Por aqui o peixe e o marisco são omnipresentes. Bons. A bom preço. Variados. Bem confeccionados.
Mas ver uma mini-mini banca com marisco no meio da rua, marisco retirado de um balde, e vê-lo entre as esplanadas -- e chegarem as pessoas com garrafas de cerveja na mão e virem buscar ostras cruas ou pequenos camarões e ali mesmo, ou nas escadarias da igreja ou junto ao fontanário, fazerem o alegre repasto, isto acho o máximo.
Como poderão observar os camarões são aviados em pequenos cones de papel e as ostras servidas em pequenos pratos de plástico com um bocado de limão.
E isto, como disse, no meio de esplanadas repletas de gente.
Como podem ver, estava sol, calor. Para o meio da tarde começaram a cair uns pingos. À noite já chovia que deus a dava.
Mas, enquanto o tempo o permitiu, as praças estavam assim perto da hora de almoço. Aliás, quando não é hora de almoço, é hora do café ou da cerveja da tarde, depois é hora de picar e estar na amizade e depois é hora de confraternizar. Os lugares virados para os mares do sul são assim, bons para se estar.
E, por dios, se por aqui as tapitas são de comer e chorar por mais... e a cerveja loira, quase doce e bem gelada. Pena que sejam tão breves estes dias.
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La vida breve
de Manuel de Falla com Lucero Tena nas castanholas
E, então, o sul. Desta vez, mais a sul. Houvesse tempo e iria ainda mais, rumo aos mares do sul, mais a sul, o mais possível a sul.
O sul. O sonho do sul.
As gaivotas que voam alto e gritam, o azul. O imenso mar. As aragens do mar. O perfume das árvores que ondulam com os suaves ventos dos mares a sul. Este não é o sul dos verdadeiros mares do sul mas, até onde os olhos alcançam, há mais sul, daqui podia ir até lá, aos mares do sul. Um dia hei-de ir, devagar, debruçada no convés, aspirando a maresia, sentindo as neblinas, espreitando o mar sem fim, no fim dos mares, lá bem a sul.
Os veleiros, os grandes paquetes que se fazem ao mar. Eu daqui, olhando o brilho das águas, olhando o porte majestoso destes grandes paquetes, com vontade que alguém de lá me dissesse adeus, lenço branco acenando ao vento, como nos filmes. Eu, mão em pala rente aos olhos, tapando o sol, tentando descobrir a mão acenando, dizendo eu também adeus.
Da varanda vejo os barcos, estou que tempos a vê-los partir. Tenho comigo um livro, vou lendo com desatenção, sempre à espera que mais um navio saia em direcção ao mar. O livro é um diário e estou a gostar mas a paisagem atrai o meu olhar e eu não consigo resistir.
Andando pelas margens, vejo casais conversando rente ao mar. Imaginarão talvez o futuro. E vejo, de vez em quando algum solitário, sobre uma rocha, olhando a distância. Junto ao porto, vejo homens tisnados que discutem arranjos ou a preparação de viagens, que se sentam com a cerveja na mão a olhar o céu, tomando o pulso aos ventos.
Passeio pelas arribas de onde se alcança o pequeno e colorido povoado que parece flutuar, a cidade branca lá mais ao fundo, Caminhamos ao sol, pelos caminhos que os homens desenharam junto ao mar. Por todo o lado os cheiros, a suavidade da aragem perfumada, a brisa que é fresca à sombra, quente ao sol, o grito das gaivotas.
Mais à noitinha, vamos até ao pueblito. Não é verão, as multidões ainda estão distantes. Agora as ruas têm pouca gente. é bom andar por aqui assim, olhando as casas, os pátios, ouvindo as vozes de quem passa. Sentamo-nos, petiscamos, o pescado sabe a mar, é fresco e bom, conversamos.
Ao fundo, umas mesas com grupos animados onde conversam, riem, e onde um jovem circula entre os convivas, com uns falando em inglês. Vão petiscando e bebendo cervejas enquanto estão naquilo. Chegam mais duas mulheres, talvez da minha idade, vêm alegres, cumprimentando de longe. O empregado dá-lhes dois cálices, que elas levam para as mesas. A animação ali é ruidosa. Vendo-me intrigada, o empregado diz-me: 'Trivial'. Como devo fazer uma cara ainda mais intrigada, ele acrescenta: 'Trivial Pursuit'. Percebo. Encontram-se ali, à noitinha, para jogarem ao trivial.
Regressamos já bem de noite. Faço os meus telefonemas, sei da minha gente, vejo o correio, olho as luzes do porto. Vejo as fotografias feitam durante o dia, escolho uma música para aqui colocar e, de gosto, vou ouvindo várias. Opto por esta que talvez estejam a ouvir, Melodia de Manuel de Falla (1897), com Menchu Mendizábal no piano e Emilio Mateu na guitarra.
Amanhã o passeio levar-nos-á ainda um pouco mais a sul. A cal, o sal, o sol, a sul. O tempo vai arrefecer e talvez molhar-se mas não faz mal. Quase prefiro o tempo assim, o tempo de todos os dias, do que o tempo quente do turismo que tantas vezes desvirtua a beleza e a tranquilidade de lugares como este.
E talvez arranje coragem para ir apanhar um figo de pita. Estão desta cor, como os vêem, quase iridescentes ao sol. Não sei se são bons. Gostava que estivessem porque me apetece deliciar-me com um fruto assim, com uma casca desta cor, um fruto nativo, criado com o cheiro da maresia, crestado pelo sol e pelos ventos que vêm do sul. Depois vos conto.
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Ode ao Mar de Pablo Neruda, dito por Tomás Galindo
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Talvez até já
(se o sono não me vencer ou eu não for obrigada a apagar a luz - que lhe reduzi a intensidade... fraquinha, fraquinha, mas, ainda assim, pode incomodar).
Estive agora a ver e ouvir as intervenções de Isabel e João Soares na despedida do pai bem como o comovente poema dito por Maria Barroso. Ouvi-os aqui, em silêncio. A fragilidade de Isabel tocou-me especialmente. Mesmo quando a morte é esperada e mesmo após um período em que o pai já não era completamente o pai que ela toda a vida conhecera, há sempre um desgosto difícil de suportar. Parte da vida de uma pessoa esvai-se nestes momentos. Temo o dia em que passarei por isso. Ao ver a tristeza de Isabel Soares não foi só em Mário Soares que pensei.
Quando os meus primos viram partir o meu tio e pouco tempo depois a minha tia, tive muita pena deles. De repente, ficaram sem pais. Parece que, nos casais que muito se amam. o organismo do que fica enfraquece, não suportando a vida sem o outro.
Mas, enfim, é o que é. Ninguém é eterno. No outro dia morreu a mãe de uma conhecida minha. Como sempre, fico sem saber o que dizer. Foi ela que, vendo-me naquele impasse, incapaz de pronunciar uma banalidade que fosse, me disse: 'chegou a hora dela'. Respondi: 'É isso'. E é. Há um momento em que acaba. Fica a memória.
Não vou falar no assunto. Não estive por perto, não tenho visto televisões portuguesas, nada mais sei do que se tem passado.
Continuo, pois, mostrando o que tenho andado a ver por aqui. E não julguem, vocês aí, que isto é falta de respeito ou desprendimento meu. Não é. É a minha maneira de ser aliada às circunstâncias.
Venham, pois, comigo pelo Parque do Retiro, um parque onde sempre gosto de passear em qualquer época do ano. Não é só pelos caminhos ladeados por árvores gigantes, não é só pelos passarinhos, não é só pelas músicas que se ouvem, não é só pelos recantos: é também pelas pessoas que por aqui andam. Famílias, namorados, amigos, gente solitária. Eu que gosto tanto de observar pessoas tenho aqui terreno fértil para a minha objectiva. Como sempre, tento que não se vejam os rostos. Contudo nem sempre é fácil pois se uns estão de costas estão outros a vir na minha direcção. Not easy.
Mas vamos com música espanhola e, por supuesto, com dança a preceito.
E reparem, abaixo, quem vem lá. Duas motas com polícias. Everywhere lá aparecem eles. É uma coisa...
E depois aquilo com que não se está à espera: bailarinos em pleno parque fazendo movimentos acrobáticos. Sem frio, sorrindo. Curiosamente, muita gente nem repara. Há sempre, por ali, tanto motivo de atenção que, quem por lá anda quotidianamente, já acha tudo normal.
E, termino como comecei esta série: com a imagem da harmonia. Gosto tanto de ver.
Conversando e sorrindo como se o futuro fosse um lugar de leite, alegria e mel.
Dormi. Gosto de sentir o sono a chegar. Depois fiquei a meio caminho, não a dormir mas incapaz de acordar. Mais tarde, já acordada, peguei na Gorda e vim de gosto, com ela ao colo, sabendo das suas histórias. As suas mamas são grandes e pesadas, o seu cabelo é fino, a sua vida não tem sido fácil. Talvez se não tivesse sido gorda a sua vida tivesse sido diferente -- mas isso é coisa que nunca se saberá.
Não sei o que vê ela no David. Um fraco. Ela cheia de convicções, com uma cabeça cheia de vontades e com uma sensualidade que se apanha à mão e ele tão hesitante, tão rente à normalidade. Mas, bem sei, são coisas que não obedecem a um manual. Há paixões que nascem sabe-se lá como, instalam-se quando juraríamos que não teriam terreno fértil, e, mesmo quando sujeitas a rudes golpes, deixam-se ficar, parece que adormecem, que se esfumam. Mas não, renascem ao mínimo novo sopro. Renascem sempre com igual força, ignorando mágoas passadas, escamoteando improbabilidades futuras. Paixões à rédea solta são bicho quase impossível de domar. Sei disso. E a Gorda que o diga. Toma decisões, põe-nas em prática, percorre caminhos envolta noutros braços, dá o corpo à tentativa de maternidade, ousa, luta. Contudo, é a esperança de voltar a ter o seu David que lhe dá razão para continuar a viver.
Mas a Gorda não é apenas a mulher que procura uma vida normal. É também a jovem que percorre colégios, a casa da avó, de tias e primas, é a mulher que carrega o peso de uns pais que transportam uma vida que deixaram para trás, é a filha única, sem mais família e com as posses limitadas de uma professora, que arca com o peso do envelhecimento dos pais, é a mulher que um dia resolve desfazer-se de parte do estômago, perder quarenta quilos, voltar a ter formas de mulher.
Bonita, com uns belos olhos, uma boca bem desenhada, formas acolhedoras, a Gorda não nos esconde os seus sentimentos, os seus cansaços, a sua vontade de liberdade e o seu medo de solidão.
Eu, que gosto da grande literatura, não posso dizer que encontre ali construções verbais que me deixem em estado de encantamento. Mas encontro aquela escrita muito bem cerzida, de uma honestidade desarmante, que prende do princípio ao fim, como se a pele, a respiração e o sangue da mulher que a escreve estivessem inteiros ali. Talvez se sinta ali um livro de memórias, um diário, um registo confessional, íntimo, -- ou talvez desperte em nós vontade de que ela, a Gorda bonita, seja feliz. Ou tudo isto misturado na dose certa.
(Um dia ainda perco a vergonha e vou mesmo pedir-lhe um pratinho de marmelada).
Não apenas gosto muito de ler o que Isabela Figueiredo escreve como acho que deve ser uma boa pessoa, uma mulher muito genuína. E A Gorda é, sem dúvida, um livro a não perder. Aqui fica, pois, a minha recomendação.
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Depois saímos e estava muito frio. Voltei atrás para vestir um casaco mais forte, para pôr uma écharpe de lã. E levei o meu chapéu de feltro castanho claro com uma fita em ouro velho que a minha filha me ofereceu pelo natal. Assim, já o frio sabe bem. Passeámos no meio de multidões sorridentes, faladoras, perfumadas.
Pelo meio, omnipresentes, pares de polícias. Por todo o lado também carrinhas da polícia. De vez em quando, sobrevoando-nos, um helicóptero. Por vezes o ruidoso bicho voador pára, fica ali, ameaçador. Ninguém estranha. Só nós não percebemos o que se passa. Depois, acabamos por deixar de prestar atenção a isso, talvez seja esta a nova forma da normalidade.
Já quase não há iluminações de natal. As gigantes árvores de natal luminosas estão apagadas. Mas a festa parece continuar.
Jantámos numa esplanada, num praça muito bonita. Os aquecedores de rua, os candeeiros, a forma como as mesas estão dispostas, tudo contribui para que seja muito agradável.
A cerveja gelada soube muito bem e o resto também.
Quando estávamos quase a acabar o bom jantar, reparei que, mais lá à frente, se estava a formar uma fila de gente. Gente ruidosa. Muitos. Dezenas. Intrigada, sem conseguir perceber, peguei na máquina fotográfica e dei-lhe zoom. Pareceu-me que eram os sem-abrigo que dormem nas caixas de cartão do outro lado que estavam a ir buscar comida. Via-os com sacos e caixas. Uma meia hora depois a fila foi-se desfazendo. Quando acabámos de jantar, passámos relativamente perto das arcadas do outro lado. Dezenas de pessoas. Muitas a enfiarem-se nos abrigos feitos de cartão. Mais à frente, em cima de canteiros em largos movimentados, edredons, mantas, cartões. Mais gente a dormir ao relento. Sempre os houve mas multiplicaram-se desde a última vez em que por aqui andámos.
As outras pessoas passam ou estão sentadas por ali, ignorando-os, como se aquelas pobres pessoas sem casa fizesse parte da paisagem.
Este mundo está a andar às arrecuas. Não consigo aceitar isto sem que se me gelem as minhas impotentes mãos.
Mas faço por não pensar nisto. Enquanto por aqui ando, estes meus pensamentos são fúteis, inúteis. Esqueço-os.
Muito frio. Apesar do que se vê por todo o lado, é agradável andar a passear à noite, sentindo o frio. O meu marido tira do bolso um gorro. Com a gola subida e o gorro enterrado fica muito bem, gosto de o ver assim. Tem um ar quase subversivo que me agrada.
Depois penso que um chocolate quente é que era. Ele não quer, não aprecia coisas doces. Compramos, então, só para mim. A empregada da loja pergunta que mais. Digo que é só o chocolate e ela admira-se. Venho então pela rua, encasacada, com o meu chapéu de feltro quentinho, com um copo de chocolate espesso, bem quente. E sabe-me tão bem. Bebo-o aos golinhos gulosos, devagar, porque está muito quente e para que renda mais.
Mais à frente, os donos desta livraria de rua, meio alfarrabista, recolhem, com vagar, as mesas com livros. Parecem não sentir o frio.
Logo a seguir alinham-se cabeleiras coloridas. Se calhar é porque um dia destes vai ser, outra vez, carnaval. Tenho sempre vontade de trazer uma. Já, noutras vezes, estive para trazer uma. Aliás, já uma vez trouxe uma cabeleira ruiva, ondulada, comprida. Mas é quase normal, não fora tão avermelhada e tão brilhante e quase pareceria cabelo de verdade. Não dá pica usá-la.
São as lilases ou azuis turquesas que mais me atraem. Talvez seja desta. O meu marido vai achar um disparate. Claro que é um disparate. Mas há coisa mais disparatada do que nunca fazer disparates?
Depois, já tarde, regressámos. Não sei de notícias. Presumo que as televisões continuem a recordar Soares e fazem bem. Também acho bem que se fale dele com alegria, a rir, recordando a sua valentia descarada, a sua capacidade de ver para além do imediato, a formidável displicência que vinha da sua absoluta confiança na sua intuição e na sua alegria de ir experientando as surpresas da vida.
Tirando isto não sei que mais diga. Vou ver se espreito os jornais online a ver o que aconteceu no mundo. E vou ver os blogues aqui ao lado onde há gente que escreve tão bem e sobre temas tão interessantes.
No post abaixo já falei do que achei do que ouvi a Paulo Portas na conferência de imprensa na qual nos apareceu a servir para o jantar um corte nas pensões de sobrevivência aos ricaços que ganham fortunas impensáveis, pipas de massa, coisa como 2.000 euros - que isto agora o objectivo é trazer toda a gente para o limiar da indigência.
Mas sobre isso falo a seguir. Aqui, agora, a conversa é outra. É uma conversa boa, uma conversa feita de belas palavras.
Música por favor
... & ...
Dei por mim a transferir também para a net o prazer da deambulação, entregando-me ao acaso.
Um dia cliquei em chat room, e entrei.
A sala era mais ou menos enfumarada e velada como um prostíbulo.
Nela era suposto estarem casais disponíveis para a troca, ou adopção de homens e mulheres.
Fui casal, mulher, homem também, de acordo com o solicitado.
Era tudo uma questão de nick, e a ambiguidade do escolhido permitiu-me usufruir todos os sexos.
Mimetizei-me com o equívoco, e descobri as pessoas que poderia ser, se quisesse.
O pior que me podia acontecer, era o outro lado não assumir o jogo. Mesmo quando ambos já nos tínhamos apercebido da evidência do logro.
Sem dar por ela, apercebi-me que podia apaixonar-me, odiar e criar dependência.
Como da droga, da bebida ou do emprego. A que não concedi essa oportunidade.
... & ...
A mata era um dos espaços interditos da infância.
Hoje nada resta desse lençol ondulante das mimosas, acácias e austrálias, que separavam o jardim-escola, e nos aguardava como um passo irreversível na idade da razão.
No limiar da transgressão, habitada por uma moura no recato húmido de uma gruta, a mata incitava-nos ao crescimento, e era um dos melhores covis da minha imaginação.
A adolescência revelou-me outras matas, onde as estações do ano me ensinaram a decantar a folhagem e a luz da sombra, nas margens de um rio devorado por uma barragem.
Delas apenas conservo alguns ocasos, como uma memória esticada pelo arco de uma ponte romana, entretanto submersa pela secura do futuro.
De quase todas elas, porque a única mata que me resta resume-se a uma árvore, em Silves, ensinada pela moura que me dispensa a imaginação.
Ou a saudade.
... & ...
A casa extingue-se na tarde. Por momentos tenho a ilusão do silêncio,
e apenas o estalido dos salgueiros me lembra que estou vivo.
Que uma sombra me aguarda.
Quando tudo retoma o seu lugar, um trilho escoou-se sob os meus pés.
Tacteio o ar para esquecer a aridez do tempo. Nos corredores ainda se ouvem as correrias e os gritos da infância, mas tudo não passa de uma ilusão para adiar a noite. Os telhados vibram como escamas ao sol, e a casa treme sob as pálpebras.
... & ...
No sábado de manhã fui de novo espreitar a pequena livraria que no outro dia descobri e que me encantou. Por ali andei como que numa urgência, estava mesmo com pressa, mas tenho sempre a esperança de descobrir uma peça única, um tesouro, uma raridade deixada, por engano, para trás.
E não é que descobri mesmo?
longe do mundo, Jorge Fallorca
(Eu não sabia...eu não sabia que o meu nome se pautava pela música de Falla, e um grito de Llorca.)
Peguei logo nele não fosse não ser verdade e desaparecer no instante seguinte.
Depois, quando cheguei a casa, para vos fazer dele prova de vida, fotografei-o em cima da minha mesa, ao pé das minhas cadeiras, tal como a capa do livro que mostra uma mesa e umas cadeiras longe do mundo, talvez aquelas onde Jorge Fallorca escreve palavras tão bonitas como aquelas que aqui vos mostrei.
É um livrinho (livrinho porque é de pequena dimensão) que nos prende.
Passei a tarde a lê-lo, encantada.
E agora aqui estou também com ele, uma bela companhia, palavras simples, verdadeiras como as árvores, as sombras e as memórias, o sabor das folhas de oliveira, uma curva na estrada, o mar, o sul, a noite, o cheiro das maçãs.
***
A música é Nocturno para Piano de Manuel de Falla. As duas primeiras fotografias são de obras expostas no Museu Berardo no CCB (estive lá este sábado com os pimentinhas para quem aquele espaço é um fantástico e imenso recinto, cheio de coisas imprevistas e engraçadas, onde gostam de correr de sala em sala, à descoberta - para aflição dos vigilantes, é claro). As duas fotografias seguintes mostram as minhas árvores e os meus recantos in heaven. As duas últimas mostram a preciosidade que em boa hora adquiri, da autoria de alguém que está bem ca puta da vida. O livro também tem desenhos de Ângelo de Sousa.
Os textos em itálico são excertos de textos contidos no livro. O primeiro excerto faz parte de um texto intitulado net e o segundo mata. Os outros foram extraídos um pouco ao acaso.
***
Muito gostaria ainda de vos convidar a darem uma espreitadela ao meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa. Hoje por lá tenho José Alberto Oliveira e, atrás das suas palavras, vão as minhas tentando recuperar o rasto daquele que o meu coração ama. Segue-se-lhes uma voz fantástica, Cecile McLorin Salvant. É o jazz de volta ao Ginjal.
Relembro que sobre a verdade sobre a TSU das Viúvas segundo o irrevogável Paulo Portas, é descerem, por favor, até ao post seguinte. Não é nada de muito esclarecedor mas também dali nunca veio nada que se possa escrever na pedra.
***
E já chega por hoje, não é?
Desejo-vos, meus Caros leitores, uma bela semana a começar já por esta segunda feira.
Manuel de Falla - Esteban Sánchez interpreta Nocturno para piano
*
Hoje esteve um calor brutal, pelo menos por estas bandas. Dado que agora pouco tenho saído, hoje, por ter que ir ao médico, resolvi aperaltar-me. Roupa de ir à missa, roupa de ir ao senhor doutor - sou uma mulher de preceitos, como é sabido. Vestido sem alças, claro, porque a elevada temperatura ambiente faz com que não tolere nada nos ombros, tenho que sentir o pescoço e o colo desabrigados. Depois, um chapéu, claro, porque, com este sol, e estando eu a convalescer, tenho que proteger a cabeça, não é?
Para o vestido, escolhi os tons de azul, que me parece ser uma cor refrescante e que sobressai bem com o meu tom de pele, ainda nada bronzeado. Como chapéu, um muito pequeno, muito simples, preto. Uma roupa adequada, portanto, para a ocasião solene (sim, porque ir ao médico ainda tem o seu quê de solene). Poder-se-ia dizer que ia dressed to impress mas não, nada disso, foi apenas a toilette que, dadas as circunstâncias, me apeteceu vestir.
Pelo caminho ainda parei um pouco junto a um jardim, que saudades de estar num jardim.
Contudo, o vestido acabou por resultar um pouco quente. E, então, mal me despachei dos meus afazeres, só me apeteceu tirá-lo e meter-me tna água.
Procurei a beira do rio que estava linda.
Há quanto tempo não estava por aqui a esta hora, quando a tarde se dissolve no rio, quando as cores doces tingem os rostos das pessoas, dos monumentos, tingem os nossos corações. Soa muito doce? Ainda bem, porque era mesmo uma grande doçura o que eu sentia no ar, respirando a tepidez rosada deste fim de dia de verão.
Esperei, então, que anoitecesse.
As pessoas começaram a recolher a suas casas, os veleiros iniciavam o caminho de volta e que belos são os veleiros a esta hora do dia, envoltos em dourado, que belos; e eu, pacientemente, esperei que a luz se esvaísse. O que queria fazer não podia ser testemunhado.
Nestes dias compridos de verão, a noite tarda em cair. Mas, então, quando mais ninguém restava na beira do rio, com prazer e vagar, pedi ao meu amor que me desapertasse o vestido, que me ajudasse a despi-lo. Não lhe pareceu nada bem que eu o fizesse ali mas acabou por me fazer a vontade, sabe que eu sou bicho do mar.
Depois do vestido, tirei os sapatos altos, depois o pequeno chapéu. Fiquei então apenas com o corpete e com a armação do vestido. O meu amor disse que eu ficava bonita assim, ali, à beira da água. E beijou-me e o beijo também foi quente e doce.
Não gosta que eu entre no rio quando já é de noite, não gosta. Então, como é cauteloso, atou-me uma fita para me poder puxar caso eu me distraísse e precisasse de ajuda para encontrar o caminho de volta. Um fio de Ariadne ao contrário.
E, finalmente, mergulhei. Mergulhei, mergulhei e lá em baixo a água é fresca, escura, e a luz que se vê lá de cima é a luz coada dos candeeiros da beira do cais. Nestes dias só aqui é que se está bem, que maravilha.
Desci, desci e vocês já sabem para onde vou, quando desço assim até ao fundo do mar. Mas devem estar intrigados. Se o meu amor estava na beira mar a segurar a ponta da fita dourada, quem me esperava no castelo do fundo do mar? Ou será que, desta vez, ninguém me esperava nas salas atapetadas a limos de veludo e com cortinas de algas douradas?
Se me conhecem bem, saberão que, no fim das longas e venturosas viagens, gosto de me acolher nos braços de quem me saiba envolver.
(Mas, compreenderão que, noblesse oblige, não vou aqui entrar em pormenores.)
Posso apenas contar-vos que, nos espaços submarinos para onde gosto de ir quando quero isolar-me, quando quero tirar de cima de mim o peso do mundo, quando quero refrescar-me, purificar-me, a luz é azul, a beleza é imensa, a quietude encontra-se suspensa, acaricia-nos quando por ela passamos.
E há seres fantásticos, e algumas outras mulheres livres como eu, e crianças anfíbias, puras e alegres que brincam em volta de esferas de luz, crianças cujas mães zelam por perto, frequentemente levando-as ao colo com desvelos mil, e há homens fantásticos que parecem peixes inventados em inspiradas acrobacias, e animais coloridos que dançam como pessoas, e plantas sinuosas de cores extravagantes. Ah meus amigos, como eu gostaria de vos poder levar também comigo.
O fundo do mar é imenso, silencioso, mas, por vezes, ouve-se uma música e não percebemos se sai das esferas de luz que existem no fundo do mar, se sai do castelo de prazer onde me acolho, ou se, extraordinariamente, vem cá de cima, da terra, da terra onde vivem prisioneiras as pessoas que não ousam tirar os pés da terra firme, as pessoas que não ousam libertar-se das sombras, das quatro paredes onde, dia após dia, deixam que a sua existência se vá esgotando. Talvez venha mesmo dali, talvez no meio das pessoas que se deixam moldar, domar, e que não encontram ânimo para fazer nada de diferente nas suas entediantes vidas, talvez haja ainda alguns que procurem a fractura, a música transcendente, a palavra de revolta e emancipação, o voo, a luz, a liberdade, o sonho, o futuro. Talvez.
*
No mar passa de onda em onda repetido
o meu nome fantástico e secreto
que só os anjos do vento reconhecem
quando os encontro e perco de repente
No fundo do mar há brancos pavores,
onde as plantas são animais
e os animais são flores.
Mundo silencioso que não atinge
a agitação das ondas.
Abrem-se rindo conchas redondas,
baloiça o cavalo-marinho.
Um polvo avança
no desalinho
dos seus mil braços,
uma flor dança,
sem ruído vibram os espaços.
Sobre a areia o tempo poisa
leve como um lenço.
Mas por mais bela que seja cada coisa
tem um monstro em si suspenso.
*
A primeira fotografia é de Mario Testino, as duas do meio são minhas, de hoje, e as duas últimas são de Zena Holloway. Os dois poemas são de Sophia de Mello Breyner Andresen, o primeiro não tem nome, o segundo tem por título 'Fundo do mar' e encontram-se ambos na Antologia de nome Mar.
*
Permitem que ainda vos convide a visitar-me no meu outro blogue, o Ginjal e Lisboa? É que gostaria muito de vos ter por lá, onde as minhas palavras se despedem por hoje, muito tristes em torno de um poema de Ana Marques Gastão. Na música, continuamos, claro, com Béla Bártok.
*
E já é quarta feira.
Que seja um dia agradável e, caso tenham muito calor, já sabem: metam-se debaixo de água...