Os telejornais ou noticiários -- ou como se lhes queira chamar -- das 20 agora são um pack: notícias, comentário, tertúlia, reportagens. Cabe lá tudo e mais um par de botas.
Cá em casa não há preferência por nenhum dos canais. Se calha termos a televisão ligada, deixamos estar onde no momento nos pareça estar a dar alguma coisa mais interessante, menos maçadora.
Hoje, porque os telefonemas familiares empurraram a hora do nosso jantar para mais tarde do que é costume (agora temos vindo a tentar não jantar muito depois das 8), calhou sentarmo-nos à mesa e, pouco depois, começar a dar uma reportagem sobre uma das Blue Zones, um daqueles locais abençoados em que a vida corre simples e afável e em que um número significativo de pessoas consegue ter vidas longas e felizes.
Vi com gosto. Uma maravilha.
E a Susana André, que bela repórter. Também com simplicidade, também com afabilidade, conversou com as pessoas das aldeias, visitou-as, acompanhou-as. Que maravilha de reportagem, mesmo.
Provavelmente é um lapso imperdoável da minha parte mas nunca tinha ouvido falar na Susana André mas vou passar a estar atenta. E vão daqui os meus parabéns para ela!
Poderia ter escrito "O nosso amor" mas não quero apropriar-me de um momento tão especial, num lugar tão belo.
E ele está um gato. Um gato já um pouco usado, dirão as más línguas. Mas há casos em que o uso se traduz numa patine que embeleza as coisas e as pessoas. É o caso. A pinta dele, a forma como se veste, o corte do cabelo... tudo tem tchanam. Até a guitarra às cores condiz com ele e com o lugar.
As belas cores italianas feitas de sol, de terra, de mar, de sinais do tempo nas coisas estão ali muito presentes. Há uma harmonia antiga que nos cativa.
Muitas pessoas associam as coisas antigas a mausoléus, a móveis 'de estilo', escuros, sofás de pele escura ou veludos soturnos, tapetes em tons bordeaux escuros, pinturas sombrias com molduras de madeira escura, casas mal iluminadas em que o sol, se entrar, não tem onde se reflectir.
Há ainda quem preencha todo o espaço com móveis, sofás e traquitanas de toda a espécie não deixando espaço de circulação. Ou quem, em contrapartida, deixe espaços vazios, não como um espaço de luz e respiração mas como prova acabada de abandono ou de falta de inspiração.
Em qualquer dos casos, os espaços serão inóspitos, pouco acolhedores, pouco felizes.
Claro que, falando assim, tenho que pensar nas pessoas que têm casas pequenas porque não conseguem pagar maiores e que, portanto, não têm como pensar em decoração quando as primeiras necessidades são as que falam mais alto. Ou nas que mobilaram a casa de uma maneira e agora não têm meios para a renovar. Ou, ainda mais, claro, as pessoas que não têm casa.
Mas sempre haverá quem passe por situações que não lhes permita fazer aquilo que tanto gostaria de fazer.
E, aliás, estou em crer que mesmo para pessoas que gostavam mas não têm como viver em casas organizadas e decoradas de outra maneira, ver casas bonitas pode ser um bálsamo, uma escape, uma porta para o sonho, um pretexto para imaginar outros voos.
O que Isabella Ducrot (nascida em 1931 em Nápoles e agora a viver e trabalhar em Roma) aqui nos mostra é, a meus olhos, extraordinário. Há conforto, há luz, há modernidade, há antiguidade, há uma sã convivência entre tudo, talvez favorecida pela luz clara e serena que a envolve.
E a maneira como ela trabalha, o despojamento, a leveza e harmonia das formas e das cores, o prazer das texturas, do toque, a dimensão arrojada, tudo nela é surpreendente e, ao mesmo tempo, reconfortante (digamos assim).
E já nem falo nos seus 92 anos. Noventa e dois. Senhores, como é bela e jovem e serena esta mulher.
De novo, lamento que o vídeo não tenha legendas em português. Mas o italiano de Isabella é pausado e aberto, percebe-se bem e é muito saboroso. E, para quem não perceba, lá estão a legendas em inglês.
Touring A 16th-Century Italian Palace: Isabella Ducrot’s Private Art Collection | Visitors’ Book
The World of Interiors presents Visitors’ Book with Isabella Ducrot at Palazzo Doria Pamphilj in Rome, Italy. Step inside Isabella’s beautiful 16th-century apartment situated above the prestigious Doria-Pamphilj gallery, as we explore her private art collection.
Together with her late husband, Vittorio Ducrot, Isabella has collected an array of art that reflects their intimate travels — from Giaquinto’s Madonna to a number of Indian miniature paintings. “Our collection of Indian miniatures is the fruit of our travels to India, where we went every year for sixty years.” Watch the full episode of Visitors’ Book as we explore Isabella Ducrot’s slice of the Palazzo Doria Pamphilj in Rome.
Mesmo que se tratasse de um homem equilibrado, um democrata, um humanista, um tipo decente, um fulano culto e com uma visão holística do mundo, ainda assim seria perigoso. Toda a gente funciona bem até deixar de funcionar. E um país tem que ter camadas de poder, camadas não apenas horizontais (diferentes níveis de decisão) como camadas de poder distintas e independentes. E umas camadas devem vigiar as outras. E os termos em que a vigilância entre camadas independentes se exerce devem estar bem definidos.
Mesmo assim há perigos como vimos com Trump que, apesar de todos os checks and balances, conseguiu manter-se durante uns anos à frente dos Estados Unidos. E isto apesar de todas as suas mentiras, de toda a incompetência, dos reais riscos de deslealdade que a proximidade a Putin prenunciavam, do narcisismo doentio que o levava a toda a espécie de dislates e alarvidades, apesar da erosão política e social que cavou na sociedade americana.
Agora imagine-se um regime obsoleto, baseado na distribuição de prebendas entre oligarcas (muitos dos quais, estranhamente, a aparecer mortos), em que as supostas primeiras figuras são humilhadas publicamente ou sumariamente descartadas, em que a lógica é a da concentração de um poder absoluto em Putin, um ex-agente do KGB, um saudosista de impérios de má memória, um psicopata assassino que governa ditatorialmente e que não se importa de sacrificar milhares de vidas para salvar a sua.
O que Fareed Zakaria diz no vídeo abaixo é muito interessante e muito claro.
O que está a acontecer na Rússia e na Ucrânia é grave demais. Diz ele -- e eu acredito -- que a implosão do regime putinista não deve estar longe. O pior é o que vai acontecer até lá. O mundo está um lugar cada vez mais perigoso.
Zakaria explains what Putin's nuclear threat tells us about him
CNN's Fareed Zakaria discusses Putin's nuclear threats toward the West and what they tell us about his war in Ukraine
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PS: Claro que os resultados em Itália também não podem deixar ninguém muito tranquilo
O nazismo e o fascismo cercam as democracias como feras sedentas de sangue.
Estou a ver um maravilhoso programa de culinária no 24Kitchen com Silvia Colloca que fala de comida italiana. Cozinha ao pé dos convidados numa bela varanda rodeada de natureza. Conversa, envolve a conversa, a comida e o ambiente com sorrisos. Há ali leveza, boa disposição. A partilha de experiências e de memórias ao ar livre e em volta de uma panela de onde se evolam os belos cheiros dos cozinhados é uma coisa boa.
E a luz das imagens traz alegria. O ar livre e os verdes dão saúde, mesmo quando visto através da televisão.
E ao ouvir falar de iguarias italianas lembrei-me de quando fui ter uma reunião numa empresa em Milão. Para começar, fui à vontadinha pensando que se poderia ter as reuniões em italiano pois tinha a ilusão de que, mais coisa menos coisa, as parecenças entre o português e o italiano seriam suficientes para nos entendermos. Ilusão. Nem pouco mais ou menos. Há palavras tão diferentes que bloqueiam o entendimento de toda a frase. Acabámos por ter que usar o inglês o que me deu muita pena pois adoro o italiano.
Mas o que quero contar é que os nossos anfitriões tinham reservado um restaurante especial para nos levar. Avisaram que era fora da cidade e que íamos comer a genuína comida campestre italiana. Não faço ideia onde era. Não tenho qualquer sentido de orientação espacial nem memória para nomes de restaurantes. Sei que era mesmo no campo. Uma estrada de terra batida ao longo de um ribeiro. Havia uma casa branca, o restaurante propriamente dito, e, cá fora, uns paus espetados na terra e uns panos, como que lençóis brancos atados com nós do próprio tecido, fazendo uns toldos artesanais. Havia trepadeiras, havia vasos com flores. Por baixo de cada lençol havia uma mesa de madeira comprida e uns bancos corridos.
Os comensais em todas as mesas conversavam animadamente. Lembro-me de virem grandes taças de comida e era comida apaladada, com molhos suculentos. E nós ali no meio do campo, no mais inesperado restaurante. Parecia uma animada reunião de família.
Andei à procura na net mas não descobri. Pode até já não existir. O mais parecido que encontrei foi este aqui acima.
Outra coisa de que me lembrei ao ver o programa (na parte do gelado de morango) foi de quando, em pequena, ia apanhar morangos com o meu avô. A casa dele era geminada de um dos lados. À frente e do outro lado tinha um jardim que era mais o pelouro da minha avó. Nas traseiras, num terreno que ia em socalcos por ali acima, o meu avô tinha a sua horta. Plantava batatas e cebolas e isso ocupava a zona maior. Depois tinha feijão verde que trepava por umas canas cruzadas e que eu gostava imenso de ir apanhar.
O tomate alongado também trepava por canas. O meu avô apanhava-os com as ramas e entrançava-as, guardando suspensos na casinha que avia no quintal e onde cebolas e tomates suspensos pelas respectivas ramas aguentavam o ano inteiro.
Outros tomateiros eram menos atrevidos, cresciam mais modestamente, sem se arrebitarem tanto.
Tinha também alhos, alfaces, couves, salsa, coentros. E tinha árvores de fruto. E depois, num canteiro elevado, havia morangos. Eram miudinhos mas carnudos, macios, muito docinhos.
O meu avô chamava-me para ir com ele. Eu acreditava que ele precisava da minha delicadeza de gestos. Dizia para eu agarrar com cuidado, para não os desfazer, para torcer ao de leve para se desprenderem. Por vezes, antes ia à arrecadação onde guardava as ferramentas e trazia uma tesoura preta. Cortava os pezinhos dos morangos com cuidado. À medida que os íamos apanhando, íamo-los dispondo com cuidado numa cestinha. Chegavam incólumes à cozinha. Aí a minha avó abria a torneira e lavava-os em água corrente. Ensinava-me a pegar neles com cuidado e dizia que os morangos tinham que ser sempre muito bem lavados pois estavam em contacto com a terra e nunca se sabe que bichos ou porcarias por lá andavam. O meu avô não queria saber do que dizia serem os exageros dela. Muitas vezes apanhava-os, limpava-os com a palma da mão e comia-os assim mesmo. Mas eu, por via das dúvidas, limpava-os bem. De resto sempre gostei de lavagens.
Ainda hoje tenho esses cuidados apesar de, se calhar, os morangos que compro no supermercado nem saberem o que é terra.
E depois há o gosto em cozinhar, a vontade de fazer o que a gente vê nem que seja em fotografia e, ao saber o que é, começar logo a pensar em como fazer e, logo, logo, em introduzir algumas variações. Por exemplo, vi o que a turma do meu filo tina jantado num restaurante no interior algarvio: açorda de galinha e ensopado de javali. Pedi ao meu filho que me falasse da açorda. Falou e agora estou com vontade de fazer. Se calar vai ser o nosso jantar de sábado. Falei à minha filha e ela disse que estava adjudicado. Do ensopado de javali não sei, teria antes que ter o dito. Mas se calhar ficará bom se for feito com pernil de porco.
Também tenho uns chocos que congelei fresquinhos, por amanhar, sujos da sua tinta. Tenho que fazê-los cozidos, com as suas entranhas. Só é preciso tirar, antes de servir, a saqueta da tinta que está em baixo e que tem matéria áspera. Cortados aos bocadinhos, a gomosidade dos interiores, azeite, cebola crua às lasquinhas, salsa. Bom demais.
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E é isto. Por ora, nada mais me apraz dizer.
Deixo-vos apenas com um vídeo que mostra Silvia Colloca para quem ainda não a conhece.
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Nota: a tecla do h no meu teclado hoje deu-lhe para entrar em greve. Uma luta para que colabore. Por isso, se derem por falta dele em algumas palavras, por favor relevem, ok?
Conheço algumas pessoas muito ricas e algumas das coisas que elas compram ou o estilo de vida que seguem não estão ali plasmadas.
Um, por exemplo, tem como residência habitual uma moradia numa das zonas com mais cachet da Grande Lisboa mas, para férias e alguns fins de semana, tem uma casa quase normal numa aldeia na zona da Costa Vicentina. Quem o veja de calções, tshirt puída, chinelos nos pés, a vir do pequeno mercado local de saco na mão, preparado para ir assar peixe no jardim, nem sonha que o seu nome consta da lista dos mais ricos do país.
Um outro, e já aqui falei dele, tem um grande herdade com coutada no Alentejo profundo. Esse usa parte do dinheiro para proporcionar vida de rico a uns quantos amigos. Falei nele a propósito do Sócrates quando as pessoas se espantavam com o amigo do Sócrates que lhe proporcionava uma rica vida. Este de que falo é isso mas ainda em maior escala. Há um casal em especial mas também um outro, embora em menor escala, que conhecem o mundo e o que de melhor o mundo tem a oferecer porque o amigo rico e a mulher fazem questão que eles os acompanhem. Não vou entrar em pormenores mas a amizade que liga aquelas pessoas faria ficar de olhos arregalados muito boa gente. Há quem veja oportunismo nos beneficiários. Do que conheço, o que há é já uma habituação mútua. Os que dão gostam de dar e os que recebem já o acham natural. Muita gente que os conhece de longa data e sabe como, ao mesmo tempo que passam férias e fins de semana juntos, por vezes parecem cão e gato, frequentemente a discutirem, a contrariarem-se, a discordarem acesamente, dizem: relação de irmãos.
Outros o que compram é a possibilidade de, na sua vida pessoal, estarem quase isolados do mundo. Quase só convivem com a família e com um ou outro leal e raro amigo. O que precisam é-lhes levado. Jamais vão a supermercados ou lojas. As compras vão até eles. Cabeleireiros, modistas, massagistas, galeristas ou médicos vão a casa. Detestam confusão, vivem quase isolados.
Sei de um, que já não está entre nós, que, sendo senhor de vasta e diversificada fortuna e de casas imensas (conheço duas delas e são extraordinárias, sem luxos absurdos mas de uma tal dimensão e bom gosto que são quase de cortar a respiração), tinha une petite amie, por sinal pessoa invulgar e simpatiquíssima, a quem comprou um pequeno apartamento onde passou a fazer parte da sua vida e onde ficava a cozinhar enquanto ela não chegava do trabalho.
Claro que há ricos e ricos. Haverá outro tipo de pessoas muito ricas que não estas de que falo. Por exemplo, o Cristiano Ronaldo. Compra carros, compra aviõezinhos, compra apartamentos, compra relógios caríssimos, compra roupa de griffe. Pu aquele dos barcos do Douro e da TVI que comprou uma viagem ao espaço. Não sei se foi ele que comprou se foi uma empresa dele mas isso também agora não vem ao caso, o que vem é a opção. Ir ao espaço. Queimar uma pipa de massa pela experiência de se montar num foguetão e pelo prazer em dar entrevistas, certamente pelo prazer de se achar o maior.
Aqueles de que acima falei são poupadinhos, jamais gastariam fortunas a ir ao espaço.
Podem fazer uns passeios aqui ou ali, talvez até um ou outro cruzeiro pelo Mediterrâneo, umas férias na neve, mas nada de verdadeiramente extravagante.
Nunca se ouve falar muito disso mas dá a ideia que o que gostam mesmo é de estar em casa com família e amigos.
Mais depressa doam dinheiro anonimamente a associações que precisem de ajuda do que qualquer outra coisa que faça notícia. Também raramente dão entrevistas. Só as dão quando o rei faz anos e é tão a contragosto que a coisa nem corre lá muito bem. Não usam roupa com marcas à vista e, sempre que podem, andam com roupas velhas, pendonas. Um, no inverno, quando em registo informal, costuma usar um camisolão de malha, já todo assimétrico e com vários pegões. Aquilo já devia ter ido para o lixo há muito tempo mas acho que ele não repara nisso, deve achar que é confortável e que deve estar ainda muito bem. Têm relógios banais, usam canetas bic, nunca os ouvi gabarem-se de alguma coisa que tenham comprado. Mas se lhes falarem num azeite muito bom ou num vinho que não seja muito caro mas seja bom, aí já ficam interessados.
Há, em algumas pessoas, a ideia de que ser muito rico é coisa má, coisa que só pode resultar de exploração alheia ou de manigâncias pouco transparentes. Ou que uma pessoa muito rica é uma pessoa estúpida, ignorante, fútil. Ora, como em todas as generalizações, isso é um erro. Haverá alguns que sim, alguns que não. Talvez os newcomers sejam predominantemente assim. Aqueles de que falei não são newcomers e não são seguramente assim. São pessoas normais. O facto de serem muito ricos não lhes corroeu a normalidade.
Não quero com isto estabelecer nenhuma doutrina nem pregar contra ou a favor. Digo apenas que as generalizações conduzem muitas vezes a conclusões erradas.
Tirando isso, o que penso é que o país está a ir na direcção correcta. Portugal começa a atrair investimento em mão de obra qualificada, em centros de investigação e desenvolvimento, e, com isso, o nível geral de vida tenderá a aumentar. E isso é bom. Os resultados não serão imediatos mas estou em crer que no prazo de uma meia dúzia de anos haverá menos assimetrias e menos pobreza no país. Não é saudável haver algumas pessoas muito ricas e muitas muito pobres e é contra isso que, de forma racional, construtiva e desapaixonada, temos que lutar.
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E, para terminar com um touch of bela vida, um vídeo que decorre em Portofino, num sítio muito bonito do qual guardo uma curiosa memória:
One-day Diary of Cara Delevingne at Dior Spa Portofino
Cara Delevingne relaxes in Dior at the luxury Dior pop-up wellness space in Paraggi complete with a Toile de Jouy spa treatment cabin right on the beach. Discovering the wonders of Portofino and live la dolce vita in the exclusive wellness spaces!
Imagino que ao longo dos tempos sempre tenha havido isto de algumas pessoas acharem que se caminha a passos a«largos para o fim dos tempos. Ou isso, ou que se está a bater no fundo. Ou que, depois disto, só a hecatombe. Portanto, não creio que faça parte de algum grupo de vencidos da vida new age ou que esteja a ser minimamente original. Desiludidos e descrentes sempre os houve e, enquanto por cá andarmos, sempre os haverá.
Não tenho conta de Facebook, Instagram, WhatsApp, Twitter e não apenas isso não me atrai e não me é útil como considero, e desde o início o considero, que mais do que plataformas de partilha, elas facilmente podem ser usadas como armas contra a liberdade e contra a democracia. E isto não apenas pelas ferramentas em si como pela forma desregulada como são utilizadas. Claro que há formas legítimas de as usar, mas mesmo essas podem alimentar armas ilegítimas (como tem sido sobejamente noticiado e como, certamente, na maioria dos casos, nos é ocultado).
Está provado que grande parte da população tem hoje, como principal fonte de informação, o que circula nas redes sociais. Mais: está provado que, mesmo que inúmeras vozes credíveis denunciem a falsidade de parte dessa informação, as pessoas acreditam mais facilmente nas mentiras do que nas denúncias de falsidade.
E isto acontece porque os humanos são bichos dados à burrice. Ainda recentemente vivi uma situação em que uma criatura, tida como uma estrela, e venerada e paga como tal, mentiu, tomou decisões erradas, umas a seguir às outras, causou estragos de monta e, quando alguém tentou alertar para o que estava a passar-se, foi apontada como desagradável, como alguém que apenas quis denegrir a imagem de uma estrela. Mesmo perante evidências, claras como a água, as pessoas preferem acreditar em histórias nebulosas, mal contadas, manipuladas. A verdade por vezes é crua, pode ferir a vista. Por isso, grande parte dos humanos prefere filtros, névoas, embustes.
O que se passou e passa nos Estados Unidos, o que aconteceu no Brasil, o que acontece em Itália são exemplos do que acabo de dizer. Tudo o que aqueles populistas, ignorantes e estúpidos têm dito e feito, deveria merecer um drástico repúdio, um valente chega para lá. Mas não. Os seus defensores continuam a defendê-los. Porque são igualmente ignorantes e estúpidas, por preguiça, por cegueira...? Não sei. Presumo que por um misto de tudo isso.
Hoje foi notícia que a namorada de Matteo Salvini, o populista direitolas de Itália, anunciou no Instagram que estão separados. E qual a melhor forma de o anunciar? Pois bem: com uma fotografia de ambos na cama, ele aparentemente nu, ela de roupão, perna ao léu. Tudo bizarro, estúpido, injustificável. Qual a lógica de anunciar uma separação numa rede social? Qual a lógica de o fazer ostentando uma fotografia mais ou menos íntima? Qual a lógica disto quando ele é o rosto de um governo que envergonha os italianos* e a Europa? Zero. Lógica nenhuma. Mas é o fruto do tempo, quiçá o novo normal.
* Isto numa altura em que Itália pasma com a anormalidade do dito animal que, perante o drama das cheias, faz uma selfie a andar de barco em Veneza, todo pimpão, a fazer um like. Houve um tempo em que nos governos havia estadistas, gente de bem. Gente, pelo menos com decência, com bom senso. Agora é isto. E é nisto que a maioria anda a votar.
Entretanto, os Estados Unidos vão a votos e eu estou curiosa para ver o que se passa. Provavelmente os que gostam de andar armados até aos dentes e que têm fobia de imigrantes e de comunistas em geral, seja lá o que isso, nos States, significar, irão votar em Trump como antes votaram. Não há evidências que lhes entrem pelos olhos adentro porque, simplesmente, se recusam a ver.
Salva-se o humor e, de novo, aqui trago Randy Rainbow a quem acho graça pela irreverência directa, sem meias palavras. Pode ser que consiga influenciar três ou quatro indecisos.
Às pessoas que mais gostam de petiscar do que de comer grandes pratadas há quem chame piscos. Os piscos são pequenos pássaros e, como qualquer pássaro, ora comem uma coisa aqui, ora outra ali, nunca muito da mesma coisa ou de seguida.
Com os livros, tal como venho confessando, ultimamente eu sou um pisco. Petisco. O tempo livre não é muito, a exigência é cada vez maior, a impaciência domina, o ter que ler um livro de uma ponta a outra deixou de ser uma obrigação para ser quase uma excepção. Abro, leio, se gosto e tenho tempo, continuo, se calhar no dia seguinte pego noutro, depois posso voltar ao anterior e ler outra parte não sequencial. O caso é que também cada vez mais leio apontamentos, diários, ensaios, crónicas, cartas -- ou seja, livros em que o respeito pela sequência não é mandatório. A ficção vai perdendo relevância na minha lista de leituras. Histórias sem história, argumentos frouxos -- ou de uma violência gratuita ou provocações mal engendradas ou diálogos mal cerzidos ou um apelo simplista à emoção -- tudo me causa uma aversão fatal.
Contudo, de quando em vez, um romance cintila nas minhas mãos. Nessas alturas, o prazer visceral pela leitura toma conta de mim e fico presa e, aí, não salto páginas, nem sequer linhas. E, se tenho que parar, não vejo a hora de retomar.
Antes de ir de férias, um colega meu veio mostrar-me o que ia levar para ler, uns que tinha ouvido elogiar e outros de um autor que lhe tinha sido muito recomendado por outro colega nosso. Sabendo-me amante de literatura veio aferir. Nunca tinha lido nada daquilo nem tenciono ler. Não lhe disse desta forma mas penso que ele percebeu que nada daquilo faz o meu género. Ainda tentou: 'Best sellers. Parece que não se fala de outra coisa. E este, um autor premiado'. Consenti: 'Talvez. Se calhar são bons. Eu é que ando pela margem'. Tenho para mim que os meus colegas chegam a duvidar que eu seja mesmo amiga de ler já que nunca me apanharam conhecedora de livros que toda a gente lê. Pelo contrário, se digo o que tenho em mãos, é sempre ave rara, nunca ninguém de tal ouviu falar. Se fosse dada a tremores de alma, quase me envergonharia de nunca poder dar provas de que leio livros de verdade.
Se circulo pelas livrarias, evito parte das estantes como se a simples proximidade me pudesse causar alergia. Depois, mesmo naquelas onde pode aparecer coisa que interesse, espreito com alguma aversão grande parte dos que aparecem destacados. Títulos muito intrusivos, imagens de gosto duvidoso têm em mim o efeito de um repelente. Muitas vezes, se alguma coisa no título ou na capa me faz admitir a hipótese, começo por espreitar o tradutor. Tenho para mim que tradutor que se preze não aceita qualquer trabalho, há-de ser criterioso, E depois abro, leio ao acaso. Se calha ler alguma frase que me parece deselegante, vulgar, insípida, logo ali o deixo, imediatamente desinteressada. Depois há os que passam neste meu crivo sui generis. A esses venho sempre com vontade de lhes poder dedicar atenção de verdade, imaginando os momentos de alegria que irão proporcionar-me.
Com curiosidade trouxe este livro de cujo autor nunca antes ouvira falar. Continha referência a montanhas, a silêncios, a grandes espaços. A capa e a paginação agradaram-me. A fotografia do jovem autor, sentado junto a uma casa de pedra, também me agradou. São estas coisas que não se explicam, meras intuições.
A simplicidade da vida no campo agrada-me. Sendo pessoa de cidade, vivo feliz quando estou no campo. Entregue a tarefas manuais, ouvindo os pássaros, espiando o mato a ver se descubro coelhos, podando árvores ou contemplando-as como quem contempla belos seres vivos, obras de arte, milagres da natureza -- eu nem dou pelo passar do tempo, como se a sua passagem fosse toda e só suavidade.
Hoje de tarde, estava a ler o livro, levantou-se um vendaval. As árvores numa dança ruidosa, folhas pelos ares, um som que parecia o rugido do mar. O céu toldou-se, parecia que ia chover. Fomos pressurosamente à rua, apanhar a roupa antes que se molhasse, recolher a cesta de pinhas. Tudo estava subitamente revolto, a quietude dera lugar a um estranho alvoroço. E, no entanto, até disso eu gostei. Foi como se a paz tivesse mostrado uma outra sua face.
Sempre que posso, isto é, sempre que estamos apenas os dois, faço uma caminhada. Dou várias voltas completas pelas extremas do terreno, pelos caminhos que serpenteiam entre as árvores. Por fim já estou cansada, transpirada, mas continuo: o pinheiro alto, a curva junto aos cedros, o eucalipto grande, o mato de alecrim, as figueiras, a escada de pedra, as parreiras, o abrigo, a volta das azinheiras, o caminho coberto pelos cedros, o corredor comprido dos pinheiros mansos, o campo aberto, a mesa de pedra com os bancos, a moita alta da madressilva, a cabana de madeira, a macieira, o banco azul ao pé dos cavalos azuis, a casinha verde, os loendros, os tamarindos, a descida onde os gatinhos vão procurar a comida, a curva lá ao canto.... E assim continuo. Penso: quando esta volta acabar, páro. Mas, quando acaba, inicio nova volta e prossigo a caminhada. Há qualquer coisa de viciante no prazer que se tem quando se caminha na natureza. E à noite? O milagre de mil estrelas cintilando no distante além que nos sobrevoa? E a lua? Maravilhosa lua. Misteriosa, toda ela metamorfoses. Logo vou a correr buscar a máquina, fotografo-a, agora em crescendo, promissora, toda brilhos e seduções. A noite no campo tem mil fascínios e esta lua cativa-me como se estivesse ali só para me tentar. Fará contemplá-la em plena montanha, só silêncio e secretos murmúrios. Fará.
Não conheço o prazer de caminhar montanha adentro mas imagino que seja mil vezes maior do que o que sinto quando caminho in heaven: será talvez um misto de aventura, de descoberta, de fascínio, um prazer a que sempre e sempre se há-de querer voltar. [Existe um lugar na blogosfera onde se pressente o que deve ter de irresistível a magia da montanha. É dos blogs que sigo com mais interesse. Bate o vento sopra a chuva.]
Não sei se porque o tema do livro se centra no prazer de percorrer a montanha ou se, para além disso, também pela qualidade da escrita, pela simplicidade onde transparece uma forma genuína de comunicar, pelo equilíbrio entre a história narrada e a elegância da narrativa, a verdade é que o livro que estou a ler é daqueles que me faz pensar: 'isto é literatura'.
O autor é Paolo Cognetti e o livro é 'As oito montanhas'. Vou na página 160 e já espreitei o final. E já me aconteceu o que há séculos não me acontecia: emocionar-me a ponto de ficar com lágrimas nos olhos. E isto com uma escrita lisa, desadjectivada, sem recursos a artifícios estilísticos ou a palavreado elaborado.
Entretanto, já fui pôr-me à procura do autor no YouTube e já vi que tem um blog que, a partir de hoje, integra a galeria lateral de 'Frescos e Bons' aí à direita (Capitano mio Capitano). Se por um lado, é escrito numa das mais belas línguas, o italiano, por outro, para quem não a conheça -- como é o meu caso -- é uma frustração. Mas não interessa, percebe-se o que der para perceber e, do que não se perceber, passa-se à frente. Pode tentar-se o tradutor do google mas não recomendo pois é um mais um triturador do que um tradutor.
Entrevista a Paolo Cognetti: l'esplorazione della montagna, un'emozione fortissima.
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As imagens que escolhi mostram os Alpes, excepto parte do meu percurso enquanto por aqui caminho e, claro, excepto a lua a caminhar para crescente, aqui in heaven.
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Ciao!
E uma boa semana a todos, a começar já por esta segunda-feira.
Se há medidas que eu acho que moldam o desenvolvimento de um país, que o tornam mais competitivo, mais rico, mais forte e coeso são as que se relacionam com o ensino, o fomento da capacidade de estudar, de investigar e de ousar inovar, e a defesa intransigente da cultura e de uma visão abrangente e inteligente de tudo o que são valores ou recursos culturais.
Não vejo estas medidas como um custo mas como um investimento. E um investimento de alto e rápido retorno.
Agora -- já aqui aboletada no meu sofá mágico, fresquinho como uma suave barca, apanhando de feição a aragem da noite -- ao folhear os onlines, deparei como uma notícia no DN que instantaneamente me fez ficar rodeada de estrelas. Estrelas virtuais, claro, mas igualmente luminosas e felizes.
Transcrevo, fazendo votos para que Portugal adopte esta ou outra medida semelhante:
Era uma promessa eleitoral de Renzi que, soube-se hoje, começa a tomar forma.
Foi aprovado o "abono da cultura", isto é, 500 euros que podem ser usados pelos jovens italianos (ou com visto de residência) em atividades e produtos culturais.
Não se trata de um cheque passado em mão a todos os jovens nascidos em 1998, mas de uma aplicação que se descarrega nos telefones móveis, chamada 18app. Uma vez registados, os jovens começa a ter acesso a este plafond.
O sistema entra em funcionamento no próximo dia 15 de setembro, coincidindo com o regresso às aulas, e é válido até 31 de dezembro de 2017.
Com este fundo de maneio, os jovens poderão aceder a museus, parques arqueológicos, teatros, cinemas, concertos, exposições, mas também livros, segundo o ministério dos Bens Culturais italiano, promotor da iniciativa e, ao mesmo tempo, responsável pela escolha das propostas culturais que farão parte deste pacote.
Dados divulgados pelo ministério da Cultura italiano, a iniciativa deverá abranger 574 593 jovens e corresponde a um investimento de 290 milhões de euros que sairão dos cofres do governo.
O investimento "envia uma mensagem clara: o de uma comunidade que dá as boas-vindas à idade adulta recordando o importante que é o consumo da cultura para o enriquecimento pessoal e para fortalecer o tecido social do país", disse o subsecretário do Conselho de Ministros, Tommaso Nannicini.
No próximo ano, o governo de Matteo Renzi pretende alargar a proposta a todos os professores.
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Ao som do Va pensiero da ópera Nabucco de Verdi (1842), aqui interpretado por Pavarotti e Zucchero, para exemplificar de forma rápida a forma como a cultura abre as mentes para a diversidade e para a aceitação de diferentes visões sobre a mesma realidade, apeteceu-me mostrar o mesmo S. João Baptista respectivamente por:
Leonardo da Vinci 1513
Caravaggio, 1602
Giovanni Francesco Guercino (Barbieri), ~1645
E porque a defesa da cultura nacional não deve ser encarada de forma chauvinista, o mesmo S. João Baptista mas agora segundo um francês
Rodin, 1878–1880
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Por isso, alô, alô Tim Tim no Tibete!
Siga o bom exemplo de Renzi e ponha os nossos jovens a apaixonarem-se pela nossa cultura, va bene?
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma saudável, sortuda e alegre quinta-feira.
Quando vier o calor despirei a pele do inverno, vestirei vestidos floridos, colocarei umas gotas de perfume feito de bergamota, jasmim, pétalas de rosa, flor de laranjeira e violetas, apanharei o cabelo, talvez use um travessão colorido, talvez vá já à procura de um que tenha flores também, usarei brincos ruidosamente coloridos, sapatos altos de cor a condizer com o vestido, procurarei as flores que se escondem em lugares secretos da cidade, irei talvez para a beira de um lago, procurarei o lugar onde melhor possa ouvir o canto dos pássaros, talvez me sente na relva, encostada a uma árvore, talvez até leve um livro, um livro é uma boa companhia, entregar-me-ei à sua leitura, mas não muito, que um livro, para mim, é para ser saboreado com deleite, as palavras rolando sobre a língua devagar antes de se transformarem em oxigénio ou sangue, de vez em quando terei que olhar para a folhagem que dança levada pela suave aragem, de vez em quando terei que aspirar a tepidez terna das boas lembranças, e depois talvez tenha que voltar o rosto para o sol, os olhos fechados, e, de certeza, esquecerei as nuvens -- e se me apetece despir-me de nuvens, não pensar nelas, não ter nada a ver com elas, pas de nuages, s'il vous plaît.
Claro que não farei uma selfie. Mas talvez o meu amor me queira fotografar e me peça para levantar um pouco a saia e eu, discretamente. far-lhe-ei a vontade.
Quando vier o calor, escolherei um lenço de seda com riscas e flores, dobrá-lo-ei e com ele farei uma fita que me prenda o cabelo, escolherei um gloss bem colorido para que os meus lábios fiquem a condizer com a rosa mais rubra do jardim, talvez passe uma sombra ligeira nos olhos, talvez em azul leve, para que qualquer coisa no meu olhar retenha a pureza do céu, talvez escolha pulseiras, uma de cada cor, para que os meus braços pareçam ter flores frescas, como se tivessem sido colhidas ainda com a inocência da alvorada, talvez escolha uma carteira da cor dos sapatos para que me sinta em harmonia com o que me cobre, e talvez lá dentro coloque uma bolsa com lápis de várias cores para contornar os olhos conforme os vestidos, as cores do céu ou das folhagens das árvores ou das plumagens das aves ou dos reflexos do sol na água, e batons de vários tons para que o meu sorriso transporte a cor das pétalas das flores que se abeirem de mim.
E ouvirei muitas músicas. Mas não me lembrarei do nome de nenhuma. Mas não faz mal porque, em cada dia, ouvirei uma palavra ao acaso que me transportará até aos acordes que depois me transportarão a mim até onde as searas ondulam com a brisa, até onde as árvores se douram sob o sol da tarde, até onde a luz se espraia sobre a pele das mulheres macias feitas de pedra.
Quando vier o calor e os dias forem grandes, o meu tempo será maior -- lá dentro haverá espaço para os risos, os livros, as músicas, para passear abraçada, para não pensar no frio, para me sentir longe do cinzento desolado, para me sentir longe das nuvens carregadas de desalentos, da tristeza dos dias sôfregos como hoje.
E, claro, não farei uma selfie. Mas talvez o meu amor me olhe com amor e eu me veja nos olhos dele e me sinta radiosa, bonita.
O corpo nem sequer é percebido
pelo ritmo que o leva.
Transitam curvas em estado de pureza,
dando este nome à vida: castidade.
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Em itálico um excerto de 'Mulher andando nua pela casa' de Carlos Drummond de Andrade in 'O amor natural'
Lá em cima Lucia Popp (como Susanna) e Gundula Janowitz (como Contessa Almaviva) interpretam "Sull' aria" de "Le Nozze di Figaro" de Mozart
O vídeo e as fotografias pertencem à campanha de verão Italia is Love da Dolce & Gabanna
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E, se estiverem para aí virados, queiram por favor deslizar até ao post abaixo onde há imagens de beijos, poemas de amor e beijos, casais apaixonados dançando e beijando-se, tudo ao som da bela canção que me deu a ideia do post.
Horácio, o grande autor das Odes, o panegirista de Domiciano, o poeta predilecto do erudito Mr. Walkenaer, que foi o seu melhor biógrafo, o apaixonado amante da bela Gynara, da voluptuosa Lyce, da sedutora Cloé e da irresistível Glycere, havia terminado as suas aventuras amorosas nos braços da lânguida Lyde.
O inspirado poeta sentia-se exausto por uma existência eivada de orgias e prazeres. Os seus cabelos estavam brancos, os lábios descorados, a tez macilenta, o olhar amortecido, e todo o sistema nervoso cansado e gasto por aqueles excessos voluptuosos duma vida desregrada e sensual, deslizada desde a mocidade nos seios brancos e tépidos das mais belas cortesãs romanas.
O seu estro havia cantado todos os gozos e todos os prazeres, todas as sensualidades e deboches, todas as mulheres formosas e atraentes, todos os desregramentos e voluptuosas loucuras.
Desenho de modelo masculino de
William-Adolphe Bouguereau
Desiludido do mundo e das mulheres, farto duma vida repleta de gozos e licenciosidades, o grande poeta, não se podendo substituir à influência desmoralizadora dos costumes do seu século e dominado por uma alta fantasia luxuriosa, apaixonou-se loucamente por Ligurino, jovem efeminado, igual a tantos outros que quase levaram a Roma o esquecimento dos homens pelo belo sexo.
Rapaz com cesto de fruta
de Caravaggio
Contando apenas xx* anos, Ligurino era o protótipo do homem-mulher, na mais completa acepção deste classificativo termo.
Bem fornido de carnes muito alvas e rosadas, macias e flexíveis, completamente desprovidas de cabelo, arrancado pelos maravilhosos segredos das desconhecidas pomadas depilatórias geralmente usadas entre os romanos, de olhar sensual e terno, lábios vermelhos e húmidos como os de uma mulher bonita, dotado de um temperamento mais espontâneo e lascivo que o de Messalina, este exótico tipo de homem-mulher, sensível aos beijos e às carícias, tendo toda a doce voluptuosidade duma cortesã emérita, constituiu a última depravação do notabilíssimo poeta.
Horácio sentia-se morrer lentamente nos braços lascivos do belo mignon, a sua lira enodoava-se, assim como as suas cãs, com aquele amor repugnante e torpe, mas o ânimo do poeta, prevertido e sensual, extasiava-se na luxúria febricitante que lhe proporcionava aquele debochado indigno.
Esquecido das suas belas tradições apaixonadas com as mais encantadoras cortesãs romanas, olvidando as suas odes, em que tinha cantado os seus amores e as suas vitórias, esquecendo a fama gloriosa que lhe circundava o nome, o velho poeta votou os últimos anos àquela paixão libidinosa e excitante que o acompanhou ao túmulo.
Vamos pois contemplar por um momento o grande poeta romano num dos seus opíparos banquetes, em que a sensualidade tinha à mesa o lugar de honra, e ele alardeava, sem pejo dos homens e das mulheres, a paixão devoradora que alimentava pelo seu amante!
(Tony Curtis e Laurence Olivier)
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Omito a idade xx* referida no conto Ligurino não porque tenha apetências censórias mas para que não venham para aí dizer que aqui se faz a apologia de práticas pouco recomendáveis.
Tal como nos contos anteriores, não vou poder transcrever todo o conto, fiquei-me pelo início. O dito pode ser lido no livrinho que aqui tenho vindo a referir, Aventuras Galantes. De referir que na Fnac aparece erradamente na estante da literatura traduzida - ora este Rabelais não é o outro, o François, este, tal como antes já referi, é o nosso, Alfredo Gallis de seu verdadeiro nome.
Lá em cima Stefano Dionisi interpreta Farinelli (no filme homónimo) mas a voz que se ouve não é a dele mas a mistura de duas: da soprano Ewa Malas-Godlewska e da contratenor Derek Lee Ragin. A voz que resulta pretende ser a de um castrati.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quarta-feira.
No post abaixo, já falei do nosso fofinho mais lindo deste governo de gente feia e má, o nosso Lombinha que agora anda a chamar os emigrantes. Vem, Vem..., diz ele, mas, tadinho, o nossa coisinha mai'linda parece que está a pensar para aí nuns 40 e, tadinho, com isso acha que resolve o problema dos milhares e milhares que antes foram daqui corridos a pontapé. Tudo aquilo em que ele se mete dá nisto. Uma anedota.
Mas sobre isso falo mais abaixo. Aqui, agora, continuo numa de passeio.
Se ontem disse onde gostaria que uma pessoa me levasse, hoje digo onde gostaria eu de levar essa pessoa.
Se eu pensar numa viagem normal, nada agora de me ir enfiar no centro da terra, nada de caminhar por entre tigres azuis e enormes árvores verdes, e se pensar que quereríamos ambos um passeio sereno, só para nós dois, só para podermos estar juntos, em paz, é em Itália que eu penso.
Penso na luz dourada de Itália, nos campos coloridos, mas de uma cor suave, penso numa casa no meio do campo.
E a casa será grande, clássica, confortável, e terá cadeirões de veludo onde cada um poderá sentar-se a ouvir música, a ler, a olhar um para o outro ou a olhar os campos através das janelas. E na sala - junto a uma lareira que, nessa altura, estará apagada mas da qual se soltará ainda o acolhedor perfume da madeira queimada - haverá um amplo sofá de tecido florido, com almofadas macias, onde nos afundaremos, abraçados, em silêncio.
E dali sairíamos a passear, e os campos exalariam um perfume a rosmaninho, alfazema e alecrim, e ouviríamos as abelhas, as cigarras ao longe, e andaríamos de mão dada, sem pressa.
E, à tarde, sentar-nos-íamos num amplo terraço, beberíamos uma bebida fresca, talvez comêssemos pão molhado em azeite, talvez comêssemos azeitonas temperadas, e deixaríamos que o olhar percorresse as suaves curvas do horizonte. E olhar-nos-íamos nos olhos, surpreendidos por estarmos ali, os dois.
Teríamos sempre connosco um livro que, de vez em quando, abriríamos ao acaso procurando um poema que melhor que nós dissesse o momento,
Peito que em mim respira
olhar em que me despojo
mas desistiríamos, preferiríamos olhar a luz dourada sobre a nossa pele, fazendo brilhar ainda mais o nosso olhar, o nosso olhar despojado, indefeso, nu.
De manhã sairíamos dali em busca do mar. Vestir-nos-íamos com roupas leves e iríamos, leves nós também.
Andaríamos a pé pelas ruas das pequenas vilas, eu fotografando tudo, encantada, estas são as cores dos meus sonhos, diria eu, e tu puxar-me-ias pela mão para que eu não me detivesse em frente a cada porta, a cada janela florida, anda, anda. E eu deixar-me-ia levar pela mão.
Sentar-nos-íamos então junto à água, respirando o ar fresco a cheirar a maresia. Não teríamos pressa. Olhando o mar, iluminados pela luz suave reflectida nas águas, ouviríamos as vozes alegres de quem por ali passasse mas ninguém nos incomodaria, felizes e serenos, inundados de silêncio e afecto.
Subiríamos então a um restaurante num primeiro andar com janelas abertas sobre o cais. Com prazer, saborearíamos o peixe fresco, o sabor a tomate temperado com azeite, o vinho branco muito fresco.
Depois, de tarde, deixar-nos-íamos ficar por ali, junto ao mar, ou talvez subíssemos até ao campo circundante, talvez nos deitássemos à sombra de um pinheiro, sentindo o calor bom, o sossego, a proximidade, uma proximidade tão boa, tão impossível duas pessoas sentirem-se assim tão próximas.
À tarde percorreríamos as ruas, comeríamos um gelado, entraríamos numa pequena livraria que venderia não apenas livros mas também gravuras, pequenos objectos antigos. Traríamos algumas coisas, felizes pelos achados, coisas raras, simples, nossas. Saberíamos então que essas seriam, mais tarde, recordações queridas desses dias tão felizes.
E regressaríamos à nossa grande casa no campo envolta em luz dourada. Descansaríamos no quarto e descansar seria metáfora e depois, abraçados, desceríamos até à sala onde, de novo, nos afundaríamos, sempre abraçados, no grande sofá.
À noite deixar-nos-íamos ficar na varanda do quarto, olhando o céu, conversando, e teríamos tanto para nos contar, tanto, tanto, e por mais que nos descobríssemos mais nos quereríamos descobrir, porque um no outro nos descobrimos e construímos. Depois, em segredo, dir-me-ias,
Noturnamente te construo
para que sejas palavra do meu corpo
e eu responderia que
na rouquidão da tua carne me inicio me anuncio e me denuncio
e a noite seria nossa outra vez.
E, no dia seguinte, voltaríamos aos nossos pequenos passeios junto ao mar, à forma simples de sermos felizes, caminhando pelas pedras, junto ao mar, sentando-nos nas amuradas, a luz rosada e doce envolvendo a nossa pele, e nós sempre perto um do outro, e escolheríamos o melhor sítio para almoçarmos, e eu, deslumbrada com a luz, faria fotografias para mais tarde comprovar que tinha vivido um doce sonho e tu contar-me-ias de reis, de poetas, de pintores, e eu escutaria as tuas palavras com muita atenção, como que querendo guardar dentro de mim aqueles momentos preciosos, breves, inventados.
No último dia, abraçada a ti, abraçada por ti, dir-te-ia que a vida é efémera, a beleza é imensa mesmo que passageira, a doçura é uma dádiva quando acontece, e, mesmo que tudo não passe de ilusão e sonho, vale bem a pena. E tu afagar-me-ias o cabelo, o rosto, e dir-me-ias que eram essas as palavras que tinhas para me dizer.
E depois desta viagem, cada vez mais próximos, um na pele do outro, o coração batendo em uníssono, regressaríamos ao nosso mundo de sempre, tranquilos, confiantes, sabendo que esses dias de sonho e paz para sempre viveriam dentro de nós.
E, de cada vez que fecharmos os olhos, saberemos que dos nossos sonhos muitos outros vão nascer e que esses sonhos, envoltos em luz dourada e doçura, trarão uma rara ternura aos nossos dias.
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O título deste post e os três excertos em itálico compõem um poema de Mia Couto.
A música é Pelagia's Song do filme "Captain Corelli's Mandolin" numa interpretação da Royal Philharmonic Orchestra.
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Quase em surdina, para não estragar o momento, deixem que vos diga que do Lombinha trato a seguir.
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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um sábado muito feliz.