Disseram-me que ninguém analisa os números como eu ontem os apresentei, que as percentagens são sempre calculadas na base dos que votam e não na base do total dos eleitores. Até posso concordar quando a abstenção não grita mais alto. Contudo, desta vez, os valores da abstenção, brancos e nulos, depois de 3 anos de violência, significam mais do que as percentagens ridículas que os partidos obtiveram.
Depois das violações descaradas e dos atentados a tudo e mais alguma coisa a que os partidos da coligação que suporta o governo têm vindo a sujeitar a população, o que seria normal seria que toda a gente se pusesse a caminho e votasse vigorosamente contra eles. O que seria normal seria que o PS, o PCP (e até o BE) tivessem uma votação esmagadora, inequívoca, arrasadora.
Mas não. As pessoas não votaram. Ou, os poucos que se deram ao trabalho de votar, entregaram votos riscados, ou dispersaram os votos. Ou entregaram o voto a um partido cujo programa se desconhece e fizeram-no apenas porque, por algum motivo, acreditaram que esse homem os defenderá. Um cheque em branco.
Eu, como provavelmente cada um de vós, sabe de muitos casos de pessoas que estão furiosas com o que se está a passar mas que estão, sobretudo, descrentes face à idoneidade de todos os agentes políticos, os do governo e os outros.
Poderia falar de vários colegas meus (ex-devotos do PSD ou CDS) que me disseram que se recusavam a votar já que naqueles anormais (sic) do PSD ou do CDS estava fora de questão e no Totó do Seguro só se estivessem parvos. Como são meninos que desconhecem o que é o PCP ou o BE, está bom de ver que se abstiveram. Mais: dizem que isto já só lá vai se esta porcaria rebentar de vez (sic e seja lá o que isso quiser dizer), que então talvez 'eles' aprendam.
A minha filha, que costuma votar e que é pessoa de mente aberta, não foi votar e disse que pode ser que, se a abstenção chegar aos 90%, 'eles' acordem e vejam que política não é nada disto.
A minha mãe acabou por votar depois de uma feroz campanha anti-abstenção da minha parte. Sempre votou mas desta vez está tão revoltada, acha tudo tão inconcebível que lhe parecia que não votar seria a maior ofensa que 'lhes' podia fazer. Eu disse que não, que era para o lado em que 'eles' dormiriam melhor, que então votasse noutro qualquer. O outro qualquer em que naturalmente votaria seria o do PS mas a resposta fou sempre categórica: Mas aquilo é lá capaz de decidir alguma coisa? É igual ou pior que o outro. Gente sem credenciais. Nem pensar. Referia-se ao Seguro, claro. No sábado, disse-lhe, Não se abstenha, não faz sentido. Se não quer votar no PS, vote no Bloco de Esquerda, no PCP, no do Marinho, qualquer coisa. Respondeu-me com uma pergunta: Qual é o partido do Marinho? Disse-lhe que era o MPT e nem lhe perguntei porque queria saber. No domingo à hora de almoço disse-me que já tinha ido votar.
O meu filho, rapaz informado, politizado, no domingo à noite, enquanto o Seguro fazia a festa, atirava os foguetes e apanhava as canas, enviou-me um sms de que transcrevo a primeira parte (a segunda é pior, nem transcrevo): Estás a ver o Seguro?? Faz-me o favor de não comemorar no teu blog a vitória de um partido que tem este gajo à frente, a celebrar com uma música tipo filme manhoso dos anos 90.
Nem reparei na música, para dizer a verdade. Reparei, sim, que tudo aquilo me parecia um filme falhado. Aliás, toda a noite eleitoral me pareceu um filme falhado. Tudo ao lado, tudo gente fora de prazo, atitudes fora de prazo.
Os partidos implodem, o regime implode, cá e em todo o lado, a Europa está a pisar caminhos muito perigosos, ascendem os que não acreditam no projecto europeu, o cherne tenta sair de fininho, com comentários e recomendações tão balofas quanto foi balofa a sua actuação à frente da Comissão Europeia. Reina a Merkel mas tem pés que rapidamente se podem tornar de barro e grande parte da Europa vê nela a personificação do Mal.Uma nódoa em Portugal, Durão Barroso foi alcandorado a um lugar de relevo na Europa onde só fez porcaria, abrindo caminho à destruição da instituição a que presidia e estendendo a passadeira vermelha à extrema direita, aos nazis e, aqui e ali, à esquerda mais radical.
O que vai ser de uma Europa nas mãos de gente que apenas quer destruí-la ou sair dela?
Gente fraca a fazer política leva à rejeição por parte da população, e quando as pessoas não vêem que os partidos sejam capazes de se regenerar, descrêem. São sempre os mesmos, é tudo igual - é o que mais se ouve dizer. Pode ser injusto para alguns mas, de forma geral é correcto. A gente vê as mesmas caras entrar e sair do governo, rodar no parlamento, nas empresas públicas, nos debates.
Sempre as mesmas caras ao longo de anos e anos, usando os mesmos argumentos, esgrimindo artifícios verbais gastos.
As pessoas de idade não suportam ver o seu destino entregue a gente impreparada, desrespeitadora, os mais novos não suportam esta forma de fazer política feita por gente em que não se revêem, a classe média que se tem vindo a ver espoliada não suporta a ignorância aboletada no poder.
Eu, que como aqui o refiro frequentemente, a identificar-me mais com algum programa, seria com o do PS. A social-democracia humanista, aberta, moderna, que aposta no desenvolvimento e no conhecimento, que assenta na igualdade de oportunidades e ma liberdade, é o ideal de sociedade que orienta as minhas escolhas.
No entanto, como me sinto distante deste Seguro que parece ansiar que chegue a sua vez de ser poderoso, para saciar a sua fútil ambição e vã vaidade...
Há nele qualquer coisa de postiço, de artificial, de prosápia frouxa que me incomoda. Vê-lo a sair, motorista à espera, bruto carrão... ui, que incómodo.
E, no entanto, não me move qualquer dessa inveja miudinha que tantas vezes turva o raciocínio. Mas, ó senhores, que sentido faz um chefe de um partido da oposição andar num bruto carrão, como se não houvesse austeridade no País? Sentir-se-ia mal se andasse num carro robusto e confortável mas de uma gama mais baixa? São peanuts, sei que são, mas é a imagem, é o que está por trás da atitude. Como pensará ele que os reformados, os desempregados, os jovens, olham para ele todo armado em barão?
Há por toda a Europa - entregue a políticos já de rabo pelado por tantos bancos do poder por onde tem passado, ou a políticos de pacotilha, jotas que saíram do aviário sem terem passado pela vida, a burocratas não eleitos, a gente que não se percebe de onde saíu - um frémito de revolta que não se sabe como vai acabar. E a bem de todos, seria aconselhável que, a nível dos partidos, os seus líderes e apaniguados soubessem sair a tempo, soubessem ter uma saída limpa.
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A última imagem, como se vê, provem do blogue We Have Kaos in the Garden
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Estava com vontade de falar na FN, no UKIP, nos nazis e nessa malta estranha que agora vai tentar incendiar a Europa mas hoje não estou em condições. No fim de semana fartei-me de pegar nos pimentinhas ao colo e acho que dei cabo de um ombro. Estou a escrever isto completamente aflita pelo que me vou ficar por aqui, vou tomar um comprimido, pôr gelo e meter-me na cama. Nem vou rever. Tenho recebido tantas coisas engraçadas ou comoventes e ainda não vai ser hoje que vou conseguir inclui-los aqui. Nem consegui responder aos mails. A ver se amanhã estou fina.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma boa terça feira.
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