Há um aspecto nas cidades portuguesas que é muito diferente do que se pode encontrar noutras cidades europeias. Não precisamos de ir muito longe, basta ir aqui ao lado, a Espanha. Se estivermos depois das cinco da tarde na Plaza Colón ouviremos como que um muito sonoro chilreio: são crianças. Montes de crianças. Correm, brincam, chamam umas pelas outras, riem. Grande parte está com as empregadas, grande parte delas da América do Sul. Mas o que verdadeiramente impressiona é a quantidade de crianças. Numa outra cidade espanhola, aquela que prefiro, em minha opinião uma das mais belas cidades euopeias, San Sebastian, a Donostia do País Basco, também, a partir de meio da tarde, as ruas e os jardins estão cheios de crianças, aqui já muitas com os pais e não tanto com as babás como no centro do Madrid. Em Amesterdão, tenho ideia que é ao longo de todo o dia que se vêem jovens mães ou pais com crianças nas bicicletas. Tantas crianças.
Por cá, durante a semana, pouco se vêem. Não apenas não há muitas crianças como as poucas que há têm que ficar nas escolas até tarde já que os pobres pais têm que trabalhar até tarde e, depois, enfrentar longos e demorados percursos, presos no trânsito.
Por cá, durante a semana, pouco se vêem. Não apenas não há muitas crianças como as poucas que há têm que ficar nas escolas até tarde já que os pobres pais têm que trabalhar até tarde e, depois, enfrentar longos e demorados percursos, presos no trânsito.
Se há aspecto francamente descurado por todos os governos, incluindo pelo da geringonça, é o demografia. É certo que tem havido uma ou outra medida mas, reconheçamos, nada que seja efectivo, tudo muito em ponto pequeno, medidas desgarradas, timoratas. E, por isso, não espanta que os resultados sejam tão desoladoramente incipientes.
Uma das filhas da senhora que vai ajudar a minha mãe a tratar do meu pai vive na Alemanha e tem duas filhas pequenas. As licenças de maternidade são extensas, os horários são reduzidos enquanto as crianças são pequenas, o ensino é completamente gratuito, incluindo todo o material escolar, e nem sei que outros apoios tem, pois, volta e meia, quando me contam, fico tão admirada que acabo por não fixar, quase como se fosse uma quimera em que nem vale a pena pensar. Apesar de não ter um emprego por aí além e de ser emigrante, ela não teve qualquer problema em ter uma criança e, pouco tempo depois, uma outra. E quando fala com a mãe, via Skype, está fresca e bem disposta, nunca se queixando de nada.
Um país com muitas crianças é um país com futuro, em que a população pode viver tranquilamente, encarando o futuro com tranquilidade, sem o peso do receio de uma possível falência de sistemas de segurança social. Em países como Portugal, em que há cada vez menos pessoas a entrar como novos contribuintes para um sistema repleto de idosos que vivem cada vez até mais tarde, paira sempre sobre o pescoço, em especial dos que caminham para a madura idade, o receio de que o cutelo do corte das pensões empobreça a sua velhice.
Por isso, é vital que se reforcem todos os apoios ao incremento da natalidade, e que se seja criativo, arrojado, que se tenha uma visão abrangente -- que haja subsídios de apoio ou redução fiscal (o que for mais eficaz) para famílias com crianças, que haja infantários e escolas públicas, obviamente gratuitas, com actividades e horários alargados e funcionando todos os meses do ano, que haja amplo apoio pediátrico, que se reduzam os horários para pais com filhos até aos doze anos, que se fomente o teletrabalho, que haja uns quantos dias para ausências para que os pais possam acompanhar os filhos, que haja também alguns dias para avós que tenham que prestar apoio aos netos.E estou a escrever ao correr da pena. Mas que se abra um debate público, que se faça um inquérito junto de jovens pais para saber quais as suas dificuldades e outro junto dos que não têm filhos para saber o que receiam.
Dir-me-ão que receiam os ordenados baixos o desemprego. Claro. Mas isso combate-se com uma economia pujante -- e é outro lado da equação.
E não é apenas para a sustentabilidade dos sistemas contributivos que é indispensável ter um equilíbrio demográfico: é também porque cidades sem crianças pequenas e sem jovens irreverentes são cidades soturnas, tristes. E, quem diz cidades, diz vilas ou aldeias.
E, enquanto não estejam no terreno todas essas medidas e que comecem a produzir efeito, pois que se incentive a imigração.
E aceitem-se miúdos de países em risco, famílias de refugiados com filhos pequenos. E 'importem-se', por exemplo, médicos e enfermeiros.
E, enquanto não estejam no terreno todas essas medidas e que comecem a produzir efeito, pois que se incentive a imigração.
E aceitem-se miúdos de países em risco, famílias de refugiados com filhos pequenos. E 'importem-se', por exemplo, médicos e enfermeiros.
Não os há que cheguem nos hospitais porque cada vez há mais clínicas e hospitais mas as Faculdades de Medicina são basicamente as mesmas. Como é que os médicos e enfermeiros hão-de ser suficientes? Não são, claro. Mas não é drama: incentive-se a vinda de médicos de outros países.Ou engenheiros informáticos, que estão também em falta. Ou engenheiros de ambiente, engenheiros sanitários, engenheiros de materiais, ou físicos ou bioquímicos, ou gente que venha investigar seja o que for. Muita falta nos fazem. Todos os que cá tivermos serão sempre poucos.
E, já agora: uma vez que começam a rarear muitas profissões, criem-se muito mais escolas técnico-profissionais onde se ensine a ser electricista, canalizador, mecânico, instrumentista, torneiro, etc, para ter oferta diversificada a nível de ensino, incluindo para jovens que não querem fazer cursos superiores.
E outra coisa. Uma muito importante.
Estou a falar de algo que, em meu entender, é vital nas cidades para lhes dar vida, uma vida jubilosa, uma vida com irrequietude de espírito, alegria e criatividade: a arte.
E outra coisa. Uma muito importante.
Estou a falar de algo que, em meu entender, é vital nas cidades para lhes dar vida, uma vida jubilosa, uma vida com irrequietude de espírito, alegria e criatividade: a arte.
Uma vez escrevi uma carta ao presidente da autarquia com um conjunto de sugestões: que enchesse as ruas de arte, que oferecesse prémios e bolsas para artistas que fizessem trabalhos para a cidade, que tivesse residências e ateliers para artistas vindos de onde quisessem vir, que tivesse galerias públicas.A arte atrai bons espíritos, atrai mais gente, e mais gente atrai mais trabalho e prosperidade, maior qualidade de vida e maior qualidade de vida é segurança, e segurança e qualidade de vida dá mais vontade de criar família, de ter crianças, de renovar o mundo.
Terras sem artistas, sem arte pública, sem comunidades de artistas vibrantes, criativos, diferentes, são terras tristes, ensimesmadas, com tendência ao esvaziamento, terras com triste futuro.
É outro aspecto fundamental nas políticas públicas: muita arte, arte ao dispor de todos, arte a inspirar todos.
Forte apoio à natalidade, forte apoio à imigração, forte apoio às artes -- são três medidas que espero que estejam bem presentes no programa do próximo governo. Isso a par da defesa do planeta que, espero bem, há-de ser uma das principais causas dos anos que aí vêm.
Claro que muito mais que isto. Bibliotecas públicas abertas de manhã à noite e ao fim de semana, também, por exemplo. E mais, claro. Mas a estas políticas a que aqui dei destaque eu dou total importância. E defendê-las enche-me de entusiasmo, como se tivesse uma suave brisa a tocar-me o rosto, como se tivesse os braços cheios de braçadas de flores, como se tivesse outra vez dez anos e largasse a correr por um sinuoso caminho descendente, a saia voando, os cabelos compridos pelos ares, eu com a vida pela frente, eu ainda nunca desiludida, eu ainda inocente e crente na força da minha vontade.
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E, já agora, queiram dar uma espreitadela a este lugar onde fervilha a arte: Dubai
E outro: Leipzig
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E para o Leitor que hoje chegou aqui depois de ter escrito num motor de busca 'o que é a beleza de uma mulher', aqui deixo uma possível receita:
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Usei pinturas de Georgia O'Keeffe e o Smile pela Madeleine Peyroux para dar alguma graça a este post. O título é um excerto do poema Eternidade de Maria Teresa Horta
E desejo-vos uma feliz quarta-feira































