Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Rui. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Manuel Rui. Mostrar todas as mensagens

segunda-feira, fevereiro 26, 2018

Com auricular na orelha, o porco deixa de reivindicar e vira pequeno-burguês



Diogo começou a fartar-se com a mania do porco de exigir música. Experimentou porrada: ele berrou mais. Ruca e Zeca não gostaram. Ficaram mesmo tristes. Sugeriram açúcar. 'Ora essa!', ripostava Diogo, 'açúcar que falta como ouro! Um saco pequeno tanto tempo na bicha e ainda a carne fica doce!', mas aceitou a proposta dos filhos. O porco achou a matéria nova, comeu, lambeu-se e parecia não refilar mais. Só que depois roncou mais alto do que antes, aparentando reivindicar mais açúcar. Diogo incendiou de fúria e aplicou um castigo severo: esfregou-lhe o focinho com jindungo. Foi o pior. O porco roncou que chega e foi preciso levantar o rádio no máximo para evitar mais suspeitas da vizinhança.

Nessa vez os miúdos amuaram contra o pai e Diogo passou a noite insone, vira que vira na cama a investigar remédio para satisfazer as exigências pequeno-burguesas de Carnaval da Vitória.

Era isso mesmo!

No dia seguinte, Diogo trouxe um fio comprido e fininho todo enrolado. A mulher e os miúdos admirados à espera. Diogo ligou no rádio, pegou o auscultador pequenino na outra extremidade, meteu na orelha do porco colando seis tiras de adesivo como se fosse um penso. Carnaval da Vitória permaneceu como que anestesiado.

   - Conquistas da revolução! -- rejubilou Diogo de braços abertos. -- Estás politizado! Isto é que a comissão de moradores devia ver.

   -- Mas assim nós nem sequer podemos ouvir o noticiário.

  -- Porra, Liloca! Merdas da pequena-burguesia. Querem o céu e a terra. O capitalismo e o socialismo. Música e carne de porco sem sabor a peixe. Então liga o teu ouvido na outra orelha do porco.

E, a partir desse dia, por inventiva de Diogo, Carnaval da Vitória passou a ser o ouvinte mais contínuo da rádio nacional. Noticiário, Peça que nós Transmitimos, Programa para Jovens, relatos de futebol e Boa-Noite Angola, tudo até adormecer de barriga cheia e sem qualquer contestação.

Zeca e Ruca iam agora contar estórias novas daquele porco oriundo da Corimba e que agora o pai deles dizia que estava a aburguesar-se.

..................................................................................................................

in 'Quem dera ser onda' de Manuel Rui (tal como a redação e os ramalho-eanes)

...................................................................................................................

domingo, fevereiro 25, 2018

O juiz em cuja casa passava tudo, até quatro ramalho eanes.


Em vez de se incomodarem com a vida das pessoas andam a chatear a vida de um porco. Tudo tachistas, como esse requerimenteiro que apanhou boleia na revolução e agora é juiz. Eu ao menos não apanhei boleia nenhuma. Em casa dele passam ovos, dendém, carne e ontem quatro ramalho eanes*. 



[in 'Quem me dera ser onda' de Manuel Rui]

* Ramalho Eanes: garrafão de vinho, na altura em que se retomou a importação de vinho português

quarta-feira, fevereiro 21, 2018

O porco mais bonito do mundo


Carnaval da Vitória é o porco mais bonito do mundo. Meu pai que lhe trouxe no sétimo andar onde a comissão de moradores é reaccionária porque não quer porcos no prédio e o camarada Faustino tem kandonga de dendém e faz kaparroto a cem kwanzas cada búlgaro. Primeiro o nome dele era só Carnaval. Depois que a gente ganhou a vitória contra o inimigo o nome ficou Carnaval de Vitória. O inimigo é um fiscal fantoche ladrão de porcos que lhe denunciámos no prédio onde ele ficou na vergonha. Carnaval da Vitória é o porco mais bom do mundo porque quando veio na nossa escola a camarada professora deu borla.

O meu pai é um reaccionário porque não gosta de peixe frito do povo e ralha com a minha mãe. Ele é que é um burguês pequeno mas diz que Carnaval da Vitória é um burguês. Por isso lhe quer matar só por causa de comer a carne. Carnaval da Vitória é revolucionário porque quando meu pai bateu em mim e no meu irmão Zeca ele lhe quis morder. Nós não vamos deixar matar Carnaval da Vitória porque a luta continua e o responsável da comissão de moradores não sabe as palavras de ordem que os pioneiros é que lhe ensinam. E a camarada professora é muito boa porque deixa fazer redacções que a gente quer e até trouxe na escola o primo dela Felipe que veio tocar viola dentro da nossa sala. 

Ruca Diogo


________________________

Antes do Seckou Keita a tocar Mikhi Nathan Mu Toma, o que se viu foi um excerto de 'quem me dera ser onda' de Manuel Rui, a incrível paixão de dois miúdos sonhadores por um porquinho numa Luanda em guerra (e que tem na capa uma daquelas ondas a la Malomil)

A fotografia do porquinho a enfeitar o texto é, obviamente, coisa minha: como é sabido padeço de pyctorica aguda pelo que post sem imagens é coisa rara, só acontece quando receio ferir a sensibilidade ocular de algum supositício esteta.


NB: Só aqui # links = 3  (lá está: mereceram)

_______________________________

Já é coisa datada, coisa muito do blogo-fricote e, pior, tão déjà-visto que não se aguenta, mas, para quem esteja virado para o registo Maria, queres saber das últimas fofocas no eremitério?, permito-me sugerir o post abaixo, de seu nome Faz de conta que é uma tentativa light de exercício de restauração da homeostasia no egossistema de uma ignorante birrenta [Por uma vez sem exuberância pictórica]

_____________________________