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sábado, dezembro 20, 2025

Dia pré-natalício com três dos meus crescidos e queridíssimos ex-pimentinhas

 

Dia de ida às compras com os meninos. Quando eram pequenos, irrequietos, traquinas, truculentos, brincalhões, referia-me a eles como pimentinhas. Agora já não faz sentido, estão crescidos, enormes, bem comportados, responsáveis, sossegados. 

O mais pequeno não foi, ainda tem colégio e, de resto, não teria paciência para este programa. E um dos guarda-redes (são três) está com uma valente gripe, com febre. Por isso, também não foi. Tem que se pôr bom até ao Natal... (já para não dizer que está proibido de contagiar alguém da família).

Foi o mais crescido, a menina e o seu mano, ambos também já crescidos. De qualquer forma, ocuparam-se também das compras para os não presentes. Gostam de escolher a sua roupa, os rapazes aconselham-se entre si, a menina opina, ajuda, decide, organiza. Já é a opinião deles que prevalece. Sabem o que querem, têm bom gosto, têm bom senso. Sinto gosto em estar no meio daquela dinâmica.

Claro que, no caso dos rapazes, ainda me custa a perceber a estética das calças baggy. 

Mas, como já as há super baggy, quase já acho as primeiras ligeiramente  normais.

Para se perceber o estado da arte a nível da evolução destes meus fofos, cumpre-me ainda reportar que o mais crescido, com o seu próprio dinheiro, foi depois comprar um presente para a namorada. Como a menina-namorada não me lê, posso adiantar que se tratou de um anel. Contudo, disse que não queria que fossemos todos atrás. Percebemos, claro. No entanto, condescendeu a que o primo o acompanhasse. A prima ficou um pouco desconsolada. Eu aproveitei para ir à casa de banho e o meu marido ficou à minha espera. Face a isso, a minha menina resolveu que, assim sendo, ia ter com os rapazes. E foi.

Depois, quando fomos comprar a roupa dela, os rapazes ficaram no sofá cá fora, creio que a jogarem qualquer coisa ou a discutirem futebol, tema que os convoca em permanência, muitas vezes em animadas picardias (um do Sporting e outro do Benfica).

Dali partimos para a segunda parte do programa de festas: uma ida até às almôndegas do IKEA. Claro que nem eu nem o meu meu marido alinhámos na mesma ementa. Almoçámos bem. Eu comi bacalhau com migas, o meu marido pernil, e, para ambos, uma fatia partilhada de cheesecake de mirtilos. Bem bom. As mesas estavam cheias, mas o menino mais crescido sabia da existência de uma sala no piso superior e, portanto, estivemos à larga, na maior. Começo também a gostar desta parte do programa. 

Depois, para o menino doentinho não ficar com pena de não participar no repasto, levámos-lhe um saco de almôndegas congeladas e uma embalagem de molho. Em princípio, a minha filha terá preparado o petisco para o jantar.

Ainda demos uma volta por lá e, a seguir, fomos entregar os meninos e buscar o fofo cãobeludo que tinha ficado na creche dos dogs e que, como sempre, ao ver-nos, fez uma festa entusiasmada, saltando e andando em nossa volta, a dar-nos turrinhas e beijinhos, parecendo mesmo que se ri.

Claro que, depois disto, não tenho grande pachorra para falar das habilidades do Marques Mendes, o facilitador, o espertinho, o optimizador dos seus próprios impostos. Nem tenho disposição para falar do debate do taberneiro com o Cotrim. Aquele taberneiro cansa-me.

Depois, adormeci. 

Agora, antes de me retirar para os meus aposentos, vou ver se os ficheiros libertados do Epstein não estão todos tingidos de preto.

E um bom sábado!

segunda-feira, agosto 25, 2025

Um dia em forma de assim

 

Hoje foi dia de rega manual. O sistema de rega não chega a todo o lado, nomeadamente a vasos ou a trepadeiras ou arbustos plantados no terraço. Já devo ter contado que é tarefa minha e que a faço de gosto, geralmente com pouca roupa vestida e descalça. A pouca roupa não se prende só com o facto de ser encalorada mas também porque ao puxar pela mangueira, volta e meia alguma coisa se solta e apanho um valente banho. Não me importo nada, sabe-me até bem, mas assim é mais fácil de secar do que se andasse vestida da cabeça aos pés. E isso foi uma das partes boas do dia.

Há alguma relva que parece não querer ficar saudável e verdinha e temos vindo a adiar a decisão de a substituir, nesses sítios, por outra coisa, supostamente por um tal trevo branco anão. Teremos que ir comprar as ditas sementes, ver qual a melhor altura para a semeadura, depois deitar mãos à obra e tapar. Sempre que tentámos semear qualquer coisa, nomeadamente relva, não tivemos esse cuidado e os pássaros chamaram um figo às sementinhas. 

Tirando isso, tivemos que ir à cidade pois temos andado com uns certos e determinados compromissos, coisa que tem dado algum trabalho e que a mim me tem trazido um bocado enervada pois sou muito germanófila no rigor do cumprimento do que se combina e tenho que tentar controlar-me para não mostrar excessiva irritação quando lido com pessoas que se estão a marimbar para o que está acordado, que acham que tanto pode ser assim como assado, tanto pode ser agora como quando calhar e que consideram que os compromissos estabelecidos foram um mero pro forma que não interessa nem ao menino jesus. O meu marido tenta pôr água na fervura e os meus filhos também aconselham alguma relativização. Mas, para mim, há uma ética, que é inegociável, no cumprimento dos compromissos. Não me desvio um milímetro do que se combinou e respeito escrupulosamente os outros. Por mais que me digam que ética é coisa que escasseia ou que gente imprestável é o que mais não falta, a mim custa-me fazer de conta que está tudo bem quando está tudo virado às avessas. Apetece-me espernear à força toda, confrontar ou penalizar quem se está nas tintas para o rigor, para a ética, para o respeito.

Mas, enfim, também compreendo que a vida é mais do que o somatório de todas as pequenas parcelas que a constituem, pelo que, por vezes, mais vale passar por cima das parcelas enviesadas, fazer de conta que nem as vemos, e tentarmos focar-nos nas parcelas escorreitas e na seiva que as irriga e nos bons sentimentos que alavancam o nosso bem estar. 

Portanto, siga o baile.

Estando na cidade, passámos por uma daquelas lojas de pão da moda, daquelas todas xpto, todas alto décor (e alto preço), todas biológicas e artesanais. Foi o meu marido que deu por ela e que sugeriu que entrássemos. O cheirinho daquilo é altamente convidativo. Esfomeada como sou e altamente amante de pão, fiquei logo cheia de vontade de experimentar aquelas variedades mais estranhas. Mas, depois, lembrei-me que, agora que os três leões da família também já fizeram a festa toda (depois de me terem feito comer bolo e mais bolo... isto a seguir aos três caranguejos), está mais que na altura de voltar a tentar fechar a boca. Portanto, foi o meu marido que escolheu: um de espelta e outro de centeio, tudo massa mãe. Mas depois vi uma focaccia de azeite e de alecrim e não resisti. Vi também um brownie de chocolate e pistácio e também não. Mas, em minha defesa, direi que não era um brownie, era uma partíula de brownie, ainda por cima uma partícula estupidamente minúscula. Cada um de nós dois deu uma dentada e o bolículo desandou. Mas era bom. Lá isso não vou negar. Não resisti também a uma espécie de pãozinho fofo com uns tininis de coco. Mínimo também. Não sabe a nada nem é doce. Não achei graça. O meu marido disse que não era mau.

E, feita maria deslumbrada de visita à cidade, ao passar por uma loja de coisas para a casa, entrei e, como sempre, fiquei estupefacta com a quantidade de apetrechos para tudo e mais alguma coisa. Resisti a trazer toda a espécie de bugigangas, algumas das quais tinha que ler na embalagem para perceber o que eram e para que serviam de tão desconhecidas para mim. Mas trouxe uns individuais para a mesa da casa in heaven pois os que lá temos já estão um pouco usados e é mais fácil usar individuais laváveis do que, de cada vez, estar a usar uma toalha grande que tem que ser lavada na máquina. 

E esta parte de ir à padaria ou à loja das coisas para a casa também foi boa. E as caminhadas que fizemos também foram boas. O tempo já está mais fresco, sabe bem voltar a sentir este arzinho que já prenuncia o doce outono.

Portanto, vendo bem as coisas, o dia até não foi mau de todo.

E bola para a frente porque para a frente é que é caminho. É ou não é? 

sexta-feira, agosto 01, 2025

Na ressaca de uma ida às compras, com o corpo habituado ao descanso e ao silêncio

 

Quando estamos no campo, o tempo flui de uma outra maneira. Durmo mais, levanto-me tarde e isso não atrapalha o resto do dia porque tudo corre tranquilamente, quase como se o tempo deslizasse com todo o vagar.

Com o calor que tem estado, só se consegue estar bem dentro de água ou dentro de casa. Só ao fim do dia se consegue andar na rua. E, ao fim do dia, com a doçura do entardecer, tudo é serenidade. O tempo em tardança.

Sou eu e é ele: zen, zen, zen
Ainda hoje, no campo, à sombra, a dormir descansadamente

Portanto, com este ritmo pausado, o meu corpo parece desabituar-se da agitação, do movimento.

Aconteceu-me hoje um banho de imersão num bem animado shopping. Já no outro dia, quando um dos meninos fez anos, fomos às compras com ele (e com o mano). Mas a transição do campo para a cidade não foi como hoje, foi mais rápido e só um dos rapazes estava comprador. 

Hoje, com dois leõzinhos em vias de fazerem anos, de presente quiseram também ir às compras. Só ao fim da tarde porque antes estiveram na praia. 

Ele despachado, muito pragmático. E impaciente. No capítulo das compras, igual ao pai. Antes tinha-nos avisado qual a hora limite pois tinha que estar em casa a tempo de tomar banho e jantar para, quando começasse o jogo, queria estar a postos em frente da televisão.

Ela é outro comprimento de onda. Disponível para avaliar todas as opções, com gosto em experimentar tudo, sem pressa. Neste capítulo, igual à tia. Disse o irmão que, só por saber que ele se queria despachar para não perder pitada do jogo, já ela fazia tudo mais devagar. Ela disse que não mas não sei se, lá no fundinho, ela não se importou nada de não corresponder às pressas dela. Contudo, penso que, nela, é, sobretudo, o prazer de ir às compras e de experimentar toilettes. Compreendo-a. Não posso esconder que sou também assim. Talvez não agora, em que me forço a não ceder ao consumismo, mas, antes, o prazer que sentia em adquirir farpelas novas era grande e sempre renovado.

Portanto, gerir estas duas personalidades e motivações, foi uma coisa um pouco complexa: ele desesperado, farto, irritado, ela nas calmas, nas sete quintas. 

Entretanto, o meu marido resolveu levar o cão, mas, logicamente, ficou lá fora a passeá-lo. Não sei se imaginou que seria rápido mas, se imaginou, imaginou mal. Por isso, também desesperava, telefonando-me volta e meia a pedir-me um ponto de situação, dizendo que já não conseguia andar mais tempo às voltas. Pelo meio, ligou-me também o meu filho a querer saber onde andávamos pois daí a nada começava o jogo, e, perante o ponto de situação, disse-me que eu não estava a gerir bem as prioridades. Talvez, mas perante abordagens contrárias, até conflituantes, que poderia eu fazer?

Segundo ela, foi o irmão que ligou aos pais a queixar-se dela e a mostrar o seu desespero. Não vi mas ele não negou. 

No final, ela já estava bem abastecida, embora ainda com um item em falta, ele ainda quase sem nada.  Vi o caso mal parado. Ele já não queria nada para ele nem queria que a irmã fosse comprar o que lhe faltava. Tive que convencê-lo, iríamos a correr, tudo muito rápido. Não podia ser ficar praticamente sem presentes. Respondeu-me que logo comprava, noutra altura, e depois logo dizia quanto tinha custado. Disse-lhe que isso não tinha jeito nenhum. Uma negociação difícil. Com a promessa de que despacharíamos o assunto em poucos minutos, lá acabei por convencê-lo e lá se resolveu tudo. Mas disse que não volta a ir às compras ao mesmo tempo que a irmã. E, de facto, mais vale tratar do assunto em duas expedições distintas, uma para cada um.

Mas, enfim, entregámo-los em casa resvés campo de ourique, presumo que ainda conseguiu ver o futebol todo (não sei se teve tempo para o banho e se não teve que jantar em frente da televisão...). Os primos, em contrapartida, gentileza do tio que lhes arranjou bilhetes, viram-no ao vivo, no Algarve.

Agora o que acontece é que, desabituada de estar no meio de muita gente, desabituada de algum stress (por irrelevante que seja), desabituada de pressas, chegada a casa, quando acabei de jantar, sentei-me aqui no sofá e foi como se estivesse anestesiada: caí num sono profundo. Não imaginam. Não conseguia acordar. Ferrada, ferrada, ferrada, como se tivesse vindo de correr a maratona.

Não sei se é desábito, se é deste calor ou se é de outra coisa: no outro dia o meu marido disse-me que eu passo meses sem ver a tensão arterial. Muito instada por ele, acabei por ir ver e estava baixíssima: a máxima parece que estava em 10 e picos e a mínima nem chegava aos 5. Na volta, também é isso.

Com esta situação, como poderão imaginar, nem faço ideia do que se passa no mundo nem consigo agradecer e responder os comentários. Vou retirar-me para os meus aposentos.

quarta-feira, abril 16, 2025

Conversa típica de pensionista. Ou de avó. Ou das duas coisas.

 

Bem. Hoje a ver se não me deito muito tarde pois a noite passada acordei algumas vezes, a ver as horas previsíveis de aterragem, a acompanhar o voo nos céus (de facto, a tecnologia é extraordinária), etc. 

O voo tinha partido com atraso e eles tinham dito que saíam mais tarde pois os sistemas não respondiam. Depois que estavam a testá-los, etc. Fiquei assim a modos que um pouco inquieta. Um voo de várias horas sobre o oceano não oferece muitas hipóteses de recuo numa situação de atrapalhação. 

E depois, ainda cedo, chegou uma mensagem. Não podiam ser eles. Assustei-me. Era uma daquelas notificações desnecessárias. Habitualmente tiro as notificações durante a noite pelo que, se chegam, não dou por elas. Mas, quando há viagens de noite, não tiro. E, portanto, sobressaltei-me e já quase não consegui voltar a dormir. 

Felizmente chegaram bem e até praticamente a horas. O piloto comeu o atraso. Deve ter apanhado ventos de feição. 

Mais de metade da turma tinha ido fazer férias grandes (11 dias) para os States. Nós, que ficámos, conseguimos acompanhar os passos dos turistas através das fotografias, vídeos e telefonemas que foram fazendo. No cômputo geral, a pé fizeram 135 km. Sendo que vários são crianças, dos 8 aos 16, é obra. Visitaram cidades, ruas, edifícios, parques naturais e de diversões, museus de todo o tipo, zoos, viram desfiles, jogos de basket e outro de que não me lembro o nome, e sei lá que mais. Uma alegria e umas férias memoráveis, embora, apesar de terem adorado a viagem, algumas das coisas que viram deixaram-nos digamos que algo desconfortáveis.

Entretanto, um dos meninos, imagine-se bem, foi 'assinar' por um outro clube que o 'caçou'. Aquela coisa dos olheiros é mesmo realidade. Portanto, agora vai jogar numa equipa da 1ª Divisão do Nacional (creio que é assim que se diz). Ou seja, mais treinos, mais preparação física, jogos em todo o País. Os pais cada vez mais 'presos' face a estas exigências e às deslocações que isto implica pois o estádio não é propriamente ao lado de casa. Claro que haveria sempre a possibilidade de dizer que não. Mas isto marcaria para sempre o menino que adora futebol, que é óptimo no que faz (era ele bem pequeno e já o meu marido comentava que o achava especialmente dotado para aquilo) e que está felicíssimo. E há o compromisso de não deixar que isto afecte  o desempenho escolar. Ou seja, um desafio para ele e para os pais.

Tirando isto tenho a dizer que fomos ao supermercado e que fizemos as compras mais caras de sempre, e isto apesar de não termos comprado nem extravagâncias nem nada em grande quantidade. Não há dúvida que os preços estão cada vez mais altos, alguns mesmo estupidamente altos. Vinha para o carro e a olhar para o talão na esperança de detectar algum engano. Mas não dei. Mesmo assim não deitei fora para poder voltar a conferir. Uma barbaridade. Dei por mim a equacionar o que é que, se tivesse menos dinheiro, cortaria ou trocaria. Deixaria de comprar chocolate preto, pois o chocolate está uma exorbitância. Deixaria de comprar cápsulas de café pois também estão caras. O meu marido teria que deixar de comprar cerveja ou teria que racionar. Deixaria de comprar carne de vaca (e já compro pouquíssima, não pelo preço mas porque evitamos muita carne vermelha). Deixaria de comprar corvina ou maruca, teria que escolher um peixe mais barato. Mas batatas, cebolas, azeite, laranjas, maçãs, iogurtes, coisas assim, teria que comprar. Só que, na realidade as coisas estão todas muito caras e quem ganhe pouco deve ver-se aflito para ter uma alimentação decente. 

Mas, pronto, hoje fico-me por aqui. Vou dormir. 

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Um dia feliz 

sexta-feira, janeiro 10, 2025

Diane Morgan: Philomena Cunk adoraria entrevistar Elon Musk.
E eu adoraria ver.
Mas, por enquanto, fico-me pela descrição do meu dia na capital

 

Hoje o nosso programa de festas levou-nos para os interiores da capital. 

Nado e criado em Lisboa e toda a vida aí tendo trabalhado e eu própria tendo ido viver para Lisboa com 17 anos e tendo igualmente trabalhado aqui até há pouquíssimo tempo, tendo ambos que circular, frequentar e estar por dentro dos circuitos da cidade durante toda uma vida, vemo-nos agora incomodados com o trânsito, com o estacionamento, com a barafunda dos dias úteis.

Ia eu a andar e diz-me o meu marido: 'Olha lá, não estás ao pé de casa, não podes andar no meio da rua ou atravessar sem ser nas passadeiras ou sem que o semáforo esteja aberto'. E, de facto, até parece que estava esquecida. Como se morasse na província, longe de carros e confusões, e nunca tivesse andado no meio de Lisboa, ali estava eu, completamente descuidada.

Mas isto de andarmos ali a pé foi quando tínhamos conseguido encontrar onde deixar o carro.

Tínhamos ido confiantes para o local onde tínhamos o nosso compromisso, sabendo que, se não encontrássemos lugar por lá, teríamos sempre o grande parque ali perto. Pois, pois. Lugar na rua nem vê-lo, tudo, tudo, tudo cheio. Dirigimo-nos ao parque. 'Completo'. Ficámos estupefactos. Como o parque é grande e tem várias entradas, pensámos que talvez numa outra ponta tivéssemos mais sorte, até porque, entretanto, poderia ter saído algum carro. Pois, pois. 'Completo'. E com isto já estávamos a ficar em cima da hora. Por milagre, enquanto andávamos naquela demanda, saiu um carro e lá estacionámos. Um preço exorbitante. Afinal aquela deve ser das zonas mais centrais e mais caras de Lisboa. 

Esse assunto resolvido, lá fomos.

Muito restaurante novo, muita loja, muito movimento. E digo isto agradada. Uma vez mais me senti turista num território que deveria ser-me relativamente familiar.

E sendo hora de almoço, íamo-nos cruzando com as pessoas saídas do seu trabalho, aceleradas, outras conversando entre amigos, aquele movimento pleno de ocupação de quem vive essa rotina diária. 

Gostei de ver e lembrei-me de como até há tão pouco tempo eu também andava sempre apressada, querendo rentabilizar todos os minutos. Agora senti-me uma mera observadora e tive vontade de estar com máquina fotográfica a captar o bulício cosmopolita, pois aquele é todo um mundo, com os seus padrões.

Depois do demorado e excelente almoço, passeámos por ali. Às tantas lembrei-me de ir dar uma espreitadela a um dos grandes centros comerciais que ali marca a geografia. Dirigi-me para a porta por onde costumava entrar. Não encontrei. Era a porta de um banco. Não percebi. Dirigi-me para a porta principal. Era a porta do mesmo banco. Tudo aquilo agora é o banco, o centro comercial evaporou-se. Se calhar isso já aconteceu há algum tempo mas ou tenho andado distraída ou só se vê aquilo que se quer ver. Não sei.

Assim como assim, depois de passearmos por ali, ao passar por uma Zara com letreiros de saldos, não resisti. E não resisti a uma camisa/casaco altamente colorida, uns brincos gigantes e altamente aparatosos e uma coisa que creio ser uma pulseira com uma flor gigante. Não preciso de nada disto, claro. Mas a moda é assim mesmo, a atração pelo inútil.

Só que é mais do que isso. Quando eu era miúda, gostava de usar roupas coloridas e adereços vistosos. Mas pouco havia disso, com excepção do que se arranjava nos Porfírios. Mas muitas vezes, diziam-me que eu ainda não tinha idade para usar coisas assim. Depois, já devia ter juízo para usar coisas assim. Depois, não eram coisas apropriadas para ir trabalhar assim. Depois já não tinha idade para coisas assim.

E agora atingi o estado de espírito em que me dá igual. Se gosto de uma coisa, seja altamente colorida, altamente vistosa, altamente exuberante, uso e quero cá saber se alguém acha ou diz o que quer que seja.

Depois fui ter com o meu marido. Vi-o de longe. Estava perto do carro a tentar descobrir-me, certamente receoso de que eu não conseguisse dar com o carro ou me tivesse 'perdido' e recaído ao consumismo.

E, por fim, mais para a tarde, apanhámos um trânsito absurdo e voltámos a lembrar-nos das muitas horas de vida que perdemos em infinitas filas (horas? dias! meses! anos de vida).

Com isto tudo, claro que agora não me apetece falar de temas concretos ou sérios. Aliás, estou com um sono tramado, até parece que fiz uma grande expedição.

Mas não quero ir-me sem partilhar convosco esta entrevista da extraordinária Diana Morgan (que diz que tem 99% de Philomena Cunk) a Stephen Colbert. Uma graça. 

Haja humor. Gente inteligente com vontade de rir (mesmo que sabendo conter-se) é uma lufada de ar fresco.

Diane Morgan: Philomena Cunk Would Love To Interview Elon Musk
The Late Show with Stephen Colbert

Diane Morgan, who plays the brilliant documentarian Philomena Cunk on her show, "Cunk on Life," says Elon Musk is at the top of her interview wishlist. "Cunk on Life" is streaming now on Netflix. 


sexta-feira, dezembro 20, 2024

Aqui a avozinha não foi atropelada por uma rena mas a verdade é que está a modos que lesionada

 

No outro dia doía-me um pé, coisa apenas de um dos lados. Tinha posto umas palmilhas de gel nos sapatos e, como andei no laré durante horas, cá para mim aquele pé estranhou os mimos e deu um ar da sua graça. Por causa dessa dor no pé, passei a andar com ele um bocado de lado. E continuei a fazer a vida normal. Em consequência de andar com o pé de lado, começou a doer-me o peito do pé. Para ver se não forçava o pé, comecei a andar com a perna a modos que esticada, para não fazer trabalhar a articulação do pé. E continuei a fazer a vida normal. Em consequência disso começou a doer-me o joelho. Tentei poupar o joelho até perceber que deveria tomar um anti-inflamatório. Tomei de manhã e deveria tomar ao jantar. Só que, distraída como sou, no fim do jantar, tendo estado na conversa, já não sabia se o tinha tomado ou não. Por via das dúvidas, achei prudente não arriscar e não tomei. Conclusão: no dia seguinte estava pior.

Ontem estive de perna para o ar. Hoje estava melhor pelo que vim cumprir o meu programa que incluiu, de tarde, uma ida às compras com os rapazes num centro comercial. Levei canadianas e estava apalavrado que, se me sentisse a piorar, pedia-se uma cadeira de rodas. Mas, andando lá, achei que não seria necessário. 

Contudo agora, ainda em casa alheia, verifico que o exercício da tarde não foi benéfico para o joelho. Ou seja, estou de novo de perna esticada. 

Isto para dizer que não sei se isto é da idade, se é porque tenho pouco cuidado e exagero em tudo o que faço (o meu marido aposta nesta), a verdade é que agora, nesta altura festiva, sempre com coisas para fazer, esta lesão não dá jeito nenhum.

Mas é o que é. E todos os males fossem estes. Não digo bola para a frente pois, no estado em que estou, acho melhor deixar os futebóis para melhores dias.

De qualquer maneira, já tenho os presentes para toda a gente. Para toda a gente... menos para o meu marido... Não sei o que há de ser, ele não dá uma única ideia, recusa as opções que me ocorrem. Quando me lamento de que não quero chegar ao dia de Natal e não ter uma única coisa para lhe oferecer, diz: 'Deixa estar, eu não mereço...'. Já estive a ver sugestões na Madame Figaro e também não vejo que nada seja adequado. Se alguém tiver alguma ideia, aceito sugestões.

Grandma Got Run Over By A Reindeer - Postmodern Jukebox ft. Sunny Holiday


Dias felizes

sábado, novembro 30, 2024

Black Friday

 

De manhã, ao espreitar os mails ou as mensagens, nem sei, vi anúncios relacionados com a black friday. Não tinha percebido que era esta sexta-feira. Pensei, então, que poderíamos aproveitar para fazermos já algumas compras de Natal e aproveitávamos e almoçávamos no centro comercial.

A receptividade do meu marido foi nula. Fomos fazer a nossa caminhada com o nosso fofo dog e nem falei mais nisso. 

Uma pessoa, depois de ter andado décadas no stress do trânsito, das reuniões, dos almoços a correr e das compras feitas nos poucos espaços livres, quando se apanha à larga, já não consegue pensar em ir meter-se em confusões.

Ir para o meio da cidade, ir para centros comerciais, andar em lugares em que não se consegue estacionar à primeira, parece-nos pesadelo do qual fugimos a sete pés. Mas, por outro lado, em algum momento teremos que fazer compras. E precisava de ir ao supermercado...

Quando estávamos a chegar a casa da caminhada, o meu marido, com ar decepcionado e quase resignado, disse: 'Mas não é para andares a correr todas as lojas, não estou para lá passar a tarde.'

Consolei-o: 'Nem pensar. Almoçamos e depois é rápido.'

O meu marido ainda receou que estivesse muita gente por ser black friday. Descansei-o: 'É dia de semana. Durante o dia deve haver pouca gente às compras.'

Pois, pois... Dramático. 

Para começar, voltas e voltas para arranjar lugar para o carro. Por pouco, eu própria não sugeri que nos fossemos embora. 

Por fim, depois de termos conseguido descobrir um lugar apertadíssimo, lá fomos. 

Começámos por ir para o restaurante. O almoço foi bom. 

Mas a seguir foi para esquecer. Gente, gente, gente. 

Várias coisas que comprei não tiveram nada a ver com a black friday. Às tantas nem me lembrava disso. Quando me viu com umas blusas para os miúdos na mão, o meu marido alertou: 'Reparaste que isso está sem desconto? Não é por nada, mas não quiseste vir para aproveitar os descontos?'. Nem tinha dado por isso. Ambientes com milhares de coisas e muita gente deixam-me à beira da exaustão, sem oxigénio no cérebro. Vieram aquelas blusas na mesma, já não conseguia ir outra vez à procura de blusas bonitas e com os tamanhos certos.

Na loja seguinte, a mesma coisa. O que eu gostava, estava sem descontos. Mas, mesmo assim, dar com os tamanhos certos foi uma chatice. Depois, os miúdos estão a crescer, preciso de ver as coisas desembaladas para ver o tamanho. O meu marido já a ficar desesperado, volta e meia a vir ao pé de mim dizer que não tinha paciência. E eu, a vê-lo a andar por ali às voltas, impaciente, ainda mais desorientada fico.

Na livraria, uma barafunda de livros, de tretas, de descontos, e muita gente. Queria encontrar qualquer coisa e não descobria nada. Primeiro que encontrasse algum livreiro para me ajudar foi um castigo. Depois não era uma livreira, era uma funcionária que pouco sabia de livros. Andava também às aranhas por ali, de escaparate em escaparate, à procura. De vez em quando, aparecia o meu marido a perguntar porque é que eu não me despachava. Com isto tudo parece que figo cegueta, não assimilo o que vejo. Para além de que fico sem capacidade para procurar, folhear, discernir. Obtusa até à quinta casa, é assim que me sinto.

No supermercado, outro desatino. Queria encontrar brinquedos e não via nada do que queria nem encontrava nenhum empregado que me ajudasse. E, por fim, perdi várias vezes o meu marido. Na caixa, daquelas self service, outro desatino. A cada dois ou três artigos, aparecia a mensagem para chamar um empregado e não havia nenhum empregado disponível. O meu marido fumegava e eu já só queria que ele não resolvesse desistir, deixando ali tudo, a couve, as bananas, o pão, o entrecosto.

No meio disto, gastei um dinheirão, não percebi que tivesse usufruído nem um cêntimo da porcaria da black friday.

Quando chegámos a casa já era de noite. O cão, coitadinho, estava encolhido, creio que pensou que o tínhamos abandonado. 

Falta-me ainda comprar mil coisas mas não sei quando estaremos recuperados desta tareia para uma segunda investida. O meu marido diz que para a próxima não vai, que vá eu sozinha, que não tem paciência para estar horas à minha espera. Diz isto, apesar de saber que eu é que estou à espera (de empregados, da minha vez, de pagar). Por um lado, sozinha, liberta-me do stress de vê-lo a andar às voltas, num desespero. Mas, por outro, depois não tenho ajuda com os sacos.

Em suma: detesto cada vez mais fazer compras. E a black friday é para quem gosta de barafundas. Não é para mim.

segunda-feira, janeiro 15, 2024

Este post não é sobre um vestido que não é de noiva

 

Um assunto que, no contexto da finitude da vida, sempre me perturba um bocado não é tanto o de aceitar que somos seres efémeros, passageiros numa viagem que não é infinita, mas o de que muitas vezes se está prestes a chegar ao fim sem que disso sequer se suspeite.

A primeira vez que essa ideia me assolou, e já falei disso aqui, foi quando uma tia do meu marido, uma tia queridíssima, muito bem disposta, sempre a levar tudo para a brincadeira, senhora de um recortado e fino humor, num certo dia em que o gato ia ficando entalado na porta, tendo-se assustado, deixou de falar. Toda a gente pensou que, sendo o afecto dela pelo gato tão grande, o susto tinha sido tão intenso que se tinha produzido ali um estranho efeito psicológico. Mas os dias passavam e a ela não recuperava a fala. E estava estranha, como se tivesse ficado um bocado debilitada. A família toda intrigada com tão bizarra reacção. Sobretudo intrigados, chamaram o médico a casa. O médico mandou fazer exames. E os exames não poderiam ter deixado a família mais perturbada: um tumor no cérebro. Não voltou a recuperar a fala e morreu pouco tempo depois. E, no entanto, antes do episódio do gato, nem ela nem ninguém suspeitaria que o seu fim estava bem próximo.

Com o meu tio aconteceu a mesma coisa e também já o contei. Forte, cheio de vitalidade, cores de pessoa com saúde para dar e vender. voz franca e forte, grande e bom conversador, amante de história e de política, sempre com vontade de relacionar assuntos do antigamente com a actualidade. E com um bom humor imbatível. Ria enquanto falava, ria de gosto. Quando o meu pai teve o AVC foi o grande apoio da minha mãe, sua irmã. Transportava-os às consultas, ajudava o meu pai nas escadas e a andar e a entrar e sair do carro. Estava sempre disponível, sempre bem disposto. Ele e a minha tia, um casal do mais bacano que há. Até que inesperadamente se descobriu que ele estava com um cancro avançado. Sem sintomas, dores, nada. Ao olhar as fotografias dessa altura, ele sempre na boa, sempre com aquele seu ar de homem saudável, nem ele nem ninguém desconfiava que não seria por muito tempo.

A seguir foi a minha tia que recebeu o mesmo veredicto. E foi a mesma surpresa. Num instante desapareceram. O casal a que não se conheciam doenças de relevo, sempre felizes, com uma vida saudável, foi-se sem que antes qualquer um tivesse percebido que o fim estava para breve.

Claro que, perante situações assim, duas atitudes podem ser assumidas: a pessimista, a de que não sabemos como estamos por dentro e de qual a nossa sina pelo que não vale a pena entusiasmar-nos com coisa alguma pois pode ser sol de pouca dura, ou fazer de conta de que nunca pensamos nestas coisas e viver a vida na boa, felizes por estarmos bem e não deixar que receios, porventura infundados, se aproximem de nós. Tendo a achar que a segunda é a melhor. 

Nos sítios por onde tenho andado não posso ignorar que tenho estado muito perto de quem está a caminho do fim da linha, com as angústias que isso sempre traz aos próprios e aos próximos. Para me distrair, penso que todos estamos a caminho do fim da linha. Desde que nascemos que o estamos. Uns mais depressa, outros mais rapidamente, uns com maior outros com menor sofrimento. Que dizer de uma menina que na escola é perfurada por um estilhaço do vidro da porta em que embateu? Ou de jovens que, talvez pela animação do álcool, se envolvem em brigas das quais nasce a morte de um deles? 

No outro dia morreu um familiar próximo de um amigo. Morte inesperada, prematura, deixando toda a gente consternada. E, no entanto, quando soube como foi, pensei que foi uma morte feliz e que a família deveria encará-la assim. Morreu sem o prever, sem sofrimento, de súbito, no local em que mais gostava de estar.

Os meus filhos vão achar que este post é deprimente e que eu deveria procurar a psicóloga. O meu marido, se os ouvir dizer isso, vai insistir no mesmo. Estranham ver-me assim e eu compreendo-os. Mas não sei se não é normal que eu pense nisto e se não é até racional que, com a serenidade possível, eu reflicta nestas coisas.

Uma amiga há pouco enviou-me uma mensagem a lamentar eu não ir a um almoço de grupo e a dizer para eu ligar a combinar alguma coisa. Mas, ao mesmo tempo, face às minhas actuais circunstâncias, a compreender que eu esteja sem grande disposição para participar em encontros em que toda a gente quer é estar animada e feliz e não a falar em preocupações ou com reflexões sobre a finitude da vida. Claro que toda a gente sabe que é finita mas, caraças, isso tem que ser dito em voz alta...? Acho que não. Por isso, reservo a minha participação para quando estiver a milhas de pensamentos destes.

Tirando isso, posso acrescentar que fui comprar uns pijamas para a minha mãe pois no fim da semana foi transferida para um local onde vai continuar a ser cuidada e, dos pijamas que tem, uns acho que são talvez quentes demais e outros talvez frescos de mais pelo que, apesar de ela não se queixar, arranjei-lhe uns bonitos que não são quentes nem frios. E, porque precisava desvairadamente de me alienar e estava tudo em saldos, apesar de não precisar de nem mais uma só peça de roupa até ao fim da minha vida (mesmo que viva até aos cento e cinquenta anos), marimbei-me para isso e cedi à tentação: uma blusa, uma camisa e um poncho. Quero lá saber. Até uns brincos e um colar mega hiper coloridos eu comprei. Apetece-me ter vontade de me revestir de todas as cores.

E quando fui ao supermercado comprar peixe, legumes, kefir e etc, resolvi fazer um desvio até à cosmética e, vendo um creme transparente que diz conter ácido hialurónico, não quis cá saber de coisas e comprei-o também. Pode não preencher ou reafirmar mas mal não deve fazer e imagino que seja uma sensação fabulosa colocar na cara um creme transparente como água.

Quando cheguei a casa, como tinha andado a provar roupas, antes de trocar de roupa tomei banho e usei aquele gel que se transforma em espuma e que supostamente tem poderes de relaxamento que recebi de presente de natal. Deve ter feito um bom efeito pois mal me sentei no cadeirão adormeci profundamente.

E acordei com vontade de voltar a escrever com aquela motivação aguda que me causa um frisson miúdo nas entranhas. E, caraças, quero mesmo acreditar que um dia vou conseguir descobrir uma editora que acredite que o que eu escrevo tem público e resolva apostar em mim. 

Um dia há-de acontecer. Tenho esperança.

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E porque não quero que fiquem a olhar para isto e a achar que estou é a ficar deprimida ou mais lelé da cuca do que era costume ou que só tenho pensamentos que não interessam nem ao menino jesus, termino com umas fotografias que mostram Julia Fox num evento da Sotheby em Nova Iorque na semana passada. E, tal como tive o cuidado de informar no título da mensagem, o vestido não é de noiva nem consta que ela tenha namorado. Igualmente encantadora é a carteirinha de mão que a sua acompanhante levava. Não que me passe pela cabeça pôr-me nestes preparos mas, ainda assim, acho que aqui devo deixar registo de tamanha ousadia (ou maluquice).




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Desejo-vos uma boa semana a começar já nesta segunda-feira
Saúde. Alegria e esperança. Saúde.

sábado, dezembro 23, 2023

Telefonemas, mensagens... e a vida a seguir num carril paralelo...

 

Estou muito cansada. Não foi a manhã nas compras com a minha menina linda, quase da minha altura, ligeira e apressada. Ela gosta de fazer compras e, por isso, o presente não será tanto o que compra mas o prazer de andar às compras. Decidida, objectiva, pragmática, ela já traz a lista das lojas onde quer ir. Chega, olha em volta, circula, vai direita àquilo que lhe agrada, pega no que lhe interessa e vai aos provadores. Isto se for roupa, claro. Como as medidas que levou são as dela, veste, fica-lhe bem e, sem hesitação, decide: 'Por mim, está feito'. 

Nos adereços ou nas agendinhas a mesma coisa. Depois ajudou na escolha de presente para os manos. 

Depois fomos almoçar e é também ela, sem pestanejar, que resolve o que vai comer. 

Um prazer andar às compras com ela. Sempre bem disposta, sempre conversadora, sempre com ideias.

O irmão mais novo andar às compras é coisa que não pratica. Para o do meio, se tem que ir, é uma tortura, fica furioso, impaciente. Os primos são igualmente despachados e resolutos. Nem vale a pena eu tentar sugerir alguma coisa pois a resposta é invariavelmente: 'Com todo o respeito, Tá, mas eu teria vergonha de usar isso'. 

Como a mãe do menino do meio tinha sugerido para esse filho uma camisola de malha, no outro dia aproveitei as compras com os primos para me ajudarem a escolher uma camisola à maneira. Ficaram estupefactos. Não acreditavam. Não podia ser, já ninguém usa camisolas de malha, diziam-me os dois. Por mais que eu lhes pedisse que se deixassem de preconceitos e me ajudassem a escolher, recusaram-se: 'Com todo o respeito, mas não vamos sujeitá-lo a isso. Uma camisola de malha? Vão gozar com ele.... Com todo o respeito mas já ninguém se veste assim...'. Liguei ao meu filho, passei-lhe o sobrinho mais velho, ele que ajudasse a esclarecer. Disse que esse era pelouro da mulher. Passou o telefone. Ouvi o mais velho a falar com a tia. Não estava nada confiante. Quando desligou, vencido mas não convencido, disse: 'Diz que é para ele vestir quando for almoçar a casa dos avós... Só mesmo se for para isso...'.

Lá arranjámos uma solução de compromisso. E só espero que não façam daqueles comentários junto do primo que vai receber a dita camisola....

Este ano as compras foram feitas sem grande (ou pequena) inspiração. Nem decorações natalícias ainda fizemos. Temos duas árvores estilizadas que se ligam e ficam com luzinhas e são as únicas que aqui temos.

Temos que arranjar mais qualquer coisa mas a verdade é que não nos tem sobrado tempo. 

A tarde inteira foi como as anteriores. Para agravar, um trânsito dos diabos. Depois, como é natural, muitos telefonemas, amigos de longa data a telefonar, a dar notícias. E depois quem sabe do que se passa a desejar bom natal e a querer saber da situação. E as mensagens. Várias, amigas, palavras de conforto e estima. Gosto, fico sensibilizada, aquece-me o coração. Mas estou a falar com uma pessoa e, ao mesmo tempo, várias outras chamadas a quererem entrar. Às tantas fico em stress. o meu marido enerva-se, diz que não sabe como consigo estar tantas horas ao telefone e trocar dezenas e dezenas de mensagens. Mas é natural: juntam-se os votos de boas festas aos votos de boas melhoras. 

Lá, no hospital, a minha mãe pediu para eu fazer chamadas em nome dela, a algumas amigas. Não me é fácil. Estava ao pé dela. Por isso, como é lógico, não entro em pormenores, relativizo, aligeiro. Mas há um esforço permanente para não usar nenhuma palavra a mais nem a menos, não mentir mas também não falar verdade, não desvalorizar mas não valorizar. 

Um dia, mais tarde, não sei quando, hei-de conseguir falar destes tempos tão complicados, tão difíceis. Nos primeiros dias ia-me completamente abaixo, não tinha mão em mim, não era sequer capaz de falar com os médicos, estava arrasada, incapaz de processar. A minha filha é que teve que se chegar à frente. Mas agora está constipadíssima tal como o meu filho. Ambos apanhadíssimos. Portanto, hoje fui sozinha. Não fazia sentido ir o meu marido. Não costuma ir. Se o visse, a minha mãe era capaz de estranhar e preocupar-se ainda mais. Portanto, enchi-me de coragem e fui sozinha. 

Dito assim pode parecer uma fragilidade ou cobardia excessivas da minha parte. Pode parecer e, se calhar, é. Quando eu for capaz de falar de forma explícita talvez compreendam a especificidade, o insólito e inesperado da complexa situação e o brutal impacto que está a ter em mim.

Mas começo a reagir. E, como sou extrovertida, falo sobre os assuntos e, por isso, a quem me pergunta como estão as coisas, a algumas das pessoas que sei que têm capacidade para compreender, conto e ouço o que me dizem -- tal como leio com muita atenção e carinho os comentários que aqui me deixam ou os mails que me enviam --- e, portanto, parece que o peso que me caiu em cima começa a pesar-me menos. Sinto-me mais conformada e resistente, talvez mais corajosa e, até, talvez comece a ganhar a capacidade de encarar as coisas com algum pragmatismo.

Mas a longa tarde lá e os longos telefonemas e as múltiplas mensagens deixaram-me muito exausta. 

Fomos caminhar à noite, quando chegámos. Um gelo ártico. Mas soube-me bem. Tal como me soube bem o banho quente a seguir. Temos comprado comida pois nem há horários nem disposição para culinárias. Valha-nos isso pois, a seguir aos banhos, o jantar está só à espera de ser aquecido.

E agora está a começar a dar-me o sono. 

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Um dia feliz

Saúde. Coragem. Força. Paz.

quinta-feira, dezembro 14, 2023

Às compras

 

Estou num daqueles dias. Cabeça vazia, incapaz de encontrar ou desenvolver qualquer assunto. 

Tinha pensado fazer uma coisa mas, tendo as voltas sido trocadas, acabei a fazer outra, nomeadamente a ir fazer de atacado, depois de meio da tarde, o que era para ser feito em dois ou três dias aproveitando sinergias. Assim, as sinergias tiveram que ir à vida. 

Como ando naquele limbo em que parece que nunca sei o que vai acontecer, parece que não consigo planear nada nem tenho grande vontade de o fazer. É uma sensação que não é boa. 

Mas, então, lá fomos. 

No local em que vivemos praticamente não há trânsito. Andamos essencialmente a pé. Quando temos que sair, tentamos escolher percursos e horários com menos tráfego. Ir às compras é daquelas de que fugimos. Poucas coisas compramos para além do básico para a alimentação e para a casa e, vá lá, de vez em quando alguns livros, muito mais agora para o meu marido do que para mim.

E, para o Natal, nunca fui de fazer compras com antecedência. Se não me sinto tocada pelo espírito natalício, não consigo arranjar energia ou inspiração para me pôr a andar pelas lojas a dar seguimento a listas (que nunca fui capaz de fazer). Portanto, adio até mais não poder.

Portanto, se antes já era assim imagine-se agora, totalmente despojada de instintos consumistas e, ainda por cima, com a cabeça ocupada por preocupações que não dão tréguas. 

Mas fomos. Um trânsito impossível, carros e mais carros. Muita gente. depois não se encontra o que se quer, depois temos que estar sempre à espera de quem nos possa atender, depois temos que esperar pela nossa vez na caixa. O tempo passa e pouco se adianta. Vai-se a pensar numa coisa e quase nunca há. Propõem outra coisa mas não era nada daquilo em que tínhamos pensado. E se eu ainda guardo, provavelmente marcado nos genes, alguns vestígios de quando frequentava templos de consumo, e, por isso, quero escolher, o meu marido, que sempre odiou fazer compras, fica numa tal impaciência que ainda me perturba mais. Para onde eu deite um primeiro olhar já ele está a dizer: 'É bom. Leva.'. Isto mal entramos, ainda sem fazer ideia do que há.

No entanto, apesar de tudo, ainda não tenho nada para os meninos. Mas os quatro mais crescidos o presente que querem é ir comprar roupa connosco. Por isso, temos que esperar que entrem em férias, ou seja, para a semana. Deve estar lindo: os centros comerciais a deitar por fora. E também ainda temos que ir comprar um brinquedo para o mais novo. E mais uma ou outra coisita. 

Chegámos a casa tarde. O cão, que tinha ficado na rua, reagiu como sempre reage quando não o levamos connosco: quase não se mexe, depois aproxima-se quase de gatas, vem a medo sem saber se fez alguma coisa de mal para ter ficado de castigo. Bem lhe digo que não estava nada de castigo, estava, sim, a guardar a casa. Mas isso são conceitos algo abstractos para ele. Só depois de muitas festinhas percebe que está 'perdoado'. Então salta e brinca e corre de um para outro, numa alegria. Mas era de noite e estava frio. Então, o pobre estava gelado, coitado.

Depois ainda fomos fazer uma caminhada. Soube-me bem sentir o frio húmido da noite. Reentrámos em casa já passava das nove da noite. Pelo caminho tínhamos parado para comprar chamuças e chicken pakora que, ao jantar, acompanhámos com arroz e salada. Soube bem. 

E depois cheguei ao sofá e adormeci. O meu marido estava a ver a entrevista a Luís Pinheiro, à época o director clínico de Sta Maria, e, de vez em quando, tentava acordar-me. Mas agora acontece-me sempre isto. Ando a acordar cedíssimo. Durmo pouco e mal. Por isso, à noite, quando chego à sala, aterro, ligo à terra, descarrego, fico sem um pingo de energia dentro de mim.

De resto, é o que é. Há coisas que não se escolhem. Acontecem. E temos que saber lidar com elas. No meu caso, tenho um passo prévio: tenho que aprender a lidar com elas. 

E, pronto, é isto, nada mais a declarar. Avisei... ando assim, sem assunto. 

sábado, janeiro 28, 2023

Uma inesperada capa em rosa chique, uns saudosos pastéis de massa tenra, palcos para todos os gostos e, para se ver o que é bom, a casa de um mafioso viciado em sexo (salvo seja, claro)

 


O dia não foi fácil, cheio de imprevistos e stresses. Mas, a bem da verdade, o que tenho a dizer é que se lixem as dificuldades quando o desfecho é feliz. 

A saber: apesar de já noitar, andando ali para as bandas da Avenida da Igreja da boa memória, ei-la feliz da vida a flausinar pelas montras, a velha graça de espreitar as oportunidades e os bons preços e, esquecida do seu firme propósito de que mais roupa jamais (leia-se: jamé), a entrar numa loja, a adrenalina já a embalar-lhe as intenções, e, depois, toda cheia de boas emoções... a ir provar uma bela capa em rosa glamour...  Ao ver-se ao espelho, a pecadora, nem quis cá saber de misérias: gostou de se ver e isso bastou. Pecou que deu gosto.

Ah, que ninguém duvide: mulher que tem um gostinho por coquetterie jamais (jamé) se recupera. 

Depois, não lhe bastando ser vaidosa, recaiu numa outra perdição: pastéis de massa tenra, eterna saudade, eterna rendição. E se bem o pensou melhor o decidiu. E aí vai ela, pernas para que te quero, a caminho da Frutalmeidas. 

Ali chegada, ah cheirinho bom, aguinha na boca mais promissora, jantarinho mais belo em perspectiva.

[Reparem: dissociei-me de mim e estou a falar na terceira pessoa. E isto porque amanhã, quando me passar a alegria do retrocesso, voltarei a mim e baterei no peito a jurar que vaidosices e gulodices jamé.]

Chegada a casa, já nada cedo, resolvi que bom bom era um arrozinho de legumes (coisa simples: cebola, feijão verde, talo de brócolos, cenoura, tomate e salsa). Foi servido, fumegante, com os gostosinhos pastéis de massa tenra aquecidos e salada de alface. Ah, souberam-me pela vida. 

E, se querem que vos diga, tudo o que me maçou durante o dia já se evaporou porque já estamos no fim de semana e porque para a semana logo se pensa em coisas maçadoras.

No meio disto só tenho pena de estar tanto frio. Senão, amanhã vestiria calças brancas, blusinha de malha rosa com a capa nova por cima. Nem sei é se não terei mesmo que cortar um bocado o cabelo e pô-lo, à frente, com uma madeixa cor de rosa para toda eu ficar pink fashion. Assim, com tanto frio, tenho que pôr o glamour em stand buy.

Sobre o tema dos malfadados palcos papais que tilintam moedas (pun intended) e demais desvarios o que tenho a dizer é que se é para estar a funcionar no início de Agosto e requer construção de espaços e envolventes, nomeadamente acessibilidades e demais infraestruturas de apoio, diria eu que já devia estar a caminho de estar tudo pronto para passar à fase da instalação de equipamentos, testes de bom funcionamento, inspecções técnicas, procedimentos de segurança e etc. 

Portanto, tal como ontem referi, não consigo perceber nada do que se está a passar. Não apenas não percebo quem é o dono da obra, figura crucial neste tipo de projectos, como também não consigo perceber como é que nesta fase ainda se estão a discutir conceitos, projectos, orçamentos, etc. Claro que, na brincadeira, dá vontade de dizer que, com tanta omni-intervenção e tanta omni-boca, o dono da obra, a partir daqui, só pode ser o omni-Marcelo. Mas, num projecto globalmente orçado em 80 milhões e com a repercussão internacional e a responsabilidade que representa, não se deveria brincar com coisas sérias.

Para não ser uma monumental barracada e não se transformar na gargalhada geral, é bom que atinem e se organizem. Senão, daqui por um bocado está aí o Papa e mais os magotes e magotes de devotos e ainda o Moedas por aí anda feito betinho sonso apanhado em falso e a fingir que é valentão, o Marcelo a atirar tiros à esquerda e à direita, o Auxiliar Américo a fazer de conta que a bem dizer não é nada muito com ele e os comentadores já sem saberem o que mais dizer. E ainda o Papa tem que ficar em cima de um atrelado e a malta estendida pelo chão, numa de Zambujeira peace ando love. Ámen.

Tirando isso, não tenho mais a dizer a não ser que amanhã tenho que me levantar cedo e, para encarar isso na desportiva, tenho que ter uma certa dose de optimismo. 

E, para não sair daqui directinha para a cama (que o sono já está a fazer-me trocar os dedos) sem dar um arzinho da minha graça, partilho um vídeo com uma casa extraordinária. Não é coisa que eu esperasse dele, não. Visualizo-o nos Sopranos e agora no White Lotus, todo ele quase low profile mas com muito carisma e sensualidade mal contida. E agora uma casa assim... incrível, fantástica, coisa do além.

Na casa cheia de história de Michael Imperioli em New York 
| Open Door | Architectural Digest

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'Olhai o mundo' é da autoria de Alfredo Luz. Vanessa Wagner interpreta Before 6 de Ezio Bosso

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Um bom sábado

Saúde. Gostinhos bons. Paz.

sábado, outubro 08, 2022

Dúvidas existenciais. Velhos hábitos. Coisas de casais.

 



Comecei o dia a fazer análises. Agora, de vez em quando, para aí uma ou duas vezes por ano, tenho que ser vigiada. O que vale é que não me faz impressão nenhuma que me tirem sangue. Aliás, já fui dadora. Só deixei de ser por mero comodismo. Quando iam lá à empresa, era só descer até ao posto médico. Quando deixaram de ir, perdi a noção de onde ir ou quando. 

Pensei que aproveitaria para ir, a seguir às análises, num instante, tentar descobrir livros da Annie Ernaux. 

Mal me levantei, organizei-me. Tudo arquitectado: arranjei um saquinho de papel da farmácia para levar o frasquinho com a primeira urina da manhã e pus o saquinho à vista para não correr o risco de me esquecer da urina.

Tinha também pensado guardar uma banana e uma maçã lavada para comer enquanto conduzia, a caminho da livraria. Contudo, estava na dúvida: onde guardar a banana e a maçã? A maçã estaria lavada, tinha que ir num saquinho de plástico, daqueles de congelação. Estando num saco, talvez também pudesse ir no saco de papel da farmácia. Mas a banana? Não ia à solta dentro do saco de papel, ao lado do frasquinho da urina. Portanto, por via das dúvidas, coloquei o frasquinho da urina dentro de um saco e dei-lhe um nó. Portanto, seria assim: um saco de plástico com o boiãozinho da urina, um saco de plástico com a maçã. E, à solta no saco de papel, a banana.

Também não podia esquecer-me da prescrição. Fui à procura, guardei-a na carteira. Nem da chave do carro. Fui buscar.

Arranjei-me. Disse ao cãobeludo: 'A dona já vem. Fica a tomar conta da casa que a dona já vem'. Estava enroscado a dormir, levantou uma orelha e deixou-se ficar.

Saí apressada a ver se o tempo me dava para tudo. 

Quando ia a meio do caminho, dei por ela: com tanta dúvida, esqueci-me de guardar a maçã e a banana. Caraças. Detesto andar em jejum. Mas já não dava para voltar a atrás.

Portanto, lá fui. 

Quando me despachei, saí com o carro do parque na dúvida: iria em jejum ou voltaria para casa? Abrandei. Avaliei a situação. Fome, fomeca, a tensão certamente baixa. Sem uma bananinha, sem uma maçã, sem um aconchego. Voltei para casa. 

Tomei o pequeno almoço, trabalhei, telefonei, fiz o que tinha a fazer. À hora de almoço, fui fazer o passeio higiénico com o dog.

Almocei a correr e ala moça, lá vai ela, antes que se fizesse tarde. A caminho do shopping. Quando estacionei, tomei nota do lugar, da cor, do piso e enviei uma mensagem para mim própria. Não quero correr o risco de ficar no mato sem cachorro, sem saber onde deixei o carro e sem ter quem me ajude. Quando frequentava assiduamente estes locais, já tinha lugares mais ou menos orientados. Agora não, agora é onde calha e, por isso, tomo providências.

Encontrei o 'Acontecimento'. 

Lá, para rentabilizar a ida, resolvi entrar numa ou noutra loja. A ideia é a de sempre: 'Não é para levar, é só para ver, não preciso de nada'. Mas, no canto da consciência, a vozinha matreira do costume: 'Só se for uma oportunidade imperdível'. E assim foi. Encontrei duas blusinhas bonitas, tecido com bom cair, padrão bonito e... a cinquenta por cento do preço. Quase black fruday. Negócio irrecusável. Fui provar. Ah, céus, que sensação boa: estar sozinha às compras, num provador... Ainda assim, a santa-madre poupadeira que existe no tal canto sacristeiro da minha mente alertou: 'Mas que falta é que isso faz?'. Respondi de mim para mim: 'Nenhuma'. Beatamente, pendurei-as nos respectivos cabides e fui devolvê-las ao expositor. Mas eis que passa a empregada e me tenta: 'Hoje está com dez por cento adicionais'. Pronto. Varreram-se-me as dúvidas existenciais. Trouxe-as. Baratíssimas. Vou ter aí umas reuniões presenciais, coisa decisiva de ou vai ou racha. E tudo num sítio todo xpto, tudo gente ultra xptosíssima, e agora vou parecer toda elegante com umas calcinhas brancas, saltinho alto e umas blusinhas todas fashion a preço de uva mijona. Ou seja, regressei contente com a vindima.

(E há bocado comecei a ler 'O acontecimento'. Escrita corrida, a gente pela mão da Annie.)

E é isto.

Contar mais o quê? Fomos caminhar para a praia, o entardecer lindo, imensos bichos negros na água a cavalgar as ondas, os areais cheios de gente, tudo na maior boa onda. O sol a mergulhar nas águas e um mundão de gente a curtir a paz do mar e da maresia e da vida ao ar livre.

Enquanto caminhávamos, telefonei à minha mãe que me contou que viu a entrevista à Júlia Pinheiro conduzida pelo marido. Muito amorosos, amigos um do outro, disse-me ela. Há bocado a minha filha enviou mensagem a dizer que tinha posto para trás e estava a ver o mesmo, para eu ver também.

Deu luta. O meu marido não queria alinhar, que era bater no fundo: entrevista de Júlia Pinheiro e marido, tema sentimental, coisa lamechas, era o que faltava pormo-nos a ver coisa mais brega. Não disse brega. Deve ter dito pior. Mas não sou de desistir tão facilmente. Vimos. Gostei de ver. E acho que ele também pois não adormeceu nem se levantou nem dirigiu impropérios nem ao casal ali derretido nem a mim por estar a querer ver aquilo.

No fim, quando se levantou e ia a sair da sala, disse-lhe que ele devia ser como o Rui Pêgo, assim romântico, a dar presentinhos, a ser amoroso e fofo. Ele disse que também não viu a Manuela a mandar vir com o marido. Perguntei: 'A Manuela?'. Já ia no corredor. Voltou atrás: 'Ao que chegámos, a ver uma entrevista ao casal Pinheiro'. E lá foi.

E agora, porque nada melhor que rir, aqui ficam momentos de atrapalhação e risota nas gravações do The good doctor.

The Good Doctor Bloopers

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E porque se não nos levantarmos por algumas coisas, cairemos por coisa nenhuma, o Dude with sign juntou-se-nos uma vez mais.

Maro e Salvador fizeram-nos companhia com We've been loving in silence

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Um bom sábado
Saúde. Boa sorte. Boa disposição. Paz.

sábado, agosto 06, 2022

Avó e neta

 

Fui ontem fazer compras com a minha menininha linda. Adora fazer compras. Eu agora já estou a deixar-me disso -- não quero, não preciso -- mas, ainda assim, não posso esconder, é coisa de que gosto. Chegar a uma loja, deitar um olhar panorâmico, um vol d'oiseau clínico, perceber onde está aquilo que pode interessar, depois ir até lá, pegar na peça, imaginá-la em mim, ver-me ao espelho, depois seleccionar o que pode ter a hipótese de ir até ao provador. O gosto de coisa nova, eu com uma imagem nova. Coisa boa.

Assim é ela, a minha menininha.

Como presente de aniversário, compras. Afinal já está crescida, já vai fazer doze anos. Em vez de lhe oferecer roupa para a rentrée escolar, coisa que faz sempre falta, a possibilidade de ser ela a escolhê-la. 

Tal como acontece comigo, ela não teme o que é diferente. Também não lhe ocorre temer a opinião alheia. Ao contrário das crianças desta idade que querem, sobretudo, alinhar-se com a opinião dominante no grupo de amigas, ela sente-se especialmente atraída pelo que é diferente. 

Por exemplo. Na secção de adultos, viu uma saia comprida. Adorou. Fiquei na dúvida. Será? Olha que não sei... Será que vai ficar bem? Toda eu dúvidas. Ela não. Dúvidas nenhumas. Eu gosto. Pegou para provar. Também na secção de adulto, uns calções elegantes em azul marinho. Gostei. Vou provar. Vi um macacão em tecido fino, levemente plissado, de alças, calças soltas e largas, decote assimétrico, em azul claro turquesa e verde água, um pendant perfeito com a cor dos olhos. Ela estava a provar umas calças de ganga, pretas, levemente à boca de sino, esfiapadas nos joelhos quando lhe levei o macacão à cabina. Olhou, apreciadora, e disse: 'Eu gosto...'. Pegou nele para provar a seguir. Quando vestiu, fez uma pose ao espelho, saiu para mostrar ao mano do meio e ao avô que desesperavam no interior da loja. Fez uma pose. Eles olharam, ar surpreendido, fizeram ar aprovador. Foi o que lhe bastou. Foi para o provador: 'Gosto. Levo.'

Quando eu tinha a idade dela não havia todo este abundante pronto-a-vestir. Muitas coisas que usei eram feitas a partir de modelitos avistados em revistas de moda. Escolhia, íamos a lojas de tecidos desencantar algum que se adaptasse, íamos à modista com os materiais e a revista. Vestia-me de maneira diferente das minhas colegas e ainda hoje me lembro bem de vestidos bem engraçados, por exemplo um que tinha o corpo em malhinha em fio de linha preta e saia às flores muito coloridas e manguinha curta igual. Ou de um conjuntinho de calções curtinhos com uma camisa igual, de manga curta, tudo em azul claro com malmequeres pequenos em branco. Dava um nó à frente com as pontinhas da camisa. Não queria cá saber do que as outras meninas pensavam.

Esta minha menininha é, também nisto, uma mini me

Agora diz que, quando for grande, quer ser gestora -- porque quer mandar. Diz isso.

Avisei-a que mandar nem sempre é coisa boa. Muitas vezes não sabemos, ao certo, o que melhor decidir. Todos à espera da nossa decisão e nós cheios de dúvidas. Outras vezes, achamos que estamos a fazer bem e as pessoas, afinal, não concordam, criticam-nos, acham que decidimos mal. Ela encolheu os ombros. Disse que não se importava. Antes dizia que queria ser pediatra e eu isso achava melhor. Mas sabe lá a gente o que é melhor. Eu, desde cedo, depois de me passar a vocação de merceeira e a de cabeleireira, imaginava-me em ambiente empresarial, a decidir, a mandar. Pelos vistos, ela sente o mesmo apelo. Se se mantiver nesse rumo, nem sabe a vida de chatices que a espera.

Agora dorme aqui ao meu lado. Deita-se, vira-se de lado e adormece. Não lhe incomoda a luz ou o barulho. Até nisso é parecida comigo. Quando tenho sono, também basta encostar-me. O sono desce instantaneamente.

Os manos dormem no quarto dos rapazes. O urso cabeludo dorme a sono solto no corredor. Mas os meninos não são os únicos a pernoitar. Tem mais. Na volta ainda devia ter era mais camas...

Quando viu a toalha em cima da mesa grande, o mais pequeno exclamou: 'A toalha dos anos...?'. Referia-se à toalha de exterior -- que parece de tecido mas é plastificada -- que a minha filha me ofereceu pelos anos e que foi usada nos meus anos, nos anos do meu filho, nos anos do menino mais crescido. Passou a ser a toalha dos anos. Hoje não festejámos nenhum aniversário mas, não tarda, estará a ser usada de novo com esse propósito.

E eu, depois de uma semana de trabalho, só penso que felizmente já estou com um pé no fim de semana. Trabalhar em Agosto é coisa que sabe a disparate, a coisa de gente destituída, gente que não sabe fazer mais nada do que trabalhar, coisa do mais contranatura que há. Felizmente tenho a maltinha por perto e, com eles, o ar de festa e de férias está sempre presente. Tão bom.

E estou é capaz de também me encostar já aqui e deixar-me ficar a dormir, tal neta, tal avó. 

Ah, já contei? De um lado tem um brinquinho, do outro tem dois. Não quer cá saber se dói, se não dói. É para fazer, faz-se. Queria mais um piercing ali daquele lado e agora já o tem. Coisa mais linda, mais fofa, mais decidida.

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A magnífica fotografia, que me deu o mote para o que escrevi, é da autoria de Joseph-Philippe Bevillard (Ireland) e mostra Julann e a neta Lucia. Foi feita em Birr na Irlanda. Foi feita este ano e pertence à série 'Mincéirs'

"Julann and her granddaughter Lucia just got dressed for a wedding. As part of their lifestyle and custom, all members of the family are dressed in flamboyant style, the little girls mimic their mother's and other siblings' fashion. Hairpieces, high heels, full makeup, false tan, nails, and eyelashes are showcased by all ages."

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Desejo-vos um bom sábado

Saúde. Alegria. Paz 

domingo, junho 12, 2022

Um sábado com saborzinho a domingo


Dia bom, tranquilo. Tinha pedido para não me acordarem mas nasci para sofrer e esta de não me deixarem dormir é cruz que parece que nasceu pregada às minhas costas: às oito e picos já eu estava a ser incomodada com um barulho estranho aos pés da cama. Era o urso com um ténis do dono, balouçando-o pelos atacadores, fazendo um chinfrim. O meu marido tinha saído do quarto e deixado a porta aberta e, claro está, o abusador-mor não perde uma oportunidade para ver o que pode fazer  de interdito. Ainda tentei dormir mas já não deu.

Fomos às compras ao centro comercial. Não quis ir sozinha e, está bom de ver, tive que vencer uma grande resistência. Tudo lhe serviu de desculpa. A última agora é: 'Coitado do cão, tem que ficar sozinho'. Sim, sim. Mas lá veio. Centros comerciais para o meu marido é quase tortura e ir para um ao fim de semana para ele é sinónimo de bater no fundo. Mas com este calor, animou-o a perspectiva de toda a gente ter ido para a praia e aquilo estar deserto. Mal entrou no parque de estacionamento e o viu cheio, ficou logo com vontade de dar meia volta. Convenci-o a ir para um piso mais abaixo pois já sei do que a casa gasta: se tem que dar algumas voltas para descobrir um lugar, fica logo mal disposto e, a partir daí, a coisa tem tudo para correr mal ou seja, ainda não entrou e já está deserto para se vir embora..

Curiosamente, por sua alta recriação, lembrou-se de aproveitar a ocasião para comprar uns jeans. Aqueles com que mais anda estão velhos, largos, já sem ponta por onde se pegue. Por mais que eu lhe diga que vista outras calças, diz que se sente bem com eles. Lavam-se e vestem-se, lavam-se e vestem-se. Só ainda não se desfizeram porque a ganga deve ser de boa qualidade. Mas estão coçados que só visto. Não gosta de sentir a roupa justa pelo que não adere às modelos fit nem por mais uma. Na loja pegou numas, tradicionais na cor e no corte, foi ao provador e dali para a caixa. Não experimentou outros modelos nem outros tamanhos. Mas pronto, vá lá, aleluia, pelo menos comprou uns jeans.

É tão raro ir agora ao shopping que tenho sempre vontade de dar um giro a ver em que param as modas. Mas o meu marido é a antítese do consumidor ideal. O nosso propósito era um e não admite um milímetro de desvio. Claro que eu poderia ter ido à revelia mas como continuo em processo de rehab, também não insisto. Continuo a achar que não tenho falta de nada. 
[Contudo, no outro dia, por acaso cedi à tentação. Num dos dias em que fomos para o campo depois do trabalho, fomos buscar o jantar a um restaurante e, entre o escolhermos e o irmos buscar, demos uma volta por ali. E, então, vi uma loja de roupas gigante. Uma loja chinesa, como é bom de ver. Já passava das oito e eles abertos. Claro que o meu marido se passa 'Dizes que não tens falta de nada mas nem a um chinês resistes.' Não quis saber, fui dar uma circulada. E vi umas blusinhas bonitas e uns calções brancos a bom preço (uso imenso calções brancos e estou sempre a precisar, pois quero ter no campo e aqui em casa, e já se sabe que coisas brancas se sujam bastante; ou melhor, mal se sujam, nota-se logo). Uma das blusinhas, em florzinhas azuis, muito fresca e bonita, tinha umas cavas largas demais. Trouxe na mesma e pedi à minha mãe para ver se podia ajustar debaixo dos braços. Fartou-se de protestar. 'Mau corte, fazem tudo mal feito, descose-se para arranjar e depois é uma chatice porque as costuras e os pespontos parece que são feitos de outra maneira, é difícil bater certo'. Pedi que não complicasse, que cortasse e refizesse a costura. Diz que ela é que sabe, que não gosta de fazer 'albardices' e, que, se lhe peço para arranjar, é para ficar bem arranjado. Pronto, ok.]

Mas, tirando isso, é abstinência. Não preciso mesmo de mais nada. 

Mas a tentação ainda chama por mim. Por exemplo, a perfumaria. Olhei e vi um cartaz com promoções. A vontade de lá entrar e estar a experimentar perfumes só eu sei. Por acaso, numa das lojas, ao pagarmos, tinham testers de perfumes da marca da casa junto à caixa. Pulverizei um braço e um bocado do vestido apesar de ser perfume de homem. Foi mais forte que eu. Quando entrámos no carro, o meu marido admirou-se: 'A que é que cheira? Não me digas que puseste perfume?'. Pois foi. 

A seguir ao almoço, reclinei-me no sofá e pus-me a ver uma série na Netflix. Gosto de séries e filmes escandinavos. Chateia-me é ter que estar a ler as legendas porque não pesco uma palavra. Mas, enfim, é o que é. A verdade é que gosto bastante. Aqui não há muito tempo, num fim de semana, vi o Toscana. Agora estou a ver Dois Verões. Não há cenas às escuras em que a gente não vê metade, não há tiros nem perseguições, não há macacadas parvas. Há luz, boas interpretações, histórias simples mas bem urdidas. É do que ando precisada. Não me apetece puxar pela cabeça nem pela visão.

De tarde, tivemos cá meia trupe, como sempre bem dispostos e ruidosos. A outra metade andava pelos santos, a petiscar e a flanar. Íamos recebendo fotografias deles, verdadeiros turistas, ora de trotineta ora nos comes. Lisboa sempre bela e animada, acolhedora para quem a quiser viver.

Às tantas, por cá, eu estava a fazer uma coisa que o meu dog guard deve ter interpretado como se eu me estivesse a colocar em risco. Então, tentou impedir-me. Tentou agarrar-me, encavalitou-se em mim a bater castanholas com os dentes, coisa que eu acho que ele usa como manobra intimidatória. Eu dizia-lhe: 'Que estupidez é essa? Aiii!!!! Quieto!!!!' coisa que agora já costuma resultar mas que, no caso, não surtiu efeito. Então, nesta manobra, cheguei-me para trás sem ver que um dos meninos estava atrás de mim. Ou seja, caí por cima dele. Levantámo-nos todos a rir com o moche que a avozinha fez ao netinho. Claro que, com todos estes reboliços, a pequena fera fica meio desatinada. 

Nestas alturas, o meu marido retira-se. Creio que vem deitar-se no sofá da sala, não sei se a ver futebol se a dormitar. Hoje, o mais velho, quando se estava a despedir, disse que o avô tem cenário ou que tem estilo, qualquer coisa do género. Ficou admirado. O mais novo confirmou, pelos vistos também acha. Sendo de poucas palavras e zero gestos de carinho, a verdade é que os netos gostam mesmo dele. Achei graça. 

Jantámos na rua. Não tive que fazer nada, apenas compor uma salada. Foram os restos da churrascada da véspera. O terraço com o jasmim e as buganvílias em flor, a noite quente de um dia grande, o lusco-fusco já com as luzinhas solares, fica um cantinho acolhedor. Gosto de luzinhas, grinaldas com luzinhas. Arranjei umas bolas brancas muito simples. Fica bonito. 

E, pronto, nada mais a reportar. Não vi televisão, não sei de notícias, não li, não fotografei, não cozinhei. Por isso, hoje não passa disto, cenas desta minha simples vidinha.


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Numa tentativa de vos oferecer qualquer coisa para que a passagem por aqui não seja completamente dada por perdida, eis um vídeo em que um assistente de bordo ilustra as instruções de segurança a bordo de forma assaz criativa e bem disposta. 


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Pinturas de Alma Thomas ao som de Água de Beber, de António Carlos Jobim, pelo Stringspace

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Desejo-vos um bom dia de domingo
Saúde. Ânimo. Paz

sexta-feira, agosto 27, 2021

Pode um simples bouquet...?

 



Mais um daqueles dias com (quase) tudo lá dentro. Preciso desesperadamente de férias. Esta sexta-feira vai ser obra. Queria estar já numa de zero reuniões, reuniões free, mas não consegui. Não me dão tréguas. E mandam-me documentos para aprovar e eu não consigo aprovar o que quer que seja sem ler atentamente. E tem sido com cada um.... Dose. Portanto, há dias em que é praticamente non stop. E isso, nesta altura do campeonato, pesa a dobrar.

Trabalho à parte, a mesa de que eu gostava tanto e que se desconjuntou foi considerada um caso perdido. Mas o tampo é muito bonito e estava bom pelo que o meu marido se lembrou de lhe arranjar uns pés de tipo cavalete que tinha visto no Leroy. Assim, ficamos com a mesa suplementar de que temos falta para refeições de grande ajuntamento. A mesa nova creio que não acomodará mais do que 10 pessoas o que é curto. Além do mais, em tempos covid, não é de bom tom estarmos todos de boca aberta, sem máscara e colados uns aos outros. Portanto, a solução do tampo e dos cavaletes que se fecham e arrumam é uma boa. 

Aproveitei para trazer do Leroy uma latinha de dourado. Acho que alguns dos móveis pintados vão ficar uma belezura com um filet em dourado.

Ao lado do aparador, a minha filha fez uma mistura de mesas e de cores e numa jarra que está sobre o dito aparador, achou que ficaria bem umas flores no tom. Então, já que tínhamos que ir também comprar uma cafeteira (até a máquina do café se avariou) e uma box para a tdt (que se avariou), resolvi ir num pulo ao Gato Preto. Será escusado dizer que, em pleno Gato Preto, tive que me chatear pois, mal entrei, já ele estava passado. Detesta compras. Detesta. Sempre detestou. Quando eu não estava em teletrabalho, jardinava e passarinhava à vontade sem andar com ele. Agora, trabalhando em casa, aproveitamos os fins de dia para estas incursões em conjunto. Mas nunca correm bem. Ver flores no Gato Preto é porem-no a andar descalço sobre brasas: só quer correr dali para fora. Tive que lhe dizer, com maus modos, que parasse de me perseguir, loja fora, a dizer que não estava para aquilo. Ficou ainda mais bravo. A empregada vinha perguntar se precisávamos de alguma coisa mas deve ter percebido que havia raios e coriscos entre nós e arrepiou caminho. 

Portanto, lá escolhi apressadamente um little bouquet e lá nos viemos embora. Mas deve ter percebido que exagerou na birra pois no parque de estacionamento já vinha todo simpático a perguntar se não seria melhor irmos comprar comida para não ser preciso cozinhar quando chegássemos a casa. 

Felizmente a minha mãe não estava connosco senão punha-se logo do lado dele. Habituada a que o meu pai pusesse e dispusesse, condicionando-a nas suas vontades, faz-lhe muita impressão que o meu marido se mostre abertamente contrariado por fazer algumas coisas e que eu não acate cegamente a vontade dele. Eu digo que ele tem bom remédio: não vir comigo. Mas ele acha que eu sou despistada, me perco ou me distraio a ver isto e aquilo e nunca mais apareço em casa e, portanto, contrariado, vem. Mas vem mais numa de me controlar e obrigar a despachar. E isso irrita-me. Em contrapartida, há vantagens. 

Como estamos numa de, in heaven, tornar o ambiente mais claro, as carpetes da sala da lareira, que eram de tons mais intensos (Arraiolos feitos por mim respeitando as cores originais), foram para a zona mais antiga da casa e, para ali, a sala estava precisada de umas mais suaves. Portanto, hoje, a seguir aos pequenos electrodomésticos e às florzinhas fomos comprar uma carpete. Ou seja, um rolo bem gigante e bem pesadão. Poderia ter encomendado online? Poderia. Mas não seria a mesma coisa. Escolher um tapetão é daquelas que só mesmo ao vivo. E é também daquelas que eu não teria conseguido trazer sozinha.

Portanto, a ver se ele não se enfurecia mais e me dizia que carregasse eu com a carpete, calei-me caladinha. A vida de casada, quando a gente se gosta e se conhece, tem disto: um jogo de equilíbrios em que o deve e haver se misturam, se confundem, perdem o sentido. E, além disso, as pequenas quezílias evaporam-se instantaneamente (pelo menos connosco, é o que acontece).

Quando chegámos a casa, perto das nove da noite, fui ainda fazer uma proeza: pintar as raízes com tinta comprada no Lidl. Já o contei: na linha lateral de contorno do rosto, entre as orelhas e as laterias da testa, tenho já alguns cabelos brancos. Aliás, em meu entender, bastantes. Se usar o cabelo caído, mal se vêem. Mas, se o apanhar como gosto de fazer no verão, vêem-se bem. Também podiam ficar assim mas parece que não gosto ou, pelo menos, ainda não me habituei a gostar. Segui todas as instruções. Vinte minutos nas raízes e depois dez no resto para não ficar um contraste grande. Agora ainda o tenho um pouco húmido mas parece que ficou bom. Creio que até está igual à cor original. A ver se amanhã, sequinho e ao sol, está como deve ser. Acredito que sim. Jantei ao lado do meu marido e ele não disse nada. Acho que nem reparou. Ora isso significa que nada a reportar, que é o que importa.

Pelo caminho, encomendámos comida num restaurante e pouco depois estávamos lá a buscar a encomenda. Rolinhos de porco no forno com champignons, batatas em mil folhas, trufas e mais não sei o quê. Bons.... de comer e chorar por mais. Souberam-nos que nem ginjas boas, boas. Também... com a fome com que estávamos...

Com tudo isto, cheguei aqui e, como sempre, não apenas me constatei sem assunto como, para mal dos meus pecados, foi logo tiro e queda. Portanto, vou mas é pregar para outra freguesia que aqui, por hoje, parece que isto já deu o que tinha a dar. Sorry.

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Fotografias (lindas) da autoria de Nick Knight enquanto Roo Panes interpreta Childhood

PS: Se o que escrevi estiver pejadinho de gralhas, peço o favor de que relevem. Ou me corrijam, Please.

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Desejo-vos uma bela sexta-feira. 

E, se não for pedir demais à suprema entidade reguladora, desejo que todo o fim-de-semana e toda a próxima semana sejam bons a valer para todos quantos estiverem a ter a paciência de aí estar, desse lado, a fazer-me companhia.