta e meia andava à pancada, no recreio também andava por vezes na tareia e depois era chamado para repreensões, andava de motoreta e fazia arriscados cavalinhos, até na bicicleta ele fazia piruetas malucas e partiu parte dos dentes da frente; e eu vibrava com tudo isso. Até gostava ainda mais do ar irreverente que os dentes partidos lhe davam e defendia-o permanentemente junto dos professores que davam em doidos com o que ele fazia, tanto mais que era um aluno brilhante. Mas sendo os dois temperamentais, o nosso amor era uma montanha russa. Todos os dias nos zangávamos, todos os dias fazíamos as pazes. Até que entrámos num registo zen, um amor tranquilo e amigo, cúmplice. Era como se tivéssemos atingido uma certa maturidade. Tínhamos, então, 15 anos. Eu estava perdidamente apaixonada e ele por mim. Uma professora nossa chamava-lhe o Romeu e a mim a Julieta e isso pegou, volta e meia chamavam-nos assim. Era mal comportado, metia-se com a polícia e passou algumas noites na esquadra, era um verdadeiro enfant terrible mas, se lhe punham um poema à frente, lia com paixão e entrega e punha-nos, a todos, arrepiados e transidos de emoção.

Até que apareceu outro que se perdeu de amores por mim, que me fez poemas e canções, que demonstrava publicamente o seu amor, que desafiava o meu relacionamento 'oficial'.

Isso gerou tantos incómodos e tantos ciúmes que, estupidamente, por um daqueles acessos de orgulho imaturo, deixei que aquele grande amor fosse afectado.

Comecei então a namorar este novo apaixonado. Nos primeiros tempos o meu coração estava ainda cativo do meu outro amor mas, por orgulho, nunca o demonstrei. E esse meu grande amor, vendo a minha reacção e vendo-me a namorar com o seu rival, afastou-se debaixo de grande sofrimento. Os amigos comuns vendo o que se passava tentavam que cada um cedesse mas nenhum de nós o fez. Deixou de ir às aulas, perdeu o ano por faltas, arranjou amigos de hábitos duvidosos e toda a gente temeu pelo seu futuro. Depois de um período muito complicado lá conseguiu reencontrar o seu caminho e há tempos vi a sua fotografia, grisalho, com um pouco de barriga, um homem que eu não reconheço. Apenas me parece ver, no sorriso de boca entreaberta, os dentes da frente meio partidos.

O meu namorado era, então, um jovem mais velho um ano que eu. Eu tinha 16, ele 17. Ele gostava tanto mas tanto de mim que eu, durante bastante tempo, confundi o gosto de ser gostada de uma forma tão arrebatada e tão brilhantemente cantada, com o gosto de gostar. Eu era a sua musa e que belos poemas ele fazia, e que belas canções ele fazia, e que bela voz ele tinha ao cantar aquelas belas canções. Era alto, tinha uns olhos azuis violeta, umas pestanas grandes e um vozeirão. E toda a gente se encantava com aquele amor enorme que ele tinha por mim. Mas, com o tempo, tanto amor a mim começou a pesar-me. Eu era a vida dele. Eu era o seu futuro, a sua inspiração, a sua razão de viver. E isso era demais para mim. Na altura ainda não o sabia mas soube-o mais tarde: não gosto nem aceito ser a vida de alguém que não eu. Mas, apesar disso, eu gostava muito dele. Éramos grandes companheiros.

Fomos então para a Universidade, cada um para a sua. Eu tive, nessa altura, outros pretendentes. Achava graça, gostava de ser cortejada; mas nenhum me fez mudar de rumo.


Dance me to the end of love, if you please


Madeleine Peyroux
(Não consegui incluir aqui a versão original do Leonard Cohen)



Até ao dia em que, do nada, saíu o homem mais bonito que eu tinha alguma vez visto. Já aqui descrevi esse momento, acho eu. Ele tinha um físico fantástico, andava como se fosse um modelo ou um desportista (e mais tarde soube que tinha sido convidado para desfilar e que era, de facto, desportista federado), tinha um rosto fantástico e vestia-se de uma forma que me agradava muito.  No meio de uma multidão de gente, eu vi-o e fiquei presa a ele e ele, no meio da multidão, rodou a cabeça e fixou em mim o seu olhar. Nesse momento, só por aquele olhar e por ele ser fisicamente como era, senti, sem qualquer dúvida, que aquele era o homem da minha vida.

Mas perdi-o de vista, não sabia quem era. Por mais de um ano, andei desencontrada dele. Se calhava, de muito vez em quando, cruzar-me com ele eram sempre aqueles longos e carnais olhares. Nada sabia dele mas aquele corpo, aquele rosto, aquele olhar estavam reservados para mim, e isso eu sabia. Contou-me ele depois e só porque insistentemente lhe perguntei que, nessas alturas, os pensamentos dele em relação a mim eram muito prosaicos (e não os posso aqui revelar).

Eu continuava a namorar com o poeta cantor mas o meu coração estava pouco convicto, e continuava a ter pretendentes e continuava a pensar no belo desconhecido e a vida continuava.

Até que, um dia, já o meu namorado poeta-cantor fazia planos de casamento para o curto prazo, planos que eu ouvia com um crescente pesar no coração, me voltei a cruzar de novo com aquele jovem mais bonito que nenhum outro e de quem eu ainda nada sabia, excepto suspeitar que era ele o namorado muito louvado de uma antiga colega minha de liceu. E, então, sem querer saber de mais nada, fartei-me daqueles olhares e, porque a ocasião se proporcionou, comecei a falar com ele. Logo nesse dia foi levar-me a casa e até hoje nunca mais nos separámos.

Durante uns meses ainda vacilei. Contra a certeza jurada de um amor eterno, contra as outras belas palavras de amor, este nada me oferecia ou garantia. Nada. Poucas palavras, palavras apenas relativas ao momento presente. Estava pouco habituada a isto mas, nestas poucas palavras, eu sentia uma intensidade maior que qualquer outra antes.

E então, uns meses depois, e sendo-me cada vez mais difícil gerir a agenda já que os dois sabiam da situação e queriam exclusividade, finalmente rompi o namoro com o namorado que antes se recusava a aceitar que aquele amor eterno, ideal, idealizado, tinha chegado ao fim. Acabei da pior maneira, um bocado à bruta porque não consegui fazê-lo por consenso, a bem. Foi um fim doloroso e sei o sofrimento que causei.

Vejo-o por vezes em fotografias nos jornais ou em acontecimentos públicos. É um homem maduro, grisalho, com pouco cabelo, engordou um pouco mas mantém o garbo e a pose e o tom de voz é o mesmo. Foram anos difíceis para ele e durante muito tempo senti que a sua presença era uma sombra na minha vida, aparecia-me onde menos eu esperava, parecia que adivinhava os meus passos.

Algum tempo depois desse dia em que ouvi pela primeira vez a sua voz, apaixonada, mas mesmo muito apaixonada pelo jovem de poucas palavras, casei. Era uma miúda, tal como ele. Casámo-nos apaixonadíssimos, ainda estudávamos.

Já lá vão muitos anos mas o amor é o mesmo, talvez ainda maior. Mais de metade da minha vida foi passada ao seu lado. Desde o primeiro dia tornámo-nos inseparáveis e, em conjunto, temos construído a nossa vida. Não abdiquei de nenhum sonho, continuo a acreditar no futuro, continuo a ser quem sou. Connosco a porta está sempre aberta e ninguém prende ninguém. E as janelas estão também sempre abertas e por elas vejo o mundo e traço os meus próprios sonhos.

Onde está o amor? Para mim o amor está no carinho, no respeito, no companheirismo, no desejo, na atracção física que não se explica, na compreensão, na dádiva, na empatia e na sintonia, na comunhão de objectivos, na indispensabilidade da presença do outro - mas também no amor próprio, na defesa intransigente da própria vontade, no prosseguimento activo dos próprios sonhos.

Não sou nada de achar que um amor para se prolongar no tempo tem que ser discutido, conversado, que tem que se saber tudo um do outro, ou que um deve abdicar da sua vida pela vida do outro, ou coisas dessas que tantas vezes leio e ouço por aí.

Pelo contrário, acho que abdicar dos sonhos para fazer a vontade ao outro ou afogar uma relação em palavras, em esgaravatar até doer, em querer saber tudo até à minúcia, é contraproducente. Cada um tem que ter direito aos seus silêncios, aos seus segredos, à sua vida própria. Só isso dará a cada um a necessária liberdade para, a cada dia, estar com o outro por livre vontade e não por obrigação.


E vou calar-me porque já escrevi demais, é sempre isto, começo a escrever e perco a noção que posso maçar os meus leitores com textos tão longos.

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Hoje estivemos todos juntos, pais, filhos, netos. Vocês haviam de ver as fotografias que me tiraram. Como sou sempre eu que fotografo, tenho poucas fotografias com eles. Então, pedi para a minha filha me tirar uma fotografia com os 4 pequeninos. Como os meus não são da realeza nem modelos da Anne Geddes, não se consegue uma fotografia em que estejam todos muito arranjados, sossegados e a olhar para a câmara. Pelo contrário, com excepção do recém-nascido, cada um quer fugir para seu lado. Então aparece o braço do meu filho, atravessado ou a tentar agarrar os que se querem esgueirar. Mas, noutras fotografias, o meu filho achou que era melhor também aparecer já o meu bisneto e então, no meio daquela confusão, apareço eu com um Nenuco ao ombro e, noutras, com o Nenuco a espreitar por cima da minha cabeça e eu, perdida de riso, enquanto tento endireitar o bebé para ele se ver melhor e os outros em completa debandada. Há pouco, ao rever as fotografias, já aqui me fartei de rir.

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E, por hoje, nada mais (e já não foi pouco, não é...?)

Tenham, meus Caros Leitores, um belo dia!