Actualidade, livros, árvores, amores, ficções, memórias, maluquices, provocações, desatinos, brinca

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terça-feira, abril 17, 2018

A questão Síria
-- a palavra a um Leitor que sabe do que fala --


A questão Síria e, nesse sentido, dos recentes ataques levados a cabo pelos EUA (como o apoio dos seus caniches europeus, como o R.U. e a França) explica-se de uma forma muito simples. Tem a ver com o projecto do gasoduto do Qatar, que quer os EUA, quer a UE, desejam, desde há algum tempo a esta parte, e que se estenderia dali até à Europa, passando entre outros países pela Turquia e…precisamente, também e sobretudo pela Síria. Os EUA, com o apoio subserviente dos seus aliados europeus actuaram mal, logo no início, ao tentarem pressionar o regime de Bashar al-Assad a aceitar a passagem desse gasoduto. Como Assad se negava a deixar passar esse pipeline pelo seu país, Washington passou a destabilizar o seu regime, desacreditando-o politica, diplomática e economicamente.

Uma das formas tentadas foi fazer crer que a Síria não só possuía armas químicas, como as utilizava contra o seu povo.

Já em 2007, 2008 e 2009 a Organização para a Proibição das Armas Químicas – OPAQ - discutia a questão Síria quanto às armas químicas. Nessa altura, conseguiu-se um compromisso do governo sírio, já com Assad no poder, para que desmantelasse os seus depósitos de armas químicas. Os sírios receavam sobretudo Israel, que possuía armas químicas e nucleares, mas que não as declaravam à OPAQ, porque, por sua vez, receavam a Síria e o Irão (que tinha deixado de as possuir, embora Telavive mantivesse reservas quanto a essa versão – que veio a provar-se ser verdadeira). O Irão deixara de as possuir. Recorde-se que o Irão foi vítima de um ataque de armas químicas perpetuado pelo Iraque, durante a guerra em que se envolveram. E quem apoiava o Iraque de Saddam Hussein, na posse de armas químicas, contra o Irão? Os EUA! Washington, por exemplo, nunca pressionou Israel a desembaraçar-se daquelas armas - químicas e nucleares. E os próprios EUA e a Rússia, nessa altura, possuíam ainda um enorme arsenal de armas químicas que iam destruindo progressivamente, acção essa supervisionada – parcialmente – pelos inspectores da OPAQ.

Ora, a Síria já nessa altura estava num processo de se ver livre dessas armas químicas. Estamos a falar de 2008, ou seja, de há uns 10 anos atrás.

Todavia, com a destabilização da Síria um par de anos depois, o governo de Assad passou a ter um menor controlo dessas armas químicas que acabaram parte delas em mãos estranhas, como os terroristas islâmicos, a CIA, opositores do regime de Assad, etc.

Entretanto, a destabilização da Síria foi levada ao extremo pelos EUA, após o regime de Assad manter a sua postura de não autorizar a passagem do dito gasoduto. A ideia do gasoduto do Qatar tem a ver com a redução da dependência da Europa do Gás proveniente da Rússia. Mas, Assad compreendeu que o passo seguinte depois de autorizar essa passagem seria a sua destituição e colocação em Damasco de uma marionete dos EUA, que naturalmente, permitiria, a troco de uns tantos milhões de USD, que o negócio viesse a cair nas mãos das grandes multinacionais ligadas ao petróleo e à exploração do gás, naquela região.

Para além de vir a perder o apoio político que recebia de Moscovo. Na altura esse apoio era ainda e apenas político (e de algum modo económico, através de alguns acordos bilaterais).

Após Obama ter decidido começar a retirar as suas forças armadas da região, onde se incluía a Síria, depois de alguns ataques aéreos dirigidos às bases do ISIS, Assad, que nunca confiou nos EUA e sabia que um próximo Presidente poderia vir a ter uma opinião diferente da de Obama, aprofundou os laços com Moscovo, que incluíam uma estreita cooperação militar. Como sucede até hoje (desde há cerca de 3 anos).

A Síria é xiita (como o Irão), ao contrário da Arábia Saudita, sunita, e nesse sentido muito mais liberal nos seus costumes. As mulheres não são obrigadas a andar de véu (hijab), têm uma maior liberdade no que respeita ao seu vestuário, podem conduzir, dirigir empresas, etc. Em comparação com o Irão, igualmente xiita, as mulheres gozam de uma maior liberdade na sua forma de estar e actuar na sociedade síria do que no Irão, igualmente xiita. Já na Arábia Saudita o cenário é radicalmente diferente, como se sabe. Este último é um regime reaccionário, ultra-conservador, fundamentalista, intolerante do ponto de vista religioso e absolutamente anti-democrático. E, como se não bastasse, Riad é o maior financiador dos diversos grupos terroristas islâmicos. Todavia, os EUA e alguns países europeus, como o RU e a França, mantêm bons e rentáveis negócios com o regime inqualificável de Riad, sobretudo no que respeita à venda de armamento (a Arábia Saudita é o principal importador de armamento do R.U e os EUA o maior exportador para Riad, desde armas, a equipamento militar, aviões, etc) e do petróleo.

Os sauditas, por incrível que possa ser, são também aliados de Israel (com o apoio dos EUA) naquela região do Golfo, pois partilham os mesmos inimigos: a Síria e o Irão.

Assim e deste modo, havia que criar um conflito artificial na Síria, como sucede desde há uns 7 anos e picos. E pouco importa (aos EUA e europeus) que o resultado seja aquele que é conhecido, por outras palavras, que as principal vítimas desse conflito sejam os civis, entre crianças, mulheres, idosos, etc. Para além da economia (gado, terras, indústrias, enfim todo um tecido económico de um país e a consequente ruína financeira), Washington tem-se empenhado desde então, na destabilização da Síria com acusações diversas ao regime de Assad, que estando longe de ser recomendável, está a anos-luz do da Arábia Saudita, por exemplo.

Os alegados ataques de armas químicas de que se fala e levou à justificação dos ataques recentes dos EUA deveriam ter sido inspeccionados pela OPAQ, com inspectores independentes, nomeados por aquela Organização e depois de devidamente autorizados pelos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU. E ali, uma vez se concluísse existirem provas irrefutáveis de que a agressão fora levada a cabo, com a conivência de Assad, então sim actuar-se-ia em conformidade.

Mas, como sabemos, não foi isso que se passou. Os EUA, a França e o Reino Unido agiram sem um mandato das N.U e do seu Conselho de Segurança e nesse sentido actuaram à revelia do Direito Internacional. Como já tinha sucedido anteriormente.

As Nações Unidas hoje em dia estão desacreditadas. Pelo facto de 3 membros permanentes do Conselho de Segurança - EUA, França e R.U - agirem contornando-a e ignorando-a, e por Israel não respeitar nenhuma decisão das N.U, no que respeita às agressões que pratica na Palestina.

Em resumo, tudo isto não passa de um cenário bem montado, com fins propagandísticos. Fez-se uma manipulação dos factos e dos acontecimentos. A arte de bem enganar e ludibriar as pessoas e a verdade é hoje em dia uma das mais relevantes armas políticas das potências mundiais.

Por fim, este recente ataque à Síria teve também um segundo propósito: o de tentar intimidar Moscovo. Porém, tendo em conta a diminuta proporção daquele ataque, ao que se foi sabendo, é caso para nos perguntarmos, quem temia quem. Na verdade, a contenção do ataque acaba por revelar as muitas cautelas que quer Washington, quer os seus aliados europeus têm hoje para coma Rússia.

Como dizia e muito bem no seu Post, já somos suficientemente crescidos para nos deixarmos enganar e ludibriar.

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Este texto foi-me enviado por Leitor a quem muito agradeço

sexta-feira, abril 13, 2018

Ideias criativas para fotografias de casamentos




Casei-me com vinte anos e convidei para fotógrafo um colega de curso que gostava de fotografar e a quem eu tinha cedido quando, algumas vezes lá na faculdade, me quis fotografar. Lembro-me de algumas fotografias na cantina universitária. Dava-me a luz de uma maneira que ele gostava e eu deixava-me fotografar. Outra vez fui eu que lhe pedi que me fotografasse, a mim e ao então meu namorado, num certo jardim de boa memória. Pareceu-me, pois, natural que fosse ele o meu fotógrafo do casamento.


Foi tudo muito ingénuo e espontâneo. Lembro-me de, antes do noivo chegar, o meu colega sugerir aquelas fotografias típicas: a noiva ao espelho do quarto ou coisas do género. E até há uma ou duas do género. Mas a minha vestimenta, a minha tenra idade e a meu ar de brincadeira tiraram qalquer pose às imagens. E as outras são muito naturais e, tantos anos depois, parecem-me actuais: nós muito miúdos, informais e felizes e tudo muito descontraído, bonito e moderno.


As fotografias dos casamentos dos meus filhos já foram mais a preceito. Lá escolheram quem lhes pareceu melhor e há fotografias muito bonitas desses dias tão especiais para eles. Também não há ali poses tradicionais. As da minha filha tão cheias de contentamento: preparou o dia ao milímetro, correu tudo muito bem e, pelos jardins do palácio, toda a beautiful people que compareceu parecia ter saído de um filme que ilustrasse na perfeição o que é o charme discreto da burguesia e da aristocracia. E as fotografias em que ela dança, elegante, radiante, o vestido lindíssimo, os convidados em volta apreciando a forma feliz como ela rodopiava, tudo aquilo é memorável. O do meu filho foi outra onda. Com uma percentagem esmagadora de gente muito jovem, com gente ligada às artes, à dança e ao teatro, houve ali festa rija e animação até às tantas. Acresce o carinho transbordante do casal, ela muito grávida, com o seu branco e bonito vestido de noiva, o meu filho emocionado vendo a noiva transportando uma menina que nasceria dentro de poucos meses. 


Também me lembro das fotografias do casamento do meu cunhado que se casou quando os meus filhos eram miúdos, quatro o meu filho, sete a minha filha. Decorreu num impensável palácio num local da serra que só quem lá vai deliberadamente o consegue descobrir. Todo aquele espaço era do além, inesperado, grandioso, integrado na natureza -- e uma escadaria imponente, uns enormes vasos de pedra com arbustos, uns óleos gigantes. E os vários irmãos daquela minha cunhada com as respectivas namoradas mais as muitas primas, tudo gente ali pelos vinte e tais, trinta e poucos, tudo muito alto, elegante, bonito, vestidos como se saídos de uma campanha Dolce & Gabanna, elas todas de vestidos curtos, sensuais, de luvas altas, chapéus criativos e modernos. Vê-se aquelas fotografias e parece que estávamos no meio de um filme. Até o meu filho se encantou com uma menina que lá andava e aparece nas fotografias com um braço sobre os ombros dela, muito namoradeiro, a camisa a sair dos calções, os calções todos descaídos. A minha filha, em contrapartida, sempre aprumada, o vestidinho rodado, num piqué branco, rosa e azul claro, um grande laço cor de rosa e um laço de tule no cabelo, igualmente cor-de-rosa. Tão bonitos.


E agora estou a lembrar-me de um outro casamento especial. Em Seteais, ao cair do dia, com uma harpista a encantar aquele espaço maravilhoso. Entre os convidados, muitos empresários, ministros, ex-ministros, secretários de estado, muita riqueza e muito poder ali reunido. As senhoras impecavelmente vestidas, os cavalheiros muito formais, tudo muito superlativo e, aqui e ali, levemente blasé. Até os noivos encaixavam, na perfeição, no ambiente: sóbrios, elegantes, tudo muito by the book. E eu, que para esse dia tinha equacionado levar uma toilette couture em fúcsia e lilás, vestido e capa, acabei por desistir e levei um tailleur de calças largas, que ondulavam ao andar, e blaser com apontamentos em transparência, num tecido escuro com um cair leve e elegante; por baixo, uma blusinha de tipo top, sem mangas, decotada, em azul alfazema e com uma echarpe transparente, num tom mais claro do que o top. Nesse casamento não houve lugar ao improviso. As fotografias cumpriram-se com rigor e os noivos sorriam ao de leve. Ao contrário do que acontece em todos os casamentos, neste ninguém bebeu para além da conta. Ou, se bebeu, soube disfarçá-lo.


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As fotografias que acima se mostram são de casamentos russos. Pelo que vejo no Bored Panda, aquela malta salta mesmo para fora da caixa. Não são de funfuns nem gaitinhas: aquilo ali é mesmo para rebentar. De cada vez que virem as fotos do grande dia, devem rebolar-se a rir. Digo eu.




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quinta-feira, março 29, 2018

Os russos, os bifes, os espiões, os artistas
- e, entre venenos e expulsões, os papagaios e os carneiros






Por formação (ou deformação, como queiram) só vou pelas coisas quando as vejo demonstradas, q.e.d., e só aceito hipóteses como verdadeiras quando, sujeitas a testes, os superam. Diz-que-diz-que não é coisa que me assista. Mesmo que referendado pelas redes sociais em peso, comunicação social e comentadores: não me impressiono. Não sou Maria-vai-com-as-outras nem à lei da bala. Só vou quando, por mim, me convenço a ir.

Ou seja, pode meio mundo cair a pés juntos sobre uma verdade absoluta que eu só vou saber que é verdade absoluta quando a vir provada, cientificamente provada.

Isto traz-me, com alguma frequência, alguns desconfortos. Bem que colega amigo costuma avisar-me: cuidado não vão dizê-la desalinhada. E sou.


A invasão do Iraque era inevitável e mais do que justificada porque havia provas do uso de armas de destruição em massa, não era? Como duvidar quando alguns dos mais poderosos Chefes de Estado o afirmavam sem sombra de dúvida?
Não para mim. Só com as provas à vista, provadas e recomprovadas.
Lembro-me bem da acesa discussão no dia da invasão. Estava numa bela moradia no Restelo. A enorme sala dava para um jardim relvado e florido. Circulávamos por ali, um simpático coktail era servido entre comentários sobre a notícia do dia. Os meus interlocutores aplaudiam. Eu relutava. Eles convictos: provas, o ditador assassino, uma invasão inevitável. E eu céptica. Como pode ter dúvidas? Não ouviu as notícias? E eu que não ia em conversas, muito menos daqueles ali. Queria saber de provas. Não se invade um país com base em conversa, em bocas, em indícios.  Os meus interlocutores -- gente de bem, gente civilizada -- abanavam a cabeça. Uma selvagem no meio de gente fina. Estava isolada.

E, no entanto, depois do país destruído e de tantas vidas destruídas, descobriu-se o embuste.

E, no entanto, todos os papagaios e demais passarinhas que se tinham afobado a defender a invasão e a justeza da guerra, enfiaram o rabo entre as pernas e nem um pio, nem um mea culpa por terem defendido uma cambada de aldrabões assassinos.


Podia agora invocar alguns dos casos mediáticos em que meio mundo acusa e condena a partir do Correio da Manhã. Todos estão certos de tudo. Todos relacionam tudo com tudo. Se o Correio da Manhã diz é porque é -- e se o amigo emprestou dinheiro é porque o dinheiro não era do amigo era dele e se o dinheiro era dele então é porque ele é corrupto e se ele é corrupto então a crise financeira foi culpa dele. Esta é a linha de raciocínio da vox populi. E eu que estudei como analisar a lógica dos raciocínios e como desmontar sofismas traiçoeiros e como demonstrar os mais complexos teoremas e como comprovar hipóteses por mais rocambolescas que pudessem parecer, não é agora, que vou renegar as minhas bases e desatar a papaguear argumentação badalhocamente construída.

Podia invocar esse e outros casos mas não o farei: estão em segredo de justiça, segundo dizem.

Mas vou falar disto do ex-espião russo. Alguém o envenenou. E à filha. E isso é uma coisa condenável. Inaceitável. Ponto.

Mas quem colocou o veneno? Não sei. Alguém sabe? Penso que apenas os executantes e os mandantes o saberão.

Não faço ideia se foram os russos. Podem ter sido os ingleses para mobilizarem a opinião pública a favor do governo (que anda pelas ruas da amargura e que bem precisados estavam de um novo fôlego). Sabemos lá.

O que também sei é que o círculo das suspeitas em torno do inner circle do actual establishment político inglês tem vindo a estreitar-se.
Pressure grows on PM over Brexit Cambridge Analytica scandal. Campaigners demand Theresa May investigates what Michael Gove and Boris Johnson knew.
E toda esta campanha em torno da expulsão dos russos vem mesmo a calhar. Em situações assim nada como atirar poeira para os olhos. O Brexit aconteceu devido a fraudes em cima de fraudes? As figuras gradas do Brexit podem estar implicadas? Upsss... Que jeito que dá uma coisa que apele ao medo, que una as pessoas em torno de potenciais ameaças, que convoque os mais íntimos instintos nacionalistas?


Portanto, nada sabendo eu do que se passa, posso enunciar a partir do que vou lendo: que se conheça, não haveria móbil para os russos envenenarem o ex-espião e a filha. Que se conheça, haveria forte motivação para os ingleses inventarem uma cena que distraísse as atenções do seu eventual envolvimento nas barracadas do Brexit e da Cambridge Analýtica (já para não falar na sua baixíssima popularidade interna e a escassa credibilidade nos meios internacionais).

E, com isto, o que também posso dizer é que, com base no que se sabe, andar meio mundo a expulsar russos parecem-me carneiradas e rangelices desprovidas de sentido.

E, a menos que se fique a saber (de fonte segura) qualquer coisa mais, acho que mais valia que se falasse menos e se pensasse mais.

Será escusado recordar que nestas coisas que metem espionagem, disputas políticas internas, guerras comerciais, alianças internacionais tantas vezes espúrias, etc, etc, nunca nada é aquilo que parece e que pareceria prudente que a reserva se sobrepusesse à precipitação.
Mas, enfim, o mundo não é perfeito.

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Testemunhos interessantes: Christopher Wylie e Shahmir Sanni





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As imagens que aqui usei provêm da Vogue russa.

Benjamim Clementine interpreta London

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domingo, fevereiro 19, 2017

Trump & Putin: um bromance que ainda agora está a começar



Leio que: Rússia pede fim de ordem mundial dominada pelo Ocidente


O ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Sergei Lavrov, pediu hoje o fim da ordem mundial dominada pelo Ocidente e afirmou que Moscovo pretende estabelecer uma relação "pragmática" com os EUA.

Leio também que os líderes europeus estão preocupados com a possível ingerência russa em próximas eleições. Temem as notícias falsas produzidas no exterior, nomeadamente na Rússia, tem os ciberataques.

Aliado deste modo de (des)fazer política, está Trump. Beneficiou disto a ponto de conseguir ser eleito e agora mostra saber movimentar-se no pântano da falsidade. A hipocrisia e estupidez vai a ponto de acusar de Fake News media os que se lhe opõem, especialmente os grandes

(The FAKE NEWS media (failing @nytimes, @NBCNews, @ABC, @CBS, @CNN) is not my enemy, it is the enemy of the American People!  -- tweetou o anormal)

Enquanto isto, e dado o inusitada e quase ridículo da situação, o mundo inteiro parodia a proximidade entre Trump e Putin -- mas vamos ver se, uma dia que percebamos bem as consequências disto tudo, não vamos ter vontade de chorar.








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Até já. 

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quarta-feira, dezembro 28, 2016

2016





Não sei se já alguma vez fiz um balanço de um ano que passou, coisa como deve ser, rigorosa, pensada. Só a nível profissional e é porque a isso sou obrigada. Chego a Dezembro e lembro-me lá eu bem do que aconteceu lá para trás. Não me lembro e estou-me nas tintas para isso. Posso ter uma ideia geral. Mas de que serve isso, agora que já passou?Neste tempo de reacções exacerbadas e efémeras, de que serve a reflexão sobre o que passou? 

Por exemplo, sei que a nível político, cá pelo burgo, a oposição começou por aboborar, depois definhou e, finalmente, feneceu. Em 2016 Passos Coelho cobriu-se de ridículo a cada dia que passou apesar de as televisões continuarem a levá-lo ao colo. Mas é ao colo. Não em ombros como antes: levam-no ao colo como se leva um inválido. Isto o Passos Coelho. Do lado dos orfãos do ex-Irrevogável, a desgraça não é menor. Enquanto o Láparo se vai deixando cobrir de moscas, a Madame Cristas-da-coxa-grossa aposta no glamour à moda da colunável Katia Aveiro. Infelizmente nem uma nem outra conseguem ser levadas a sério. O rapazito Adolfo do verbo fácil e olhinho faceiro lá tenta fazer de conta que o partido ainda mexe mas não consegue. Aquilo vivia dos trocadilhos do Portas. A sucessora, Madame Cristas, que não tem a verve do ex-discípulo do Esteves Cardoso, aposta nos quadrinhos e lembrancinhas 'tipo' pré-primária e o garçon Adolfo, não sabendo como fazer pendant com essas gracinhas escolares, aos poucos, vai também perdendo o brilho que lhe vinha do reflexo do tutor.


Quanto ao PS, lá vai andando, sem grande brilho, a reboque da energia catapultante de António Costa. Muita gente agarrada ao passado, a épicas memórias, muita gente com os pés agrilhoados ao aparelho, muito culto de seita que vem do espírito das jotas e muito encosto a facilitismos por via de nomeações para assessorias e outras mordomias. Mas, aqui e ali, alguém sobressai e consegue caminhar sobre esse terreno, alguém consegue formar uma equipa de gente que consegue puxar o barco e seguir em frente, com presciência, competência e determinação. António Costa tem estado a ser um exemplo de energia, capacidade de agregar diferenças, vontade de tirar o pé do país da lama -- e sempre num registo descontraído, não como um missionário, não como um mestre-escola castigador. Um primeiro-ministro que não nos envergonha. Pelo contrário: um primeiro-ministro de que nos podemos orgulhar.

O PCP é cada vez mais um agrupamento de gente desnorteada -- mas séria. Jerónimo de Sousa é um homem honrado. O PCP já não consegue ter ideais porque todos os seus modelos ruiram. Agora apoiam-se em utopias. No entanto, pode ser gente antiquada e, por vezes, um pouco quadrada, mas é gente de bem. Penso que uma aliança com o PCP, seja sob que forma for, é um esteio de honorabilidade.

O BE não é que, de vez em quando, não tenha razão. Tem. Concordo, com frequência, com o que dizem. Mas há ali um onanismo latente e um histrionismo cansativo que estraga o efeito do que dizem e quase anula a razoabilidade de algumas ideias. Se calhar, ao escrever isto, estou a pensar essencialmente na Mortágua e na Catarina Martins e a ser injusta para os outros. Mas a verdade é que, tirando elas, o resto não risca.

Marcelo é o que é e está na presidência como esteve nas campanhas (nas presidenciais e nas autárquicas). E como esteve nos comentários. Aliás, entre mil outras coisas, ainda está nos comentários. É a personificação do dom da ubiquidade, da hiperactividade e da criatividade ao serviço da política. Envolve o país em sorrisos e afectos, transporta uma mensagem de optimismo e confiança e isso é positivo. Não tem sido lesivo do País e tem ajudado a limpar a sombra negra do Cavaco e, enquanto assim se mantiver, nao está mal. Além do mais, não vai descansar enquanto não conseguir limpar o PSD de Passos Coelho e isso é motivo para todo o País lhe ficar grato.

Tirando isso, o que mais?


Na UE a pasmaceira do costume, a falta de visão, a calhandrice inconsequente a que já habituaram o mundo. Um bando de burocratas inúteis. E a vergonha de ter um ex-presidente da Comissão a enxovalhar uma instituição que, já de si, não sabe dar-se ao respeito. Durão Barroso é a bosta do regime cavaquista -- e eu, que nunca emprego esta palavra e que não acho graça a quem a usa, tenho que pensar mesmo muito mal da criatura para a usar.

Nos EUA, o cúmulo do ridículo a que isto chegou: um palhaço eleito presidente. E palhaço aqui não é profissão, é insulto mesmo. Os riscos que o mundo vai correr com um parvo daqueles aos comandos do mundo são difíceis de antever. Custa perceber como um país que é tido como um bastião da liberdade e do progresso elege um parvalhão retrógrado, uma nulidade, um perigoso bronco. Um perigo.

A Rússia continua a ser o urso grande que caminha sem medo por entre a negra floresta, de quando em vez até pode parecer amigo e fofinho, mas logo deixa claro que é capaz de dar abraços que asfixiam e que não se ensaia nada para deixar pegadas de sangue, 

A China é o grande império que se deixou deslumbrar pelo pechisbeque mas que mantém os hábitos ancestrais de planear a longo prazo, de avançar com a paciência milenar de quem sabe que a vida de um homem é curta mas que a cultura impregnada nos genes da nação é vasta. E avança. E avança a caminho do ocidente. Delicados, avançam por onde os caminhos são fáceis e as portas abertas. 


Tirando isso, o terrorismo, essa doença infantil de um mundo que não tem sabido lidar com a democracia, com a inclusão, com as dificuldades de um progresso que deixa muito a desejar. Este é um mundo onde abunda a testosterona besta, onde campeia o aproveitamento da situação por parte de quem vive da indústria de armamento e, sobretudo, onde os agentes evidenciam uma cultura de Play Station e muito poucos neurónios -- e isto quer do lado de quem pratica o terrorismo quer do lado de quem não é capaz de o combater. Talvez o ano que aí vem traga algum separar de águas nesta matéria.

Omnipresente, o capitalismo desregulado, a ganância insaciável, a corrupção boçal. Um mundo que se move a partir dos bastidores.

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Nas artes, nada de disruptivo, pelo menos que me lembre. O mais significativo talvez seja mesmo que a ceifa em 2016 tem sido brutal, levando mais artistas do que era costume. A grande malvada não tem sido branda.

Mas grandes obras, grandes livros, grandes pinturas, grandes músicas, grandes esculturas, grandes coreografias, grandes filmes, etc, etc,... assim que agora possa destacar não estou a ver. Contudo, talvez seja lapso de memória da minha parte.

Nas ciências, certamente por ignorância minha, mas também talvez devido à fraca visibilidade de um mundo que parece viver muito em circuito fechado, talvez devido ao estupidificante desinteresse da comunicação social, também não consigo pronunciar-me.

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E, no entanto, há todo um mundo aprazível, um mundo de gente boa, corajosa, heróica, especial. Ou de gente normal capaz de milagres. Do milagre da sobrevivência, por exemplo. Gente generosa. Gente inteligente. E há a natureza. O milagre da renovação da natureza. E a ciência. Gente que espreita o desconhecido, que procura o que se esconde debaixo da pedra, gente que procura a luz ao fundo do indecifrável labirinto. E a arte. Pode não acontecer a obra prima mas há a arte de todos os dias. A arte das palavras perfeitas, de as escrever, de as cantar, de as dizer, e a arte dos acordes sublimes, e a arte das cores e da luz, e a arte de mudar a forma dos materiais, e a arte de desenhar o movimento. 

E é isto que faz mover o mundo e que faz valer a pena viver.


E a nível pessoal, o que se passou comigo?

Uma avalanche de trabalho desabou em cima de mim. Muitas vezes sinto que não sei se vou aguentar ou conseguir dar conta do recado. Depois lá vou pondo de lado esses pensamentos e seguindo em frente. A nível de saúde, tive uma tendinite tramada que, porque fui deixando arrastar a toque de brufens consecutivos, deu também em bursite. Durante algum tempo escrevi aqui cheia de dores, com gelo, cheia de anti-inflamatórios. Devia ter descansado mais mas continuei a trabalhar, a conduzir, a fazer a vida normal (apesar do esforço, por vezes, tremendo). Lá passou. No tempo livre, passeei sempre que consegui, caminhei, fotografei, estive com os meus, porque sem eles é que não passo, carreguei com mais toneladas de livros cá para casa. Quase não pintei. Que me lembre só três quadros para a minha filha. E cada vez mais constatei que o mais importante na vida é o afecto. Talvez tanto ou mais que a saúde.

E agora, assim de repente, acho que mais nada que valha a pena figurar aqui. Ou melhor, haver mais, há. Se calhar o mais importante nem está aqui. Mas são coisas cá minhas.


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As imagens são algumas das fotografias do dia que, ao longo do ano, foram sendo publicadas pelo site National Geographic.

A música, interpretada por Nick Cave é To Be By Your Side porque assim me mantive ao longo de 2016, ao vosso lado.

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Permito-me ainda convidar-vos a descer até ao post seguinte onde me interrogo sobre qual a forma de lidar com alguém que está com uma depressão ou com um esgotamento.

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quarta-feira, julho 06, 2016

Do branco e do silêncio aos ruidosos contrastes




Havia um branco muito puro que continha todas as cores do mundo mas em que todas se fundiam de forma tão harmoniosa e límpida que o ruído era sugado para o antes da origem dos tempos. Desse branco resta apenas, aos nossos inocentes olhos, a fugaz serenidade da beleza essencial oriunda desse tempo primordial em que o nada tinha a dimensão tremenda do grande infinito, em que as cores não tinham ainda aprendido a separar-se e as descontinuidades do universo ainda não tinham sido experimentadas. Tudo o que existia, então, talvez não fosse senão uma pequena gota de um sonho totalmente branco.

Assim o silêncio que rodearia essa original pequena gota branca. Silêncio. Silêncio. O absoluto nada.

Até que uma luz vinda de uma fenda, longínqua e acidental, terá quebrado esse sublime equilíbrio e feito estilhaçar o branco e o silêncio. Aos poucos terão começado a surgir imprevisíveis cores, acordes, manchas luminosas, cânticos divinos.

E depois, uma vez perdido o equilíbrio original, tudo começou a acelerar a caminho da desintegração, salpicando de inexplicáveis contradições o vasto vazio onde, mais tarde, pequenos seres começaram a surgir.

À superficie de uma certa pequena esfera suspensa no meio de uma láctea atmosfera, existem agora cavalos, cavalos velozes, negros, resfolegantes, que correm nas vastas terras geladas, desafiando os indómitos homens que, com gritos e uivos, os querem conduzir,


e existem também, mais além, recolhidos homens que, entre reflexos, orações, arrependimentos, a coberto de tempestades e outras inclemências, cruzam pátios onde claustros e lagos guardam segredos, suplícios, promessas, inconfessáveis pecados, 


e existem também, mais longe, montanhas geladas, alvuras que remanescem de antes dos tempos, e longas, longas, distâncias e o que parece ser ainda todo o espaço do mundo. E há tempo, muito tempo, um tempo sem tempo, e partilha desse tempo em liberdade. E os casais podem cruzar horizontes e correr e brincar e, quando estão os dois juntos, descobrindo seduções e galanteios, são só eles no mundo, só eles, inseparáveis, para todo o sempre,


e existem também antros, tugúrios, misérias, lugares de tórrido calor, espaços exíguos que quase não são casas, onde as paredes estão gastas, espaços sem tectos, sem privacidade, lugares de pobreza e dificuldade, lugares em que, quem lá sobrevive, ignora, dos mares, o jorro vibrante de espuma e de vida e, das montanhas, a frescura e a imensidão da liberdade,
e existem ainda lugares em que os seres se devoram uns aos outros, onde não há piedade, não há perdão nem castigo porque, na verdade, não há outra lei que não a da sobrevivência, nem outra urgência que não a da fome e a do poder,


e existem também lugares em que insignificantes seres vivem em pequenas gaiolas, jaulas das quais já não tentam fugir porque não saberiam escolher para onde ir já que, desde cedo, se habituaram a viver confinados, iguais uns aos outros, formatados, cópias perfeitas, cerceados, circunscritos aos mesmos hábitos, desconhecedores das gélidas e misteriosas serranias, do frémito dos gloriosos galopes, desconhecedores do branco original, do silêncio límpido, da beleza infinita, da indescritível liberdade.


__________ Esta é a terra em que nos foi dado viver __________

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As fotografias acima foram premiadas no The National Geographic travel photography contest 2016.


A fotografia grande vencedora é a primeira. É da autoria de Anthony Lau, de Hong Kong, e foi feita na Mongólia.


Em primeiro lugar na categoria Cidades, ficou a fotografia que no texto aparece em segundo lugar, da autoria de Takashi Nakagawa feita em Marraquexe, Marrocos.

Em primeiro lugar na categoria Natureza, a fotografia que, acima, aparece em terceiro lugar, da autoria de Hiroki Inoue feita em Hokkaido no Japão.

Os autores das restantes bem como outras fotografias podem ser vistos em The Winners Of The 2016 National Geographic Traveler Photo Contest no Bored Panda.

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E aceitem o meu convite e desçam até ao post seguinte onde poderão ver dois vídeos que contêm surpresas, música, dança, afectos, liberdade. Muito bonitos, vos digo eu.


quinta-feira, janeiro 14, 2016

De novo o Gerês -- e de novo o espelho no espelho, o sonho, a realidade [Primeiro de três novos postais ilustrados]




Há em mim um fascínio por imagens ao espelho, ou, mais que um fascínio, talvez uma dúvida: onde está a verdade? Na coisa em si ou na forma como ela se reflecte? Uma vez li mais ou menos isto: nós temos uma ideia do que é um gato, sabemos descrevê-lo, representá-lo. Mas como é que o gato se vê a si próprio? E qual a ideia mais verdadeira: a que temos do gato ou a que o gato, que não é capaz de nos falar nisso, tem de si próprio? 

E eu? Sou o que acho de mim ou aquela que os outros vêem? 

A verdade é que não sei mas, por via das dúvidas, não ligo muito ao que eu acho de mim nem ao que os outros acham - nenhuma das opiniões deve ser muito exacta. Por isso, vou vivendo sem grandes deambulações mentais. 

Por estas bandas, o fascínio pelas imagens espelhadas tem muito por onde se exercer. Fotografo e fotografo. Quando chego ao computador, faço uma experiência: viro as fotografias ao contrário e tento ver se eu me deixava enganar. E sim, muitas vezes acreditaria que o reflexo é a verdade. E penso que, se calhar, é. 


Ou, mesmo que não se pense em nada quando se olha para uma paisagem assim, é bom, apaziguador. A beleza é, por vezes, absoluta. E, quando o é, é conciliadora.


E, depois das nuvens e das névoas, o sol apareceu, o céu ficou quase limpo, os patos começaram a gritar, chamaram-se uns aos outros e, em grupo, foram festejar para a água espelhada onde as casas se reflectiam. 

E eu fiquei a vê-los nadar entre casas coloridas, deslizar pelas janelas, pelos telhados. E brincaram, em círculos, e, agitando as águas, modificaram a superfície das casas, abriram janelas, trouxeram vento às árvores. O reflexo deixou de ser diferente da 'verdade' porque um bando de patos brincalhões, na maior das facilidades, se sobrepôs a todas as filosofias a que eu me quisesse entregar.


E eu, assim sendo, deixei-me de pensamentos profundos e deixei-me ficar, deleitada, a contemplar a beleza que se desenhava à superfície. 
Ou será que as casas se projectam a três dimensões pela água abaixo? Será que os peixes entram e saem nas casas, transpõem, sem qualquer dificuldade, paredes e muros? Será que os peixes desconstroem a topologia das coisas, abrindo e fechando corpos transparentes que se projectam na imaginação das águas? -- Pergunto.
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domingo, outubro 18, 2015

Paragens de autocarro soviéticas


Pode a beleza surgir onde menos se espera? Pode a arte romper o conservadorismo? Pode o imprevisto desfazer preconceitos?

Pode. 

No outro dia o meu filho enviou-me um mail com o link para um daqueles artigos que me deixam encantada: falava de Christopher Herwig que fotografou, ao longo de mais de doze anos, paragens de autocarro no que era a União Soviética. O que ele foi descobrindo deixou-o fascinado - e eu, vendo as imagens, fiquei também o fiquei. 


Christopher Herwig percorreu catorze países e andou de carro, autocarro, bicicleta, táxi para chegar aos lugares mais recônditos, a estradas no meio do nada, a vales e montanhas, a aldeias e vilas. Descobriu que as paragens de autocarro soviéticas eram um meio por excelência para os artistas locais se expressarem. O que ali se vê são obras de design ou arquitectura de todas as tendências, desde o mais puro utilitarismo até ao delírio mais fantasioso, gaudiano mesmo.

Quando eu penso naquilo que farei, um dia que deixe o meu trabalho, ou me surge um receio absurdo do vazio (medo de me deixar cair na rotina de deixar passar os dias - arrumar a casa, ir às compras, ver televisão, estar agarrada ao computador - sem uma actividade que me convoque de forma apaixonada) ou me surgem ideias mirabolantes, às catadupas, como se o tempo não fosse chegar para tudo aquilo que queria fazer antes de ir desta para melhor (viajar, fotografar, ir em missões humanitárias para o fim do mundo, escrever, pintar - e outras coisas menos politicamente correctas que aqui não posso revelar).

Por exemplo, vejo as expedições de Christopher Herwig e fico maravilhada. Deve ser tão bom andar por sítios desconhecidos, ir à descoberta, procurar a surpresa, o encantamento, o inexplicável, perder-me em mundos do outro mundo. Ou, então, descobrir a intensidade mais pura dos sentimentos de pessoas normais, um pouco por todo o mundo (mas a este ponto voltarei noutra altura). 

Hoje fico-me pelas paragens de autocarro. Seleccionei umas quantas mas há tantas tão surpreendentes, umas harmoniosamente integradas na paisagem, outras que são explosões de criatividade, manifestações da mais pura liberdade. E não é isto uma ideia excelente que as nossas autarquias poderiam adoptar?
Uma vez escrevei uma carta ao presidente de uma autarquia sugerindo que se apoiasse intensamente a arte, as esculturas de rua, a arte urbana, que se tornasse a cidade uma exposição a céu aberto. Recebi de volta uma carta simpática, que iriam estudar a possibilidade. Mas, claro, os portuguesinhos são, em regra, muito by the book, institucionalmente burocratas, atados, medrosos, todos querendo agradar a todos - ou seja, tudo muito na mediania, aquele denominador comum que não é carne nem é peixe. Mas, enfim, pode ser que um dia. 













No vídeo abaixo, não apenas se podem ver mais como se pode ver Christopher Herwig falando da experiência



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Desejo-vos, meus Caros Leitores, um belo dia de domingo.

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segunda-feira, janeiro 12, 2015

Coragem e liberdade. Mikhail Khodorkovsky desafia o urso imperial. Putin que se cuide?


Não sou capaz de tecer considerações sobre geo-política pois não tenho competência para tal mas sei que muito do que se passa no mundo se desenha nos bastidores de cimeiras, em encontros não divulgados, em comissões que discutem assuntos não assumidos. Sei também que muito do que se passa se articula no difícil equilíbrio entre blocos de grande influência geo-estratégica. A velha Europa, os poderosos EUA, o capitalismo exuberante da China, o imperialismo Russo são, certamente, alguns dos parceiros de um jogo em que as peças não têm nome, são meros grãos, pequenos seres invisíveis - nós.

Não conheço a Rússia mas a sua imensidão a os ecos que me chegam do que lá se passa levam-me a temê-la. Há na ambição imperial de Putin e na forma como roda entre lugares de modo a estar sempre presente e há na corte que o cerca qualquer coisa que me faz intuir que aquilo tem tudo para não acabar bem. Bem, intuir não será a melhor palavra para usar já que é mais do que sabida a forma implacável e digna de filmes de suspense e terror como são tratados os adversários políticos do regime e de Putin, em particular.

Por isso mesmo, devem ser louvados os que, tendo sofrido as agruras da perda da liberdade como punição para uma visão diferente para o seu País, continuam a afirmar as suas convicções com valentia.



Mikhail Khodorkovsky é uma dessas pessoas. O The New Yorker pergunta: Can an exiled oligarch persuade Russia that Putin must go?




O artigo é interessante e merece bem uma leitura. Começa assim:

It has been a year since the guards at a prison camp just below the Arctic Circle told Mikhail Khodorkovsky, a former oil tycoon and once the richest man in Russia, to pack his things. They put him on a plane to St. Petersburg; there they handed him a parka and a passport and put him on a flight to Berlin. Since that day of release and exile, Khodorkovsky has been living outside Zurich and travelling to capitals throughout the West, making speeches, accepting awards, and hinting broadly at a return to Russia. He will tell anyone who asks that, after a decade in various prison camps, he would not mind displacing the man who sent him there—Vladimir Putin.

Interessante é também o vídeo que há poucos dias Mikhail divulgou e que, até à data, poucas visitas recebeu. Contudo, penso não me enganar muito se disser que, em breve, as suas palavras passarão a ser tidas em consideração por muita gente. Estes tempos de petróleo a valores tão baixos e com a moeda russa a pregar sustos aos grandes agentes económicos e financeiros, são tempos propícios a que o reinado de Putin comece a ser olhado coma futura coisa do passado.


A Video Message from Mikhail Khodorkovsky, the founder of Open Russia, one year after his release from prison. 20 December 2014


 

Mikhail Khodorkovsky tem um site e, consultando-o, percebe-se que não brinca em serviço.

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quinta-feira, outubro 30, 2014

Estamos a ser invadidos pelos russos? A Cruz Citiada descobriu dois bugs humanos a darem-lhe cabo do projecto informático que estava tão bem planeado? Pois não sei de nada. Tenho aqui a casa invadida, não por russos nem por agentes da judiciária, mas por dois pimentinhas e respectiva mãe e, por isso não sei de nada do que por aí se anda a passar. Face a isso, deixo-me aqui estar a ouvir o Agostinho da Silva e o Manuel António Pina a falarem de gatos sem dono e de outras conversas vadias e a ver as pinturas da menina Aelita Andre


Esta noite, fruto de movimentações profissionais que obrigam a um breve reajustamento doméstico, para não ficar em casa, parte da trupe veio para cá em regime de meia pensão. A minha filha fica no quarto que era o dela mas os mais pequenos não quiserem ir dormir para o quarto que era do tio e que é mais distante dos outros e, por isso, estão aqui no sofá cama da sala.

O pior é que uma cena destas a meio da semana é para eles como se o fim de semana tivesse sido antecipado. A seguir ao jantar (durante a recta final do qual, para os manter quietos, contei a história de um barco maluco que pregou um tal susto a um golfinho que este desmaiou e teve que ser içado para bordo a fim de ser acalmado), estiveram sossegados a desenhar, a fazer construções, o mais crescido a fazer um ditado (e só deu um erro: às tantas a frase que inventei dizia que ele tinha dado um pontapé na bola e ele escreveu potapé, esqueceu-se do n. Mas pôs os acentos e tudo). Enquanto estavam entretidos, estive a fazer penteados com tranças à minha filha. Herdou a fartura da minha juba embora a cor do cabelo seja a do pai. O cabelo dá para fazer umas 20 tranças e todas de boa grossura, seria perfeito para fazer penteados românticos como os da era dos vestidos compridos, com rendas e folhos, daqueles penteados cheios de puxos, apanhados e tranças. 

Depois de estarem tranquilos e bem comportados, desataram a brincar e a partir daí foi uma coisa jeitosa: saltaram, picaram-se, perseguiram-se, esconderam-se, riram; conseguir pô-los calados e sossegados foi o bom e o bonito.

Depois de terem finalmente adormecido, estive com a minha filha a ver a telenovela Lado a Lado e só agora, bem depois da meia noite, consegui ligar o computador e não vou aqui ficar por muito tempo pois, depois disto tudo, está a dar-me um sono que não é brincadeira nenhuma. E amanhã tenho que me levantar cedo pois esta logística de se levantarem, vestirem-se, tomarem o pequeno almoço vai ser outra tourada. Para começar, devem estar cheios de sono pois estão habituados a deitar-se a horas decentes e hoje foi dia de borga, E depois devem querer pequenos almoços demorados como se fosse fim de semana, já para não falar que haverão de se lembrar de fazer mil coisas à última hora, de ir à procura do pião que trouxeram, do livro dos aviões e sei lá que mais. Eu devia era ter metido dois dias de férias. O que me valeu foi que, de véspera, já tinha deixado o jantar adiantado. Fiz logo uma quantidade grande e, por isso, até vão poder levar farnel. A minha filha tem é que ainda ir deixar as caixas de comida a casa antes de ir trabalhar.

Há bocado, depois de jantar, o meu marido ainda esteve a tentar ver as notícias mas o mais crescido não o largava com montagens de aviões. Bem que ele os tentou mandar calar, a eles e a mim também, pois queria ouvir o Nuno Rogeiro. Tenho ideia que os russos nos quiseram atacar, que mandaram uns aviões e tudo. Não sei se estivemos à beira de ser invadidos, se quê. Teria graça. Logo esta noite em que estive neste forró é que os russos nos vinham invadir. Às tantas, amanhã quando for trabalhar tenho a rua aqui de casa ocupada por pára-quedistas russos, um russo pára-quedista dentro de cada pára-quedas, uma coisa de tipo matrioska. 


Aviões russos...? Isto não é normal.

Fui agora espreitar o Diário Digital para ver o que era aquilo de que o Rogeiro estava a falar e, pelo menos nos destaques, não vejo nada.

Pelo contrário, vejo que aquela que tenta fazer-se passar por adolescente retardada anda a ver mosquitos na outra banda, isto é, infiltrados no Citius, dois bugs humanos, e que, loura em excesso, já os acusa sabe-se lá de quê e que, autenticamente possuída, até já os esconjurou e correu (ou se prepara para correr) com eles à vassourada, uma tresloucadice que até dói. Vejo também que o láparo, provavelmente em mais um surto la-feriano, desafia os parceiros a apresentarem propostas com clareza, como se aos outros e não a ele competisse governar o país. Claro que a esta hora já não vou abrir notícia nenhuma, bastam-me os disparates que se adivinham através dos títulos.

E parece que não descubro notícias sobre a invasão russa. Às tantas aquilo dos aviões no espaço aéreo português foi um delírio do Rogeiro. Será...? Ou eu que ouvi mal? Não sei.

Espreitei o Expresso e vi que o Pedro Santos Guerreiro fala na aldrabice pegada que foi o passa-culpas relativo à machadada sem paralelo que aplicaram ao BES. Não vou ler o artigo todo. Mas quase adivinho. Logo na altura eu aqui escrevi que aquilo não tinha sido imposição de Bruxelas coisa nenhuma e que coisa tão mal pensada só podia dar em disparate. Sabe-se agora que foram os espertos do governo (o láparo e a sua chefe) que pariram tal aborto. Mas poderia esperar-se outra coisa daqueles progenitores? 


E, uma vez mais, acho que não vale a pena especular muito sobre as intenções subjacentes a tanto disparate. A minha opinião é que, uma vez mais, foi burrice pura e dura. Claro que, tenrinhos como no fundo são todos os burros, houve muita gente que se aproveitou deles mas, de resto, tudo aquilo, decisões em cima do joelho, soluções não testadas nem pensadas, é coisa daquelas cabeças ocas.

E depois Carlos Costa que, em minha opinião, não é menos destituído e que, para além do mais, tem uma grande dificuldade em tomar decisões, prestou-se ao papelinho que os outros lhe encomendaram.

Mas adiante que eu a esta hora não posso dar cabo da minha beleza, tenho é que me despachar para me ir deitar.

Custa-me, no entanto, deixar-vos assim sem nada aqui que se aproveite e, por isso, partilho convosco o que tenho estado a ouvir enquanto escrevo. Duas mentes brilhantes à conversa, Manuel António Pina com Agostinho da Silva em mais uma conversa vadia: muito bom. Com pessoas assim a gente aprende sempre. São o oposto da papagaiada que agora pulula pelas televisões e com quem a gente nunca aprende coisa alguma.



Conversas Vadias




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As pinturas que usei para sarapintar o texto são da autoria de Aelita Andre, uma menina australiana que agora já tem sete anos mas que começou a pintar antes de fazer 1 ano, que teve a sua primeira exposição com quatro e que está no centro da polémica: pode considerar-se uma criança desta tenra idade já uma artista? 


Aelita: Secret Universe






Isto também não é normal... Esta Aelita é do além.


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Bem, vou dormir que estou que não me aguento. 
(Relevem gralhas que acredito que as haja de toda a espécie e feitio, está bem?)

Desejo-vos, meus Caros Leitores, uma bela quinta-feira.


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