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sábado, junho 29, 2019

O que eles levam com eles





Há temas que, quando aparece uma criança morta à beira de água, se tornam virais e, como tal, toda a gente se sente contagiada. Depois, coisa tão triste acaba por cansar e a gente já nem quer ver tal coisa. já dizemos que é exploração de desgraça alheia, que é falta de gosto tanta fixação na dor dos outros.

E, dias depois, já nem vale a pena falar porque a coisa já passou de moda. E quando a gente vê barcaças transbordantes de gente até parece que já chegou a época dos saldos de refugiados, tal a banalidade daquilo tudo.

E não queremos saber de como as forças políticas de extrema direita -- devidamente adubadas com apoios financeiros e outros tipos de apoio por parte dos Steve Bannons desta vida, hienas solitárias, ou por parte de regimes que preferem uma Europa enfraquecida -- se organizam de uma forma cada vez mais estruturada.

A extrema direita usa sempre a mesma arma: o medo. O truque é instilar no seio da população, numa parte da população, a parte mais inculta, mais vulnerável, mais facilmente influenciável, o medo. Medo seja do que for. Pode ser o medo de ver as ruas invadidas por gente desempregada, faminta, mal vestida, falando línguas incompreensíveis, pode ser o medo de ver os impostos aumentados para pagar a integração de refugiados, medo que, entre os refugiados, venham meliantes, terroristas. Medo. E eles, os salvadores da pátria, as mamãs (como a Le Pen), os papàs´s (como o Salvini), aparecem como os que afastarão os medos, protegerão os 'puros', os nacionais, contra os intrusos, contra os bandidos que querem entrar no país para roubar o que pertence a quem já lá está.

Com maldade suprema, Trump separa pais de filhos, trata seres humanas como se fossem animais,  seres humanos cansados, esfomeados, gente que apenas procura uma vida melhor para si e para a sua família. Mas não são apenas as fronteiras americanas que são palco de verdadeiros atentados humanitários nem é apenas Trump que é algoz. Cada um à sua dimensão mas a verdade é que culpados somos todos os que fazemos de conta que não existe.

Existe. E a indiferença com que aceitamos campos e campos de refugiados a perder de vista, uma coisa que nos deveria envergonhar, ou que aceitamos que milhares de pessoas façam quilómetros e quilómetros a pé para alcançar sabe-se lá o quê ou que aceitamos que o tráfego de armas e outros interesses geo-económicos prevaleçam sobre o respeito pelas populações, torna-nos também culpados.

A abstenção brutal nas eleições europeias é outra que nos deveria envergonhar. Como culpar a União Europeia de assistir impávida e serena a que tanta gente morra afogada no Mediterrâneo quando nem para votar nos demos ao trabalho? Como podemos censurar os que lá estão quando não nos demos ao trabalho de lá pôr quem defenda uma Europa mais humanitária, mais aberta, mais moderna?


Há quem tenha coragem e dê algum do seu tempo para ir ajudar os que estão em situações difíceis. Mas são poucos os que têm essa coragem. Eu nunca tive. De forma racional, penso que problemas desta dimensão não se resolvem com iniciativas individuais, apenas com políticas transversais, integradas, transnacionais. Mas isso sou eu a proteger-me porque sei que, mesmo não resolvendo o verdadeiro problema, se puder levar ensino, carinho e alguma atenção a quem nada tem já será muito. Portanto, é falta de coragem, sim. Mas, se a coragem não está connosco, ao menos que saibamos fazer tudo o que esteja ao nosso alcance para que o assunto do bom acolhimento de refugiados esteja na ordem do dia.

E, se os bons intuitos não vos assistirem, o que também é legítimo, ao menos não esqueçam os motivos egoístas: tal como no outro dia já aqui o referi, quando a natalidade não ajuda a demografia pois que se recorra à imigração. E nada melhor para um país do que a miscigenação: abertura total a todas as nacionalidades, a todas as raças e etnias, a todas as religiões, a tudo. Que se unam, se cruzem, se misturem, se reproduzam, que façam um mundo melhor. 


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As imagens que escolhi mostram pinturas de Carlos Jacanamijoy e é assim colorido que deveria ser o mundo de toda a gente.

quinta-feira, fevereiro 14, 2019

Sobre não sei bem o quê




Num inquérito a que me foi pedido para responder sobre uma outra pessoa (volta e meia é isto, passamos a vida a avaliar-nos uns aos outros ou a nós próprios, não há pachorra), a primeira pergunta indispôs-me logo: como é que a pessoa em apreço comparava com outras com quem eu tenha já trabalhado. E vá de classificá-lo. Desisti logo ali e participei que não ia responder. Aqui d'el rei. Tem que ser senão vai dar que falar, especular-se-á porque não o faz, pode até prejudicar a pessoa em causa. Informei que não gosto destes inquéritos, prefiro dizer o que tenho a dizer cara a cara. Mas pensa assim tão mal?, perguntou-me a pessoa em causa. Disse que já trabalhei com pessoas extraordinárias. Ele percebeu que não o acho extraordinário. Acrescentei que também com gente imprestável. Talvez tenha ficado mais aliviado.

Amanhã vou esforçar-me. Também não quero criar um caso nem quero prejudicá-lo. No outro dia, pessoa que muito prezo, uma das pessoas mais francas, intelectualmente honestas e sãs que conheço disse-me dele: é um tipo decente. Concordo. É decente. Se calhar eu é que sou muito exigente. Ou se calhar tive foi o privilégio de conhecer e trabalhar de perto com pessoas ímpares.


Pelo caminho, vim a recordar-me das três pessoas com quem mais aprendi, que considero como dos melhores profissionais, dos mais inteligentes que conheci, verdadeiras mentes brilhantes. Todos eles eram carismáticos, imperfeitos, longe de serem consensuais. Há já algum tempo que não me cruzo profissionalmente com pessoas de tal craveira. Gosto de pasmar perante provas de inteligência alheia, rasgos de coragem, jogadas de risco e, infelizmente, não me acontece faz tempo. É que não eram apenas pessoas com que dava gosto trabalhar: eram também pessoas com quem dava gosto conversar.

Vinha no carro a pensar neles, nesses três homens, tão diferentes entre si mas tão marcantes. Como apanhei muito trânsito pude recordar muitas situações. Tudo tem um lado bom: levar mais de uma hora a fazer um percurso que se faz nas calmas em metade do tempo dá para puxar pela memória, o que pode ser uma coisa boa.


Comecei o dia a ir para um sítio, a meio da manhã fui para outro, antes da hora de almoço para outro, depois de almoço para outro, a meio da tarde para outro e à noite regressei a casa. Nesta brincadeira devo ter feito para cima de uns cento e cinquenta quilómetros. E tanto que tive que fazer pelo meio. Agora estou com vontade de dormir. Praticamente não consegui usar ainda o computador. Estava a descarregar e depois a instalar actualizações, não mexia. Agora, depois de ter passado por todos os passos, quando reiniciou, apareceu-me a dizer que tinha mais actualizações. Perdido por cem, perdido por mil. Disse que sim. Está de novo a pisar ovos, a descarregar cenas. É que, com isto, não consigo fazer nada. Ia tentar responder aos comentários mas, de cada vez que carregava num, punha-se branco, a andar à roda. Desisti. Agora vou folheando os dois livros que tenho aqui ao meu lado, lutando para não adormecer, e ele nisto, a descarregar, a instalar, a meditar.


À hora de almoço, no meio do louco rodopio que foi o meu dia, cheia de pressa, deu-me para uma desopilinha, que é como quem diz uma desopilada rapidinha. Entrei na livraria e jurei que era mesmo só para ver livros e ganhar fôlego para o que vinha a seguir, de tarde. Entrei, pois, com aquela superioridade moral tão típica dos não-pecadores. Estava sozinha pelo que não fazia sentido fazer aquele sorrisinho arrogante com que os seres superiores manifestam o seu desdém perante as tentações que vergam os seres inferiores. Não sorri mas avancei de nariz erguido. Só para ver. Vi um com interesse, folheei, pensei: querias..., e segui em frente; mais à frente, um outro -- mas não é qualquer um que verga as minhas boas intenções. Segui. Ia pensando: noutros tempos, ia buscar uma cestinha e era como se fosse aos figos. Mas agora não. Mais um pouco e iria com um rosário nas mãos e punha-me a rezar o terço. E a seguir outro livro. Tão bom. Mas... vade retro. Por pouco não me benzi para puxar a mim os bons espíritos e esconjurar o apelo da tentação.


Até que vi um livro amarelinho, uma tamanhinho jeitosinho, uma capa bonitinha. Chamou por mim, o malandro. Fui ver: 'Escritor fracassado e outros contos'. Gostei. Autor: Roberto Arlt. Nunca tinha ouvido falar em tal pessoa. Tradutor identificado na capa (coisa digna de reparo): Miguel Filipe Mochila. Colecção Pedante. Espreitei e li que a Colecção Pedante nasce de muitas horas de conversas, troca de livros e ideias entre a Livraria Snob e a editora Pé de Mosca. Pareceu-me interessante. A seguir abri do outro lado e li que Roberto Arlt, 'O grande indigno da literatura argentina', nasceu em 1900 em Buenos Aires e morreu em 1942. Li também que o estilo de Arlt é furioso, mesclado, um motor aquecido com os detritos de uma sociedade urbana à beira da ruptura e que [obviamente] foi mal recebido pela crítica. Achei ainda melhor. Peguei nele e achei que até seria falta de educação deixá-lo lá. Condescendi: só este.

De seguida, segui com a mesma indiferença, superior. Vi mais uns quantos com vontade de ceder mas resistindo. A Santa UJM é santa, sempre santa, mesmo rodeada das maiores tentações.

Até que apareceram os 'Gatos Comunicantes'. Pimbas. Capa bonita, um belo tom azul. Correspondência entre Vieira da Silva e Mário Cesariny. Folheei. Gravuras, bilhetinhos, fotografias. E as cartas. Pensei: se calhar já tenho. Mas noutra edição. Será? Não sei. Pensei outra vez: apesar de tudo, há que manter o decoro, um mínimo de boa educação. E trouxe-o. Tal como o amarelinho também este, azulinho, está aqui comigo.


E com isto o tempo vai passando, daqui a nada são duas da matina. Não faz sentido. Vou desligar, vou dormir. Não vou agradecer os comentários -- não vou dizer a todos que me poderia dar para pior; não vou dizer à Luísa B. que fico mesmo contente por sabê-la junto dos seus meninos; nem à Isabel que não se zangue, que isto não tem nada a ver, é tudo na boa; nem vou dizer à Gina que Desavergonhada e Cara-Alegre são os meus nomes do meio pelo que nada a fazer, é mesmo um caso perdido; não vou dizer à Lucília que vinha no carro quando li o comentário e que dei uma boa gargalhada; não vou dizer à Luísa que aquelas florzinhas desenhadas e pintadas são mesmo bonitas e que se habilite ela a fazer parecido que certamente ficarão também mimosas; não vou dizer à Bea que está bem, pronto, se a peça é só utilitária e, de resto, sem graça que mereça prosa, pois, está bem, não falamos mais nisso; nem vou dizer à Janita que espero que o penteado estivesse a preceito quando se viu ao espelho; nem sequer vou dizer ao Francisco que é um valente por ter a coragem de se abeirar de um tal jardim pejado de flores de perdição. Nem vou dizer à JV, essa gloriosa evangelizadora, que, com esse tão grande amor, um dia ainda corro o risco de a ver a fazer parte da direcção ao lado do Vieira...

E como não vou dizer nada disso porque senão não durmo e a noite já não é uma criança e, ainda por cima, vai ser curta porque o dia vai ser longo, fico-me por aqui. E desculpem lá qualquer coisinha.


[O pintor é Carlos Jacanamijoy e o cantor James Taylor e eu desejo-vos um dia feliz]