Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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segunda-feira, fevereiro 24, 2020

Louvor da Terra





Hoje de manhã vi que, em cima da mesa redonda que está junto à janela, estava 'O amor louco' do Breton. Estranhei. Depois fez-se-me luz. Pela capa julgaram que era outra coisa

Levei-o. E levei também o outro, o último, aquele a que não tive como resistir, 'Louvor da terra' de Byung-Chul Han, com tradução de Miguel Serras Pereira, coisa que também ajudou ao bom prenúncio.

Dia de descanso. In heaven. 



Lá chegada, e tão cheia de saudades eu estava, depois de abrir as portadas para que a luz pudesse iluminar a casa, saí para o campo.

Caminhei e, para estas caminhadas, eu não quero companhia, quero apenas o som dos meus passos sobre a caruma, o som da levíssima aragem nos ramos, o cantar dos pássaros, o silêncio, o silêncio que traz de longe o som de uma roçadora e o perfume da erva a ser cortada ou a longínqua presença de um cão que ladra no vale ou algures na serra. Caminho em puro estado de deleite e não penso em nada, apenas sinto o que os sentidos me trazem. A beleza das pequenas flores, os líquenes dourados e os pontinhos brancos, o rendilhado das sombras e a luz sobre todas as coisas, os verdes e a paz que deles se desprende, os odores limpos do campo, a suavidade da folhagem ou das superfícies mornas das pedras ou o enrugado dos troncos. As palavras são escusadas enquanto caminho. Por isso, nessas alturas, não gosto de ter alguém por perto. Quero apenas o silêncio. 

Depois, fui para o sol e levei os livros. Estendi-me numa espreguiçadeira, despi-me, deixei que o sol pousasse devagarinho na minha pele. Estava debaixo da grande figueira mas, como ainda tem os ramos nus, a sombra era subtil. E o perfume fresco que me traz a memória das tardes de verão ainda era apenas uma vontade dele.


Continuei O amor louco, verdadeiramente louco, que tinha começado no carro. Li a direito, fui lendo. Até que comecei a abreviar, a saltar. Dantes era incapaz de fazer isto. Dantes, mesmo que não gostasse de um livro, só o abandonava quando lia escrupulosamente todas as palavras. Agora já não é assim. Perdi a inocência. À medida que o tempo passa a gente vai percebendo que tem que escolher bem onde o usa. A Luísa Neto Jorge traduziu e há momentos belos, outros interessantes, outros muito loucos. Talvez um labirinto. Mas não tem aquele fio de Ariadne de que preciso para me guiar, página a página. Qualquer coisa ali me fez ter vontade de interromper. Se calhar não teve a ver com o livro, se calhar teve a ver com o calor brando do sol sobre a pele ou com o sobressalto das rolas a soltarem-se da ramagem perfumada dos cedros, se calhar teve a ver com a vontade de palavras a brotar da terra e não das mãos, nem mesmo do coração.

Fui, então, para o Louvor da Terra. E como gostei. Ia lendo, ia parando, ia sentindo o amor pelo jardim, pelo devir do tempo sobre as flores, o amor pela paz que se desprende das coisas da natureza, ia vivendo a simplicidade do que me rodeava e do que lia.


Por exemplo, sobre um tema que me é caro (e agora nem tem a ver com as flores ou o jardim que Byung-Chul Han amorosamente cultiva):
Gostaria de me desprender de mim no sono, para me tornar ninguém, um ser anónimo. 
E a referência à Carta sobre o Humanismo onde Heidegger escreve:
'Mas, se o homem encontrar de novo a proximidade do ser, terá de aprender primeiro a existir anonimamente. Terá de se dar conta do mesmo modo tanto da sedução da esfera pública como da impotência do privado. Antes de falar, o homem terá de deixar que o ser de novo o interpele, correndo o risco de, depois dessa interpelação, pouco ou raramente alguma coisa lhe restar que diga'.
E continua: 
Hoje temos muito que dizer, muito que comunicar, porque somos alguém. Perdemos o hábito quer do silêncio, quer de nos calarmos. O meu jardim é um lugar do silêncio. No jardim, crio silêncio.
E eu acho estas palavras tão bonitas, tão sábias, tão simples, tão boas para ler devagar.

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As fotografias foram, pois, feitas este domingo in heaven. Enquanto caminhava tinha umas calças brancas e a túnica que ainda tenho vestida, branca, com flores encarnadas à frente. Ao ver as fotografias, vi-me, nesta aqui acima, espelhada na caruma e nas ervinhas e folhinhas secas do chão. No lugar que provavelmente é o do meu sexo uma florzinha amarela, uma pequena réplica do sol. 

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Lá em cima, quem interpreta as Variações Goldberg de Bach é Igor Levit, não Byung-Chul Han que, a páginas 119 do livro, diz que 'Enquanto contemplava o Vesúvio, tocava todos os dias as Variações Goldberg de Bach. Mandei instalar um piano na minha cabana junto ao mar'. E mais à frente escreve: 'A paisagem mediterrânica é íntima. Comove-me no mais fundo do meu ser. Penetra-me o adejar de um pássaro negro. Comove-me profundamente. Aqui tudo é muito próximo e muito íntimo. Íntimo é um superlativo de interior. Estou no meio da paisagem.'

E, ao ler esta passagem, fiquei a pensar que adejar era justamente a palavra que me faltava para o sobressalto dos pássaros quando batem apressadamente as asas para se libertarem da folhagem e me fazem arrepiar porque esse é um som demasiado íntimo que me faz sentir que tenho um pássaro a querer libertar-se do meu peito. Adejar. 

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Desejo-vos uma boa semana --
mas não sem antes vos convidar a descer para verem o fantasminha que descobri, abraçado ao tronco de uma aroeira.

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quarta-feira, fevereiro 19, 2020

Seios, sustos, uma mulher nua e de saltos altos, santinhos e anjos do além





Não há muito, num daqueles exames de rotina, a médica detectou um pequeno nódulo que não aparecia referido no relatório do exame anterior embora em tempos tenha havido referência a um, que talvez fosse o mesmo e que, inclusivamente, já foi biopsiado e que tanto medo me causou. Esse tinha um nome de que agora não me lembro (seria fibroadenoma?) e, felizmente, era benigno. Não sabendo se era o mesmo e intrigada por não aparecer no exame anterior, pelo sim, pelo não, a médica pediu para repetir o exame quatro meses depois. Foi hoje. Se por um lado tenho para mim que estou bem pois sinto-me bem, por outro sei que há coisas silenciosas que fazem o seu percurso ao longo de anos sem que quem as tem se aperceba do que quer que seja. E, se tendo a ser despreocupada, a verdade é que, na meia hora que precede o exame, um nervoso miudinho se apodera de mim de uma forma um bocado intensa. Para começar, ao ir para lá, ia tão distraída a ouvir música mas ao mesmo tempo já a ficar tão enervada que só dei por que tinha passado o cruzamento onde deveria ter virado quando já ia para aí um ou dois quilómetros à frente. Azar. Impossível virar. Tive que continuar por mais uns dois quilómetros até conseguir inverter o sentido. 

Quando cheguei, mal acabei de me inscrever fui logo à casa de banho. Tinha ido antes de almoço, menos de uma hora antes, mas sentia a bexiga a ponto de rebentar. 

Passado um bocado, chamaram o meu número.

A funcionária mandou-me entrar para um cubículo e disse que me despisse da cintura para cima, vestisse a bata e me deixasse ficar sentada com a porta aberta. Assim fiz. Pensei que aquela de ficar sentada de porta aberta fazia sentido para ter ar para respirar e para ouvir quando me chamassem. Vesti a bata com a abertura para a frente e não a abotoei, apenas a tracei, prendendo-a com os braços cruzados debaixo do peito. Disse-me ainda que, quando me chamasse, eu levasse a carteira comigo.

Entretanto, senti que estava outra vez aflita para ir à casa de banho. Pensei que não podia ir pois a casa de banho fica na zona aberta ao público e, naquele estado, meio despida, não era muito conveniente circular. Pensei que era psicológico, que a bexiga não podia ter-se enchido em meia dúzia de minutos. Mas cada vez estava mais aflita. Pensei que se não me chamassem rapidamente teria mesmo que ir.

Pelo meio, cada vez mais cheia de medo, pensava que tomara que estivesse tudo bem. E, às escondidas de mim, pedi protecção. Mas senti-me uma pedinchona incoerente e sem vergonha na cara. E, lembrando-me de uma coisa que tinha lido na véspera num livro, numa livraria, deu-me vontade de rir.
É que, na segunda-feira, fiz uma daquelas minhas incursões por uma livraria mas, como sempre, tomada por firme decisão de não comprar qualquer livro. Ia-os catrapiscando e pensando: vou ser lógica, vou ceder à ortodoxia dos bem-comportados, não vou ser uma pessoa assim, bla-bla-bla. Às tantas, folheei um e li uma coisa que era qualquer coisa como isto: um homem dizia que, quando estava em apuros e aflições, tirava uma imagem que tinha na carteira e pedia-lhe protecção. E exemplificava, mostrando ao outro a imagem. O outro exclamava: 'Mas é a Greta Garbo!'. O homem confirmava e dizia que era importante ter qualquer coisa em que acreditar. E eu achei a ideia deliciosa. E fiquei cheia de vontade de trazer o livro nem que fosse para reler a cena e para ver se havia mais coisas assim. Mas resisti. Há dias em que consigo portar-me bem. E agora não tenho como validar se foi isto mesmo que li ou se o que contei foi uma construção da minha cabeça a partir de um relance em diagonal num livro aberto ao acaso.
Mas, então, estava a lembrar-me disto e quase a  rir, já mais aliviada da bexiga e do medo. Às tantas, a funcionária chamou 'Bárbara'. Fiquei admirada, pensei que ela tivesse trocado a ficha. Então, para meu espanto, vejo que do cubículo ao lado -- no qual eu não sabia que estava uma pessoa pois quando para lá me dirigi estava fechado -- sai um mulherão. Teria à volta de trinta, era morena, alta, formas generosas. Ao contrário de mim que ia fazer apenas uma ecografia mamária, ela devia ir fazer também a pélvica pois estava nua. Contudo, curiosamente, manteve os saltos altos, muito altos, e a bata aberta atrás, presa por um cintinho, mas deixando-lhe à mostra as costas e, ao andar, as pernas. Uma imagem muito sexy. E ia com a carteira ao ombro o que tornava o conjunto ainda mais insólito. Avançou resoluta, aparentemente sem sombra de medo.

Quando faço os dois exames e também tenho que me pôr nua, vou praticamente descalça para o gabinete da médica, só com umas sapatinhas descartáveis. Pois ela ia gloriosa, em cima dos seus saltos altos. 

Fiquei a pensar que, antes de se levantar, ela devia estar sentada, tal como eu, de porta aberta, tal como eu. Quem estivesse de frente, teria visto aquela beldade toda nua e de saltos altos, apenas vagamente coberta por uma bata fina e descartável, provavelmente a olhar para o telemóvel, e eu, de calças e igualmente de saltos altos, também com a bata, mas certamente com ar amedrontado, a tentar não pensar que não aguentava sem ir à casa de banho e que tomara que o exame não desse nada de mal.

Passado um bocado, saíu do gabinete da médica, bárbara e gloriosa, enfiou-se no cubículo, ouvi fechar a porta, e antes que me chamassem, saíu, saia justa, pelo joelho, um casaco justo a três quartos, a carteira ao ombro; deitou a bata no recipiente e lá foi, óculos escuros na mão.

Passado um bocado, ouvi o meu nome. Lá fui. Assustada e a sentir-me quase muda. A funcionária disse-me para despir a bata e deitar-me de barriga para cima. Escusava de dizer, sei como é. Braços para cima. Desprotegida. A médica encheu-me o peito de gel e começou a tortura, passando o dispositivo, que parece um rato, por toda a superfície dos seios. Faz força, incomoda. Com os braços para cima, não ficamos apenas expostas, ficamos à mercê. Provavelmente por estar em tensão, tudo aquilo me dói. E depois há o medo. Ver a médica a parar, a fixar a imagem no ecrã, a medir o tamanho do que encontra. Mas ela concluíu que estava tudo bem. Ainda lá estava o nódulo mas igual ao que estava há poucos meses e igual ao que estava anos antes. Explicou que pode acontecer não ser detectado em alguns exames por estar escondido atrás de alguma gordurinha. Foi ela que disse: nas maminhas há gordurinhas que, por vezes, não deixam ver bem. Quando ela me disse isso, descontraí. Deixou de me doer e deixei de estar aflita para ir à casa de banho. Respirei fundo, consegui falar.


Quando saí, ia na maior felicidade. Sentia-me agradecida e ocorreu-me que talvez devesse ter na carteira uma fotografia de alguém a quem agradecer numa situação destas. Não uma santa mas um santinho. Pensei que talvez o Jeremy Irons, e que bom, bom mesmo, seria ter um cd com a voz dele e, então, punha-o a tocar e era como se tivesse o santo em pessoa ali a dizer-me poesia. Depois detive-me, senti-me incorrecta por ter pensamentos tão hereges quando deveria era sentir-me recatadamente agradecida.

De tarde trabalhei sentindo a alma leve como uma pluma.

&

Como post scriptum posso ainda contar que, como no sábado e no domingo estive doente e dormi que me fartei, na noite de domingo, sentindo-me já fresca, estava sem pitada de sono. Então, levantei-me e mudei-me para a sala. Estendi-me no sofá, tapei-me com uma manta quentinha e pus-me a ler Gabriel Garcia Márquez: o livro de contos onde se inclui a história da cândida Eréndira e da sua avó desalmada. E o que me deliciei. A sala às escuras excepto o que se via sob aquele pequeno foco de luz. E o que se via era uma delirante delícia.
Tinha chovido tanto que o quintal estava alagado e havia caranguejos por todo o lado. E com o rio transbordante e com a intempérie não só tinham aparecido caranguejos aos montes como tinha aparecido um anjo de cabelo ralo, desdentado e velho. E o casal tinha posto o anjo velho numa gaiola e veio gente de todo o lado para ver o anjo; e o casal ficou rico. E, pelo meio, iam os dois para o quarto e era de todas as maneiras, aos coelhinhos, às formiguinhas e a outros bichinhos. Às vezes enganavam-se e faziam de outras maneiras e não naquela em que iam a pensar. Depois um dia, muito tempo depois, as penas, que tinham caído, voltaram a nascer nas grandes asas e o anjo, a custo, levantou voo e lá foi. Ou, então, a história da jovem Erêndira que era uma escrava às mãos da avó, uma velha gorda, a quem a neta tinha que dar banho, vestir, fazer a lida da casa. Um dia, morta de cansaço, a menina pousou o castiçal e adormeceu. As velas pegaram fogo aos cortinados e casa ardeu mas a avó foi boazinha, disse que não fazia mal, que a neta pagaria o prejuízo. E passou a vender os serviços sexuais da jovem de catorze anos. Dezenas de vezes por dia. A menina exausta. Até que um dia apareceu Ulisses e a menina e ele fizeram amor, de gosto, ao longo de toda a noite. Não contei que o pai da menina se chamava Amadis e o avô também e que já tinham morrido, estavam enterrados no quintal. E que, depois da casa ter ardido, a avó andava com a caixa dos ossos dos Amadises por todo o lado onde fossem. 
Pelo meio a prosa ia andando com pormenores que me traziam a felicidade, tanta a inteligência, o humor e a elegância das palavras. E eu estava a ver que não me dava o sono, tão gostosa estava a leitura. Até senti que, a qualquer momento, poderia sentir um lobo a espreitar-me, na distância, na insolência. Mas não, acabei por cair no sono.


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As fotografias são de Clara Belleville

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Uma quarta-feira feliz. 
A todos desejo alegria. E saúde.

sexta-feira, novembro 22, 2019

Segreda à chuva, ao jardim em flor, o meu cicio de amor





Estas semanas não andam a facilitar-me a vida. Escasseia-me o tempo e sobram-me os afazeres. Talvez pudesse ser melhor acomodável se fosse espremido, ou seja, se não tivesse que fazer tantos quilómetros por dia, grande parte deles em percursos sempre atrapalhados, desperdiçando anos de vida no trânsito. Consequentemente, nos últimos dias tenho adormecido aqui no sofá nem conseguindo responder a comentários ou a  mails. Uma lástima.

Acontece que, a noite passada, o meu marido, que ia levantar-se muito de madrugada, conseguiu acordar ainda mais cedo do que o necessário e foi buscar o telemóvel para o pé da cama. Então, quando o despertador tocou, pegou nele, na cama, e, em vão, tentou desligá-lo. Por razões que me transcendem, não conseguiu à primeira tentativa, à segunda e por aí fora. Ou seja, precisada de sono como sempre ando, acordei a meio da noite com um despertador a tocar, sem parar, ao lado da minha cabeça. Claro que ele achou que isso não era nada de especial, que me virasse para o outro lado e voltasse a adormecer. Como se isso fosse possível, furiosa como estava. Ou seja, essas duas horas de sono sonegadas também não ajudaram nada. E daqui a nada tenho que estar a pé pois é a minha vez de ir passar o dia fora. Portanto, atalhando: é esta a história da minha vida.

Mas isto como intróito a despropósito pois o que que quero mesmo dizer é que, quando ia no carro, para almoçar, e tendo apanhado o enésimo incidente na estrada, num daqueles infernais pára-arranca que me roubam qualidade de vida, me pus a espreitar os blogs da galeria do lado. Note-se: isto nos momentos em que estava parada que eu sou muito respeitadora das regras (de trânsito). E um deles foi o do Eduardo Pitta. E, aí chegada, foi uma epifania. Um novo livro de John Williams, o Augustus. Quem não seja dado a emoções esfuziantes perante casos desta natureza talvez não compreenda o que digo, talvez ache que estou a exagerar. Não estou. Uma alegria, uma adrenalina, uma vontade de tê-lo já, de pegar nele, de o conhecer, de começar já a desfrutar. Já aqui o referi e não me canso de o repetir: o Stoner ou o Butcher's Crossing foram daqueles livros que me agarraram do princípio ao fim e que, em minha opinião, ilustram o que é literatura. Verdadeira literatura. Saber que, afinal, havia outro foi para mim uma superlativa alegria. Portanto, tomada por um entusiasmo trepidante, decidi que ia arranjar um bocado para ir buscá-lo. E assim foi.


Ao contrário das últimas vezes, em que entro na livraria de freio nos dentes, à rédea curta e praticamente com uma venda nos olhos, desta vez entrei com um espírito vitorioso. E, portanto, desencabrestada de alto a baixo, foi para a desgraça. Foi esse e outros que me saltaram para as mãos. Tanto livro bom, senhores, tanto livro bom, tão grande, tão incontornável a tentação.

Hoje não vou aqui enumerá-los pois, como qualquer viciado, até tenho vergonha de confessar uma tão grande recaída. Mas, de entre eles, vou falar em sete livros, da mesma colecção, a que não resisti. 'A casa de quem faz as casas'. Livrinhos sobre as casas de arquitectos. Carrilho da Graça, Gonçalo Byrne, Manuel Graça Dias, etc. Eu que gosto de casas, que gosto de livros de arquitectura, que gosto de ler entrevistas a arquitectos, que gosto de decoração, não podia resistir. Acresce que cada livro custa cinco euros. Um achado. Que vontade até tenho de dar um pontapé para o alto no blog e me pôr aqui a desfolhar estes livros. E isto já para não falar nos outros. O Augustus fica para o fim de semana porque os grandes prazeres têm que ser degustados com tempo, com entrega total.

Vim da livraria ajoujada sob um daqueles big sacos que lá vendem e que pus ao ombro, carregadinho como um tesouro pejado de preciosidades. E de tal forma estava pesado que temi que tamanha desconformidade me provocasse uma tendinite no ombro ou me desse cabo dos joelhos pois, quando ando com grandes carregos, os joelhos por vezes parece que ficam com vontade de dar de si. 


Agora à noite, depois de termos ido fazer a nossa caminhada diária, fui ao carro e tentei passar despercebida, tirando de lá o saco como se fosse coisa ligeira. Mas não consegui. Então o cavalheiro foi-se a ele. E ficou passado. Recordou-me a minha determinação em não encher a casa de livros e mostrou a sua estupefacção com o peso do saco. Não tentei desculpar-me. Pequei e como boa pecadora devo assumir a minha culpa. 

Agora tenho-os aqui ao meu lado: livros tão bons. Pecado mais bom de ver. E melhor será de saborear.

Entretanto, tenho estado a ler os comentários sobre mindfulness e lembrei-me que seria uma ideia engraçada sentarmo-nos confortavelmente, eu e os caríssimos comentadores, a conversar sobre o assunto. Penso que seria uma tertúlia animada.


Não podendo, vou dizer uma coisa aqui sobre isso: eu sou uma pessoa que quando se embrenha num assunto estou totalmente nele. Quando aqui estou a escrever, o meu marido volta e meia fala comigo e eu não respondo logo. Eu ouço-o mas é como se fosse uma voz de um outro filme, de um filme que me fosse externo. Ouço-o e sei que tenho que responder mas primeiro tenho que sair do mundo em que estou. O meu marido diz que estou em modo blog. Ou quando me ponho a ler ou a fazer tapetes de Arraiolos ou a pintar: toda eu estou naquilo. Ou quando ando, num comprimento de onda muito meu, a fotografar in heaven (e leia-se com um sotaque british para o Francisco não achar que também me baldeei para o lado dos amaricanos). Posso não ser capaz de explicar ou pode ser coisa tão inacreditável que ninguém me leve a sério mas o que sinto nessas ocasiões é que sou bicho, animal saído de dentro da terra, entregue ao prazer de descobrir flores, pedras, a luz através das folhas, a cor de tudo, os cheiros, os sons, e toda eu, inteira, estou ali, parte do todo (justamente, JV, e nem preciso de fazer Ooooonmmmm). E sinto-me tão tranquila, tão bem, tão em paz que acredito que é assim que se sentem as pessoas que fazem meditação. Agora uma coisa é certa: não ando a questionar-me nem procuro encontrar o sentido do que penso ou do que faço pelo que se o dito mindfulness passa por aí então isso não é comigo. Espero nunca chegar ao ponto de não ter outros motivos de interesse que não o que penso ou digo. Gosto de me desconhecer pelo não tenho qualquer curiosidade em interpretar os meus actos ou os meus pensamentos. E isto não que seja assumidamente anfibológica (thanks, bicho-mau, por mais uma palavra nova) mas a ambiguidade, a abstracção e a gradação de cores entre os extremos do espectro são-me atraentes (qual preto e branco, ó ~CC~? Toda eu jorro cores).

Quanto ao ioga, juro que gostava de saber fazer -- mas mais pelos alongamentos e pela elasticidade do corpo -- e o flutuário, bolas, deve ser fantástico -- mas desde que não me fechem dentro daquela cápsula. Se puder flutuar no azul, em silêncio, e sem estar fechada, juro que vou pedir de presente pelo Natal.


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E agora, pedindo desculpa por incluir um poema tão lindo no meio do salsifré que é este post, vou transcrever o que o anfibológico bicho mucho mau, a quem muito agradeço, me deixou num comentário lá mais abaixo. Para ler em silêncio.

Pena não poder ser lido de olhos fechados. Ou escutado como quem escuta um lento murmúrio.

Cicio de Amor

Aonde, oh aonde te apressas, tão célere assim?
O arbusto do deserto ao vento suplica.

Triste me sinto aqui.
Não anseias também tu por ir-te,
para longe desta poeira jornadear?

Pleno de desejo sim, mas ai de mim,
por estes pés sojugado.
Aonde, oh aonde, tão célere assim?

Aonde quer que fique meu lar,
longe, longe deste lugar.

Que Deus te guie e proteja,
mas peço-te, por amor de Deus,
cedo p'ra lá deste ermo estejas, a salvo deste grã temor,
segreda à chuva, ao jardim em flor, o meu cicio de amor.


Mohammad Reza Shafii Kadkani
(a partir da tradução inglesa por Pari Azarm Motamedi)


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As fotografias referem-se à campanha Rodarte Outono/Inverno 2019 e só estão aqui porque gosto delas. O mesmo acontece com a música que escolhi, Kate Wolf a interpretar Green Eyes: estava a ouvir o Whisper of love e, quando chegou ao fim, passou sozinho para esta que não conhecia e que me soou bem. 

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E a todos uma bela sexta-feira. 

sábado, outubro 26, 2019

Ergo-me do lado de cá do mar, do lado de cá de mim





A JV, em cujo gosto confio sem questionar, recomendou-me o 'O rei faz vénia e mata' e eu, que sou bem mandada, fui à procura dele. No outro dia fui à livraria grande. Não tinha. Encomendariam mas, tal como tinham informado num outro dia, teria que pagar logo. Ora embirro com isso. Há abébias que não dou, tenho por lema de vida não contrariar as minhas embirrações. Portanto, fui esta sexta-feira à livraria pequena. Não tinham mas encomendaram. Gente de paz. Gosto de lá. Pequenina mas o que lá há é tudo bom. 

Os clientes também são dos que gostam de livros, gente que, do que percebo, é gente do bem.


Só uma cliente hoje me pareceu ser sombria. Tinha um semblante carregado, chegou, leu um papel e pediu um livro. Depois disse que queria talão de troca porque era para oferta e, a seguir, disse que era com contribuinte. A livreira, jovem simpática e insegura (talvez por ser recente lá), perguntou-lhe o número de contribuinte, tirou o talão, perguntou se queria saco. A cliente, com ar de poucos amigos, perguntou: 'E o talão de troca?'. A jovem fez um ar atrapalhado, pediu desculpa, que tirava já. A cliente, com ar superior, carregou no cenho: 'Eu tinha dito que era para oferta!'. A jovem voltou a pedir desculpa, aflita. E eu pensei que a vida daquela mulher devia ser muito má para descarregar tanto azedume em cima de uma pessoa tão insegura e esforçada como a jovem livreira. 


A seguir aproximou-se um homem muito alto, muito bonito. Deslizou como um leopardo por entre os livros, folheou alguns. Pensei que o conhecia, o nome à espreita atrás do pensamento. Depois ele passou a mão pela farta cabeleira e eu confirmei que era mesmo ele. Pensei que era a primeira vez que via uma pessoa da televisão que, em vez de ter metade do tamanho que parecia, tinha era o dobro. Pensei também que era mais bonito do que antes pensava que era. Pensei que era bom que falasse para eu poder confirmar se o mesmo com a voz. Falou mas foi em voz baixa, não conseguir distinguir o timbre. Esteve ao pé da caixa a falar com a livreira. Então chegou uma jovem que deveria ter metade da idade dele mas que deveria andar pelo metro e oitenta, cabelos muito compridos, daqueles que as jovens põem todo para um lado. E um vestido branco, pelo meio da perna, solto, botas, e, por cima, um casaco leve, também comprido, quase do tamanho do vestido, grandes bolsos. Chegou-se a ele, deu-lhe um beijo na boca que ele recebeu com indiferença. A seguir ela recebeu uma chamada e foi atender lá para fora e ele continuou a ver os livros.

Quando ia a sair, reparei na agenda literária. Folheei. Gostei. Pensei que talvez me habitue a tomar apontamentos. Voltei atrás. Depois vi as tisanas da Ana Hatherly. Tentei-me. Vi o I'm your man. Folheei. Não me tentei. Não sei se quero saber mais dele. Acho que há pessoas que não devem ser dissecadas para que não percamos o encantamento cego pelo que fazem.


Quando vinha a sair, saíu também o gigante, lindo, tranquilo. Seguiu como se se tivesse esquecido da namorada. Ela, ainda ao telefone, pondo o cabelo ora sobre um ombro, ora sobre o outro, foi atrás dele.

Tive pena de ser míope porque não consegui ver que livros ele tinha levado. 

E a seguir fui eu que recebi um telefonema e foi ainda ao telefone que desci ao interior da terra e foi ao telefone que conduzi até ao escritório. E toda a tarde foi uma complicação, tantos telefonemas, tantos mails, tantas mensagens, tanta gente a vir falar ao meu gabinete que acabei o dia tarde e com a cabeça feita em água. E quando cheguei a casa ainda tinha mails para responder e agora já os despachei a todos mas sei que nos próximos dias a coisa vai agravar-se porque estamos numa fase crítica e porque junta-se a fase dos forecasts e orçamentos e análise de desvios e isso em cima de tudo o resto é uma canseira. 

E agora estou aqui a pensar que podia ter preparado uma infusão de chá branco porque isso faria pendant com as tisanas que tenho estado a bebericar no intervalo destes rabiscos.


112. É de noite. Deito-me no chão e penso no meu corpo. Estou no meu corpo a seu lado. Estou do seu lado. Interrrogo que queres. Querer é a lei da boca.
113. Estás de visita meu corpo se agita o que é belo me agride. Uma chuva de dardos reconstrói o mistério que conduz ao êxtase. Nos amantes há sempre esse decisivo horror.


E, ao prosseguir, ocorre-me que, afinal, com estas palavras, talvez ficasse bem algum gengibre na infusão de chá branco.

Ocorre-me também que tão bom como estar aqui, em silêncio, a escrever a meio da noite é conhecer pessoas extraordinárias que chegam até mim pelas suas palavras tal como eu lhes chego pelas minhas palavras. Uma teia, uma rede feita de palavras unindo-me a pessoas que, longe de mim, desconhecidas, imateriais, sabem tocar o meu coração. Umas chegam com o seu nome, a sua história de vida. Outras chegam com outros nomes, outras histórias. Mas há verdade em tudo. E eu sinto o pulsar, o respirar, o olhar de todas essas pessoas, aí desse lado, tão perto de mim.  E não sei como agradecer o bem que me fazem sentir.


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As imagens mostram trabalhos de Ana Hatherly tal como são dela as duas tisanas que transcrevi (do livro '351 tisanas') e as palavras que escolhi para encabeçar o post. Lá em cima, Leonard Cohen interpreta Happens to the Heart 

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Desejo-lhe, a si, um bom sábado, um sábado com saúde, alegria, afecto, tranquilidade

domingo, outubro 20, 2019

Uma vida inteira





Pois eu não é tanto se é de língua portuguesa nativa, se é isto, aquilo ou o outro. O feeling, em mim, começa pelo outside. Sou de amores à primeira vista. A intuição em mim é mesmo um shortcut. Se vejo uma capa discreta, se o bom gosto me parece suave, se folheio e me parece que a paginação é equilibrada, se me parece que a prosa flui sem atrapalhação nem floreado, se o tema tem a ver com coisas simples, se, em rápida amostragem, não encontro palavras que me desagradem, pois logo sinto aquela atração pela qual me perco.

E talvez nem tenha usado as melhores palavras pois agora reli o que escrevi e parecem-me motivos fúteis. O que são palavras que não me desagradam? Dito dessa forma nem eu sei responder. Sim, de facto, pensando bem, o que são palavras que não me agradam? Talvez sejam palavras deselegantes, quer pela leviandade da utilização quer pelo exibicionismo dispensável. Talvez. Também não saberia explicar o que são coisas simples pois sei que ao explicar complicaria a ideia.


O que sei é que 'Uma vida inteira' de Robert Seethaler, autor de que nunca antes ouvira falar, me pareceu um livro bom. Capa em cores simples, fotografia antiga, o título numa outra cor, em relevo, bom ao tacto, a lombada na cor do título. Reparo nestas coisas. Ainda fui espreitar quem era o tradutor. Desejei que fosse o Pedro Tamen. Traduções dele garantem a qualidade do livro.
Tenho medo do que um mau tradutor possa fazer a uma boa obra. Tradutores muito tecnicistas que não intuam a musicalidade que o autor tinha na cabeça quando escreveu ou que não adivinhem o sentido implícito e o transponham de forma directa destruindo o rio de ideias que corria por debaixo do texto são como uma máquina de rasto: destroem a beleza e intenção de um autor. 
Por isso, não sendo o Pedro Tamen ou outro tradutor que eu conheça, tento sempre medir o pulso ao texto a ver se me soa bem. A tradutora deste livro é Tânia Ganho e, se na altura nada me incomodou, agora que li o livro, não sei se num ou noutro caso não poderia ter procurado palavra mais em harmonia com o espírito do texto -- mas, globalmente, está aprovada, bem aprovada.


E Robert Seethaler aprovadíssimo. Para que se perceba: comecei a ler o livro a meio da tarde e já o li todo.

E só a meio da tarde porque.

No carro, à vinda, estive a ler um compêndio, temas cá muito meus, preocupações minhas, matérias que quero conhecer melhor, coisas do trabalho. E até comentei: ao contrário deste tipo de cenas em que metade do que ali está é déjà-vu, lugares comuns, tentativas de fazer tendência, banalidades, inutilidades -- o que me permite despachar muitas páginas num ápice e chegar ao fim sem ter perdido nada -- aqui é o oposto. É um compacto de cento e tal páginas, páginas densas e grandes, provavelmente A4, em letra miúda e em que cada palavra importa. Tudo relevante, tudo novo, tudo útil. Por isso, cheguei a casa com o compêndio quase todo por ler porque não consegui diagonalizar nem apressar um bocadinho que fosse. Pelo contrário, de vez em quando, parava, lia em voz alta, relia parágrafos transactos. Tão raro. E que se me perdoe o pleonasmo mas a boa qualidade é uma coisa tão boa.


Depois, uma vez chegada, fui caminhar pelo campo, fotografar, encantar-me com a beleza de tudo, a luz através das folhas, as cores douradas e rubras, o musgo já a nascer, muito verdinho, muito macio, tudo muito bonito, a terra ainda molhada, os pássaros a saltitar e a voar de árvore em árvore, a cantarem. Falam na língua deles, não vão em modas, não há buzzwords, não há floreados, não há subentendidos desnecessários, não são precisos tradutores ou traidores pelo meio. São eles, a sua joie de vivre, as árvores, a chuva, o sol, o ar puro e a emoção de quem os ouve -- sem nada de permeio.

Fotografei, feliz. De cada vez que passam uns dias sem que aqui esteja regresso cheia de saudades, vejo tudo pela primeira vez, há esta descoberta inaugural que me comove, a vida sem disfarces, em toda a sua infinita e renovável pureza.


Depois, voltei a casa, peguei no compêndio e, claro, precisada de recarregar baterias como sempre acontece quando chega o fim da semana, adormeci. Poucos minutos tinham decorrido quando a minha filha me enviou uma mensagem. Os meninos estavam no museu e ela, que sabe como gosto de me sentir próxima, enviou-me várias fotografias deles por lá a experimentarem tudo o que podiam. Como a troca de mensagens se prolongou, percebi que não seria possível retomar a sesta. Por isso, fui buscar o livro.

Tirando um pequeno intervalo para um jantar ligeiro e os telefonemas à família, foi de penalti. Tal como quando li os livros do Paolo Gognetti, também aqui me deixei prender com o desenrolar das descrições de uma vida simples. 'A vida inteira' também fala das mudanças das estações, da primavera e da neve, das grandes árvores, de um homem que não precisa de muito, que se senta a contemplar os vales e as montanhas ao longe, que fala pouco, que se apaixonou uma única vez mas se apaixonou muito, uma paixão daquelas que acontecem uma vez na vida, e que vive sem pedir muito em troca.

Sendo um livro assim -- sem truques, sem suspense, sem traições, sem crimes ou cenas tórridas, sem nada nunca visto -- a verdade é que não consegui parar de ler. Sendo um livro assim, dei por mim a ter que desviar os olhos para parar de ler, com lágrimas nos olhos. E, no entanto, o que tinha acontecido para assim me emocionar foi dito numa pequena frase. E o que tinha acontecido não foi nada de especial. Uma pequena frase que apareceu de súbito. Sem adjectivação, sem aparato. Uma frase pequena e simples. E o texto prosseguiu como se nada fosse. Mas a dimensão da emoção que ali estava chegou até mim de uma forma intensa. Penso que seja a isto que se chama literatura.


Ou seja, li o livro todo e fiquei com pena que tivesse acabado. Uma escrita escorreita, sem artifícios, elegante na sua simplicidade, sensível apesar da rudeza da vida do personagem, apesar da sua introversão, apesar de não ser dado a pensamentos profundos. Não sei como se faz um livro assim mas sei que, cada vez mais, é de livros assim que eu mais gosto.

E a seguir apeteceu-me deixar-me ficar a ver televisão, a olhar para ontem, a curtir a sensação que me ficou, a deixar que a leitura assentasse. Só pensava: tão bom.

E agora aqui estou. Como sempre, mesmo quando o dia é tranquilo, arranjo maneira de ficar a escrever até às tantas da noite.


Ah, é verdade. Só mais uma coisa. Deixem que vos mostre.

Quando estava a andar no campo, aqui in heaven, uma aragem fria, a echarpe que me protegia o colo esvoaçou e eu achei o movimento gracioso e fotografei-a em plena ondulação.  Mas como a fotografia não ficou nítida, debrucei-me sobre o alecrim e pousei-a para a fotografar em sossego. A fotografia que aqui vêem acima.

Comprei esta echarpe aos vendedores de Lagos, terra que tenho junto ao coração, naquelas barraquinhas junto ao braço de mar que vai até à marina. Gostei da cor, do tecido, das florzinhas, da harmonia do conjunto. Distraída como sou não reparei nem nas flores em si, nem nos dizeres, só mesmo nessa harmonia. Já a usei alguns dias desta semana, ao fim do dia quando fui caminhar, e hoje todo o dia. Tinha-a hoje, de manhã, quando estive em casa da minha mãe e lembro-me que estive a brincar com ela, a enrolá-la em volta das mãos, a sentir a macieza do tecido. Mas só quando a fotografei reparei que tem as flores aqui do campo: alfazema, orégãos, rosmaninho, tomilho. E até tem esses nomes escritos.  E eu, com ela em volta do meu pescoço, e não tinha reparado.

Quantas mais coisas, junto a mim, eu não vejo? Devem ser quase todas. E, no entanto, que bom ter tantas coisas para descobrir. Que contente fiquei ao ver que a echarpe tem desenhadas as florzinhas do campo de que eu tanto gosto. Há tantas pequenas coisas que me deixam contente. Se calhar pode dizer-se que sou uma pessoa fácil de contentar. Ou, mais simplesmente, uma pessoa fácil. Ou simples. Uma pessoa simples.

Acho que sim, acho que é isso. E, se não for, olha, paciência.


Desejo-vos um belo dia de domingo. 
Be happy.

domingo, outubro 13, 2019

Vita & Virginia



Fui ver o filme. Está agora restrito a uma sessão por dia, a uma hora que não estorva o afluxo a filmes mais mediáticos. A sala quase vazia. Não se ouviu um ruído nem cheirava a pipocas. Os muito poucos que ali estavam, estavam apenas para verem e ouvirem o filme. No escuro do cinema, a beleza das palavras e a serenidade das imagens bastava. 

Quando saímos, uma enchente ruidosa nos corredores, no átrio, nos acessos. Não sei o que está a atrair tamanha multidão. Talvez o Rambo, talvez o Joker, talvez, até, a Judy. Provavelmente nenhum dos que estavam para os outros filmes sabia que o filme se refere à paixão entre Vita e Virginia que são, respectivamente, Victoria Mary Sackville-West, Lady Nicolson, conhecida como Vita Sackville-West (1892 – 1962) e Adeline Virginia Woolf (1882 – 1941). E, se calhar, mesmo que o soubessem, ficariam na mesma.


E, no entanto, que vidas extraordinárias as delas e das respectivas famílias e do grupo em que se integravam.

Não frequento já as estrelas e as bolas com que os críticos de cinema pontuam os filmes mas tenho curiosidade: como terão classificado este filme? 



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Já agora, para os que não sabem, a obra Orlando de Virginia Woolf foi inspirada em Vita Sackville-West e dela se fez o filme cujo trailer abaixo partilho e que tem a participação de Tilda Swinton na figura misteriosa e andrógina de Orlando.



terça-feira, junho 18, 2019

Com incansável inteligência e alguma ocasional petulância






Ao longo do dia, andei de umas para outras sem que nada, durante todas aquelas vastas horas, me tivesse agradado especialmente. Muita reunião, muito roadmap, muito business plan e business case, muita mitigação, muita coisa nessa base e sumo que é bom e eu gosto, pouco e, o que há, fraquinho, fraquinho. Pior: no intervalo, nada. Um compacto de cenas desinspiradas.

Vão rareando as pessoas que me fazem rir ou com quem se consiga ter uma conversa variada sobre temas pouco sérios. Quanto mais pessoas conheço mais me convenço que as pessoas muito sisudas e que só sabem falar de trabalho, por muito que aparentem ser eficientes e ultra zelosas, são, na realidade, umas perfeitas nulidades, fazendo muito bem coisas que geralmente não servem para nada. Acresce que são chatas, muito chatas.

Tenho saudades dos longínquos tempos de grande irreverência, de muito mau comportamento. Tenho saudades de quando me diziam que o meu colega e grande amigo tinha saído do gabinete a apertar a portinhola, isto depois da secretária ter de lá saído segundos antes toda afogueada e sorridente. Tenho saudades dos relatos mirabolantes de um colega que contava histórias inverosímeis e que, quando eu o confrontava: 'Não acredito em nada disso, deve ser tudo mentira' me respondia com ar divertido e gaiato: 'Tudo não, que exagero. Tem um fundo de verdade'. Tenho saudades de quando a minha secretária me contava que tinha pressionado outro meu colega e amigo, dizendo-lhe: 'Se está à espera de ser velho para deixar a sua mulher e vir viver comigo, tire daí o sentido, ou é agora, enquanto somos novos, ou esqueça'.  Tenho saudades daqueles dias divertidos em que a arquitecta que ia comigo ver as obras, saia étnica até aos pés, me dizia: 'Viste como os gajos não tiravam os olhos das minhas pernas? É que a saia é transparente e eu ponho-me em contraluz para os gajos ficarem vesgos'. Tenho saudades daquele presidente, amicíssimo, um mestre, que contava que a vizinha da moradia contígua, no Estoril, era italiana, fogosa e andava nua no jardim... e que ele inventava desculpas para não ficar na casa da cidade, onde vivia com uma namorada vinte e cinco anos mais nova, para ir pernoitar ao Estoril e, mal lá chegado, saltar a cerca e pernoitar com a italiana, sexagenária como ele. Tenho saudades daquele outro colega que, quando chegava à ponta do corredor, dava um salto batendo os pés de lado como se a seguir fosse dançar como o Fred Astaire.
Um paradigma do homem sadio, criado para confiar totalmente nos seus próprios impulsos, graças a uma intensa e jubilosa vitalidade imune ao medo, à má consciência, à malícia e aos expedientes e muletas morais da lei e da ordem que os acompanham.
Eram todos assim, eu a única mulher no meio de um bando de doidos. Mas uns doidos inteligentes, competentes, arrojados, irreverentes, bem sucedidos no seu trabalho, na sua vida. Divertíamo-nos à brava. Só um é que se levava a sério e, portanto, ninguém tinha paciência para ele. Uma vez metemo-nos todos numa bravata que, como todas as bravatas, comportava riscos. Esse tal apertadinho teve medo, acobardou-se, saltou fora. Todos os outros mantiveram-se unidos até ao final, apesar das ameaças, apesar de sabermos que haveríamos de pagar pela nossa insolência (e coragem e coerência). E pagámos, de peito feito, alegres da vida.

O ambiente profissional que conheço, aqui e ali, hoje não tem disso. É tudo muito calculado, muito bem comportado,  muito politicamente correcto, ninguém ousa uma piada mais brejeira, ninguém ousa pisar o risco. Hoje ninguém tem tempo para maluqueiras, anda toda a gente muito ocupada a cumprir objectivos, a atingir os kpi's e a mostrar-se muito eficiente junto do chefe.

Até certa altura, não estava ainda tudo automatizado, não havia mails desde que despertamos até que nos deitamos, não havia telemóveis a levarem o trabalho até nós: e, no entanto, não havia qualquer necessidade de trabalhar até às quinhentas, e, durante o dia, nem sei como, havia tempo para falar de livros, para falar de cinema, para anedotas, para fofocas divertidas, para risotas boas.

Quando penso nisto parece ficção. Ou coisa que aconteceu num outro mundo, numa outra época.

E não sei como é que isto se perdeu. 

Aliás, sei. Houve uma época tenebrosa, dos yuppies, gente muito pseudo-eficiente, gente muito ao sabor de modas, gente que não sabia nada de nada a não ser papaguear jargões em consultês, gente que muito menos sabia da vida, e que apareceu a querer normalizar a diversidade.
Lembro-me de um que apareceu nem sei de onde. Tinha trinta e picos e portava-se como se fosse um grande magnata. Fumava charuto e um dos meus amigos, à socapa, gozava com ele, dizia que parecia aquele bebé, o Baby Herman, semblante autoritário, charuto na boca e... de fraldas. Vi-o depois naquilo dos empresários qualquer coisa de Portugal, que iam refundar Portugal, acho que se chamava Compromisso Portugal. O João Miguel Tavares é que, nessa altura, mesmo andando ainda de fraldas, devia ter aproveitado as causas. Aqueles lá tinham causas. Muito parvalhão acreditou nos el dorados que prometiam amanhãs que cantavam, muito parvalhão lhes deu palco, muitas entrevistas. Muito se assistiu à sua pesporrência fútil e bacoca. O Baby Herman por lá andou a fazer não se sabe bem o quê. Certamente alguém o fez Comendador. Deve ter falido a empresa mas isso não interessa, a memória da malta é curta. 

Mas, enfim, é assim. Os tempos mudam e nem sempre mudam para melhor. E somos todos nós, colectivamente, que deixamos que isso aconteça. Vamos deixando, vamos contemporizando. E, quando damos por ela, o mundo mudou, alagado em mediania... e, quando queremos mudar-nos daqui para um lugar melhor, percebemos que perdemos o pé.

Mas, na volta, sempre assim foi desde o princípio dos tempos: toda a gente sempre a achar que tudo isto não passa de um devir a caminho da nulidade.
Nenhum de nós alcançará a terra prometida: morreremos todos no deserto. O intelecto, como alguém já disse, é uma espécie de doença: incurável.

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Pinturas de Kim Heungsou na companhia de Yiruma com Maybe. Em itálico, excertos de O wagneriano perfeito de Bernard Shaw (incluindo o título)

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Já agora, a propósito de Bernard Shaw, o discurso em louvor de Einstein 
-- e que bom quando as pessoas gostam de rir, de se rir


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E, que nem de propósito, abaixo uma evocação de um mundo transacto, um mundo que já nada tem a ver com este nosso mundo -- um mundo de reis, rainhas, príncipes e princesas, duques e duquesas, caleches e penachos a enfeitar as belezas. Bem podem as ruas protestar e os noticiários falar de brexits, de autodeterminações, de crises políticas, ambientais, sociais que, numa outra dimensão, num tempo que parece pretérito, os soldadinhos vestidinhos com os seus fatinhos bonitinhos continuam a bater o pezinho e a subir as escadas quase aos saltinhos e as realezas continuam a desfilar cheias de capas e capelines. Uma real gracinha.


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E, no meio disto, tudo de bom para vocês: peace and love.

terça-feira, junho 11, 2019

Relato de um náufrago


Tinha levado dois livros e fiquei-me pelo que me foi oferecido e de que falei ontem. Um dia lê-lo-ei de seguida, como merece ser lido. Por enquanto, não resisto à surpresa e espreito e leio e volto a abrir ao calhas, espreito, leio, mais à frente, de novo no início, quase no fim. Qualquer coisa ali me transporta a um outro mundo no qual não posso entrar senão assim, devagar, às espreitadelas.

E ficou lá à minha espera para ser lido com calma e alguma cerimónia, onde possa esconder do mundo alguma da minha perplexidade por, tal como ontem confessei, ter desconhecido até agora esta escrita.


Para ler no caminho de volta, trouxe o outro, 'Relato de um Náufrago'. Como a volta foi maior já que fomos a casa dos meus pais antes de regressarmos, deu para ler bastante. E para ficar agarrada. Gosto de ler histórias bem escritas, as palavras no osso, desadjectivadas, em que o autor nos agarra pelos colarinhos e, nós, ali presos, não nos importamos porque não há uma palavra que desiluda.


Pena esta terça-feira não ser feriado que ficava a ler até acabar e acordava quando acordasse. Assim tem que esperar.

Entretanto, que nem de propósito, tinha no YouTube um outro relato surpreendente de uma outra história verídica. Steven Callahan sobreviveu 76 dias no mar, à deriva, coisa que não dá para acreditar.


Mas acredite-se: aconteceu. E aqui, no vídeo abaixo, pode perceber-se como foi. Não se pode dizer que seja breve mas é muito interessante. As histórias de luta pela vida, ainda por cima quando acabam bem, e quando os próprios sobreviventes contam como foi, são sempre emocionantes.


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[E vão por mim: estou em crer que não vale a pena darem-se ao trabalho de descerem para saber o que acho do discurso do João Miguel Tavares (de que ouvi apenas um excerto) e, sobretudo, da escolha do Presidente Marcelo]

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E dias felizes a todos

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quinta-feira, junho 06, 2019

O beijo conjugal
[Conselho contido no Manual de Etiqueta do Vilhena]


Embora de menor interesse e menos praticado do que o beijo entre o patrão e a criada, o ósculo entre a esposa e o marido tem ainda os seus cultivadores. Se é certo que esse hábito está fora de moda, a etiqueta ainda o prevê em certos casos, como nas gares de caminho de ferro e aeroportos, quando o esposo deixa a mulher, temporariamente, para ir fazer uma dessas viagens de negócios com que periodicamente interrompe a mesmice e a chatice conjugal. Nessas alturas o marido beijará a esposa com uma certa afectividade, direi mesmo algum entusiasmo, principalmente se estão pessoas ao pé, pois esse gesto cai muito bem nos circunstantes.

Já alguém escreveu em qualquer parte (creio que fui eu próprio) que o beijo conjugal é como um chewing.gum: quanto mais se mastiga menos sabor tem. Por isso convém fazer certa economia nessa matéria. Após dez anos de matrimónio, os maridos bem educados beijarão as suas mulheres (refiro-me às legítimas, claro) no Natal e na Noite de Ano Bom. Nessa noite, e possivelmente por efeito do álcool, alguns vão mesmo mais longe. Mas isso já é uma delicadeza extra.

Um cuidado a ter à mesa
[Conselho contido no Manual de Etiqueta do Vilhena]


Há pessoas que têm o péssimo costume de tirar a dentadura durante as refeições. Quando o fizerem não a coloquem no copo da vizinha. Devem metê-la no próprio copo depois de esfregá-la com a ponta da toalha.

Como falar ao telefone
[Conselho contido no Manual de Etiqueta do Vilhena]


Se uma pessoa nos telefona e a conversa começa a azedar, conservemos sempre a calma e as boas regras da linguagem não usando esse português demasiado vernáculo que está tanto na moda. Para encerrarmos o telefonema, bastará dizer, na altura de desligar duas palavras em tom firme e decidido. 'Vá você'.

quarta-feira, junho 05, 2019

Não vou falar do Panteão dos Corações porque os escritores não precisam de túmulos de pedra, precisam é que leiam os seus livros.
Falo, sim, de uma bela livraria: a Livraria da Travessa.
E, de passagem, falo num certo Manual de Etiqueta





Agora que o nosso Marcelo lançou a sound bite do dia, permitindo que a consciência colectiva fosse a enterrar devidamente paramentada com um pensamento enternecedor e indulgente, passo à frente porque conversa de Panteões mesmo que venha enfeitada com corações não me apetece a propósito da Agustina.

Agustina é mais do que isso, é espírito vivo e terra e fogo, não é corpo morto em pedra fria. Agustina é mãe de palavras infinitas, não memória enclausurada em monumento. Acho eu. Marcelo não fez por mal, acredito, falou porque tem que falar sempre. Mesmo quando a hora seria de silêncio, até para respeitar o silêncio de Agustina, Marcelo quis fazer bola de efeito. Mas não é por mal, é apenas defeito que ainda não aprendeu a curar.


Sigo, pois, em frente. Enquanto houver estrada para andar eu vou continuar. De tantos e tantos livros de Agustina, só tenho uns muito poucos e desses ainda mais poucos li. E, no entanto, bato-me por ela onde quer que eu esteja. Bato-me, certa de que estou a bater-me por um nome maior das letras portuguesas -- mesmo que torçam o nariz achando que não, mesmo que achem coisa datada, escrita rebuscada com tiques de antanho, mesmo que achem que não passa de obra parada numa tela de Oliveira.

E, para meu pessoal conforto, terei palavras novas de Agustina para ler pela vida afora. 

Só desejo é que todas as televisões façam muitos programas sobre a sua obra. Digo sobre a obra e não apenas sobre a autora. Que se ouçam as palavras que escreveu, que quem ouça tenha vontade de ler mais, de ler muito. Isso é que desejo. Das pessoas que conheço poucas leram Agustina. Muito poucas. E isso é que me dá pena. Não sabemos amar quem honra de verdade a nossa língua nem quem tem a genialidade da escrita íntegra. 


No outro dia queixei-me aqui, e foi há pouco tempo, destas livrarias cheias de lixo em que a gente tem que garimpar muito primeiro que apareça livro que valha a pena. E o pior é que nem a gente sabe como procurar, só lixo à vista, na estante, na bancada, na prateleira, no topo. Desejei uma livraria que me ajudasse a aprender quais os livros bons, uma livraria despoluída e atraente por onde eu pudesse ser guiada até onde as palavras límpidas me aguardassem.

Pensei que estava a sonhar. O mundo perfeito não existe. Se calhar nunca existiu. Pode parecer que me iludo mas não, tenho os pés na terra.

Mas afinal essa livraria existe. Estive lá. Um lugar de serenidade e paz.


Não fui à Feira do Livro. Estava muito calor e, nos últimos anos, a barafunda, o barulho e a confusão incomodaram-me demais. Livraria boa pede recolhimento, não liturgia mas recolhimento, quase silêncio, se música, então, musiquinha boa, e pede frescor e pede uma quase média luz, algumas zonas de sombra, alguns recantos para alguma escrita que requeira algum recato.

A Livraria da Travessa tem isso. Situa-se num dos lugares especiais de Lisboa, o Príncipe Real, e é de uma sobriedade, de uma elegância, de uma largueza, de um bom gosto que dá vontade lá ir todos os dias.


E trouxe de lá alguns livros. Livros que sabia que existiam e nunca tinha visto à venda. Andava eu por um lado, o meu marido por outro, ambos à descoberta. Deles darei conta um dia destes. Livros que me enchem de alegria só por existirem e estarem aqui à minha beira, à minha espera. O meu marido já leu parte de um e gostou, diz que está bem escrito e que é um bom retrato de época.

Eu ainda não li nenhum mas agora peguei no Manual de Etiqueta do mesmo autor e estive a folhear para ver se poderia ser de utilidade para alguns dos que pacientemente me acompanham aí desse lado. E confirmo: da máxima utilidade.


Por facilidade transcrevo apenas dois conselhos e escolho-os apenas pela dimensão pois há casos em que, atestando que o tamanho importa, a minha escolha recai nos mais pequenos.

O hipismo

Para se fazer hipismo é necessário ter prática e ter também um cavalo ou uma égua. Quando um casal faz hipismo o cavalheiro vai do lado direito a dama do lado esquerdo. O cavalo vai sempre por baixo. (É uma velha tradição que fica bem respeitar).



O beijo-paixão

Este género de ósculo fica muito bem às senhoras tipo mulher fatal, de cabelos pretos e olhos verdes. A etiqueta exige para tal cerimónia o baton cor de sangue, fundas olheiras e pálpebras semicerradas de míope. Sendo este dever social considerado de grande cerimónia, jamais o cavalheiro o praticará com o chapéu na cabeça.


[O autor é o Vilhena e forçosamente a ele terei que aqui voltar um dia destes]



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É de um brasileiro esta bela livraria de Lisboa. 
Pelos vistos gosta da língua portuguesa e gosta de literatura e de livros -- e é isso que é preciso. 
Espero que tenha muito sucesso pois quero ir e ir e ir e voltar a ir a esta Livraria da Travessa.